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sábado, 6 de março de 2021

É possível a fraternidade humana universal e com todas as criaturas? Parte 2




Por Leonardo Boff, 20/01/2021

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivêncis comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder
O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como a mais conhecida Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoriou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade
Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Ai se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo
Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo a pergunta como quem não está totalmente convencido: "Será que a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:
”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).
A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: "não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

A grande tentação de São Francisco
Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos a ponto que seu biógrafo São Boaventura o chamar de vir desideriorum (homem de desejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus. E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza
Francisco buscou incansavelmente a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não, levar a humanidade a oprimir-se a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999). Face às ameaças planetárias também afirmou: "A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano”.

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo
Francisco viveu em termos pessoais a fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de uma instância de direção social. Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria: dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma nova presença e como um modo ser que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo
Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise económico-financeira de 1929 e mesmo na de 2008. Ninguém colocava em questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este conceção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta
Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie:" As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundente: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal
Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o sentido de pertença fraterna, o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças que pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque então poderemos continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu: ”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O Antropoceno e a longa batalha pelo amanhã


O nome Holoceno (O Todo Recente) para designar a época pós-glaciar dos últimos dez a doze mil anos parece ter sido proposto pela primeira vez por Sir Charles Lyell em 1833 e adotado pelo Congresso Internacional Geológico em Bolonha em 1885. Durante o Holoceno, as atividades humanas tornaram-se gradualmente uma força geológica e morfológica significativa, o que foi rapidamente reconhecido por vários cientistas. Assim, ainda em 1864, G.P. Marsh publicou um livro intitulado Man and Nature (que corresponderia, em português, a O Homem e a Natureza), recentemente reeditado como The Earth as Modified by Human Action (que corresponderia a A Terra Modificada pela Ação Humana). Em 1873, Stoppani avaliou as atividades da humanidade como “uma nova força telúrica cujo poder e universalidade podem ser comparados às maiores forças da terra”. Stoppani já falava de uma era antropozoica. Hoje em dia, a humanidade já habitou ou visitou quase todos os lugares do planeta; já pisou até a Lua.

Em 1926, o grande geólogo russo V. I. Vernadsky reconheceu o crescente poder da humanidade como parte da biosfera no excerto em que fala da “… direção na qual os processos de evolução devem seguir, a saber, rumo a uma consciência e a um pensamento expandidos, assumindo as formas cada vez mais influência no seu meio envolvente”. Vernadsky, juntamente com o jesuíta francês P. Teilhard de Chardin e E. Le Roy, em 1924, cunhou o termo “noosfera” – o mundo do pensamento – para marcar o papel crescente desempenhado pela capacidade mental e pelos talentos tecnológicos do homem na formação do seu próprio futuro e ambiente.

A expansão da humanidade, tanto em número como em exploração per capita dos recursos da Terra, tem sido impressionante. Alguns exemplos: durante os últimos três séculos, a população humana cresceu dez vezes, para 6 mil milhões de pessoas, acompanhada por um aumento da população de gado para 1,4 mil milhões (o que significa uma vaca por família de tamanho médio). A urbanização também cresceu dez vezes no último século. Em poucas gerações, a humanidade está a esgotar os combustíveis fósseis que foram gerados ao longo de centenas de milhões de anos.

A libertação de CO₂ na atmosfera devido à queima de carvão e petróleo – cerca de 160 Tg/ano globalmente –  é pelo menos duas vezes maior do que a soma de todas as emissões naturais, que ocorrem principalmente como dimetilsulfureto marinho dos oceanos. Segundo Vitousek e colaboradores, 30% a 50% da superfície terrestre já foi transformada pela ação humana; é fixado mais azoto sinteticamente e aplicado como fertilizante na agricultura do que o fixado naturalmente em todos os ecossistemas terrestres; o escape de NO originado por combustíveis fósseis e pela combustão de biomassa para a atmosfera também é maior do que a emissão natural, causando a formação do ozono fotoquímico (“smog”) em extensas regiões do mundo; mais de metade da água potável acessível é utilizada pela humanidade; a atividade humana aumentou a taxa de extinção de espécies entre mil e dez mil vezes nas florestas tropicais, e vários gases com efeito de estufa importantes em termos climáticos aumentaram substancialmente na atmosfera: o CO₂ aumentou mais de 30% e o CH₄ mais de 100%.

Além disso, a humanidade liberta várias substâncias tóxicas no ambiente, para além dos gases de clorofluorocarboneto (CFC), que não são tóxicos, mas que geraram o buraco na camada de ozono na Antártida e que teriam destruído grande parte da camada se não tivéssemos criado medidas regulamentares internacionais para acabar com a sua produção. As zonas húmidas costeiras também são afetadas pelos humanos, o que já resultou na perda de 50% dos mangais do mundo. Finalmente, a predação humana mecanizada (a indústria da pesca) remove mais de 25% da produção primária dos oceanos nas regiões de afloramento (upwelling) e 35% das regiões temperadas de plataformas continentais. Os efeitos antropogénicos também são bem ilustrados pela história das comunidades bióticas que deixam vestígios em sedimentos de lagos. Os efeitos documentados incluem a modificação do ciclo geoquímico em grandes sistemas de água potável e ocorrem em sistemas distantes de fontes primárias.

Considerando estes e vários outros crescentes impactos das atividades humanas na Terra e na atmosfera, que acontecem em todas as escalas possíveis – incluindo a global –, parece-nos mais do que apropriado enfatizar o papel central da humanidade na geologia e na ecologia, propondo o uso do termo Antropoceno para a época geológica atual. Os impactos das atividades humanas vão continuar por longos períodos. Segundo um estudo de Berger e Loutre, devido às emissões de CO₂ antropogénicas, o clima pode afastar-se significativamente do seu comportamento natural ao longo dos próximos 50 000 anos.

Para designar uma data mais específica para o início do Antropoceno, embora pareça um pouco arbitrário, propomos a parte final do século XVIII, apesar de alertarmos que podem ser feitas sugestões alternativas (algumas pessoas podem até querer incluir todo o Holoceno). No entanto, escolhemos esta data porque, durante os dois últimos séculos, os efeitos globais das atividades humanas se tornaram claramente notórios. Este é o período em que, segundo dados obtidos a partir de amostras de gelo glaciar, se iniciou o crescimento, na atmosfera, das concentrações de vários gases com efeito de estufa, em particular CO₂ e CH₄. Esta data também coincide com a invenção do motor a vapor por James Watt, em 1784. Por essa altura, os meios bióticos na maioria dos lagos começaram a mostrar grandes mudanças.

A menos que ocorram grandes catástrofes como uma enorme erupção vulcânica, uma epidemia inesperada, uma guerra nuclear em larga escala, um impacto de asteroide, uma nova idade do gelo ou o contínuo saque dos recursos da Terra por tecnologias ainda primitivas (os últimos quatro perigos podem, contudo, ser prevenidos numa noosfera em funcionamento), a humanidade continuará a ser uma importante força geológica por muitos milénios, talvez por milhões de anos. Uma das principais tarefas futuras dos homens será desenvolver uma estratégia mundialmente aceite que conduza à sustentabilidade dos ecossistemas contra stresses induzidos por humanos, e isso exigirá uma investigação intensiva e a aplicação inteligente do conhecimento até aqui adquirido na noosfera, mais conhecida como sociedade do conhecimento ou da informação. Uma tarefa empolgante, mas também difícil e assustadora, coloca-se perante a comunidade mundial de investigação e engenharia, para que lidere a humanidade em direção a uma gestão ambiental que seja global e sustentável.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

10 Human Fingerprints On Climate Change


By John Cook
The NOAA State of the Climate 2009 report is an excellent summary of the many lines of evidence that global warming is happening. Acknowledging the fact that the planet is warming leads to the all important question - what's causing global warming? Here is a summary of the empirical evidence that answers this question. Many different observations find a distinct human fingerprint on climate change:


To get a closer look, click on the pic above to get a high-res 1024x768 version (you're all welcome to use this graphic in your Powerpoint presentations). Or to dig even deeper, here's more info on each indicator (including links to the original data or peer-reviewed research):
  1. Humans are currently emitting around 30 billion tonnes of CO2 into the atmosphere every year (CDIAC). Of course, it could be coincidence that CO2 levels are rising so sharply at the same time so let's look at more evidence that we're responsible for the rise in CO2 levels.
  2. When we measure the type of carbon accumulating in the atmosphere, we observe more of the type of carbon that comes from fossil fuels (Manning 2006).
  3. This is corroborated by measurements of oxygen in the atmosphere. Oxygen levels are falling in line with the amount of carbon dioxide rising, just as you'd expect from fossil fuel burning which takes oxygen out of the air to create carbon dioxide (Manning 2006).
  4. Further independent evidence that humans are raising CO2 levels comes from measurements of carbon found in coral records going back several centuries. These find a recent sharp rise in the type of carbon that comes from fossil fuels (Pelejero 2005).
  5. So we know humans are raising CO2 levels. What's the effect? Satellites measure less heat escaping out to space, at the particular wavelengths that CO2 absorbs heat, thus finding "direct experimental evidence for a significant increase in the Earth's greenhouse effect". (Harries 2001, Griggs 2004, Chen 2007).
  6. If less heat is escaping to space, where is it going? Back to the Earth's surface. Surface measurements confirm this, observing more downward infrared radiation (Philipona 2004, Wang 2009). A closer look at the downward radiation finds more heat returning at CO2 wavelengths, leading to the conclusion that "this experimental data should effectively end the argument by skeptics that no experimental evidence exists for the connection between greenhouse gas increases in the atmosphere and global warming." (Evans 2006).
  7. If an increased greenhouse effect is causing global warming, we should see certain patterns in the warming. For example, the planet should warm faster at night than during the day. This is indeed being observed (Braganza 2004, Alexander 2006).
  8. Another distinctive pattern of greenhouse warming is cooling in the upper atmosphere, otherwise known as the stratosphere. This is exactly what's happening (Jones 2003).
  9. With the lower atmosphere (the troposphere) warming and the upper atmosphere (the stratophere) cooling, another consequence is the boundary between the troposphere and stratophere, otherwise known as the tropopause, should rise as a consequence of greenhouse warming. This has been observed (Santer 2003).
  10. An even higher layer of the atmosphere, the ionosphere, is expected to cool and contract in response to greenhouse warming. This has been observed by satellites (Laštovika 2006).
Science isn't a house of cards, ready to topple if you remove one line of evidence. Instead, it's like a jigsaw puzzle. As the body of evidence builds, we get a clearer picture of what's driving our climate. We now have many lines of evidence all pointing to a single, consistent answer - the main driver of global warming is rising carbon dioxide levels from our fossil fuel burning.