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domingo, 21 de junho de 2026

Investigadores portugueses estudam ligação entre poluição do ar e desigualdades ambientais

A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e a Agência Europeia do Ambiente.

Contudo, persistem lacunas no conhecimento de como a poluição do ar se relacionada com outras dimensões centrais para a compreensão devida do problema, como o facto de nem todas as pessoas e comunidades são afetadas da mesma forma.

Grupos humanos mais vulneráveis podem estar mais expostos à poluição do ar do que outros, os impactos podem ser mais fortemente sentidos em certas áreas ou regiões e não tanto noutras, levantando questões relacionadas com desigualdades e justiça ambientais.

Foi essa constatação que levou um grupo de investigadores, liderado por membros de instituições académicas e centros de investigação portugueses, a rever o conhecimento existente para perceber se, e também como, conceitos relacionados com desigualdades e justiça ambientais são tidos em conta em avaliações dos impactos da poluição do ar na saúde.

O trabalho, liderado pela Universidade de Aveiro em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), sediado na Universidade do Minho, e também a University of the West of England (Reino Unido), analisou 99 artigos científicos. Nesse exame, foram tidos em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados, sejam estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.

Os resultados, revelados num artigo publicado na revista ‘Heliyon’, mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos da América responsáveis pela maioria das investigações (53%). Seguem-se Canadá (6%) e China (5%).

Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, o que os investigadores dizem refletir “um crescimento recente do interesse científico neste tema”. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.

Relativamente aos dados que são utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição, avança esta equipa.

Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados, mostra este estudo, destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.

O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71% dos estudos. Cerca de 14% recorrem a inquéritos e 15% utilizam modelos de simulação para explorar cenários.

Com base na revisão, os autores deste artigo consideram que ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, especialmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores, é avançado em comunicado da Universidade de Aveiro, defendem a utilização de modelos estatísticos “mais robustos e métodos mistos”, que sejam capazes de lidar com “a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação”.

Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam “integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais”. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.

A equipa conclui que é preciso aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, algo que permitirá contribuir de forma importante para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Projeção máxima de aquecimento global cai 1 ºC por causa das renováveis


As projeções mais pessimistas para a subida da temperatura até ao fim do século foram revistas em baixa, à medida que as medidas de mitigação começam a dar frutos

A queda acentuada do custo da energia solar e eólica tornou um futuro altamente dependente de combustíveis fósseis cada vez mais improvável e as políticas climáticas estão a ajudar a reduzir as emissões, que já ficam abaixo das antigas projeções de pior caso

Alguns dos principais cientistas do clima do mundo consideram agora que o aumento de 4,5 °C até 2100, anteriormente projetado, deixou de ser plausível e reduziram o limite superior do seu cenário mais pessimista de aquecimento global para 3,5 °C acima dos níveis pré-industriais

Os novos modelos resultam do Scenario Model Intercomparison Project (ScenarioMIP), que elaborou projeções climáticas com base em cenários alternativos de futuras emissões e alterações no uso do solo. Liderado por um comité internacional de cientistas de topo, as suas conclusões serão integradas em futuras avaliações do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU

Ainda assim, as projeções mais pessimistas ficam muito longe do limite máximo de 2 °C acordado pelos países no Acordo de Paris de 2015 e continuariam a provocar consequências desastrosas para o planeta.

Como foram modeladas as temperaturas futuras mais extremas?
Os cientistas simularam vários cenários para projetar o melhor e o pior caso de aquecimento global até ao ano 2100.

Foram considerados fatores como a futura população mundial, o consumo de energia, as fontes de energia, o investimento na adaptação e mitigação das alterações climáticas, as políticas climáticas e a colaboração entre países.

Os cenários mais pessimistas imaginam um mundo em que as políticas climáticas e os esforços de mitigação são enfraquecidos ou invertidos, e em que o uso de combustíveis fósseis aumenta, a par de tecnologias e estilos de vida muito intensivos em recursos e energia.

Um uso intensivo de combustíveis fósseis ultrapassaria as reservas atuais, o que significaria recorrer a depósitos ainda por descobrir, cuja extração se tornaria viável graças a futuras tecnologias.

Os modelos assumem também o fim da queda, que já dura há uma década, nos custos das energias renováveis, possivelmente porque os minerais necessários para painéis solares, turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos se tornam escassos ou ficam presos em disputas comerciais.

A falta de cooperação na resposta às preocupações ambientais globais, incluindo progressos insuficientes em tecnologias de baixas emissões, poderá agravar a situação.

Um forte crescimento económico e a concorrência regional, o ressurgimento do nacionalismo, receios quanto à competitividade e à segurança e conflitos regionais podem levar os países a dar prioridade a questões internas ou regionais face à mitigação das alterações climáticas. Segundo o estudo, isto poderia conduzir ao colapso das políticas climáticas internacionais e nacionais.

Os modelos de pior caso projetam que o consequente pico de emissões provoque alterações irreversíveis nos componentes mais lentos do sistema terrestre, como o oceano profundo ou as calotes e geleiras, que regulam o clima global.

Embora este cenário seja improvável, os seus impactos seriam catastróficos.

Ao longo deste ano serão realizadas novas simulações com Modelos do Sistema Terrestre, que incluirão também os efeitos das retroações do ciclo do carbono, e os seus resultados poderão alterar as projeções.

Quais são os cenários alternativos?
O relatório modela igualmente cenários progressivamente mais moderados, que vão de emissões elevadas até meados do século seguidas de reduções rápidas, a políticas climáticas reforçadas que levam o mundo a atingir a neutralidade carbónica o mais depressa possível, limitando aquilo que o estudo designa como a agora “inevitável” ultrapassagem da meta preferencial de 1,5 °C do Acordo de Paris. Os modelos prolongam-se até ao ano 2500.

Se as políticas climáticas atuais continuarem inalteradas, estimativas preliminares apontam para uma subida da temperatura de cerca de 2,5 °C. Se as medidas de mitigação forem adiadas mas o mundo conseguir alcançar a neutralidade carbónica até ao fim do século, os modelos indicam que a subida da temperatura poderá atingir 2 °C.

Mesmo cenários de baixas emissões podem bloquear alterações catastróficas do nível do mar e dos mantos de gelo que são irreversíveis à escala de tempo humana. Uma ultrapassagem temporária dos 1,5 °C, mesmo que revertida, pode também causar danos duradouros em ecossistemas vitais, como recifes de coral e florestas tropicais.

Desenvolvidos em meados da década de 2010, os cenários anteriores utilizavam dados reais de emissões até 2015. Os novos modelos estendem esse período até 2023 e descrevem melhor a forma como os sistemas da Terra respondem ao aquecimento – por exemplo, quanto CO2 os oceanos e as florestas absorvem à medida que as temperaturas sobem.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Combinação de fenómenos climáticos extremos pode obrigar a rever metas de emissões de carbono



Eventos climáticos extremos que ocorrem em simultâneo – como chuvas intensas acompanhadas por ondas de calor ou secas associadas a temperaturas extremas – poderão tornar-se muito mais frequentes nas próximas décadas se as emissões de carbono continuarem a aumentar. O alerta surge num novo estudo internacional publicado na revista científica Nature.

A investigação conclui que os atuais limites globais de emissões de dióxido de carbono (CO2) definidos para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C e 2 °C poderão ser insuficientes para evitar os impactos mais graves das chamadas “combinações de extremos climáticos”.

Os cientistas utilizaram modelos climáticos e simulações para calcular a frequência futura de fenómenos compostos, como eventos simultaneamente quentes e húmidos ou períodos de seca acompanhados por calor extremo, em função das emissões acumuladas de CO2.

Segundo o estudo, os eventos compostos mais comuns tendem a aumentar de forma linear à medida que as emissões sobem. Já os fenómenos mais raros e severos deverão intensificar-se de forma muito mais rápida.

Os investigadores Yao Zhang e Zhaoli Wang concluíram que estes eventos extremos poderão ocorrer entre 37% e 75% mais frequentemente do que o previsto pelos modelos climáticos atualmente utilizados.

De acordo com os autores, isto significa que os chamados “orçamentos de carbono” – a quantidade máxima de CO2 que a humanidade ainda pode emitir sem ultrapassar determinados limites de aquecimento global – poderão ter de ser reduzidos significativamente.

Os cientistas defendem que os modelos atuais avaliam sobretudo a relação entre emissões e aumento médio da temperatura global, mas não captam totalmente os impactos sociais e ecológicos provocados pela combinação simultânea de fenómenos extremos.

“Eventos compostos, como calor extremo e inundações ao mesmo tempo, representam riscos particularmente elevados para sociedades e ecossistemas”, sublinham os autores.

O estudo propõe ainda uma nova métrica para integrar estes fenómenos nas futuras negociações climáticas e na definição de políticas ambientais mais abrangentes.

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Adeus à Árvore da Vida: Ciência revela perda de 300 mil milhões de anos de história botânica


As plantas são a base da maior parte da vida na Terra, mas as Alterações Climáticas e a Crise Ecológica estão a remodelar rapidamente os seus habitats e a aumentar o risco de extinção de formas inesperadas.

Dois estudos recentes, publicados na revista Science no dia 7 de maio de 2026, utilizam modelação evolutiva de larga escala e projeções climáticas de alta resolução para preencher lacunas críticas no nosso conhecimento sobre como a flora global reagirá ao aquecimento do planeta.

O primeiro estudo, de Wang et al., revela um paradoxo preocupante: embora as migrações induzidas pelo clima possam aumentar a riqueza de espécies a nível local (em cerca de 28% da superfície terrestre), este "baralhamento" geográfico não reduz o risco global de extinção. A investigação estima que entre 7% e 16% das mais de 67 mil espécies analisadas correm alto risco até 2100. O dado mais alarmante é que cerca de 80% destas extinções serão causadas pelo desaparecimento absoluto de habitats adequados, e não apenas pela incapacidade das plantas em migrarem. Ou seja, mesmo que as espécies consigam acompanhar a velocidade das alterações climáticas, muitas deixarão de ter um local viável para viver.

Complementando esta visão, o estudo de Forest et al. foca-se na integridade evolutiva, analisando a "árvore da vida" de mais de 335 mil espécies de plantas com flor. Os investigadores concluíram que aproximadamente 21,2% da história evolutiva destas plantas está ameaçada — o que equivale à perda potencial de 307 mil milhões de anos de progressos biológicos únicos. O estudo identifica quase 10 mil espécies prioritárias (conhecidas como espécies EDGE), que são evolutivamente distintas e estão globalmente em perigo. A perda destas linhagens seria catastrófica, pois representam "ramos" únicos da árvore genética que não têm parentes próximos, eliminando potenciais recursos medicinais e características de resiliência que levaram milhões de anos a desenvolver.

Em conjunto, estas investigações demonstram que as estratégias de conservação atuais são insuficientes. Os autores defendem uma mudança de paradigma: não basta proteger áreas aleatórias; é urgente focar os esforços na identificação de refúgios climáticos estáveis e na preservação de linhagens evolutivas insubstituíveis, recorrendo também à expansão de bancos de sementes e, em certos casos, à migração assistida para evitar uma simplificação irreversível da biodiversidade terrestre.

Já em 2014 foi publicado Natural History is Dying, and We Are All the Losers, na revista Scientific American

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Microplásticos podem ter grande contribuição nas alterações climáticas


Os microplásticos prejudicam o ambiente e a saúde dos seres vivos, mas também contribuem para as alterações climáticas, com emissões que podem representar 16,2% das partículas resultantes da queima de combustíveis fósseis, biomassa e resíduos orgânicos.

A revista "Nature" publicou hoje um estudo no qual investigadores de vários centros chineses e americanos descrevem experiências e simulações em laboratório para medir a potencial contribuição dos microplásticos e nanoplásticos suspensos no ar para o aquecimento global, um impacto que não tinha sido avaliado anteriormente.

Estes micro e nanoplásticos têm origem na fragmentação de resíduos plásticos de maiores dimensões e o seu diâmetro varia de um nanómetro (um bilionésimo de metro) a 500 micrómetros (um milionésimo de metro).

Diversos processos atmosféricos transportam estes microplásticos pelo mundo, desde picos de altas montanhas até fossas oceânicas profundas.

Estudos anteriores sugeriram que a contribuição das micropartículas de plástico em suspensão para as alterações climáticas era mínima, mas as análises assumiam frequentemente que eram incolores, o que é irrealista, uma vez que a maioria dos plásticos de uso comum contém pigmentos.

Utilizando espetroscopia eletrónica de alta resolução e combinando estas medições com simulações de transporte atmosférico, os investigadores descobriram que as partículas pretas e coloridas absorvem a luz solar numa extensão muito maior do que as partículas brancas.

Após esta descoberta, calcularam o impacto potencial destas partículas coloridas no aquecimento global. E no passo seguinte os cientistas estimaram a massa total de plástico em suspensão que pode estar presente, em média, por metro quadrado de ar.

Para isso, tiveram em conta dados globais de inventário sobre as emissões de plástico e o tempo que estas partículas permanecem na atmosfera, que é geralmente de pelo menos algumas semanas, explicou um dos autores, Drew Shindell, investigador da Universidade norte-americana de Duke, em conferência de imprensa.

Os resultados indicaram que as partículas de plástico em suspensão, e em particular os nanoplásticos coloridos, que são os mais persistentes, contribuem para o aquecimento atmosférico.

As suas emissões seriam equivalentes a 16,2% da poluição provocada pelo carbono negro, um componente da fuligem com origem na combustão incompleta dos combustíveis, fosseis ou não, e da biomassa.

"Este estudo apoia a teoria de que as partículas de plástico presentes na atmosfera podem absorver luz e, por conseguinte, provocar um aumento do aquecimento global", afirma o investigador Sam Harrison, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, numa reação publicada pelo "Science Media Centre" (SMC).

A estimativa pode estar sobredimensionada, porque "a massa total de plásticos não provém de uma amostragem real, mas de simulações baseadas em inventários anteriores", pelo que os resultados devem ser interpretados com cautela, esclarece Roberto Rosal, professor de Engenharia Química na Universidade de Alcalá, Espanha, numa reação para a mesma plataforma.

Questionado pelos jornalistas numa conferência de imprensa organizada pela "Nature", Drew Shindell reconheceu que, ao basearem os resultados em simulações laboratoriais, os autores podem ter sobrestimado a presença de plásticos, embora também a possam ter subestimado.

Os autores defenderam a realização de mais investigação sobre o impacto das partículas de plástico em suspensão nas alterações climáticas, uma vez que todos os indícios sugerem que este impacto é significativo.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

RCP8.5 Is Officially Dead

The international committee responsible for the official scenarios that feed into climate modeling that are the basis for most projective climate research and the assessments of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) has just published the next generation of climate scenarios.

Big news: The new framework has eliminated the most extreme scenarios that have dominated climate research over much of the past several decades — specifically, RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0. This is an absolutely huge development in climate science which will have lasting impacts across research and policy.

The future is not what it used to be.

Today’s post commends the researchers who have brought climate scenarios more in line with current understandings, but also raises some significant continuing issues with the scenarios.

Let’s get started . . .

The new scenarios come from the Coupled Model Intercomparison Project (CMIP) — a project of the World Climate Research Programme (WCRP), co-sponsored by the World Meteorological Organization, the International Science Council, and UNESCO’s Intergovernmental Oceanographic Commission.

Under CMIP, now in its seventh iteration, sits another little-known committee with responsibility for developing the scenarios necessary for earth system models to project future climate.1 That committee — called ScenarioMIP — just published the new scenario framework that will underpin the IPCC’s Seventh Assessment Report (AR7) and much of the research that it will draw upon.

In a paper released earlier this month, Van Vuuren et al. (VVetal26) introduce a new set of seven scenarios. The authors write of the obsolete high end emissions scenarios (emphasis added):

“For the 21st century, this range will be smaller than assessed before: on the high-end of the range, the CMIP6 high emission levels (quantified by SSP5-8.5) have become implausible, based on trends in the costs of renewables, the emergence of climate policy and recent emission trends.”

Read that again — The high end scenarios are Implausible.2

I disagree that the implausibility of the high-end scenarios resulted from the falling costs of renewables or the emergence of climate policy, but that is a debate for another day.

What matters today is that the group with official responsibility for developing climate scenarios for the IPCC and broader research community has now admitted that the scenarios that have dominated climate research, assessment, and policy during the past two cycles of the IPCC assessment process are implausible: They describe impossible futures.

Tens of thousands of research papers have been — and continue to be — published using these scenarios, a similar number of media headlines have amplified their findings, and governments and international organization have built these implausible scenarios into policy and regulation.

We now know that all of this is built on a foundation of sand.

What changed
The new CMIP7 ScenarioMIP framework offers seven scenarios spanning a range from “VERY LOW” through “HIGH.” The current naming convention drops the radiative-forcing target labels of the SSP era — there is no “8.5” scenario, and no “7.0” scenario, but as I’ll show below, each scenario has a radiative forcing level in 2100.

I ran the available new scenarios (HIGH, MEDIUM, LOW, and VERY LOW) through the FaIR calibrated and constrained ensemble that Sanderson and Smith (2025) used to characterize the CMIP7 set (FaIR v. 2.2.0 as described in their README file). I then ran each of the five tier-1 SSPs through the same emulator with identical parameters to ensure that the results are apples-to-apples. The full methodology, data, and code is in the appendix to this post.

The headline results follow.
CO₂ emissions: fossil fuels and industry, 2000–2100

The chart above shows fossil-fuel and industry CO₂ emissions for four CMIP7 scenarios alongside the five tier-1 SSPs and the two main reference scenarios from the 2025 IEA World Energy Outlook.

Note the massive gap between the new HIGH and SSP5-8.5. The new HIGH reaches 71 Gt CO₂/yr in 2100 — far below SSP5-8.5 at 128 Gt in 2100. Nothing in the CMIP7 set comes close to SSP5-8.5. The new HIGH also sits below SSP3-7.0 by about 9% in terms of cumulative emissions to 2100. Note also the gap between MEDIUM (solid yellow) and SSP2-4.5 (dashed yellow), which I’ll return to below.

Both of the most recent IEA near term scenarios — which run to 2050 — fall below MEDIUM and SSP2-4.5.

The table below compares the CMIP7 scenarios to their closest AR6 analogues, showing that the overall range has constricted. The higher scenarios have come down and the lower scenarios have come up — except VERY LOW, which moved down.
2100 effective radiative forcing and end-of-century temperature
The table below lists AR6 and CMIP7 scenarios from highest to lowest 2100 radiative forcing. The middle column shows the average global temperature change from an 1850-1900 baseline, under the climate emulator used by CMIP7. The right column shows the average temperature change for the SSPs as projected by the IPCC AR6.
Interestingly, the projected 2080-2100 temperatures of the SSPs decreased from their AR6 values based solely on recent updates to the FaIR climate emulator.3 These changes resulted primarily from the updating of emissions trajectories from 2014 (used in AR6) to 2023 (used by CMIP7). The more moderate emissions trajectories resulted in lower projected end-of-century temperature increases.

The new CMIP7 HIGH is 0.9°C cooler than SSP5-8.5 in apples-to-apples terms (and 1.4°C cooler versus IPCC AR6), and 0.2°C cooler than SSP3-7.0 (-0.6°C against IPCC AR6).

The implausibility of upper-end legacy scenarios is now official.
CMIP7 avoided repeating the past with SSP3-7.0

Last April I argued here at THB that the climate science community was on the brink of repeating the RCP8.5 mistake with SSP3-7.0 — which assumed a 2100 global population approaching 13 billion, well above any contemporary demographic projection and a five-fold expansion of global coal use. Neither assumption survives current understandings of demographics or energy systems.

I don’t know if anyone in CMIP or ScenarioMIP reads THB4 — if not they should! — but regardless, they wisely chose not to adopt SSP3-7.0 as the new HIGH scenario.

The new HIGH scenario sits at 6.7 W/m² in 2100 — below the SSP3 baseline 7.0 W/m² — with 9 percent less cumulative fossil CO₂ through 2100. As I’ll discuss below, this is progress; it is partial but real.

But the new HIGH still sits well above the plausibility range that we identified in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022). We found that of the >1,000 scenarios in the AR5 database, the plausible subset centered on a median of ~3.4 W/m² in 2100, with an upper end near 6 W/m². The new HIGH scenario is well above that upper end.

The authors of Van Vuuren et al. partially acknowledge that the new HIGH scenario is exploratory — a thought experiment, not a projection:

“Clearly, this scenario is not a “business-as-usual” scenario nor the no-policy reference scenario for the other scenarios. The scenario is intended to explore the upper end of GHG emissions resulting from deep political, technological, and structural deviation from current trends.”

Note that first sentence — It means that any future research that compares the HIGH scenario to lower scenarios in order to characterize the effects of climate policy will be fundamentally flawed. The HIGH scenario is not a projective scenario, but a “what if?” exercise.

Unfortunately, Van Vuuren et al. then engage in some unsupported speculation about the plausibility of the HIGH scenario in the real world:

“The are various reasons why such a scenario could emerge. For instance, a rollback of climate policies could result from a lack of public support for the energy transition. This could be related to, for instance, local opposition to building new wind farms or concerns about impacts on fossil industries related to jobs and national energy security. Also, the rapid cost decrease in renewable energy of the past decade could be discontinued, possibly as a result of regional scarcity and limited tradability in materials for solar and wind technologies and EV batteries . . .”

As discussed below, the new population assumptions of the updated SSP3 are ridiculous, and by themselves render the HIGH scenario implausible. The lack of any systematic effort to evaluate plausibility of scenarios remains a fundamental weakness of the scenario development process.
The new scenarios are SSPs in new clothing

The new CMIP7 framework does not start from a fresh socioeconomic foundation. Van Vuuren et al. explain:

“In practice, the IAM [Integrated Assessment Modeling] teams have based their current scenarios on various SSPs, as it was generally deemed pragmatic as these come with already available, suitably rich quantifications and were implemented by the participating modelling teams within the given timeline.”

The CMIP7 scenarios rely on the same narrative architecture as the IPCC AR6 SSPs. The table below shows how the SSP storylines map onto the new scenarios — Confusion is sure to result, as the old SSPs are not the new SSPs.
The new HIGH inherits the SSP3 storyline directly — the same SSP3 whose enormous 2100 population rendered it implausible when used in the IPCC AR6. Remarkably, the IIASA 2024 update to the SSPs did not bring the population projections down. Instead, it increased them, as you can see in the table below.
The 2024 demographic update (KC et al. 2024, IIASA Working Paper WP-24-003, also referred to as WIC2023) revises SSP 2100 populations upward: SSP3 jumps from 12.6 to 14.5 billion. SSP4 increases from 9.3 to 13.3 billion — an eye-popping 43% increase.

The SSP population update assumes that child mortality declines faster than WIC2013 anticipated, fertility declines slower in sub-Saharan Africa, and Africa’s 2020 base-year population was already 76 million higher than WIC2013 had projected. Africa’s 2100 population alone is now 3.55 billion, up from 2.62 billion in the AR6-era projection — a 35% upward revision.

This puts the CMIP7 HIGH scenario in a strange position: The cumulative fossil CO₂ from energy and industry in CMIP7 HIGH (4,629 Gt 2020-2100) is lower than SSP3-7.0 (5,074 Gt), but it has a 2100 population that is 15 percent larger. That means that the implied per-capita emissions trajectory in the new HIGH has a steeper decline.

How much of the new HIGH scenario’s warming is due to its incredible population projection?

I performed a simple sensitivity analysis:Take HIGH as published: 4,629 Gt cumulative fossil CO₂ over 2020-2100, producing about 3.0°C of 2081-2100 warming.
That means per-capita emissions intensity average about 5.2 tonnes of CO₂ per person per year using 11-billion as the mean population across the century.
Hold that per-capita intensity constant and replace the SSP3 population trajectory with the SSP1/SSP5 population trajectory — peaking at 8.5 billion in 2050, declining to 7.4 billion by 2100, averaging about 8 billion.

Under these assumptions, under HIGH, cumulative fossil CO₂ falls to roughly 3,330 Gt, a 1,300 Gt reduction. The IPCC AR6 central TCRE estimate (0.45°C per 1,000 Gt CO₂) gives about 0.6°C less warming. The HIGH scenario with SSP1/SSP5 population thus would deliver about 2.4°C of 2081-2100 warming — slightly cooler than the new MEDIUM at 2.5°C.

Under this simple method, about 0.6°C of the HIGH scenario’s projected warming traces to the population assumption alone. The HIGH scenario may be much less about carbon and much more about assumed human fecundity.

This is a sensitivity analysis, not a coherent scenario — combining SSP3’s per-capita intensity with the SSP1/SSP5 demographic profile is internally inconsistent. But it suggests that the demographic contribution to the HIGH scenario’s warming is significant.
The plausibility vacuum remains

The deeper problem with the SSP/RCP architecture, as Justin Ritchie has documented at length, is that physical climate modeling became decoupled from the underlying IAM socio-economic scenarios.

Under the RCPs, scenario creators identified concentration pathways and the underlying socio-economic assumptions were expected to be filled in later. Whether the underlying assumptions actually described a coherent picture of the world was never systematically assessed.

Ritchie called this a plausibility vacuum — a situation where any combination of climate model inputs could be used without any assessment of the real-world plausibility of the assumptions.

To be fair, the new CMIP7 framework does address some earlier shortfalls. The new design specifies emission-driven runs as the default, which allows for carbon-cycle feedbacks. The harmonization of emissions to observed 2023 data is an improvement — CMIP6 harmonized to 2014, and that harmonization had become well out-of-date by the time AR6 came out.

However, the plausibility vacuum problem remains. Van Vuuren et al. do not evaluate scenario plausibility against observed energy trends, against IEA projections, or against the body of literature critiquing the SSP set.

The 2023 ScenarioMIP workshop report — which kicked off the process of developing these new scenarios — recognized the plausibility problem and committed to addressing it. Van Vuuren et al. does not deliver on that commitment.

ScenarioMIP produces a better scenario set than those of AR6, but the improvement comes from incorporating more recent emissions data and accepting the undeniable collapse of SSP5-8.5’s credibility — not from any methodological reform of how scenario plausibility is assessed.
The MEDIUM scenario is not “current policy”

The walk-back at the high end is the most important change in the new framework. The story in the middle is more complicated.

Van Vuuren et al. describe the MEDIUM scenario as one that “shows the consequences of the current policy situation (as of 2025) and trends continuing over the century.” They specify that MEDIUM includes only policies “actually officially being implemented” — no NDC pledges, no net-zero announcements, unless backed by explicit policy. The framing implies that MEDIUM tracks where the world is actually headed under current policies.

That framing is not consistent with other approaches to defining a current policy trajectory. The CMIP7 MEDIUM scenario produces fossil-fuel CO₂ emissions that rise from about 38 Gt CO₂/yr today to 41 Gt by 2050 — that part compares well to the scenarios (CPS and STEPS) of IEA’s World Energy Outlook 2025, released last November.

However, it is post-2050 where the new MEDIUM scenario diverges from other current-policy projections, with its emissions slowly rising through the second half of the century.
In contrast, STEPS — the IEA’s standard reference for where current and announced policies actually take us — falls below 30 Gt by 2050 and produces about 2.5°C of 2100 warming.

The CMIP7 MEDIUM is more accurately characterized as a “policy stagnation” scenario rather than a “current policy” scenario. Cumulative fossil CO₂ emissions through the end of the century come in 18% higher than SSP2-4.5 — the AR6-era middle-of-the-road scenario — even though the MEDIUM 2081–2100 mean temperature is slightly cooler (explained below).

The figure below shows what happens once SSP2-4.5 and MEDIUM are anchored to the same observed 2020 baseline. The original SSP2-4.5 (black) sits roughly 0.6°C above CMIP7 MEDIUM (red) at 2020 — not because the 21st century plays out differently, but because the SSP framework’s historical emissions are harmonized to 2014 while CMIP7’s are harmonized to 2023. That head start propagates through the entire 21st century trajectory.
Running SSP2-4.5 post-2020 emissions through the CMIP7 FaIR emulator with CMIP7’s updated historical baseline (dashed blue), the picture inverts: SSP2-4.5 produces a 2081-2100 mean of 2.44°C against CMIP7 MEDIUM 2.56°C. On an apples-to-apples comparison, the new MEDIUM results in about 0.12-0.20°C more warming than SSP2-4.5 — due to its 520 Gt larger cumulative CO₂ budget over the century.

This connects to the larger argument in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022): observed CO₂ emissions from 2005 through 2020 tracked closer to the SSP 3.4 W/m² range than to SSP2-4.5. Today, the gap has widened, not closed. IEA STEPS now has emissions falling to under 30 Gt by 2050 — a trajectory consistent with the SSP 3.4 forcing range. The center of the new CMIP7 scenario set sits well above that range.

The new framework compressed the high end. Good.

The middle did not move far enough. The new MEDIUM might be considered a worst-case scenario rather than a current policy scenario. Interestingly, that would mean that there is no real current-policy scenario in the new CMIP7 scenarios, which would be something like a SSP2-3.4 scenario with updated demographics.

Perhaps, if projected demographic changes continue to trend lower, CMIP7 LOW will come to represent something akin to a current policy trajectory.
Why this matters: these scenarios live in policy

The now-implausible upper-end scenarios — RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0 — are not just academic constructs used in esoteric research. They are embedded in the policies and regulations of most of the world’s largest economies, found across the world’s most important multilateral institutions, and used in the climate stress tests that govern hundreds of billions of dollars in bank capital.

The table below provides just a few examples.

National climate impact assessments in the United States, United Kingdom, Germany, Canada, Australia, Japan, and the Netherlands all use RCP8.5 or SSP5-8.5 as a reference scenario. The Network for Greening the Financial System framework, used by more than 140 central banks, has utilized a “Hot House World” scenario calibrated to RCP8.5 physical risk into the bank stress tests run by the European Central Bank, the Bank of England, the Reserve Bank of New Zealand, the Banque de France, and the US Federal Reserve. The World Bank’s Climate Change Knowledge Portal, which provides the climate diagnostics that feed into the Country Climate and Development Reports for more than 100 client countries, defaults to SSP5-8.5 and SSP3-7.0.

The abandonment of the high-end legacy scenarios by CMIP7 will need to propagate through this entire infrastructure. The policy machinery built on RCP8.5 and the other implausible scenarios is systemic.
What this means

The new CMIP7 ScenarioMIP framework represents a real course correction, but with more work to do. SSP5-8.5 is gone. SSP3-7.0 has a successor that is less extreme but arguably remains implausible. The middle of the set is more pessimistic than trajectories of current and announced policies. The plausibility vacuum at the heart of the architecture has yet to be addressed.

All this means that users of climate models and model output based on legacy scenarios will now face decisions about if and how they’d like to realign with the latest scientific understandings versus continuing to rely on outdated research.

Furthermore, there are no doubt many — hundreds if not thousands — of studies in the publication pipeline that depend upon the upper end scenarios. Editors and reviewers should ensure that they are properly characterized as exploratory and are not intended to be interpreted as projective.

We’ve known since 2017 that upper end climate scenarios are fatally flawed. Nine years later, that understanding has now become officially recognized. That is good news.

We can debate whether nine years is short or long for the overturning of scientific understandings with massive economic and policy implications. But today, that overturning is undeniable.

Science is self-correcting. What matters now is what happens next.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Earth's Population Has Surpassed The Planet's Capacity



The Earth has already exceeded its ability to support the global population sustainably, with new research warning of increasing pressure on food security, climate stability, and human wellbeing. However, slowing population growth and raising global awareness could still offer humanity some hope.

Published in Environmental Research Letters, the study shows that humans have pushed well beyond the planet’s long-term capacity and that continued growth under current patterns of consumption will intensify environmental and social challenges for communities worldwide.

The research examined more than two centuries of global population data and uncovered a major shift in human population dynamics that began in the mid-twentieth century.

Lead author, Matthew Flinders Professor of Global Ecology Corey Bradshaw, from Flinders University says the trend reveals a clear biological signal that humanity is living far beyond what the Earth can support.

“Earth cannot keep up with the way in which we are using resources. It cannot support even today’s demand without major changes, with our findings showing that we are pushing the planet harder than it can possibly cope,” says Professor Bradshaw from the Global Ecology Laboratory in the College of Science and Engineering.

The researchers, including distinguished Professor Paul Ehrlich who recently passed away, analysed more than two hundred years of global population records and used ecological growth models to track how population size and growth rates have changed over time.

They tested the direction of these trends and compared results across world regions. They also measured how population size has historically aligned with changes in climate, emissions, and the ecological footprint to understand how human numbers cause environmental stress.

The study found that before the 1950s, global population growth actually sped up as human abundance increased. More people meant more innovation, more energy use, and more rapid technological development that supported further expansion.

However, this pattern broke down in the early 1960s when the global growth rate began to fall even as the population continued to rise.

“This shift marked the beginning of what we call ‘a negative demographic phase,” says Professor Bradshaw.

“It means that adding more people no longer translates into faster growth. When we examined this phase, we found the global population is likely to peak somewhere between 11.7 and 12.4 billion people by the late 2060s or 2070s if current trends hold.”

Professor Bradshaw says this upper limit is dangerous and has only been possible to date because human societies have relied on fossil fuels and drained natural resources faster than nature can replace them.

“The truly sustainable population is much lower and closer to what the world supported in the mid-twentieth century. Our calculations show a sustainable global population closer to about 2.5 billion people if everyone were to live within ecological limits and comfortable, economically secure living standards,” he says.

The researchers say the enormous gap between that sustainable number and today’s population of now 8.3 billion highlights the scale of global overconsumption. They argue that this overshoot has been hidden for decades by heavy reliance on fossil fuels, which boosted food production, energy supply, and industry, but also accelerated climate change and pollution.

The study shows a strong link between increasing population size and rising global temperatures, larger ecological footprints, and higher carbon emissions during the negative phase. Total population size explained more variation in these environmental indicators than per-capita consumption.

Professor Bradshaw says this highlights how both human numbers and consumption patterns jointly intensify environmental stress. “Humanity’s current path will push societies into deeper crises unless we make major changes,” he says.

“The planet’s life support systems are already under strain and without rapid shifts in how we use energy, land, and food, billions of people will face increasing instability. Our study shows these limits are not theoretical but unfolding right now.”

The researchers stress that the study does not predict sudden collapse, but instead offers a realistic assessment of the long-term pressures shaping humanity’s future. The consequences of overshooting Earth’s ‘biocapacity’ include stronger climate impacts, declining biodiversity, reduced food and water security, and widening inequality.

Professor Bradshaw says society must rethink how it uses land, water, energy, and materials if future generations are to live safe and stable lives.

“Smaller populations with lower consumption create better outcomes for both people and the planet,” he says. “The window to act is narrowing, but meaningful change is still achievable if nations work together.”

The team hopes the findings encourage governments, organisations, and communities to plan for the long term, recognise Earth’s environmental limits, and focus on strategies that reduce consumption, stabilise population, and protect natural systems.

“The choices we make over the coming decades will determine the wellbeing of future generations and the resilience of the natural world that supports all life,” concludes Professor Bradshaw.

Acknowledgements:

The Kids Research Institute Australia and Population Matters supported various aspects of the project.

The paper, ‘‘Global human population has surpassed Earth’s sustainable carrying capacity’ by Corey J.A. Bradshaw, Melinda A. Judge (University of Western Australia), Daniel T. Blumstein (University of California, USA), Paul R. Ehrlich (Stanford University, USA), Aisha N. Dasgupta (University of Cambridge, UK), Mathis Wackernagel (University of California, USA), Lewis J.Z. Weeda (University of Western Australia) and Peter N. Le Souëf (University of Western Australia) was published in Environmental Research Letters. DOI: 10.1088/1748-9326/ae51aa

terça-feira, 1 de julho de 2025

Estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam

Com ferramentas modernas, cientistas teriam identificado no século XIX o impacto do CO₂ emitido pela queima de carvão e madeira na Revolução Industrial

Muito antes de a expressão “alteração climática” entrar no vocabulário da ciência, os primeiros sinais do impacto humano na atmosfera já estavam no ar. Um estudo publicado na revista PNAS indica que, se os cientistas da época tivessem acesso à tecnologia atual, teriam identificado indícios do aquecimento global já em 1885 - antes mesmo da invenção dos carros a gasolina.

A conclusão vem de uma simulação conduzida por investigadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, em parceria com instituições como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade de Washington. A equipa partiu de um cenário hipotético: e se, desde 1860, fosse possível monitorizar globalmente a atmosfera com a precisão de satélites e balões meteorológicos modernos?

Naquela época, a queima acelerada de carvão e madeira já lançava grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera - um subproduto da Revolução Industrial que iniciava os efeitos do aquecimento global.

A resposta veio por meio de um método de análise conhecido como fingerprint (impressão digital), que permite separar os efeitos naturais das alterações provocadas por humanos. Segundo os autores, esse padrão de interferência seria visível na forma de um arrefecimento na estratosfera - uma camada alta da atmosfera - causado pelo aumento do CO₂ e pela perda de ozono.

Por que razão a estratosfera arrefece e a Terra aquece?
Os gases do efeito de estufa atuam de maneira distinta nas camadas da atmosfera. Na parte mais baixa, a troposfera, eles retêm o calor irradiado pela superfície da Terra, provocando o aquecimento. Já na estratosfera, a camada seguinte, o acumulado desses mesmos gases intensifica a reflexão da radiação, fazendo com que parte do calor regresse ao planeta e que a própria estratosfera arrefeça.

Esse arrefecimento da estratosfera, segundo os autores, é um sinal inequívoco da ação humana e teria sido detetável com elevada confiança por volta de 1885. Mesmo com medições restritas ao hemisfério norte, os dados simulados indicam que o fenómeno seria percetível até 1894, apenas 34 anos após o início hipotético da monitorização climática global.

O que é que isto muda?
Na prática, o estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam. Embora a ciência só tenha começado a compreender o papel do CO₂ no aquecimento global a partir da década de 1970, os impactos da Revolução Industrial já estavam a ser registados na atmosfera um século antes.

Os investigadores alertam que os próximos 26 anos deverão trazer mudanças ainda mais intensas do que as observadas desde 1986, especialmente se não houver uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Uma equação universal pode prever frequência de batimento de asas de aves, insetos, morcegos e até baleias



Uma única equação universal pode aproximar a frequência dos batimentos das asas e das barbatanas das aves, insetos, morcegos e baleias, apesar dos diferentes tamanhos do corpo e formas das asas, segundo um novo estudo de Jens Højgaard Jensen e colegas da Universidade de Roskilde, na Dinamarca, publicado na revista PLOS ONE.

A capacidade de voar evoluiu de forma independente em muitos grupos de animais diferentes. Para minimizar a energia necessária para voar, os biólogos esperam que a frequência com que os animais batem as asas seja determinada pela frequência de ressonância natural da asa.

No entanto, tem sido difícil encontrar uma descrição matemática universal para o voo. Os investigadores utilizaram a análise dimensional para calcular uma equação que descreve a frequência dos batimentos das asas de aves voadoras, insetos e morcegos, e os batimentos das barbatanas de animais mergulhadores, incluindo pinguins e baleias.

Descobriram que os animais voadores e mergulhadores batem as suas asas ou barbatanas com uma frequência que é proporcional à raiz quadrada da sua massa corporal, dividida pela área da asa. Testaram a exatidão da equação comparando as suas previsões com dados publicados sobre as frequências de batimento das asas de abelhas, traças, libélulas, escaravelhos, mosquitos, morcegos e aves de vários tamanhos, desde beija-flores a cisnes.

Os investigadores também compararam as previsões da equação com dados publicados sobre as frequências de batimentos das barbatanas dos pinguins e de várias espécies de baleias, incluindo as jubartes e os roazes do norte.

A relação entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas mostra pouca variação entre os animais voadores e mergulhadores, apesar das enormes diferenças no tamanho do corpo, na forma da asa e na história evolutiva, concluíram. Finalmente, estimaram que um pterossauro extinto (Quetzalcoatlus northropi) – o maior animal voador conhecido – batia as suas asas de 10 metros quadrados a uma frequência de 0,7 hertz.

O estudo mostra que, apesar das enormes diferenças físicas, animais tão distintos como as borboletas e os morcegos desenvolveram uma relação relativamente constante entre a massa corporal, a área da asa e a frequência dos batimentos das asas.

Os investigadores referem que, no caso dos animais nadadores, não encontraram publicações com toda a informação necessária; os dados de diferentes publicações foram reunidos para fazer comparações e, nalguns casos, a densidade dos animais foi estimada com base noutras informações.

Além disso, os animais extremamente pequenos – mais pequenos do que qualquer outro ainda descoberto – provavelmente não se encaixariam na equação, porque a física da dinâmica dos fluidos muda a uma escala tão pequena. Este facto poderá ter implicações no futuro para os voadores. Os autores afirmam que a equação é a explicação matemática mais simples que descreve com exatidão o bater das asas e das barbatanas em todo o reino animal.

Os autores concluem: “Com uma diferença de quase um fator de 10.000 na frequência dos batimentos das asas e das barbatanas, os dados relativos a 414 animais, desde a baleia azul até aos mosquitos, situam-se na mesma linha. Como físicos, ficámos surpreendidos ao ver como a nossa simples previsão da fórmula do batimento das asas funciona para uma coleção tão diversa de animais”.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Improvável que abatimento da tundra provoque degelo acelerado



Uma complexa simulação informática realizada no Laboratório Nacional de Oak Ridge (ORNL), nos Estados Unidos, prevê ser improvável que o abatimento da tundra devido ao aquecimento global provoque um degelo descontrolado.

A paisagem permanentemente gelada da tundra ártica, que durante milhares de anos armazenou grandes quantidades de carbono, corre o risco de descongelar e libertar na atmosfera gases com efeito de estufa.

O grupo internacional de peritos sobre as mudanças do clima das Nações Unidas considerou uma das principais preocupações nas próximas décadas a possibilidade de o abatimento do solo naquela zona desencadear um degelo acelerado.

O derretimento rápido causado por abatimento de terras foi observado em zonas mais pequenas e em prazos mais curtos, mas as avaliações do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) deixavam dúvidas sobre o que poderia acontecer a longo prazo.

Seguiu-se a intervenção do ORNL com o Simulador Terrestre Avançado (ATS), “um modelo altamente preciso baseado na física da hidrologia da região, alimentado por medições detalhadas do mundo real, para ajudar os cientistas a entender a evolução do planeta”, segundo a agência de notícias privada espanhola Europa Press.

Assim, descobriu-se que, embora o solo continue a afundar-se à medida que derretem os grandes depósitos de gelo, o abatimento desigual causa uma paisagem mais seca e limita a aceleração do processo até ao final do século, indica o estudo divulgado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos.

“Uma drenagem melhorada resulta numa paisagem mais seca ao longo de uma década e o processo autolimita-se”, indica Scott Painter, que dirige o grupo de Modelização de Sistemas de Bacias Hidrográficas do ORNL, num comunicado.

Painter referiu que se conseguiu pela primeira vez “perceber o efeito da mudança da microtopografia e representá-lo em modelos climáticos”, adiantando que a equipa tem muita confiança no modelo que utilizou.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Simulação arrepiante prevê o que pode acontecer numa guerra nuclear entre a Rússia e a NATO: 92 milhões de mortos em poucas horas

Conhecido como “Plano A“, a animação de quatro minutos visa destacar as terríveis consequências potenciais do conflito entre a Rússia e os países da NATO.


Foi criado por pesquisadores da Universidade de Princeton que trabalham com o Programa de Ciência e Segurança Global.

O modelo prevê que quase 92 milhões de pessoas morreriam em poucas horas – muitas delas nos primeiros 45 minutos.

Um conflito tão devastador deixaria mais 56 milhões de feridos – sem incluir as mortes posteriores por precipitação nuclear e outros efeitos.

Esta fase devastadora da guerra pode resultar em 3,4 milhões de baixas em apenas 45 minutos.

Na fase final do conflito, ambos os lados teriam como alvo as 30 maiores cidades e centros económicos um do outro, com entre cinco e 10 armas nucleares para cada um, para tentar impedir que o outro lado se recuperasse após a guerra.

Um movimento tão drástico, acreditam os pesquisadores de Princeton, levaria a mais 91 milhões de vítimas no espaço de horas.

O vídeo foi lançado originalmente em 2017, mas ganhou nova atenção após a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro deste ano.

As fatalidades e baixas imediatas resultantes que ocorreriam em cada fase do conflito são determinadas usando dados do NUKEMAP . Todas as estimativas de fatalidade são limitadas a mortes agudas por explosões nucleares e seriam significativamente aumentadas por mortes ocorridas por precipitação nuclear e outros efeitos de longo prazo. A simulação foi desenvolvida por Alex Wellerstein , Tamara Patton , Moritz Kütt e Alex Glaser com a assistência de Bruce Blair , Sharon Weiner e Zia Mian . O som é de Jeff Snyder .

Fonte: Plan A
Notícia com gráficos aqui e aqui


sábado, 28 de dezembro de 2019

Os ultra ricos preparam um mundo pós-humano

Fonte: aqui

Por Douglas Rushkoff | Tradução: Inês Castilho
Publicado 19/11/2018 às 14:31 - Atualizado 24/12/2019 às 10:09
No ano passado, fui convidado a fazer conferência num resort superluxuoso para um público que, imaginei, seria de aproximadamente cem banqueiros de investimento. Era de longe a maior remuneração que jamais me foi oferecida por uma palestra – metade do meu salário anual como professor – tudo para fornecer algumas dicas sobre o tema “o futuro da tecnologia”.
Nunca gostei de falar sobre o futuro. A sessão de perguntas e respostas sempre acaba mais como um jogo de salão, em que me pedem para opinar sobre as últimas tendências da tecnologia como se fossem dicas precisas para potenciais investimentos: blockchain, impressão 3D, CRISPR. As audiências raramente estão interessadas em aprender sobre essas tecnologias ou sobre seus impactos potenciais, além da escolha binária entre investir nelas ou não. Mas o dinheiro chama; por isso, entrei no show.
Ao chegar, fui introduzido no que me pareceu ser a sala reservada principal. Mas, ao invés de receber um microfone ou ser conduzido a um palco, simplesmente me sentei numa mesa redonda e minha audiência começou a chegar: cinco sujeitos super-ricos – sim, todos homens – do alto escalão do mundo dos fundos hedge. Depois de um pouco de conversa, percebi que eles não tinham interesse nas informações que eu havia preparado sobre o futuro da tecnologia. Haviam preparado suas próprias perguntas.
Começavam com aparente ingenuidade. Ethereum ou Bitcoin? A computação quântica é real? Mas, lenta e seguramente, concentraram-se em suas verdadeiras preocupações.
Qual região seria menos impactada pela crise climática que vem aí: Nova Zelândia ou Alasca? O Google está realmente construindo um “lar” para o cérebro de Ray Kurzweil e sua consciência viverá durante a transição, ou ele morrerá e renascerá inteiramente novo? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio sistema subterrâneo de abrigo e perguntou: “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após o evento?“
O Evento. Esse era o eufemismo que usavam para o desastre ambiental, a agitação social, a explosão nuclear, o vírus incontrolável ou os hackers-robôs que destroem tudo.
Essa única pergunta os ocupou pelo resto do tempo. Sabiam que guardas armados viriam para proteger seus complexos das multidões enfurecidas. Mas como pagariam os guardas, já que o dinheiro não teria valor? O que evitaria que os guardas escolhessem os próprios líderes? Os bilionários consideravam usar fechaduras de combinação especial que só eles conheciam para guardar sua provisão de comida. Ou fazer com que os guardas usassem colares disciplinares de algum tipo, em troca de sua sobrevivência. Ou talvez construir robôs para servir de guardas e trabalhadores – se essa tecnologia fosse desenvolvida a tempo.
Foi quando me bateu. Para esses senhores, essa era uma conversa sobre o futuro da tecnologia. Seguindo as dicas de Elon Musk colonizando Marte, Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil inserindo suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor, do que com transcender inteiramente a condição humana e isolar-se do perigo hoje real das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia tem a ver com uma única coisa: escapar.
Não há nada de errado com avaliações loucamente otimistas de como a tecnologia pode beneficiar a sociedade humana. Mas o movimento atual de uma utopia pós-humana é outra coisa. É menos uma visão da migração da humanidade para um novo estado do ser do que uma busca de transcender tudo o que é humano: corpo, interdependência, compaixão, vulnerabilidade, complexidade. Como filósofos da tecnologia vêm apontando há anos, a visão transhumanista reduz muito facilmente toda a realidade a dados, concluindo que “ humanos não passam de objetos processadores de informação”.
É uma redução da evolução humana a um videogame em que alguém vence encontrando a saída de emergência e deixando alguns de seus melhores amigos pelo caminho. Serão Musk, Bezos, Thiel… Zuckerberg? Esses bilionários são os vencedores presumíveis da economia digital – o mesmo cenário de sobrevivência do mais apto que alimenta a maior parte dessa especulação.
Claro que nem sempre foi assim. Houve um breve momento, no início dos anos 1990, em que o futuro digital parecia aberto a nossa invenção. A tecnologia estava se tornando um playground para a contracultura, que via nela a oportunidade de criar um futuro mais inclusivo, igualitário e pró-humano. Mas os interesses de lucro do establishment viram somente novos potenciais para a velha exploração, e muitos tecnólogos foram seduzidos pelos unicórnios das bolsas de valores. O futuro digital passou a ser compreendido mais como ações futuras ou mercadorias futuras – algo a ser previsto e em que apostar. Assim, quase todos os discursos, artigos, estudos, documentários ou documentos técnicos eram considerados relevantes apenas na medida em que apontavam para um símbolo de corporação global. O futuro tornou-se menos uma coisa que criamos através de nossas escolhas ou esperanças pela humanidade, do que um cenário predestinado no qual apostamos com nosso capital de risco, mas ao qual chegamos passivamente.
Isso liberou todo mundo das implicações morais de suas atividades. O desenvolvimento da tecnologia tornou-se menos uma história de florescimento coletivo do que de sobrevivência pessoal. Pior, como vim a aprender, chamar atenção para isso era ser involuntariamente considerado um inimigo do mercado ou um rabugento antitecnológico.
A esta altura, o invés de tecer considerações éticas sobre empobrecer ou explorar muitos, em nome de poucos, a maioria dos acadêmicos, jornalistas e escritores de ficção científica passou a se dedicar a enigmas muito mais abstratos e fantasiosos: é justo um operador nos mercados financeiros usar drogas inteligentes? As crianças devem receber implantes para línguas estrangeiras? Queremos que veículos autônomos priorizem a vida dos pedestres, em detrimento dos passageiros? Devem as primeiras colônias de Marte ser administradas como democracias? Mudar meu DNA prejudica minha identidade? Os robôs devem ter direitos?
Fazer esse tipo de pergunta, embora filosoficamente divertido, é um substituto pobre para o exame dos verdadeiros dilemas morais associados ao desenvolvimento tecnológico desenfreado, em nome do capitalismo corporativo. As plataformas digitais já tornaram um mercado explorador e extrativista (pense na Walmart), em um sucessor ainda mais desumanizador (pense na Amazon). A maioria de nós tornou-se consciente desse lado sombrio na forma de empregos automatizados, trabalho temporário e o fim do varejo local.
Porém, os impactos mais devastadores desse capitalismo digital que avança recaem sobre o meio ambiente e os pobres do mundo. A produção de alguns de nossos computadores e smartphones ainda usa redes de trabalho escravo. Essas práticas estão tão profundamente arraigadas que uma empresa chamada Fairphone, fundada  a partir do zero para produzir e comercializar telefones éticos, verificou que era impossível. (Agora o fundador da empresa se refere a seus produtos como telefones “mais justos”)…
Enquanto isso, a mineração de metais raros e o descarte de nossas tecnologias altamente digitais destroem habitats humanos, substituindo-os por depósitos de lixo tóxico — recolhido por crianças camponesas e suas famílias, que vendem materiais utilizáveis de volta aos fabricantes.
Essa externalização — “fora da vista, fora da mente” — da pobreza e do veneno não desaparece apenas porque cobrimos nossos olhos com óculos de realidade virtual e ficamos imersos numa realidade alternativa. Quanto mais ignoramos as repercussões sociais, econômicas e ambientais, mais elas se tornam problemáticas. Isso, por sua vez, motiva ainda mais privação, mais isolacionismo e fantasia apocalíptica – e tecnologias e planos de negócios mais concebidos em desespero. O ciclo se retroalimenta.
Quanto mais comprometidos estamos com essa visão de mundo, mais passamos a ver os seres humanos como problema e a tecnologia como solução. A própria essência do que significa ser humano é tratada menos como uma característica do que como defeito intrínseco, um bug. As tecnologias são declaradas neutras, a despeito dos preconceitos nelas incorporados. Quaisquer que sejam os comportamentos ruins que induzam em nós, eles seriam apenas um reflexo de nosso próprio núcleo corrompido. É como se alguma selvageria humana inata fosse a culpada pelos nossos problemas. Assim como a ineficiência de um mercado de táxi local pode ser “resolvida” com um aplicativo que leva motoristas humanos à falência, as incômodas incoerências da psiqué humana podem ser corrigidas com um upgrade digital ou genético.
Em última análise, segundo a ortodoxia tecnosolucionista, o futuro humano chega ao climax se inserir nossa consciência num computador ou, talvez anda melhor, aceitar que a própria tecnologia é nossa sucessora na evolução. Como os membros de um culto gnóstico, ansiamos por entrar na próxima fase transcendente de nosso desenvolvimento, eliminando nossos corpos e deixando-os para trás junto com nossos pecados e problemas.
Nossos filmes e programas de televisão encenam essas fantasias por nós. Seriados de zumbis mostram um pós-apocalipse em que as pessoas não são melhores que os mortos-vivos – e parecem conhecê-los. Pior, esses filmes convidam os espectadores a imaginar o futuro como uma batalha de soma zero entre os humanos remanescentes, onde a sobrevivência de um grupo depende da morte de outro. Mesmo Westworld – baseado num romance de ficção científica em que robôs correm descontroladamente – encerrou sua segunda temporada com a revelação definitiva: os seres humanos são mais simples e previsíveis do que as inteligências artificiais que criamos. Os robôs aprendem que cada um de nós pode ser reduzido a apenas algumas linhas de código e que somos incapazes de fazer escolhas intencionais. Caramba, naquela série até mesmo os robôs querem escapar dos limites de seus corpos e passar o resto de suas vidas numa simulação de computador.
A ginástica mental requerida por essa profunda inversão de papéis entre humanos e máquinas depende do pressuposto subjacente de que os humanos são péssimos . Vamos mudá-los ou nos afastar deles para sempre.
Então, temos bilionários da tecnologia lançando carros elétricos ao espaço – como se isso simbolizasse algo mais que a capacidade de um bilionário promover-se na corporação. E se poucas pessoas conseguem escapar e de alguma forma sobreviver numa bolha em Marte – a despeito de nossa incapacidade de manter tal bolha até mesmo aqui na Terra, em qualquer dos dois testes multibilionários feitos na Biosfera – o resultado será menos a continuação da diáspora humana que um salva-vidas para a elite.
Quando os financistas de fundos hedge perguntaram sobre a melhor maneira de manter a autoridade sobre suas forças de segurança depois do evento, sugeri que sua melhor aposta seria tratar muito bem essas pessoas, desde já. Deviam envolver-se com suas equipes de segurança como se estas fossem formadas por membros de suas próprias famílias. E quanto mais eles pudessem expandir esse espírito de inclusão para o resto de suas práticas de negócios, gerenciamento da cadeia de suprimentos, esforços de sustentabilidade e distribuição de riqueza, menor a chance de haver um evento, em primeiro lugar. Toda essa magia tecnológica poderia ser aplicada desde já, para fins menos românticos, porém muito mais coletivos.
Eles ficaram pasmos com meu otimismo, mas na verdade não o aceitaram. Não estavam interessados em como evitar uma calamidade; estavam convencidos que já fomos longe demais. Apesar de toda a sua riqueza e poder, não acreditam que possam afetar o futuro. Estão simplesmente aceitando o mais sombrio de todos os cenários e, em seguida, trazendo todo o dinheiro e tecnologia que podem usar para isolar-se – especialmente se não conseguirem um lugar no foguete para Marte.
Felizmente, aqueles de nós sem dinheiro para considerar a negação de nossa própria humanidade têm disponíveis opções muito melhores. Não precisamos usar a tecnologia de modo tão antissocial e atomizante. Podemos nos tornar os consumidores e perfis individuais em que nossos dispositivos e plataformas desejam nos transformar, ou podemos nos lembrar que o humano verdadeiramente evoluído não caminha sozinho.
Ser humano não tem a ver com sobrevivência ou saída individual. É um esporte coletivo. Seja qual for o futuro dos humanos, será de todos nós.
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Douglas Rushkoff is the author of the upcoming book Team Human (W.W. Norton, January 2019) and host of the TeamHuman.fm podcast.