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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Aniversário da morte de Sócrates


Aniversário da morte de Sócrates 15 de fevereiro (disputado) 399 AC Atenas, Grécia "A vida não examinada não vale a pena viver." - Sócrates
Um famoso ditado supostamente proferido por Sócrates em seu julgamento por impiedade e corrupção de jovens, pelo qual foi posteriormente condenado à morte.
Bertrand Russell comenta Uma História da Filosofia Ocidental (1945) “Os principais factos do julgamento e morte de Sócrates não são susceptíveis de dúvida. A acusação baseou-se na acusação de que: “Sócrates é um malfeitor e uma pessoa curiosa, que investiga as coisas debaixo da terra e acima do céu; e fazer com que o pior pareça ser a melhor causa, e ensinar tudo isso aos outros.“ Isso está registado no diálogo Apologia, que é geralmente considerado histórico. Este afirma ser o discurso que Sócrates fez em sua própria defesa no seu julgamento – não, claro, um relatório estenográfico, mas o que permaneceu na memória de Platão alguns anos depois do acontecimento, reunido e elaborado com arte literária. Platão esteve presente no julgamento, e certamente parece bastante claro que o que está estabelecido é o tipo de coisa que Platão se lembrava de Sócrates ter dito, e que a intenção é, em termos gerais, histórica. Isto, com todas as suas limitações, é suficiente para dar uma imagem bastante definida do carácter de Sócrates. Ao que parece, certa vez perguntaram ao Oráculo de Delfos se havia algum homem mais sábio que Sócrates, e ele respondeu que não. Sócrates afirma ter ficado completamente perplexo, pois não sabia de nada e, no entanto, um deus não pode mentir. Ele, portanto, andou entre homens considerados sábios, para ver se poderia convencer o deus do erro. Primeiro ele procurou um político, que "era considerado sábio por muitos, e ainda mais sábio por ele mesmo". Ele logo descobriu que o homem não era sábio e explicou-lhe isso, de maneira gentil, mas firme, "e a consequência foi que ele me odiou". Ele então foi até os poetas e pediu-lhes que explicassem passagens de seus escritos, mas eles não conseguiram fazê-lo. "Então eu soube que não é por sabedoria que os poetas escrevem poesia, mas por uma espécie de génio e inspiração." Depois procurou os artesãos, mas achou-os igualmente decepcionantes. No processo, diz ele, ele fez muitos inimigos perigosos. Finalmente concluiu que "só Deus é sábio; e com a sua resposta pretende mostrar que a sabedoria dos homens vale pouco ou nada; não está a falar de Sócrates, está apenas a usar o meu nome a título de ilustração, como se ele disse: Aquele, ó homens, é o mais sábio, aquele que, como Sócrates, sabe que sua sabedoria na verdade não vale nada. Esse negócio de mostrar pretendentes à sabedoria ocupa todo o seu tempo e o deixou em extrema pobreza, mas ele sente que é um dever defender o oráculo. pág. 86
A acusação dizia que Sócrates não só negava os deuses do Estado, mas também introduzia outros deuses próprios; seu promotor Meleto, porém, diz que Sócrates é um ateu completo e acrescenta: "Ele diz que o sol é pedra e a lua é terra." Sócrates responde que Meleto parece pensar que está processando Anaxágoras, cujas opiniões podem ser ouvidas no teatro por um dracma (presumivelmente nas peças de Eurípides). É claro que Sócrates salienta que esta nova acusação de ateísmo completo contradiz a acusação, e depois passa para considerações mais gerais. pág. 87
A Apologia dá uma imagem clara de um certo tipo de homem: um homem muito seguro de si, nobre, indiferente ao sucesso mundano, acreditando que é guiado por uma voz divina e persuadido de que o pensamento claro é o requisito mais importante para viver corretamente. Exceto neste último ponto, ele se assemelha a um mártir cristão ou a um puritano. Na passagem final, onde considera o que acontece após a morte, é impossível não sentir que acredita firmemente na imortalidade e que a sua professada incerteza é apenas assumida. Ele não se preocupa, como os cristãos, pelo medo do tormento eterno: não tem dúvidas de que a sua vida no outro mundo será feliz. No Fédon, o Sócrates platónico dá razões para a crença na imortalidade; se foram essas as razões que influenciaram o Sócrates histórico, é impossível dizer.” p. 89 — Bertrand Russell, Uma História da Filosofia Ocidental (1945), Livro Um Filosofia Antiga, Parte II. Cap: XI, Sócrates, p. 86, pág. 87 e pág. 89
Antecedentes: A Morte de Sócrates, 15 de fevereiro de 399 AEC Sócrates (c. 470-399 aC) foi uma figura altamente enigmática e polarizadora na sociedade ateniense. Em 399 aC, ele foi acusado de impiedade e de corromper a juventude. Após um julgamento que durou apenas um dia, ele foi condenado à morte e obrigado a beber uma bebida venenosa composta principalmente de cicuta, mel e leite (o mel era usado para mascarar o forte sabor amargo da cicuta e leite adicionado para não causar vómito ). Sócrates passou seu último dia na prisão, recusando ofertas de ajuda para escapar. As últimas palavras de Sócrates foram de acordo com Platão: “Crito, devemos um galo a Asclépio. Pague e não negligencie."
— Sócrates, Fédon 118a (Ὦ Κρίτων τῷ Ἀσκληπιῷ ὀφείλομεν ἀλεκτρυόνα. ἀλλὰ ἀπόδοτε καὶ μὴ ἀμ ελήσητε)

* O Oráculo de Delfos
Pítia era o título oficial da suma sacerdotisa do Templo de Apolo em Delfos. Ela serviu especificamente como oráculo e era comumente conhecida como Oráculo de Delfos. Os gregos antigos derivaram este nome de lugar do verbo πύθειν (púthein) 'apodrecer', que se refere ao cheiro doce e enjoativo do corpo em decomposição de uma monstruosa Píton depois de ter sido morto pelo deus Apolo. O Oráculo de Delfos era o oráculo de maior prestígio e autoridade entre os gregos antigos e estava entre as mulheres mais poderosas do mundo clássico. Muitos dos escritos antigos afirmavam que a Pítia entregava oráculos num estado frenético e hipnótico induzido por vapores que subiam de um abismo vulcânico na rocha no centro do templo. Quaisquer palavras que os Ptyhia pronunciassem, os sacerdotes délficos masculinos interpretavam como profecias enigmáticas. Esta interpretação antiga, no entanto, foi contestada por muitos estudiosos modernos e atualmente não é geologicamente sustentável. O templo sobreviveu até 390 DC, quando o imperador cristão romano Teodósio I silenciou o oráculo destruindo o templo e destruindo a maioria das estátuas e obras de arte na tentativa de remover todos os vestígios do paganismo grego, uma tarefa que foi amplamente bem-sucedida.
Imagem: Busto de Sócrates. Mármore, obra de arte romana (século I), talvez uma cópia de uma estátua de bronze perdida feita pelo escultor grego antigo Lísippo. Atualmente alojado no Museu do Louvre, Paris.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Micro utopias for an inclusive future


When Gijsbert Huijink, a Dutch national living in Banyoles, in the Catalan province of Girona, set out to install solar panels in his home he stumbled upon a legal labyrinth that criminalized energy self-consumption. “If I wanted to connect to the grid to recharge my batteries and supply my excess, I had to pay a fortune,” Gijsbert Huijink said in an interview.1 Huijink then hatched a plan to exact sweet collective revenge: he founded Som Energia,2 Spain’s first power cooperative. With the help of his wife, his university students, and some friends, Gijsbert laid the foundations to effect a change in the Spanish energy market. Som Energia has since grown from an initial 150 contracts in 2010 to 125,589 in March 2021,3 and it is currently the fastest growing energy cooperative in Europe. Hundreds of city governments have hired its services and dozens of new energy cooperatives are replicating the model.

Som Energia has a characteristic that sets it apart from most environmentalist efforts. It is not a project that merely reacts: it proposes. It does not focus on protesting, but on action. It does not stop at defending certain ideals, but puts those ideals into practice. It goes beyond criticizing an economic model based on fossil fuels: it sets a new model in motion. It does not just denounce the injustice of certain regulations, but goes on to experiment with new forms of democracy. It does not focus on the individual: it aims for sustainability with community and networked solutions.

Som Energia was one of the thirty-two initiatives that participated in the first edition of the Transformative Cities People’s Choice Award and the Atlas of Utopias, the unique coopetition4 launched by the Transnational Institute (TNI) in 2018. Having completed a total of three editions,5 it perfectly embodies the spirit that infuses all those initiatives. The award-winning projects6 are a refreshing mosaic of “real utopias”. Pragmatic, adaptable utopias in progress. Simple utopias that satisfy simple desires, as Rutger Bregman notes in his book Utopias for Realists.7 “Real utopias.”8

What features do the Atlas of Utopias initiatives share?9 What horizons do they open up?

Ever since 1516, when Thomas More described an island with a perfect political, social, and legal system in his book Utopia, that word has inspired pages and pages of writing. As of that moment, humanity began to project its desires onto the future. The mythology that explained the past—foundational myths, legends—was channeled toward the future, creating utopia. The most exalted version came with Ernst Bloch’s The Principle of Hope, published in the 1950s, which combined the modern myths of utopia with revolution and the arts.10 Utopia was on the horizon. And it served to keep us walking.11

However, when Francis Fukuyama proclaimed the end of history in 1992,12 a claustrophobic present governed by the global economy emerged. According to that author, the collapse of communist governments confirmed liberal democracy as the only possible alternative. The future began to fall short of the expectations of so many utopian centuries. The future lost its inspiring glow. Possible horizons became blurred. The grandiose dreams of modernity unraveled, perhaps precisely because they were overly ambitious. Utopia fizzled out. As Franco “Bifo” Berardi notes in After the Future,13 technology has emerged as a despotic deity that cancels the future, turning time into an unlimited generation of identical fragments.

The Atlas of Utopias is an invigorating breath of fresh air in a world that has lost its great utopia. And it is tangible proof that “real utopias” are underway. We no longer have a Utopia with a capital U, but dozens, hundreds, and even thousands of networked micro utopias.14 Micro utopias where humans come together to weave territories. Concrete micro utopias that activate what Argentine sociologist Maristella Svampa calls “affinity communities.”15 Communities that recreate and reproduce themselves as they go about doing. When the people of San Pedro Magisterio, a neighborhood in the Bolivian city of Cochabamba, organized to build and operate a wastewater treatment plant, they strengthened the community management of the water cycle and the neighborhood itself. The installation of a wastewater treatment plant in the neighborhood was made possible by Fundación Abril, with the support of several organizations.16 The process became a tool for teaching (with sessions in schools), political action, and social unity. Territory-based community water management exceeds the paradigm of what is considered public. The finalists of every edition of the Transformative Cities Award, which feeds the Atlas of Utopias, are utopias situated at the territory level and in communities, and they are anchored in what is the most conducive sphere for putting these micro utopias into practice: the local sphere.

From “asking as we walk” to “learning by doing”

“Asking as we walk” (Caminando preguntamos) was one of the most widely known catchphrases of the Neo-Zapatista movement that erupted in southern Mexico in the 1990s. “Asking as we walk” opens the game up to others, inviting them to join the struggle. Dialogue is a process, not a substance: an unfolding, not a synthesis. The Zapatista movement does not talk, it listens. It does not respond, it asks. It recognizes particularities and proposes a place for all of them. It strives for a polyphonic dialogue built from many dialogues.17 In the Zapatista listening process, a common fabric emerges, a plurality of voices, a subject that is very different from the Western exclusive ‘we’. From the communities of affinity, from the communities of territorial practices, emanates an open and inclusive subject, in which every person teaches and learns. Bolivian sociologist Silvia Rivera Cusicanqui18 takes up the Aymara word jiwasa, a fourth person pronoun that acts as an inclusive ‘we’. The pronoun jiwasa differs from the pronoun nayanaka, which is the exclusive ‘we’. When someone hears jiwasa they hear an invitation to join in, to belong. The San Pedro Magisterio cooperative would not have been possible without the jiwasa, or without the ayni, the practice of community reciprocity.

The Dhaka Water Board Union Cooperative,19 another of the initiatives participating in the coopetition,20 offers a major lesson: the knowledge held by a company’s workers is more useful for its management than the knowledge any experts can provide. When the World Bank recommended privatizing the state-owned company Dhaka Water Supply and Sewerage Authority (WASA), in Bangladesh’s capital city Dhaka, a group of workers said no. They then managed to organize their work in the form of a cooperative. Bringing their decades of experience into the effort, the workers applied a different method, which involved consulting the affected communities in the water system managed by the company, thus improving its efficiency.

The territorial nature of the local sphere and the new ways of doing, such as the feminization of politics and networking,21 alter how utopia interferes with reality. Cooperative and community practices do not subordinate their action to great ideals. Rather, it is the other way around: values emanate from their action. Barcelona en Comú,22 another of the coopetition finalists, embodies this spirit that places practice and common solutions to concrete problems at the center. The social movement behind Barcelona en Comú’s operation creates inclusive networks of persons and ecosystems of practices, not closed ideological networks. Networks and spaces open to coexistence, in which anyone can contribute to a problem’s solution. This is the case of CasaNat in Porto Alegre, Brazil, one of the 2020 winners of the People’s Choice Award.23 CasaNat is a center that fights hunger, the pandemic, and repression by the Bolsonaro government. A space for social organization and education in thinking about the city, which strengthens communities and acts as a hub for the response to the COVID-19 pandemic.24 A micro-utopia that serves as a space for exchanging, learning, and resisting.

Creative resistance

In her book No Is Not Enough, the Canadian journalist Naomi Klein unpacks the importance of creating and affirming a new world. Reacting against a system is not enough. “No is not enough. It must be a yes and there must be confidence in that yes. It is necessary to propose an alternative that generates trust. We have to begin by designing real alternatives that are not only credible, but inspiring and exciting.”25 The propositional demand raised by Klein echoes one of the most mythical sayings by Buckminster Fuller: “You never change things by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete.”26 A world is combated with a world. A vision, with another vision. Unlike utopia, networked micro utopias make a new system visible, a new world woven with mutual recognition mechanisms and habits.

The Irish ecovillage Cloughjordan, a finalist in the 2020 edition of the Transformative Cities Award, moves in the direction of Naomi Klein’s holistic yes. And it enunciates a complete world. It does not merely denounce the unchecked and unsustainable growth of cities, but implements a transition model based on communities and local consumption. Thanks to the low-carbon design of its fifty-five houses, a carbon-neutral district heating system, a community farm, a green enterprise center, and a planned reed-bed treatment plant, Cloughjordan has the lowest ecological footprint in Ireland. The world of the ecovillage is interconnected and multiplied through numerous educational activities.

While the viability of the new system lies in the yes and the assertion of a world, there are cases in which an action is no and yes at the same time. Some of the initiatives of the Atlas of Utopias share the uncommon characteristic of creative resistance. When an action manages to be both yes (creation) and no (resistance), the micro utopia maximizes the visibility of the transformative power of the new model. The experience of the beedi (cigar) industry women workers in the Indian city of Solapur reveals how resistance against speculation and substandard housing can result in shaping a world. After years of struggling and forming cooperatives, the cigar industry women eventually founded the RAY Nagar Cooperative Housing Federation,27 the largest housing cooperative in Asia. In 2015, local governments agreed to build 30,000 affordable houses for beedi and textile workers in the marginal neighborhood of Kumbhari. The project includes outdoor spaces, as well as land to establish community services, schools, and hospitals. The state and federal governments contributed with the laying of power lines, the construction of an electrical substation, and the installation of water tanks. Kumbhari has experienced a rebirth with the new public services and the opening of new shops. The Kranti Chowk produce market is one of the most thriving markets in Solapur.

Exceeding the principle of hope

In his unique way, philosopher Bertrand Russell rejected a categorical definition of utopia when he said, “It is not a finished utopia that we ought to desire, but a world where imagination and hope are alive and active.”28 After the collapse of the grand narrative of modern utopia, the great potential of the utopian goal lies not so much in realizing and describing a closed reality that is to come, but in making it possible for the world to be necessarily populated by multiple worlds, as the neo-Zapatista movement has been insisting for decades. A world that can be inhabited by hope. Perhaps that explains why Ernst Bloch focused so much on studying the hope that persists even in horrific situations, thanks to what he calls “wishful images”. Images that serve as prototypes to cross borders. Images charged with emotions. Positive emotions that,2 while they may not lead to actions as urgent as those prompted by negative emotions, eventually open up and broaden the repertoire of thoughts and actions.

“Wishful images” are what emanates from the Atlas of Utopias initiatives, images that, in a way, make a new world desirable. Whether it is children participating in a river cleanup in Cochabamba or a group of cigar workers taking a public bus to work in their Solapur factory, these “wishful images” push the horizon of the possible. They excite. And they expand, connecting the networked micro utopias set in motion by the most diverse communities. Naomi Klein’s yes is not viable if it is merely a theoretical model. The no is not enough. But neither is a yes that springs from theory. The yes has to be inhabited by political and civic practices, by narratives, by imaginaries, by new symbols, by shared values, by emotions, by new shared meanings, by world visions, by alternative economic systems. The welcoming spaces for a coming together, an open we (the jiwasa of the Aymaras), the unifying slogans (the “We are the 99%” of Occupy Wall Street), and the shared positive emotions, these all exceed Bloch’s principle of hope. Collective action multiplies hope toward a future that can be inhabited in common. And because it is controlled by communities, there is less uncertainty about that future.

Which is why—Andrea de la Serna writes in her article Un común por venir29—we should no longer pin our hopes for the revolution on a future horizon; we should instead concentrate on generating the conditions that can give us the horizon we want. In order to climb over the wall of the end of history and catch a glimmer of hope, humanity must restore its confidence in the strengths of the present. When a detour, however small, appears, we need to seize and boost it, feed it, make it breathe. We need to organize gatherings, take care of ourselves as a community, create “wishful images” everywhere.

Birgitta Jónsdóttir, a poet and founder of the Icelandic Pirate Party, highlights the importance of enunciating a future populated by images and visions of hope: “When people are forced to choose between fear and hope, they usually choose hope. The future is not going to be a single vision, but a collage of visions. We need to think inclusively about the future.”31

Notes

1 Eva Dallo, “El holandés que ha puesto en jaque el sistema energético español,” El Mundo, January 10, 2016.


3 Figure as of March 19, 2021.

4 TNI understands coopetition as a process that seeks to promote cooperation and solidarity by introducing an element of competition to encourage public interaction and engagement.



7 Rutger Bregman, Utopias for Realists: How We Can Build the Ideal World (London and New York: Bloomsbury Publishing PLC, 2017)

8 The concept of “real utopias” was developed by sociologist Erik Olin Wright. See Erik Olin Wright, Envisioning Real Utopias (London: Verso, 2010)


10 Juan Emilio Burucúa, “Prometeo contra el cambio climático,” El País, March 1, 2019.

11 Paraphrasing the poem Ventana sobre la Utopía (Window on Utopia) by Eduardo Galeano: “La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos. Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. Entonces… ¿para qué sirve la utopía? Para eso, sirve para caminar.”(“Utopia is on the horizon. I move two steps closer; it moves two steps further. I walk another ten steps and the horizon runs ten steps further away. As much as I may walk, I’ll never reach it. So what’s the point of utopia? The point is this: to keep walking.”) Eduardo Galeano, Las palabras andantes(Siglo XXI: Madrid, 2003).

12 Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man (New York: The Free Press, 1992).

13 Franco “Bifo” Berardi, Alter the Future (Oakland, CA: AK Press, 2011).

14 Bernardo Gutiérrez, “Microutopías en red: los prototipos del 15M,” 20minutos.es , May 12, 2013 (https://codigoabiertocc.wordpress.com/2013/05/12/microutopias-en-red-los-prototipos-del-15m/) .

15 Maristella Svampa, “Movimientos sociales, matrices sociopolíticas y nuevos escenarios en América Latina,” in One World Perspectives, Kassel, Universidad de Kassel: Working Paper 1 (2010).


17 Esteban Rodríguez, “Un diálogo con muchos diálogos” 

18 Silvia Rivera Cusicanqui, “Un mundo ch’ixi es posible” (Buenos Aires: Tinta Limón, 2018).



21 See the chapter on “ways of doing” written by Laura Roth.




25 Naomi Klein interviewed on November 7, 2018 by Jordi Évole, on the television program Salvados.

26 L. Steven Sieden, A Fuller View: Buckminster Fuller’s Vision of Hope and Abundance for All (London: Divine Arts Media, 2011), 358.


28 Rutger Bregman, Utopias for Realists, 29.


30 Andrea de la Serna, “Un común por venir” Revista Re-visiones, Madrid, 2016, 

31 Bernardo Gutiérrez, Pasado Mañana. Viaje a la España del cambio (Barcelona: Arpa Editores, 2017).

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

COP 26: Esta eco-ansiedade não é (só) para novos

A meados de setembro o meu telefone tocou, com uma chamada da Ti Maria. Queria falar urgentemente comigo sobre Alterações Climáticas porque, para além de saber que eu estudava o assunto, eramos praticamente vizinhas. Separavam-nos umas décadas de idade, mas eramos ambas nascidas e criadas na ria de Aveiro, com o oceano Atlântico aos pés.



Pegou no título do Expresso, e leu-me: “Alterações climáticas em Portugal: em breve teremos de começar a retirar pessoas da orla costeira do Norte”. Depois mudou de tom, e disse: “só quero que me digas se tens a certeza. Diz aqui que Aveiro é uma mancha vermelha assustadora e que, segundo o estudo, nos vão tirar das nossas casas. Se for verdade, pegamos nas trouxas, e vendemos tudo.”

A Ti Maria esperou resposta do outro lado, mas a minha boca não se abriu. De marés e truques do tempo não havia quem batesse aquela senhora pescadora. Mas fogos na Califórnia, degelo no Ártico e inundações na China não lhe diziam nada.

“Dizem isto da nossa terra, e depois constroem casas de ricos ao lado"

Agora estava com medo, à espera que eu falasse. Acrescentou: “Dizem isto da nossa terra, e depois constroem casas de ricos ao lado. Tenho de comprar um carro elétrico, e depois querem aeroportos! Parece que vivemos como criminosos o tempo todo, no nosso próprio sítio... Sinto-me burra. Olha eu, refugiada na minha terra. Dá lá vontade de votar”. E acabou: “Tens a certeza, ou não?”

Eu tinha duas hipóteses. A minha hesitação já soava a incompetência e desrespeito à Ti Maria, que achava que se eu estudo é para saber estas coisas. E aos meus colegas da emergência climática (palavra do ano de 2019) também, cuja resposta seria um sim garrafal justificado - sem espaço para dúvidas.

Respirei, e soltei a deixa, à espera da retaliação: “Não, não tenho a certeza” – respondi à Ti Maria. E antes que ela conseguisse acabar o suspiro de alívio, acabei a frase - “porque ninguém tem a certeza de nada”.

A Ti Maria chamou-me um nome feio (menos mau do que aquele que eu merecia). Disse que não percebia que raio andava eu a fazer na universidade, se nem um simples sim ou não conseguia dar (também a compreendo). Que ia era deixar de ver notícias (eu falo sobre isto depois). E desligou o telefone... (um dia ainda a apanho no talho e falamos, se ela voltar a olhar para mim).

No artigo do Expresso sublinhava-se a importância de “termos de ser capazes de explicar às pessoas, e fazer com que as pessoas acreditem, que é inevitável que as incursões [do mar] vão ser cada vez mais violentas e mais frequentes".

Assim, cada vez mais autores apoiam o uso persuasivo de histórias na comunicação da ciência climática para solucionar as “falhas de ação”, entre aquilo que as evidências científicas “mostram que deve ser feito” e “aquilo que é feito”, para mitigar os impactos das alterações climáticas. A comunicação da ciência do clima é assim feita através de diferentes narrativas em função do público-alvo para criar uma “adesão democrática para stakeholders e unificar abordagens, filosofias e atitudes”.

Os níveis de medo e angústia advindos da “eco-ansiedade” são brutais

São exemplos os atores e narrativas que colocaram, em 2018 e 2019, o tema das alterações climáticas na ordem do dia (“interrompidos” pela pandemia). Os Extinction Rebellion utilizam narrativas catastróficas como “o colapso é iminente” ou “12 anos para salvar o mundo”, que também é referido no Relatório Especial do 1.5ºC do IPCC. Greta Thumberg e as greves estudantis utilizam narrativas de justiça e igualdade que clamam que “estão a destruir o nosso futuro”. E a principal narrativa, na qual se baseia a atual Cimeira do Clima em Glasgow - a económica – que defende que a solução é “reconciliar a economia com o nosso planeta”, através da descarbonização da economia e eletrificação global da rede.

Contudo, os níveis de medo e angústia advindos da “eco-ansiedade” são brutais, bem como os seus efeitos negativos no dia-a-dia. Um estudo na Nature dá conta do fenómeno entre os jovens (16-25 anos), cuja maior preocupação é que os governos não estejam a fazer nada para evitar uma catástrofe ambiental. E a Ti Maria mostra que a eco-ansiedade não é só para novos, e importa-lhe a morada fiscal (que levou a vida para pagar ao banco), o serviço de porcelana da Vista Alegre (herdado da avó) e, o mais importante, evitar o desespero de que um dia um filho lhe venha a cobrar o facto de ter tomado a decisão errada.

A Ti Maria deixou de se sentir em casa, e os caminhos mais prováveis, quando isso acontece a alguém, são o da radicalização – que nos leva a embarcar em projetos prejudiciais a nós próprios ou aos outros - ou da alienação – em que procuramos mais entretenimento e perdemos a vontade de lutar seja pelo que for. Bertrand Russell descreveu-o, em Insustentabilidade da Sociedade Científica (1949), logo depois do fim da Segunda Guerra.

Assim sendo, e porque a personagem da Ti Maria é baseada em factos reais, gostava de lhe ter explicado que a natureza da ciência implica níveis de probabilidade e incerteza (Fortner, 2000).

Que, em termos práticos, e deixando a epistemologia para depois (ciência que estuda o conhecimento), as “projeções avançadas pela Climate Central para 2030”, citadas na notícia, não são uma profecia. São sim o resultado de “cenários” (valores estimados para o futuro forçamento radiativo no planeta) submetidos a “modelos” (simulações da forma como o sistema climático funciona), cujas conclusões são debatidas, e utilizadas como informação de apoio a tomadas de decisão. E que a ciência como dogma é tão eficaz quanto perigosa. Não querendo ser spoiler, já dizia Frank Herber, em DUNE: “Eu não devo temer. O medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que traz a obliteração total.”

É problemático exigir respostas de “sim e não” à ciência

Os últimos dois anos de pandemia ofereceram, e continuam a oferecer, bastantes exemplos de como é problemático exigir respostas de “sim e não” à ciência para legitimar decisões em estados democráticos.

Podemos correr o risco de alimentar uma crise de verdade, onde as fake-news e os movimentos negacionistas utilizam a narrativa da incerteza como factor de descredibilização do conhecimento científico. Quando, em verdade, o ceticismo (que é o ato de questionar, e não o ato de negar) é a base da ciência. Os discursos negacionistas de Donald Trump e Jahir Bolsonaro são um exemplo do uso desta narrativa nas Alterações Climáticas.

Também gostava de dizer à Ti Maria que, apesar da minha resposta, todos precisamos de certezas para conseguir viver nesta sociedade. Que a construção social da realidade de cada um é construída através de rotinas de espaço e tempo definidos (aqui e agora), onde o indivíduo não formula problemas a si próprio sobre o que é a “realidade” ou sobre o que "sabe".

Cada pessoa é especializada num papel, e espera a mesma contribuição dos outros na sociedade, pelo que reconhece a realidade como um fenómeno que lhe é independente. Quando a rotina é interrompida por um problema, procura integrá-lo dentro do que ainda não é problemático, ou seja, está institucionalizado.

O problema que afeta a Ti Maria, e a sociedade atual em geral, é que a “modernidade” já não existe. Os indivíduos aceitavam determinados graus de autoritarismo, fossem através do estado, do emprego, da própria família ou de outras instituições da sociedade, em troca da segurança e estabilidade de vida prometida pelas organizações.

Só que como os riscos sociais políticos, ecológicos e individuais escapam cada vez mais ao controlo das instituições típicas da sociedade industrial a crise aparece (Beck,1992).

A mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza

Na pós-modernidade, o cidadão leigo é confrontado diariamente com conceitos que alertam para a propensão ou predisposição para ser adversamente afetado por algo que não conseguem sensorialmente concluir (IPCC, 2013), e não por problemas momentâneos e visíveis, com um grau de consenso da comunidade científica e um conhecimento comprovado por causas rígidas.

Os órgãos de governo e agentes económicos, para legitimar as sua decisões, exigem, por vezes, à comunidade científica que forneça informações precisas e previsões proféticas, mas os sistemas complexos apresentam limites difusos, enquadramentos de diferentes grupos e indivíduos, soluções pouco claras e incerteza científica substancial, difícil de quantificar.

A mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza. A sociedade líquida (que abandona a industrial e começa com a revolução digital) traz liberdade individual, mas destrói também a segurança projetada em torno de uma vida estável.

“Pior que uma mentira é uma convicção”

Afinal, quanto mais sabemos sobre determinado assunto, mais fatores descobrimos que antes não contabilizávamos ou mesmo reconhecíamos. E quanto “mais conhecimento, menos certeza” (Trenberth, 2010). Como o meu filósofo preferido, Nietzsche, diz: “todos os cientistas são céticos” e, “pior que uma mentira é uma convicção”.

Porque também eu, como a Ti Maria, questionei, com 14 anos, quando é que ia ficar sem casa, perante as imagens de Verdade Inconveninente, e aquelas capitais mundiais a serem inundadas. E agora escrevo este artigo, em 2021, na mesma casa que (ainda) não foi ao fundo. Enquanto se decide como “salvar o planeta” na “last call”, em Glasgow, e se constroem prédios como nunca se construíram, na ria e nas praias da minha terra.

(A Ti Maria viu-me na rua no outro dia, e cumprimentou-me de fugida. Eu sei que assim não faço muitos amigos.)

Fonte: aqui

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O pensamento de George Ohsawa

O pensamento de George Ohsawa é uma síntese filosófica que transcende a simples dietética para se afirmar como um sistema de compreensão do mundo. No âmago da sua doutrina reside o Princípio Único, a lei da mudança eterna regida pela dinâmica entre o Yin e o Yang. Para Ohsawa, o universo não é um conjunto de objetos isolados, mas sim um fluxo constante de energia onde os opostos se procuram e se transformam mutuamente. Esta visão cosmológica serve de base para o que ele designou como o "Julgamento Supremo", a capacidade humana de perceber a unidade por trás de toda a dualidade e, assim, alcançar a liberdade absoluta.

A saúde, neste contexto, é interpretada como um estado de harmonia biológica que permite a expansão da consciência. Ohsawa defendia que o sangue é o suporte físico do pensamento e que a sua qualidade depende inteiramente do que ingerimos e do ambiente onde vivemos. Ao escolhermos alimentos que respeitam a ordem da natureza — privilegiando os cereais integrais como centro equilibrador e os produtos locais e sazonais — estaríamos a alinhar a nossa vibração interna com a do planeta. A doença não era vista por ele como um inimigo a abater, mas como um sinal corretor, um aviso pedagógico de que o indivíduo se desviou das leis naturais.

Para além da mesa, o pensamento de Ohsawa é profundamente ético e pragmático. Ele acreditava que a paz mundial e a felicidade individual eram impossíveis sem a reforma do entendimento humano através da autodisciplina. O seu conceito de "Não-Dualidade" implica que a felicidade e a infelicidade são duas faces da mesma moeda, e que o homem sábio é aquele que aceita as dificuldades com gratidão, utilizando-as como combustível para o crescimento espiritual. Em última análise, a Macrobiótica de Ohsawa é um convite à autonomia: uma via para que cada ser humano se torne o seu próprio mestre, capaz de gerir a sua saúde e o seu destino através da compreensão das leis universais.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A história da Internacional dos Resistentes à Guerra


Por Devi Prasad (pacifista que trabalhou com Gandhi, foi coordenador da WRI, e atualmente vive na índia, escrevendo e fazendo cerâmica) :

A Internacional de Resistentes à Guerra foi formada em reação ao massacre da Primeira Guerra Mundial com a missão não apenas de se opor a todas as guerras, mas também de se esforçar para erradicar suas causas. Incorporando a adição de uma dimensão política à base moral e religiosa do pacifismo, atraiu alguns dos melhores pensadores e ativistas pacifistas do mundo, entre eles George Lansbury, Mahatma Gandhi, Bertrand Russell, Bayard Rustin, Martin Niemoeller e Danilo Dolci. As contribuições de tais figuras e o heroísmo dos milhares que se recusaram a cooperar com o aparato de guerra de seu governo são narrados neste livro.

A história começa com um relato de pacifismo e ação não-violenta no contexto das principais religiões do mundo, levando a desenvolvimentos em pensamentos pacifistas no século 19 e início do século 20. A narrativa central de como o WRI foi formada e desenvolvida ao longo de seu primeiro meio século é baseada em extensa pesquisa no arquivo histórico do WRI. Ele lança luz sobre suas muitas ações e debates inspirados e inspiradores que têm tanta relevância hoje como sempre.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Bertrand Russell- Uma mensagem para as gerações futuras


Num programa de televisão, Face-to-Face da BBC em 1959, foi perguntado a Bertrand Russell, que mensagem deixaria para as gerações vindouras. A resposta dele foi que diria duas coisas: uma intelectual e outra moral.
Se querem saber quais são vejam o vídeo.
É um espantoso testemunho, pela inteligência e pela simplicidade. Palavras imperdíveis e, verdadeiramente, inspiradoras.


Para saber mais sobre Bertrand Russell consultar e ler esta postagem.

Transcript
«I should like to see two things one intellectual and one moral. The intellectual thing I should want to say to them is this: When you are studying any matter or considering any philosophy. Ask yourself only what are the facts and what is the truth to the facts bear out? Never let yourself be diverted either by what you would wish to believe or by what you think could have beneficent social effects if it were believed. But, look only and surely. And what are the facts? That is the intellectual thing that I should wish to say. The moral thing I should wish to say to them is very simple. I should say love is wise. Hatred is foolish. In this world, which is getting more and more closely interconnected. We have to learn to tolerate each other. We have to learn to put up with the fact that some people see things we don't like. We can only live together in that way. And if we are to live together and not die together, we must learn the kind of charity and the kind of tolerance which is absolutely vital to the continuation of human life on this planet.»

terça-feira, 18 de abril de 2017

Documentários sobre Nietzsche, Heidegger e Sartre que você deveria assistir

A série da BBC  ‘Humano, Demasiado Humano’ (Human All Too Human) inclui três programas fantásticos sobre Friedrich Nietzsche, Jean Paul Sartre e Martin Heidegger, um trio de pensadores controverso que continuam influenciando até os dias de hoje, na filosofia e na psicologia. A série aborda os personagens e suas teorias. Vale assistir cada minuto, são três programa envolventes e emocionantes sobre a filosofia e os filósofos.


Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) foi um filósofo alemão do século XIX e um dos maiores nomes dessa área. Martin Heidegger (1889 – 1976) foi um filósofo alemão do século XX que influenciou muitos outros, dentre os quais Jean-Paul Sartre. Jean-Paul Sartre (1905 -1980) foi um filósofo francês, conhecido como representante do existencialismo.
Os documentários são conduzidos por Alain de Botton, escritor e produtor famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida cotidiana. Botton iniciou um Ph.D em filosofia francesa em Harvard, mas acabou preferindo escrever ficção. Para além de escrever possui a sua própria produtora, a Seneca Productions, que transmite regularmente programas e documentários de televisão, baseados nos seus trabalhos.
Documentário I: Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do Bem e do Mal
A semente do pensamento disseminado por Nietzsche no século XIX prefigurava o piloto do século XX sobre os conceitos do existencialismo e da psicanálise. Este programa conta com entrevistas de grandes estudiosos do pensamento do Nietzsche sendo eles: Ronald Hayman e Leslie Chamberlain (biógrafos de Nietzsche), Andrea Bollinger (arquivista), Reg Hollingdale (tradutor), Will Self (escritor) e Keith Ansell Pearson (filosofa) que sonda a vida e os escritos de Nietzsche. Além de mostrar também o papel da irmã de Nietzsche na edição das suas obras para o uso como propaganda nazi. Conta também com partes de prosas aforísticas extraídas de obras como a parábola de um louco e assim falou Zaratustra.



Documentário II: Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver
O projeto do tratado Ser e Tempo, foi publicado em 1927 no mesmo ano que Minha Luta (Adolf Hitler). Este programa examina a vida e a filosofia de Martin Heidegger, descreve a sua ascensão a proeminência intelectual, expondo os motivos do seu envolvimento no partido Nazi. Entrevistas com o seu filho, Hermann Heidegger, George Steiner autor de uma influente critica da sua filosofia, contado também com o seu biógrafo Hugo Ott; e ex-aluno de Hans-Georg Gadamer, fornecem novas ideias enquanto se faz uma reconstrução dos momentos chaves da vida de Heidegger. Vida e história de um homem cujos apologistas e os antagonistas ainda amargamente se dividem.



Documentário III: Humano, Demasiado Humano – Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade
Neste episódio é abordada a vida e a obra do mais famoso filósofo existencialista europeu, Jean-Paul Sartre (1905-1980). O homem que passou a vida a desafiar a lógica convencional amava os paradoxos. O documentário expõe estes paradoxos da sua vida e da sua obra, ao mesmo tempo em que ambos são questionados. A pergunta central que é colocada é: Se o ser humano é livre para fazer o que quiser, como justifica Sartre, então como devemos viver as nossas vidas no dia-a-dia?


Fonte: Revista Prosa Verso e Arte

domingo, 24 de julho de 2016

História da Verdade - O que é a verdade? E como a conhecemos?



A busca da verdade e a natureza do conhecimento: de Parménides ao ceticismo antigo
Introdução e Ramo da Filosofia
O texto apresentado aborda centralmente a Epistemologia (ou Teoria do Conhecimento), mantendo contritos laços com a Ontologia (Metafísica) e a Lógica. A Epistemologia dedica-se a investigar o que é o conhecimento, como este se distingue da mera crença ou opinião (doxa), de que modo justificamos as nossas afirmações e qual a própria natureza da verdade - questões fundacionais que continuam a ecoar nos debates contemporâneos sobre o fenómeno da pós-verdade. A perspetiva histórica exposta reflete o modo como o pensamento ocidental evoluiu na tentativa de responder a duas perguntas essenciais: o que é a verdade e como a podemos conhecer. Desde a afirmação da factividade do ser até à desconstrução cética, o percurso da filosofia antiga demonstra que a reflexão sobre a verdade não é apenas uma especulação teórica, mas a própria base para o rigor intelectual, a ética e o discurso público.

O desenvolvimento histórico e as obras de referência
Para compreender esta evolução epistemológica, é indispensável analisar o papel das obras e autores citados na bibliografia, organizados pelas suas linhas de contribuição

1.Os Pré-Socráticos e os primórdios da onto-epistemologia: antes do surgimento de teorias epistemológicas formais, a preocupação inicial focava-se na relação entre a linguagem, a aparência e a realidade subjacente. Em estudos como os de Barnes (1979/1982), Graham (2010a, 2010b) e Guthrie (1969), analisa-se como Parménides estabeleceu uma rutura: a verdade (aletheia) pertence ao Ser, imutável e pensado pela razão, enquanto a aparência pertence ao mundo dos sentidos. Por sua vez, Hesíodo (Theogony and Works and Days, trad. West, 1988) reflete a transição entre o pensamento poético-mítico e o início da procura por explicações ordenadas do cosmo.

2. O desafio dos sofistas e o relativismo: com o surgimento de figuras como Protágoras e Górgias, a verdade deixa de ser vista como algo absoluto e passa a ser considerada dependente da perspetiva ou do poder da persuasão. Em textos como Against the Sophists e Encomium on Helen de Isócrates (1936, 1945), assim como no tratado pseudo-aristotélico On Melissus, Xenophanes, and Gorgias (1936), explora-se a crítica sofística à capacidade da linguagem de captar a realidade objetiva, subordinando o conhecimento à utilidade e ao contexto político e social (Munn, 2023; Billings & Moore, 2023).

3. Platão e a definição de conhecimento: Platão dedicou grande parte da sua obra a combater o relativismo sofístico e a estabelecer os alicerces da epistemologia clássica. No diálogo Teeteto (Platonis Opera, Burnet, 1905; Rowe, 2015), Platão explora e rejeita as definições de conhecimento como perceção ou como crença verdadeira simples, conduzindo à formulação de que o conhecimento exige uma justificativa ou razão (logos). Já no diálogo Sofista, enfrenta o problema de como é possível dizer o que é falso (falar do "não-ser") e apresenta o conceito de veridador (truth-maker), articulando linguagem e mundo de modo a explicar como uma proposição pode ser verdadeira ou falsa sem cair em contradições ontológicas.

4. Aristóteles, lógica e fundamentação: Aristóteles formaliza o estudo das regras do pensamento e da estrutura da ciência. Na Metaphysics (trad. Reeve, 2016) e no De Generatione et Corruptione (trad. Williams, 1982), Aristóteles estabelece a teoria da correspondência da verdade, onde o que é dito corresponde ao que é na realidade. Através da lógica dedutiva e do modelo demonstrativo, investiga como derivamos conhecimento necessário de primeiros princípios indemonstráveis, mas apreendidos intuitivamente (Smith, 1995).

5. O período helenístico e o ceticismo: a filosofia pós-aristotélica dividiu-se entre a procura de critérios de certeza e a desconstrução sistemática desses critérios. Autores como Epicteto (Discourses, Fragments, Handbook, 2014), Epicuro (The Epicurus Reader, 1994) e os estudos de Hankinson (2003) procuraram estabelecer critérios empíricos ou racionais para garantir a apreensão segura da realidade (kataleptike phantasia). Por outro lado, Sexto Empírico (Against the Logicians, 1935) e as análises contemporâneas de Bett (2010) e Pellegrin (2010) representam o culminar do ceticismo antigo ao compilar argumentos para demonstrar a equivalência de razões opostas (isostheneia), levando à suspensão do juízo (epoche). O percurso iniciado na busca pela certeza culmina, assim, na conclusão cética de que nenhuma alegação de conhecimento absoluto está isenta de dúvida.

6. Pontes modernas e contemporâneas: A bibliografia estende-se a momentos posteriores para ilustrar a relevância contínua do tema. McGinnis (2010) demonstra a continuação do debate aristotélico no mundo islâmico através de Avicena. John Stuart Mill em On Liberty (1859/1991) defende a necessidade do debate aberto para aproximar a sociedade da verdade. Bertrand Russell (The Philosophy of Logical Atomism, 1972/2010) e Mulligan, Simons & Smith (Truth-Makers, 1984) retomam o problema platónico e aristotélico de perceber o que no mundo torna uma afirmação verdadeira. Por fim, Sean Carroll (The Big Picture, 2016) traz o debate para o contexto da física e da visão científica moderna sobre a realidade.

Conclusão
A história da reflexão sobre a verdade e o conhecimento não é uma linha reta em direção a certezas dogmáticas, mas sim um diálogo contínuo entre a procura de fundamentação racional e a constatação das limitações humanas. Ao viajar desde a intuição ontológica de  Parménides, passando pelos debates platónicos sobre a perceção e o relativismo, até ao rigor dedutivo de Aristóteles e à suspensão do juízo dos céticos, percebe-se que as interrogações antigas continuam vivas. Compreender este percurso é fundamental para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, onde falar de pós-verdade não é um fenómeno inteiramente novo, mas o eco de disputas muito antigas entre a retórica persuasiva dos sofistas e a exigência de provas e justificações racionalmente válidas. Revisitando estas bases epistemológicas, obtemos as ferramentas críticas necessárias para avaliar discursos, questionar certezas infundadas e valorizar a procura honesta pelo conhecimento.

Bibliografia
Aristóteles, De Generatione et Corruptione. Trad. e notas de C. J. F. Williams. Oxford: Oxford University Press, 1982.
Aristóteles. Metaphysics. Trad., intro. e notas de C. D. C. Reeve. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc., 2016.
Barnes, Jonathan (1979) The Presocratic Philosophers. Londres e Nova Iorque, NY: Routledge & Kegan Paul, 1982.
Bett, Richard (2010) The Cambridge Companion to Ancient Scepticism. Cambridge: Cambridge University Press.
Billings, Joshua e Moore, Christopher, ed. (2023) The Cambridge Companion to the Sophists. Cambridge: Cambridge University Press.
Carroll, Sean (2016) The Big Picture: On The Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself. Nova Iorque, NY: Dutton.
Cooper, John M., ed. (1997) Plato: Complete Works. Ed. ass. D. S. Hutchinson. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc.
Epicteto, Discourses, Fragments, Handbook. Trad. Robin Hard. Oxford: Oxford University Press, 2014.
Epicuro. The Epicurus Reader: Selected Writings and Testimonia. Trad. e ed. Brad Inwood e L. P. Gerson. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc., 1994.
Graham, Daniel W. (2010a) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 1. Cambridge: Cambridge University Press.
Graham, Daniel W. (2010b) The Texts of Early Greek Philosophy: The Complete Fragments and Selected Testimonies of the Major Presocratics, Part 2. Cambridge: Cambridge University Press.
Guthrie, W. K. C. (1969) A History of Greek Philosophy, Vol. II: The Presocratic Tradition from Parmenides to Democritus. Cambridge: Cambridge University Press.
Hankinson, R. J. (2003) “Stoic Epistemology”. In The Cambridge Companion to Stoics, ed. Brad Inwood. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 59–84.
Hesíodo, Theogony and Works and Days. Trad., intro. e notas de M. L. West. Oxford: Oxford University Press, 1988.
Isócrates, Against the Sophists. In Isocrates, Vol. II Trad. George Norlin. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1936.
Isócrates, Encomium on Helen. In Isocrates, Vol. III Trad. Larue van Hook. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1945.
Lee, Mi-Kyoung (2010) “Antecedents in Early Greek Philosophy”, in Bett 2010: 13–35.
Long, A. A. (1999) “The Scope of Early Greek Philosophy”, in The Cambridge Companion to Early Greek Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
McGinnis, Jon (2010) Avicenna. Oxford: Oxford University Press.
McKirahan, Richard D. (2010) Philosophy Before Socrates: An Introduction with Texts and Commentary. Indianápolis, IN: Hackett Publishing Company, Inc., 2.ª ed.
Mill, John Stuart (1859) On Liberty. In On Liberty and Other Essays, ed. John Gray. Oxford: Oxford University Press, 1991.
Mulligan, Kevin; Simons, Peter; Smith, Barry (1984) “Truth-Makers”. Philosophy and Phenomenological Research Vol. XLIV, N.º 3 (Março): 287–321.
Munn, Mark (2023) “The Sophists between Aristocracy and Democracy”. In Billings, Joshua e Moore 2023.
Pellegrin, Pierre (2010) “Sextus Empiricus”, in Bett 2010: 120–141.
Platão. Platonis Opera, Tomus I: Tetralogia I-II. ed. John Burnet. Oxford: Clarendon Press, 1905
Platão. Theaetetus and Sophist, ed. Christopher Rowe. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
Pseudo-Aristóteles, “On Melissus, Xenophanes, and Gorgias”, in Aristotle, Minor Works. Trad. W. S. Hett. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1936.
Russell, Bertrand (1972) The Philosophy of Logical Atomism. Londres e Nova Iorque, NY: Routledge, 2010.
Sexto Empírico, Against the Logicians. Trad. R. G. Bury. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1935.
Smith, Robin (1995) “Logic”. In The Cambridge Companion to Aristotle, ed. Jonathan Barnes. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 27–65.

domingo, 15 de novembro de 2015

Richard Dawkins entrevista Satish Kumar




Ciência vs. Holismo: Um Debate Profundo

A entrevista entre Richard Dawkins e Satish Kumar desenrola-se como um diálogo cortês mas intelectualmente tenso entre duas mundividências distintas: o racionalismo científico e o holismo filosófico. O ponto de partida é a admiração mútua por Bertrand Russell, com Kumar a recordar a sua épica caminhada pela paz, da Índia ao Ocidente, inspirada pelo ativismo antinuclear do filósofo britânico. Este preâmbulo serve para estabelecer uma base de respeito, mencionando ainda figuras como Gandhi, Wittgenstein ou o conceito de holismo de Jan Smuts, antes de mergulharem no cerne da divergência entre ambos.

A discussão central foca-se na natureza da realidade, onde Kumar defende que tudo no universo está interligado numa rede de relações, utilizando a metáfora de uma árvore que não pode ser compreendida sem o solo, o sol e a água que a sustentam. Dawkins, embora aceite a importância do contexto ecológico, prefere uma abordagem analítica e hierárquica, onde a compreensão do todo advém do estudo minucioso das suas partes e moléculas. A tensão aumenta quando Kumar introduz o conceito de "espiritualidade", que define não como algo sobrenatural ou supersticioso, mas como a "qualidade" intrínseca e invisível de todas as coisas, incluindo rochas e plantas. Para o filósofo indiano, atribuir um espírito ou uma "essência" à matéria é um passo necessário para gerar uma humildade ecológica que impeça a destruição do planeta.

Dawkins, por seu lado, opõe-se firmemente ao uso do termo "espiritual", argumentando que a palavra é semanticamente confusa e evoca desnecessariamente o misticismo. O biólogo defende que é possível ter um amor e um respeito profundos pela natureza através de uma lente puramente materialista e científica, movida pela preservação do futuro e não por uma crença em qualidades invisíveis das pedras. No encerramento, Kumar acusa a ciência moderna de alguma arrogância ao tratar a Terra como um objeto de manipulação, enquanto Dawkins reafirma a necessidade de humildade perante o desconhecido. Apesar de não chegarem a um consenso sobre a linguagem — com Dawkins a manter o seu ceticismo sobre a "essência das rochas" e Kumar a insistir na união entre o físico e o metafísico — ambos terminam a conversa unidos pelo objetivo comum de proteger o mundo natural contra a degradação ambiental.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Encontros Improváveis: Schubert e Bertrand Russell - O Mérito da Monotonia

Homenagem a Franz Peter Schubert que nasceu em 31 de Janeiro de 1797. Foi um compositor austríaco do fim da era clássica, com um estilo marcante, inovador e poético do romanticismo. Escreveu cerca de seiscentas canções (o "lied" alemão), bem como óperas, sinfonias, incluindo a "Sinfonia Incompleta", sonatas entre outros trabalhos.Viveu pouco e não teve reconhecimento publico , morreu aos 31 anos (Viena, 19 de Novembro de 1828). Hoje, o seu estilo considerado por muitos como imaginativo, lírico e melódico, fá-lo ser considerado um dos maiores compositores do século XIX, marcando a passagem do estilo clássico para o romântico. Podemos defini-lo como "mais um artista incompreendido pelos seus contemporâneos".


"A capacidade para suportar uma vida mais ou menos monótona deve ser adquirida desde a infância. A este respeito, os pais modernos são bastante censuráveis; proporcionam aos filhos demasiados prazeres passivos, tais como espectáculos e guloseimas, e não compreendem a importância que tem para uma criança um dia ser igual a outro dia, excepto, é claro, nalgumas raras ocasiões. Em geral, os prazeres da infância deveriam ser aqueles que a própria criança descobrisse no seu ambiente por meio de algum esforço e imaginação.

Os prazeres que excitam e ao mesmo tempo não implicam qualquer exercício físico, o teatro por exemplo, só lhes seriam facultados muito raramente. A excitação é da mesma natureza dos narcóticos que cada vez se tornam mais exigentes, e a passividade física durante a excitação é contrária ao instinto. Uma criança desenvolve-se melhor quando, tal como uma jovem planta, a deixam tranquila no mesmo solo. Demasiadas viagens, demasiadas variedades de impressões, não são boas para as crianças e tornam-nas mais tarde, quando forem crescidas, incapazes de suportar uma monotonia fecunda. Não quero dizer que a monotonia tenha algum mérito em si mesma; quero somente afirmar que algumas coisas boas não são possíveis senão quando há um certo grau de monotonia. " ~ Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

Para saber mais sobre Bertrand Russell
Biografia (EN)
Biografia (PT)
Pagina Oficial
Bertrand Russell Peace Foundation

quarta-feira, 16 de março de 2005

O medo, a religião, a redução da liberdade e efeitos na cidadania


1- O medo - a base da Religião
 
Texto de Bertrand Russell 
 A religião baseia-se principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá do nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. O medo é a base dessas duas coisas. 

 2- As ditaduras têm grande medo e aversão ao humor 
Texto de Mario Soares 
 A democracia é o regime no qual ninguém está acima da crítica. Muitas vezes, melhor do que longos discursos, argumentações cuidadas e raciocínios sofisticados, é com meia-dúzia de traços e uma frase curta, certeira, acerada, inteligente que se desafiam poderes, denunciam situações, de injustiça ou de ridículo, e se diz que o rei vai nu. As ditaduras têm, por isso, grande medo e aversão ao humor. Salazar ostracizou os caricaturistas, alguns de génio, que se refugiaram no quotidiano e nos costumes, sendo-lhe em absoluto interdito a caricatura política. Quem não se lembra da extinção do Sempre Fixe e dos constrangimentos sofridos por Francisco Valença ou por Stuart? Quando Marcelo Caetano tentou, sem êxito, liberalizar o peso da ditadura permitiu o aparecimento de duas, três inocentes caricaturas dele próprio, o que constituiu uma grande novidade. Foi sol de pouca dura. Ao contrário, os regimes de liberdade sabem que a sátira é um dos meios de reforço e aperfeiçoamento das instituições e dos homens. Já diziam os antigos: Rident castigat mores. 

3- A América ... sem o mundo Texto de Maria João Seabra . Janeiro 2005 Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais

A agenda eleitoral de George W. Bush não se distingue particularmente das políticas seguidas pela sua administração, particularmente após o 11 de Setembro, e cujo símbolo maior é a guerra no Iraque. As propostas relativas à national security – termo que, sintomaticamente, agrupa a política externa, de segurança e defesa e a luta externa contra o terrorismo – preconizam uma total liberdade de acção dos Estados Unidos para agir, mesmo militarmente, seja onde for, tirando pleno partido do seu inigualável poder. A definição da política externa, de segurança e defesa da plataforma eleitoral de Bush incorpora exclusivamente aqueles que são considerados os interesses nacionais, aliás entendidos de forma bastante estreita, se bem que incluam as mais diversas origens geográficas de ameaças. Longe vão os tempos da participação americana na intervenção militar na Bósnia ou no Kosovo. Hoje, a defesa dos valores e dos direitos humanos, que estiveram na base dessas intervenções, não se enquadra na política da América republicana. Esta concepção da defesa nacional não se limita a uma acção clássica de defesa territorial, confinada às fronteiras americanas – a expressão clássica do isolacionismo americano – mas preconiza a acção em qualquer ponto do globo, com base na doutrina estratégica das guerras preventivas. Não deixa de ter, porém, uma fortíssima dimensão interna, concretizada na política de homeland security, que o candidato Republicano pretende reforçar, mantendo as medidas que no pós-11 de Setembro, através do Patriotic Act, colocaram restrições às liberdades fundamentais em nome da luta anti-terrorista. Pouco depois do 11 de Setembro, George W. Bush proferiu a frase que resume a sua acção (e as suas propostas eleitorais): quem não está com os Estados Unidos, está contra os Estados Unidos. Ilustra na perfeição o actual pensamento republicano. Em termos externos, este rumo político concretizou-se na National Security Strategy dos Estados Unidos, com três pontos centrais: defender a paz através do combate à violência de terroristas e de regimes «fora da lei»; preservar a paz pelo desenvolvimento de uma era de boas relações entre as grandes potências mundiais; e estender a paz, pela via da ampliação dos benefícios da liberdade e da prosperidade pelo mundo. A concretização desta estratégia, segundo as propostas eleitorais de George W. Bush, implica um papel reforçado das forças armadas americanas. Daí a proposta de aumento substancial do orçamento da defesa, de forma a permitir, entre outras coisas o desenvolvimento do sistema de defesa anti-missil e a concepção e aquisição de armamento. De acordo com as recentes declarações de George W. Bush, os EUA vão efectuar um grande movimento de tropas, que inclui a retirada de mais de 60 mil homens de bases no estrangeiro, cujo grosso virá essencialmente da Alemanha e da Coreia do Sul. Apresentada como forma de racionalizar as forças armadas e de melhor as preparar para os desafios que actualmente se colocam ao país, este movimento de tropas não deixa de ser lido como mais um passo na desvalorização das alianças tradicionais de Washington, cujas estruturas foram fortemente abaladas com o desacordo, nomeadamente entre os membros da NATO, relativamente à guerra no Iraque. A estratégia eleitoral de George W. Bush centra-se muito na questão da segurança nacional e da luta contra o terrorismo. Afinal, este é o tema em que, de acordo com as sondagens, os americanos consideram que Bush é mais eficiente, enquanto John Kerry assume a liderança em questões internas como a economia e a saúde. A campanha republicana centra-se, assim, no destaque dado à vulnerabilidade dos EUA, que «já não estão protegidos pelos vastos oceanos», como se pode ler no site oficial de George W. Bush. Uma vulnerabilidade que gera medo, medo que por sua vez encontra nos republicanos uma resposta de firmeza e determinação – uma dureza que estaria ausente em Kerry. Que relação entre a América e o mundo se pode esperar da reeleição de George W. Bush? Fundamentalmente, não se pode esperar nada de muito novo. Para os neo-conservadores e para os nacionalistas conservadores, seguindo a terminologia de Joseph Nye, os EUA devem assumir a sua hegemonia, pois sendo uma democracia agirão no interesse do bem, e as instituições internacionais não podem, nem devem, limitar o exercício do poder americano. A doutrina Bush pode ser classificada, como já foi, de novo-unilateralismo Nada indica que uma nova administração Bush faça um corte radical com esta doutrina, mesmo se os insucessos que ela teve, nomeadamente no Iraque, obriguem a um maior realismo e a que as Nações Unidas voltem a estar presentes nas considerações dos Republicanos. As propostas eleitorais de Bush apostam na continuidade de actuação da sua administração – uma América isolada do mundo, não porque se feche nas suas fronteiras mas porque actua como se o resto do mundo não existisse.

No chão do medo tombam os vencidos- Zeca Afonso

CIBERACÇÃO DE HOJE

Campanha da Greenpeace de apoio a Albena Simeonova

Albena Simeonova, de 40 anos, uma ecologista búlgara que se tem manifestado contra a construção de uma central nuclear em Belene. Para além de já ter recebido telefonemas anónimos, fora abordada em sua casa por dois desconhecidos que a ameaçaram de morte se ela não desistisse de se manifestar contra a central nuclear e se não abandonasse Nikopol, onde reside. Albena Simeonova recebeu o Goldman Award , que é o equivalente ao prémio Nobel do Ambiente, em 1996.