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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Relembrar o pensamento de Charles Chaplin


"Em termos políticos, sou anarquista. Odeio governos, regras e grilhões. Não suporto animais enjaulados. As pessoas têm de ser livres." - Charles Chaplin
Esta frase foi dita pelo lendário cineasta e ator Charles Chaplin e reflete profundamente a postura humanista e anti-autoritária que marcou toda a sua vida e obra. Embora não pertença a um discurso oficial, a declaração resume a sua revolta contra as amarras institucionais, algo que ele expressava frequentemente em entrevistas e na sua própria arte. A personagem do Charlot era, na sua essência, a personificação do homem livre e marginal que desafiava constantemente as convenções sociais e a autoridade policial. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, com o lançamento de obras primas como Tempos Modernos e O Grande Ditador, Chaplin usou o cinema para criticar ferozmente a desumanização industrial, o fascismo e o nacionalismo cego, o que acabou por atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. Durante a era do Macarthismo, o FBI passou a vigiá-lo de perto, acusando-o falsamente de simpatias comunistas. O culminar deste sufoco político aconteceu em 1952, quando Chaplin viajou para Londres e o governo americano aproveitou a ocasião para lhe revogar o visto de reentrada no país. Revoltado com a perseguição e com o controlo estatal, o cineasta recusou-se a implorar o regresso e exilou-se na Suíça. Assim, quando Chaplin afirmava que odiava governos e não suportava ver pessoas como animais enjaulados, falava com o conhecimento de causa de quem sentiu na pele o peso do autoritarismo e da censura de um Estado que tentou travar a sua liberdade.
Este excerto pertence ao filme "O Grande Ditador" (The Great Dictator), lançado em 1940.
Esta cena, em específico, é o lendário discurso final do filme, amplamente considerado um dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um ditador implacável chamado Adenoid Hynkel (uma sátira direta a Adolf Hitler) e um humilde barbeiro judeu. No final, o barbeiro é confundido com o ditador e é obrigado a discursar perante uma enorme multidão; em vez de propagar o ódio, ele quebra a personagem e faz este apelo universal à paz, à humanidade, à união e à liberdade.

terça-feira, 17 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Enter Shikari – Sorry You're Not a Winner (completa 10 anos esta música que revolucionou todo o rock na altura)


Letra
(Intro)
(Clap, clap, clap!)

[Verse 1]
Hands up if you've been to a funeral
(Clap, clap, clap!)
Hands up if you've been to a funeral
(Clap, clap, clap!)
I've been to too many
I've been to too many

[Chorus]
Sorry, you're not a winner
With the air so cold and a mind so bitter
Sorry, you're not a winner
With the air so cold and a mind so bitter

[Verse 2]
Scratch cards, a trip to the stars
And a gold-plated life
Is that what you want?
No, it's what you need
What you need!
No, it's what you need!

[Chorus]
Sorry, you're not a winner
With the air so cold and a mind so bitter
Sorry, you're not a winner
With the air so cold and a mind so bitter

[Bridge]
Tell me, what's it like?
To be the only one
Left in the race
To be the only one
Left in the race
To be the only one
Left in the race!

[Bridge 2]
No more, no more, no more
I'm not gonna be the one to tell you
No more, no more, no more
I'm not gonna be the one to tell you

[Outro]
You're a winner!
(Clap, clap, clap!)
You're a winner!
(Clap, clap, clap!)
I've been to too many
I've been to too many!

A letra usa a metáfora dos "Scratch cards" (raspadinhas) para criticar quem busca soluções rápidas ou sorte em vez de enfrentar a realidade. O "clima frio" e a "mente amarga" do refrão descrevem o estado emocional de quem perdeu tudo na esperança de uma vitória improvável.

Curiosidades rápidas

1.O "Clap": A música é mundialmente famosa pelas três palmas rítmicas durante o riff principal, que se tornaram um ritual obrigatório nos shows de rock alternativo da época.

2.Lançamento: embora tenha aparecido em EPs anteriores, a versão mais famosa faz parte do álbum de estreia Take to the Skies (2007), Deezer e Spotify

3.Independência: o Enter Shikari é conhecido por manter uma postura fortemente independente, lançando a maioria de seus trabalhos pelo próprio selo, o Ambush Reality.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Já dizia Diderot

Denis Diderot: Razão, Liberdade e Conhecimento

Denis Diderot (1713–1784) foi um dos principais filósofos do Iluminismo francês, conhecido por seu papel central na Enciclopédia e por suas reflexões sobre a razão, a ciência, a moral e a liberdade. 

Diderot foi um dos grandes nomes do Iluminismo francês e uma figura essencial na construção do pensamento moderno. Filósofo, escritor e editor da célebre Enciclopédia, Diderot acreditava no poder transformador da razão e do conhecimento como instrumentos de emancipação humana.

Defensor de uma visão empírica e racional do mundo, Diderot afirmava que o saber nasce da observação e da experiência, e não da fé ou da autoridade. A Enciclopédia, que coordenou com D’Alembert, procurava reunir e divulgar todo o conhecimento humano, promovendo a educação, o pensamento crítico e o progresso social.

Crítico da Igreja e do dogmatismo religioso, Diderot foi um dos primeiros pensadores materialistas do seu tempo: via o universo como matéria em constante transformação e o ser humano como parte integrante da natureza. A sua ética baseava-se na razão e na empatia, e não em mandamentos divinos — a moral deveria servir à felicidade e ao bem comum.

No campo da arte, Diderot defendeu um realismo que aproximasse o teatro e a literatura da vida quotidiana, acreditando que a arte tem uma função educativa e moral.

O legado de Diderot é o de um pensador que desafiou convenções e ajudou a construir uma nova visão de mundo — livre, racional e aberta ao conhecimento.

Diderot via o ser humano como um ser racional, livre e social, capaz de construir o progresso por meio da ciência, da educação e da crítica. Seu pensamento resume o espírito iluminista: libertar o homem da ignorância e da superstição para que possa pensar e agir por si mesmo.

domingo, 20 de julho de 2025

New Candys - Regicide


Just by following our enemy
I can lose for a victory
And if we wanna change our destiny
There’s a way that can set us free

Just by following our enemy
I can lose for a victory
And if we wanna change our history
There’s a way that can set us free

You left me off
Right from the start
You left me off
In exile after my regicide

Go on, arrest me and kill me
I know my guilt is not here

Just by following our enemy
I can live for a victory
And if we wanna change our destiny
There’s a way that can set us free…
Therе’s a way that can set us
There’s a way

You lеft me off
Right from the start
You left me off
In exile after my regicide

Shoot the king to show your better side

Inspirado por Gaetano Bresci, um anarquista que assassinou o Rei de Itália, Humberto I, em 1900 para protestar contra o massacre de manifestantes, Fernando Nuti refere esta figura como ponto de partida: fala do exílio, da violência propositada – "Não matei Humberto. Eu matei o rei. Eu matei um princípio" (frase pronunciada por Bresci imediatamente após o assassinato, em resposta às acusações da multidão) – e da culpa inevitável que este ato deixa para trás.

O termo regicídio, literalmente “assassinato de um rei”, serve de metáfora para a rebelião contra as estruturas de poder ultrapassadas, uma luta que questiona se o fim justifica os meios.

Interpretação Lírica
Os versos:
“Atira ao rei para mostrar o teu melhor lado / Deixaste-me / No exílio após o meu regicídio” combinam temas de vingança, exílio e transformação pessoal. O narrador parece chegar a uma conclusão sobre se o ato violento representa uma verdadeira mudança ou apenas a substituição de uma opressão por outra.

Som e Estilo
Musicalmente, a música mistura guitarras psicadélicas com baixo eletrónico gótico e um ritmo disco nos versos, criando um contraste entre a mensagem violenta e uma atmosfera quase dançante.
Esta dicotomia reforça a ideia do sinistro envolto no sedutor.

Conclusão
“Regicide” é uma reflexão profunda sobre a violência política e moral. Ela questiona:

É legítimo derrubar o poder quando este oprime?
Existe o risco de nos tornarmos naquilo que foi criticado?
O que é sacrificado — a solidão, o exílio, a culpa — em nome da mudança?

A ambiguidade lírica permite múltiplas interpretações, e é esse o propósito: não fornecer respostas fáceis, mas provocar reflexão.

Fontes

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Nem Deus nem Mestre: A História Secreta do Anarquismo Mundial


A história do Anarquismo. Sem deuses, nem mestres é um documentário em 4 partes de Tancrède Ramonet.


"Nem Deus nem Mestre" relembra todos os principais eventos da história social dos últimos dois séculos e revela a origem e o destino deste movimento político que luta contra todos os mestres e deuses há mais de 150 anos. 

Nascido do capitalismo, irmão inimigo do comunismo de estado, o anarquismo nunca deixou de soprar seu vento de justiça e liberdade sobre o mundo. E se alguns libertários conseguiram se transformar em criminosos, brincando com revólveres ou fazendo dinamite falar, esquecemos que muitos deles propuseram alternativas e iniciaram as grandes revoluções do século XX. Usando imagens de arquivo inéditas, documentos esquecidos e entrevistas exclusivas com os maiores especialistas do movimento operário, este filme excepcional conta pela primeira vez a história deste movimento que luta contra todos os senhores e deuses há mais de 150 anos e que, de Paris a Nova York e de Tóquio a Buenos Aires, continua a abalar o mundo. Este documentário foi produzido para fins educacionais e pode conter imagens que podem ofender alguns espectadores. Se você é uma pessoa sensível, não é recomendado assistir a este documentário.

O segundo episódio, Terra e Liberdade, analisa as diferentes tensões no movimento anarquista durante o auge da sua popularidade — quando parecia, por um tempo, que o sonho da revolução anarquista poderia tornar-se realidade. Esta foi uma era de fermentação e experimentação social, que incluiu: vida comunitária, nudismo e igualdade de género; reforma educacional destinada a inaugurar o desenvolvimento do “novo homem”; o ressurgimento da propaganda pelo feito sob o disfarce de assaltos violentos e tiroteios com a polícia; e a participação de anarquistas em revoluções do México à Rússia.

O anarquismo diminuiu na Europa durante os anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, mas a Revolução Mexicana de 1910 levantou a tocha e atraiu o apoio de anarquistas e antiautoritários, incluindo os pensadores e ativistas Peter Kropotkin, Emma Goldman e Joe Hill (da IWW). Mas apesar dos primeiros ganhos dos zapatistas, eles seriam traídos e massacrados pelos seus aliados. Os anarquistas que participaram da Revolução Russa de 1917 sofreram o mesmo destino. Felizes por terem o seu apoio para derrubar o governo, os comunistas reprimiram-nos com o que Trotsky chamou de “uma vassoura de ferro”.

Embora parecesse que o sonho de uma revolução anarquista estava ao nosso alcance, a Primeira Guerra Mundial poria fim à revolta popular, à medida que os jovens marchavam para a frente. Um movimento que outrora parecia prestes a dominar o mundo estava agora gravemente enfraquecido.

No início do século XX, os anarquistas em França eram uma força suficientemente poderosa para atrair a atenção do presidente francês. Em Inglaterra, eram considerados tão perigosos que, quando ocuparam um edifício em Londres, foi necessária toda a força da artilharia pesada e a ajuda de 800 policias (alguns sob o olhar de Winston Churchill) para desalojá-los.

sábado, 17 de maio de 2025

Octave Mirbeau sobre o ódio


"Não odeies pessoa alguma, nem mesmo os maus. Compadece-te deles, porque jamais conhecerão o único gozo que consola na vida: fazer o bem."

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Elogio ao Anarquismo

Foto: Derek Nas veias da terra corre o sonho,
Liberdade que nasce sem lei ou dono.
Nos ventos revoltos, semeia-se o grito,
O caos é arte, o controle, um mito.
Caminhos sem muros, sem cercas ou prisões,
A força do povo nas próprias mãos.
Não há tronos nem coroas de ouro,
Somos iguais, no chão ou no topo.
O poder dissolvido em cada olhar,
A palavra é livre, o medo é quebrar.
Não há quem governe, não há quem obedeça,
O mundo é de todos, sem realeza.
Eis o canto do espírito liberto,
Onde o futuro é sempre incerto.
Mas nas mãos unidas, na força do riso,
Construímos juntos o nosso paraíso.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

A civilização é a causa original do ecocídio


Recentemente li um texto chamado It’s Not Capitalism that’s Driving Ecocide; it’s Civilization (Não é o capitalismo que está impulsionando o ecocídio, é a civilização), escrito por Kollibri terre Sonnenblume, e resolvi escrever algo sobre isso. Você pode ler a tradução aqui. Eu concordo que não é apenas o capitalismo que está impulsionando o ecocídio e que a sociedade colonialista já estava fazendo isso desde muito antes. Pelo título, algumas pessoas podem achar que ele está dizendo que o capitalismo não é um grande problema, o que seria equivocado já que o texto afirma que “o capitalismo não pode ser reformado e deve ser desmantelado”.

O ponto central do texto deve ser lido como uma pergunta: é possível conciliar o marxismo e o ambientalismo? Embora ecossocialistas garantam que sim, existem algumas complicações a serem resolvidas, especialmente quando se consideram conceitos como “supremacia humana” e antropocentrismo. E com isso não estou dizendo que movimentos como o Earth First sejam mais coerentes. Não tenho condições pra fazer essa avaliação.

O problema é que boa parte da ecologia e do socialismo são antropocêntricas. A maioria dos ecologistas e ecossocialistas não problematizam a civilização. Uma parte do eco-anarquismo compreende essa crítica porque se abriu para outras perspectivas ecológicas. O Estado também não pode ser reformado e deve ser desmantelado. A crise ecológica torna o capitalismo ainda mais contraditório, mas a contradição civilizatória está presente desde a fundação da sociedade de classes: a oposição entre ser humano e outros seres.

A questão é: quão longe o ecossocialismo pode ir na sua crítica ao domínio humano sobre a natureza? Para refletir sobre isso, podemos começar pensando nas palavras de Ailton Krenak: “Botei em questão se tem algo possível de se pensar como sustentável no modo de vida urbano e moderno que nós compartilhamos em vários lugares (…). Qual atividade pode ser sustentável dentro de um sistema desse?”

Se a civilização iniciou o ecocídio muito antes do capitalismo, como pode o fim do capitalismo ser o fim do ecocídio? É possível uma civilização socialista, ecológica e sustentável?

Continuando com a reflexão de Krenak, “a produção de alimento com certeza não é sustentável”. A revolução agrícola (também chamada de revolução neolítica) é considerada um grande avanço na história da humanidade, assim como a revolução verde (uso de novas tecnologias para o aumento da produção agrícola, a partir dos anos 60). Mas ambas foram desastrosas para a natureza e para a vida humana. A biotecnologia representa um próximo passo na mesma direção, enquanto a agroecologia promete reverter os efeitos devastadores dessas “revoluções”, transformando a agricultura numa prática sustentável.

Mas consideremos a sustentabilidade enquanto mito, ou “como uma narrativa que foi criada pelas corporações para continuar conquistando consumidores com a ideia de aquilo que você está consumindo é produzido de uma maneira sustentável, mas é uma mentira”. Neste sentido, como saber se a agroecologia é realmente sustentável?

Mesmo com a agricultura mais ecológica do mundo, é possível que “a conta não feche”, como diz Krenak. Isso porque as necessidades que temos agora não correspondem às necessidades naturalmente sustentáveis para seres humanos. São necessidades criadas pela civilização, que jamais seriam possíveis sem um modo de vida baseado em patriarcado, exploração, acúmulo, expansão, invasão, escravidão, genocídio, epistemicídio e ecocídio. Se de fato “a infraestrutura que existe nas cidades vai sofrer um colapso” e “todas as tentativas do mundo de regular o consumo, produção, distribuição de mercadoria são insustentáveis”, o que fazer?

Bem, nós sabemos o que não fazer. Não podemos continuar assumindo as mesmas premissas de que basta acabar com o desperdício gerado pelo capitalismo, ou investir em avanços científicos e tecnológicos que visem o bem comum (da humanidade) ou invés do lucro de empresas. Isso ainda pode ser insuficiente. A tecnologia nos confere poderes extraordinários. Podemos usar todos esses grandes poderes produzidos pelo nosso “avanço” tecnocientífico para o bem de todas as espécies e do planeta como um todo? Isso é humanamente possível? Isso é possível sem antropocentrismo ou excepcionalismo humano?

É preciso entender que “estamos fazendo escolhas erradas”. Não apenas os capitalistas, mas todos nós estamos fazendo escolhas erradas há muito, muito tempo. Podemos assumir toda a responsabilidade que vem junto com os poderes concedidos pelo desenvolvimento tecnológico? Ambientalistas em geral não criticam a tecnologia ou o modo de vida urbano em si. Pelo contrário, falam de cidades sustentáveis e tecnologia verde. Mas e se o modo de vida urbano e tecnológico for, necessariamente, uma “armadilha”, algo inerentemente insustentável?

A proposta de Krenak é uma sociedade humana que não deixe rastros de sua passagem pela terra. “Nós deixamos rastro demais e toda cultura que deixa rastros é insustentável”. O mais importante dessa ideia, para mim, passa despercebido para a maioria das pessoas: que estamos aqui só de passagem. Não apenas nós enquanto indivíduos, mas a humanidade como um todo está aqui só de passagem. Isso é, a humanidade tem uma existência finita. A civilização é, em muitos sentidos, a negação desse fato. A nossa cultura não se perdeu, não se tornou insustentável por um acidente de percurso. Ela é insustentável desde que nasceu.

Estamos alienados “em relação a origem de tudo que a gente come, bebe, veste”. Mas também estamos alienados em relação ao descarte, isso é, do destino final de tudo que a gente come, bebe, veste, e até do nosso próprio destino final. Nosso modo de vida, nosso consumo e nossa própria existência se tornou insustentável. E por isso tentar ser individualmente “mais sustentável” é uma “vaidade pessoal”. Não mudaremos nada se não mudarmos tudo.

A ideia de que você pode salvar o planeta fazendo sua parte cria “um ambiente psicológico que despista a verdadeira razão” da crise ecológica. O modo como estamos vivendo, num sentido mais fundamental que apenas o sistema econômico, é a causa da crise ecológica. Mas somos levados a crer que não há outro modo de viver, já que estamos no modo mais “avançado”, e já que não podemos “retroceder” ou “voltar no tempo”.

Há outras maneiras de viver, mas como diz Krenak, algumas delas são “racistas e de classe, sugerem que quem sabe viver no mundo são os ricos”. Esta frase pode ser reinterpretada ou completada do seguinte modo: sugerem que quem sabe viver no mundo são os brancos. São os povos que criaram a revolução industrial. São os povos que criaram impérios. São os povos que criaram um modo de vida baseado no uso intensivo de animais e do solo. Percebe? Quem inventou a riqueza e a pobreza?

Podemos impedir os processos industriais de acabar com nossa água? Em outras palavras, podemos impedir a civilização de destruir o mundo? Para citar um dos problemas mais difíceis: como abandonar o uso de combustível fóssil? Como diz Krenak, “o combustível fóssil já deveria ter sido abandonado na década de 90”. Sabíamos que era preciso parar, mas não paramos. Por que vai ser diferente agora?

A esperança numa civilização sustentável guarda uma crença, uma mitologia moderna, que é a “ideia de autossuficiência” da humanidade. Acreditamos que tudo é possível se nos esforçarmos. Basta um sistema melhor. “Com o avanço disso que foi chamado de civilização, e com o advento da globalização, esse circuito tomou conta do planeta inteiro”, diz Krenak. A civilização tem se apresentado como sustentável desde sempre, e tem sempre falhado nisso. Repito: por que seria diferente numa nova civilização?

A experiência urbana nos afastou da natureza. A simplicidade dessa frase é enganadora. Estar afastado da natureza não é somente não saber como viver sem geladeira e fogão. Significa, antes de tudo, não lembrar QUEM você é e o que está fazendo AQUI. “Muitos valores que temos, que achamos fundamentais para a humanidade foram criados e foram incutidos na nossa cultura, na nossa mentalidade”. Não são valores da humanidade, são valores de uma cultura que nega a humanidade, porque nega a natureza. Assim como nega a vida, porque nega a morte.

Essa “perda de memória” é um conceito central. Quando o poeta diz “as pessoas não são más, elas só estão perdidas”, ele reflete uma ideia ancestral. Quando alguém fazia algo errado, os outros membros da comunidade se juntavam para LEMBRAR àquela pessoa das coisas boas que ela fez de de QUEM ELA É.

Desse modo, a pergunta central para a crítica ao ecocídio não é: “como ser sustentável?”, mas sim “quem somos nós?”, ou ainda, “o que é o ser humano?”. Não parece uma pergunta muito pragmática e você pode protestar que precisamos de mais ação e menos filosofia. Porém, a aderência a essa filosofia silenciosa e não questionada da civilização é que nos trouxe até este pesadelo.

É por isso que considero tão importante que Krenak decida falar sobre “cosmovisão”, e mais especificamente, a cosmovisão de que “a Terra é um organismo vivo”. Isso não deve ser interpretado como metáfora. Não é tratar a Terra “como se” ela fosse um organismo vivo. Se a Terra é realmente um organismo vivo, tudo que a civilização entendeu sobre o mundo está errado, porque todo conhecimento civilizado está baseado na objetificação do mundo natural.

O aquecimento global é apenas a febre da Terra. Não é a doença em si, mas um sintoma. Ambientalistas tradicionais se concentram em tratar o sintoma, mas como tratar a doença? Como diagnosticar a doença?

O ser humano é capaz de sobreviver se largado pelado no mato, mas não é capaz de causar muito dano ao meio ambiente. Para destruir o seu habitat, é preciso criar ferramentas e técnicas especiais para isso, que nada tem a ver com a necessidade de sobrevivência. As culturas que não criaram esses aparatos “não estão engajados no consumo planetário”. Se esses povos são o “remédio”, nos dizeres de Krenak, quem ou o que é a doença? Como ele diz, “sobrou gente fora desse balaio civilizatório que ainda sabe, ainda reflete sobre uma cosmovisão, estão protegidos por essa memória e são capazes ainda de pensar outros mundos e construir outras perspectivas de mundo”. Isso sugere que nós, civilizados, somos aqueles que esqueceram quem são, estamos presos numa única forma de pensar e construir o mundo. Nossa visão é restrita. O peso do sistema técnico que criamos para alterar o mundo como bem entendermos pode ser impossível de carregar, insustentável num sentido mais profundo da palavra.

A tecnocultura civilizatória “é fascinante”, mas também “é um veneno”. “Todo mundo cria dependência com relação a esse grande abarcamento do mundo das aparentes necessidades humanas”. É um vício, como também diz Kollibri. Agora imagine o quanto é difícil se livrar de um vício coletivo que nos domina há milhares de anos… Lógico que parece utópico. Mas ao mesmo tempo, nada poderia ser mais irrealista do que permanecer nesse vício. Como deveria estar nítido, o maior dano desse vício não é exatamente à Terra, mas ao espírito humano. Do mesmo modo que, aquele que pesa excessivamente na vida da sua própria família, causa mais dano à sua própria auto-estima que à sua família.

Não conseguimos eliminar esse peso da nossa consciência. Estamos experimentando uma “dissociação” entre a experiência humana e o planeta. Porém, não destruímos o mundo sem saber o que estamos fazendo. Utilizamos toda nossa inteligência nesse projeto. A necrocivilização, para fazer um paralelo com o necrocapitalismo, nos colocou num mundo simulado, no qual gostamos de estar. Nos leva a fingir que tudo vai ficar bem, quando obviamente não vai. Obviamente o dano que causamos ao mundo não pode ser simplesmente apagado. Como uma mentira que foi sendo mantida a todo custo, as consequências de admitir a verdade agora são necessariamente desastrosas para nós.

“Fomos convertidos a uma ideia de humanidade que não é real. É uma pós-humanidade”, diz Krenak. A humanidade que tentamos realizar não pode se realizar. A tentativa de realizar esse ideal, passando por cima dos outros, é o processo civilizatório, “é o núcleo do pensamento colonial”. Os conceitos de civilização e de humanidade que usamos estão impregnados de colonialidade. “O colonialismo diz: vamos modernizar, vamos civilizar, vamos humanizar”. A saída não é colonizar outros planetas, mas conhecer a si mesmo.

O quão longe os críticos tradicionais do capitalismo tem ousado ir na viagem “para dentro de nós mesmos”? O quanto tem questionado aquilo que tem sido considerado como humanamente necessário, e o quanto tem simplesmente aceito o processo histórico civilizado como se este contasse a história da humanidade?

O cerne da crítica ao antropocentrismo pode ser resumido na seguinte frase de Krenak: “O problema é quando pensamos que somos a única vida aqui, a ponto de, quando a base para sua continuidade aqui não for suficiente, a gente vai reproduzir em outro lugar”. Isto me leva novamente à negação do limite, do fim inevitável da vida. Tudo que começa tem um fim. Mas o conceito antropocêntrico de sustentabilidade não enxerga um fim para a humanidade. Mesmo quando a perspectiva ecológica se considera ecocêntrica ou biocêntrica, ela não pensa na existência humana dentro de um ciclo com começo, meio e fim. Ela quer barganhar a continuidade do esquema.

Novas mentes, por outro lado, não querem mais a continuidade do esquema. “É isso que os meninos e meninas estão fazendo, estão dizendo ao mundo que os adultos falsificam uma narrativa sobre o mundo, e eles não querem”. Algumas pessoas percebem isso mais facilmente. Como um amigo recentemente me fez pensar, a civilização criou uma linguagem excludente para pensar o mundo, uma linguagem neurotípica ou “normal”, que exclui a diversidade natural de formas de pensamento, porque essa diversidade não é eficiente para a produção de um projeto civilizatório. É comum pessoas com estruturas mentais neurodiversas terem dificuldade de compreender regras sociais e de comunicação, pois elas não parecem fazer o menor sentido. Somos obrigados a reprimir uma parte de nós mesmos para nos tornarmos “funcionais”, e geralmente isso vem com uma sensação de estar agindo como um robô. De certo modo, é exatamente como qualquer pessoa se sente na civilização, em algum grau. Isso apenas passa mais despercebido quando a sua atuação é aceita pela sociedade. Mentes “normais” se esquecem de como é pensar fora da caixinha que a civilização nos coloca, mas mentes “diferentes” não conseguem esquecer, porque são péssimos em fingir.

É por isso que a tolerância ou convivência com o diferente não é suficiente. É preciso uma “alternância”. A alternância implica em saber passar a bola, e também saber quando ir embora, descansar, parar, desistir. Voltar depois, quem sabe. A maioria dos homens que se sentem ameaçados pelas mulheres tem dificuldade justamente nesse ponto: não sabem perder. Acreditam que todo peso de uma estrutura de opressão milenar pode ser dissipado com uma política de “participação” da mulher nos mesmos esquemas que o patriarcado criou, sem deslocá-los ou incomodá-los de modo algum. Ou seja, acreditam na “continuidade do esquema”. Como se as coisas não precisassem pesar para os homens. Isso só seria possível se o patriarcado não tivesse produzido privilégios. Nunca é fácil perder privilégios e confortos, mas algumas vezes é necessário.

Isso não deveria ser lido como uma apologia ao catastrofismo ou um pessimismo paralisante, ou pior, uma conivência com um sistema de descarte de pessoas. Mas é difícil não se parecer com um sádico quando se tem más notícias para dar. Eu não pretendo “contar a verdade e correr”. Eu pretendo ajudar quem está recebendo a mensagem a suportá-la. É preciso coragem pra abandonar certos vícios. Mas talvez o que nos prenda seja de outra natureza, algo bem mais difícil de abandonar.

Volto à questão principal aqui: o que ambientalistas estão dispostos a perder em nome da alternância com o Outro? A julgar pelo discurso ecológico mainstream, a resposta seria: nada. Eu poderia citar um exemplo: “Eu não concordo que mais progresso será feito apelando para o coração das pessoas do que para suas carteiras”, diz o economista ecológico Robert Constanza, fundador da International Society for Ecological Economics, principal referência em economia ecológica. Parece romântico demais dizer que é justamente o coração, e não a razão, que pode nos salvar agora. Se for verdade que a ação humana sempre busca a vantagem comparativa, a cosmovisão apresentada aqui não tem nenhuma chance. Porém, se ela tem algum sentido, a economia como um todo precisa ser questionada, não apenas a economia liberal, mas toda nossa auto-imagem como “ser racional” criado pelo mito do “homo economicus”.

O ecocapitalismo quer colocar um preço na natureza para poder protegê-la. O ecossocialismo quer a propriedade coletiva dos meios de produção (como objetivo final) e uma regulação estatal mais eficaz da economia (como objetivo mais imediato) para proteger a natureza. Como Kollibri sugere, o ecocapitalismo é bem mais fácil de refutar. O ecossocialismo, porém, é bem mais complexo de responder. Isso porque, embora ele possa ser mais ecológico, não é exatamente “sustentável”. Como assim?

A resposta, para mim, começa nessa fala de Krenak: “Em algumas culturas, a ideia de cair está dentro do ciclo da existência. Ela se articula com a ideia da semente, que se enterra, morre e vira a árvore e dá mais semente, e frutas, e vira semente, e enterra de novo. Ciclos”. Nossa cultura judaico-cristã, porém, enxerga a queda como um problema. Nós não queremos cair, somos especiais, estamos destinados a um lugar especial, onde ninguém mais morre e ninguém mais cai. E porque não sabemos cair, não podemos ser realmente sustentáveis, porque negamos a alternância. O ciclo da vida inclui a morte. Não queremos o fim da civilização, queremos evitar o colapso desse modelo econômico baseado em cidades que contemplam a eternidade. Queremos usar as técnicas, os conhecimentos, a ciência e a tecnologia civilizadas para impedir a queda e construir um mundo supostamente avançado, e supostamente mais humano. Ao invés disso, deveríamos aceitar as consequências de um acúmulo imensurável de decisões erradas. Decisões tão erradas que não podem mais ser corrigidas. Precisamos aprender a largar e cair. Podemos fazê-lo, ou o poder civilizado é tentador demais?

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Livro "A abolição do trabalho" de Bob Black (para descarregar)


Tão estimulante quanto contagioso, este texto escrito em 1985 continua a manter intacta a força para impulsionar as nossas vidas para uma busca da plenitude e enfrentar a mutilação que a economia nos impõe. Nesta altura do século XXI, a obra do anarquista Bob Black continua a ser uma heresia para muitos. Para nós, a abolição do trabalho é além de um harmónico canto à vida um monumental corte de mangas à ordem mental estabelecida.

[... ] Ninguém deveria trabalhar nunca. O trabalho é a fonte de quase toda a miséria existente no mundo. Quase todos os males que podem ser nomeados vêm do trabalho ou da vida num mundo desenhado em função do trabalho. Para parar de sofrer, temos que parar de trabalhar. Isso não significa que tenhamos que parar de fazer coisas. Significa que há que criar uma nova forma de vida baseada no jogo: por outras palavras, uma revolução lúdica. Por "jogo" também se deve considerar festa, criatividade, convivialidade, comida e talvez até arte. O jogo vai além dos jogos infantis, por mais dignos que sejam. Apelo a uma aventura coletiva baseada na alegria generalizada e na exuberância livre e recíproca. [... ]

E-Livro que pode descarregar aqui

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Livro - Cervantes Libertário


Este livro de Emilio Sola redescobre um Cervantes crítico do sistema social vigente à época, e amante da liberdade. Uma razão bastante para encontrarmos um Cervantes libertário que explica porque é que os anarquistas amam Cervantes

«A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens.»

Cervantes, M. D. Quixote de La Mancha

“Alcançar a liberdade nesta vida” é um verso de Cervantes que contém em si todo um programa de vida e de ação para uma pessoa do seu tempo e de todos os tempos. Porque a riqueza de Cervantes reside precisamente na descoberta que cada geração dele faz à medida que evoluem novas sensibilidades, para além da mera erudição crítica dos Cervantes, sempre transbordando delas. Quatro dias antes de morrer, o próprio Cervantes disse: “os tempos não são os mesmos”, e que chegará um tempo em que as pessoas, amarrando os fios soltos e quebrados de suas histórias, verão o que ele quis dizer e, mais ainda, o que ele quis dizer, o que era apropriado dizer.

Este livro de Emilio Sola – historiador com obras fundamentais sobre questões fronteiriças e de informação na época de Cervantes, tanto no Mediterrâneo como no Extremo Oriente – é um convite precisamente a essa interpretação mais livre das obras de Cervantes, a uma leitura libertária. ou libertar que no seu tempo histórico - “os tempos não são os mesmos” - era inviável.

Para horror do sistema, dos casticistas, dos bem pensantes e politicamente corretos, a suspeita de um Cervantes anti-sistema, um cortesão impossível, caluniador de “trocas injustas e de lidar com emaranhados” (a mais básica corrupção econômica) , um Cervantes não-denominacional e até uma feminista de quem não se fala na pompa dos centenários, e cuja mensagem principal ele se esforçou conscientemente para construir ao longo de sua vida. Por esta razão, Cervantes, o libertário são ou lúcido, tem que inventar Dom Quixote, o libertário louco, para dizer o que queria dizer, uma pura busca pela liberdade de expressão para “alcançar a liberdade nesta vida”.

Inúmeras e sempre novas leituras de Cervantes, renováveis ​​mesmo com a mudança dos tempos, fundamentais para compreender, por exemplo, Cervantes quando diz que não é adequado como cortesão porque não sabe lisonjear, e cujas queixas sobre a justiça são radicais, sem costura, claramente antissistémica., como aparece no primeiro discurso da Idade de Ouro, pela boca de Quixote; ou o Cervantes que, numa análise magistral da modernidade que se aproximava, compara a empresa económica moderna com a galera corsária, e lamenta que o novo deus dos novos tempos seja o “juros”, o dinheiro, para que “as mudanças injustas e tratamento emaranhado" seja a nova lei desses novos tempos bárbaros; ou a feminista Cervantes que numa sociedade patriarcal e machista faz Marcela dizer que nasceu livre e o que acontece é que seu amante não correspondido, Crisóstomo, suicidou-se, porque era um perseguidor; ou o Cervantes que, numa sociedade confessional fundamentalista como a monarquia católica, faz despedir-se um mouro e um cristão numa peça teatral como esta: “O teu Cristo vai contigo”, diz o mouro Ali; “Seu Muhammad, Ali, fique com você”, diz o cristão; formulação sem paralelo na literatura europeia de então e quase hoje, no curso das coisas.

Esse é o Cervantes que as elites culturais e os especialistas não parecem ter interesse em encobrir para que todos o compreendam. Aquele que não consegue digerir uma sociedade formal que, no fundo, não entra plenamente nele porque, como lhe aconteceu na vida, a despreza e esconde, a confunde ou a ignora, e só consegue rir dela graças ao louco que fala besteiras, e que inventou por pura necessidade de liberdade de expressão, num artifício literário que cria o romance moderno.

Esse é, sem dúvida, o personagem histórico de Cervantes que deslumbra os anarquistas, os libertários, e por isso são radicalmente Cervantes, mais que quixotistas, porque apaixonados por Dom Quixote, centram seu interesse naquele homem que está por trás do a própria obra literária., que lhe dá vida, que a torna possível.

Que Dom Quixote de Alcalá de Henares, como José María Puyol Albéniz, puro emblema, resume no título de um livro que publicou em 1947 e que simplesmente assina Puyol: um exilado libertário que chegou à Argélia no navio Stanbrook fugindo da repressão de Franco, cuja paixão por Cervantes também é narrada em "Por que os anarquistas amam Cervantes". O livro termina com uma revisão das afinidades do movimento libertário com Dom Quixote e seu autor.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O anarquismo


O anarquismo é uma corrente filosófica e política que valoriza a liberdade individual, a autogestão, a igualdade e a abolição de todas as formas de autoridade e hierarquia. Embora haja diversas interpretações e abordagens dentro do anarquismo, todas compartilham a visão de uma sociedade baseada na cooperação voluntária, na solidariedade e no respeito mútuo. Aqui estão alguns aspectos interessantes do anarquismo:
1. Valorização da Liberdade Individual: O anarquismo coloca a liberdade individual como um valor fundamental. Acredita-se que as pessoas são mais livres e realizadas quando não são submetidas a estruturas de poder opressivas.
2. Autogestão e Democracia Direta: Os anarquistas defendem a ideia de autogestão, onde as decisões que afetam as comunidades são feitas de forma descentralizada e democrática. A democracia direta é vista como o caminho para garantir que todos tenham uma voz igual nas questões que os afetam.
3. Crítica ao Capitalismo e ao Estado: O anarquismo critica tanto o capitalismo quanto o Estado, argumentando que essas instituições muitas vezes perpetuam a desigualdade e a injustiça social. Em vez disso, propõe sistemas económicos e sociais baseados na cooperação e na Natureza.
4. Foco na Solidariedade e na Comunidade: Os anarquistas enfatizam a importância da solidariedade entre as pessoas. Eles acreditam que, por meio da colaboração e do apoio mútuo, as comunidades podem prosperar de maneira mais justa e sustentável.
5. Ativismo e Resistência: O anarquismo historicamente esteve associado a movimentos de resistência e ativismo social. Anarquistas têm desempenhado papéis importantes em lutas por direitos civis, igualdade de gênero, direitos dos trabalhadores e outras causas progressistas.
6. Sensibilidade Ambiental: Muitos anarquistas são sensíveis às questões ambientais e defendem práticas que respeitam o meio ambiente. Eles frequentemente apoiam ideias de sustentabilidade, simplicidade voluntária e uma relação mais equilibrada entre humanos e natureza.
7. Experimentação Social: O anarquismo, em várias ocasiões, inspirou experiências sociais interessantes, como comunidades autónomas, cooperativas e ecoaldeias que servem como modelos de como a sociedade poderia ser organizada sem hierarquias rígidas.
É importante notar que o anarquismo, como qualquer outra ideologia, tem as suas variações e interpretações. Alguns críticos argumentam que, na prática, a ausência de estruturas de autoridade poderia levar ao caos, enquanto os defensores veem o anarquismo como uma aspiração nobre para uma sociedade mais justa e igualitária. Cada pessoa pode interpretar o anarquismo de maneira diferente, mas a sua ênfase na liberdade, igualdade e solidariedade continua a inspirar muitos ao redor do mundo.

Minha arte digital. Saudades dos cafés, que eram espaços de tertúlias longas e não, como agora, toma-se o café, está-se cerca de 10-20 minutos, lê-se rapidamente o jornal disponível e cada um segue o seu caminho.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Bancos de tempo – onde a moeda vale mais do que dinheiro


Se o grau académico, os rendimentos e as condições de acesso à saúde de uma pessoa variam devido a uma série de fatores, as 24 horas do dia são as mesmas para toda a humanidade. Ainda que a gestão do tempo esteja relacionada à realidade socioeconómica de cada indivíduo, é do princípio de igualdade de posse desse recurso que parte a ideia dos bancos de tempo. Trata-se de um artifício da economia solidária que possui como moeda de troca as horas despendidas em serviços voltados à comunidade, promovendo a confiança e a colaboração entre pessoas de diferentes contextos.

As primeiras referências históricas a transações baseadas no tempo datam do século XIX e mencionam a sua popularidade entre os grupos anarquistas e socialistas da altura, na Europa e nos Estados Unidos. Em 1973, Teruko Mizushima foi a responsável pela fundação do primeiro banco de tempo do mundo, em Osaka, no Japão. Uma hora dedicada a atividades requisitadas por membros do Banco de Trabalho Voluntário, atual Rede Voluntária de Recursos Humanos, corresponde a um crédito que pode ser trocado por outra hora de serviços no futuro – uma lógica pensada especificamente para as mulheres cuidadoras de idosos.

A iniciativa foi internacionalizada no início dos anos 90 pelo norte-americano Edgar Cahn. No livro No More Throw-Away People, o professor de Direito definiu os cinco valores da lógica dos bancos de tempo: todos têm um valor; alguns trabalhos estão além de um preço monetário; ajuda recíproca; fortalecimento das comunidades; e respeito por todos os seres humanos.

Tendo o tempo investido sempre o mesmo valor, não existem tarefas mais valiosas do que outras. Em países como a Itália e o Reino Unido, as horas passadas a cuidar da casa de um vizinho, por exemplo, podem pagar procedimentos de estética ou aulas de diversas áreas. Os bancos de tempo, também estabelecidos em diversos locais da América Latina, funcionam ainda através de trocas indiretas, ou seja, os serviços não são sempre realizados entre os mesmos dois membros.

O caso português
O Graal, movimento internacional de mulheres, inspirado pelas atividades da associação catalã Salud y Família, implementa a ideia do banco de tempo em Portugal. Aberta em 2002, a agência de Abrantes é a primeira das 25 que hoje existem, as quais somam 1.900 membros pelo país. Da mesma forma, a proposta portuguesa promove o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados, reunidos numa lista constantemente aberta a novas sugestões.

Eliana Madeira, coordenadora da Rede Nacional do Banco de Tempo, sublinha o princípio estruturante da reciprocidade. Apesar da forte ligação à noção de voluntariado, a representante não considera a iniciativa como caritativa, uma vez que olham para cada indivíduo «como um ser humano com as suas vulnerabilidades, que precisa dos outros e pode, potencialmente, beneficiar do tempo das outras pessoas». Eliana enfatiza igualmente a estimulação dos talentos dos membros e a dispensa de certificações para realizar as tarefas requisitadas. «Não há qualquer intenção de que as pessoas se sacrifiquem por outras, mas que expandam o seu bem-estar, que façam aquilo que efetivamente gostem e que obtenham ajuda para fazer exatamente aquilo que é mais custoso para si», afirma ao Gerador.

O balanço dos 20 anos do Banco de Tempo de Portugal é positivo, garante a coordenadora, mas a ação não escapa dos obstáculos de uma sociedade individualista e presa aos bens materiais, em que «para ser, é preciso ter». Somente ao remeter o valor do dinheiro para segundo plano, continua Eliana, a cooperação é facilitada e permite o êxito de uma conceção de solidariedade mais igualitária e próxima do companheirismo. É desta forma que o conceito, na sua opinião, se configura como uma resposta social revolucionária, visibilizando as capacidades e necessidades de grupos discriminados, como as pessoas com deficiência, migrantes e mais velhas.

Tempo (não) é dinheiro
Mais recentemente, em 2022, o governo da Suíça anunciou a implementação da iniciativa como uma medida de saúde pública, cujo funcionamento parece retomar a ideia de Teruko Mizushima para o cuidado de idosos. As horas investidas, pela juventude, nesse acompanhamento são registadas pela segurança social e disponibilizadas como créditos para que os jovens recebam, quando mais velhos, o mesmo apoio.


Ainda no ano passado, a capital chinesa anunciou um esquema semelhante, no qual as horas de trabalho podem ser resgatadas quando os cidadãos completam 60 anos ou, antes disso, doadas a familiares e amigos a partir desta idade. Em Pequim, o acúmulo de dez mil horas garante, inclusive, uma vaga num lar de cuidados do estado.


Seja o banco de tempo pensado exclusivamente como uma política de combate ao envelhecimento da população mundial ou um projeto de entidades não-governamentais que abarca quaisquer demandas, Eliana Madeira acredita que o essencial é a rutura da analogia reducionista entre tempo e dinheiro. «Tempo é a matéria-prima de que são feitas as nossas vidas», conclui.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Diário


Acabei de chegar a casa. Estive com um grande amigo meu, que não o via há uns anos. Vive em Serpa. É professor aposentado de Física e Química. Entre dois gin tónicos, conversamos de tudo: que ainda somos um País de Fátima, Futebol e Fado; demora o seu tempo o cumprimento da nova Lei da Concordata, separação do Estado e da Igreja Católica (2004); o censos dá 80% de católicos, mas isso porque os pais baptizam os filhos na Igreja. Há uma "pressão" social, familiar. Estranha-se ainda só registar os filhos no Cartório. Acreditamos que entre 60% a 70% não fizeram o crisma. Haverá uns 30% que realmente vão à missa. 
Desejaríamos que os padres católicos casassem. Que as freiras pudessem ter o mesmo papel dos padres: baptismos, casamentos, funerais. Que, como tudo neste País, também o agrupamento de paróquias não faz sentido. O António é agnóstico, mas lembrei-lhe que não pode dizer isso porque não fez ainda a apostasia. 
Depois saltamos para a filosofia. Walter Benjamim veio à baila. Conversamos que ele tinha razão num raro ensaio ecologista marxista, em que ele postula que o capitalismo atroz irá destruir a Natureza e esgotar os recursos. Foi talvez um dos pioneiros do ecologismo. E finalmente o que nos une, há muitos anos: os mesmos poetas, os mesmos autores, o naturismo, uma predileção pelos anarquistas e os mesmos gosto musicais. 
Somos como as borboletas. Parecemos fortes, mas vita brevis e os nosso actos devem ser suaves, preventivos e mais de acordo com os ritmos da Natureza . Até amanhã.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Adrienne Buller: "A crise ecológica não pode ser submetida aos mecanismos de mercado"

Adrienne Buller [Fonte: The Guardian]

Adrienne Buller é diretora de pesquisa do think tank britânico Common Wealth , onde lidera projetos sobre a construção de uma economia democrática, autora de "The Value of a Whale: On the Illusions of Green Capitalism" , e coautora, com Mathew Lawrence, de Owning o Futuro: Poder e Propriedade em uma Era de Crise .

Numa época em que o capitalismo verde exige que filtremos a nossa resposta à crise climática por meio do mercado, a autora analisa tudo o que há de errado com essa abordagem.

Nesta entrevista realizada como parte de um projeto sobre populismo climático de direita no Centro para o Avanço da Imaginação Infraestrutural (CAII), Buller aponta que tudo se resume à política: o greenwashing não impedirá que o financiamento climático minimize os riscos, maximize os retornos e negligencie o bem comum. É fundamental que lutemos para governar democraticamente nossos sistemas económicos.

O que é capitalismo verde e quais são seus objetivos? Quem são suas líderes de torcida, tanto em termos de instituições quanto de indivíduos reais?
Em essência, o capitalismo verde tenta encontrar uma maneira de gerenciar a complexidade de abordar a crise climática e ecológica através do prisma do mercado. Isso requer encontrar preços para as coisas, seja carbono ou outras formas de capital natural, e encaixá-los em nosso modelo financeiro.
O mercado busca promover a arbitragem neutra entre atores que buscam lucro e, então, a entende como algo inerentemente alinhado com resultados positivos, como redução de emissões ou combate à perda de biodiversidade.
Minha primeira experiência com o capitalismo verde foi trabalhar na numa organização sem fins lucrativos que ajudava empresas financeiras a otimizar seu papel na transição verde.
A indústria financeira sustentável foi uma janela para essa mentalidade sobre como enfrentar a crise climática e ecológica fazendo pequenos ajustes impulsionados pelo mercado e resistindo à suposta confusão da política.
Seus defensores estão por toda parte. A própria indústria financeira está, na minha opinião, na vanguarda dessa ideia. Você tem campeões como Larry Fink, CEO da BlackRock, como emblemas desse movimento. Mas também está presente em todos os tipos de fóruns de governança climática europeia.
O European Green New Deal é um programa político arquetípico do capitalismo verde. Assim como o Inflation Reduction Act [IRA] nos EUA, que tenta atrair agentes do mercado e encontrar maneiras de tornar os investimentos climáticos desejáveis ​​para o setor privado e seus clientes. É realmente a estrutura predominante com a qual a maioria dos formuladores de políticas, pelo menos no norte global, está trabalhando.

Qual é o principal fator por trás de sua aparência? As empresas não querem enriquecer com esta tragédia?
Sem ficar muito do lado da conspiração, eu diria que este é um casamento feliz de uma série de interesses do capital. Há o reconhecimento da ameaça de que a crescente crise climática representa um alerta sem precedentes para o capitalismo, especialmente em termos de sua capacidade de se reproduzir.
Mas, ao mesmo tempo, também há um entendimento de que essa é uma esfera totalmente nova de lucro com esse problema. Voltando aos chefões financeiros, Larry Fink publica uma carta anual apresentando a crise climática como uma oportunidade sem precedentes para os investidores.
O outro lado está mais perto dos palcos de Davos. Há reconhecimento da ameaça, mas também da necessidade de manter o capitalismo e os sistemas baseados no mercado.
Isso muitas vezes me parece um compromisso mais ideológico, motivado pela crença de que este é o único – e último – sistema econômico que poderíamos ter. A chave para o capitalismo verde é que é um casamento feliz de todos esses interesses.

Quem interpreta o antagonista do capitalismo verde? Quem representa essa figura da oposição?
Se existe um inimigo imaginário, é aquele que resiste aos sistemas de mercado existentes, ou questiona os fundamentos do capitalismo diante da crise climática e ecológica. É uma descrição bastante nebulosa do inimigo no capitalismo verde.
Aqueles que se encaixam com ela podem ser as partes mais anarquistas da frente climática, grupos como Extinction Rebellion, o ambientalista que resiste a colocar um preço na natureza em qualquer sentido romântico ou de princípios.
Dito isto, nem tenho certeza se há necessidade de um "inimigo" em sentido estrito. Tudo o que consigo lendo o trabalho ou entrevistas de pessoas que considero líderes do movimento capitalista verde é a convicção absoluta de que a sua posição é inevitável e correta. Eles têm aquela crença thatcheriana estridente de que não há alternativa ao sistema existente.
Na minha opinião, é menos sobre ter um "inimigo" e mais sobre uma convicção genuína de que o capitalismo verde e seus defensores são os adultos na sala. Eles acham que todo mundo está a jogar um jogo, sem entender como o mundo funciona e como ele deve continuar a funcionar.

Em seu livro, ele desmonta a ideia dos mercados de carbono, um dos métodos que o capitalismo tem usado para enfrentar a crise climática. O que já sabemos sobre sua eficácia?
Eu me apoio no trabalho de duas pessoas, Jessica Green, uma académica canadiana, e Cédric Durand, que escreveu artigos brilhantes sobre as falácias lógicas dos mercados de carbono.
Olhando para os sistemas atualmente em vigor e a sua eficácia comprovada, Green publicou uma das únicas meta-análises para analisar os resultados reais de todos os sistemas de precificação de carbono que foram implementados, como o esquema de comércio de emissões na União Europeia. Ela conclui que apesar de muitas reclamações sobre a incrível eficácia desses programas, em média, eles estão a gerar reduções entre 0 e 2% ao ano.
A sua eficácia é limitada, em parte porque cobre apenas uma parcela relativamente pequena das emissões reais da UE, mas também porque muito do que realmente consegue é a mudança de emissões.
Embora mudanças como as do carvão para o gás pareçam temporárias, não é exatamente um resultado notável em termos da capacidade dos sistemas de precificação de carbono de fazer o que eles dizem que fazem. Ele refuta as habituais alegações pomposas feitas por economistas sobre a rapidez e a justiça com que podem cortar.
A razão para isso acontecer se resume principalmente a questões políticas. A precificação do carbono pretende ser um mecanismo apolítico baseado no mercado para enfrentar a crise climática. A ideia é que o que ela emitir a mais terá um preço mais alto e, portanto, será expulso do mercado; então, a motivação do lucro garantirá a sua substituição por soluções inovadoras que possam ser oferecidas a um custo menor.
Mas, paradoxalmente, todos os tipos de questões políticas rapidamente entram em jogo. Até mesmo estabelecer os limites do que o preço do carbono cobre requer política. Os combustíveis fósseis e as emissões de carbono estão tão profundamente enraizados em todos os aspectos das nossas vidas, desde a energia até o transporte e a alimentação, que é impossível inovar tão cedo.
Para que os mecanismos de precificação do carbono sejam realmente eficazes, eles teriam que entrar em vigor num nível politicamente tóxico. É por isso que nunca aconteceu. Imediatamente, você está a enfrentar enormes injustiças e desigualdades que muitas vezes recaem sobre aqueles que menos podem pagar pelo preço do carbono.
É por isso que vimos surgir rapidamente muita resistência política aos mercados de carbono. Seja no Canadá , em torno dos esforços de Trudeau para impor um preço ao carbono; ou mais recentemente na Holanda , com a oposição dos trabalhadores rurais às metas climáticas. Há boas razões para essa resistência.

Onde a China se encaixa nessa narrativa? Como você explica o fato de eles terem optado pelos mercados de carbono e parecerem estar indo bem?
Indiscutivelmente, é necessário haver formas mais autoritárias de governo para que esse tipo de mecanismo de mercado funcione. A menos que sejam cuidadosamente articulados ou aplicados num nível tão baixo que sejam muito lentos ou ineficazes na redução de emissões, esses sistemas têm o potencial de causar injustiças e desigualdades económicas significativas.
Portanto, acho justo presumir que na China a ausência de caminhos reais para a dissidência democrática desempenhou um papel significativo no sucesso político percebido de seu sistema de comércio de carbono.

Outro tema que se seguiu é a ascensão da agenda ambiental, social e de governança (ESG). Como você vê a política deles, ou a falta dela?
Há um primeiro ponto muito óbvio. Quer a sua perspectiva da economia seja capitalista ou não, nesta transição precisa haver uma realocação massiva de capital para longe das tecnologias marrons e poluentes e para as verdes. E os ESGs têm sido a principal resposta do financiamento privado e do setor corporativo a essa necessidade óbvia.
O E significa "ambiente", as outras duas letras significam "social" e "governança". Os critérios ESG oferecem uma estrutura clara para os investidores avaliarem o destino de seu capital. Você pode indicar se uma empresa na qual deseja investir atende a uma série de critérios, que podem estar relacionados ao clima ou a questões como paridade de gênero nos conselhos. Mas isso também substitui o planeamento.
Isso nos impede de ter metas mais exatas de como queremos realocar o capital. O ESG tem se mostrado uma maneira eficaz de reduzir a pressão por regulamentações mais rígidas que proíbem a alocação de capital para certas coisas, ou exigem que mais material seja alocado para investimentos verdes, criando a impressão de que algo está sendo feito sem exigir muito, ou nada , de empresas.
Também tem tido enorme sucesso como ferramenta de marketing. Por muito tempo, a área financeira entendeu que tinha um problema de imagem quando se tratava de clima e meio ambiente.
O ESG tem sido um produto incrivelmente popular tanto para investidores de retalho quanto para fundos de pensão, todos os quais colocam seus ativos no sistema acreditando que você ainda pode ser verde e fazer o bem ganhando dinheiro, que você pode maximizar o retorno financeiro. e leve em consideração o critério ESG.
Se isso é verdade ou não, é outra questão, mas é assim que foi vendido. E há muito triunfalismo no setor financeiro sobre como está funcionando bem, sobre como os retornos dos investidores se alinham perfeitamente com questões de sustentabilidade, direitos humanos ou leis trabalhistas.

domingo, 11 de junho de 2023

Sobre B. Traven (Bruno Traven), também conhecido por Ret Marut


Os anarquistas são pouco falados. Não há muita partilha deles nas redes sociais portuguesas. B. Traven (Bruno Traven, datas incertas, possivelmente 1882-1969) é o pseudónimo principal de um dos autores mais enigmáticos da literatura moderna, conhecido especialmente pelo romance "O Tesouro de Sierra Madre", adaptado para o cinema por John Huston e protagonizado por Humphrey Bogart, em 1948.
Sua obra, com tendências anti-capitalistas, denuncia crimes contras os povos nativos do México e norte-americanos, apresentando com frequência uma visão de mundo árida e violenta. Nalguns países, como EUA e Alemanha é mais conhecido pelo apelido "Ret Marut". Em suma. B. Traven era um activista progessista, nos anos 30, muito antes dos movimentos actuais de defesa dos povos indígenas e do Black Live Matters, por exemplo.
De provável origem alemã, exilou-se em 1924 no interior do México, onde escreveu as suas primeiras novelas.
Conseguiu manter a identidade em segredo por toda sua vida, apesar de sua produção literária ter sido traduzida para inúmeras línguas, ultrapassando todas as barreiras do anonimato.
Partilho aqui um tema (dedicado a B.Traven) bem vanguardista de um músico que adoro bastante- Blixa Bargeld.

Documentário:

Saber mais:

terça-feira, 23 de maio de 2023

Música do BioTerra: Nico - Femme Fatale


Nico - Femme Fatale (Live at the Preston Warehouse, UK, 1982)

Here she comes
You better watch your step
She's going to break your heart in two
It's true

It's not hard to realize
Just look into her false colored eyes
She builds you up to just put you down
What a clown

'Cause everybody knows
(She's a femme fatale)
The thing she does to please
(She's a femme fatale)
She's just a little tease
(She's a femme fatale)
See the way she walks
Hear the way she talks

You're put down in her book
You're number thirty-seven, have a look
She's going to smile to make you frown
What a clown

Little boy, she's from the street
Before you start, you're already beat
She's gonna play you for a fool
Yes, it's true

Biografia e discografia

Youtube

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Música do BioTerra: Arcade Fire - Neighborhood


Os multi-instrumentos são a base . O grupo entra numa transe anarquista, em que os uivos ao mesmo que outros cantam, leva a uma apoteose germinal, primitiva e emocionante canção de intervenção.


And if the snow buries my
My neighborhood
And if my parents are crying
Then I'll dig a tunnel

From my window to yours
Yeah, a tunnel from my window to yours
You climb out of the chimney
And meet me in the middle

The middle of the town
And since there's no one else around
We let our hair grow long and forget all we used to know
Then our skin gets thicker from living out in the snow

You change all the lead
Sleeping in my head
As the day grows dim
I hear you sing a golden hymn

Then we tried to name our babies
But we forgot all the names that
The names we used to know
But sometimes we remember our bedrooms

And our parent's bedrooms
And the bedrooms of our friends
Then we think of our parents
Well what ever happened to them?

You change all the lead
Sleeping in my head to gold as the day grows dim
I hear you sing a golden hymn
The song I've been trying to sing

Purify the colors, purify my mind
Purify the colors, purify my mind
And spread the ashes of the colors
Over this heart of mine

Arcade Fire (youtube)
Arcade Fire (site)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Música do BioTerra: Siouxsie and the Banshees - Night Shift

HQ 2007 Digital Remaster +lyrics

Live Show- Köln, Germany, 1981

Live Show- Royal Albert Hall, 1983

Studio Version

Live in koko, 2009

Only at night time... I see you
In darkness... I feel you
A bride by my side-I'm inside many brides 
Sometimes I wonder...
What goes on in your mind, always silent and kind unlike the others...

Fuck the mothers kill the others
Fuck the others kill the mothers
I'll put it out of my mind because... I'm out of my mind with you
In heaven and hell with you...

My Night Shift Sisters
Await your nightly visitor
They don't bother me
No they don't bother me

The cold marble slab submits at my feet with a neat dissection...
Looking so sweet to me-please come to me with your cold flesh-my cold love
Hissing... not kissing
A happy go lucky chap... always dressed in black he'll come to you, he'll come to you

My Night Shift Sisters
With your nightly visitor
A new vocation in life
My love with a knife
Fuck the mothers kill the others
Fuck the others kill the mothers
I'll put it out of my mind because... I'm out of my mind with you
In heaven and hell with you...

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