Mostrar mensagens com a etiqueta Jair Bolsonaro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jair Bolsonaro. Mostrar todas as mensagens
domingo, 1 de março de 2026
Maruja - Kakistocracy (live in Gârden)
Labels:
Activismo,
Caquistocracia,
Cleptocracia,
Concerto,
Dark Folk,
Donald Trump,
Espanha,
Holanda,
Jair Bolsonaro,
Música,
No Wave,
Noise Rock,
Plutocracia,
Post-Rock,
Reino Unido,
Ronald Reagan,
Spoken Word,
Tatuagem
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Carbofascismo
![]() |
| Um odor pútrido emana das margens do Lago Maracaibo, no oeste da Venezuela, uma região pontilhada por plataformas petrolíferas. |
O que é “carbofascismo”?
Carbofascismo é um termo teórico usado para descrever uma tendência político‑ideológica que combina negação das crises ecológicas, defesa irrestrita de combustíveis fósseis e respostas autoritárias à política ambiental, refletindo um tipo de reação de direita que protege interesses carboníferos e a fossilização política da sociedade em detrimento de democracia ecológica ou justiça climática. Em outras palavras, ele denuncia uma visão política que prioriza a expansão contínua do uso de carbono fóssil (petróleo, carvão, gás) mesmo quando isso ameaça ecossistemas, sociedades e direitos humanos.
O termo é usado em pesquisas críticas sobre as conexões entre dependência de combustíveis fósseis, políticas autoritárias e resistência à transição ecológica. Não se refere a um partido ou movimento claramente definido historicamente, mas a um padrão ideológico observável em certas respostas políticas às crises climáticas e ecológicas.
Quem e quando foi cunhado?
O conceito de carbofascismo foi proposto pelo historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz, segundo estudos posteriores de outros pesquisadores.
Jean‑Baptiste Fressoz é um historiador ambiental francês que aparece como a pessoa que coincidentemente introduziu o termo (ou pelo menos sua forma teórica original) para descrever essa combinação de negacionismo climático, defesa de combustíveis fósseis e elementos autoritários de governo e política.
O ensaio de Antoine Acker intitulado What Could Carbofascism Look Like? (Que aspecto o carbofascismo poderia ter?) expõe e discute este conceito a partir de uma perspectiva histórica e crítica, indicando que o termo foi cozinhado no debate académico sobre crise climática e política autoritária no contexto da pandemia de COVID‑19 e das respostas políticas globais.
Ou seja: não é um termo histórico clássico como “fascismo” (inventado nos anos 1910), mas sim um neologismo relativamente recente no debate académico, especialmente na historiografia ambiental crítica da última década.
Contexto de uso
O carbofascismo aparece em análises críticas de políticas públicas, movimentos sociais e respostas governamentais à crise climática, frequentemente ligadas ao estudo de como interesses econômicos fósseis influenciam e moldam democracias para preservar combustíveis sujos e bloquear medidas ambientais urgentes.
Isso é diferente, por exemplo, de ecofascismo — outro neologismo na crítica política — que costuma focar em extrema direita que usa a ecologia como pretexto para políticas autoritárias ou racistas, enquanto o termo carbofascismo enfatiza a defesa de combustíveis fósseis e a resposta política autoritária à crise climática.
Resumo rápido
Definição: ideologia política crítica que conecta defesa de combustíveis fósseis, negação de crises ecológicas e tendências autoritárias.
Origem do termo: cunhado no debate académico contemporâneo, ligado ao historiador ambiental Jean‑Baptiste Fressoz e analisado em ensaios como o de Antoine Acker.
Quando surgiu: no debate ecológico e político das últimas décadas (especialmente na era COVID‑19 e da intensificação do debate climático), portanto é um neologismo recente.
Fontes:
Labels:
Brasil,
Carbofascismo,
Donald Trump,
Ecofascismo,
EUA,
Filipinas,
História Ambiental,
Jair Bolsonaro,
Jean-Baptiste Fressoz,
Nicolás Maduro,
Oligarquia,
Rodrigo Duterte,
Venezuela
terça-feira, 22 de abril de 2025
Bolsonaro nunca esteve com o Papa
Bolsonaro e seu entorno detestavam o Papa Francisco, a quem xingavam de comunista. Nas redes sociais, os mais radicais pediam até mesmo a morte do Sumo Pontífice. Bolsonaro deixou claro seu asco ao Papa ao rejeitar se encontrar com ele nos quatro anos em que esteve à frente da destruição do Brasil. Grande, Francisco denunciava atmosfera de ódio no país e, aos seus detratores, que também odeiam os pobres, mandava que lessem Mateus 25: quem ataca aos pequeninos ataca a Deus. A estes, está reservado o tormento eterno, enquanto, aos justos, está garantida a vida eterna.
terça-feira, 11 de abril de 2023
Estes são os processos que Bolsonaro enfrenta na Justiça
Labels:
Arábia Saudita,
Brasil,
Caridade,
Confinamento,
Corrupção,
Covid-19,
Desinformação,
Extrema-Direita,
Filantropia,
Genocídio,
Humor,
Jair Bolsonaro,
Justiça,
Media,
Pandemia,
Poster,
Presidenciais,
Vacinas
domingo, 9 de abril de 2023
Dinamite Pura: relatório traz análise do legado explosivo da política mineral do governo Bolsonaro
O Observatório da Mineração e o monitor socioambiental Sinal de Fumaça lançaram, no último dia 27de Março, o relatório “Dinamite pura: como a política mineral do governo Bolsonaro armou uma bomba climática e anti-indígena“, material que traz uma linha do tempo do setor mineral e detalha o desmanche de órgãos regulatórios, violações de direitos, acordos escandalosos e outras medidas adotadas pelo ex-governo para satisfazer o lobby do mercado de minérios no país e no mundo. A publicação resulta do trabalho das duas instituições que atuam no monitoramento da pauta mineral e da crise socioambiental brasileira.
“Nos últimos quatro anos, a cobertura dos veículos de comunicação apresentou as faces de um governo autoritário e ineficaz. Nossa análise, porém, mostra que a gestão Bolsonaro foi muito eficiente em facilitar o acesso a terras e minérios. A “boiada” também passou no setor mineral, ligada ao enfraquecimento do licenciamento socioambiental e ao descontrole no uso da terra, provocando a tragédia humanitária em curso nos territórios indígenas”, declara Rebeca Lerer, coordenadora do Sinal de Fumaça.
Num trabalho minucioso e investigativo, o Observatório da Mineração acompanhou de perto as articulações adotadas pelo governo Bolsonaro no âmbito nacional e internacional. A cúpula do governo bolsonarista promoveu mudanças legais e infralegais que beneficiaram grandes mineradoras, fizeram explodir as redes criminosas do garimpo ilegal e colocaram instituições como o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional de Mineração totalmente subservientes a interesses escusos, como investigações mostraram.
Para Maurício Angelo, diretor do Observatório da Mineração e pesquisador do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, pontos como as mudanças bruscas na legislação, a forte incidência do lobby de mineradoras e grupos empresariais do garimpo e a explosão de invasões em territórios indígenas sob a vista grossa do governo são alguns dos destaques do relatório.
A partir da cobertura feita pelo Observatório, o Dinamite Pura rememora fatos que ajudam a explicar como o país chegou a situações gravíssimas de influência corporativa, degradação ambiental e violações de direitos, e pontua como essa bomba climática e antiambiental não pode ser colocada somente na conta de Jair Bolsonaro. O ex-presidente engrossou e deu escala a medidas iniciadas na gestão de Michel Temer e as metas de aumento da participação do setor mineral no Produto Interno Bruto (PIB) dos atuais 3% para até 10%, como foi o objetivo expresso de Bolsonaro e Arthur Lira em articulação com parlamentares e órgãos da administração federal.
“O primeiro escalão do governo Bolsonaro estendeu um tapete vermelho para o lobby mineral em Brasília desde o início da gestão. As consequências para as populações atingidas direta e indiretamente e para o meio ambiente foram trágicas”, explica Maurício Angelo.
Nem o crime da Vale em Brumadinho, ocorrido em janeiro de 2019, provocando a morte de 270 trabalhadores e vítimas, foi suficiente para barrar o que já estava engatilhado, resultando em impunidade para os responsáveis e na abertura do país para o lobby e troca de interesses.
De 2018 a 2022, o governo Bolsonaro ainda estreitou alianças com o garimpo ilegal em um movimento inédito na política brasileira, engajando governadores e parlamentares e aceitando apoio — financeiro, até — de empresários do garimpo.
O Monitor Socioambiental Sinal de Fumaça, que registrou fatos e movimentos relacionados às políticas socioambientais brasileiras durante os últimos quatro anos, se juntou ao Observatório da Mineração e contribuiu com a edição e organização cronológica dos acontecimentos.
Além de expor as articulações sofisticadas feitas entre o lobby do mercado de mineração, empresas internacionais e o governo federal a portas fechadas no Congresso Nacional, a publicação traz ainda um resumo das primeiras medidas adotadas pelo governo Lula e uma listagem com 20 sugestões iniciais para a retomada da governança pública e a redução dos impactos da mineração no país.
Saber mais:
Labels:
Anarco-Capitalismo,
Brasil,
Ecocídio,
Economia Ecológica,
Escravatura,
Extrema-Direita,
Garimpo,
Genocídio,
Impacto Ambiental,
Jair Bolsonaro,
Mineração,
Ouro,
PIB,
Povos Indígenas,
Relatório,
Suicídio,
TPI,
Ultraliberalismo
quarta-feira, 8 de março de 2023
Estas são outras crises e quase não há tempo: políticas da morte e aberturas para outra política
O que tradicionalmente se qualifica como “a política” está imersa em múltiplas crises. Em suas dimensões sociais, como exemplo, é possível lembrar que a América Latina continua sendo a região mais violenta do mundo, tanto no número total de homicídios quanto em sua proporção em relação à população. Brasil, Colômbia, México e Jamaica estão entre os países que mais sofrem essa situação. No campo ambiental, há décadas se repetem alertas sobre o desmatamento, a perda de biodiversidade e a poluição.
A pandemia de coronavírus tornou mais claras as circunstâncias dramáticas vividas, já que ao menos 1,5 milhão de pessoas morreram, enquanto eram aplicados todos os tipos de quarentenas, controles e punições. Por uma razão ou outra, é possível dizer que em muitos lugares esses exemplos de morte e destruição lembram aos de uma guerra. É uma situação que afeta particularmente as comunidades camponesas e indígenas, e que chega a extremos como a lenta, mas persistente destruição dos ambientes amazônicos e dos meios de vida que sustentam os povos originários.
No entanto, os sistemas políticos não conseguem resolver essas problemáticas. Somam-se as denúncias de assassinatos e contaminações, mas raramente há consequências políticas na renúncia de um ministro. A gestão da pandemia foi terrível em quase todos os países, mas não se efetivou um debate político que levasse à imposição de uma reforma do setor de saúde para que isso não se repetisse.
Não se pode esquecer que, no passado, dramas como esses foram vividos na América Latina. Lembremos por um momento as ditaduras militares do século XX que, no caso da Argentina, finalmente desembocou numa rejeição e indignação que ganharam as ruas, levando à queda dos generais. Foi seguida pelo horror diante dos crimes, torturas e desaparecimentos, e é nesse contexto que foi publicado o relatório Nunca más (elaborado pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas). Em suas páginas, adverte-se que o país sofreu sua “maior tragédia”, na qual os princípios dos direitos humanos foram pisoteados e ignorados.
Essa lembrança serve para levantar uma inevitável questão: por que não acontece algo semelhante, atualmente? Por que não há reivindicações por um “nunca mais”, por exemplo, frente aos assassinados, aos que dormem nas ruas ou não conseguem se alimentar, ou frente à destruição ambiental? Por que no Brasil, nas grandes cidades, não aconteceram grandes marchas denunciando o genocídio de seus povos indígenas? Todos esses problemas são nossas tragédias atuais e em todos eles os direitos são pisoteados.
Diante desses questionamentos, responde-se com referências à ineficiência nos governos, sua subordinação a interesses econômicos e à corrupção. Ao mesmo tempo, questiona-se os líderes políticos porque embora prometam mudanças e soluções, nos fatos, os problemas se repetem e, pouco a pouco, agravam-se. Tudo isso, por sua vez, leva ao que se descreve como o desencanto com a política e que não parou de se aprofundar. A maior parte dos latino-americanos confia muito mais em sua igreja, nos militares e até em empresas do que em atores políticos. Só 27% dos entrevistados dizem confiar no próprio governo, e apenas 13% nos partidos políticos [1].
Sabemos que a política contemporânea, herdeira de tradições eurocêntricas, foi construída invocando a razão, a liberdade, o bem-estar e a paz. Sabe-se também que esteve infestada de contradições, onde a política também criou mecanismos de controle e disciplinamento, amparou o colonialismo e o racismo, consolidou a desigualdade e a pobreza, legitimou a opressão e os totalitarismos.
Mas essas quedas desencadeavam reações tanto dentro da política quanto entre os cidadãos. Irrompiam protestos contra as violações de direitos, enfrentava-se o colonialismo e o racismo, ocorriam mobilizações pela democracia e em defesa dos trabalhadores, e assim sucessivamente. Eram reações a situações consideradas intoleráveis e ultrajantes, eram respostas alimentadas pelo horror, como aquelas que explicam aquele “nunca mais”.
Essa dinâmica de avanços e retrocessos, com todas as suas contradições, está sendo alterada. O que alguns classificavam como correções próprias da biopolítica, citando M. Foucault [2], agora são mais esporádicas e menos poderosas, e prevalece a aceitação e a resignação. São tantas as denúncias sobre descumprimentos de direitos que deixam de chamar a atenção. Convive-se com violências tão agudas que muitos setores cidadãos as naturalizam. A pandemia acentuou essa situação ao tolerar mortes e controles como nunca.
Vem sendo cruzado um limiar que desemboca na necropolítica. Este termo, cunhado pelo camaronês Achille Mbembe, pode ser ajustado e redefinido à situação atual para descrever uma política que deixa as pessoas e a Natureza morrerem, embora mantenha as economias vivas. Não é um sinônimo de ações violentas específicas, mas é funcional a elas e gera as condições para sua aceitação e reprodução [3].
O governo de Jair Bolsonaro, no Brasil, foi um exemplo da guinada à necropolítica, por suas posições racistas, machistas e violentas. Sua gestão é a responsável direta pela onda de mortes por Covid, pela violência nas cidades, a proliferação de pessoas com armas, a fome e morte em terras indígenas e pela depredação ecológica. Deisy Ventura, professora da Universidade de São Paulo, argumenta que as ações do governo foram atos desumanizadores intencionais, onde os interesses econômicos justificavam a “morte em massa dos mais frágeis”.
O intolerável, como as mortes em massa, especialmente de pobres e indígenas, foi justificado e tolerado por amplos setores da sociedade. Os bolsonaristas não escondiam seus extremismos, e onde havia uma legitimação, não se baseava na moral, mas na economia e no mercado. Ventura conclui com uma avaliação lapidar: o Brasil é um “país humilhado por ter tolerado o intolerável” [4]. Contudo, apesar de tudo isso, Bolsonaro conseguiu um enorme apoio dos cidadãos (obteve mais de 58 milhões de votos, contra pouco mais de 60 milhões da a coligação de Lula, em 2022).
Atualmente, no Peru, ocorre algo semelhante, já que se mantém um governo apesar das dezenas de mortos e mais de mil feridos nas repressões e repetidas mobilizações. Neste país, assim como em outros, estamos diante de situações em que muitas pessoas deixam de ser cidadãs e, inclusive, são despojadas de sua humanidade, para serem inferiorizadas, marginalizadas e excluídas. Se morrem, afinal de contas, não importa muito nem para a política vernácula, nem para os mercados.
Sob a necropolítica, inúmeros setores cidadãos ficam presos ao entendimento de que para eles não há alternativas melhores ou mais corretas, afundando-se na indiferença e na omissão. Não é que as maiorias repentinamente tenham se tornado insensíveis, por exemplo, com o genocídio dos povos amazônicos ou com as matanças, mas, sim, que suas instâncias morais foram arrebatadas. As urgências estão em sobreviver, não têm para onde fugir, não conseguem pesar as consequências de seus atos e também não encontram outra opção para escolher. O que era imoral, intolerável e até horrível, algumas vezes é aceito, e em outras tolerado, ou nem sequer podem fazer uma avaliação moral, porque se consomem em sobreviver. Essas são as condições da necropolítica.
Em boa medida, a disseminação da necropolítica passa despercebida, uma vez que essas crises são interpretadas como expressão de posições conservadoras, neoliberais ou fascistas, ou se entende que problemas como a violência seriam muito antigos e não têm nada de essencialmente novo. Contudo, é imperativo reconhecê-la porque é substancialmente diferente. Também não é um vazio político, nem uma antipolítica, mas produz ativamente narrativas que anulam os sentimentos de indignação, combate as resistências cidadãs focalizadas e legitima prioridades econômicas. Continuamente, justifica a morte de pessoas ou o desaparecimento de ecossistemas.
A necropolítica é resultado do esgotamento dos mecanismos que a política moderna tem para operar contra a morte e, ao mesmo tempo, de uma incapacidade de se envergonhar por esse fracasso. Não só isso, mas como essa mesma modernidade, contém os fatores que levam a essa situação de destruição e violência, não oferece as opções para uma verdadeira reversão. Como a modernidade assume o mundo, por exemplo, em dualidades e hierarquias, cedo ou tarde, desemboca-se na exploração, exclusão e dominação, e a violência se torna inevitável. Ao mesmo tempo, como também sustenta que não há alternativas possíveis a ela mesma, as opções de mudança que a transcendem não são imaginadas, nem concebidas.
Isso faz com que as alternativas devam ser buscadas para além da modernidade ou em suas margens. É necessária uma política concebida, sentida e praticada em outros mundos. O primeiro passo nessa tarefa consiste em aceitar essa possibilidade, o que não é simples porque a modernidade continuamente a bloqueia. Essa mudança de posição corresponde ao que tem sido chamado de aberturas para outras ontologias [5] e, felizmente, dispomos de vários exemplos.
Algumas estão na academia do norte (como as contribuições de Isabelle Stengers e Bruno Latour), outras se baseiam em experiências latino-americanas (como as do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro e da peruana Marisol de la Cadena). Alguns são de décadas atrás e não receberam a atenção que mereciam (como o Projeto Andino de Tecnologias Camponesas – PRATEC, nas montanhas do Peru, ou as explorações do argentino Rodolfo Kusch). Mas também há aqueles que alcançaram ampla divulgação e impactaram nos debates políticos, como aconteceu com as primeiras versões do Bem Viver na Bolívia, Equador e Peru.
Essas aberturas também são urgentes, porque não há mais tempo para continuar tentando ajustes e retificações dentro da modernidade. O descalabro ecológico é enorme em escala e intensidade, e a cada ano que as conhecidas crises se mantêm, torna-se mais difícil revertê-las e aumentam as restrições que impomos às gerações futuras. Quanto mais demoramos, mais nossas possibilidades de reverter um colapso serão reduzidas e, em caso de ocorrer, entre os primeiros afetados estarão, mais uma vez, as comunidades indígenas e camponesas.
Esta breve explanação permite fundamentar um convite a se juntar à tarefa de evidenciar que a necropolítica está entre nós. Não é uma nova crise, nem uma maior deterioração, ao contrário, estão mudando as formas como se reproduz a política, suas bases de legitimação e seus fundamentos morais. Isso explica que a resignação, a indiferença e a aceitação diante da morte sejam cada vez mais difundidas. É indispensável evidenciar essas mudanças para começar a detê-las.
É também um convite a promover aberturas a outras ontologias, a partir de um compromisso de garantir a vida. É abrir-se a pensar, imaginar e ensaiar uma “outra política” direcionada a mundos políticos organizados de outras formas, com outros participantes e outros devires. São propósitos impulsionados por um sentido de urgência, porque não há muito mais tempo disponível e porque já estamos atolados em crises que são muito diversas.
Notas
1. Informe 2021. Adiós a Macondo. Latinobarómetro, Santiago, 2021.
2. Nacimiento de la biopolítica: curso en el Collège de France (1978-1979), M. Foucault. Fondo Cultura Económica, Buenos Aires, 2021.
3. Necropolítica: la política del dejar morir en tiempos de pandemia, E. Gudynas. Palabra Salvaje 2, p. 100-123, 2021.
4. “O Brasil é hoje um país humilhado por ter tolerado o intolerável”. Entrevista com Deisy Ventura, J. V. Santos, Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 26 de janeiro de 2023.
5. The politics of modern politics meets ethnograhies of excess through ontological openings, M. de la Cadena. Filedsights – Theorizing the contemporary, Cultural Anthropology Online, 13 enero 2014.
Observação
O presente artigo é uma versão abreviada de um ensaio mais longo que inaugura a série Cuestiones y Disputas en Otra Política.
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
Revista Nature considera Bolsonaro "ameaça" para a ciência e desenvolvimento
Num editorial publicado esta quarta-feira, a revista acusa Bolsonaro de ter assumido o cargo "negando a ciência, ameaçando os direitos dos povos indígenas e promovendo as armas como solução para os problemas de segurança".
"Bolsonaro foi fiel à sua palavra. O seu mandato foi desastroso para a ciência, para o ambiente e para o povo brasileiro", observou a revista, que criticou ainda os cortes feitos pelo atual Governo brasileiro na área da educação.
A Nature comparou Bolsonaro com o "ex-colega populista dos Estados Unidos" Donald Trump, com quem coincidiu na negação dos "avisos dos cientistas sobre o coronavírus", bem como dos "perigos da doença".
Ao mesmo tempo que criticou duramente Bolsonaro, a revista elogiou algumas das políticas de financiamento levadas a cabo durante os mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em domínios como a educação, ciência e ambiente.
"Durante algum tempo, o Brasil quebrou a ligação entre a desflorestação e a produção de carne de bovino e soja. Parecia que o país poderia ser pioneiro na sua própria marca de desenvolvimento sustentável. Muito desse progresso foi desmantelado", lamentou a Nature.
Lula da Silva e Bolsonaro disputam no domingo a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras.
Labels:
Agenda 2030,
Agronegócio,
Agropecuária,
Amazónia,
Autocracia,
Brasil,
Cépticos,
Covid-19,
Demagogia,
Desflorestação,
Extrema-Direita,
Jair Bolsonaro,
Lula Silva,
Negacionistas,
ODS,
OGM,
Soja
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
Bolsonaro racista e intolerância religiosa por parte dos evangélicos (Brasil)
Portugal é considerado um exemplo de tolerância religiosa e um dos países do mundo onde a lei dá mais liberdade às diferentes confissões.
O perfil religioso do país tem, por isso, mudado nos últimos anos. Há cada vez menos católicos e não para de crescer o número de pessoas que se dizem crentes, mas sem religião. São sobretudo portugueses urbanos, mais novos e com mais estudos, como revela um estudo inédito sobre a religiosidade na Área Metropolitana de Lisboa, apresentado neste episódio.
Há também confissões a ganhar seguidores, como budistas, e surgem novas igrejas, como as evangélicas com concertos pop rock, que atraem cada vez mais jovens, desencantados com as igrejas tradicionais.
Oficialmente, o país tem hoje mais de 830 confissões registadas, a maioria evangélicas. Mas do total apenas 80 têm o estatuto de radicadas, podendo, por exemplo, celebrar casamentos com equivalência civil. E se nas escolas públicas já se aprende a moral evangélica, nos hospitais, nas prisões ou entre os militares falta ainda regulamentar a assistência religiosa de capelões não católicos.
Neste episódio de Fronteiras XXI, quisemos perceber o que faz de Portugal um caso raro de tolerância na Europa e que mudanças podemos esperar no futuro.

A origem do mito bíblico que está ser utilizado para 'justificar' racismo no Brasil
O mito de Cam, uma pequena passagem do Velho Testamento, ainda ressoa e influencia o Brasil que vai às urnas para decidir as eleições presidenciais em segundo turno, no dia 30 de outubro.
Para quem estuda o tema, uma interpretação do conto bíblico, que trata de uma maldição lançada por Noé contra seu próprio neto, incentiva um racismo de fundo religioso no país e a perseguição contra religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda.
No contexto da eleição, a campanha do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) tem tentado associar seu adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), justamente a religiões afro-brasileiras, ao mal e aos demônios.
Católico, o petista também é acusado por bolsonaristas de ser "anticristão" e de querer fechar igrejas caso seja eleito - Lula sempre negou que fará isso, e costuma citar ter aprovado projetos favoráveis aos evangélicos quando era presidente, como o Dia do Evangélico (30 de novembro).
Em agosto, por exemplo, a primeira-dama Michelle Bolsonaro criticou Lula nas redes sociais por um vídeo em que o petista aparece sendo abençoado por mulheres de religiões afro.
"Isso pode, né? Eu falar de Deus não pode, né", escreveu a primeira-dama, em resposta a uma publicação de uma vereadora da direita radical que falava que Lula "vendeu a alma" para vencer as eleições.
Bolsonaristas também têm associado a companheira de Lula, a socióloga Rosângela Lula da Silva (conhecida como Janja), às mesmas religiões.
Já Bolsonaro tem dito que as eleições são uma batalha do "bem contra o mal" — e ele seria o bem.
Nos últimos anos, fiéis da umbanda e do candomblé vêm sofrendo ataques de intolerância religiosa, como destruição de terreiros, agressões físicas e xingamentos.
Mas até chegar às eleições deste ano, essa história mítica da família de Noé passa pela escravidão, racismo, embranquecimento da população, igrejas evangélicas e pela chamada Bancada da Bíblia no Congresso. E ela começa no livro de Gênesis, que narra a criação do mundo.
Nudez e maldição
O Antigo Testamento conta que, depois do dilúvio, Deus procurou Noé para selar uma aliança. A destruição iria cessar e todos que saíssem da famosa arca — humanos e animais —, iriam repovoar a Terra.
Noé tinha três filhos: Jafé, Sem e Cam. Esse último também tinha um filho, Canaã, neto do patriarca.
Depois do dilúvio, Noé virou lavrador e plantou um vinhedo. Um dia, "bebendo do vinho, embriagou-se e achou-se nu dentro da sua tenda", narra a Bíblia.
"Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai, e contou a seus dois irmãos que estavam fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, puseram-na sobre os seus ombros e, andando virados para trás, cobriram a nudez de seu pai; tiveram virados os seus rostos, e não viram a nudez."
Quando acordou, Noé ficou possesso ao descobrir que seu filho tinha visto sua nudez - algo considerado inaceitável. Então, resolveu amaldiçoar Canaã, tornando seu neto um servo. "Maldito seja Canaã, servo dos servos será de seus irmãos", disse Noé.
Nessa povoação, Jafé teria levado à criação dos europeus, germânicos e arianos. Sem teria originado os povos semitas. Já povos da Ásia Oriental descenderiam de Cam.
Mas Canaã, filho de Cam amaldiçoado pelo avô, seria o pai dos etíopes, sudaneses, ganeses e ameríndios. Ou seja, os africanos seriam descendentes de Cam e de Canaã.
Para o pastor Kenner Terra, doutor em Ciências da Religião, o mito é uma "etiologia", ou seja, "um texto que pretende explicar a razão de certos nomes ou práticas".
"Essa tradição justificou, bem posteriormente, os conflitos entre o povo de Israel e Canaã, descendente de Cam", explica.
Segundo texto do historiador Hiran Roedel, doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o destino dos três filhos de Noé e de seu neto Canaã ajudam a explicar por que essa narrativa foi usada por europeus e por ramos do cristianismo como justificativa para escravizar outros povos, principalmente indígenas e africanos.
"Quando as rotas das grandes navegações se estabelecem, dão-se em direção, para efeito de comércio, das terras que, segundo a Bíblia, haviam sido povoadas pelos descendentes de Cam, os amaldiçoados. Nesse sentido, eram povos que poderiam e deveriam ser subjugados, segundo o entendimento no texto sagrado", escreve Roedel.
O historiador André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ, explica que o mito de Cam foi utilizado para pintar a África como "personificação do mal" por conta da "origem amaldiçoada de sua população" por conta dessa interpretação do mito bíblico.
"O continente passou a ser marcado como demoníaco, amaldiçoado por Deus e formado por pessoas mergulhadas no pecado. O uso simbólico desse mito inunda a cabeça das pessoas sem que elas se deem conta. Essa imagem é utilizada até hoje", explica.
'A redenção de Cam'
O mito de Cam também ajudou a ilustrar o projeto racista de embranquecimento da população brasileira depois do fim da escravidão em 1888, principalmente com a chegada de imigrantes europeus que substituíram a mão de obra escravizada.
Uma das mais famosas pinturas da época é A Redenção de Cam, do pintor espanhol Modesto Brocos, que viveu no Brasil por algumas décadas.
A tela, de 1895, mostra uma mulher idosa e negra erguendo as mãos e os olhos aos céus. Ao lado, há outra mulher mais jovem, provavelmente filha da idosa, de pele mais clara. Ela segura um bebê branco.
À direita há um homem também branco, que seria o marido e pai da criança, olhando para o filho com certa admiração.
Em entrevista ao Nexo Jornal em 2018, a historiadora e antropóloga Tatiana Lotierzo, autora do livro Contornos do (In)visível: Racismo e Estética na Pintura Brasileira (1850-1840), argumenta que as personagens da pintura representam as três gerações necessárias que supostamente tornariam o Brasil um país branco.
Nessa análise, a redenção dos "descendentes" de Cam e de Canaã seria sua extinção como pessoas negras.
Ou seja, o bebê da pintura, descendente da idosa negra, representaria esse embranquecimento. "O quadro de Brocos, ao apelar para a ideia de redenção, é sem dúvida uma tela racista", disse a antropóloga.
"Uma das associações que aparecem com mais frequência na imprensa do período, em textos escritos por intelectuais renomados, como Olavo Bilac e Coelho Neto, é justamente a da morte como redenção, para as pessoas negras. São textos de muita violência, pois concebem que a extinção dessas pessoas, inclusive pela via do embranquecimento, é o caminho para a emancipação", explicou Lotierzo.
Uso político
Mais recentemente, em 2011, o mito de Cam foi resgatado pelo pastor evangélico Marco Feliciano (PL) para dizer que a África é "amaldiçoada". O religioso, que na época era deputado federal, foi eleito novamente para o cargo nas eleições deste ano.
"Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss", escreveu o pastor e político.
Ele continuou: "Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, aids. Fome... Etc. Não tem nada de comentário racista. É um comentário teológico que está na Bíblia."
Feliciano apagou a mensagem após ser questionado por jornalistas.
Na época, o pastor precisou se explicar ao Supremo Tribunal Federal (STF) após ser acusado de discriminação e preconceito de raça pela Procuradoria-Geral da República (PGR) - ele também respondeu por comentários homofóbicos.
Em sua defesa, afirmou que "a crença dos cristãos de os problemas e obstáculos não surgirem necessariamente de atos do governo e ou empresários, mas do Céu, ou seja, como se a humanidade expiasse por um carma, nascido no momento em que Noé amaldiçoou o descendente de Cam e toda sua descendência, representada por Canaã, o mais moço de seus filhos".
Para o pastor Kenner Terra, embora o mito de Cam não seja mais tão utilizado "como instrumento de legitimação do racismo", ele tem "potência simbólica e pode servir para discursos violentos."
Já a pesquisadora Tayná Louise De Maria, doutoranda em História Comparada pela UFRJ, acredita que o mito se faz presente de maneira simbólica até na representação do mal dentro das igrejas e em publicações.
"Em muitas igrejas e em revistas evangélicas, o mal é sempre representado pelas cores escuras", disse em entrevista recente à BBC News Brasil.
Segundo ela, que estuda intolerância religiosa no Brasil, a imagem de uma" África amaldiçoada" ainda ressoa no imaginário de quem combate as religiões de matriz africana como uma vertente do mal.
Por causa disso, diz, a intolerância afeta os fiéis "do momento em que a pessoa coloca suas roupas religiosas até quando anda na rua."
Intolerância religiosa
Assim como outras manifestações culturais da população negra, as religiões afro-brasileiras historicamente enfrentam perseguições e até criminalização.
Embora a Constituição de 1891, a primeira da República, garantisse a liberdade de culto, o Código Penal de 1890 estabelecia como crime, por exemplo, "praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis e incuráveis."
No Rio Janeiro, durante muito tempo o museu da Polícia Civil armazenava centenas de objetos relacionados ao candomblé e à umbanda, artefatos que eram confiscados no início do século passado em batidas policiais em terreiros. Recentemente, uma campanha de religiosos conseguiu recuperar esse acervo.
Nos últimos anos, casos de intolerância contra religiosos vêm se avolumando.
Segundo o Relatório Sobre Intolerância Religiosa no Brasil, produzido pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) e pelo Observatório das Liberdades Religiosas (OLR), apenas no Estado do Rio de Janeiro foram registrados 47 casos de intolerância contra religiões de matriz africana no ano passado.
Em 56% dos casos, aponta o relatório, o violador era "cristão evangélico".
Há desde invasão e depredação de templos e terreiros a ameaças, mensagens preconceituosas em redes sociais, xingamentos a fiéis e até agressões.
Em um deles, narra o documento, uma sacerdotisa do candomblé e seus dois filhos, trajados de branco, foram agredidos por um motorista de aplicativo. Ele os expulsou do automóvel e arremessou seus objetos para fora, chamando os passageiros de "satanás".
Para Denisson D'Angiles, sacerdote do Instituto Centro Espiritualista de Umbanda Estrela Guia, religiosos dessas vertentes são vistos como "obreiros do demônio".
"Há uma tentativa de nos associar a uma espécie de pecado capital, como se fôssemos inimigos a serem combatidos. Todos os dias somos xingados e questionados porque usamos nossa indumentária branca, todos os dias preciso me explicar para as pessoas", diz.
Já o babalaô Ivanir dos Santos, professor da pós-graduação em História Comparada da UFRJ, acredita que o discurso preconceituoso de autoridades e políticos influencia diretamente no cotidiano dos religiosos que precisam enfrentar a intolerância.
"Em um país racista, o discurso está se transformando em ações práticas contra terreiros e religiosos. Ao invés de falarem de questões sociais, da fome, do desemprego, estão utilizando as religiões com objetivos políticos e econômicos", diz.
O babalaô, que mora no morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, diz que a convivência com os evangélicos na região tem sido respeitosa, embora o diálogo "não seja muito fácil".
"Na verdade, quando a gente pensa em violência, os evangélicos são os que mais sofrem perdas. Muitos evangélicos, inclusive crianças evangélicas, são mortos em situações de violência. A bala perdida não sabe se você toca atabaque ou lê a Bíblia, mas sabe que você é preto e pobre", diz.
Fonte: BBC
Labels:
África,
Aplicativos,
Ásia,
Brasil,
Direita,
Escravatura,
Eugenia,
Extrema-Direita,
Fundamentalismo Católico,
Jair Bolsonaro,
Livro,
Misticismo,
Naturismo,
Pintura,
Pobreza,
Política,
Portugal,
Racismo,
Religião
sábado, 22 de outubro de 2022
Bolsonaro, André Ventura & Ca. fanáticos católicos versus a Igreja Católica de esquerda
Já aqui referi que a Igreja Católica é essencialmente de Direita e Conservadora. Há inclusive católicos ainda mais radicais O Brasil tende a exemplificar as principais tendências da história da Igreja e sobretudo da Igreja Católica. Porém há padres e até Arcebispos que tentam mudar o status quo da Igreja Católica. São de esquerda e mais progressistas. Aqui fica uma excelente análise dos acontecimentos no passado dia 12 de Outubro, em que o Arcebispo, dom Orlando Brandes da diocese de Aparecida contestou Bolsonaro. Houve muita confusão com bolsonaristas [notícia aqui]
É a terceira vez em que Bolsonaro, na condição de presidente, visita o Santuário Nacional de Aparecida. A primeira foi em 2019. Em 2021, dom Orlando fez alertas sobre o armamento da população, o discurso de ódio e a propagação de fake news . As falas foram entendidas como recados ao governante.
Também no ano passado, com a pandemia de Covid-19 num momento mais crítico, o arcebispo defendeu a ciência e discursou sobre a importância da vacinação contra o coronavírus, indo em contramão do comportamento de Bolsonaro durante a crise mundial de saúde.
Um debate interessante: Bolsonaro em Aparecida causa alvoroço e críticas do uso político da fé
Resumindo, Bolsonaro como Trump, André Ventura, Giorgia Meloni, Katalin Éva Novák e Liz Truss, são fanáticos religiosos, preconceituosos e conservadores da "moral" e pessoas de "bem". São nacionalistas e racistas. Supremacia do branco sobre todas as outras formas étnicas. Habitualmente machistas (ou defensores do patriarcado) e homofóbicos, como já referi nesta postagem.
Labels:
André Ventura,
Covid-19,
Debate,
Direitos Humanos,
Ecocídio,
Extrema-Direita,
Fake News,
Fome,
Fundamentalismo Católico,
Genocídio,
Jair Bolsonaro,
LGBTQIA+,
Negacionistas,
Opinião,
Pobreza,
Precariedade
domingo, 16 de outubro de 2022
Aliados de Bolsonaro usam teorias da conspiração QAnon em campanha
Teorias da conspiração criadas pela extrema-direita estão a ser usadas como estratégia política de aliados que apoiam a reeleição do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na segunda volta das presidenciais, segundo especialistas ouvidos pela Lusa.
"Não temos no Brasil uma militância QAnon como nos Estados Unidos em que os grupos exibem de maneiras mais vocal essa grande teoria conspiratória representada pelo QAnon, mas a gente vê elementos sendo trazidos por atores políticos 'bolsonaristas' para o debate publico", considerou o analista político Guilherme Casarões, integrante do Observatório da Extrema-direita.
Na última semana, o Brasil foi surpreendido por um vídeo gravado na Assembleia de Deus Ministério Fama, em Goiânia, no qual a pastora evangélica, ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e senadora eleita, Damares Alves, afirmava que o inferno se levantou contra Bolsonaro porque ele teria coibido um esquema de tráfico e abuso de crianças na Ilha de Marajó, no norte do país.
"Bolsonaro tem uma compreensão espiritual que vocês não têm ideia. Fomos para a Ilha do Marajó e descobrimos que nossas crianças estavam sendo traficadas por lá, e que essas crianças comem comida pastosa para o intestino ficar livre na hora do sexo anal", disse.
"Imagens de crianças nossas, brasileiras, de quatro anos, três anos, que quando cruzam as fronteiras, sequestradas, os seus dentinhos são arrancados para elas não morderem na hora do sexo oral", acrescentou no culto em Goiânia que atuou numa ação de campanha a favor de Bolsonaro, onde participou também a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
As declarações chocaram o país e mobilizaram as autoridades judiciais, que divulgaram um comunicado, dizendo desconhecer a existência destes crimes e pedindo esclarecimentos.
"O Ministério Público Federal (MPF) atuou, de 2006 a 2015, em três inquéritos civis e um inquérito policial instaurados a partir de denúncias sobre supostos casos de tráfico internacional de crianças que teriam ocorrido desde 1992 no arquipélago do Marajó, no Pará. Nenhuma das denúncias mencionou nada semelhante às torturas citadas pela ex-ministra Damares Alves no último dia 8", diz o órgão público brasileiro.
O MPF pediu a Damares Alves e ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que apresentasse provas sobre a existência destes casos de abuso e as ações que o foram realizadas para impedi-los e ainda aguarda resposta.
O relato de Damares é muito semelhante a um conto de ficção que se tornou uma teoria da conspiração em circulação desde 2010, conhecida como "Lolitas escravas brinquedos" sobre abusos contra crianças alegadamente cometidos num país do leste europeu, publicado no 4chan.
O 4chan é fórum de discussão que se baseia na publicação de imagens e texto, geralmente de forma anónima que ganhou mais notoriedade depois que um utilizador anónimo (QAnon) ter passado a fazer publicações com informações falsas alegando ter acesso a dados de agências de segurança dos Estados Unidos sobre um grupo liderado por uma elite corrupta formada por pedófilos satanistas que sequestravam e sacrificavam crianças, criando um movimento que tem muitos adeptos no Partido Republicano.
No Brasil, o QAnon adaptou a narrativa conspiratória local e os seus disseminadores, que dizem defender valores cristãos e conservadores, usam as redes sociais para espalhar mentiras contra pessoas que fazem críticas ao Governo liderado por Bolsonaro.
"Ela [Damares Alves] que criar pânico, ela precisa criar um estado de pânico (...) Eu diria que ela é a grande liderança de teorias conspiratórias no Brasil, não só de QAnon", salientou Adriana Dias, doutorada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que estuda neonazismo e grupos que propagam teorias conspiratórias da extrema-direita.
"A história que a Damares conta de Marajó está num site neonazista chamado 4chan. É uma história que está no 4chan. Agora, porquê [a senadora citou este conteúdo]? Porque nos fóruns neonazistas existe muito incentivo à pedofilia. (...) Não é estranho que a ministra que deveria proteger as crianças esteja usando um site que ensina pedófilos a estuprá-las", disparou Adriana Dias.
Já Casarões reforçou que o Brasil ainda não é um baluarte QAnon, mas agentes políticos como Damares Alves, as deputadas Carla Zambelli, Bia Kisses e Eduardo Bolsonaro, deputado e filho do chefe de Estado brasileiro, têm feito uma adaptação de pontos específicos destas narrativas.
"Autorizar o emprego do cargo eletivo para a disseminação de teorias conspiratórias em geral, difamatórias e que têm um alvo muito específico ou um conjunto de alvos muito específico tem impactos muito importantes no jogo político. Permitir que isso se dissemine no mundo político terá um impacto eleitoral", ponderou Casarões.
"No caso da Damares Alves, em particular, que é uma líder evangélica, vinculada aos grupos evangélicos organizados como a Igreja Batista da Lagoinha isto também gera um outro problema que é disseminar teorias conspiratórias que vão chegar fatalmente à crescente população evangélica", completou.
Casarões considerou que, na eleição Presidencial, o impacto das teorias QAnon poderá ser mais grave porque os conceitos conspiratórias moldam a maneira como muitos eleitores veem o mundo.
"Nesse caso da eleição de 2022, percebe-se que muitas dessas teorias conspiratórias têm muito claramente um alvo que são o PT [Partido dos Trabalhadores] e o ex-presidente Lula da Silva", concluiu referindo-se ao oponente de Bolsonaro na segunda volta da eleição presidencial que acontecerá em 30 de outubro.
terça-feira, 21 de junho de 2022
Bolsonaro precisa pagar pelos crimes na Amazónia
O mundo sabe que ele é o principal responsável pela desproteção aos indígenas e, mais do que isso, por incentivar a devastação, os conflitos e, praticamente autorizar a matança.
O Brasil acompanha estarrecido as notícias sobre o brutal assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips na região do Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no Amazonas. O fato de um deles ser estrangeiro jogou luz sobre um problema recorrente na região. Muitos dos que lutam pelos direitos dos indígenas e pela preservação da floresta desaparecem, são mortos e fica por isso mesmo.
Hoje, até o primeiro ministro britânico, Boris Jonhson, manifestou preocupação com o desaparecimento de Dom. Inúmeras organizações e governos pelo mundo, não só pedem um esclarecimento sobre os fatos, mas apelam por uma política de proteção aos povos da floresta e defesa do meio ambiente.
Isso coloca para Bolsonaro uma delicada crise internacional, pois o mundo sabe que ele é o principal responsável pela desproteção aos indígenas e, mais do que isso, por incentivar a devastação, os conflitos e, praticamente autorizar a matança com sua política genocida.
O governo do Brasil impôs uma agenda para enfraquecer as proteções dos povos indígenas, possibilitando invasões de terras indígenas. A Covid-19 teve uma taxa de mortalidade muito maior entre os indígenas se comparado com outras populações.
Também acabou com a Funai, que hoje virou Fundação Anti-Indígena, segundo um dossiê divulgado nesta semana. O documento de 173 páginas foi elaborado pela Indigenistas Associados (INA), associação de servidores da Funai fundada em 2017, e pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).
Os pesquisadores destacam pontos que favoreceram, sobremaneira, a violência na região, o desrespeito e a desassistência aos povos originários. Entre eles, a probidade aos ruralistas. No primeiro dia de governo, foi publicada a MP 870, que tentou tirar da Funai a função de demarcar terras indígenas e de se manifestar em processos de licenciamento ambiental. O STF derrubou essa medida.
A ocupação militar da região aconteceu com o comando da Funai sendo entregue aos militares, com influência dos ruralistas. O levantamento mostra que, das 39 Coordenações Regionais da entidade, 19 são coordenadas por oficiais das Forças Armadas; três por policiais militares; duas por policiais federais e duas por servidores públicos. Nas demais, há servidores substitutos ou sem vínculo com a administração pública.
Por outro lado, os cargos da Funai não foram preenchidos à medida que iam ficando vagos. Há na autarquia 2.300 vagas e apenas 2.071 profissionais atuando, destes, 1.717 funcionários públicos. O dossiê também acusa a perseguição interna contra servidores que não se alinham ao governo.
O trabalho de campo também foi dificultado com a intensa centralização dos trabalhos e das atividades de campo. Antes, as viagens de servidores a territórios indígenas só dependiam da assinatura do presidente da Funai em casos extraordinários. Isso mudou e hoje é preciso uma autorização com 15 dias de antecedência, uma autorização da diretoria da instituição e um parecer técnico das Coordenações Gerais, em Brasília, indicando que a viagem é pertinente. As diárias, acusa o levantamento, foram abolidas.
Neste governo, nenhuma terra indígena foi demarcada. Hoje, há 620 processos de demarcação, ainda na etapa inicial, na gaveta. E 117 territórios esperando pela homologação. Os antropólogos passaram a ser alinhados ao comando da Funai, recebendo críticas até mesmo da Associação Brasileira de Antropologia diz que os escolhidos são “pessoas sem a mínima qualificação e legitimidade, inclusive sem amparo legal para coordenar e realizar estudos de identificação e delimitação de Terras Indígenas”.
Há ainda ampliação do desmatamento, que cresceu 219% desde 2019 e a Funai tem desistido e se retirado de ações judiciais que tratam dos direitos coletivos de povos indígenas.
Esta é uma política clara de extermínio das nações indígenas e tentativa de entrega da Amazônia para todo tipo de crime, desde o garimpo ilegal, corte e venda de madeira ilegal, incêndios criminosos, além de favorecimento ao agronegócio.
É este governo, personificado no genocida presidente, o responsável pelas mortes e demais tragédias que acontecem na Amazônia. E o que fazer diante disso? Precisamos denunciar no Brasil e no mundo e cobrar as responsabilidades para que essa política e esse governo sejam julgados nas urnas e nos tribunais. Só assim poderemos restabelecer a paz na região, com desenvolvimento sustentável e respeito a quem chegou lá primeiro, ou lá sempre esteve.
por Vanessa Grazziotin, Ex-senadora (AM)
Actualização
Labels:
Agronegócio,
Amazónia,
Assassinato,
Covid-19,
Dossiê,
Edward Snowden,
Extrema-Direita,
Floresta,
Garimpo,
Genocídio,
Incêndios,
Jair Bolsonaro,
Mineração,
NSA,
Pesca,
Polícia,
Povos Indígenas
quarta-feira, 23 de março de 2022
Carta da ONU sobe o tom e denuncia crimes de Bolsonaro contra indígenas
O governo de Jair Bolsonaro viola tratados internacionais e ameaça a população indígena. O alerta faz parte de uma queixa apresentada por relatores da ONU e que foi endereçada às autoridades de Brasília no final de janeiro. Para grupos indígenas nacionais e especialistas em direito internacional, a denúncia é a mais forte já recebida pelo governo e reforça a queixa que existe contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional ao descrever os atos das autoridades brasileiras como sendo intencionais.
O documento é assinado na ONU pelos relatores Tendayi Achiume (Racismo), David R. Boyd (Meio Ambiente), Michael Fakhri (Alimentação), Irene Khan (Liberdade de Expressão), Mary Lawlor (Defensores de Direitos Humanos) e José Francisco Cali Tzay (Direitos Indígenas). Para membros até mesmo da organização, trata-se de uma das denúncias mais amplas já realizadas contra o governo e cobra respostas sobre o que está sendo feito para remediar a situação.
Na carta, obtida pelo UOL, os relatores comunicam ao governo que receberam alegações de "discriminação sistêmica e estrutural contra os povos indígenas que tem sido exacerbada devido à pandemia da covid-19". Procurado, o Itamaraty não respondeu à reportagem sobre qual teria sido a reação do governo diante da queixa e nem se uma explicação foi apresentada. Na avaliação dos relatores, as informações recebidas levantam preocupações de que essas políticas e práticas discriminatórias violariam as obrigações do governo em diversos tratados, entre eles o Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, e as normas internacionais contidas na Declaração e Programa de Ação de Durban e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.
Se na semana passada, Bolsonaro recebeu de seu próprio governo a Medalha do Mérito Indigenista, a carta revela uma outra percepção internacional sobre o presidente brasileiro.
Fonte: Jamil Chade
Labels:
Acordo de Paris,
Brasil,
Cépticos,
Demagogia,
Direita,
Direitos Humanos,
DUDH,
Extrema-Direita,
Genocídio,
Jair Bolsonaro,
Negacionistas,
ONU,
Pandemia,
Política,
Povos Indígenas,
Racismo,
TPI,
UNFCCC
terça-feira, 12 de novembro de 2019
Os impactos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal
O governo federal revogou, na semana passada, um decreto de 2009 que estabelecia o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar e impedia a expansão do cultivo para áreas sensíveis. A decisão gerou preocupação pelos possíveis efeitos em biomas como a Amazônia e o Pantanal, mas também pelo viés econômico, já que esse mecanismo de proteção ambiental impulsionou a aceitação do etanol de cana brasileiro no mercado internacional.
Sob o decreto extinto em 6 de novembro, havia sido delimitada uma área de 64 milhões de hectares como apropriada para o plantio de cana-de-açúcar, correspondente a 7,5% da superfície do país e quase oito vezes maior que a atual área plantada para fins energéticos.
O cultivo de cana para etanol se concentra atualmente na região Centro-Sul do país, sobretudo no Sudeste. A área ocupada para essa finalidade na Amazônia corresponde a apenas 144 mil hectares, 1,5% do total permitido, concentrada no sul do Mato Grosso.
Especialistas apontam que a Amazônia e o Pantanal, biomas protegidos pelo zoneamento, não apresentam condições favoráveis para o desenvolvimento da cana-de-açúcar.
Em artigo publicado na revista Science, principal periódico científico internacional, os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Lucas Ferrante e Philip Fearnside esmiuçaram os possíveis efeitos ambientais do fim do zoneamento da cana.
O texto chamava atenção para o chamado efeito de borda desse cultivo. Mesmo que realizado em áreas degradadas, seus danos podem se estender por até um quilômetro dentro de áreas florestais adjacentes aos locais de produção, com impactos negativos sobre a flora e a fauna.
Com base no que se observou pela expansão da soja, que substituiu pastagens e outros cultivos, os cientistas também alertaram para o potencial risco de desmatamento, visto que, com a chegada da cana, a pecuária e outras atividades seriam deslocadas para outras áreas. Sendo a Amazônia a última fronteira agrícola do país, o avanço se daria sobre o bioma.
O artigo foi publicado na Science em março do ano passado, mesmo mês em que o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) apresentou um projeto de lei que visava a liberação do cultivo na Amazônia. À época, a própria União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) se posicionou contra a medida.
Na ocasião, a entidade manifestou preocupação com o impacto que o fim do zoneamento poderia ter sobre a imagem do etanol no exterior, já que o decreto de 2009 era tido como um selo de sustentabilidade da produção brasileira.
Agora, nesta nova etapa do debate, o setor reviu sua posição. Segundo o novo entendimento da Unica, a salvaguarda oferecida pelo decreto já é contemplada no Código Florestal de 2012 e nas exigências de desmatamento zero do programa RenovaBio – política instituída em 2018 e que visa aumentar a produção e consumo de biocombustíveis no Brasil a fim de cumprir os objetivos ambientais do Acordo de Paris até 2030.
"A revogação do zoneamento em nada vai mudar as práticas sustentáveis do setor. É prioridade para as empresas representadas pela Unica seguir os altos padrões de sustentabilidade exigidos por nossos compradores", garante Evandro Gussi, presidente da organização.
"Da parte das empresas associadas à Unica, nada muda. Continuaremos produzindo na região Centro-Sul, a mais de 2 mil quilômetros do bioma Amazônia, preservando a mata e os recursos hídricos dentro de nossas propriedades, em linha com o estipulado pelo RenovaBio e as demais leis."
A linha de argumentação é a mesma adotada pelo Ministério da Agricultura (Mapa), que associou a medida ao objetivo de desburocratizar e simplificar o plantio de cana-de-açúcar.
No final de agosto, quando a Amazônia registrou uma grave onda de queimadas, o presidente Jair Bolsonaro chegou a falar que atenderia a um pedido da ministra Tereza Cristina para ampliar as áreas de plantio e que estava ciente da possibilidade de haver uma repercussão negativa.
"Medida beneficia 1,5% da produção e coloca em risco 98,5%"
Dadas as condições desfavoráveis para a cana na Amazônia, a adoção da medida gerou inquietação entre especialistas. Entre eles, Raoni Rajão, professor associado de Gestão Ambiental e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
"A partir do momento que você vincula a cadeia da cana-de-açúcar com o desmatamento na Amazônia – mesmo que seja, inicialmente, uma percentagem pequena –, a cadeia é poluída e exposta a pressões que não existiam anteriormente. Você beneficia 1,5% da produção de cana e coloca em risco 98,5%. Não faz sentido, do ponto de vista econômico", avalia.
"Como o Brasil está competindo, nesse caso, com o etanol de milho dos Estados Unidos, isso certamente nos coloca em uma situação mais frágil ante alguns mercados. O mesmo ocorre com o açúcar, que concorre com o de beterraba europeu e de milho dos Estados Unidos", complementa.
Rajão, que já atuou como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), lembra que o fim do zoneamento implica a revogação dos pressupostos pelos quais a União Europeia (UE) calculou a cota de exportação sul-americana de etanol para o bloco europeu nas tratativas do Acordo de Paris.
O pesquisador aponta fragilidades nos argumentos do governo e do setor sucroalcooleiro. Embora reconheça a importância do RenovaBio, Rajão lembra que a adesão ao programa é voluntária.
Além disso, as exigências do programa recaem sobre a produção, e não sobre o imóvel rural como um todo. Ou seja, é possível que um produtor desmate ilegalmente desde que preserve a área destinada ao etanol.
"Caso haja uma grande expansão ilegal da cana na Amazônia, daqui a dois ou cinco anos, bastará uma canetada muito simples do ministro para permitir que essas áreas possam vender e obter crédito do RenovaBio, o que expõe a fragilidade desse instrumento. Finalmente, se o setor não quer expandir a cana na Amazônia, por que o decreto foi revogado?", indaga o pesquisador.
A medida também é questionada por Luiz Augusto Horta, coordenador do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e consultor em assuntos energéticos para a Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal).
O cientista acredita que os mecanismos previstos no Código Florestal e no RenovaBio serão eficazes para restringir a expansão dos canaviais em áreas sensíveis. Porém, lembra que o zoneamento foi elaborado sob diversos critérios após estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que levaram em conta clima, solo, topografia, outros usos e áreas protegidas.
"Não conheço estudos revisando esses critérios e tampouco há necessidade de novas fronteiras para a cultura da cana. Considero essa medida inadequada, principalmente na forma intempestiva e pouco articulada em que foi decidida", avalia Horta.
"Se existem fundamentos para que novas áreas sejam abertas, o Mapa deveria ter apresentado seus estudos e resultados, eventualmente ajustando o zoneamento, que foi um sinalizador importante para o mercado global dos requisitos de sustentabilidade na expansão da cultura da cana."
Subscrever:
Mensagens (Atom)





.jpg)

.jpg)


