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domingo, 10 de maio de 2026

Em homenagem a Francesca Albanese

Yanis Varoufakis

Há uma pergunta que me assalta nas primeiras horas da madrugada, quando o sono não chega e a mente remói velhos assuntos. A pergunta é esta: «O que teria eu feito na década de 1930, na manhã seguinte à Kristallnacht?» Não o que digo que teria feito. Não o que espero que tivesse feito. Mas o que teria eu realmente feito — quando os comboios começaram a circular, quando os vizinhos ficaram em silêncio, quando o preço da decência passou a ser a perda de tudo? A maioria de nós, penso eu, teria feito pouco. Não por malícia. Por medo. Pela convicção suave e insidiosa de que alguém falaria, de que a situação é complexa, de que temos de ser «razoáveis».

Para que não nos esqueçamos, o comum é o álibi do extraordinário. E como nos agarrámos a esse álibi! Como ainda nos agarramos a ele! E então, de vez em quando, surge alguém que não se agarra. Alguém que dá um passo em frente quando os outros recuam. Alguém que diz o nome da coisa quando todos os outros estão ocupados a nomear outra coisa. Francesca Albanese é essa pessoa. Ela ergue-se perante o mundo — sozinha, desarmada, armada apenas com a lei, a linguagem e uma coragem rara — e diz o que os centristas não dizem, o que os ministérios dos Negócios Estrangeiros não dizem, o que os conselhos editoriais não dizem.

Ela diz: «Isto é um genocídio. E estamos a assistir a tudo.» Não me digam que isso é exagero. Não me digam que o termo é contestado. Ela não o utilizou de ânimo leve. Utilizou-o da mesma forma que um médico chega cientificamente a um diagnóstico — não para ferir, mas para alertar. Não para inflamar, mas para nomear. E por isso, vieram atrás dela. Oh, como vieram atrás dela. Calúnias. Investigações. Editoriais maliciosos. Contas bancárias congeladas. Desapropriação do único apartamento que alguma vez possuíra. A máquina dos respeitáveis voltou-se contra ela para a esmagar. Porque os respeitáveis não suportam o que ela representa: um espelho que lhes mostra a sua cumplicidade.

Voltemos, mais uma vez, à década de 1930. De volta aos poucos que se levantaram quando os comboios começaram a circular carregados de judeus. Havia Aristides de Sousa Mendes, um cônsul português em Bordéus. Ele desafiou o seu próprio governo. Assinou milhares de vistos, à mão, durante horas, até os dedos sangrarem. Salvou mais vidas do que Schindler. E morreu sem um tostão, desonrado, apagado. Havia um oficial alemão em Varsóvia chamado Wilm Hosenfeld. Ele escondeu um pianista judeu nos escombros. Não salvou milhares. Salvou um. Mas esse único — Władysław Szpilman — guardou a memória. E a memória é «o único refúgio do qual não podemos ser expulsos». Havia Raoul Wallenberg. Havia os aldeões de Le Chambon. Havia os anónimos, os silenciosos, os poucos furiosos que diziam: «Não enquanto eu estiver aqui.»

Francesca Albanese é a sua herdeira. Não porque ande armada. Não porque esconda refugiados na sua cave. Mas porque faz algo igualmente perigoso num mundo que aperfeiçoou a arte de não ver. Ela vê. E fala. Não fala como uma diplomata. Ainda bem que não! Os diplomatas deram-nos a linguagem do «há argumentos de ambos os lados», da «moderação» e da «proporcionalidade». A linguagem diplomática é o túmulo perfumado da clareza moral. Não, ela fala como jurista. Como ser humano. Como uma mulher que olhou para o abismo e se recusou a chamá-lo de «paisagem geopolítica complexa».

Edna O’Brien descreveu uma vez uma personagem que «tinha a imprudência daqueles que já perderam tudo o que valia a pena perder». Francesca Albanese não perdeu tudo. Ela tem a sua dignidade, o seu cargo, a sua voz, a sua família. Mas calculou o custo de dizer a verdade ao poder. E decidiu que esse custo é infinitamente menor do que o custo do silêncio.

Qual é esse custo? Vamos nomeá-lo. Ela foi chamada de antissemita — ela, que se baseia no direito internacional forjado nas cinzas de Auschwitz e nas chamas de Nuremberga. Ela foi chamada de teórica da conspiração — ela, que cita todas as fontes, todas as notas de rodapé, todas as resoluções da ONU. Ela foi chamada de ingénua — ela, que compreende melhor do que a maioria a maquinaria da realpolitik.

Estas acusações não são argumentos. São a saliva dos que se sentem ameaçados. Porque Francesca Albanese ameaça algo muito precioso para os poderosos: o direito de cometer atrocidades sem ser identificado.

Amigos, os anos 30 não chegaram com botas militares e pogroms logo no primeiro dia. Chegaram aos poucos. Com restrições «razoáveis». Com medidas «proporcionais». Com o silêncio dos respeitáveis. Dizemos a nós próprios que teríamos sido diferentes. Que teríamos sido Sousa Mendes. Que teríamos sido Wallenberg. Mas a maioria de nós, receio, teria sido os vizinhos que mais tarde disseram: «Eu não sabia.»

Francesca Albanese sabe. E recusa-se a fingir o contrário. Por isso, louvemo-la. Não com estátuas ou prémios que ela não procura. Mas com algo mais difícil: com a nossa própria recusa em desviar o olhar. Com as nossas próprias vozes, erguidas em lugares que são seguros para nós, mas perigosos para ela. Com os nossos próprios corpos, se for preciso. Uma mulher corajosa, que ficou ferida durante uma manifestação à porta de uma base militar nuclear dos EUA em 1982, a infame Greenham Common, disse-me que «o coração é um caçador daquilo que não pode ter». Mas eu digo que o coração é um caçador daquilo que não vai perder. E o que não vamos perder é a memória daqueles que se levantaram quando levantar-se custava tudo. Francesca Albanese está a levantar-se agora. No nosso tempo. Em nosso nome. Sob o nosso céu indiferente. Vamos ficar ao lado dela. Não amanhã. Não quando for seguro. Agora.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Shell reportou lucros avultados ($ 7 biliões) após a subida dos preços do petróleo provocada pela guerra entre os EUA - Israel contra o Irão.


Shell has become the latest energy giant to report a jump in profits following the sharp increase in oil prices since the beginning of the Iran war.

It reported profits of $6.92bn (£5.1bn) for the first three months of the year, which was higher than analysts had expected and up from $5.58bn in the same period a year earlier.

The price of oil has soared since the start of the US-Israel war with Iran as the key Strait of Hormuz, which usually carries about 20% of the global supplies of oil and liquid natural gas (LNG), has been effectively closed.

Last week, rival oil giant BP said its profits for the first three months of the year had more than doubled.

Other oil firms have also reported bumper results. On Wednesday, Norway's Equinor said profits in the first three months of the year had hit $9.77bn, its highest quarterly profit for three years.

Traders profit
Shell chief executive Wael Sawan said: "Shell delivered strong results enabled by our relentless focus on operational performance in a quarter marked by unprecedented disruption in global energy markets.

"The safety of our people remains our priority as we work closely with governments and customers to address their energy needs."

Like BP, one of the factors behind Shell's profits rise was better results from its oil trading business.

Before the conflict began, the price of Brent crude, the global benchmark for oil prices, was around $73 a barrel.

Since then, oil has seen sharp swings - peaking above $120 at one point, but also falling below $100 on other occasions as speculation has swirled over when the Strait of Hormuz will reopen.

The big movements in the oil price that have been seen since the Iran war began can widen the gap between buying and selling prices. This typically enables traders to make bigger profits.

Shell's profits were also boosted by higher margins at its refining business, which turns crude oil into finished products such as petrol and jet fuel.

However, the company said its oil and gas output had fallen by 4% compared with the final three months of last year due to the conflict.

Shell's LNG production in Qatar has been shut down since early March because of the conflict, and its Pearl GTL site in Qatar has been damaged by attacks.

Last week, Shell announced it was buying Canadian shale producer ARC Resources for $16.4bn, which Sawan said would "deliver value for decades to come".


Call to strengthen windfall tax
The surge in profits being reported by energy firms has led to criticism from environmental groups.

Danny Gross, climate campaigner at Friends of the Earth, said: "Once again, fossil fuel giants are pocketing monstrous profits while drivers are being squeezed at the petrol pump and households are set to pay higher energy bills.

"The answer is clear: strengthen the windfall tax on these indefensible profits and break our dependence on fossil fuels by powering our economy with homegrown renewables."What is the windfall tax?

Energy firms operating in the UK are subject to a windfall tax, called the Energy Profits Levy, that was introduced in 2022 as a response to soaring profits following Russia's full-scale invasion of Ukraine. Labour extended the life of the tax to March 2030.

However, the levy only applies to profits made from extracting oil and gas in the UK, whereas the bulk of energy giants' earnings are made overseas. The UK accounts for less than 5% of Shell's global oil and gas production.

Gas and electricity bills for most households in Britain are protected for the moment by the energy price cap.

Until 30 June, the typical annual bill for dual-fuel households who pay by direct debit will be £1,641.

However, the jump in wholesale oil and gas prices since the Iran war began means the cap is currently estimated to rise by about £200 when it is revised in July.

Shipping giant passing on costs

Meanwhile, the chief executive of Danish shipping giant Maersk told the BBC it was passing on rising costs due to the war to its customers.

Vincent Clerc said the sharp rise in energy prices was adding half a billion dollars of extra costs per month to the business.

"What is really important is actually to pass on these cost increases to our customers as much as possible, so that we can protect our margin and the operations' integrity going forward," he said.

He added there was uncertainty over whether this would eventually lead to inflation and lower demand.

Maersk's latest earnings show operating profits slightly above analysts' forecasts, although that was mostly for the period just before the Iran war started.

On Monday, Maersk said its US-flagged vessel, the Alliance Fairfax, which had been stranded in the Gulf since the end of February, had managed to exit the Strait of Hormuz accompanied by US military assets.

Clerc said Tehran's ambition for control of the Strait and eventual toll charges would be a significant change for the industry, "similar to the canals in Suez and in Panama, where we also pay to go through".

But he said at this stage any toll charges on the Strait of Hormuz were "very, very speculative" and it would have to reopen first.

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sábado, 11 de abril de 2026

Excelente resposta de Pedro Sanchez após as acusações de Netanyahu: 'Não permitamos uma nova Gaza no Líbano"

"Espanha difamou os nossos heróis. Temos o exército mais moral do mundo", disse Netanyau. Vem falar de Moral? Um genocida, com um ódio insuperável aos islâmicos, com ideias expansionistas do território de Israel, incluindo Líbano e Síria.
Ana Gomes: Netanyahu «é outro narcisista maligno como Donald Trump»
 

Sánchez apela à Europa para que contenha Netanyahu e suspenda o acordo de associação com Israel

Só em Gaza os israelitas sionistas "apagaram" mais de 80.000 palestinianos.
1. Números Oficiais de Fatalidades
Até ao momento, os dados do Ministério da Saúde de Gaza (que são considerados fiáveis por organizações internacionais como a ONU e a OMS) reportam cerca de 41.000 a 43.000 mortes confirmadas. Este número inclui pessoas cujos corpos foram processados em hospitais ou necrotérios.
Aproximadamente 70% das vítimas identificadas são mulheres e crianças.

2. De onde vem o número de 80.000?
Embora o número oficial de mortes confirmadas seja cerca de metade disso, o valor de 80.000 (ou até mais) aparece frequentemente em discussões devido a dois fatores principais:
Pessoas Desaparecidas: estima-se que existam pelo menos 10.000 a 20.000 pessoas desaparecidas sob os escombros. Como não há equipamento pesado suficiente para remover os destroços, estas pessoas são presumidas mortas, mas não constam na contagem oficial inicial.
Feridos Graves: o número de feridos ultrapassa os 95.000 a 100.000. Em contextos de guerra, a linha entre "ferido" e "vítima mortal" é ténue devido à falta de hospitais funcionais; muitos feridos acabam por falecer posteriormente por falta de cuidados médicos.

3. A Projeção da revista "The Lancet"
É possível que a confusão com números maiores venha de um estudo publicado na prestigiada revista científica The Lancet em julho de 2024.
Os investigadores alertaram que o número total de mortes (diretas e indiretas) poderia ser drasticamente superior aos dados oficiais. Eles estimaram que, se incluirmos as mortes indiretas (causadas por fome, sede, falta de saneamento e colapso do sistema de saúde), o balanço final poderia chegar a 186.000 mortes ou mais a longo prazo.


As assinaturas estão a decorrer. Assina e partilha nas redes sociais. Já vamos em 880.972

N.B. Para que uma iniciativa de cidadania europeia seja válida, deve obter pelo menos um milhão de assinaturas válidas e atingir os limiares mínimos em, pelo menos, sete países.

domingo, 5 de abril de 2026

As Team Trump wage unceasing war on Iran, evangelical nationalists are destroying any moral world order we once had


The brutalisation of global norms by figures like Pete Hegseth must be seen as an ethical issue. It’s a fight against chaos, and all major religions must play a role

That combative old hymn, Onward Christian Soldiers, is not much heard these days, though it was once a favourite with church congregations and school assemblies. Written in 1865 by Sabine Baring-Gould, an English clergyman and religious scholar, its belligerent refrain urges the faithful on to battle, victory and conquest: “Onward, Christian soldiers / Marching as to war / With the cross of Jesus / Going on before!” Its martial tone suited the Victorian zeitgeist but it made succeeding generations uneasy (though it was still sung in my primary school in the early 1960s). Nowadays, this sort of triumphalism gives religion a bad name.

Pete Hegseth, US defence secretary, and a leading Christian soldier, would certainly disagree. He probably hums it on his way to work. At a recent Christian worship service in the Pentagon – an irregular event, given the constitution’s dislike of anything smacking of state religion – Hegseth, referencing Iran, prayed for “overwhelming violence of action against those who deserve no mercy”. Hegseth’s creed is killing. He describes Iranians as “religious fanatics”. And he should know. His intolerant brand of evangelical Christian nationalism is extreme even by US standards – yet has Donald Trump’s backing. Trump was a Presbyterian until 2020, when he abruptly declared he wasn’t. God knows what he is now.

Exploitation of Christian belief for political and military ends is a long-established, shabby US practice. Yet there’s a darkly obnoxious underside. Implicit in the official demonisation and dehumanisation of the Iranian nation is fear and loathing of otherness, in this case Shia Muslims. In one of his first acts as president in 2017, Trump banned immigrants from several Muslim-majority countries, and has continued in that hateful vein.

For most practising Christians, the misappropriation, distortion and weaponisation of faith to justify death and destruction, sow divisions, excuse war crimes and bomb Iran “back to the stone ages” is deeply saddening. Christians – who celebrate Easter on Sunday – believe Jesus was crucified for the sake of all mankind, for the forgiveness of sins, not for vindictive vengeance, pride and domination. Pope Leo spoke for many beyond the Catholic church at a Palm Sunday mass in Rome in forcefully rejecting attempts by zealots such as Hegseth to conscript Christianity. “No one can use [Jesus] to justify war,” he said, quoting Isaiah. War-makers’ prayers would go unanswered. “Your hands are full of blood.”

Not all Christians oppose Trump’s and Benjamin Netanyahu’s war of choice in Iran. Yet Leo’s outrage is shared in Britain by, among others, Rowan Williams, a former archbishop of Canterbury, and is echoed across the Islamic world and by Jews around the world. It reflects a much bigger battle – over the way today’s authoritarian leaders ignore international law and encourage and exploit the disintegration of the post-1945 “global rules-based order”. The cost of this breakdown is usually counted in terms of geopolitical and economic disruption, fractured alliances and unilateral acts of impunity, such as the invasion of Ukraine and genocide in Gaza. But the brutalisation and demoralisation of the global order must be counted an ethical issue, too. Its collapse constitutes a fundamental, universal crisis of morality.

More than ever, perhaps, a conflicted world needs independent, apolitical voices willing, and sufficiently courageous, to speak truth to power, stand up to autocratic bullies, defend the weakest and most vulnerable, and call out injustice and state lawlessness. When temporal leadership fails, when trust and confidence in secular governments and politicians are lacking, when belief in democracy is fading and when people’s basic security, physical and financial, is threatened by forces beyond their control, who then will challenge tyranny? With growing desperation, nailed to a cross of their own making, broken societies cry out for spiritual rescue.

In this global struggle against chaos, all religions must play a role. Yet over Iran, its latest manifestation, the response has often seemed cautious and divided. In the UK, Sarah Mullally, installed last month as archbishop of Canterbury and head of the worldwide Anglican communion, sidestepped the war in her first sermon. In contrast, Guli Francis-Dehqani, the Iranian-born bishop of Chelmsford, denounced it as illegal, as neither moral nor just.

The assassination by Israel of Ayatollah Ali Khamenei, Iran’s supreme leader, who was also a senior clerical authority for Shia Muslims everywhere, was exceptionally provocative (and illegal). Yet regional reactions have divided along sectarian lines. In Syria, some Sunni Muslims celebrated his death. The war is popular among Jewish Israelis but a majority of Jewish Americans is opposed, with 77% saying Trump has no plan – according to a J Street poll. Similar divides exist over Ukraine, where religious organisations linked to the slavishly pro-Putin, pro-war Russian Orthodox church are banned by Kyiv.

Such schisms and splits are nothing new. Yet facing global geopolitical meltdown, Christian leaders of every stripe have a clearcut moral responsibility to unite in championing a more militant, voluble, specifically anti-war, pro-justice ecumenicalism. In truth, all faith leaders, not just Christians, could and should act together. Mosque worshippers in Tehran, Beirut and Gaza, synagogue members in Tel Aviv, Jerusalem and north London, churchgoers from Canterbury to Cincinnati and their children – children like those incinerated by a Tomahawk missile in Minab – all share a common interest in upholding the basic human freedom to live, work and follow the god of their conscience without being blown up, terrorised, persecuted and cynically misled by reckless politicians.

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terça-feira, 31 de março de 2026

Parlamento israelita aprova projeto de lei que prevê pena de morte para palestinianos


À esquerda, a deputada israelita, vice-presidente do Parlamento, que redigiu a lei da pena de morte para palestinianos aprovada ontem, e que elogiou um assassino (há vídeo) que queimou vivos um bebé palestiniano e seus pais enquanto os seus camaradas cantavam "Ali está na grelha". O nome dela é Limor Son-Har Melech e o dele é Amiram Ben-Uliel
Aqui está ela com uma corda de forca na mão direita e uma seringa na esquerda. Ao lado, o seu marido segura uma arma com a etiqueta "ocupação", um avião com a etiqueta "expulsão" e uma casa com a etiqueta "colonização".  Esta gente integra o poder e o governo de Israel.

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terça-feira, 24 de março de 2026

Manual Prático para Intocáveis ou Como Cometer Horrores e Ainda Dar Lições de Direito


Há um certo tipo de poder que já não precisa de argumentos, apenas de memória curta alheia. Esse poder observa o mundo, escolhe cuidadosamente as palavras “ordem”, “segurança” e “valores”, e depois trata de garantir que nenhuma dessas palavras interfira com aquilo que realmente importa. A ausência de consequências.

O episódio recente envolvendo o Tribunal Penal Internacional tem a elegância de um acto assumido. O tribunal faz o que supostamente foi criado para fazer, investiga alegados crimes de guerra e crimes contra a humanidade no contexto da devastação de Gaza, aponta responsabilidades concretas, incluindo o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o então ministro da Defesa Yoav Gallant, e de repente descobre-se que o verdadeiro problema não são os factos, mas a ousadia de os nomear.

A partir daí, a coreografia é previsível. Entra em cena o aliado indispensável, os Estados Unidos, com nomes próprios e assinatura oficial. Donald Trump, através de uma ordem executiva, e o Congresso norte-americano, com legislação feita à medida, assumem o papel de escudo político. Não há necessidade de desmontar acusações, nem de discutir o conteúdo jurídico dos mandados. Isso implicaria aceitar que o debate se faz no terreno do direito. E o terreno, aqui, é outro.

O método escolhido é particularmente revelador. Não se prende ninguém, não se abre processo contra os juízes, não se convoca sequer um simulacro de contraditório. Simplesmente torna-se a vida dos magistrados impraticável. Juízes como Nicolas Guillou, e outros como Karim Khan, Tomoko Akane ou Rosario Aitala, passam a existir numa espécie de exílio funcional, onde cada operação bancária, cada serviço digital, cada gesto banal depende de um sistema que decidiu tratá-los como ameaça.

É uma pedagogia eficaz. Não se diz “não investiguem”, mas garante-se que todos percebem o custo de o fazer. É uma linguagem que dispensa tradução. E, como todas as linguagens de poder bem afinadas, funciona melhor quando não precisa de ser explicitada.

Entretanto, do outro lado, mantém-se a narrativa. Benjamin Netanyahu continua a falar de segurança nacional, de defesa existencial, de necessidade estratégica. A linguagem é cuidadosamente construída para sobreviver à realidade. Yoav Gallant, na mesma linha, enquadrou operações militares como inevitabilidades técnicas. No meio dessa retórica limpa, desapareceram nos escombros, as dezenas de milhar de vítimas civis, e a devastação prolongada de um território inteiro.

O incómodo do Tribunal Penal Internacional não está em ser perfeito. Está em existir com a pretensão de aplicar critérios universais. Essa pretensão é tolerável enquanto se dirige a alvos previsíveis, de preferência frágeis ou isolados. Torna-se insuportável quando se aproxima de quem tem capacidade para responder.

E é aqui que a ironia aberrante atinge o seu ponto mais alto. Os mesmos actores que invocam constantemente a necessidade de responsabilização global e ousam gritos contra o terrorismo e crimes internacionais são os primeiros a reagir quando essa responsabilização deixa de ser teórica. De repente, a justiça internacional transforma-se numa ameaça à estabilidade. Julgar passa a ser visto como um acto de hostilidade.

O mais curioso é que nada disto exige grande disfarce. A lógica é sobreviver sem grandes esforços retóricos. Há um conjunto de regras que se aplicam a todos. E há um conjunto de excepções que se aplicam a quem pode garantir que essas regras não lhe tocam. A diferença entre uma coisa e outra não está nos tratados nem nos princípios. Está na capacidade de impor custos a quem ousa ignorar essa distinção.

Os juízes do Tribunal Penal Internacional, ao aceitarem lidar com casos que envolvem Israel e, por extensão directa, a protecção política dos Estados Unidos, entraram numa zona onde o direito deixa de ser suficiente. Não porque o direito falhe tecnicamente, mas porque deixou de ser o factor decisivo.

O resultado é um sistema interessante. Crimes de guerra continuam a ser condenados em abstracto, genocídios continuam a ser definidos com rigor, relatórios continuam a ser escritos com detalhe. Tudo permanece no lugar certo, como num museu bem organizado. A única alteração relevante é que certas peças estão protegidas por vidro blindado e não podem ser tocadas.

Enquanto isso, Nicolas Guillou, um dos 11 juízes do Tribunal Penal Internacional, afirmou que a sua vida se tornou um pesadelo desde que os EUA impuseram sanções aos juízes do TPI em 2025. Guillou, que faz parte do grupo de juízes que emitiu mandados de detenção contra o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o Ministro da Defesa, Yoav Gallant, pela guerra genocida israelita em Gaza e crimes contra a humanidade, disse ser forçado a viver como se estivesse no passado de "há 30 anos", porque a maioria dos serviços digitais depende de fornecedores norte-americanos. Por exemplo, referiu que não pode utilizar um cartão de crédito, encomendar produtos na Amazon, fazer reservas em plataformas como a Expedia ou o Airbnb, nem receber encomendas através da UPS.

Nicolas Guillou, reduzido a uma existência condicionada por sanções, é apenas um dos rostos visíveis desta engrenagem. Não é o alvo principal. É o aviso. Um lembrete de que há linhas que não devem ser cruzadas, não porque sejam ilegais, mas porque são inconvenientes para quem tem poder suficiente para redefinir o que significa inconveniente.

No meio disto tudo, fica um equilíbrio peculiar. A justiça existe, mas com perímetro. Os crimes existem, mas com hierarquia. E os responsáveis dividem-se com uma clareza desconcertante entre os que enfrentam tribunais e os que contam com a protecção activa de Washington.

É um sistema estável, desde que ninguém leve demasiado a sério a ideia de que a lei é igual para todos.

Porque existe uma clara tentativa de excepção para os criminosos genocidas sionistas e os seus comparsas imperialistas psicopatas.

Referências consultadas:

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Ucrânia: 13.500 km² de vias navegáveis ​​​​contaminadas por minas e explosivos


Aproximadamente 13.500 km² de vias navegáveis ​​na Ucrânia, incluindo o rio Dnieper, lagos e a costa do Mar Negro, estão potencialmente contaminadas por minas e restos explosivos de guerra, estimou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) a 12 de novembro. Esta área é comparável em tamanho ao Montenegro, observou a agência da ONU.

Até à data, os mergulhadores do Serviço Estatal de Emergência da Ucrânia conseguiram limpar apenas 190 km², ou 1,4% da área contaminada, e removeram mais de 2.800 engenhos explosivos, segundo o PNUD. Para acelerar os esforços de desminagem, a Ucrânia está a utilizar robôs subaquáticos capazes de localizar munições a profundidades até 300 metros, mesmo em condições de baixa visibilidade e fortes correntes.

Desde 2014, enfrentando um conflito no leste do país e a anexação da Crimeia, e desde 2022 uma invasão em grande escala, a Ucrânia é agora o país mais contaminado por explosivos do mundo. Segundo o governo ucraniano, 136.952 km², ou 23% do território, continuam afetados por minas terrestres e munições não detonadas.

Já em 2024, Natalia Gozak, diretora da Greenpeace Ucrânia, alertou à Reporterre que a guerra era “um fardo tóxico para gerações”. Em três anos de guerra, a invasão russa da Ucrânia gerou o equivalente a 230 milhões de toneladas de CO₂, de acordo com um estudo da Initiative on Greenhouse Gas Accounting of War, publicado em fevereiro.

sábado, 25 de outubro de 2025

Documentário: Arma de Guerra- Violência Sexual contra os Homens

Sexual violence is a well-known weapon of war. One that is deployed against men, as well as women. The enemy is not killed, but destroyed nonetheless. In this documentary, men from Ukraine, Congo and Bosnia break their silence.

Most male survivors of sexual violence remain silent. So the perpetrators get away with it. Often, the perpetrators do not even have a sense of wrongdoing when they commit these war crimes.

The first men to seek justice at the International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia (ICTY) in The Hague were survivors of the Bosnian War (1992-1995). This marked a turning point.

Zihnija Bašić from Bosnia tells how he had to fight for a long time to be recognized as a war victim after his rapes. He still suffers from the abuse to this day. Oleksiy Sivak from Ukraine has since founded a self-help group. Like his friend Roman Shapovalenko, he was sexually abused by Russian occupying forces. 

Masokolo Lemba from the Congo is also a member of a self-help group. Lemba fled from the war in his home country to Uganda - where survivors of sexual violence are often accused of homosexuality, which is a punishable offense in Uganda. This stigmatization and criminalization make it difficult to cope with the trauma. 

Historian Regina Mühlhäuser is a member of an international research group that investigates sexual violence against men. She says: "If you want to prevent sexual violence against men in war-time, you have to fight it in peace-time. After all, prisons and the military are often breeding grounds for this violence."

Despite their fear of stigmatization and discrimination, the survivors in this film have chosen to tell their stories in order to bring this taboo topic to light.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Governo israelita considera “vergonhosa” acusação de genocídio, Hamas diz que vergonha é inação internacional


Israel considerou hoje “vergonhoso” o relatório da Associação Internacional de Académicos do Genocídio acusando-o de “um genocídio” em Gaza, enquanto para o movimento islamita palestiniano Hamas uma “mancha de vergonha” é a inação da comunidade internacional.

“[O documento] assenta inteiramente na campanha de mentiras do Hamas e no branqueamento dessas mentiras por parte de terceiros”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) israelita na sua conta da rede social X.

Reagiu assim à declaração da Associação Internacional de Académicos do Genocídio (IAGS, na sigla em inglês), a maior associação de especialistas nesse crime contra a humanidade, que classificou as ações de Israel na Faixa de Gaza como “um genocídio” e instou o Governo israelita a cessar os ataques contra civis e a “deslocação forçada” da população.

“As políticas e ações de Israel em Gaza correspondem à definição legal de genocídio prevista no artigo II da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948”, sustentou a associação num comunicado, recordando que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) considerou plausível que Israel estivesse a cometer genocídio e instou o Estado a cumprir as ordens do tribunal.

O MNE israelita disse que o relatório dos especialistas é “vergonhoso” e que a IAGS não “verificou a informação”, a tarefa “mais elementar” numa investigação, conseguindo “até distorcer” o que foi dito pelo TIJ.

Mas, “acima de tudo”, acrescentou o MNE israelita na rede social X, a IAGS “criou um precedente histórico”: “Pela primeira vez, os ‘especialistas em genocídio’ acusam a própria vítima de genocídio”.

Isto apesar da “tentativa de genocídio do Hamas contra o povo judeu, assassinando 1.200 pessoas, violando mulheres, queimando vivas famílias e declarando o seu objetivo de matar todos os judeus”, acrescentou o MNE de Israel na mensagem.

O Exército israelita matou mais de 63 mil palestinianos desde o ataque do grupo islâmico Hamas a Israel, a 07 de outubro de 2023.

Por seu lado, o Hamas afirmou que o relatório da IAGS que classifica a guerra israelita na Faixa de Gaza como um genocídio representa uma nova prova legal sobre a situação no enclave, constituindo uma “mancha de vergonha” para a comunidade internacional.

A definição de genocídio estabelecida no artigo II da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio indica que “é cometido um genocídio quando um grupo nacional, étnico, racial ou religioso é sujeito a massacre, alvo de lesões graves à sua integridade física ou mental, intencionalmente submetido a condições destinadas a causar a sua destruição física ou transferência à força de crianças desse grupo para outro” – tudo isto feito com o intuito de exterminar, total ou parcialmente, essa comunidade.

Para o Hamas, a resolução do IAGS “constitui uma nova documentação legal que se soma aos relatórios e testemunhos internacionais que documentaram o genocídio” de que os palestinianos estão a “ser vítimas à vista de todo o mundo”.

O grupo palestiniano defendeu que “a inação” da comunidade internacional “é uma mancha de vergonha, uma falha injustificável na proteção da humanidade e uma ameaça direta à paz e à segurança internacionais”.

“Exigimos que a comunidade internacional, as Nações Unidas e todas as partes relevantes tomem medidas urgentes para pôr fim aos crimes de genocídio, deslocação e limpeza étnica que o Exército de ocupação está a cometer implacavelmente contra o nosso oprimido povo palestiniano”, sublinhou o movimento num comunicado.

O Hamas exigiu ainda que sejam punidos “os líderes fascistas e terroristas da ocupação pelos seus crimes, garantindo-se que não escaparão impunes”.

Várias organizações de defesa dos direitos humanos importantes, incluindo duas organizações israelitas, declararam também acreditar que Israel está a cometer genocídio.

A denúncia do maior grupo de peritos em genocídio junta-se às de dezenas de associações, organizações não-governamentais (ONG) e organizações internacionais, como a ONU, que têm classificado as ações de Israel na Faixa de Gaza como genocídio ou possível genocídio.

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Guerra em Gaza é boa para o negócio: venda israelita de armas vai de vento em popa.
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terça-feira, 10 de junho de 2025

Não, os activistas da flotilha Freedom, não queriam selfies. Pretendiam desbloquear Gaza




Ontem, dia 9 de junho aquando da detenção dos activistas, a organizadora da Flotilha da Liberdade, Huwaida Arraf, escreveu: "Israel não tem autoridade legal para fazer a detenção de voluntários internacionais a bordo do Madleen. Estes voluntários não estão sujeitos à jurisdição israelita e não podem ser criminalizados por prestarem ajuda ou desafiarem um bloqueio ilegal. A detenção é arbitrária, ilegal e deve terminar imediatamente".

O Madleen é um pequeno veleiro que transporta 12 civis a bordo, incluindo um médico e um parlamentar. Eles transportavam ajuda humanitária, leite em pó e fraldas...que tipo de ameaça à segurança é essa?

Sejamos claros, o bloqueio de Gaza é ilegal.

Na noite anterior, 8 de junho, centenas de israelitas e palestinianos marcharam em silêncio em frente ao Ministério da Defesa israelita, segurando retratos de crianças palestinianas mortas na guerra de Israel contra Gaza.

Quem estava a bordo do Madleen?
  1. Greta Thunberg – ativista climática sueca
  2. Rima Hassan – Deputada franco-palestiniana do Parlamento Europeu
  3. Yasemin Acar – Alemanha
  4. Baptiste André – França
  5. Thiago Avila – Brasil
  6. Omar Faiad – França; correspondente da Al Jazeera Mubasher
  7. Pascal Maurieras – França
  8. Yanis Mhamdi – França
  9. Suayb Ordu – Turquia
  10. Sérgio Toribio – Espanha
  11. Marco van Rennes – Holanda
  12. Reva Viard – França
Opinião de Isabel Santos

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Petição dirigida à Assembleia da República para o reconhecimento do Estado da Palestina


Numa petição tornada pública esta terça-feira e que pode ser assinada aqui, mais de cem personalidades exigem que o Estado português tome finalmente a decisão de reconhecer o Estado da Palestina. Os promotores entendem que o "reconhecimento do Estado da Palestina por parte de um grande número de países é, hoje, uma forma eficaz de, no plano diplomático, demonstrar a solidariedade para com o povo palestiniano e pressionar o governo israelita a pôr fim à escalada de violência contra as populações de Gaza e da Cisjordânia". E concluem que “apenas o reconhecimento do direito do povo palestiniano a constituir o seu próprio Estado permitirá abrir um horizonte de esperança num futuro de paz para a região”.

"Os abaixo-assinados não admitem ser testemunhas silenciosas ou passivas destes crimes. Ao condená-los, recordam décadas de violência e humilhações contra o povo palestiniano", diz o documento citado pela agência Lusa e que é subscrito por figuras do meio académico e cultural como António Sampaio da Nóvoa, Júlio Machado Vaz, Maria de Lurdes Rodrigues, Teresa Violante, Vital Moreira, Pilar del Rio, Ana Bacalhau, Capicua, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, Sérgio Godinho ou Rui Reininho. No plano político, além de Sampaio da Nóvoa, a lista de promotores conta ainda com outra antiga candidata presidencial, Ana Gomes, os ex-deputados bloquistas Alda Sousa, João Teixeira Lopes e José Manuel Pureza, o ex-presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues e um antigo secretário de Estado do governo de Passos Coelho, Bruno Maçães, entre outros atuais e ex-parlamentares.

O texto diz ainda que os signatários seguem "com crescente preocupação o agravamento das violações de direitos humanos e da lei humanitária internacional, os crimes de guerra e a escalada de violência sobre civis em Gaza e na Cisjordânia". Além do reconhecimento do Estado da Palestina, os signatários querem que Portugal se comprometa com as deliberações do Tribunal Penal Internacional, “nomeadamente apoiando o cumprimento de mandados de captura contra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e Yoav Gallant, ex-Ministro da Defesa de Israel” e que o nosso país “impossibilite o trânsito e o transbordo de material militar destinado a Israel em território português ou águas territoriais portuguesas e adote as políticas necessárias para garantir que entidades jurídicas privadas registadas na jurisdição portuguesa cessem a prestação de serviços utilizados por Israel nas suas operações militares em Gaza”.

Em declarações ao Público, Sampaio da Nóvoa explicou o seu apoio a esta iniciativa, dizendo que “ao longo da História, foi pelo silêncio de muitos, e que tantas vezes foram as vítimas seguintes, que se cometeram as maiores barbaridades. Não podemos ficar em silêncio.”

Noutra iniciativa, que junta 146 “personalidades que, de um ou outro modo, trabalham em ligação com a infância”, na maioria escritores e ilustradores, também se defende que “ante o massacre de milhares de crianças e outros palestinos em Gaza, não seremos cúmplices pelo silêncio”. Segundo a agência Lusa, o abaixo assinado dinamizado pelas ilustradoras Ana Biscaia e Inês Oliveira e pelo escritor João Pedro Mésseder juntou escritores como Alice Vieira, Álvaro Magalhães, Ana Filomena Amaral, António Mota, José Fanha, Luísa Ducla Soares e Rita Taborda Duarte e ilustradores como André Carrilho, Catarina Sobral, Madalena Matoso, Mariana Rio, Rachel Caiano e Yara Kono. “Denunciamos e repudiamos o genocídio”, afirmam os signatários, considerando que “um mundo de paz é possível”.

Outro manifesto divulgado na semana passada juntou mais de 230 escritores de língua portuguesa num apelo ao cessar-fogo imediato na Palestina e em defesa da “entrada urgente de ajuda humanitária nos territórios ocupados”. A iniciativa foi da Fundação José Saramago e juntou nomes como Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Chico Buarque, José Eduardo Agualusa, Mia Couto e Mário Lúcio Sousa. Iniciativas semelhantes ocorreram no Reino Unido e Irlanda e também em França.

Hoje , 4 de junho, o MPPM convoca uma manifestação em solidariedade com a Palestina e pelo fim do genocídio, com ponto de partida às 18h no Largo do Chiado. O protesto seguirá até ao Largo 1.º de Dezembro.

“Ajuda” israelita já matou mais de 100 nas filas
Os massacres da população faminta em Gaza são agora diários, com as tropas de Israel a abrirem fogo sobre os deslocados que se dirigem aos centros de distribuição de alimentos geridos por uma organização patrocinada por Israel e EUA. Na manhã de terça-feira, os disparos fizeram pelo menos 27 mortos e dezenas de feridos num desses pontos em Rafah.

Um porta-voz da Cruz Vermelha disse à Reuters que o seu hospital de campanha recebeu 184 vítimas, dos quais 19 foi declarado o óbito à chegada, tendo outros oito morrido pouco depois devido aos ferimentos. As autoridades de Gaza elevam para 102 o número de mortos nestes pontos de distribuição de alimentos na última semana.

“Atacar os famintos enquanto procuram o seu sustento revela a natureza deste inimigo fascista, que usa a fome e os bombardeamentos como armas de morte e de deslocação, como parte de um plano sistemático para esvaziar Gaza da sua população”, afirmou o Hamas, considerando o processo promovido pelos israelitas e estadunidenses à margem das redes de apoio da ONU e das ONG no terreno como “uma armadilha de morte e humilhação”

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A Palestina e o colapso da ordem mundial baseada em regras

A realidade no terreno - Em Abril de 2025, a catástrofe humanitária em Gaza atingiu proporções catastróficas.

Por Peiman Salehi

Introdução
Em Maio de 2025, a catástrofe humanitária em Gaza atingiu um nível sem precedentes. Mais de 50.000 palestinianos foram mortos desde outubro de 2023, a grande maioria deles civis, incluindo milhares de crianças. No entanto, as potências ocidentais — particularmente os Estados Unidos e os seus aliados — continuam a defender a chamada “ordem internacional baseada em regras”. Esta frase, frequentemente invocada para justificar sanções, intervenções e pressões diplomáticas noutros locais, soa vazia quando aplicada à difícil situação do povo palestiniano, que dura há décadas. A ocupação contínua, as políticas de apartheid e os repetidos crimes de guerra cometidos por Israel — apoiados incondicionalmente pelo Ocidente — expõem uma profunda hipocrisia no cerne desta ordem dita global.

Apesar de mais de 100 resoluções da ONU condenarem os colonatos israelitas, a deslocação forçada e os ataques indiscriminados contra civis, continua ausente uma responsabilização significativa. Israel não enfrenta sanções, embargo de armas ou isolamento internacional. Em vez disso, continua a receber milhares de milhões de dólares em ajuda militar, acordos comerciais preferenciais e cobertura política das potências ocidentais. Gaza, entretanto, continua cercada. Os hospitais são bombardeados, os comboios de ajuda são bloqueados e as necessidades básicas como água, combustível e electricidade são deliberadamente retidas. Esta não é uma resposta de segurança — é uma punição coletiva em grande escala.

Aplicação Selectiva do Direito Internacional
A abordagem do Ocidente ao direito internacional é tudo menos consistente. Quando a Rússia anexou a Crimeia ou quando países como o Irão e a Venezuela foram acusados ​​de violações de direitos, seguiram-se sanções rápidas e condenação global. No entanto, quando Israel viola abertamente as Convenções de Genebra, ataca as infraestruturas civis e desafia o Tribunal Internacional de Justiça, é recompensado com acordos de normalização, investimentos em tecnologia e parcerias de defesa. Este flagrante duplo critério destruiu a credibilidade de qualquer narrativa “baseada em regras”. É claro que as “regras” se aplicam apenas aos adversários do Ocidente — não aos seus aliados.

A armamentização da narrativa
Igualmente preocupante é o papel dos media ocidentais em moldar a perceção pública. A resistência palestiniana é rotulada como “terrorismo”, enquanto a agressão israelita é enquadrada como “autodefesa”. Termos como “confrontos” são utilizados para obscurecer a realidade dos ataques militares unilaterais. A desumanização dos palestinianos e a eliminação do seu sofrimento são componentes essenciais para manter esta ilusão de superioridade moral. O jornalismo que desafia esta narrativa é frequentemente silenciado, censurado ou descartado como tendencioso.

Conclusão
A Palestina já não é apenas uma crise humanitária — é um espelho que reflecte a falência moral do sistema global. A ordem mundial baseada em regras, promovida pelo Ocidente, entrou em colapso sob o peso das suas próprias contradições. Quando o direito internacional é aplicado seletivamente, quando algumas vidas são consideradas dispensáveis ​​e quando a justiça é sacrificada por interesses geopolíticos, o que resta não é a ordem, mas a dominação. A justiça para a Palestina já não é uma preferência política; é um imperativo moral global. Até que o mundo enfrente esta hipocrisia, a paz permanecerá fora de alcance — não apenas para os palestinianos, mas para a humanidade como um todo.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

O genocídio democrático


Tempos houve, retrógrados, ideologicamente remetidos para o caixote do lixo da História, nada liberais e progressistas em que o conceito de genocídio era uma coisa feia, revoltante, sanguinária. Tempos em que os seres humanos, mesmo os mais avançados na caminhada civilizadora, tinham ainda o seu quê de selvagens.

Práticas como as da Santa Inquisição, a barbárie nazi contendo o seu estarrecedor Holocausto, até o episódio dos Hutus no Burundi e os massacres na antiga Jugoslávia, desde que os supostos autores fossem os sérvios, provocaram grande comoção entre nós. Quem mais se indignou perante estes acontecimentos foi, pela ordem natural das coisas e porque assim deve ser, por definição, a «nossa civilização», a ungida «civilização ocidental», depositária sem mácula dos conceitos básicos humanistas como a democracia, a liberdade, os direitos humanos, a lei, a justiça e, por último mas não menos importante, o mercado – motor infalível de tudo o resto.

Parece inquestionável, contudo, que em relação ao passado a «nossa civilização cristã e ocidental» não tinha as mãos completamente limpas na chacina purificadora da Santa Inquisição, da mesma maneira que existem suspeitas sobre o longo período de alheamento em relação às actividades de Hitler antes e durante o Holocausto, ou até sobre o seu papel decisivo na criação de condições para que essas tragédias tivessem acontecido.

Porém, práticas assim desaconselháveis aconteceram há séculos, ou décadas distantes, quando o nosso estádio civilizacional não tinha amadurecido aos níveis de hoje, nos quais a cultura é pujante, o humanismo esfuziante, cultivámos um edénico jardim protegido por um muro inviolável que nos defende da barbárie ainda avassaladora e invejosa da nossa evidente superioridade. Deve recordar-se, e que não haja qualquer equívoco xenófobo e inquisitorial ao fazê-lo – indignidades com as quais a nossa sociedade avançada não pactua – que os alvos frequentes destas sevícias foram quase sempre os judeus, esses hereges e assassinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, crimes pelos quais foram condenados a quase dois mil anos de necessária marginalização.

Agora tudo passou, tudo acabou, estamos nos píncaros da democracia neoliberal. Aos que dizem representar os judeus mas têm zero vírgula zero de raízes na Palestina histórica é permitido finalmente vingar-se e descarregar no povo nativo palestiniano uma raiva acumulada durante séculos de perseguições – mas não aos judeus étnicos que permaneceram no seu território pátrio. É uma espécie de princípio de vasos comunicantes da civilização em que os mais fracos e desprotegidos estão sempre ao nível inferior no ramo em ascensão: os que dizem representar os judeus já subiram para um patamar de equilíbrio seguro; aos palestinianos cabe agora esperar pela sua vez durante o tempo que tiverem de esperar. Se lá chegarem, o que pode não acontecer porque o genocídio finalmente democratizou-se, caminha ao compasso da nossa civilização e, uma vez que o Direito Internacional é coisa retrógrada e reaccionária, a vigente e moderníssima «ordem internacional baseada em regras» pode definir como ultrapassado, caduco até, aquele princípio da Física aplicado aos domínios sociais. O povo palestiniano sofrerá assim uma espécie de dores do progresso em direcção à civilização, enfim alguém teria de passar por isso.

Uma chacina lógica e inevitável
Israel, como define o seu actual primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, indivíduo que tem um mandado de captura emitido por essas retrógradas instituições como o Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional, é «o garante da presença da civilização ocidental no Médio Oriente».

O homem tem toda a razão: nenhum dos países ocidentais contesta esse dogma; pelo contrário, reforçam-no jurando que «Israel é a única democracia do Médio Oriente».

Ora, se a «única democracia do Médio Oriente» realiza há cerca de 80 anos o genocídio do povo palestiniano, combinando duas acções democráticas e liberais, como são a limpeza étnica e o extermínio das populações, então não pode estar a infringir qualquer lei em vigor. Recorda-se que os países ocidentais, com o seu farol, os Estados Unidos da América, à cabeça têm uma relação perfeitamente justa com a justiça porque em relação aos tribunais atrás citados podem julgar e ser inquisidores, mas não admitem ser julgados. Israel pertence a esta casta de eleitos, assim lhe permite a condição parcela de Ocidente incrustada no selvático Oriente.

Que mal tem afinal o genocídio? Qual o problema de assassinar mais de 60 mil pessoas, maioritariamente mulheres e crianças, na Faixa de Gaza desde 7 de Outubro de 2023? Há muitos terramotos que provocam mais vítimas; além disso, que são 60 mil seres humanos no meio de mais de dois milhões de habitantes naquele enclave, ou será campo de concentração?

Existe ainda uma outra justificação essencial para se compreender a matança. Nunca esqueçamos o apelo lancinante de Daniella Weiss, uma das chefes dos colonos sionistas importados por Israel: «Os colonos querem ver o mar, o que é um desejo lógico e romântico. Gaza deve ser esvaziada de todos os árabes para que os colonos possam ver o mar construindo colonatos em toda a Faixa de Gaza». Qualquer dirigente ocidental compreenderá muito bem os direitos humanos defendidos pela angustiada Daniella. Estou certo de que um deles é esse exemplo de democrata chamado Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros do impoluto Montenegro, que ainda recentemente foi saudar Netanyahu e os seus colaboradores mesmo no auge da operação de extermínio.

Para estar ao lado das matanças cometidas por Israel, o Ocidente não ignora o facto de o fundador do sionismo, Theodor Herzl, ter garantido que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra. É certo que o mesmo Herzl admitiu depois a necessidade de «incitar a população desfavorecida a sair da Palestina, privando-a de trabalhar na nossa Pátria», mas isso terá sido, digamos, uma figura de estilo.

A primeira-ministra israelita Golda Meir, a «dama de ferro» antecessora de Margaret Thatcher, repôs a verdade de Herzl ao garantir, algumas décadas depois, que os «palestinianos não existem», por isso, «não viemos expulsar ninguém». Moshe Dayan, general e herói nacional da Guerra dos Seis Dias, ousou desmenti-la: «Não há um único lugar neste país que não tenha tido uma população árabe». Talvez o general percebesse de tudo o que era militar mas fosse uma nulidade em geografia e demografia. E, como não custa especular, não escapou a uma dura reprimenda da sua chefe do governo.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Antigos participantes do Festival da Eurovisão pedem exclusão de Israel

Protestos contra a participação de Israel no Festival da Eurovisão, em Maio de 2024

Mais de 70 ex-participantes do Festival Eurovisão da Canção, entre os quais Salvador Sobral, divulgaram esta terça-feira uma carta aberta apelando à União Europeia de Radiodifusão (UER) para excluir a participação da emissora israelita KAN.

Os subscritores, entre os quais também se encontram os portugueses António Calvário, Fernando Tordo, Lena D'Água e Rita Reis, da antiga banda Nonstop, justificam o seu apelo à UER por considerarem a KAN "cúmplice do genocídio contra os palestinianos em Gaza".

"Nós, os ex-participantes da Eurovisão instamos todos os membros da União Europeia de Radiodifusão (UER) a exigir a exclusão da KAN, a emissora pública israelita, do Festival Eurovisão da Canção. A KAN é cúmplice do genocídio de Israel contra os palestinianos em Gaza e do regime de décadas de 'apartheid' e ocupação militar contra todo o povo palestiniano", lê-se na carta.

A carta, publicada conjuntamente pela organização não-governamental Artists For Palestine e pelo movimento Boycott, Divestment, Sanctions (Boicote, Desinvestimento e Sanções) (BDS), é assinada por antigos vencedores do concurso, como o Salvador Sobral (2017) e o irlandês Charlie McGettigan (1994), entre outros antigos representantes, como compositores, músicos, bailarinos, membros de coro.

"Acreditamos no poder unificador da música, e é por isso que nos recusamos a permitir que seja utilizada como ferramenta para encobrir crimes contra a humanidade", lê-se no comunicado, no qual os antigos participantes afirmam que a presença de Israel tornou a edição de 2024 "a mais politizada, caótica e desagradável" da história da competição.

"No ano passado, ficámos horrorizados com o facto de a UER ter permitido que Israel participasse enquanto o genocídio em Gaza continuava, transmitido em direto para todo o mundo. O resultado foi desastroso", lê-se no comunicado.

Segundo os 70 subscritores, a UER não reconheceu as críticas nem refletiu sobre os seus erros, mas, em vez disso, concedeu "total impunidade" à delegação israelita enquanto reprimia outros artistas e delegações.

Acrescentando ainda que, dada a ascensão dos movimentos autoritários e de extrema-direita em todo o mundo, o dever de se manifestar é "urgente", os subscritores da carta lembram que a UER já demonstrou a sua capacidade de medidas drásticas quando expulsou a Rússia da competição em 2022, após invadir a Ucrânia.

"Não aceitamos este duplo critério em relação a Israel. Solidarizamo-nos com os concorrentes deste ano e condenamos a recusa reiterada da EBU em assumir a sua responsabilidade".

A carta é publicada uma semana antes do início da Eurovisão 2025, que terá lugar em Basileia, na Suíça, nos dias 13, 15 e 17 de maio.

Entre os subscritores estão antigos representantes de países como Finlândia, França, Irlanda, Noruega, Eslovénia, Suíça, Reino Unido, Albânia, Bósnia Herzgovina, Turquia e Malta.

Israel participa no concurso desde 1973
Na edição deste ano está previsto Israel ser representado por Yuval Raphael, um sobrevivente do ataque do Hamas ao Festival Nova, em 7 de outubro de 2023.

Em abril passado, a televisão espanhola (RTVE) enviou uma carta ao presidente da UER, Noel Curran, solicitando "a abertura de um debate" sobre a participação de Israel na competição. Este pedido foi posteriormente repetido pelas estações de televisão eslovenas e islandesas.

Israel participa no concurso desde 1973, tendo já vencido por quatro vezes: em 1978, com a canção "A-Ba-Ni-Bi", defendida por Izhar Cohen e os The Alfabetam, e no ano seguinte, quando recebeu o Festival em Jerusalém, com "Hallelujah", por Gali Atari e os Milk & Honey.

Uma canção em hebraico, "Diva", voltou a vencer o festival em 1998 com Dana International. A mais recente vitória israelita no certame foi em Lisboa, em 2018, com "Toy", uma canção interpretada em inglês por Netta Barzilai.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Ministro invocou motivos de agenda para não receber Francesca Albanese



Francesca Albanese veio esta semana a Portugal para dar algumas conferências sobre o genocídio em Gaza e o Direito Internacional. Na quarta-feira esteve no ISCTE, esta quinta-feira irá ao CCB e na sexta é a vez da Universidade de Coimbra. Pelo meio está previsto um encontro no Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas o ministro Paulo Rangel, que recentemente teve de recuar na sua posição sobre a bandeira portuguesa no navio que transporta explosivos para Israel, invocou motivos de agenda para não a receber. E em vez de ser recebida por um secretário de Estado, será um diretor-geral do Ministério a marcar presença no encontro.

Na manhã desta quinta-feira, a relatora especial da ONU foi recebida por deputados na Assembleia da República. No final do encontro, a coordenadora bloquista Mariana Mortágua lamentou que o ministro tenha optado por não receber Francesca Albanese “como era sua responsabilidade como representante do Governo português”. E considerou a ausência como “mais uma das contradições do Governo” no que diz respeito à Palestina, a juntar à da defesa dos dois estados sem reconhecer o Estado da Palestina. E para o Bloco a prioridade agora passa por reconhecer o Estado da Palestina e parar o massacre, caso contrário “não vai ter população para reconhecer daqui a uns meses”.

Mariana Mortágua destacou a importância da presença de Albanese no Parlamento português, elogiando a forma clara e simples como coloca o problema que está em causa: que “as ações de Israel só podem ser enquadradas num projeto racista, expansionista, de ocupação do território palestiniano e extermínio da sua população” e que por isso “não se trata de uma resposta, de uma defesa, não se trata sequer de uma vingança, mas sim de “um plano de longo prazo” para a Palestina com aquelas características.

A coordenadora do Bloco criticou ainda o ministro Paulo Rangel por dizer na ONU que Israel tem o direito à legítima defesa mas que cometeu “excessos” em Gaza. “O genocídio não é excesso, é crime internacional”, prosseguiu Mariana, concluindo que o argumento dos “excessos” não faz mais do que revelar “a natureza da cumplicidade” de muitos estados com Israel. A coordenadora do Bloco agradeceu ainda a pressão feita por Albanese para a retirada da bandeira portuguesa do navio Kathrin, considerando-a “decisiva” para a “vitória da mobilização popular e da pressão que fizemos” junto do Governo que tinha começado por negar que houvesse navio e depois que houvesse explosivos a bordo.

Em conferência de imprensa na quarta-feira, Albanese congratulou-se com a retirada da bandeira do cargueiro Kathrin, mas sublinhou que “a questão mais urgente é saber o que é que Portugal vai fazer para não ter qualquer relação política, diplomática ou económica com Israel que possa prejudicar os palestinianos. O que é que o Governo vai fazer sobre o reconhecimento do Estado da Palestina. O que é que é preciso?”, questionou.

Albanese diz acreditar que “os arquitetos deste genocídio vão ser responsabilizados” e que a pressão sobre os governos para aplicarem o Direito Internacional “é um imperativo moral para todos nós”. Questionada sobre se o corte de relações diplomáticas com Israel não seria um passo excessivo, responde que “há um genocídio a acontecer, e mesmo se não lhe quiserem chamar genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade, o que seja: não se apoia um país no momento em que este comete atrocidades, e isto não começou ontem.”

A relatora das Nações Unidas defendeu que “este deve ser o momento para o Governo de Portugal ter um papel exemplar. Eu vejo como o vosso país vota nas Nações Unidas. Este é o momento de passar à ação. Qual é a coerência em dizer que concordam com a autodeterminação mas não reconhecem o Estado da Palestina? Isto é uma incoerência. Onde está o compasso moral da Europa?”, voltou a perguntar, contrapondo que “[os palestinianos] têm o direito de existir como povo num ou em dois Estados”.

Francesca Albanese foi também questionada pelos jornalistas sobre o recente anúncio de considerar o secretário-geral da ONU como persona non grata. “Já não há palavras. O mandato do secretário-geral vai ser marcado por este genocídio. Ele tem estado debaixo de grande pressão mas foi muito corajoso. Quanto ao facto de ter sido declarado persona non grata, já somos dois. É o que é”, concluiu.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Sudão: "A guerra mais esquecida do nosso tempo"

Os novos combates no centro do Sudão obrigaram 300.000 pessoas a fugir

No extremo leste do Chade, mulheres com roupas coloridas tentam cozinhar numa fogueira improvisada, em frente às tendas dos refugiados. Fazem parte das famílias da região de Darfur, no oeste do Sudão, que conseguiram fugir para o outro lado da fronteira, em direção ao Chade. Estão vivas, mas ficaram sem nada:

"Eu e o meu marido temos quatro filhos. A vida é muito difícil. Aqui recebemos um saco de 10 quilos de comida todos os meses, mas isso não chega. A comida simplesmente não é suficiente", contou à DW uma testemunha que não quer ser identificada.

As organizações internacionais de ajuda humanitária não têm fundos para fazer face à catástrofe humanitária. Só no Chade vivem pelo menos 800.000 refugiados do Sudão, diz Pierre Honnorat, do Programa Alimentar Mundial.

"Precisamos urgentemente de financiamento para esta crise. É urgente porque primeiro temos de comprar os alimentos e trazê-los para o Chade e depois transportá-los até aqui, para a fronteira, para que as pessoas aqui recebam pelo menos uma refeição por dia."

Sete milhões de refugiados
No Sudão, os dois homens mais poderosos do país estão em conflito desde abril passado. De um lado está Abdelfaftah al-Burhan, o chefe do Exército e presidente do Conselho Soberano do Sudão, do outro, o seu antigo adjunto, Mohamed Hamdan Dagalo, que comanda as chamadas Forças de Apoio Rápido.

Os combates alastraram-se a todo o país, afetando até zonas residenciais. A situação no Sudão não podia ser pior, disse recentemente Jan Egeland, diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, numa entrevista à emissora alemã ARD.

"Entristece-me que o mundo esteja a ignorar um dos maiores desastres humanitários da nossa geração. Sim, há a guerra na Ucrânia, a crise em Gaza. Mas como é que o mundo pode esquecer, em apenas alguns meses, que mais seis milhões de pessoas tiveram de fugir daqui? As mulheres estão a ser violadas, os hospitais estão a ser bombardeados, os campos de refugiados estão a ser bombardeados!"

Segundo os relatos, a situação é particularmente difícil na região de Darfur, no extremo oeste do Sudão. As milícias das Forças de Apoio Rápido voltam a ser acusadas de crimes brutais contra os direitos humanos. Vinte anos depois, a crise vivida no Darfur em 2003 parece estar a repetir-se, lembra Jan Egeland.

"O Darfur está atualmente a sofrer uma limpeza étnica maciça", começou por explicar o diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, que trabalha nas Nações Unidas há 20 anos.

"O Darfur era uma questão importante, o então Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair estavam determinados a ajudar a população. Hoje, está a acontecer novamente o mesmo em Darfur - centenas de milhares de pessoas estão a ser deslocadas, milhares já foram massacradas - e ninguém parece ter consciência disso."

Comunidade internacional ignora Sudão?
A crise parece não ter fim à vista: até agora, todos os esforços de mediação internacional para um cessar-fogo falharam. Diz-se mesmo que algumas potências estarão a alimentar o conflito no Sudão, que é rico em matérias-primas - as milícias controlam várias minas de ouro no país.

As relações entre o Governo sudanês e as Nações Unidas são cada vez mais tensas. O enviado especial alemão Volker Perthes foi declarado "persona non grata" e demitiu-se. E o Sudão apelou à ONU para encerrar a missão de estabilização no país.

"Uma civilização inteira foi destruída, 24 milhões de pessoas precisam de ajuda. Se o que está a acontecer no Sudão estivesse a acontecer noutro lugar e não em África, estaria no topo da agenda política. É a guerra mais esquecida do nosso tempo."

Desde abril, a guerra entre o exército e as RSF já causou pelo menos 12 mil mortos e mais de sete milhões de deslocados no Sudão