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sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Valpaços foi distinguida como Cidade Biológica Europeia de 2025


O galardão reconhece o compromisso da cidade transmontana com práticas sustentáveis, a promoção de produtos locais e a integração da produção biológica na estratégia de desenvolvimento regional. O município português, com mais de 14 500 habitantes, é líder nacional em agricultura biológica e em sustentabilidade integrada, contando com 516 produtores biológicos certificados, o maior número em Portugal. A educação para a sustentabilidade, as medidas ambientais e a inovação estão no centro da sua estratégia, apoiadas por uma liderança política empenhada, pela cooperação interinstitucional e por políticas inclusivas. Os “tesouros biológicos” de Valpaços incluem produtos DOP e IGP premiados, como vinho, azeite, amêndoas, castanhas e mel.

O Comissário Europeu para a Agricultura e a Alimentação, Christophe Hansen, declarou: «Os vencedores dos Prémios Europeus da Produção Biológica são exemplos brilhantes do que o movimento biológico na Europa pode alcançar: combinam os mais elevados padrões ambientais com resiliência económica e envolvimento social. O seu trabalho demonstra que a agricultura biológica não só produz de uma forma sustentável, como também constrói comunidades e molda o futuro. Hoje celebramos as suas conquistas e homenageamos a força e o potencial de todo o setor biológico na Europa.»

Na cerimónia, o Comissário Hansen proferiu o discurso de abertura, seguido de uma mesa-redonda com representantes das instituições europeias, do organismo representativo dos agricultores COPA-COGECA e dos premiados.

Na sua quarta edição, os Prémios Europeus da Produção Biológica foram lançados em 2022 como um compromisso no âmbito do Plano de Ação para o Desenvolvimento da Produção Biológica, com o objetivo de reforçar o consumo de produtos biológicos. Na nova proposta relativa à Política Agrícola Comum, a União Europeia continuará a assegurar um forte apoio político à agricultura biológica, garantindo que o setor possa continuar a crescer e prosperar.

Mais informações sobre todos os vencedores de 2025 estão disponíveis nesta página

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A saúde das plantas e o seu impacto na economia, sustentabilidade social e ambiental


As pragas e doenças que afetam as plantas são, segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, responsáveis por cerca de 40% de perdas das culturas alimentares a nível global, pelo que o seu combate eficaz é determinante para o suprimento das necessidades alimentares mundiais, em particular dos países mais vulneráveis.

A globalização, o comércio internacional, as alterações climáticas, o movimento crescente de pessoas e bens, têm contribuído, nos últimos anos, para a dispersão de pragas e doenças entre países e entre continentes. Os seus efeitos podem ser devastadores na economia, sustentabilidade social e ambiental dos territórios afetados.

Em Portugal, atualmente, são inúmeras as ameaças fitossanitárias que podem causar danos importantes à nossa agricultura e floresta. A nossa grande diversidade de culturas e de espécies vegetais e as nossas condições climáticas favorecem a dispersão e estabelecimento de pragas e doenças e dificultam o seu combate, pelo que é de extrema relevância as ações de prevenção. São exemplo, a introdução do nematode da madeira do pinheiro que atinge atualmente praticamente toda a nossa área de pinheiro-bravo, o escaravelho da palmeira que dizimou, em poucos anos, a maior parte das nossas palmeiras. Culturas tão importantes como são, por exemplo, a pera Rocha, a laranja do Algarve, ou as nossas vinhas, são também atingidas por pragas e doenças, que, além de conduzirem a importantes perdas de produção e de qualidade, implicam grandes intervenções para o seu controlo, por vezes mesmo culminando na destruição total de pomares e vinhas.

É, portanto, reconhecida a crescente importância das autoridades fitossanitárias na criação de normas fitossanitárias que permitam atuar na prevenção e deteção precoce de pragas e doenças emergentes, e com capacidade de acionar, quando necessário e atempadamente, medidas de erradicação.
A Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), enquanto autoridade fitossanitária nacional, implementa dezenas de programas de prospeção fitossanitários em todo o território nacional. Igualmente em todos os portos marítimos e aeroportos nacionais, os serviços de inspeção fitossanitária são responsáveis pela inspeção a vegetais e produtos vegetais, limitando assim a possível entrada de pragas e doenças por via dos produtos importados, mas é premente informar que uma mera peça de fruta ou uma planta trazida na mala de viagem, pode esconder um inimigo para as nossas culturas e florestas.

Devemos estar preparados para enfrentar crises fitossanitárias, priorizando a prevenção por forma a reduzirmos os impactos económicos, ambientais e sociais derivados de ataques de pragas e doenças nas nossas culturas e na nossa floresta.

É também fundamental que a sociedade em geral assuma o seu papel na salvaguarda na saúde das plantas e entenda os desafios e as dificuldades que os agricultores enfrentam diariamente para assegurar o abastecimento de alimentos saudáveis, nutritivos e diversificados, assim como o seu papel determinante na manutenção das áreas rurais e da biodiversidade.

Visando aumentar a consciência de todos para esta problemática, a Autoridade Europeia da Segurança dos Alimentos (EFSA), lança a campanha #PlantHealth4Life que une os esforços conjuntos da EFSA, de 22 países europeus e da Comissão Europeia.

Cada um de nós pode ser um embaixador desta campanha, ajude a divulgá-la, porque a «Proteger as Plantas é Proteger a Vida».

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A atribulada carreira diplomática do candidato do Chega



O cabeça de lista do Chega às próximas eleições europeias tem no seu currículo quatro décadas de carreira diplomática marcadas por várias polémicas e infrações disciplinares. Antes disso, juntou-se ao CDS e foi secretário-geral da Juventude Centrista logo em 1974. E esteve ligado a um dos momentos mais importantes dos primeiros tempos do partido, quando organizou o comício no Teatro de São Luiz que acabou com os militares a escoltarem os jovens centristas à saída do local, cercado por manifestantes da esquerda. Depois do evento, a atividade partidária reduz-se mas mantém a proximidade. Em 1979, a vitória da AD garante a pasta dos Negócios Estrangeiros a Freitas do Amaral e Tânger, há poucos meses no quadro do Ministério, é chamado para seu adjunto. Numa reportagem sobre o percurso de Tânger Corrêa, o Público recorda que o ativismo partidário do jovem diplomata, que passava pela colagem de cartazes do partido, deixou furioso o então secretário-geral do Ministério, Gonçalo Caldeira Coelho, também próximo do CDS.

Comunidade portuguesa de Toronto recolheu dinheiro para lhe comprar barcos de competição... e ficou a ver navios
Já nas funções de chefia de um posto diplomático, em 1984 como cônsul-geral em Toronto, surge o primeiro caso polémico. O estilo aventureiro e enérgico depressa lhe garantem simpatia de figuras da comunidade emigrante. E Tânger transmite-lhes o seu amor pela prática de vela e o sonho de ir aos Jogos Olímpicos. A comunidade mobilizou-se para lhe oferecer um barco de competição, mas o azar levou a que fosse destruído na viagem para uma competição nos EUA. Seguiu-se novo peditório para angariar dezenas de milhares de dólares e assim comprar um segundo barco topo de gama para o cônsul. Não há memória de um diplomata português ter aceite um presente - na verdade, dois - tão caro, o que as regras de conduta hoje proíbem expressamente a partir de um limite de 150 euros.

Tânger Corrêa usou o barco na preparação dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, onde cumpriu o sonho de participar. Mas a promessa de devolver o barco à comunidade portuguesa quando abandonasse o posto consular, ficando à guarda de um clube náutico que a comunidade iria criar, nunca se cumpriu. O cônsul trouxe o barco para o Clube Naval Setubalense, alegando que para isso teve o acordo da comunidade, que ficou a ver navios. Um inquérito do Ministério foi arquivado após as explicações de Tânger Corrêa de que o barco era apenas emprestado e que dele não tirou benefícios patrimoniais.

Em Goa ocupou uma casa, içou a bandeira... e abriu conflito diplomático
Depois de Toronto, foi colocado em Goa em 1993, com a missão de comprar uma casa para a residência oficial e a chancelaria. O negócio com uma propriedade da família Pacheco de Figueiredo ficou fechado, mas a casa estava vazia e à guarda de um motorista da família, que se recusou a abandoná-la. Com um grupo de amigos, Tânger Corrêa arrombou a porta da casa quando o seu ocupante estava ausente, retirando os seus pertences e colocando um poste onde içou a bandeira portuguesa, abrindo assim um incidente diplomático. Um grupo de populares organizou-se e retirou a bandeira, num caso que fez notícia e levou o governo local a afirmar não ter autorizado a mudança do consulado português. O negócio da casa ocupada acabou por cair e Tânger não tardou a ser retirado do posto.

domingo, 24 de dezembro de 2023

O Natal é que Passou


Passeio de Natal
Por razões que não interessam para esta história há uns dias fui a Lisboa e passeei pela baixa pombalina, o que já não fazia há alguns anos, não obstante ser lisboeta, nascido e criado quase no centro da cidade, até aos meus 25 anos.

As ruas enfeitadas, a música, a azáfama das gentes, enfim… o habitual nestas épocas natalícias. E o habitual eram também os numerosos sem abrigo, sentados ou deitados, recorrendo à caridade pública. Apressadas, as pessoas nem neles reparavam… ou fingiam que não reparavam. A diferença entre estes homens e mulheres sem casa, vivendo na rua, é que diferentemente de outros tempos, tinham junto de si pequenos “cartazes” de papelão onde se lia, EM INGLÊS, mensagens informando que eram sem abrigo e que pediam ajuda para comer. Um desses “cartazes” estava mesmo escrito em inglês e francês.

Houve no entanto uma situação que me fez pensar e suspirar de impotência.
Na Rua de São José, uma rua paralela à Avenida da Liberdade, aproveitando um recanto provocado pela confluência de dois prédios, via-se um enorme chapéu de chuva, branco, imaculadamente branco, que escondia uma, talvez duas, pessoas que, tudo apontava nesse sentido, ali tinham pernoitado e por ali ainda se mantinham. Estava frio. Muito frio. Junto deles, mas sem os ver porque estavam encobertos pelo chapéu, um jovem com uma farda de uma empresa de segurança, pedia-lhes, por favor, para abandonarem o local. Dizia o segurança que compreendia a situação deles, mas que tinha ordens para não permitir que eles ali continuassem, A forma como se dirigia àquelas pessoas, invisíveis por detrás do chapéu, era de alguém que se sentia incomodado, revoltado mesmo, por ter de cumprir aquela ordem.
Não sei como tudo acabou porque me afastei receoso das consequências do que de uma eventual intervenção da minha parte pudesse provocar. Eram onze horas da manhã e estava frio, muito frio. As pessoas continuavam a circular alheias ao que as rodeava. Com frio. Com muito frio. Faltavam poucos dias para o Natal.

Natal: um dia diferente?
Véspera de natal. Véspera do dia em que (para os cristãos) Jesus (filho de deus feito homem) nasceu. No entanto, segundo algumas pesquisas, Jesus não terá nascido a 25 de Dezembro. Mas, na realidade isso não importa. Também não importa se Jesus era (ou é) filho de deus. O importante é a filosofia da mensagem que vem sendo divulgada em seu nome.

Uma mensagem importantíssima que instituiu novos conceitos de vida. Contudo, (pergunto) estarão esses conceitos a ser integrados na sociedade em que vivemos e, muito particularmente, assumidos intrinsecamente pelos que se afirmam cristãos? Ou será apenas um faz de conta?

Nas redes sociais são muitos os que aplaudem as palavras caritativas de importantes figuras religiosas, os que condenam a existência da pobreza, os que se manifestam contra os rendimentos absurdamente elevados em comparação com a miséria de remunerações, mas não se conhece por parte destes, por pequena que seja, qualquer ACÇÃO que promova uma mudança social que extinga tanto quanto possível os factos que veem condenando.

Infelizmente, enquanto cada um de nós não contribuir para que a sociedade mude na perspectiva da filosofia que nos vem sendo transmitida há mais de 2000 anos, o que escrevi e que ainda aqui vou continuar a escrever, continua actual, porque representa a postura de uma parte representativa da sociedade que valoriza mais a forma do que o conteúdo, mais o TER do que o SER.

O Natal é que passou
No dia 24 de Dezembro, logo à noite, estarei sentado a uma pequena mesa com a minha pequena família. Uma mesa farta em que não faltará o bacalhau da Noruega (espero que ainda sem fosfatos), as batatas, as couves, o ovo (devidamente carimbado), tudo regado com o bom azeite português (talvez ainda não adulterado) que faz parte da tão falada dieta mediterrânica, além, claro, de muitos e muitos doces (sem edulcorantes). Ah!, já me esquecia do bom vinho português (sem sulfitos, claro).

O meu neto, já um jovem homem, possivelmente estará desejoso que o jantar termine rapidamente para correr para o smartphone mesmo ainda antes de abrir os presentes que se acumularão sob a árvore de natal, uma imitação de um pinheiro natural, que alguém da família foi buscar à arrecadação e encheu de luzes e bolas, vermelhas, e que no passado chamávamos encarnadas por causa das conotações políticas.

Se a noite estiver fria teremos o aquecimento ligado e, muito importante, a televisão sintonizada num qualquer programa apropriado. Talvez passe uma reportagem sobre os “sem-abrigo”, onde se vêm algumas dezenas de voluntários a oferecerem uma sopa quente, tudo em directo, o que nos fará sentir momentaneamente desconfortáveis, mas só momentaneamente, porque logo de seguida somos visualmente brindados com ceias de natal, verdadeiros deslumbramentos gastronómicos, servidas numas quaisquer salas decoradas a primor, para satisfação de quem as pode pagar.

Por essa altura já os embrulhos que aguardavam sob a árvore estarão desfeitos e cada um regozijar-se-á com aquele presente que lhe trouxe o pai natal (no meu tempo era o menino jesus).

Nestes jantares tradicionais não me parece que haja tempo para pensar nos mais de dois milhões de portugueses e nos muitos e muitos milhões que noutras partes deste maltratado planeta não têm uma alimentação mínima, uma habitação condigna, um acesso a cuidados de saúde elementares, uma oferta educativa quanto baste, porque, simplesmente porque, tiveram o azar de ter nascido na parte errada do mundo e da sociedade.

E haverá tempo para a solidariedade? Sabemos o que é ser-se solidário? Sabemos?
Há muitos, mesmo há muitos anos, foi atribuída a um preso a autoria deste poema, que pode reflectir o sentimento que avassala muitos dos que sofrem com as guerras, com a miséria, com as injustiças:

É Natal. E pr’a meu mal,
No lugar em que estou,
Eu não passei o Natal.
O Natal é que passou…

Para todos, mesmo com o natal a passar, os meus votos de Boas Festas.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Åland, o arquipélago sueco da Finlândia, é a fronteira mais absurda do planeta


Mesmo à entrada do Golfo de Bótnia , a meio caminho entre a Suécia e a Finlândia, existe um arquipélago que pertence a esta última mas onde apenas se fala a língua da primeira. Apesar de ter pouco mais de 30 mil habitantes, o território possui parlamento, bandeira, impostos e leis próprias, que se aplicam às mais de 6.700 ilhas que o compõem. Åland é um lugar muito peculiar dentro da ordem política europeia e internacional, e assim é devido à sua história e à sua geografia, que inclui a fronteira mais absurda do planeta. E também lá se vendia o champanhe mais caro (e mais antigo) do mundo.

Åland, que para sua informação se pronuncia algo como Ooland , foi conquistada pela Suécia no século XVI, e continuaria sendo território sueco (como toda a atual Finlândia) até 1808, quando, depois de perder diversas guerras com os russos, a Suécia assinou o Tratado de Frederikshamm , pelo qual a Finlândia foi cedida aos czares, e com ele também o arquipélago (que, se olharmos para um mapa, está a poucos passos de invadir Estocolmo). As coisas permaneceram assim até 1917, e aproveitando o facto de a Rússia estar envolvida num assunto pequeno , a Finlândia proclamou a sua independência , que foi rapidamente reconhecida tanto pela Rússia como pelo resto dos beligerantes na Primeira Guerra Mundial. E com isso, Åland também se tornou independente.

Aproximadamente um mês e meio após a independência, a Finlândia mergulhou numa guerra civil que deixou quarenta mil mortos. Åland foi ocupada pelos suecos e pelos alemães para evitar que a Rússia fizesse o mesmo e, após o fim da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, surgiu a questão sobre o que fazer com o arquipélago, povoado quase 100% por suecos, mas cedeu. para a Rússia, juntamente com a Finlândia, há cerca de um século. Os habitantes locais queriam regressar ao abraço protector de Estocolmo, mas o governo finlandês que venceu a guerra civil não estava à altura da tarefa. As tropas suecas instalaram-se unilateralmente nas ilhas como força de manutenção da paz durante a guerra civil, mas a verdade é que o governo sueco não estava muito interessado em iniciar uma guerra. Então as coisas finalmente chegaram à Liga das Nações , que não é uma competição de futebol, mas um organismo internacional antecessor direto da ONU. Lá, a Finlândia obteve uma vitória diplomática espetacular ao obter o apoio de boa parte dos países com peso na organização, e as Ilhas Åland foram declaradas definitivamente finlandesas. Em troca, Helsínquia teve de garantir a desmilitarização do arquipélago (para que a Suécia pudesse dormir em paz) e os direitos dos ilhéus de usarem a sua língua e cultura sem restrições. Assim foi assinada a Convenção de Åland , que ainda hoje está em vigor.

Artigo completo aqui

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ano de seca. Colheita de cereais para outono e inverno é "a pior de sempre"


A campanha de colheita de cereais para grão de outono e inverno, já concluída, é “a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas”, indicou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística. O ano agrícola volta a sofrer os efeitos da situação de seca, quadro que abrange 96,9 por cento do território continental do país.“

A colheita dos cereais para grão de outono/inverno está concluída, confirmando a atual campanha como a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, resultado dos decréscimos de área de produtividade”, adianta o INE nas previsões agrícolas agora divulgadas.

Os cereais semeados tardiamente, por causa das chuvas de dezembro do ano passado e janeiro deste ano, foram “muito penalizados”. Por outro lado, a falta de precipitação na primavera e as altas temperaturas penalizaram igualmente o desenvolvimento de cereais praganosos, o que deu azo a um espigamento precoce.A seca abrange 96,9 por cento do território do continente, dos quais 34,4 por cento, a sul do Tejo, estão sob seca severa ou extrema.

Já a instalação de culturas de primavera e verão “decorreu com normalidade”, dado que o regadio está assegurado em 60 albufeiras. Cinco albufeiras hidrográficas mantêm-se, desde 2022, debaixo de restrições de rega.

O volume de água armazenada nas principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola, em Portugal continental, encontrava-se em julho a 66 por cento da capacidade total, aquém dos 71 por cento do mês anterior, mas acima do período homólogo, quando estava a 61 por cento.

Ainda segundo o Instituto Nacional de Estatística, a “escassa produção de matéria verde para o pastoreio” obrigou à antecipação da suplementação da pecuária em regime extensivo, com base em alimentos conservados.

No Alentejo, as quebras de produtividade da matéria verde foram de 20 a 80 por cento, com a maior redução a ter lugar nos concelhos de Castro Verde, Ourique, Mértola e Almodôvar. A norte do Tejo, todavia, a situação “não assume a mesma gravidade, estando a suplementação com alimentos grosseiros armazenados e/ou alimentos concentrados mais próxima dos parâmetros normais”.

Outras culturas
“De um modo geral”, escreve o INE”, as culturas de primavera e verão “apresentam um regular desenvolvimento, embora no caso do tomate para indústria se antevejam produtividades inferiores ao normal”.

Os pomares de pereiras e macieiras devem sofrer reduções de produtividade de, dez e 15 por cento, respetivamente, ao passo que a produção de cereja registou uma queda de 55 por cento, relativamente à anterior campanha.

Já a área de milho de regadio deverá igualar o valor do ano anterior – esta cultura, em fase de enchimento do grão, mostra “um bom desenvolvimento vegetativo e sem problemas fitossanitários relevantes”.Nas vinhas, o INE não anota acidentes sanitários relevantes e as vindimas devem ser antecipadas. Estima-se que a produtividade aumente em todas as regiões, com a exceção do Dão. O rendimento unitário global deve atingir os 42 hectolitros por hectare, mais oito por cento em comparação com 2022.

A maioria dos arrozais estava, no final de julho, na denominada fase de encanamento. Esta cultura mostra um “bom desenvolvimento vegetativo, embora com a presença de infestantes”, desde logo nas zonas litorais do Baixo Mondego e Vouga.

No norte e no centro, o desenvolvimento da batata de regadio beneficiou das condições meteorológicas. “Na Península de Setúbal, a produtividade da batata de consumo foi idêntica à da campanha anterior, sendo que na batata para indústria foi superior, estimando-se um acréscimo global na ordem de cinco por cento”, lê-se no documento do INE.

Mesmo com um quadro meteorológico desfavorável, os pomares de pessegueiros estão com produtividades de cerca de dez toneladas por hectare, volume próximo do habitual. No que diz respeito à amêndoa, a produtividade global deve crescer 15 por cento.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Seixoso Vieiros - Lítio Não


Vimos desta forma manifestar a nossa preocupação e indignação pela inclusão da zona denominada Seixoso Vieiros no processo concursal para atribuição de direitos de prospeção e pesquisa de lítio, enquanto representantes do Movimento Seixoso Vieiros - Lítio Não, que se empenham a favor de uma participação cívica ativa e de uma visão sustentável do desenvolvimento das regiões afetadas pelo processo supracitado, nos concelhos de Felgueiras, Fafe, Guimarães, Amarante, Mondim de Basto e Celorico de Basto.

Reconhecemos a necessidade e urgência da descarbonização e da implementação de estratégias para mitigação das alterações climáticas, mas não consideramos que estas propostas de mineração, dependentes da volatilidade do mercado global e com a previsão de períodos curtos de exploração, possam representar um contributo válido para o desenvolvimento sustentável do nosso território. Ao contrário, acreditamos que serão causa de declínio ambiental e socioeconómico.

Para este declínio contribuirão os impactes ambientais, cuja exploração prevista será a céu aberto, através de rebentamentos e detonações do solo, lavagem das rochas com processos químicos que implicam a utilização de milhares de litros de água. Todo este processo tem efeitos nocivos, como a poluição e a contaminação do ar, dos solos e, sobretudo, das águas e lençóis freáticos. O nosso território e as nossas paisagens serão irremediavelmente destruídos.

As regiões de Tâmega e Sousa e do Ave constituem uma realidade económica competitiva, fortemente industrializada, onde se concentram os maiores produtores de calçado e do setor têxtil, com um capital humano muito especializado, onde se destacam atividades económicas de cariz inovador e altamente empreendedor. Na área da agricultura destacam-se a produção do quivi, do mel e do vinho verde, para isso contribuindo a abundância e a qualidade da água destas regiões. 

Estamos convencidos que a indústria extrativista não será um contributo válido para as nossas regiões que podem, antes de mais, ser protagonistas, como já são, de um desenvolvimento genuinamente sustentável, pelo que exigimos dos nossos representantes políticos uma visão de longo prazo para os nossos territórios. Contamos com Todos. A nossa Terra precisa de Todos!


domingo, 8 de janeiro de 2023

No meio da natureza, Fabrizio Cardinali vive há 51 anos sem electricidade e nem pensa nos custos da energia

Fabrizio Cardinali vive de forma completamente autónoma há 51 anos, nas colinas de Verdicchio, em Itália. É uma das poucas pessoas na Europa despreocupadas com o aumento dos custos de energia.


Fabrizio Cardinali, 72 anos, não deseja as luzes brilhantes da cidade. Na realidade, não tem qualquer utilidade para a electricidade e há mais de meio século que vive sem estar ligado à rede.

Isto faz dele uma das poucas pessoas na Europa despreocupadas com o aumento dos custos de energia, neste Inverno.

Cardinali, cuja longa barba branca o faz parecer Karl Marx, o poeta Walt Whitman ou um Pai Natal magro, vive numa casa de pedra nas colinas da região vinícola de Verdicchio, perto de Ancona, na costa oriental do Adriático italiano.

 Fabrizio Cardinali, 72 anos, sentado na cozinha 

Fabrizio Cardinali na cozinha 

Por opção, não tem electricidade, nem gás, nem canalização interior.

"Não estava interessado em fazer parte do mundo como estava. Então, deixei tudo — família, universidade, amigos, a equipa de desporto e parti numa direcção completamente diferente", diz, sentado na cozinha a usar calças de bombazina remendadas. "Desistir de algo não é masoquista. Tu desistes de alguma coisa para conseguir outra mais importante."

Antes, vivia completamente sozinho

Agora, Fabrizio tem dois companheiros de casa, um galo, três galinhas e um gato numa comunidade a que chama "A Tribo das Nozes Harmoniosas".

Cardinali apanha azeitonas 

Os visitantes que procuram Cardinali e os seus amigos são aconselhados pelos habitantes da cidade mais próxima a seguirem o estreito caminho de terra que começa ao lado de um carvalho que hasteia uma bandeira de paz multicolorida.

Cardinali e os companheiros de casa, que apenas disseram chamar-se Agnese e Andrea, contam com um fogão a lenha para cozinharem e se aquecerem, e lêem com a ajuda de lâmpadas alimentadas a óleo de cozinha usado doado pelos vizinhos.

"Sinto-me privilegiada por ter a liberdade para escolher a minha liberdade", diz Agnese, 35 anos, que se mudou para ali há dois anos. Andrea, 46 anos, passa lá a semana, mas regressa a Macerata, a cerca de 50 quilómetros de distância, todos os fins-de-semana, para tomar conta da mãe.

 Agnese prepara o almoço na cozinha de madeira 

 Agnese, 35, Andrea, 46, e Cardinali almoçam juntos 

As "nozes harmoniosas" cultivam frutas e legumes, azeitonas para azeite, e abelhas para o mel. Uma cooperativa local vende-lhes sacos de leguminosas, cereais e trigo, que moem para fazer o seu próprio pão.

Quando é possível, trocam qualquer produção excedentária por tudo o que precisam.

Embora algumas pessoas o tenham apelidado de "o Eremita de Cupramontana", Cardinali diz que não é um eremita. Em vez disso, acredita que a vida é melhor vivida em pequenas comunidades.

 Cardinali quando fazia parte dos Carabiniere (polícia paramilitar) 

O primeiro conselho que dá a qualquer pessoa tentada a seguir o seu exemplo é: "Deitar fora o chamado telemóvel inteligente".

Cardinali percorre ocasionalmente curtas distâncias para visitar amigos, levar azeitonas a um lagar de pedra para produzir azeite e caminhar ou apanhar boleia até à cidade mais próxima para tomar um café com os habitantes locais ou visitar o médico.

"Vivo desta forma há cerca de 51 anos e nunca me arrependi. Com certeza, houve dificuldades, mas nunca me fizeram pensar que tinha feito a escolha errada ou deitado tudo a perder", diz. " De forma alguma.".
Reportagens: 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Os Riscos e Perigos da Extinção das Abelhas

1,8 milhões de seguidores de Jordan Peterson. Um céptico climático, polemista.
"O aquecimento global também desempenha um grande papel no perigo da população de abelhas. O aumento das temperaturas, o aumento das inundações, as secas e as mudanças nas estações de floração das plantas com flores afetam os ecossistemas das abelhas, reduzindo sua adequação ao meio ambiente e ameaçando sua sobrevivência." [Fairplanet- 21.05.2022]
Eu penso nos polinizadores. Estão em extinção.

Alina Ciuciu [site oficial]

O céu azul e as flores desabrochando da primavera também trazem consigo o zumbido das abelhas, que saem de suas colmeias em busca de pólen. Embora pequenas em tamanho, as suas contribuições para os nossos ecossistemas são importantes; Simplificando, a vida na Terra como é hoje não existiria sem as abelhas. Ao longo de milhões de anos, as abelhas evoluíram para ajudá-las a polinizar as flores, ganhando até mesmo pequenas bolsas de pólen para transportar cargas maiores; as flores também evoluíram para atrair abelhas e outros polinizadores e dependem em grande parte deles para reprodução. É por isso que seu desaparecimento é preocupante: ao longo do século passado, as populações de abelhas caíram a pique e algumas até foram rotuladas como ameaçadas de extinção, deixando seus ecossistemas - e nossas cadeias alimentares - em risco de colapso.

Porque é que as abelhas estão em perigo de extinção?
As abelhas estão em risco de extinção em grande parte devido às atividades humanas: mudanças em larga escala no uso da terra, práticas agrícolas industrializadas , como monoculturas, e o uso prejudicial de pesticidas contribuíram para destruir seus habitats e reduzir suas fontes de alimento disponíveis. A globalização também facilitou a transmissão de parasitas e outras espécies invasoras que atacam as abelhas, como a vespa asiática, que pode dizimar colmeias inteiras em horas.

O aquecimento global também desempenha um grande papel na ameaça da população de abelhas. O aumento das temperaturas, o aumento das inundações, as secas e as mudanças nas estações de floração das plantas com flores afetam os ecossistemas das abelhas, reduzindo sua adequação ao meio ambiente e ameaçando sua sobrevivência.

Quais  são as abelhas  que estão em risco de extinção?
Embora a maioria das espécies de abelhas tenha sofrido uma perda populacional em larga escala nos últimos 300 anos e 40% das espécies de polinizadores invertebrados estejam em extinção, oito espécies de abelhas foram oficialmente declaradas como ameaçadas de extinção.

Sete das oito são espécies da abelha havaiana de face amarela , que estão em risco devido à ameaça de espécies não nativas de formigas que se alimentam dos ovos, bem como da destruição do habitat.

O abelhão enferrujado (Bombus affinis) também está listado como uma espécie em extinção e corre risco de extinção, provavelmente devido à exposição a pesticidas e perda de habitat devido à urbanização. A população do abelhão enferrujado, endêmica da América do Norte, diminuiu para apenas 0,1% de seus níveis históricos.

Felizmente, nem todas as abelhas estão ameaçadas de extinção, embora todas enfrentem um sério declínio populacional devido à atividade humana e às mudanças climáticas.

Porque é que as abelhas são importantes?
As abelhas são um dos polinizadores mais eficientes e prevalentes. Têm uma relação simbiótica mutualística com flores e outras plantas, pelo que tanto a planta como a abelha beneficiam da sua interação: as abelhas polinizam as plantas, espalhando o pólen (que apanham nos seus minúsculos pelos) de flor em flor, ajudando assim a as plantas se reproduzem; em troca, as abelhas também comem o pólen, que é um componente crítico de suas dietas. A evolução de muitas flores foi amplamente adaptada para aumentar sua atratividade para as abelhas, favorecendo flores que estão no espectro de cores que as abelhas podem ver (ultravioleta em vez de vermelho) e que liberam um cheiro forte e doce quando seu pólen está pronto para leva.

No entanto, as abelhas polinizam mais do que apenas flores - muitas de nossas frutas e vegetais favoritos requerem a ajuda de abelhas para polinizá-los. De tomates, abóboras, pepinos e berinjelas a nozes, sementes e até algodão. Estima-se que cerca de 80 por cento da polinização de plantas com flores usa a ajuda de polinizadores como as abelhas para se reproduzir. As abelhas são essenciais para a estabilidade de nossos sistemas alimentares, sustentando mais de 35% das terras agrícolas globais - e é por isso que seu desaparecimento é preocupante para os humanos.

O que aconteceria se as abelhas forem extintas?
A questão ecológica da possível extinção das abelhas também é uma questão humanitária, pois a estabilidade das populações humanas depende em grande parte da estabilidade das populações das abelhas. Considerando o papel crucial das atividades de polinização das abelhas no apoio aos nossos sistemas agrícolas , seu desaparecimento provavelmente resultaria em uma crise alimentar para a humanidade. A oferta de alimentos como maçãs, bagas, abacates, café e cebolas cairia drasticamente, uma vez que requerem a ajuda de polinizadores para se reproduzirem. Com a queda na oferta, os preços desses alimentos disparariam, tornando-os raros e inacessíveis para a maioria das pessoas.

A dizimação dessas plantas teria efeitos secundários em outros animais além dos humanos, que também dependem delas como fonte de alimento, resultando em maior perda de biodiversidade. Para nos ajudar a atender à procura de alimentos para a crescente população humana mundial e alcançar o ODS 2, devemos proteger e promover ativamente as populações de abelhas e outros polinizadores.

Como podemos ajudar as abelhas?
Assim como as flores e as abelhas fornecem trocas mutuamente benéficas, os seres humanos - todos os quais se beneficiam das atividades polinizadoras das abelhas - devem ajudar a promover a saúde das abelhas. 

  • Proibição de pesticidas perigosos: O Comitê Europeu de Segurança Alimentar (EFSA) afirmou que três pesticidas importantes representam um “risco agudo elevado” para as espécies de abelhas e foram encontrados em níveis perigosos dentro de suas colmeias. Os governos devem garantir que os pesticidas aprovados não sejam prejudiciais às populações de polinizadores, o que, a longo prazo, ajudará a aumentar o rendimento das colheitas e promover a agricultura sustentável .
  • Prevenir e reverter a perda de habitat : Sem ambientes adequados para as abelhas construírem casas e terem fontes de alimento abundantes, suas populações continuarão diminuindo. Prevenir o desmatamento pode, portanto, também prevenir a extinção das abelhas e, como efeito colateral, promover maiores rendimentos das colheitas.
  • Compre produtos orgânicos: Os produtos orgânicos são cultivados sem o uso de pesticidas e, portanto, não possuem produtos químicos que possam matar as abelhas.
  • Plante flores e plantas que as abelhas polinizam: Se você tem um jardim, pode plantar certas plantas que atraem abelhas e outros polinizadores. Certifique-se de plantar usando sementes orgânicas e evite o uso de fungicidas ou pesticidas.
  • Compre mel local: os produtores locais de mel sustentam as populações de abelhas, mas precisam de renda para sustentar suas fazendas e a si mesmos. Comprar localmente ajudará os pequenos agricultores a sobreviver, além de ajudar a biodiversidade das plantas e as comunidades de abelhas em sua área.
  • Não mate colmeias de abelhas: embora muitas pessoas tenham medo de abelhas, é importante entender que elas são inofensivas, a menos que sejam provocadas. Na verdade, nem todas as abelhas picam - algumas espécies não possuem habilidades de picar, e os machos não picam. Mesmo as abelhas fêmeas que picam só picam se forem diretamente ameaçadas ou atacadas. Se você não se sentir confortável com as abelhas por perto, entre em contato com uma associação de apicultores local que irá realocar as abelhas para um novo lar.
Considerações finais

No Dia Mundial das Abelhas (20 de maio), reconhecemos a importância dessas belas e pequenas criaturas, cujas atividades ajudam a preservar e perpetuar a vida na Terra. A dizimação das suas populações deve-nos lembrar o caráter desestabilizador da atividade humana, que é possível prevenir e corrigir. Nossas perspectivas de nossos ambientes e nossas cadeias alimentares devem mudar de foco apenas nas plantas que comemos para incluir os outros organismos que sustentam a vida das plantas - e, por extensão, nossas vidas também.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Livro- Agricultura Biológica: Boas Práticas Agrícolas Para o Solo e Para o Clima



Trata-se de um manual de boas práticas agrícolas para melhorar o solo, fixar carbono, reduzir emissões poluentes e eliminar a aplicação de herbicidas, cumprindo assim o objetivo de promoção da fertilidade do solo de forma sustentável face às alterações climáticas."



Como está o solo em Portugal?
  • 63% do território do continente classificado como estando suscetível à desertificação e 32,6% com solos em situação degradada (dados de 2020)
  • Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Douro

Soutelo do Douro

"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."

Miguel Torga in "Diário XII"

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

MovRioDouro acusa: efluentes vinícolas não tratados poluem gravemente



Em 2021, foram despejadas para o Douro 60 a 180 “piscinas olímpicas” de efluentes vinícolas não tratados o MovRioDouro apela a compromisso político no combate aos efluentes vinícolas não tratados e recorda estudo da UTAD que alerta para os problemas da poluição provocados pela indústria vitivinícola

De acordo com estudo, em termos de carga orgânica, os efluentes provenientes das adegas são 10 a 100 vezes mais poluentes que os efluentes urbanos.

Movimento estima que, só em 2021, foram produzidos entre 1,5 a 4,5 milhões de hectolitros de efluentes (o equivalente a 60 a 180 piscinas olímpicas)

O MovRioDouro, movimento de cidadania em defesa dos rios da Bacia Hidrográfica do Douro, quer um compromisso político no combate aos efluentes vinícolas não tratados. Um estudo, elaborado por um investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e divulgado agora pelo movimento, dos problemas de eutrofização causados pela indústria do vinho nos rios da bacia hidrográfica.

No final de 2021, arrancaram as comemorações dos 20 anos da classificação do Douro Património Mundial da UNESCO, uma região rica do ponto de vista cultural, económico, social e, também, gastronómico.

Segundo o Instituto da Vinha e do Vinho para 2021/2022 estima-se que a produção de vinho na Região do Douro alcance os 1,5 milhões de hectolitros de vinho. A região do Douro e Porto terá sido a que registou o maior acréscimo da produção de vinho – um crescimento de 20%.

Um estudo levado a cabo por António Pirra, investigador da UTAD, e divulgado agora pelo MovRioDouro, dá a conhecer alguns dos impactos que esta indústria tem no Douro e seus afluentes. De acordo com o estudo “As adegas e o ambiente: Gestão e tratamento da água na Região Demarcada do Douro”, os efluentes vinícolas são altamente poluentes (cerca de 10 a 100 vezes mais poluentes que os efluentes urbanos, em termos de carga orgânica). No Douro, uma adega produz, em média, cerca de um a três litros de efluentes por cada litro de vinho produzido. Significa, portanto, que, no ano passado, foram produzidos entre 1,5 a 4,5 milhões de hectolitros de efluentes provenientes desta indústria.

domingo, 23 de outubro de 2022

“Porque se Chama Assim?”: A origem dos nomes com “bolinha” de aldeias e vilas portuguesas

Do livro "Porque se Chama Assim? A origem dos (estranhos) nomes de aldeias e vilas portuguesas", da jornalista Vanessa Fidalgo, extraímos a parte dedicada aos nomes "com bolinha" que explicam os nomes das terras mais obscenos de Portugal "com bolinha" que explicam os nomes das terras mais obscenos de Portugal

Portugal pode ser pequeno no território, mas é enorme no génio popular, e os nomes das nossas vilas, lugares e aldeias são um bom reflexo dessa imaginação e criatividade. De norte a sul, encontram-se nomes de terras de todos os géneros – e proveniências.

O livro “Porque se Chama Assim? A origem dos (estranhos) nomes de aldeias e vilas portuguesas”, escrito por Vanessa Fidalgo, conta a origem de várias localidades cujos nomes são uma ode à cultura popular portuguesa.

Vanessa Fidalgo nasceu em Lisboa a 15 de maio de 1978. Licenciada em Comunicação Social, tem no jornalismo a sua principal ocupação desde 1997. Atualmente, coordena o programa Língua Mãe (CMTV), realizado em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores.

A VISÃO extraiu a parte dedicada aos nomes “com bolinha”, que explicam os nomes das terras mais obscenos de Portugal:


A malandrice é apanágio do génio popular. apesar de haver quase sempre uma explicação lógica e razoável para a maioria das localidades com nomes de gosto “duvidoso”, as segundas intenções espreitam em qualquer comentário e dão azo a muitas piadas. uns respiram fundo e enchem o peito de orgulho, outros ficam com os nervos em franja e até preferiam mudar o nome à terra que os viu nascer. certeza, porém, há só uma: há certos cantos de portugal que só são famosos por causa destes nomes!

Picha

Com pouco mais de 50 habitantes, distribuídos por algumas dezenas de habitações, a aldeia de Picha, em Pedrógão Grande, tem muito provavelmente um dos nomes mais difíceis de digerir neste bizarro mapa de Portugal.

Não obstante tal designação, Picha é um lugar bonito, onde a maioria da população vive da indústria florestal. O que poucos sabem é que este topónimo teve precisamente origem na predominância dessa nobre atividade económica, mais concretamente na recolha da resina do pinheiro, a qual foi durante vários anos a principal fonte de subsistência da aldeia. Durante séculos, a cada pinheiro é acoplado um recipiente onde a resina vai caindo, gota a gota, e que normalmente é fixo no pinheiro com um prego, e que dá pelo nome de… picha!

Ao longo dos tempos, o significado original quase se perdeu, sobretudo porque os próprios resineiros começaram a evitar usar a palavra, optando por usar sinónimos mais conhecidos e sem conotação malandreca, como púcaro, vaso ou caneco.

A população da aldeia é, atualmente, bastante diversificada, integrando desde uma geração mais velha e hoje maioritariamente na reforma, a jovens famílias naturais da terra ou que para lá se mudaram em busca de melhores ares e até mesmo um cidadão inglês que resolveu escolher este lugar para viver em sossego e em comunhão com a natureza a sua velhice.

De tantas vezes serem referidos e apontados no mapa, os pichenses já se habituaram às perguntas dos forasteiros sobre tão invulgar e brejeira toponímia. Habituaram- -se aos trocadilhos e às piadas quando a conversa passa pela morada, mas reagem com sentido de humor. E até houve quem o quisesse perpetuar no seu próprio negócio. É o caso de um certo restaurante na zona baixa da aldeia, junto à estrada nacional n.º 2, chamado Café da Picha. Famoso pelo nome, mas também pela chanfana e pela simpatia dos proprietários.

É por lá que se conta uma história que ilustra bem o efeito que o nome da terra tem sobre os forasteiros. “Um dia houve aqui um grande nevão e a estrada da Picha ficou intransitável. E houve um rapaz, novito até, que ficou aí preso. E ligou para a mulher: Estou? Estou preso na Picha. E ela desligou. E ele ligou de novo: Amor, estou na Picha. E ela voltou a desligar. E tive de ser eu a explicar à senhora que era mesmo verdade, que há uma localidade chamada Picha e que ele estava cá preso”, contou Manuel José, numa reportagem da Rádio Observador.

Mas também houve quem quisesse trocar a tabuleta que indica o desvio para entrar na localidade por outra menos pecaminosa, mais concretamente Nossa Senhora do Carmo, que é a Santa Padroeira da Terra. O assunto chegou a andar de mãos em mãos, para que fossem recolhidas as devidas assinaturas mas, afinal, concluiu-se que os pichenses gostam de ser da Picha, pois, apesar das piadas, nem metade assinou o tal papel! E assim ficou Picha até hoje.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Carro de luxo do rei Carlos III funciona à base de ‘queijo’ e ‘vinho’

O Aston Martin DB6 1970 foi um presente que ele recebeu no seu aniversário de 21 anos e que agora anda com um combustível à base de vinho e queijo.

“O meu velho Aston Martin, que tenho há 51 anos, consegui converter. Agora funciona com resíduos. Você acredita nisso; ele funciona com o excedente de vinho branco inglês e soro de leite dos processos de queijo”, disse Carlos III à emissora britânica BBC, em 2021.

O combustível é chamado de E85, feito 85% de bioetanol proveniente de resíduo da vinificação de vinho branco e do soro do leite que seria dispensado da produção de queijo. O restante do produto é um derivado do petróleo sem chumbo, considerado mais limpo e mais eficaz.

A mudança faz parte dos esforços do Rei Carlos III de conscientização para a urgência das mudanças climáticas. Ele, que se diz um simpatizante da ativista Greta Thunberg, disse que a conversão do carro foi um pequeno passo perto do que o país pode fazer para evitar o que ele chamou de “catástrofe”.

Saber mais sobre o carro:

terça-feira, 20 de setembro de 2022

From coffee to codfish: The foods that will get more expensive with climate change


Droughts and heatwaves fuelled by climate change have endangered food supplies across Europe this summer.

Rice in northern Italy, olive oil in Spain and barley in the UK have all seen dramatic decreases in yield due to environmental conditions.

With global warming increasing the likelihood of extreme weather, many foods across the planet are set to become more scarce.

This means a lot of the basic staples people consume daily will become more expensive.

How is climate change affecting food production?

Climate change is now a serious threat to global food security, recent research shows.

A report released by the International Panel of Experts on Sustainable Food Systems (IPES) in May described climate change as an "endemic and widespread" risk to food supplies. This is also exacerbated by rising living costs and the conflict in Ukraine.

Droughts, heatwaves, flooding and new pests are preventing producers from obtaining a reliable crop in many areas of the world.

Since pre-industrial levels, global temperatures have increased by 1.1°C. The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) has warned that if that reaches 1.5°C, around 8 per cent of the world’s farmland will become unsuitable for agriculture.

If global warming reaches 1.5°C, around 8 per cent of the world’s farmland will become unsuitable for agriculture.

Crop productivity drops in higher temperatures because of dehydration, reduction in pollination and slower photosynthesis. When hit by elevated temperatures and droughts, plant defences fail and crops become susceptible to attacks by insects and disease-inducing pathogens.

Extreme weather is also causing difficulties for livestock and fisheries. The problems are set to worsen if efforts are not made to tackle carbon emissions.

The IPCC recently released a report that confirmed that human-induced climate change is making droughts, floods, wildfires, and heatwaves more severe and more frequent.

According to the UN, the combined effects of climate change, conflict and poverty could see food prices rise by an additional 8.5 per cent by 2027. It warns that millions of people are already facing acute food insecurity.

Cost of staple cereal crops soaring due to climate change

This summer alone, heatwaves withered farmland in India, fires in Tunisia destroyed fields of grain, and flooding in China damaged almost 100,000 hectares of crops.

Staple foods such as wheat, rice, corn, and soybean have been decimated around the world causing prices to soar.

Rising costs of these key crops have plunged populations in Africa, Asia and South America into critical food poverty. In Somalia, for example, a 400 gram can of wheat has doubled in price since February. In India, wheat flour exports have been restricted to ease soaring local prices.

Within Europe, drought in northern Italy’s agricultural heartland has seen the production of crops like rice and corn slashed. Extreme heat and lack of rainfall have also affected tomatoes, grapes and olives.

The IPES report in May found that wheat prices hit a 14-year peak in March and corn prices reached the highest ever recorded.

Staple foods are also being affected by new pests and pathogens. In the US this year, avian flu caused an almost 300 per cent increase in the price of eggs.

Seafood becomes scarcer with rising sea temperatures

Europe’s seas are also suffering the heat. Iceland’s waters are losing fish central to the local diet as capelin and cod swim north to find cooler temperatures.

But shellfish such as oysters, clams and mussels cannot escape the warming waters. In northern Italy, crustaceans are dying off in the Adriatic sea.

In the Po Delta, where the vast Po river flows into the sea, clams and mussels are particularly prized because of the unique aquatic conditions where freshwater and saltwater mix.

Now, fishermen say the shellfish are suffering because the historically low water levels of the river mean very little freshwater flowing into the delta causing it to become too salty.
Global warming increases the price of chocolate, coffee and wine

Luxury foods like coffee, chocolate and wine are also in danger. Increasing temperatures in the coffee-growing regions in Central and South America, Indonesia and Vietnam will make production more difficult.

Between 2020 and 2021, extreme heat in Brazil raised the price of coffee by 70 per cent, according to the International Monetary Fund.

As for chocolate, most cocoa grows in Ivory Coast and Ghana where droughts might soon make the area unsuitable for growing the crop.

Vineyards in California and in Europe are being plagued by extreme weather, from unseasonal frosts to droughts and wildfires. With lower fruit yields, the prices of the wine produced will be higher.

In France, mustard seed production has been hit by drought causing shortages of the condiment.

Consuming meat may soon come with a tax

Meat may begin costing more because of its impact on climate change. Livestock contributes to planet-warming emissions and forests and wildlife are destroyed to make way for land to grow animal feed.

It has led to some governments proposing a tax on beef, pork and chicken consumption. Before the war in Ukraine, agricultural ministers in Germany and the Netherlands were mulling the introduction of a meat tax.

Research published in the Review of Environmental Economics and Policy predicted a potential price increase of 35 per cent to 56 per cent for beef, 25 per cent for poultry, and 19 per cent for lamb and pork in high-income countries.

Can heat-resistant plants be developed to survive climate change?

Scientists at US and Chinese universities have been exploring ways to protect harvests in a warming world. They are studying how to help plants survive extreme heat in the hope it will protect global food supplies.

But the IPES researchers also warn that immediate action to reduce emissions needs to be taken to avoid major food price rises in the near future.

If this is neglected, the world will find itself "sleepwalking into the catastrophic and systematic food crises of the future", the experts said.

Fonte: Euronews

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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O declínio dos insectos afecta a vida de cada um de nós

Aumento dos preços da comida, secas, incêndios florestais e pragas agrícolas também se explicam pelo declínio dos insectos. A extinção tem um impacto económico.

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Fonte: Público

O vale de Lousada, no Norte de Portugal, é um lugar raro para perceber a diversidade da paisagem rural europeia. Os campos estendem-se até perder de vista em fracções bem demarcadas. Há pedaços de floresta nativa, outros do eucaliptal que ganhou terreno nas últimas décadas. Há vinhas e pequenas aldeias. Há hortas com grande diversidade de plantações e outras onde só se planta uma espécie de cada vez.

Nos carvalhos mais antigos da paisagem, a vaca-loura vai encontrando maneira de sobreviver. Chama-se Lucanus cervus e é o maior escaravelho europeu. A sua população está seriamente ameaçada em todo o continente. “Não conseguimos determinar com certezas absolutas o nível da sua regressão porque só há uns anos começámos a monitorizá-la em Portugal”, diz João Gonçalo Soutinho, o biólogo que coordena o grupo de monitorização desta espécie para a Associação Bioliving. “O que sabemos é que, em toda a Europa, ela está à beira da extinção. Em países como a Polónia, por exemplo, já não existe de todo.”

As vacas-louras são insectos possantes e chegam a medir mais de oito centímetros de comprimento. Só em Portugal, são conhecidos por 32 nomes diferentes, sendo vaca-loura e cornélias os mais comuns. As mandíbulas dos machos assemelham-se aos chifres dos veados, e é exactamente como esses herbívoros que eles combatem entre si para conquistar as fêmeas. “Tradicionalmente, as pessoas caçavam-nos, arrancavam-lhes as cabeças e cobriam-nas de ouro para serem usados como amuletos. Como voam, havia também quem lhes prendesse uma guita às patas e os usasse como animal de estimação. Há um enorme folclore à volta desta espécie”, diz João Gonçalo Soutinho. “Ou havia, porque hoje são extremamente escassos.”

Para o cientista da Associação Bioliving, as vacas-louras têm um dos ciclos de vida mais generosos da natureza. “Normalmente vivem três a quatro anos e passam esse tempo a comer, a copular e a embebedar-se com o etanol produzido na seiva das árvores”, ri-se. Mas há um trabalho que estes animais operam e que é de grande utilidade para as populações humanas. E, à medida que as vacas-louras desaparecem da paisagem, os seres humanos também pagam o preço.

A casa onde vivem as vacas-louras
Uma grande função dos escaravelhos é decomporem a matéria morta. Árvores que tombam nas florestas, cadáveres de animais, as fezes do gado que circula nos prados. No caso das vacas-louras, elas são especialistas em árvores de grande porte, sobretudo carvalhos. “É lá que passam todas as suas vidas, na verdade, ou à volta deles”, diz o biólogo. “As fêmeas escavam buracos na terra, junto às raízes, para depositar os ovos a 15 centímetros de profundidade. As larvas passam dois a três anos a comer, até estarem prontas fazer um casulo grande o suficiente para que possam fazer a sua metamorfose.

Decompõem por isso as madeiras mortas, devolvendo os nutrientes, o carbono e sobretudo a hidratação aos solos. “Estes animais criam terrenos mais resistentes aos fogos florestais e às secas extremas. Por um lado, previnem a desumidificação dos terrenos, por outro impedem mais facilmente a propagação das chamas. E mesmo que esses fenómenos atinjam esses habitats, eles vão ser os actores principais de uma recuperação rápida”, diz Soutinho.

A escassez de insectos também está a criar problemas nos serviços ecossistémicos que eles providenciam aos seres humanos. “Quando eu vinha aqui ter convosco”, haveria de dizer semanas depois, na Alemanha, o director do comité de invertebrados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Axel Hochkirch, “reparei que havia fezes de vacas e cavalos secas há semanas e que não estavam a ser decompostas naturalmente”, diz. “Se isso não acontece, elas vão ter de ser retiradas manualmente porque significam um perigo para a saúde pública, vão criar doenças no gado e inviabilizam o crescimento de novos prados.” Isso aumenta custos à produção, que vão ser necessariamente pagos pelos consumidores.

Há todo um problema económico que se levanta para as populações humanas quando os insectos entram em declínio tão acentuado. Da polinização, como já se viu na primeira parte desta série de reportagens, depende um terço da comida que consumimos e há lugares onde faltam tantas abelhas, borboletas e libélulas que os processos naturais de polinização e floração estão ameaçados.

Em Maio deste ano, por exemplo, a Euronews ouvia um especialista britânico dizer que o declínio dos insectos pode significar um aumento de 2360 milhões de euros nos preços da comida só no Reino Unido. Ou seja, uma subida de 17% no orçamento de cada família – e com efeitos já a médio prazo.

Mas, se o assunto é o custo da extinção dos mais pequenos dos animais, então há outros factores a ter em conta. Os aumentos dos custos da comida são essenciais, mas não é apenas aí que se vai sentir o impacto na agricultura. No Parque Natural de Montseny, em Espanha, o biólogo Constanti Stefanescu, da Rede Catalã de Monitorização de Borboletas, avança com outra perspectiva. “Um colapso total dos insectos, que é a situação para onde parece estarmos a caminhar, terá impacto a nível da produção, seguramente. Mas também terá no controlo de pragas.”

As libélulas consomem várias espécies que se alimentam das pragas que afectam as produções agrícolas. Muitas aves e morcegos fazem a mesmíssima coisa. Sem eles, os campos estão mais expostos e o uso de pesticidas tende a ser reforçado. “Ao desaparecerem os insectos, desaparece toda a cadeia de que eles estão dependentes”, continua Stefanescu. A mesma ideia se pode aplicar aos terrenos que ardem todos os Verões ou que são assolados pelas secas. Há uma factura a pagar por cada metro quadrado de tragédia. E essa conta, mesmo que não demos por ela, é inevitavelmente imputada à humanidade.

A diversidade em causa
Sónia Ferreira, entomóloga do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, percebeu há uns meses um problema no Alentejo, Sul de Portugal, quando estudava os insectos. “As fezes dos rebanhos de ovelhas, muito comuns na região, não estavam a ser decompostas. O uso de pesticidas tinha acabado com os insectos decompositores, e agora há um problema grave para resolver: como se faz desaparecer o esterco dos olivais e dos pomares intensivos?”

Sónia Ferreira sabe bem do que fala. Na Universidade do Porto, a cientista está a desenvolver um programa de sequenciação genética para registar o ADN dos insectos que ocupam uma determinada paisagem. “Temos hoje tecnologia que permite fazer recolhas e isolar o material genético que existe num território – usando máquinas de leitura do código genético”, explica. Essa informação pode ser angariada através de armadilhas luminosas que convocam invertebrados, sim, mas também pelos dejectos dos animais que ocupam determinados espaços.

No vale do rio Tua, no Norte de Portugal, a entomóloga tem participado num projecto que analisa as fezes dos morcegos que ocupam as vinhas do Douro, a mais antiga região demarcada de produção vinícola do mundo. “Ao monitorizarmos a alimentação destes animais, poderemos determinar se há perda de biodiversidade nos insectos, que é basicamente o que eles comem”, diz Ferreira. Com menos opções alimentares, os morcegos tenderão a desaparecer – é algo que poderá ter consequências sérias para o mercado do vinho, visto estes animais serem um dos mais eficientes controladores de pragas destas explorações agrícolas. E há uma regra de ouro em biologia: “Primeiro perdemos a abundância, depois vem a extinção”, diz a entomóloga.

Axel Hochkirch também tem desenvolvido uma série de estudos nesta área. Além do seu cargo como responsável pela conservação de invertebrados na UICN, também é professor de biogeografia na Universidade de Trier, na Alemanha, e presidente eleito da Sociedade dos Ortópteros, uma organização científica internacional que reúne entomólogos em 60 países especializados no estudo de gafanhotos, grilos e seus familiares. Nos últimos anos, tem realizado uma série de estudos no Oeste do país, sobretudo no estado da Renânia-Palatinado – tido como um dos grandes hotspots da biodiversidade ecológica germânica.

“As conclusões a que estamos a chegar é que nem sempre há menos quantidade de insectos. Mas também há um fenómeno novo, que é a menor diversidade de espécies”, diz o cientista. Ou seja, mesmo que passemos um Verão a sentir que estamos a ser atacados constantemente por abelhas ou zangões, pode muito bem ser verdade que o calor tenha produzido mais exemplares num ou outro ano. “Mas são as espécies mais dominantes que estão a vencer a batalha do território”, explica Horchkirch.

As monoculturas agrícolas e as explorações intensivas de gado fazem com que os prados se encham constantemente das mesmas flores. As alterações climáticas, por sua vez, estão a provocar um efeito de subida de latitude – espécies que antes ocupavam os trópicos e as zonas meridionais ocupam hoje regiões mais a norte. “E a verdade é que estão a conseguir sobreviver nas paisagens do Norte, onde antes nunca as poderíamos imaginar”, explica Horchkirch. “Com isso, conquistam habitats e uniformizam paisagens que antes eram heterogéneas. Mesmo que estabelecêssemos que há hoje mais insectos, seriam sempre os mesmos, independentemente da região do globo onde os fossemos monitorizar.”

Guillerm Mas, biólogo espanhol da associação Paisatges Vius, tenta olhar para o problema a partir dos Pirenéus. “Por um lado, temos um enorme abandono dos espaços agrícolas, por outro temos uma agricultura intensiva baseada em monoculturas, que interrompe a biodiversidade e com isso fragiliza os territórios que todos queremos que funcionem. Economicamente também, claro. Os conservacionistas não querem que a agricultura falhe, querem que ela funcione melhor.” Um estudo de 2021 mostra bem essa inversão que ele sente na vida das montanhas.

Nisto, Guillerm Mas encontra um vizinho dos prados na curva da estrada, um homem chamado Donat, que se apresenta com uma giesta presa aos lábios e a medalha de ser o último pastor de Queralbs, aldeia encostada à fronteira com França e já perto do principado de Andorra. Pode não ter feito curso de biologia, mas percebe o drama da mudança da paisagem. “Quando eu era pequeno andávamos todos a ver quem tinha as melhores batatas, as melhores couves e os melhores cabritos. Agora ninguém quer saber porque só há milho e vacas”, conta. “Ou então não há nada, estão os campos ao abandono.”

Chamaram-lhe estúpido muitas vezes por não se converter aos cultivos que a Europa financiava. Agora ri-se ele, diz que soube esperar e agora pagam-lhe o dobro porque o que produz é biológico. Guillerm Mas anda a tentar convencê-lo a abdicar de um par de hectares de prado para criar uma paisagem florida para as borboletas. “Está bem”, diz ele no fim da conversa. “Podes vir lá deixar uma parte da erva crescer. Se calhar ainda voltam as abelhas também. Só não quero é ser mais um a viver do turismo.” É essa a história dos seus vizinhos, afinal. Os campos de onde desaparecem os mais minúsculos dos bichos parecem não ser grande coisa na hora de servir os homens.

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