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sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Louva-a-deus - auxiliares da agricultura biológica


O louva-a-deus é um inseto que fascina os humanos há séculos. Os registos mostram que os antigos egípcios, assírios e gregos, acreditavam que o louva-a-deus tinha poderes proféticos e sobrenaturais. Eram capazes de identificar a localização de objetos, animais ou pessoas perdidas. Na França antiga, acreditavam que um louva-a-deus era capaz de levar uma criança perdida para casa.

Nos nossos dias, o louva-a-deus ainda é considerado especial. Em algumas partes de África, acreditam que traz boa sorte se um louva-a-deus pousar num humano. Na China e no Japão, o louva-a-deus é reverenciado por seus movimentos graciosos e formas contemplativas. Inclusive, os seus movimentos inspiraram dois estilos conhecidos de antigas artes marciais chinesas. São muitas vezes vitos como um símbolo de equilíbrio e paciência. Antes de atacar, eles observam atentamente os seus alvos e são conhecidos por fazerem poses estratégicas.

Os louva-a-deus são insetos pertencentes à Ordem Mantodea (do grego mantis - profeta; eidos - aparência). É, por isso, fácil perceber a origem do nome louva-a-deus.  Deve-se ao modo como seguram a frente de seus corpos e posicionam suas enormes patas dianteiras quando estão em repouso, parece que eles estão a orar ou a meditar. 

Atualmente, são conhecidas mais de 2.000 espécies de louva-a-deus e podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. A maioria das espécies habita ambientes tropicais e subtropicais. O tamanho varia muito consoante a espécie. Podem ir dos 3 aos 8 cm, embora algumas espécies tropicais podem crescer até aos 20 cm ou mais.

Em Portugal, são conhecidas nove espécies. A mais abundante é o louva-a-deus-comum (Mantis religiosa). É uma das espécies que atinge maiores dimensões com as fêmeas a atingirem oito centímetros de comprimento.

São especialistas em camuflagem e mimetismo. Muitas vezes, estão ao nosso lado e nem os vemos. A cor mais comum é o verde ou o castanho. Contudo, muitas espécies assumem a cor do seu habitat que as rodeia. Eles podem imitar folhas, galhos, flores e até outros insetos. Algumas espécies tropicais conseguem assemelhar-se tanto com flores que alguns polinizadores chegam a pousar neles em busca de néctar.

A sua estrutura também é fantástica. Têm pescoço longo e flexível que se dobra facilmente, permitindo que girem a cabeça 180° de um lado para o outro, dando-lhes um campo de visão de 300°. Na cabeça, têm uma armadura bucal trituradora, antenas longas e delgadas, grandes olhos capazes de focar o mesmo local ao mesmo tempo e 3 ocelos (órgãos sensoriais que detetam a intensidade e direção da luz, mas não são capazes de formar imagens) entre as antenas. Tórax longo. As patas anteriores são preênseis, com espinhos que ajudam a reter a presa. A rapidez destas é tal que podem caçar moscas em voo.

São animais solitários. As fêmeas são maiores do que os machos. Embora possuam asas, são fracos voadores (as fêmeas voam pior do que os machos). O acasalamento do louva-a-deus ocorre entre agosto e outubro. É frequente a fêmea comer o macho durante ou após a cópula, começando pela cabeça, pois os gânglios nervosos que controlam os movimentos de cópula são controlados nos abdominais que são devorados no fim.

A postura dos ovos ocorre no outono. Os ovos são depositados juntamente com uma espuma que endurece, constituindo uma ooteca (involucro) que pode conter entre 200 a 300 ovos. As larvas emergem na primavera (maio/junho) já com o inseto plenamente desenvolvido.

Utilidade do Louva-a-deus na horta
A sua utilidade na horta é reconhecida há muito tempo. É um dos insetos auxiliares mais uteis. Têm um apetite voraz e comem tudo que lhes passe pela frente, moscas, mosquitos, formigas, traças, grilos, afídios ou gafanhotos e por vezes, podem até alimentar-se de presas três vezes maiores do que eles. Também comem insetos benéficos na horta, mas a sua preferência é pelos insetos que coincidentemente causam os maiores danos às culturas da horta.

Quase sempre atacam de emboscada aproveitando as suas capacidades de camuflagem. Com muita paciência, esperam que as suas presas estejam suficientemente perto, e de seguida, num décimo de segundo, desferem um golpe certeiro com as patas anteriores que são como garras e ajudam a segurar a presa enquanto é consumida.

As crias são caçadoras vorazes logo desde o início. À medida que vão crescendo, o tamanho das suas presas vai aumentando de modo correspondente.

Contrariamente ao que alguns dizem, o louva-a-deus não é venenoso.

São uma ajuda importante no controlo de pragas na horta.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Escaravelho cromado


Não, não é uma joia cromada, é uma maravilha da natureza: um inseto nativo da Costa Rica.

Este ser vivo único, com propriedades notáveis, ​​atrai o interesse de entomologistas e amantes de insetos em todo o mundo, graças à sua aparência incomum. Este escaravelho deslumbrante, Chrysina limbata distingue-se pela sua carapaça brilhante e cores metálicas, que o tornam uma verdadeira estrela entre os insetos.

Existem muitos escaravelhos com reflexos metálicos, mas este é único devido à sua aparência perfeitamente prateada que o faz parecer metálico! Você pensaria que estava coberto de prata ou mercúrio líquido, mas não, na verdade é um inseto da família dos Scarabaeidae que vive nas florestas tropicais da América Central e, particularmente, na Costa Rica e SE do México.

O físico William E. Vargas acredita que a aparência metálica pode agir como a água, aparecendo apenas como um ponto brilhante para os predadores. A floresta tropical da Costa Rica, onde vive C. limbata, tem água suspensa das folhas ao nível do solo. A luz é refratada em diferentes direções e permite que os escaravelhos metálicos enganem os predadores.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Este morcego imita zumbidos de vespas para assustar os predadores

Morcego-rato-grande (Myotis myotis)


Um grupo de cientistas descobriu o primeiro exemplo de um mamífero que simula ser uma espécie mais perigosa para se proteger: o morcego-rato-grande, também presente em Portugal.

O morcego-rato-grande (Myotis myotis) é o maior morcego cavernícola que habita em Portugal. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, “é frequente em Portugal Continental, embora seja mais raro no Algarve”, e “caça essencialmente em meio agrícola” – sobretudo escaravelhos, grilos e aranhas, que detecta através do ruído que estes fazem quando se mexem no solo.

Na Europa, o morcego-rato-grande pode encontrar-se desde a Península Ibérica até às regiões ocidentais da Polónia, Ucrânia e Turquia.

Agora, um grupo de cientistas em Itália anunciou, ligada a esta espécie de morcego, a descoberta do primeiro caso de mimetismo batesiano num mamífero. Os resultados deste estudo foram publicados na revista Current Biology.

O mimetismo batesiano acontece quando uma espécie imita um outro animal mais perigoso, conseguindo assim evitar eventuais predadores.

Danilo Russo, da Universidade degli Studi di Napoli Federico II, em Portici, na Itália, apercebeu-se deste som enganador quando fazia trabalho de campo a apanhar morcegos em redes, para serem estudados. “Quando pegávamos nos morcegos para os retirarmos das redes ou para os analisar, eles invariavelmente zumbiam como vespas”, explicou este investigador, citado numa nota de imprensa da Cell Press, editora da Current Biology.

Apesar de ficar intrigado, só passados alguns anos é que Danilo Russo e o resto da equipa se decidiram a avançar com o estudo destes estranhos sons.

Primeiro, compararam os “zumbidos” dos morcegos com espécies de insectos sociais com ferrão: abelhas-do-mel (Apis mellifera) e vespa-crabro (Vespa crabro). Concluíram que os sons do morcego-rato-grande se podem confundir com os da maior vespa nativa da Europa, em especial quando se restringem àquilo que mochos e corujas conseguem ouvir.

De seguida, a equipa emitiu sons de diferentes espécies junto de corujas-das-torres (Tyto alba) e corujas-do-mato (Strix aluco), para ver como reagiam. Embora as corujas com mais experiência de viver na natureza respondessem mais fortemente, os animais testados “reagiram consistentemente aos zumbidos de insectos e dos morcegos afastando-se da coluna de som”, explica a nota de imprensa. “Em contraste, o som de presas potenciais – sons normais de morcegos – fazia com que as corujas se aproximassem da coluna.”

“É de alguma forma surpreendente que os mochos representem uma pressão evolutiva sobre os morcegos, como resposta às más experiências que tiveram com insectos que picam”, afirmou Russo. “Este é só mais um exemplo da beleza dos processos evolutivos!”

De acordo com o investigador, muitas outras espécies de vertebrados também zumbem quando se sentem em perigo e existem centenas de espécies de morcegos, pelo que é possível que algumas outras adoptem esta mesma estratégia.

Fonte: Wilder

domingo, 13 de janeiro de 2019

Fernando Paiva, o produtor de 74 anos que trocou os sulfitos por flores de castanheiro

Foto e notícia aqui


Fernando Paiva é um produtor de Amarante que nunca entra nas cogitações para os prémios de melhor viticultor, melhor enólogo ou personalidade do vinho que as revistas da especialidade atribuem todos os anos. A sua produção é pequena (este ano, para a sua marca Quinta da Palmirinha, só vinificou 7 mil litros), não pertence a nenhuma “família vintage” (não me lembro de designação mais elitista do que esta criada pela SIC), anda apenas no circuito mais alternativo do sector e não tem nem dimensão, nem margem financeira para investir em publicidade e eventos sociais. Na verdade, é um ilustre desconhecido. No entanto, há poucos produtores em Portugal com a sua ética de trabalho e a sua determinação em fazer vinhos bons, puros e saudáveis, por filosofia e não por mimetismo. Um verdadeiro “senhor do vinho” e um exemplo tanto para quem começa a dar os primeiros passos neste ramo como para quem já é veterano.

Aos 74 anos, continua a ser o único produtor biodinâmico certificado em Portugal. E por estes dias foi notícia por ter sido o primeiro a usar flor de castanheiro nos vinhos em substituição de sulfitos, o conservante mais usado na indústria vinícola. Com idade para se reformar, parece um jovem sempre disposto a dar um novo passo em frente, na ânsia apenas de fazer vinhos ainda melhores e mais puros.

Já vamos à flor de castanheiro, mas antes vale a pena recordar a sua “história”. Fernando Paiva é um produtor tardio. Tinha 56 anos quando decidiu olhar com mais interesse para os cerca de 3,5 hectares de vinhas que havia herdado dos pais. Acabara de se reformar como professor de História e de Português em Amarante e, após ter participado numa formação, em Celorico de Basto, com um dos gurus da agricultura biodinâmica, o francês Pierre Masson, ficou sensibilizado para a possibilidade de passar a produzir uvas e vinhos num ambiente mais natural, holístico e saudável. No início, teve dúvidas. Questionava-se sobre se a agricultura biodinâmica poderia ser generalizada ao ponto de poder assegurar a alimentação da humanidade. Mas acabou convencido.

Em 2007, depois de alguns anos de aprendizagem, começou a fazer biodinâmica a sério, respeitando todos os preceitos filosóficos e agrários desta corrente. Desde o uso dos famosos preparados 500 (um punhado de bosta que é usado no solo para aumentar a vida microbiana e facilitar a absorção dos minerais por parte das videiras) e 501 (uma mão cheia de cristais de quartzo moídos que são enterrados num corno de vaca desde a Páscoa até ao Outono e que, pulverizado sobre a vinha, depois de ser agitado numa grande quantidade de água durante uma hora, ajuda à frutificação e à maturação dos cachos), à aplicação de macerações hidroalcoólicas de folhas de consolda, urtiga, cavalinha e eucalipto para aumentar a resistência das videiras a certas doenças. Também povoou a quinta de galinhas, para irem oxigenando a terra e comendo as ervas infestantes, e instalou colmeias, para tirar partido do efeito polinizador das abelhas. E passou a respeitar o calendário desenvolvido por Maria Thun com as actividades que devem ou não devem ser realizadas em cada dia do ano, de acordo com as energias cósmicas que chegam à Terra.

A agricultura biodinâmica não se consegue explicar e justificar com o rigor da ciência. É algo mais do domínio da filosofia e da religião: acredita-se ou não. Apesar de ser agnóstico, Fernando Paiva acredita. Uma coisa é certa: todas as experiências conhecidas mostram de forma inequívoca que as vinhas tratadas de forma biodinâmica se tornam mais saudáveis.

Por consequência, os vinhos tendem a ficar também mais puros. Acontece que o caderno de encargos dos vinhos biodinâmicos permite, por exemplo, a aplicação até 120 mg de sulfitos em cada litro de vinho. É um valor muito alto. Num vinho normal, metade desta dose pode ser suficiente. 

Fernando Paiva sempre usou menos. Mas só o facto de ter de usar sulfitos (dióxido de enxofre) colidia de algum modo com o seu afã de fazer vinhos cada vez mais puros e saudáveis. Quando, há três anos, ouviu na rádio que o Instituto Politécnico de Bragança estava a testar em queijos um produto natural feito a partir da flor de castanheiro que conseguia os mesmos efeitos antioxidantes e antimicrobianos dos sulfitos, ligou logo à investigadora responsável, Isabel Ferreira, a propor-lhe experimentar o produto também nos vinhos. O desafio foi aceite e nesse ano Fernando Paiva fez 100 litros com flor de castanheiro. Gostou do resultado e em 2016 experimentou em 600 litros. Em 2017 passou para três mil e na última vindima usou flor de castanheiro no vinho todo.

É num castanheiro situado junto a uma das suas vinhas que, pelo mês de Julho, Fernando Paiva recolhe as flores. Seca-as e depois transforma-as em pó. Na vindima, após desengaçar as uvas, adiciona ao mosto 40 gramas desse pó por cada hectolitro de vinho e não volta a aplicar mais nada (este valor foi estabelecido com base na investigação liderada por Isabel Ferreira). Recentemente, lançou as primeiras 4 mil garrafas de um branco de Loureiro em que só usou flor de castanheiro e garante que o vinho está melhor do que os outros em que usou sulfuroso. As análises realizadas afastaram também quaisquer desvios nos parâmetros físico-químicos e sensoriais do vinho.

Apesar do sulfuroso, ou dióxido de enxofre, já ser utilizado na produção de vinho há milhares de anos e, até agora, não haver melhor, não deixa de ser um conservante sintético. Não é tóxico, se usado nas doses recomendadas, mas também não é totalmente inócuo, podendo causar alergias - daí ser obrigatório colocar nos rótulos dos vinhos a informação "contém sulfitos". Pelo contrário, a flor de castanheiro não é tóxica, nem tem efeitos alergénicos. O que faltava comprovar era o seu efeito antioxidante e antimicrobiano. Os bons resultados alcançados até agora são muito promissores. O único senão de tudo isto teria a ver com os castanheiros: para bem do vinho, seria preciso sacrificar muita castanha. Mas esse é um problema que não se coloca, porque a recolha das flores só é feita após a fecundação.

Resta, então, saber qual será a durabilidade dos vinhos. Se for boa, a descoberta do Instituto Politécnico de Bragança pode ter repercussões extraordinárias na indústria do vinho, uma vez que o mercado valoriza cada vez mais o uso de conservantes naturais. E, se isso acontecer, Fernando Paiva pode finalmente ter o reconhecimento público que merece.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fritjof Capra: “Sobrevivência da Humanidade Dependerá da Nossa Alfabetização Ecológica”



Para o físico Fritjof Capra, Leonardo da Vinci, o génio da Renascença, seria hoje um aliado imprescindível na busca de soluções para o desenvolvimento sustentável. A sua síntese muito particular de arte, ciência e tecnologia – crê – ajudaria na compreensão dos mais importantes problemas socioambientais contemporâneos a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

“O conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos urgentemente de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenômeno natural e nos reconectem com a Terra”, disse o físico.

Principal teórico do pensamento sistêmico, Capra defende a ideia de que todas as formas de vida - das células mais primitivas até os seres humanos - se configuram seguindo um único princípio básico: o de organização em redes. Ao exemplificar as relações de interdependência na complexa “teia da vida”, o físico tem propalado uma forma de interpretar o mundo radicalmente distinta do humanismo individualista, que coloca o homem no centro do universo.

Segundo ele, em vez de buscar o que extrair da natureza, as pessoas devem aprender a partir dela. “Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica, da habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles”, ressalta.

Na visão de Capra, boa parte dos problemas atuais decorre do fato de a humanidade ter ignorado e interferido nos padrões e processos de relacionamento dos ecossistemas, que sustentam a vida. Para o autor de best-sellers como o “Tao da física”, “Ponto de Mutação” e “Conexões ocultas”, é possível revisar os valores do capitalismo e conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável.

“O mercado global funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia e a proteção ambiental. No entanto, esses mesmos fluxos financeiros e de informação podem ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política”, destaca.

Em entrevista a Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, Capra apresenta um repertório de ideias tão vasto quanto a sua proposta para a sustentabilidade. Saiba o que o físico pensa a respeito das novas tecnologias de informação, da economia global e do Brasil, entre outros assuntos.

Ideia Socioambiental: Como indivíduos e organizações devem atuar em rede? Quais são os desafios e benefícios dessa mudança?

Fritjof Capra: Hoje, a criação de redes sociais se tornou algo fácil. Nos últimos anos, as redes se transformaram no maior foco de atenção dos negócios e da sociedade, de maneira geral, como uma cultura global emergente. A internet é uma rede de comunicação poderosa e muitas das novas companhias da web atuam como uma interface entre redes de consumidores e fornecedores. Redes similares existem entre organizações não governamentais. Com as novas tecnologias de comunicação e informação, as redes sociais se tornaram todas extensivas, dentro e além das organizações. Teóricos organizacionais falam hoje de “práticas de comunicação” para se referir às redes sociais informais ou auto-geradas existentes em toda organização. São comunidades de pessoas que interagem com e se ajudam umas às outras para construir relacionamentos, e dar maior significado pessoal às atividades do dia-a-dia.

Dentro de cada organização, existe um cluster de comunidades de práticas interconectadas. Cada vez mais pessoas estão engajadas nessas redes informais e quanto mais sofisticadas elas forem, mais condições a organização terá de aprender respondendo criativamente a novas circunstâncias. A sobrevivência da organização reside na sua comunidade de práticas. O desafio para líderes empresariais não é criar redes dentro das organizações, mas conhecer e legitimar as redes informais já existentes.

IS: Como a sociedade deverá se adaptar à perspectiva sistémica na velocidade exigida para reverter problemas complexos como o do aquecimento global?

FC: O grande desafio de nosso tempo é criar e manter comunidades sustentáveis, concebidas de maneira que suas formas de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias não interfiram na habilidade inerente da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo nessa direção é o que chamo de “alfabetização ecológica”, a habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Se compreendermos os padrões de relacionamento que tornam os ecossistemas capazes de sustentar a vida, também entenderemos as muitas formas, padrões e processos que nossa civilização ignorou e interferiu neles. Assim, perceberemos que essas interferências são as causas fundamentais dos atuais problemas no mundo.

Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica que deve se tornar uma competência essencial para políticos, líderes empresariais e profissionais em todas as esferas. Ela também deve ser a parte mais importante da educação em todos os níveis – do ensino primário e secundário até ao ensino médio e superior, assim como na formação e treinamento contínuo de profissionais.

IS: Como o senhor avalia movimentos como o do biomimetismo, ascendente no mundo, especialmente no campo do design? Esse conceito ajuda as organizações a adaptarem seus modelos a uma perspectiva sistémica?

FC: A alfabetização ecológica é o primeiro passo rumo à sustentabilidade. O segundo é o design ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para um redesign fundamental das nossas tecnologias e instituições sociais, preenchendo a distância entre o design humano e os sistemas ecológicos da natureza.

Design, em um sentido mais amplo, consiste em moldar o fluxo de energia e matéria para propostas humanas. Já pelo design ecológico, as propostas são cuidadosamente entrelaçadas com os grandes padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização nos quais a natureza tem evoluído para sustentar a teia da vida. Praticar o design nesse contexto requer uma mudança fundamental em nossa atitude diante da natureza. Numa nova visão, ao invés de descobrir o que extrair da natureza, devemos identificar o que aprender a partir dela.

Nos últimos anos, tem havido um aumento dramático em práticas de design orientadas ecologicamente. O biomimetismo se refere a um tipo especial de tecnologia do ecodesign. Trata-se de um novo tipo de biotecnologia que não envolve a modificação genética de organismos vivos, mas utiliza as técnicas da engenharia genética para entender as sutilezas do design da natureza e aplicá-las como modelos para novas tecnologias humanas. O biomimetismo integra o conhecimento ecológico ao design de materiais e processos tecnológicos, aprendendo a partir de plantas, animais e microorganismos como manufaturar fibras, plásticos e químicos não-tóxicos, completamente biodegradáveis e sujeitos à contínua reciclagem.

IS: A economia global já funciona em rede, mas as interações decorrentes dela não têm trazido benefícios econômicos, ambientais e sociais de maneira equilibrada. É possível rever os valores que guiam o capitalismo e, fazendo isso, conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável?

FC: A economia global está organizada amplamente em torno de redes de fluxos financeiros. Tecnologias de comunicação e informação sofisticadas permitem que o capital financeiro se mova rapidamente de uma opção para outra em uma implacável busca global por oportunidades de investimentos.

O impacto da nova economia nos seres humanos tem sido, na maioria das vezes, negativo. Há um acúmulo sem precedentes de riqueza no alto. Em contrapartida, as consequências sociais e ambientais apresentam-se desastrosas. Além disso, como temos visto com a atual crise econômica, esse modelo ameaça severamente o bem estar financeiro de pessoas em todo o mundo.

O problema central é que a economia global foi desenhada sem nenhuma dimensão ética. O então chamado “mercado global” funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental ou qualquer outro valor humano. No entanto, a mesma network eletrônica de fluxos financeiros e de informação poderiam ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política.

IS: A desmaterialização da economia pode contribuir nesse sentido?

FC: Acredito que sim. Ao que me parece, o desafio-chave é como adaptar-se de um sistema baseado na noção de crescimento ilimitado - o que é impossível em um planeta finito - para um outro que seja, ao mesmo tempo, sustentável e socialmente justo. O crescimento, é claro, representa uma característica central de toda vida. Uma sociedade ou economia, que não cresce, morre mais cedo ou mais tarde. O crescimento, contudo, não deve ser linear, nem ilimitado. Enquanto, certas partes dos organismos ou ecossistemas crescem outras declinam, lançando e reciclando seus componentes que se transformam em recursos para novo crescimento.

O tipo de crescimento balanceado e multifacetado que é bem conhecido pelos biólogos e ecologistas pode ser chamado de crescimento qualitativo. Em organismos vivos, ecossistemas e sociedades, o crescimento qualitativo consiste em um aumento de complexidade, sofisticação e maturidade que aprimora a qualidade de vida. Em outras palavras, crescimento qualitativo significa desmaterializar a economia em alguma extensão.

IS: Como as companhias deveriam rever seus esforços de inovação, pesquisa e desenvolvimento?

FC: O conceito de crescimento qualitativo será uma ferramenta crucial nessa tarefa. Ao invés de avaliar o estado da economia em termos de medidas quantitativas simplórias como o PIB, precisamos distinguir o “bom” crescimento do “ruim”. Do ponto de vista ecológico, essa distinção é óbvia. O crescimento ruim está relacionado a processos de produção e serviços que são baseados em combustíveis fósseis, envolvendo substâncias tóxicas, que levam à escassez de recursos naturais e à degradação dos ecossistemas terrestres. O bom crescimento relaciona-se a processos de produção e serviços mais eficientes com energias renováveis, emissões zero, reciclagem contínua de recursos naturais e restauração dos ecossistemas terrestres. As companhias precisam reavaliar seus processos de produção e serviços para determinar quais deles são ecologicamente destrutivos e, por essa razão, devem ser substituídos. Ao mesmo tempo, as empresas precisam diversificar seus portefólios na direção de produtos e serviços verdes.

IS: Como os cidadãos, companhias, organizações e governos podem articular diálogos estratégias, considerando as conexões ocultas e as relações de interdependência do sistema, sem perder de vista os problemas locais?

FC: As redes informais ou comunidades de práticas, que existem dentro de toda organização são idealmente moldadas para lidar com problemas locais. O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. De fato, está ficando cada vez mais evidente que nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada. Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistematicamente, em termos de relacionamentos, padrões e contextos.

IS: Como a internet e as novas tecnologias de informação podem integrar a sociedade em um esforço global para promover o desenvolvimento sustentável? Como os cidadãos, organizações e governos podem explorar essas possibilidades?

FC: Esse processo está em pleno movimento. Na virada deste século, uma coalização impressionante de ONGs disseminaram os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Esse “movimento pela justiça global”, como também é chamado, tem mobilizado uma série de encontros do Fórum Social Mundial, muitos deles no Brasil. Nesses encontros, as ONGs propõem um grupo completo de políticas de mercado alternativas, incluindo iniciativas concretas e radicais para reestruturar as instituições financeiras globais, que mudariam profundamente a natureza da globalização.

Esse engajamento exemplifica uma nova forma de movimento político típico da nossa Era da Informação. Por causa da habilidade em usar a Internet, em aliança, as ONGs são capazes de se interconectar para trocar informação e mobilizar seus membros com uma velocidade sem precedentes. Como resultado, essas organizações emergiram como atores políticos efetivos que são independentes das instituições tradicionais, nacionais ou internacionais, constituindo uma nova forma de sociedade civil global.

Para dotar o discurso político de uma perspectiva ecológica, a sociedade civil global depende de uma network de estudantes, institutos de pesquisa, think thanks e centros de aprendizado que operam em larga escala fora de nossas instituições académicas líderes. Há dúzias dessas instituições de pesquisa e ensino em todas as partes do mundo. Em comum, elas apresentam a característica de alinhar sua atividade de pesquisa e ensino a uma estrutura compartilhada de valores essenciais.

IS: É possível estabelecer uma agenda ou compromisso global capaz de conduzir a sociedade na transição para o desenvolvimento sustentável? Quais seriam os assuntos e metas prioritários dessa agenda?

FC: Sim. Lester Brown tem desenvolvido uma agenda detalhada com o seu livro Plan B, que também está disponível no Brasil. A obra de Brown traça um caminho para salvar a civilização. Trata-se de uma alternativa ao modelo de business as usual (Plano A), que tem nos conduzido ao desastre. A estratégia do Plan B é informada pela consciência da interdependência da maioria dos nossos problemas globais. Envolve uma série de ações simultâneas que são mutuamente apoiadas, espelhando a interdependência dos problemas que endereça.

Os componentes do Plan B são moldados pelo que é necessário hoje e não pelo que é considerado politicamente alcançável. Os principais objetivos são, nas palavras do autor, “reestruturar a economia, restaurar seus sistemas de apoio naturais, erradicar a pobreza, estabilizar a população e mudanças climáticas e, acima de tudo, restaurar a esperança.”

A revolução recente do ecodesign oferece a justificativa para o otimismo e esperança de Lester Brown. Todas as propostas do Plan B baseiam-se em tecnologias existentes e são ilustradas com exemplos de sucesso de países ao redor do mundo. Essas experiências evidenciam que temos o conhecimento, as tecnologias e os recursos financeiros para salvar a civilização e construir um futuro sustentável. Tudo o que precisamos agora é vontade política e liderança.

IS: Considerando a conjuntura atual, há algum agente (empresas, governos, ONGs etc.) que tem mais condições de liderar o movimento rumo ao desenvolvimento sustentável?

FC: No mundo atual, há três principais centros de poder: os governos, as empresas e a sociedade civil. O governo envolve instituições nacionais; as empresas e sociedade civil se tornaram globais. Acredito que a maioria de nossos problemas globais só poderão ser resolvidos se houver cooperação entre esses três setores. Cada um deles tem algo especial para contribuir. O governo pode guiar a população pela legislação. Líderes políticos carismáticos também podem desempenhar papéis importantes educando e persuadindo o público. Os negócios têm competências especiais de comunicação e na resolução de problemas. Já a sociedade civil adota os valores que precisaremos para um futuro sustentável.

No meu entendimento, o Brasil é o único país de peso, onde a colaboração tem sido facilitada e institucionalizada pelo seu presidente. Quando Lula tomou posse em 2003, criou canais administrativos especiais pelos quais membros da sociedade civil têm acesso direto ao governo. Ele também indicou líderes da sociedade civil para várias posições nos ministérios. Somando-se a isso, vejo que, no Brasil, tornou-se uma tradição executivos do mundo dos negócios fazerem trabalhos voluntários em ONGs, ajudando seus membros, por exemplo, com tarefas de contabilidade e gestão. A organização desses novos canais de comunicação e cooperação no Brasil pode servir de modelo e inspiração para o resto do mundo.

IS: Em seu mais recente livro, o senhor analisa os estudos de Leonardo da Vinci. Que contribuições esse grande cientista do Renascentismo pode trazer para a discussão da sustentabilidade no século XXI?

FC: Leonardo da Vinci, o grande mestre da pintura e génio do Renascentismo, desenvolveu e praticou uma síntese única de arte, ciência e tecnologia. Descobri que seu legado é muito relevante para o nosso tempo. Nossas ciências e tecnologias têm se tornado cada vez mais estreitas em seu foco, o que impossibilita a compreensão dos nossos multifacetados problemas a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Além disso, o conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos exatamente o tipo de síntese que Leonardo da Vinci delineou há 500 anos.de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenómeno natural e nos reconectem com a Terra.

IS: O que é essencial na educação de crianças e na de adultos para construção de uma sociedade sustentável? Esses públicos exigem estratégias diferentes de sensibilização e aprendizado?

FC: Ao longo dos últimos 20 anos, eu e meus colegas do Center for Ecoliteracy, em Berkeley, desenvolvemos uma pedagogia especial, que chamamos “educação para uma vida sustentável” com o objetivo de promover a alfabetização ecológica e o pensamento sistémico na educação primária e secundária.

Crianças, assim como adultos, passam por certas fases de desenvolvimento. Tanto a linguagem utilizada quanto as estratégias pedagógicas devem ser apropriadas a essas fases. Em nosso trabalho no Center for Ecoliteracy, descobrimos que os princípios da ecologia precisam ser ensinados de forma completamente diferente na educação primária (entre 6 a10 anos), secundária (entre 11 a13 anos) e no ensino médio (dos 14 aos 17 anos). E promover a alfabetização ecológica no ensino superior e na educação contínua de profissionais também exige estratégias e metodologias diferentes.

domingo, 25 de março de 2007

Parasitismo e Evolução


Fungo (Ophiocordyceps Ophiocordyceps spp.) VS Formiga (Dinoponera longipes). Quando os esporos do fungo aterram nesta formiga, penetram no seu exosqueleto e posteriormente no seu cérebro, obrigando o hospedeiro a deixar o seu habitat no solo da floresta e a escalar uma árvore nas proximidades. Cheia de fungos até rebentar, a formiga moribunda prende-se a uma folha ou a qualquer outra superfície. Os talos dos fungos irrompem pela carapaça da formiga e os esporos caem sobre as formigas do solo, reiniciando o processo. LABORATÓRIO DAVID HUGHES, UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PENSILVÂNIA


A orquídea (Angraecum eburneum), quando foi descoberta no séc. XIX foi enviada a Darwin. Uma vez que o comprimento do tubo que contém néctar (28 cm, com néctar somente nos 3 cm finais), ele previu que seria polinizada por um insecto com tromba (probóscide) que tivesse um comprimento equivalente.

“It is, however, surprising that any insect should be able to reach the nectar: our English sphinxes have probosces as long as their bodies ; but in Madagascar there must be moths with probosces capable of extension to a length of between ten and eleven inches !” (Darwin 1862, On the Various Contrivances by which British and Foreign Orchids are Fertilised by Insects).
Esta afirmação não foi rapidamente aceite pela comunidade científica da época como podemos perceber neste trecho da segunda edição do mesmo livro.

“This belief of mine has been ridiculed by some entomologists, but we now know from Fritz Müller that there is a sphinx-moth in South Brazil which has a proboscis of nearly sufficient length, for when dried it was between ten and eleven inches long. When not protruded it is coiled up into a spiral of at least twenty windings.” (Darwin 1877).

Detalhe: Fritz Müller mencionado foi um alemão que fixou residência em Santa Catarina (Brasil). Darwin e ele se correspondiam através de cartas com muita frequência.
A espécie de mariposa predicta por Darwin (Xanthopan morgani) veio a ser descoberta somente 41 anos depois de sua previsão.

A importância do parasitismo
Reconhece-se grande importância ao parasitismo tanto em biologia evolutiva como em ecologia. Registe-se o seu significado na regulação populacional, na manutenção do polimorfismo genético, na organização social e na evolução do sexo.
Pensa-se que a origem dos parasitas se fez a partir de espécies livres possuidoras, provavelmente, de um certo número de características e propriedades que facilitaram e condicionaram o terem enveredado por essa via adaptativa. O parasitismo exprime uma adaptação ao meio biológico que se traduziu numa riqueza imensa de modalidades e soluções. O parasitismo é apenas o extremo de um largo espectro onde podem seriar-se situações gradativas desde o simples ecto- ou endocomensal facultativo, até ao parasita organicamente simplificado, e tão intimamente associado ao seu hospedeiro exclusivo, que sem ele não terá existência.
Os organismos unicelulares ou multicelulares, foram desde o início compelidos à invasão de todos os meios possíveis, susceptíveis de serem explorados, e entre esses ambientes, os próprios seres vivos ofereciam vastas possibilidades, os quais, com as suas superfícies e cavidades, tinham necessariamente que atrair inúmeras espécies. Certas condições prévias básicas terão que existir para que as formas livres tenham tido algum sucesso para enveredarem pelo parasitismo. Entre elas podemos referir um elevado potencial de multiplicação, o hermafroditismo, um vasto polimorfismo combinado com larga plasticidade de adaptação a diferentes ambientes e modos de vida.
No caso dos endoparasitas será legítimo pensar que a sua condição adaptativa já não permitirá o aproveitar de oportunidades evolutivas, sobretudo quando a especialização conseguida em relação a dado tipo de hospedeiro atingiu elevado grau, quando as modificações morfológicas e fisiológicas do parasita não lhe deixam, talvez, outra alternativa que não seja a de invadir outro hospedeiro afim, circunstância que, por isso mesmo, pouco exigirá de modificações ao invasor para aí se instalar. As especiações dos parasitas são, portanto, restritas ou poderão mesmo estar bloqueadas. Um endoparasita especializado não parece capaz de se emancipar da sua sujeição ao meio biológico, que é o hospedeiro.
É possível conceber a origem de um parasita especializado a partir de sucessivas especiações. Dessas inúmeras espécies, a traduzir múltiplos ensaios de instalação em hospedeiros possíveis, só conhecemos os estados terminais, as espécies parasitas bem sucedidas, tendo-se extinguido os estados intermediários, as soluções malogradas, e as adaptações insuficientes. As espécies que subsistiram são o termo de sucessivas especiações em grande número de hospedeiros, e não parece difícil admitir que isto se tenha realizado pela acção de processos de mutação e selecção.
A adaptação à vida parasitária envolveu modificações morfológicas e metabólicas: perda ou atrofia de orgãos (aparelho digestivo, órgãos para a locomoção, para a predação, e ainda orgãos dos sentidos e sistema nervoso central); hipertrofia do aparelho sexual; especialização e novos ajustamentos para nutrição intensiva; hipertrofia, por vezes, de partes, com armazenamento de reservas; estruturas de fixação. É legítimo pensar que certas pré-adaptações devem ter existido nas espécies livres antes da invasão dos hospedeiros. Assim, a eficiência reprodutora, a fecundidade elevada, foi decerto uma das características que mais facilitou o parasitismo, e que depois se deve ter intensificado e aperfeiçoado durante a associação. A própria sobrealimentação dos endoparasitas sedentários deve ter aumentado a fecundidade, e consolidado o parasitismo. A reprodução assexuada é muito mais frequente nos parasitas do que nas formas livres pelo que deve ter predominado nas espécies que antecederam as espécies parasitas. A assexualidade é uma disposição mais apropriada à vida parasitária do que a reprodução sexuada com sexos separados. Muitos endoparasitas foram concerteza precedidos por espécies livres hermafroditas ou com reprodução assexuada. Outras pré-adaptações poderão ter sido, por exemplo, a resistência de ovos, larvas e adultos à acção dos fermentos digestivos de hospedeiros que acidentalmente são invadidos, ou o facto de não suscitarem reacções fagocitárias da parte do meio biológico que infestam. Ainda outras pré-adaptações, como órgãos de fixação, métodos especiais de nutrição e de metabolismo, incluindo a capacidade de o exercer dispondo de pouco ou nenhum oxigénio livre, devem ter estado na origem de diversos endoparasitas.
O comensalismo pode conduzir, por vezes, ao parasitismo autêntico, quer ao ectoparasitismo, quer ao endoparasitismo. O comensalismo pode, também, servir de ponto de partida para o mutualismo, precisamente quando os dois associados entram em relação, de modo que, retirando vantagens recíprocas da sua união, se tornam indispensáveis um ao outro.
Os fenómenos de parasitismo e de mutualismo são uma vasta e importante problemática de fenómenos de co-evolução. Muitas outras relações bióticas são também processos de co-evolução: efeitos populacionais das inter-relações dos organismos de espécie diferente, e os seus aspectos ecológico-evolutivos e biogeográficos. Os fenómenos de competição, as coexistências e tolerâncias, não deixam de manifestar também significativos aspectos co-evolucionais.

Co-Evolução - A evolução de duas ou mais espécies devida a influência recíproca
Nas evoluções que mutuamente se influenciam, cujos destinos são inseparáveis, em que a evolução de uma das partes interactuantes como que orienta a evolução da outra, estabelecem-se relações de ordem vária.
O desenvolvimento de certas morfologias, fisiologias e comportamentos numa das partes conjugadas (endoparasita em relação ao hospedeiro, ou planta com flor em relação ao insecto polinizador) só parece explicar-se como o resultado de interacções evolutivas, da acção de selecções
recíprocas.
Para a teoria simbiótica, se é da natureza dos seres vivos reunir recursos, e fundirem-se ou associarem-se sempre que possível, temos aí um novo meio de progressivo enriquecimento e complexificação dos organismos. A simbiose seria uma forma de parassexualidade: a reunião e fusão de indivíduos distintos. A simbiose deverá ter tido origem num período substancial de co-evolução.
As espécies não estão desvinculadas nos ecossistemas, de modo que as suas evoluções fazem-se em relação mútua, seja em conjuntos predador-presa, plantas-animais, parasitas-hospedeiros, seja em associações comensais-hospedeiros, ou como associados mutualistas. Toda a biosfera está penetrada por densas e intrincadas séries de co-evoluções. Quase todas as interacções bióticas produzem fenómenos de co -evolução, quer se trate de mutualismo, de parasitismo ou de fenómenos de competição, de relações predador-presa e mesmo de muitos aspectos das relações intraespecíficas, nomeadamente as manifestações da sociabilidade. Como toda a comunidade biótica é uma trama complexíssima de interacções bióticas, os fenómenos de co-evolução constituem uma das suas manifestações mais importantes.
Uma das manifestações mais curiosas das relações dos organismos com o ambiente é a sua “imitação” do ambiente imediato habitual, sendo também o comprovativo da acção da selecção natural e da sua função na génese de adaptações. Entre as manifestações mais interessantes, podem mencionar se as colorações adaptativas, os disfarces, as imitações de outras espécies, etc. Por exemplo a imitação, ou mimetismo, é protectora porque o predador confunde os indivíduos sápidos e apetecidos com os indivíduos repugnantes ou nocivos, facto que aumenta as probabilidades de sobrevivência dos primeiros. A selecção natural, por favorecer a reprodução daqueles indivíduos que possuem alguma vantagem nesse sentido, tende a acentuar as características que conferem mimetismo. Estes fenómenos de mimetismo traduzem também processos de co-evolução.
Fontes: António Fonseca e António Nunes