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sábado, 5 de fevereiro de 2022

A revisão entre pares abordada no filme “Não Olhem para Cima” é um dos pilares da ciência

Contribuir para o avanço do conhecimento é algo que todos os cientistas ambicionam. Mas para isso, é necessário que as suas descobertas sejam validadas por outros cientistas. Esta validação é feita através do processo de revisão entre pares, um dos pilares do processo científico, mencionado por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrense no filme “Não Olhem Para Cima”. Fonte: aqui


Se já viu o filme “Não Olhem Para Cima”, de Adam McKay, terá notado que o professor Randall Mindy e a sua doutoranda Kate Dibiasky, interpretados por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrense, questionam o processo científico de revisão entre pares da missão implementada pela BASH, a grande empresa que prometia impedir que o cometa “destruidor de planetas” acabasse com a vida na Terra. Mas afinal o que é que é o processo de revisão entre pares e em que medida é que este seria uma importante ferramenta para escolher a missão mais eficaz para salvar o mundo?

A revisão entre pares é o processo através do qual os cientistas avaliam o trabalho desenvolvido por outros cientistas, sendo um dos principais pilares da ciência. Esta avaliação pode ocorrer em várias etapas do processo científico, mas é mais frequente quando os cientistas que conduziram um determinado estudo submetem o seu trabalho a uma revista científica, com o objetivo de verem as suas descobertas publicadas e disseminadas pela comunidade científica.

Existem pelo menos três fases no processo de revisão entre pares.

A primeira fase ocorre no momento em que o artigo é submetido para uma revista científica selecionada pelos autores, de acordo com a área de investigação e com as características do estudo. Nesta fase, o trabalho passa por uma primeira avaliação por parte do editor da revista. Quando são identificadas limitações significativas no trabalho desenvolvido, ou quando a investigação não se enquadra nos objetivos da revista, o artigo é imediatamente rejeitado. Segundo o grupo Elseviers 30 a 50% dos artigos são rejeitados nesta fase.

A segunda fase ocorre quando o artigo passa nesta primeira avaliação e é enviado para revisão entre pares. O editor convida um, dois ou mais cientistas com experiência reconhecida na área de investigação, designados por revisores. O número de revisores depende da área de conhecimento e da revista científica. Por exemplo, na revista multidisciplinar Nature são usualmente convidados dois ou três revisores por artigo. É importante que os revisores não tenham qualquer ligação direta com o estudo, para evitar potenciais enviesamentos na avaliação.

Aos revisores convidados, é solicitado que analisem, de forma independente e criteriosa, se as hipóteses dos autores são suportadas pela evidência científica; se os métodos implementados são adequados para testar as hipóteses; se os dados foram recolhidos e analisados corretamente; se as conclusões dos autores vão de encontro com os dados obtidos; se acrescenta conhecimento ao já existente; entre outros aspetos. Revistas com processos mais rigorosos de revisão entre pares tendem a ser julgadas como mais prestigiadas pela comunidade científica.

É através destas avaliações e da sua própria perspetiva que o editor consegue filtrar os estudos com qualidade, que serão publicados na revista e consequentemente disseminados pela comunidade científica. Assim, podem acontecer três cenários distintos:

No primeiro cenário, o estudo é avaliado com elevada qualidade e é aceite para publicação, sem qualquer revisão. Este cenário é pouco frequente, já que a maioria dos estudos tem alguns aspetos que podem beneficiar de uma revisão, ainda que mínima.

No segundo cenário, os revisores encontram problemas incorrigíveis que diminuem a qualidade do estudo e, consequentemente, a validade das suas descobertas. Perante uma avaliação negativa deste tipo, o editor geralmente opta pela rejeição do artigo, o que faz com que o mesmo não seja publicado na revista.

Por fim, no terceiro cenário, apesar de considerarem que o estudo tem vários pontos positivos, os revisores apontam aspetos que devem ser melhorados ou esclarecidos.

Aqui, inicia-se a terceira fase do processo de revisão entre pares: os autores são convidados pelo editor a submeter uma versão revista do artigo, de forma a responder às dúvidas e solicitações dos revisores e do próprio editor. Esta versão é avaliada novamente pelos revisores e o processo repete-se até que o editor decida aceitar (caso todas as questões dos revisores tenham sido devidamente respondidas) ou rejeitar o artigo (caso as revisões feitas ao artigo não tenham acrescentado qualidade ao mesmo, existindo problemas que limitam muito a validade das conclusões). No caso da revista The Lancet , uma das mais prestigiadas na área da medicina, apenas 5% dos artigos submetidos são aceites para publicação.

O processo de revisão pode demorar vários meses ou até vários anos, exigindo esforço e dedicação de todos os intervenientes. Porém, estas revisões permitem aumentar a confiança nas descobertas do estudo, ao agregar não só os conhecimentos dos autores, mas também os conhecimentos e críticas dos revisores e do editor.

Existem diferentes tipos de revisões. As mais comuns são as revisões cegas simples, revisões cegas duplas e revisões abertas. Nas revisões cegas simples, os autores não sabem a identificação dos revisores. Nas revisões cegas duplas, os autores não sabem a identificação dos revisores e os revisores também não sabem a identificação dos autores. Por outro lado, nas revisões abertas, a identidade dos autores e dos revisores é conhecida por todos os envolvidos no processo de revisão. Apesar de terem vantagens e desvantagens distintas, todos os tipos de revisões partilham o mesmo propósito: garantir que o conhecimento científico provém de estudos de qualidade, seguindo metodologias rigorosas, baseadas na evidencia científica e não enviesadas por interesses políticos, económicos ou pessoais.

Voltando ao filme, a recusa do CEO da BASH em responder a questões relacionadas com o processo científico da missão, sugere que o mesmo não foi validado por revisão entre pares. Consequentemente, não só não foi possível averiguar a (evidente falta de) qualidade do projeto, a sua base teórica e a adequabilidade da metodologia, como também não foi possível lutar contra um claro enviesamento político e económico na seleção da missão a ser implementada.

É sabido que o processo de revisão entre pares não está isento de limitações, conforme descrito neste artigo publicado na revista Frontiers in Neuroscience . Por exemplo, a revisão entre pares, sendo um processo praticado por humanos, está sujeita a erro ou falhas de comunicação entre os autores e os revisores, e nem sempre é eficaz na identificação de possíveis erros. É também um processo demorado, que pode limitar o acesso atempado a conhecimento científico em momentos mais urgentes, como no contexto pandémico.

No entanto, apesar das limitações, a revisão entre pares no filme “Não Olhem Para Cima” teria ajudado a evitar uma catástrofe global bem ao estilo de Hollywood, mas facilmente transferível para a vida real.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Eu sou um cientista do clima. "Não Olhem para Cima" capta a loucura que vejo todos os dias

A film about a comet hurtling towards Earth and no one is doing anything about it? Sounds exactly like the climate crisis.

The movie Don’t Look Up is satire. But speaking as a climate scientist doing everything I can to wake people up and avoid planetary destruction, it’s also the most accurate film about society’s terrifying non-response to climate breakdown I’ve seen.

The film, from director Adam McKay and writer David Sirota, tells the story of astronomy grad student Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) and her PhD adviser, Dr Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), who discover a comet – a “planet killer” – that will impact the Earth in just over six months. The certainty of impact is 99.7%, as certain as just about anything in science.

The scientists are essentially alone with this knowledge, ignored and gaslighted by society. The panic and desperation they feel mirror the panic and desperation that many climate scientists feel. In one scene, Mindy hyperventilates in a bathroom; in another, Diabasky, on national TV, screams “Are we not being clear? We’re all 100% for sure gonna fucking die!” I can relate. This is what it feels like to be a climate scientist today.

The two astronomers are given a 20-minute audience with the president (Meryl Streep), who is glad to hear that impact isn’t technically 100% certain. Weighing election strategy above the fate of the planet, she decides to “sit tight and assess”. Desperate, the scientists then go on a national morning show, but the TV hosts make light of their warning (which is also overshadowed by a celebrity breakup story).

By now, the imminent collision with comet Diabasky is confirmed by scientists around the world. After political winds shift, the president initiates a mission to divert the comet, but changes her mind at the last moment when urged to do so by a billionaire donor (Mark Rylance) with his own plan to guide it to a safe landing, using unproven technology, in order to claim its precious metals. A sports magazine’s cover asks, “The end is near. Will there be a Super Bowl?”

But this isn’t a film about how humanity would respond to a planet-killing comet; it’s a film about how humanity is responding to planet-killing climate breakdown. We live in a society in which, despite extraordinarily clear, present, and worsening climate danger, more than half of Republican members of Congress still say climate change is a hoax and many more wish to block action, and in which the official Democratic party platform still enshrines massive subsidies to the fossil fuel industry; in which the current president ran on a promise that “nothing will fundamentally change”, and the speaker of the House dismissed even a modest climate plan as “the green dream or whatever”; in which the largest delegation to Cop26 was the fossil fuel industry, and the White House sold drilling rights to a huge tract of the Gulf of Mexico after the summit; in which world leaders say that climate is an “existential threat to humanity” while simultaneously expanding fossil fuel production; in which major newspapers still run fossil fuel ads, and climate news is routinely overshadowed by sports; in which entrepreneurs push incredibly risky tech solutions and billionaires sell the absurdist fantasy that humanity can just move to Mars.
World leaders underestimate how rapid, serious and permanent ecological breakdown will be if humanity fails to mobilize

After 15 years of working to raise climate urgency, I’ve concluded that the public in general, and world leaders in particular, underestimate how rapid, serious and permanent climate and ecological breakdown will be if humanity fails to mobilize. There may only be five years left before humanity expends the remaining “carbon budget” to stay under 1.5C of global heating at today’s emissions rates – a level of heating I am not confident will be compatible with civilization as we know it. And there may only be five years before the Amazon rainforest and a large Antarctic ice sheet pass irreversible tipping points.

The Earth system is breaking down now with breathtaking speed. And climate scientists have faced an even more insurmountable public communication task than the astronomers in Don’t Look Up, since climate destruction unfolds over decades – lightning fast as far as the planet is concerned, but glacially slow as far as the news cycle is concerned – and isn’t as immediate and visible as a comet in the sky.

Given all this, dismissing Don’t Look Up as too obvious might say more about the critic than the film. It’s funny and terrifying because it conveys a certain cold truth that climate scientists and others who understand the full depth of the climate emergency are living every day. I hope that this movie, which comically depicts how hard it is to break through prevailing norms, actually helps break through those norms in real life.
We need stories that highlight the many absurdities that arise from knowing what’s coming while failing to act.

I also hope Hollywood is learning how to tell climate stories that matter. Instead of stories that create comforting distance from the grave danger we are in via unrealistic techno fixes for unrealistic disaster scenarios, humanity needs stories that highlight the many absurdities that arise from collectively knowing what’s coming while collectively failing to act.

We also need stories that show humanity responding rationally to the crisis. A lack of technology isn’t what’s blocking action. Instead, humanity needs to confront the fossil fuel industry head on, accept that we need to consume less energy, and switch into full-on emergency mode. The sense of solidarity and relief we’d feel once this happens – if it happens – would be gamechanging for our species. More and better facts will not catalyze this sociocultural tipping point, but more and better stories might.

Biografia

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Peter Kalmus is a climate scientist and author of "Being the Change: Live Well and Spark a Climate Revolution"