Mostrar mensagens com a etiqueta Hungria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hungria. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


sábado, 11 de abril de 2026

A Internacional Reacionária - de olho nas legislativas da Hungria



Como lhe chamou Macron, tem uma agenda clara: destruir o estado de direito, a democracia, a igualdade de direitos entre mulheres e homens, a sociedade baseada no conhecimento e a imprensa livre. A UE é o principal alvo porque é a entidade mais forte que coloca em causa o modelo de poder da Internacional Reacionária e a geopolítica assente no princípio de quem tem a moca maior manda mais. 
Os aspirantes a ditadores, Ventura, Orbán, Le Pen, Salvini, Fico, Abascal que têm servido de caixas de ressonância de Putin e de Trump, conhecem bem o seu papel: à primeira oportunidade é mandar a UE abaixo. Depois será muito mais simples abater nações isoladamente para os confins do autoritarismo, de sociedades em que as mulheres se resumirão a cozinheiro-parideiras, os homossexuais serão considerados doentes, em que a ciência será substituída pelo fanatismo religioso e onde a imprensa será um mero papagaio do querido líder.
Esta semana foram todos apoiar o maior corrupto da Europa, Orbán, que está em maus lençóis para se manter no poder. Mas segundo consta, Orbán já tem um plano para ser presidente depois do mandato de primeiro-ministro expirar. Só espero que a Europol tenha tempo suficiente para lhe meter as mãos em cima assim que acabar a imunidade política. 

A Conexão Budapeste-Lisboa: O Fim do "Manual Orbán" para o Chega?
A sobrevivência política de Viktor Orbán está, pela primeira vez em dezasseis anos, seriamente ameaçada pelo fenómeno ascendente de Péter Magyar e do seu partido Tisza. No entanto, o abalo sísmico desta possível queda não se limita às margens do Danúbio; as réplicas far-se-ão sentir com intensidade na sede do Chega, em Lisboa. Embora André Ventura tenha construído uma narrativa de autonomia nacionalista, o partido é um beneficiário direto do ecossistema iliberal que Orbán exportou para a Europa. A questão central que paira sobre esta aliança é o dinheiro: houve, afinal, fluxos financeiros diretos de Budapeste para Lisboa?

Até ao momento, as investigações do Tribunal de Contas e de consórcios de jornalismo de investigação, como o OCCRP, não encontraram o chamado "fumo da arma" — uma transferência bancária explícita de fundos estatais húngaros para as contas oficiais do Chega. Contudo, a influência financeira manifesta-se de forma muito mais subtil e eficaz através da chamada "Via dos Think Tanks". O Mathias Corvinus Collegium (MCC), uma instituição financiada com milhares de milhões de euros pelo Estado húngaro, tem servido como o braço logístico desta internacional de direita. Através do financiamento de conferências de luxo, viagens internacionais e programas de "formação política" para quadros da direita radical, o dinheiro de Orbán garante uma infraestrutura de apoio que partidos como o Chega dificilmente sustentariam sozinhos. É, na prática, um financiamento indireto de uma guerra cultural coordenada.

A esta rede de influência soma-se o "Mistério do Dubai" e a aquisição da Euronews. A revelação de que fundos ligados ao círculo íntimo de Orbán foram utilizados para comprar órgãos de comunicação internacionais através de estruturas offshore levantou suspeitas legítimas sobre a existência de canais semelhantes para apoiar campanhas digitais e propaganda a favor de aliados europeus. Se o dinheiro não entra diretamente no partido, ele parece circular no ar, financiando o ecossistema mediático que sustenta as suas mensagens.

Pairando sobre tudo isto está a "Sombra de Putin". Orbán tem sido frequentemente descrito como o cavalo de Troia do Kremlin na União Europeia, bloqueando sanções e mantendo uma ambiguidade estratégica que serve os interesses russos. Para André Ventura, esta ligação é um "abraço de urso": embora o Chega tente manter uma fachada pró-Ucrânia para não alienar o eleitorado português, a sua integração no grupo parlamentar Patriotas pela Europa coloca-o sob o mesmo teto financeiro e estratégico que os aliados mais próximos de Moscovo. Se Péter Magyar vencer na Hungria e decidir abrir os arquivos do Fidesz, o que poderá ser descoberto sobre o apoio logístico a partidos "irmãos" no sul da Europa poderá ser politicamente fatal.

O fim do modelo de Orbán significaria, para o Chega, a perda da sua principal validação institucional. Orbán era a prova viva de que era possível ser "anti-sistema", capturar o Estado e governar contra as diretrizes de Bruxelas. Sem o manual de instruções de Budapeste e sem a rede de segurança financeira e política que o grupo de Orbán providencia no Parlamento Europeu, Ventura ficaria isolado. O Chega pode não ser um satélite direto de Budapeste, mas se o regime húngaro cair amanhã, o partido português perderá não apenas um aliado, mas as "vias verdes" de influência e os recursos invisíveis que ligam Lisboa a Budapeste e, por via indireta, a Moscovo.

Conclusão: existe  uma convergência de interesses. Orbán quer aliados que fragilizem a coesão da UE, e partidos como o Chega beneficiam do apoio logístico e da validação internacional que Orbán (enquanto chefe de governo) lhes confere. É um jogo de "soft power" e alinhamento ideológico que, por vezes, é tão eficaz quanto o dinheiro direto.

Saber mais:
1. Hungria cada vez mais próxima da Rússia e dos EUA vai a votos depois de uma campanha marcada por acusações de manipulação
2. Porque é que esta eleição na Hungria interessa e é diferente das outras
3. A conexão evangélica e a Internacional Reacionária


4. A ascensão do autoritarismo reacionário global

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ibolya Taligas

Ibolya Taligas (aquarelista Húngara, nascida em 1974)

Vive há mais de 30 anos, em Londres. 
Estilo pictórico
Trabalha sobretudo numa linguagem figurativa, com forte componente realista, especialmente em paisagens, vistas urbanas e naturezas-mortas.
A paleta é geralmente luminosa, com uso expressivo da cor e valorização de atmosferas naturais e ambientes mediterrânicos/atlânticos (praias, cidades históricas, castelos).
Temas recorrentes
1. Paisagens costeiras e praias, como em “Fuerteventura Beach”.
​2. Cidades históricas e arquitetura tradicional, como Gjirokastra (Albânia) e o respetivo castelo.
​3. Naturezas-mortas simples, como composições com frutos (“Three Pears on the table”).
4. Retratos femininos ou de infância 
Técnica e materiais
As obras são apresentadas como pinturas de cavalete em suporte tradicional (tela ou painel), usando sobretudo técnicas de pintura a óleo ou acrílico, típicas da produção figurativa contemporânea; 
A técnica enfatiza desenho definido, volumes bem modelados e camadas de cor relativamente limpas, mais próximas de um realismo lírico do que de abordagens abstractas.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

László Krasznahorkai - Herscht 07769


László Krasznahorkai, escritor húngaro de prestígio internacional, acabado de ser galardoado com o Prémio Nobel de Literatura, é conhecido pela sua prosa densa e pela abordagem singular dos temas existenciais. Em “Herscht 07769”, Krasznahorkai oferece-nos uma obra que desafia as convenções literárias, mergulhando o leitor numa narrativa onde o tempo, o espaço e o próprio sentido da realidade são postos em causa.

A escrita fragmentada e as frases longas, características do autor, são muito evidentes neste livro. Aliás, “Herscht 07769” não tem frases longas: mais do que isso, é uma única frase da primeira à última página. O único ponto final está na página 379, ou seja, no fim do livro.

“Herscht 07769” explora a vida dos habitantes de Kana, uma pequena localidade alemã. Krasznahorkai constrói um ambiente quase claustrofóbico, onde o quotidiano daquela população se transforma numa reflexão filosófica sobre o destino, a solidão e a busca de sentido. O número 07769, que aparece no título, remete para o código postal da vila. Florian Herscht, o personagem central, passa o livro todo a escrever cartas para Angela Merkel, a chanceler alemã, nas quais indica no remetente somente o seu nome e o código postal. Toda a gente o conhece em Kana e o código postal é suficiente para os Correios identificarem a localidade de destino da resposta da Chanceler. Esta simplificação simboliza a universalidade das questões abordadas: o que significa existir num mundo aparentemente insignificante, face à imensidão do universo? Efetivamente, o autor mostra como Kana, na sua pequenez, encerra em si todas as questões do ser humano, da natureza, da Alemanha, do mundo, da galáxia, de todo o universo, o assunto que Herscht, na sua simplicidade, desenvolve nas suas cartas.

Um dos grandes méritos de Krasznahorkai é a sua capacidade de transformar o banal em algo profundamente metafísico. O autor questiona a essência da existência humana, o papel do acaso na vida, e as limitações da linguagem para expressar o indizível. O ambiente rural, isolado e quase estagnado em que Herscht vive, serve de palco para estas reflexões, funcionando como um microcosmo da condição humana.

A obra aborda a alienação, tanto social como espiritual, e a dificuldade de comunicação entre os personagens, que muitas vezes parecem falar para si próprios ou para um vazio existencial.

A prosa de Krasznahorkai é notoriamente exigente. “Herscht 07769” não foge à regra: o autor utiliza pontuação mínima numa construção narrativa labiríntica, que só termina na última página. Se não fosse a extensão do livro (que é maior do que parece, dada a falta de parágrafos e a formação justificada – linhas encostadas à direita e à esquerda), dava vontade de ler sem parar, mesmo sem respirar, se fosse possível. Os temas surgem encadeados, sem soluções de continuidade, como pulsações. Este estilo pode desafiar o leitor, mas recompensa quem aceita o convite para mergulhar na densidade do texto. O ritmo lento e a atenção aos detalhes criam uma atmosfera hipnótica, que obriga à introspeção.

“Herscht 07769” foi recebido com entusiasmo pela crítica internacional, que destaca a originalidade da abordagem e a profundidade filosófica da obra. Este romance, o seu livro mais recente, confirma Krasznahorkai como um dos grandes nomes da literatura contemporânea europeia, capaz de reinventar a forma como pensamos o romance.

Apesar de não ser uma leitura fácil, “Herscht 07769” é uma experiência literária marcante, recomendada para leitores que apreciam desafios intelectuais e que procuram obras que sejam mais do que mero entretenimento.

Em conclusão: “Herscht 07769” é um livro que exige tempo, paciência e disponibilidade emocional. Krasznahorkai oferece-nos uma viagem ao coração da existência, onde cada página é uma oportunidade de reflexão sobre o sentido da vida, a passagem do tempo e o papel do indivíduo no mundo. Uma obra imperdível para quem valoriza a literatura como arte e como instrumento de autoconhecimento.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Eva Lászlóné Wágner


Eva Lászlóné Wágner (pintora Húngara, nascida em 1956)

O trabalho artístico de Eva Wágner caracteriza-se principalmente pela pintura a óleo, embora também utilize acrílico. O seu repertório temático é amplo e diversificado, abrangendo composições figurativas, influências cubistas, ícones religiosos e paisagens.

Nos últimos anos, a artista evoluiu para uma expressão mais impressionista e abstrata, na qual combina referências realistas com uma interpretação contemporânea e emocional. 

As suas obras exploram cores intensas, forte dinamismo expressivo e composições abertas, convidando o observador a uma leitura subjetiva e sensível da pintura.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Gabor Maté: “No Ocidente há um vazio profundo, que vem da falta de pertença, da perda de ligação”

"
O corpo e a mente são inseparáveis e o modo de vida ocidental põe-nos doentes, diz este médico-pensador. Os seus livros são best-sellers. Um deles chama-se 'No Reino dos Fantasmas Famintos'.
Pedro Rios, Público, 2/05/2025

Ela tinha 27 anos. Era trabalhadora do sexo e tinha VIH. “A primeira vez que consumi heroína foi como um abraço quente e terno”, disse esta toxicodependente de Vancouver ao médico Gabor Maté, que então trabalhava com esta população.
No gueto das drogas de Vancouver, Maté ouviu muitas histórias idênticas. Como a de Nick, viciado em heroína e metanfetaminas, consumidor de drogas “para não sentir a porcaria dos sentimentos” que sentia quando não as consumia; a de Frank, “alma doce”, “solitário heroinómano”, que escreveu num poema que procurava “alívio para a dor”, mas só encontrou um “bilhete de ida num comboio para o inferno”; ou a de Serena, mulher indígena de pouco mais de 30 anos que encontrava nas drogas uma forma de esquecer os abusos sexuais que começou a sofrer aos 7 anos.
São histórias contadas por Gabor Maté em 'No Reino dos Fantasmas Famintos', finalmente publicado em Portugal. Disseram-lhe que o livro humaniza os toxicodependentes, um reconhecimento que “reflecte uma percepção errada fundamental e comum”, a de que os viciados em droga não são realmente humanos como os restantes. “O que impede tantas pessoas de verem isso?”
Com mestria de contador de histórias e apoiado por estudos e pela sua experiência como médico residente da Portland Hotel Society (uma organização sem fins lucrativos que apoia toxicodependentes, dando-lhes alojamento e cuidados médicos), Maté explica que as drogas são o fraco e sempre incompleto consolo de muitos humanos (como Nick, Frank e Serena), preenchendo vazios afectivos que remontam quase sempre à infância, tal como o trabalho, o jogo, a pornografia ou compras são respostas aos vazios de outros. “A nossa sociedade, com pessoas cada vez mais desesperadas para escapar ao isolamento e desânimo das suas vidas quotidianas, está repleta de todos os tipos de dependências, e cada vez surgem mais”, escreve o autor, que, em 2018, foi distinguido com a Ordem do Canadá.
Quando publicou este livro, em 2008, o húngaro-canadiano era já conhecido como especialista em temas como as dependências, o stress, o trauma, o desenvolvimento infantil e o défice de atenção. Os seus livros, as suas palestras e as suas entrevistas chegam a uma multidão de pessoas à procura de respostas num mundo agitado, nervoso, ansioso como elas. No livro que se seguiu, 'O Mito do Normal' (2022), interpreta várias epidemias no Ocidente (como a de obesidade ou de doenças mentais) como, em boa medida, manifestações de uma cultura “doente”, que negligencia que corpo e mente são indissociáveis, que varre para debaixo do tapete os traumas e o stress que carregamos nesse corpo-mente.
Ele que o diga. Conta com frequência que, aos 12 meses, foi temporariamente abandonado pela mãe. Na verdade, a mãe entregou o bebé Gabor a familiares para lhe salvar a vida (o episódio passou-se na Hungria sob o domínio nazi, em 1944, e os Maté são uma família judia). “Vivi aquele acontecimento da única forma como um bebé poderia viver: como abandono”, escreve no livro agora editado em Portugal. O “abandono” ficou como que inscrito nos circuitos cerebrais do médico. Encheu esse vácuo com o serviço a populações vulneráveis, mas também com uma compulsão de compras de CD de música clássica e um vício no trabalho, uma forma de mostrar o seu valor. Por isso, os toxicodependentes de Vancouver reconheciam nele outro “fantasma faminto”.
Trauma é a palavra grega para “ferida”. Escreve em 'O Mito do Normal': “As feridas psíquicas que sofremos são-nos frequentemente infligidas antes de o nosso cérebro ser capaz de formular qualquer tipo de narrativa verbal, como no meu próprio caso. Em segundo lugar, mesmo depois de nos tornarmos dotados de linguagem, algumas feridas são impressas em regiões do nosso sistema nervoso que não têm nada que ver com linguagem ou conceitos; isto inclui áreas do cérebro, claro, mas também o resto do corpo.”
“Por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe?”, diz nesta entrevista ao Ípsilon por videochamada. “Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.”

No 'Reino dos Fantasmas Famintos' foi publicado originalmente em 2008 e chega agora a Portugal. O que o levou a escrever este livro e como o vê hoje, 17 anos depois?
Pensei que seria interessante escrever sobre a experiência de trabalhar em Vancouver, numa zona de grande consumo de droga. Ao pesquisar, espantei-me: não havia um único livro que reunisse histórias de vida das pessoas, a ciência do trauma, a ciência do desenvolvimento do cérebro e da psicologia, e que olhasse para a sociedade. Toda a ciência e a experiência acumulada desde então só validam o que escrevi.
Muitas pessoas disseram-me que este livro lhes salvou a vida. Houve até pais cujos filhos morreram de overdose que vieram ter comigo para me agradecer. E isso também me surpreendeu porque digo no livro que os traumas de infância estão na base da toxicodependência. Esses pais agradecem-me porque compreendem que não os estou a culpar: [o trauma] é multigeracional.
Há vários cépticos da valorização que faz dos traumas infantis para comportamentos como as dependências. Dizem que exagera, que pode haver outras causas.
Em 'O Mito do Normal', voltei a olhar para a literatura [científica] mais recente e aconteceu a mesma coisa: mais provas, mais provas, mais provas. Os cépticos não têm em conta a forma como o cérebro é verdadeiramente programado ou influenciado no seu desenvolvimento pelas experiências emocionais das pessoas — até no útero. Não invento estas coisas. Para mim, nem sequer é controverso.

É muito interessante a forma subtil como passa das histórias de toxicodependentes de Vancouver para a sua própria história de viciado — em trabalho e em compras de CD de música clássica. Escreve que chegou a gastar dois mil dólares em apenas um mês e meio.
Outras pessoas pensam: como é que se pode comparar aos toxicodependentes? Eu respondo que as diferenças entre mim e eles são óbvias, mas as semelhanças é que são interessantes: o impulso, a impotência perante o impulso, a mentira, a batota, a desonestidade, o ignorar de outros aspectos da vida. E os circuitos cerebrais são os mesmos.
Quando contei aos meus pacientes toxicodependentes os meus hábitos, eles não disseram “Como é que te podes comparar?”, mas antes “És igual a todos nós, não és?”.
Onde quer que eu fale, digo às pessoas que as dependências podem ser de drogas, mas também de sexo, jogo, alimentação, compras, trabalho, pornografia, bulimia ou automutilação. Quando perante 8000 pessoas, como aconteceu em Sydney, em Fevereiro, peço que quem tem uma dependência que levante a mão, 7999 levantam. É muito importante que as pessoas percebam que os toxicodependentes não são assim tão diferentes. Apenas sofreram mais, só isso.

As dependências são respostas aos vazios que carregamos?
Quando perguntamos às pessoas não o que está errado com a dependência, mas o que está certo, o que é que ela faz por elas a curto prazo, dizem: “entorpece a minha dor”, “diminui o meu stress”, “faz-me sentir mais vivo”, “dá-me prazer”, “relaxa-me”. São coisas boas. A dependência não é o problema principal, o problema principal é o sofrimento e a dor emocionais, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento, a perda de vitalidade. É esse o vazio de que estou a falar. Ele vem primeiro e as dependências vêm depois. E isso remonta sempre à infância.

Nesta edição de 'No Reino dos Fantasmas Famintos', dá Portugal, onde a posse de drogas para uso pessoal foi despenalizada, como raro bom exemplo nesta matéria. A tendência vai em que sentido?
O que vejo a nível internacional são países a caminhar na direcção oposta. São duros perante o crime e as drogas — como na Hungria, o meu país natal, onde acabaram de aprovar uma série de leis duras [contra a droga], sem estratégia de redução de danos. Nos Estados Unidos e no Canadá, há uma pressão no mesmo sentido.

Do trabalho aos smartphones, porque é que parece haver tantas dependências no Ocidente?
Para sermos justos, temos de dizer que as dependências já existem há muito tempo, muito antes do surgimento da sociedade ocidental. Mas pioraram. É uma questão de necessidades das pessoas. Quando as necessidades de amor, aceitação e pertença são satisfeitas, as pessoas não precisam de se viciar. Nos Estados Unidos, morrem de overdose o dobro das pessoas que morreram nas guerras do Vietname, do Afeganistão e do Iraque juntas, todos os anos. O dobro! O que aconteceu? Nos centros industriais dos Estados Unidos, os empregos foram deslocados para o estrangeiro. Sem empregos, as pessoas perderam um sentido, especialmente os homens da classe trabalhadora, e o seu sentimento de pertença e de propósito. Esta sociedade diz-nos que o nosso significado, o nosso propósito e o nosso valor dependem da nossa contribuição económica ou das nossas posses.
Se olharmos para as culturas indígenas, percebemos que a forma como evoluímos ao longo de centenas de milhares de anos prevê um sentimento de pertença, de comunidade, de carinho, de ligação. Já a sociedade ocidental diz que os seres humanos são individualistas, egoístas, agressivos e interessados em bens materiais. Numa cultura assim, as necessidades das pessoas não são satisfeitas e há um vazio profundo e real, que vem do sentimento de falta de pertença, da perda de ligação.
Isso remonta à infância. As crianças deviam estar com os pais durante anos e anos e anos. [Em sociedades antigas] ficavam com os pais até à adolescência — não apenas com os pais, mas também com a tribo ou o clã. Hoje em dia, os pais têm de abandonar os filhos para ir trabalhar, deixando-os com estranhos. Há uma sensação geral de isolamento, solidão e desconexão, e as crianças não têm o ambiente propício para um desenvolvimento saudável.
E não é só isso. Há indústrias inteiras que se baseiam em dizer-nos que não somos suficientemente bons ou felizes a menos que compremos alguma coisa. Continuam a fomentar este vazio em nós para poderem vender os seus produtos.
Sou pai. Ouvi com frequência que devemos deixar os bebés dormir sozinhos, mesmo que chorem, porque isso dá-lhes “independência”, “maturidade”.
Diga a uma mãe macaca para ignorar o seu bebé. Nesta sociedade, os peritos dizem-lhe para ignorar os seus instintos. Qual é o seu instinto quando o seu bebé está a chorar?

Confortá-lo, abraçá-lo.
Exactamente. Não espanta que as pessoas tenham problemas.

Pais e filhos, corpo e mente e “a destruição das relações tradicionais, da família alargada, do clã, da tribo e da aldeia” (No 'Reino dos Fantasmas Famintos') devido às mudanças económicas e sociais. O seu pensamento denuncia um mundo que promove, de várias formas, a separação. Um neurocientista português, António Damásio, que o Gabor costuma citar, falou no “erro de Descartes”, a separação do corpo e da mente. Ainda estamos nesse mundo cartesiano?
Estamos. Todos os meus livros são sobre isso. Há toda uma ciência que mostra a unidade corpo-mente, ela é evidente, mas nas faculdades de Medicina ensinam-nos que o corpo e a mente são coisas separadas. O médico médio não recebe uma única palestra sobre trauma, apesar de o trauma ser uma influência tão grande na vida e no desenvolvimento das pessoas. Há um fosso entre a ciência e a prática. A prática ainda está presa a essa divisão cartesiana.
E há razões para isso. Se reconhecêssemos, como sociedade, que as emoções das pessoas e a sua fisiologia são inseparáveis, trataríamos as pessoas da mesma forma? Iríamos controlá-las, oprimi-las e manipulá-las? O capitalismo olha para o corpo como uma unidade de produção ou como uma unidade de consumo: está interessado em nós enquanto estivermos a produzir ou a consumir.

Em "O Mito do Normal" dá vários exemplos de atitudes e realidades consideradas normais nas sociedades ocidentais, mas que, segundo diz, criam doenças e disfunções. Pode dar exemplos?
Há certos limites fisiológicos que são normais. Se a sua tensão arterial estiver num intervalo normal, está saudável. “Normal” significa saudável e natural, mas tem outro significado, que é o que quer que seja que costumamos fazer. Numa determinada altura, era normal bater nas crianças — e em muitos países ainda é assim, lá é normal porque muita gente o faz. Mas será que é saudável e natural? Não. É traumatizante para a criança, em todos os casos. É normal nas sociedades ocidentais deixar os bebés chorar e não pegar neles. É normal porque toda a gente o faz. É saudável e natural? Pelo contrário. É normal nas sociedades ocidentais que se diga às pessoas que os seres humanos são egoístas e agressivos. Isso é saudável e natural? Não, não é. É normal ter de fazer um trabalho de que não se gosta? É alienante. É normal no sentido em que se espera que as pessoas o façam. É saudável e natural? Não, é mau para a saúde.

A série televisiva 'Adolescência' levou para o mainstream fenómenos como a cultura incel (“celibatários involuntários” que não conseguem ter relações amorosas com mulheres e que, muitas vezes, as culpam por isso ou as odeiam). Ficou surpreendido com o conteúdo de Adolescência?
É uma série muito poderosa, incrivelmente bem feita. Esses miúdos estão totalmente perdidos no seu próprio mundo e estão desligados dos adultos. E os resultados são desastrosos. Foi por isso que escrevemos este livro [mostra Hold On To Your Kids, co-escrito com o psicólogo Gordon Neufeld], há 20 anos. Faz parte da “normalidade” do mundo moderno o facto de as crianças estarem desligadas dos adultos. Para o desenvolvimento infantil, é um desastre.

Vivemos numa era de “homens fortes” e que desvalorizam ou desprezam a empatia: Donald Trump, Viktor Orbán, Elon Musk… A sua teoria da dependência aplica-se a eles?
Um académico [Robert Hare] que estudou personalidades psicopáticas disse [em 2002]: “Nem todos os psicopatas estão na prisão, alguns estão na sala de reuniões.” Olhemos para algo como o clima. Desde 1970 que tem havido todo o tipo de provas científicas sobre o que estamos a fazer ao clima e as suas consequências. As companhias petrolíferas sabiam-no. Ignoraram a ciência, contrataram cientistas falsos para a negar e políticos para lhes permitirem continuar a destruir a Terra. Bem, isso é sociopatia. [A crise climática] já matou dezenas de milhares de pessoas.
Trump foi uma criança muito traumatizada. Uma vez, ele disse que o mundo é um lugar horrível, onde todos estão contra nós, salve-se quem puder; os teus amigos querem a tua casa, a tua riqueza, a tua mulher. Bem, se é nisso em que acreditamos, quem é que temos de ser? Temos de ser grandiosos, agressivos, manipuladores e egoístas só para nos protegermos. Esta foi a defesa [de Trump].
Nesta sociedade louca, essas pessoas são recompensadas com sucesso. E as pessoas pensam que são fortes e que, por isso, são bons líderes. Mas não são fortes, são apenas agressivos.

Vê vias de fuga para este quadro global?
A história do mundo, incluindo a de Portugal, passa por ciclos. Portugal teve a sua história de repressão e ditadura.
Os judeus, o meu povo, sofreram terrivelmente em vários momentos da História, sobretudo na Europa dos anos 30 e 40. O que é que eles estão a fazer agora? A assassinar os palestinianos! Assassinam-nos! Crianças! É a pior coisa que já vi em toda a minha vida.
A história funciona por ciclos. Penso que estamos a passar por um desses ciclos. O sistema está em dissolução, está em apuros, é cada vez menos capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, e, por isso, elas estão desesperadas por algum tipo de solução, por alguém forte. Projectam as suas necessidades nesses líderes, que são viciados em poder.
Estamos longe dos “fantasmas famintos”, mas é a mesma coisa. O sistema está sempre com fome. Nunca tem o suficiente. Tem de continuar a crescer, a crescer e a crescer. E não importa qual seja o custo. Se precisarmos destruir a Terra, destruiremos a Terra.

Porque é que conta tantas vezes, nos seus livros e nas suas palestras e entrevistas, a história de como foi temporariamente entregue pela sua mãe a alguém que para si, então um bebé de 12 meses, era uma perfeita desconhecida? Isto no contexto da Hungria sob o jugo nazi.
Conto essa história porque é muito comum algum tipo de abandono, talvez não tão dramático como o que me aconteceu. Tantas crianças experimentam a perda de ligação, a perda de carinho, a perda de serem vistas, também de serem compreendidas, a perda de serem abraçadas emocionalmente. Conto a minha história porque quero que as pessoas se sintam normais. Quero que compreendam que somos todos iguais e que o que aconteceu há 80 anos ainda pode aparecer na minha vida. Utilizo essa história para ilustrar o poder ou o impacto da experiência precoce.
É visto como o oposto de Jordan Peterson — curiosamente, também canadiano. Ele vê as coisas de forma diferente. Advoga que castigar crianças é benéfico para elas. Sublinha a importância da ordem e da disciplina férrea. O pensamento de Peterson é hoje particularmente sedutor para homens adolescentes ou adultos.
Peterson fala da raiva que as pessoas têm — e as pessoas estão mesmo zangadas. As pessoas estão zangadas quando estão frustradas — e estão frustradas quando as suas necessidades não estão satisfeitas. Há uma escassez de empregos e de amor neste mundo. E Jordan Peterson aparece a dizer “tens todo o direito de estar zangado porque o problema são estas mulheres que não te amam” ou “o problema são estas pessoas trans que estão a tentar destruir a tua masculinidade”. Ele identifica a raiva — e, quando o ouvimos, notamos que ele está cheio de raiva, a sufocar de raiva — e dá aos seus seguidores um alvo para a raiva. Isso valida-os. Ele não é um psicólogo. É um propagandista político e a direita adora-o.

A raiva é poderosa. Dá-nos uma gratificação, mesmo que temporária. Como as dependências de que fala em No 'Reino dos Fantasmas Famintos'?
Absolutamente. Quando estamos zangados, estamos a gerar poder. É um substituto para a falta de poder que temos na nossa vida. Há uma coisa que ele diz que é verdade: as pessoas devem assumir responsabilidade por si próprias. Mas só se pode assumir responsabilidade quando se compreende realmente o que se está a passar. É isso que tento transmitir.

Foi sionista, mas hoje é um sonoro crítico da política seguida por Israel, antes e depois do 7 de Outubro de 2023, o dia do ataque do Hamas. Haverá poucos sítios mais traumatizados no mundo do que a Palestina. Onde já esteve…
Foi em 1992. Chorei todos os dias. Também estive lá em 2023, seis meses antes do 7 de Outubro, na Cisjordânia, para trabalhar com mulheres que tinham sido torturadas em prisões israelitas.

Que imagens, impressões, sentimentos trouxe de lá?
As pessoas no Ocidente não fazem ideia da crueldade, da opressão, da escuridão, da agressão e da brutalidade da ocupação israelita. Estou a falar de antes do 7 de Outubro. Já dura há décadas e piora todos os anos. É inacreditável! É a pior situação em todo o mundo — há muitas situações más no mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão, mas esta está a acontecer com o apoio e a cumplicidade do mundo “civilizado” e “democrático”. E as mentiras, a hipocrisia e a incapacidade de dizer a verdade ou de informar sobre o que se está a passar.

Vê uma saída?
Como se chama o vosso grande escritor? José Saramago?

Sim.
Li o seu livro sobre Jesus [O Evangelho segundo Jesus Cristo], um belo livro, no ano passado. Portugal pode produzir um Salazar, mas pode também produzir um Saramago, cheio de humanidade e justiça social. E o ser humano é assim. Portanto, eu acredito. Tenho uma certa confiança na verdade. Eu não fazia ideia do impacto que 'Fantasmas Famintos' ia ter, mas ando por todo o mundo e as pessoas dizem-me que o livro salvou as suas vidas. É ensinado nas universidades. Há algo de muito poderoso em dizer as coisas como elas são, em dizer a verdade tal como a entendemos.
Penso que as pessoas têm capacidade para se curar. Penso que as sociedades têm capacidade para se curar. Envolve muito trabalho, muito desânimo, muito sofrimento, mas acho que, no final, é possível. É isso que me faz continuar. Não é uma fé religiosa. É apenas uma espécie de confiança…

É uma fé não religiosa.
É uma fé não religiosa.

Dá entrevistas e palestras, escreve livros. Parece incansável. Dizer o que pensa sobre desenvolvimento infantil, dependências, saúde, a forma como vivemos é uma missão?
[Pega num conjunto de papéis] Isto é um livro de memórias dactilografado que a minha prima escreveu. Ela era psicóloga. E cuidou de mim quando me separei da minha mãe. Foi a família dela que cuidou de mim durante seis semanas. Eu estava muito doente.
Encontrei as memórias dela recentemente, vou traduzi-las do húngaro para si. Quando isto estava a acontecer, em 1944, ela tinha 11 ou 12 anos. E tomou conta de mim com a sua família. E ela diz: “A tosse do Gabor não passava, estava a ficar mais espasmódica e ele com mais cãibras. (...) Não conseguia respirar. Por isso, o meu pai teve de procurar um médico que estivesse disposto a pôr em risco a sua vida.” Porque os médicos estavam proibidos de tratar judeus na Hungria sob o jugo nazi. Isto passa-se em 1944, Janeiro. E ela encontrou um jovem médico, um pediatra. Como é possível que este médico cristão tenha ido ver um bebé judeu? No final, acariciou o meu corpo e disse-me: “Não te preocupes, meu querido. Mais tarde vais pagar-lhes.”
Não conhecia essa história até há pouco tempo. Mas é isso que tenho estado a fazer toda a minha vida: tenho estado a pagar ao mundo. Porque, apesar de toda a tragédia que está nessa história, apesar de toda a tristeza, veja todo o amor que há nela. Imagine a minha mãe a passar-me a um estranho. Quanto amor foi necessário! Imagine uma mulher cristã desconhecida a acolher este bebé judeu. Imagine os meus familiares. Imagine este médico.
A dependência não é o problema principal, é o sofrimento e a dor, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento. É esse o vazio.
Tenho de ser como toda a gente. Acontece que eu sou articulado. E consigo ver coisas e ligações, e isso é bom. Mas, por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe? Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.
Suspeito que veja a natureza humana como intrinsecamente positiva. Mais Rousseau do que Hobbes.
Se pegarmos numa semente de qualquer planta e não lhe dermos sol, nutrição ou irrigação suficientes, como é que a planta vai ficar?

Frágil, como morta.
Pode dizer que é a sua natureza ser assim, mas não é. E se a puser num chão fértil com muitos minerais, luz do sol, água? Eu prefiro não falar da natureza humana, mas de potencial humano e sobre que condições são favoráveis a esse potencial. Sabemos que quando as crianças são bem tratadas, amadas, nutridas, vão ficar bem. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: já foi invejoso ou agressivo?

Sim.
E como se sentiu?
Como se estivesse em piloto automático, sem pensar no que estava a fazer.
E depois disso, o que sentiu?
Uma espécie de ressaca. Remorsos.
E já foi generoso e gentil?
Sim.
E como se sentiu?
Bem.

É a sua natureza, de facto. A questão é que condições a podem fazer florescer.
As primeiras palavras de 'O Mito do Normal': “Na sociedade mais obcecada pela saúde de sempre, nem tudo está bem. A saúde e o bem-estar tornaram-se uma fixação moderna.” Descreve o “dilúvio diário” de notícias ou conteúdos virais a promover modos de “auto-aperfeiçoamento”. “Tomamos suplementos, inscrevemo-nos em estúdios de ioga, mudamos de dieta em série, pagamos testes genéticos, estratégias para prevenir o cancro ou a demência, e procuramos aconselhamento médico ou terapias alternativas para doenças do corpo, da psique e da alma. E, no entanto, a nossa saúde colectiva está a deteriorar-se.” A que se deve este aparente paradoxo?
Quanto mais doente for uma sociedade, quanto mais desesperadas estiverem as pessoas, mais elas querem ser saudáveis. 70% dos adultos americanos tomam um medicamento. Comem lixo! A cultura vende-lhes lixo para comer! E o stress aumenta por causa dessa comida. Claro que as pessoas estão desesperadas por serem saudáveis. Mas não estão à procura das causas, estão só a ver os efeitos.
O mesmo sistema que promove produtos prejudiciais vende produtos para contrariar os seus efeitos?
É um sistema brilhante.

Disse há instantes que o “sistema está em dissolução”, “em apuros”. Mas ele parece particularmente resistente.
É extraordinariamente resistente — mas a que custo? À custa do ambiente, pondo em perigo a existência humana. À custa do sofrimento que impõe em todo o mundo, à custa de deixar o povo doente. O sistema só quer sobreviver, como uma fera. A razão pela qual não só os meus livros, mas outros livros sobre trauma e outros temas, são tão lidos hoje em dia é precisamente porque as pessoas estão à procura de respostas."

quarta-feira, 14 de maio de 2025

‘Ainda mais assustador’: Sandor Lederer, activista anti-corrupção húngaro diz que a era Trump espelha a cleptocracia de Orbán


Alex Wagner conversa com Sandor Lederer, diretor e fundador do organismo anticorrupção húngaro K-Monitor, sobre a dimensão da corrupção na Hungria e como os cidadãos se tornaram insensíveis a ela. Governar através de um escândalo, sugere, pode ser estratégico: sobrecarregar o público até que a indignação desapareça, uma tática que também vê em prática nos EUA sob a administração do presidente Trump. 
Durante a conversa, Lederer traça também paralelos perturbadores entre a tendência autoritária da Hungria e a situação actual nos EUA, onde o nepotismo da era Trump e a consolidação do poder da elite se assemelham ao modelo cleptocrático da Hungria. Para Lederer, é “ainda mais assustador” ver estes padrões a consolidarem-se num país que era anteriormente considerado o detentor das salvaguardas democráticas mais fortes do mundo.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Receita para produzir ditadores


John Shattuck, enquanto presidente da Universidade Centro-Europeia em Budapeste, viu de perto como Viktor Orbán assumiu o controlo da democracia húngara e a transformou num Estado autoritário. 
Quando Trump foi eleito, em 2016, Trump apoiou Orbán, e Orbán começou a atacar universidades — forçando a Universidade Centro-Europeia a sair da Hungria. 
John acredita que Trump está a imitar o manual de Orbán. (Steve Bannon declarou uma vez que “Orbán era Trump antes de existir Trump.”)
O manual de Orbán tem 10 partes, segundo John: 
Um: Assuma o controlo do seu partido e imponha disciplina interna usando ameaças políticas e intimidação para acabar com toda a dissidência partidária. 
Dois: Construa a sua base apelando ao medo e ao ódio, rotulando os imigrantes e as minorias culturais como perigos para a sociedade e demonizando os seus adversários como inimigos do povo.
Três: Use desinformação e mentiras para justificar o que está a fazer.
Quatro: Use a sua vitória eleitoral para reivindicar um mandato abrangente — especialmente se não obtiver a maioria.
Cinco: Centralize o seu poder destruindo o serviço público.
Seis: Redefinir o Estado de Direito como regra por decreto executivo. Armar o estado contra todos os adversários democráticos. Demonize quem não apoia o líder como um “inimigo do povo”. 
Sete: Eliminar os freios e contrapesos e a separação de poderes, assumindo o controlo do poder legislativo, dos tribunais, dos meios de comunicação social e da sociedade civil. Aplicar aos opositores penalidades regulatórias, como auditorias fiscais, penalidades educacionais, como negação de acreditação, penalidades políticas, como investigações de assédio, penalidades físicas, como retirada de proteção policial, e penalidades criminais, como processo judicial. 
Oito: Confie nos seus oligarcas — líderes empresariais e financeiros extremamente ricos — para supervisionar a economia e recompensá-los com acesso especial a recursos estatais, cortes de impostos e subsídios. 
Nove: Alie-se a outros autoritários como Vladimir Putin e apoie os seus esforços para minar as democracias europeias e atacar países soberanos como a Ucrânia.
Dez: Faça o público acreditar que tudo isto é necessário e que resistir é inútil.

John observou que a influência de Orbán chega agora a toda a Europa.

Traduzido de Robert Reich

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Você sabia: Véspera de São João ao redor do mundo


Segundo o Evangelho de Lucas, João nasceu seis meses antes de Jesus, por isso o aniversário do santo foi comemorado no dia 24 de junho. Na verdade, é um dos poucos aniversários que homenageia o nascimento de uma pessoa santa, em vez da morte. Na véspera de São João realizam-se festas em muitos países, de acordo com a sua herança folclórica especial. A noite de 23 de junho promete uma série de acontecimentos tradicionais em todo o mundo e é assim que a data especial é passada na Hungria e em todo o mundo.
Hungria
Em primeiro lugar, os húngaros celebram Szentiván-éj (Ivan traduzido da forma eslava de João) no dia 21 de junho. A importância do acontecimento também é comprovada pelo fato de que, até o século XIX , todo o mês de junho era denominado Mês de São Ivan. As tradições folclóricas incluem acender uma fogueira e fazer as meninas pularem sobre ela.

Itália
São João Baptista é, de facto, uma figura popular no país mediterrânico: é o padroeiro de várias cidades como Génova, Florença e Turim. Acontecem fogueiras, feiras livres, fogos de artifício, música ao vivo e dança – as festividades podem durar de 21 a 24 de junho em diversas cidades do país.

Polónia
O festival é chamado de 'sobótki' na Polônia. As jovens usam coroas feitas de flores silvestres coloridas que mais tarde jogam num lago próximo. À semelhança das tradições húngaras, também se acendem fogueiras e os aventureiros podem saltar sobre elas.

Suécia
Conhecido como “véspera do solstício de verão”, o feriado era originalmente um festival de fertilidade, com o objetivo de comemorar o início da temporada. Um dos principais elementos é o chamado mastro de solstício de verão – também conhecido como mastro – decorado com flores.

França
Embora “Fête de la Saint-Jean” (que significa festa de São João) possa se assemelhar a alguns antigos rituais pagãos, é uma celebração católica do santo. Em algumas regiões do país, como a parte sul de Meurthe-et-Moselle, a espetacular fogueira é chamada de “chavande”.

Portugal (Porto)
Talvez a festa mais conhecida pelos Europeus. Não há distinção de ricos nem pobres. Todos percorrem a cidade, saltando pequenas fogueiras ou dançando em bailaricos. A "casacata" que representa o rio onde foi baptizado Jesus é simbolicamente representada em fogo de artifício a partir da ponte D. Luíz. Representa o ponto mais alto desta festividade no Porto.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Dia Internacional da Dança


O Dia Internacional da Dança é celebrado todos os anos a 29 de abril desde 1982. O dia assinala o aniversário de Jean-Georges Noverre, o criador do ballet moderno.

O objetivo do Dia Internacional da Dança, segundo o seu organizador, o Instituto Internacional do Teatro, é aproximar as pessoas de todo o mundo através da linguagem comum da dança.

Todos os anos, um coreógrafo ou bailarino é destacado e uma mensagem escrita por ele é divulgada em todo o mundo.

A argentina Marianela Núñez é a bailarina em destaque este ano, e a sua mensagem é honrar a história e as tradições que serviram de base ao panorama atual da dança.

Inspire-se com estas contas europeias de dança no Instagram

1. Little Shao - Breakdancing na Cidade Luz
Little Shao, fotógrafo de dança baseado em Paris, tem vindo a documentar dançarinos de todo o mundo há anos. As suas fotografias espetaculares mostram alguns dos locais mais emblemáticos da Cidade Luz, que ganham vida através de poses ainda mais espetaculares de bailarinos de topo. Little Shao, que cresceu nos subúrbios de Paris, é um dos fotógrafos oficiais do breakdance nos Jogos Olímpicos de verão deste ano em Paris - e ele próprio é um b-boy.

“Comecei a tirar fotos para poder representar melhor este estilo de dança, para que as pessoas pudessem perceber o que é o breakdance”, disse aos meios de comunicação franceses. “Para mim, o breakdancing é uma forma de arte. Há algo muito libertador no breakdance e no hip-hop em geral.”

2.Cairde - a dança irlandesa passa a ser global
Este grupo de rapazes deu a conhecer ao mundo a dança irlandesa através dos seus vídeos virais nas redes sociais, onde batem os dedos dos pés ao som de canções populares, de Taylor Swift a The Game. Os seus vídeos a cappella também são um sucesso entre os fãs de ASMR. O grupo já viajou por todo o mundo, atuando em Paris para uma multidão de 80.000 pessoas e na Casa Branca para o Presidente Joe Biden. Veja-os para uma dose de boas vibrações.

3. Ghetto Funk Collective - Trazendo o boogie
Por falar em boas vibrações, o grupo de dança Ghetto Funk Collective, sediado em Roterdão, é uma fonte garantida de sorrisos. Trazem o funk e também podem ensiná-lo a fazer boogie através da sua nova master class de locking. Se tiver pouco ritmo, pode ainda assim sentir algumas vibrações através dos seus vídeos contagiantes e alegres.

4. Biscuit Ballerina - Rir na dor do perfecionismo do ballet
A bailarina Shelby Williams, solista do Ballett Zürich, goza com o perfecionismo frequentemente exigido aos bailarinos com a sua conta de dança cómica Biscuit Ballerina.

"É uma sátira de ballet que transforma todas as falhas do ballet numa caricatura gigante, da qual os bailarinos se podem rir e ultrapassar na sua própria busca da perfeição", afirmou.

Williams apresenta bloopers de outros bailarinos, bem como cenas leves que oferecem uma nova visão das dificuldades da dança. Nem tudo é graça e elegância, malta.

Sair de casa e assistir a espectáculos de dança ao vivo

1. Bélgica - Festival Danses en Fête
É o último dia do festival Danses en Fête na Bélgica e há eventos a decorrer em todo o país. O festival anual inclui exposições, conferências, espectáculos e aulas de mestrado sobre diferentes tipos de dança. Esta segunda-feira, pode ter aulas de dança, participar em workshops, assistir a danças ao ar livre e reimaginar a dança do varão com um artista de Bruxelas.

Consulte a programação completa aqui.

2. Budapeste - 24º Festival Internacional de Dança de Budapeste
A capital húngara acolhe o 24.º Festival Internacional de Dança de Budapeste até 11 de maio, com uma celebração da dança contemporânea - tanto local como global. Para assinalar o Dia Internacional da Dança, a Associação de Artistas de Dança Húngaros e o Teatro Nacional de Dança apresentam um espetáculo de gala conjunto com o trabalho do diretor-coreógrafo Balázs Vincze.

Para mais informações e toda a programação do festival, clique aqui

3. Paris - Jovens bailarinos no centro das atenções para "Puzzle"
Dirija-se ao Le Jeune Ballet Européen na capital francesa para fazer uma viagem através de 10 universos diferentes de dança com alguns dos mais talentosos jovens bailarinos em cena. O espetáculo "Puzzle" apresenta 10 peças curtas que vão do hip-hop ao ballet e à dança contemporânea, mostrando o talento de 29 jovens artistas.

A companhia de estudantes permite que os jovens bailarinos cresçam e aprendam através de espectáculos apresentados ao público ao vivo. São apoiados por coreógrafos, directores de cena e técnicos experientes. Assista a um espetáculo esta noite, ou até 24 de junho.

Veja as transmissões em direto do Dia Internacional da Dança na OperaVision
Se preferir ficar no sofá e assistir a alguns bailarinos profissionais a partir de casa, a OperaVision tem um dia inteiro de programação em direto no YouTube com danças de toda a Europa. Mergulhe na dança folclórica romena ou assista a actuações do Royal Swedish Ballet, do Lviv National Ballet e do Opera Ballet Vlaanderen.

Poema sobre Dança

quisera, tão só, ser movimento
no teu corpo faminto
de dança.

João Costa, dezembro.2015

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Um baixo-relevo para Frida Kahlo


Baixo-relevo lembra as civilizações antigas: gregas, assírios, persas, incas, maias, astecas, etc. 
Kahlo brilhou-nos com a sua arte colorida, o seu fogo interior, autorretratos plenos de simbologia e surrealistas. Única, irrepetível. Nascida em Coyoacán, bairro da Cidade do México, Frida era filha de um fotógrafo húngaro-judeu e de uma mãe mexicana descendente de indígenas e espanhóis. Essa mistura de culturas e origens étnicas teve um impacto significativo na sua identidade e na maneira como ela se expressou artisticamente. Embora os seus autorretratos sejam altamente pessoais, eles também têm uma qualidade universal. As emoções, as lutas e as questões que ela retratou nas suas pinturas ressoam em muitas pessoas. O seu trabalho tornou-se uma forma de comunicação que transcende culturas e gerações, tornando-a uma artista verdadeiramente global. 
Acho que este baixo-relevo é a minha singela homenagem a uma Pintora também activista pelos direitos dos povos indígenas e pelo empoderamento das mulheres. 
Se vivesse na nossa época certamente seria uma notável antifascita!

Saber mais:

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Sándor Márai - "Libertação". Um livro sobre a guerra e muito mais


Sim, estamos cansados de ver uma Europa outra vez desmembrada.

Mas como sabe quem leu ‘As velas ardem até ao fim’ ou ‘A mulher certa’, Sándor Márai consegue tornar encantatórias as situações mais dramáticas para o ser humano. Ele trabalha precisamente aí, onde dói mais, seja numa traição, num casamento infeliz ou no fundo mais fundo do inferno de uma guerra. Aliás, em ‘Libertação’ há vários momentos em que a ‘heroína’ está como se fosse suspensa no tempo e no espaço, imóvel, para que o leitor consiga perceber toda a dimensão da tragédia e tomar sobre si o peso da dor que outra pessoa sente.

O livro é muito pequeno. Lê-se num dia. Aliás, está pensado para ser lido de rajada, e é assim que o lemos. Aqui não acontece nada (enfim, tirando uma violação) e acontece tudo: um mundo inteiro desaba e outro, que ainda não se sabe qual é mas que se intui não ser muito melhor, está a começar.

Então, o que acontece: o livro começa em Budapeste, cercada pelos russos no fim da Segunda Guerra, em dezembro de 1944. O exército vermelho está prestes a conquistar a capital, dominada pelos alemães. Neste cenário encontramos Erzsébet, que precisa urgentemente de esconder o pai, um famoso cientista perseguido pela Gestapo. Quando o consegue finalmente fazer, refugia-se numa cave com outros habitantes, que não conhece.

Aqui se tenta proteger dos horrores físicos e psicológicos de um cerco. Ouve as histórias de terror de quem fugiu de um campo de concentração, faz amizade com um homem que não pode fugir nem a pode ajudar, e quando finalmente os russos chegam, nada é como ela tinha esperado.

Quando Sándor Márai escreveu ‘Libertação’, em 1945, os acontecimentos descritos eram bem recentes. A Segunda Guerra tinha acabado há apenas 6 meses, mas já nessa altura o escritor percebeu que o seu mundo não ia ser tão ‘livre’ como se esperava. Em 1948, com a chegada à Hungria do regime comunista acabou por deixar o país, emigrando para os Estados Unidos.

Porque é que é importante ler a "Libertação"? Primeiro pelo que foi dito acima e que é o óbvio: para que nada disto se repita, o que parece não estar a funcionar. Depois, porque há poucos livros tão terríveis e tão bem escritos. Confiem em mim e vão lê-lo. Há livros que temos mesmo de ler uma vez na vida. Dá-nos algumas respostas das inquietações que é uma guerra perto de nós, como a famigerada guerra Rússia-Ucrânia, que está a levantar angústias e ideologias que pensávamos não repetir. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Fivelas de cinto revelam culto pagão medieval desconhecido na República Checa





Uma fivela de cinto medieval com a imagem de uma cobra ou um dragão devorando um sapo foi descoberta com a ajuda de detectores de metal perto da vila de Lány, na República Bcheca.


Para arqueólogos da Universidade de Masaryk, a representação pode ser um símbolo de um culto pagão desconhecido. Um estudo sobre a descoberta foi publicado na edição de janeiro do periódico Journal of Archaeological Science.

"Lutar contra um dragão ou uma cobra é um dos motivos básicos nos mitos cosmogônicos de criação do mundo de muitas culturas diferentes, enquanto a interação entre o sapo e a cobra pode ser vinculada às práticas cultuais de fertilidade", afirma comunicado da Universidade de Masaryk.

Inicialmente, os pesquisadores pensaram que a descoberta da fivela era rara, com uma decoração única. "No entanto, mais tarde descobrimos que outros artefatos quase idênticos também foram desenterrados na Alemanha, Hungria e Boémia", conta Jiří Macháček, chefe do Departamento de Arqueologia e Museologia da Faculdade de Artes de Masaryk.

Após encontrar os itens, Macháček se deu conta de que estava "diante de um culto pagão previamente desconhecido que ligava diferentes regiões da Europa Central no início da Idade Média, antes da chegada do Cristianismo".

Investigando as fivelas
Uma equipa internacional de pesquisa foi formada para estudar os artefatos no sítio arqueológico, que já havia chamado a atenção pela descoberta de uma costela de animal com inscrições em runas germânicas antigas.

A pesquisa revela que o cinto medieval de Lány pertence a um grupo de artefatos chamado "Avar belt fittings", que foram produzidos na Europa Central nos séculos 7 e 8 d.C.. Tais itens eram parte do traje dos ávaros, um povo nômade que se estabeleceu na Bacia dos Cárpatos, atual Hungria.

A moda ávara costumava ser adotada por povos vizinhos, como os eslavos. "O motivo de uma serpente ou cobra devorando sua vítima aparece na mitologia germânica, ávara e eslava", diz Macháček. "Era um ideograma universalmente compreensível e importante. Hoje, só podemos especular sobre o seu significado exato, mas, no início da Idade Média, conectava os diversos povos que viviam na Europa Central em um nível espiritual."

Para estudar os itens de Lány e outros semelhantes, os pesquisadores utilizaram métodos de ponta, como análise por fluorescência de raios-X e microscopia eletrónica de varredura. Stefan Eichert, do Museu de História Natural de Viena, na Áustria, realizou uma análise material e tecnológica que revelou que a maioria dos acessórios de bronze originalmente era dourada.

Já Ernst Pernicka, da Universidade de Tubinga, na Alemanha, utilizou uma análise química dos isótopos de chumbo contidos nas ligas de bronze, identificando uma fonte comum do cobre a partir do qual todos os acessórios descobertos foram feitos: as Montanhas de Minério da Eslováquia.

Uma análise morfométrica com base em modelos digitais 3D, realizada por Vojtěch Nosek da Universidade Masaryk, reforçou essa conclusão, sugerindo que alguns dos acessórios vieram da mesma oficina ou foram derivados de um modelo comum.

"Todas estas conclusões lançam uma nova luz sobre o desenvolvimento social, cultural e político da Europa Central no início da Idade Média", conclui o estudo.