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terça-feira, 30 de junho de 2026

A onda de calor na Europa é a mais quente e húmida de sempre

As temperaturas actuais na Europa ocidental e central teriam sido virtualmente impossíveis há 50 anos, e os níveis de humidade sem precedentes tornam esta onda de calor especialmente perigosa.
Não sou eu que o digo. É a Ciência e a Biogeografia que o dizem.

A Europa está a viver um verão histórico e extremamente severo. Após um final de junho com recordes absolutos de temperatura estilhaçados por todo o continente, com os termómetros a passarem os 41°C na Alemanha e os 44°C em França e Espanha, os modelos de previsão sazonal apontam para uma continuidade deste cenário crítico nos meses de julho e agosto.
As previsões detalhadas para as próximas semanas indicam que, em julho, haverá o retorno da crista de altas pressões. Embora os primeiros dias do mês tragam um ligeiro alívio temporário em partes da Europa Central e Ocidental devido a uma mudança de fase na Oscilação do Atlântico Norte (NAO), o calor extremo vai regenerar-se rapidamente. Em Portugal e Espanha, o IPMA e a AEMET já emitiram avisos para o início de julho, prevendo máximas entre os 40°C e os 43°C, especialmente nos vales do Tejo, Douro e Alentejo, acompanhadas de "noites tropicais" onde as mínimas não descem dos 20°C a 25°C. 
Já na segunda quinzena de julho, os modelos europeus, como o ECMWF, apontam para o regresso em força da crista de alta pressão e de um bloqueio atmosférico. Espera-se que o núcleo do calor extremo se mova ligeiramente mais para Leste, afetando severamente a Europa Central, Itália e os Balcãs, mas mantendo todo o sul do continente com temperaturas muito acima da média.
Por sua vez, as previsões para agosto desenham-se como o mês mais preocupante em termos de persistência e risco de incêndios, caracterizando-se por calor sustentado e seca. 
Os modelos de longo prazo estimam que as temperaturas globais em agosto sejam 1°C a 2°C mais quentes do que a média histórica de referência de 1991–2020, sendo que no sul da Europa e no Mediterrâneo essa anomalia pode ser ainda maior. 
A probabilidade de ocorrência de ondas de calor com temperaturas acima do normal em agosto é de 60%, esperando-se que os sistemas de alta pressão se tornem dominantes e estacionários, o que favorece períodos de calor mais longos e secos. Adicionalmente, o fator marítimo terá um papel crucial, dado que as águas do Atlântico e, muito em particular, o Mar Mediterrâneo estão a registar uma onda de calor marinha. Esta água invulgarmente quente impede o arrefecimento noturno das zonas costeiras e atua como um combustível que intensifica a sensação de abafamento e a força das massas de ar quente que sobem do Norte de África.

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sábado, 9 de maio de 2026

Primeiros americanos: descoberta no Novo México recua povoamento em 23.000 anos


Durante décadas, os livros escolares afirmaram que os primeiros americanos chegaram há cerca de 13.000 anos. Contudo, pegadas fossilizadas descobertas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México (EUA), acabam de deitar por terra essa cronologia. Os vestígios mais antigos têm quase 23.000 anos - e narram uma história de tirar o fôlego.

Cientistas utilizaram a datação por radiocarbono em sementes incrustadas nas pegadas para confirmar a sua idade milenar. Um dos trilhos mostra uma mulher, ou uma adolescente, a carregar uma criança ao colo, caminhando apressadamente sobre o leito lamacento de um antigo lago. Ela escorregou. Cansou-se. Pousou a criança por um momento. E depois continuou a avançar. 

Ao seu redor: lobos-terríveis (Aenocyon dirus) e tigres-dentes-de-sabre. Aquilo não era um passeio; era sobrevivência.

As pegadas estão tão bem preservadas que é possível distinguir os dedos dos pés da criança, a passada da mulher e até o local onde ela fez uma pausa. "Se alguma vez teve de correr para algum lugar importante enquanto carregava uma criança cansada, sentiu uma emoção muito semelhante", afirmou um dos investigadores. [toda a história aqui]

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por um clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Esta descoberta no sul dos Estados Unidos reescreve, por completo, a história da presença humana na América do Norte.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Do mar à terra, passando pelos céus: como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Poema da Terra Inteira

"Aprendi com as ervas que nada tem pressa.
Nasce-se porque sim,
como a luz que se desprende da manhã
sem pedir licença ao dia.
Caminho pelos campos sem querer compreendê-los.
A compreensão é um peso dos homens.
A relva sabe estar,
o rio sabe seguir,
a pedra sabe durar.
E ninguém lhes ensinou nada.
Abraço um carvalho antigo
e ouço, no silêncio da casca,
a memória de tudo o que já passou por ele:
vento, pássaros, neve, populações antigas
a marca de um raio,
o calor de muitos verões.
E percebo que não sou dono de nada,
apenas hóspede de passagem.
A Natureza não precisa de mim,
mas eu preciso dela
como quem precisa de respirar fundo
para lembrar o próprio nome.
Porque viver é simples:
respirar com a paisagem,
escutar o que cresce,
e reconhecer — num gesto sereno —
que somos apenas uma voz
no grande coro da Terra."

Reflexão ecológica: transição filosófica do Antropoceno para o Ecoceno
Toda a ética ambiental começa num reconhecimento simples: a Terra não é um cenário, é uma comunidade viva da qual fazemos parte. A verdadeira sabedoria ecológica nasce quando deixamos de olhar para o mundo apenas como recurso e passamos a vê-lo como relação.
Cada forma de vida — da mais discreta à mais imponente — participa num equilíbrio que não é aconselhável controlar, pois dele dependemos profundamente.
Não há superioridade, apenas interdependência.

Cuidar do planeta não é um gesto moral isolado; é um novo paradigma.
Não desejamos mais extinção mas sim um futuro partilhado de todas as espécies, permitindo que as futuras gerações usufruam plenamente do Ecoceno.

E talvez o maior ensinamento seja este:
proteger a Terra não é salvar algo externo a nós — é preservar a continuidade da própria vida
de que somos expressão.
Joao Soares 04.12.2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O futuro será verde ou não será - a lição de Mancuso


Stefano Mancuso, botânico italiano e um dos maiores especialistas em neurobiologia vegetal, afirmou recentemente, em entrevista à Lusa, que os humanos deveriam aprender com as plantas a resolver problemas, em vez de fugir deles.

Mancuso recordou uma evidência antiga. As plantas não fogem, transformam o lugar onde estão. Essa imobilidade criativa, resultado de milhões de anos de evolução, encerra uma lição de enorme atualidade. Num mundo que procura soluções tecnológicas para todos os males, é nelas que se encontra a sabedoria de permanecer, adaptar e regenerar.
Concordar com Stefano Mancuso é reconhecer uma evidência que se tem tornado impossível de ignorar. Serão as plantas, e não a tecnologia, a oferecer soluções para a resolução de alguns dos maiores problemas da humanidade. Esta é uma afirmação que fere a vaidade moderna, habituada a ver nas máquinas a extensão gloriosa do cérebro humano. E, no entanto, tudo na história da Terra aponta para o contrário.

Muito antes de existirem ferramentas, cidades ou linguagem, os organismos fotossintéticos já haviam criado o oxigénio que respiramos, e as plantas contribuíram para estabilizar o solo e os ciclos que permitem a vida. Quando o homem ainda era sonho, elas já trabalhavam em silêncio na arquitetura do planeta.

A neurobiologia vegetal, campo que Mancuso ajudou a fundar, revela o que a intuição antiga já pressentia. As plantas processam informação, comunicam, ajustam respostas e resolvem problemas sem precisar de cérebro, através de mecanismos fisiológicos e bioquímicos.

Cada raiz, cada folha e as redes subterrâneas da rizosfera, onde fungos micorrízicos e bactérias simbióticas ligam plantas, funcionam como um tecido vivo de processamento e troca. Nesta descentralização está a sua força.

Enquanto a civilização humana constrói sistemas hierárquicos e frágeis, onde a queda de um centro pode paralisar o todo, as plantas operam numa estrutura descentralizada e resiliente. A raiz que morre não compromete o organismo, porque outras se estendem, outras aprendem, outras ocupam o vazio.

Esta lição de organização descentralizada desfaz a crença ingénua de que a tecnologia, criação habitualmente vertical e centralizada, pode substituir a sabedoria dos sistemas vivos. Um algoritmo pode processar dados, mas não compreende a textura da interdependência.

Uma máquina pode reproduzir formas, mas desconhece o ritmo paciente com que a vida se refaz. As plantas, pelo contrário, vivem no tempo longo da Terra. Não correm, não consomem, não conquistam. Regeneram.

É esta paciência vegetal que o homem perdeu. A era digital, com o seu ruído incessante, fez-nos confundir velocidade com progresso. O crescimento tornou-se uma corrida, o desenvolvimento uma métrica de exaustão. As plantas mostram-nos outro caminho. Crescem devagar, mas nunca em vão.

O carvalho que demora décadas a atingir a sua copa é o mesmo que cria sombra, abrigo, alimento e estabilidade para tudo o que o rodeia. Nenhum servidor informático, por mais potente, produzirá jamais uma floresta.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Reinterpretar o fogo num tempo que extraiu dele um novo Adamastor


Este país, que durante séculos se pensou pelo mar, hoje vê-se encerrado pelo fogo, e com a extensão crescente da área ardida, se tantos vulgarizam o apelo da indignação, fica claro como esta apenas serve para ocultar um ajuste de contas, uma consciência da realidade que emerge pelo fogo, lavrando a cada verão como o grito de um território e de uma população abandonados

Dantes era o mar, esse elemento de expansão e ligação com o mundo, espelho convulso que nos abismava diante do desconhecido, um horizonte líquido e que prometia passagem, mas se este limite aberto recuou para a margem da memória, hoje é a orla flamejante que devora pinhais e eucaliptais a cada verão e nos convoca para um espectáculo de impotência e despossessão, é o fogo o elemento que mais nos acossa, capturando-nos, dançando ao nosso redor e pintando um inferno em cerco. Se o mar foi, outrora, uma promessa e um sustento, se nos treinou para a distância, para o conhecimento dos ventos, do risco e da deriva, desse antigo mar da História o que resta? Eduardo Lourenço notou como este banhava já «sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante de uma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos deles». Outro elemento reemerge agora para nos entregar a esse resíduo final dos tempos, e conseguimos ouvir-lhe o murmúrio sobre a terra, os picos desses fogos, o ar que de súbito nos enclausura. Se antes nos pensávamos pelo mar, hoje parece ser o fogo que pensa em nós, pensa por nós, nos força a imaginar um mundo em que já não controlamos nada, mas somos o alvo constante da predação de elementos sobre-excitados, que avançam sobre nós como titãs, arrasando tudo à sua passagem. O fogo deixa, assim, de ser uma arma, a nossa primeira técnica ou indústria, e liberta-se dessa chama que se deixava contemplar, tornando-se uma muralha móvel, inferno imediato, que atravessa aldeias e compromete tudo. Parece, assim, romper com esse delírio empobrecido, essa lúgubre fantasia do quotidiano, e instala um excesso de realidade que consome a própria imaginação. O fogo deixa de ser símbolo e torna-se destino.

O historiador do ambiente Stephen J. Pyne diz que, num clima que era já propício a incêndios, as alterações climáticas e as mudanças no uso da terra, nomeadamente através da agricultura intensiva e de outras formas de exploração que apenas acumulam combustível, entrámos na era do Piroceno. Pela leitura do livro com este mesmo título, publicado entre nós pela Livros Zigurate, com tradução de Sara I. Veiga, fica claro que não se trata de um termo ostentoso ou de uma metáfora escandalosa, mas serve antes como um diagnóstico civilizacional: a história humana pode ser lida como uma história do fogo, e o tempo presente como a sua culminação mais ambígua. Desde o início, o Homo sapiens é um animal pirotécnico, distinguindo-se de todas as outras espécies pela capacidade de dominar a combustão e de a usar como extensão do corpo e da comunidade. O fogo alimentou as cozinhas e os mitos, abriu clareiras nas florestas, forjou ferramentas e territórios, e, sobretudo, instaurou uma ecologia artificial, uma ecologia do fogo, onde natureza e cultura se confundem. Assim, ao invés de propor algum rótulo geológico, o que Pyne nos oferece é uma cronologia que nos permite actualizar algumas noções decisivas. Se o Holoceno foi a idade da estabilidade climática e o Antropoceno a era em que o humano se tornou força geológica, o Piroceno é a idade em que o fogo industrial, liberto dos limites ecológicos, passou a governar. Ao queimar os combustíveis fósseis para alimentar esse estado de crisálida constante das sociedades modernas, absorvidas na mitologia do progresso, e cada vez mais alheadas da ecologia planetária, é o fogo, esse elemento que parecia condenado a tornar-se apenas metáfora ou resíduo, que regressa para nos sacudir deste estupor. Como se Prometeu tivesse finalmente partido os grilhões e viesse cobrar a dívida acumulada de séculos.

Pyne propõe, assim, uma tripla articulação: primeiro, o fogo natural, produto da fulguração terrestre, dos raios, das erupções, do acaso atmosférico; depois, o fogo cultivado, domesticado pelos humanos, agente de agricultura, de expansão, de conquista de espaços; por fim, o fogo fóssil, aquele que, desde a Revolução Industrial, escava os subterrâneos do planeta e liberta, de modo concentrado e inédito, a energia acumulada em eras geológicas. Essa última combustão – carvão, petróleo, gás natural – é a que funda o Piroceno: um tempo em que a humanidade queimou o passado fossilizado para inflamar o presente, convertendo o planeta num imenso campo de cinzas.

Sacrifício total
Deste ponto de vista, o Piroceno é simultaneamente técnico, climático e político. Não se trata apenas de incêndios florestais devastadores, cada vez mais frequentes, mas de uma mudança estrutural na relação entre as sociedades e fogo. O regime energético fóssil multiplicou a potência do fogo para lá de qualquer contenção cultural ou ecológica: onde antes havia ciclos, práticas de manejo, rituais de controlo, agora há uma combustão que não pode ser detida senão pelo esgotamento da própria matéria-prima ou pelo colapso climático. As chamas que ardem na Califórnia, na Amazónia, no Mediterrâneo ou na Austrália, são apenas sintomas localizados de uma pirotecnia global que revela o parasitismo na atitude que temos para com o planeta.

Assim, aquele fogo vivo que os povos indígenas sabiam cultivar, de tal modo que mesmo os campos de cevada pareciam inspirados nele, aproveitando-lhe o eco, deu lugar a esta irrupção descontrolada e que denuncia a lógica de supressão, fazendo nascer esse fogo que parece tomado de um ânimo vingativo, vindo reclamar com juros tudo o que lhe é devido. Neste quadro, já sem colónias nem extensões além-mar, Portugal parece recair uma vez mais nos seus vícios seculares, na tendência para a ruína que sempre nos acompanhou, vendo-se comprometido face à intriga cobiçosa que Camões já denunciara através do Velho do Restelo, cultivando as espécies mais rendosas e que mais o fragilizam. Se antes tínhamos uma agricultura que criava mosaicos, hoje deixamos apenas combustível acumulado à espera de uma faísca. Assim, não há ano em que o verão não seja atravessado pela expectativa do desastre, pelas imagens das chamas colossais, das colunas de fumo, aldeias evacuadas, cinzas a cair como uma neve sinistra. Aos poucos, o mar já não é a imagem central, mas é o fogo que molda a percepção contemporânea de um país ciclicamente em chamas, laboratório de uma era em que a paisagem se torna pira.

Quando o fogo devorar a terra inteira, se algo lhe sobreviver, talvez se diga que começou por aqui. Mas, por agora, o colapso é também da narração, pois sempre que essa coreografia macabra dos nossos verões se instala, com ela surgem os chavões e o tom enfático daqueles que preenchem os directos televisivos e que simulam o escândalo, uma má-consciência em pó para misturar em qualquer beberagem, e, para além disso, também os relatórios ministeriais e as sucessivas promessas de maiores investimentos, da afectação de mais recursos para o combate aos fogos, a criminalização, a prevenção. Por detrás de toda esta coreografia lateja uma falha de imaginação, enquanto o mais fácil continua a ser figurar o fogo como inimigo absoluto, sonhando-se a utopia de uma paisagem sem combustão. Quer-se negar os ciclos, a transitoriedade, e esse elemento de alquimia natural que o fogo providencia. Ao expulsá-lo, apenas se consegue alimentá-lo. Ao querer extinguir inteiramente as chamas, prepara-se o sacrifício total. Eis-nos, assim, diante desse Adamastor de brasas, que faz de nós mirrados argonautas de um século que nos atemoriza, sem bússola nem um verdadeiro anseio de qualquer espécie. Vemos emergir esse colosso no modo como as chamas serram ao vento, as brasas empalidecem e logo se adensam ainda mais, uma e outra vez, como o pulsar do sangue de um ser vivo eviscerado, e que se reergue, vingativo. «Assim, contemplamos o fogo que contém em si algo dos próprios homens, que são menos sem ele, estão apartados das suas origens e são exilados. Porque cada fogo é todos os fogos, e é o primeiro fogo e o último» (Cormac McCarthy). São estas as representações que emergem a partir do momento em que se quer fazer do fogo esse inimigo terrível, não nos deixando senão a hipótese de encarar o próprio futuro como um fogo devorador, que nos deixará reduzidos ao próprio fóssil da civilização que erguemos. «A imagem mais viva do inferno./ Eis o fogo em todos seus vícios:/ eis a ópera, o ódio, o energúmeno,/ a voz rouca de fera em cio», escreve João Cabral de Melo Neto.

E poderíamos levar bem mais longe este vitral em combustão, esta catedral consumida pelas chamas, como um imaginário que subitamente se propagasse também ele, sujeito ao mesmo clarão, sentindo o impulso de um deus convocado a partir das entranhas da terra. Ver-nos-emos assim cercados por «monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões», para trazer aqui uns versos de Ernesto Sampaio. «Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável/ Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra/ Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá».

Íntimo e universal
De qualquer modo, o ponto central e a advertência que colhemos nas páginas do livro de Pyne é de que esta ideologia da supressão do fogo está fadada ao fracasso. Enquanto isso, e para não comprometer os lucros, continua a acumular-se combustível, e o interior do país vê-se transformado num barril de pólvora. Ao suprimir as queimadas, esses fogos quase rituais que controlam a dispersão do mato, incubámos o tal monstro que depois só é travado quando toda a matéria que tinha à sua disposição para se alimentar foi consumida. O resultado é o que vemos verão após verão: esses incêndios imensos, tragédias como as de Pedrógão Grande, um país incinerado e que se tornou uma espécie de entretenimento televisivo para os que, nas cidades, se sentem defendidos. E o país aceita esta condição de epicentro do Piroceno, um país-vitrine do que acontece quando uma cultura deixa de integrar o fogo no seu regime ecológico e o relega apenas para o desastre.

Há aqui uma lição mais profunda, e que nos puxa para essa relação tão próxima com o fogo, sendo este, segundo Gaston Bachelard o elemento ultra-vivo. «É íntimo e é universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Ergue-se das profundezas da substância e oferece-se com o calor do amor. Ou pode descer de novo à substância e ocultar-se aí, latente e represado, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é de facto o único a que se podem atribuir com tanta nitidez os valores opostos do bem e do mal. Brilha no Paraíso. Arde no Inferno. É brandura e é tormento. É cozinha e é apocalipse.» Mesmo essa imagem de um cigarro aceso junto ao rosto, iluminando-o, admite esse ígneo impulso, esse anseio contemplativo, tão bem cultivado por estes versos da poeta russa Marina Tsvetáieva: «O cigarro arde e apaga-se,/ na sua ponta treme,/ como um poste consumido – a cinza./ Dá-te preguiça sacudi-la –/ o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.»

Num tempo em que, diante dos avanços científicos, tudo, e até a religião, merece o seu sarcasmo, o fogo parece atravessar-se como um elemento ancestral, que vem escarnecer da prepotência que nos entregou a um estado de fragilidade absurda, colocando-nos à mercê dos elementos, e, desde logo, ao lado insano e impiedoso do fogo, que em mitologias antigas aparecia como dádiva divina, e agora surge como um Prometeu invertido. Atrás das noites, o incêndio corta pelo meio, como flor terrível que se abre no escuro. As ondas de calor mortíferas, os incêndios que acabarão por cercas as cidades, lembram teatros de guerra, e deixam claro como a criatura pirotécnica perdeu o seu pacto com a chama. Já não a domina. O Antropoceno, dito de outro modo, não é senão a face geológica do Piroceno: o homem imprime na Terra a assinatura do fogo que libertou.

Contudo, isto marca também uma cisão dentro da espécie, uma vez que, para boa parte dela, a humanidade se foi tornando em qualquer coisa de odioso. Podemos pressentir como já trazíamos o incêndio na cabeça, como um ensejo secreto de devastação de uma realidade absurdamente profana, e este já não seria justamente um país de marinheiros ou navegantes, mas de incendiários, uma vez que quem se sente queimado, devastado interiormente, toca tudo com essa ferida que anseia por degradar a envolvência, participando do horror que o consome. Nesta orla vã desfeita em que o país se transformou, condenando todos a sentirem-se estranhos à sua própria terra, é realmente de espantar que venha alguém lançar fogo à paisagem? Não é a absoluta impotência e o desvario dos sentidos que sopra intimamente uma fúria elementar, «como se um fogo celestial tornasse/ seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,/ assim consagrando um intervalo/ de outro modo inconsequente// por nos dar grandeza e glória,/ ou até amor.» (Sylvia Plath).

Entre nós, quem levou mais longe esta denúncia foi certamente Manuel Bivar, que este ano assinou, com Sofia da Pala Rodrigues, a reportagem ‘País de Incendiários’, um podcast de investigação da revista Divergente, e que, no país com mais área ardida da União Europeia, vem por fim preencher uma lacuna estarrecedora, esforçando-se por nos dar a conhecer o contexto e as motivações daqueles que fazem arder Portugal. Antes desta investigação, Bivar tinha já publicado, em 2021, A Charca, livro que, apesar das suas quatro edições, continua a não ter qualquer eco nos nossos órgãos de imprensa. Assim, talvez seja desculpável que seja o seu editor a fazer esta chamada de atenção, reproduzindo aqui um excerto: «Dizem os psicanalistas que os ascetas, os pastores, os puritanos, não eliminando o esperma, se tornam possessos e puxam fogo. Mas ele não concordava com estas teorias da psicanálise. Ele odiava psicanálise. Puxam fogo porque são desgraçados, porque se sentem revoltados e porque o incendiário é, nestes matos, o revolucionário possível. Também dizem que os incendiários são alcoólicos, mas isso não explica nada. O álcool apenas dá coragem à vontade de fazer. O alcoolismo é de certa forma o oposto do puxar fogo, é um puxar fogo ao interno para esquecer o externo, enquanto no foguear o mato tudo é externo, tudo é glória. A combustão final, a salga da terra, a morte nas chamas como a menos solitária das mortes, porque se morre em conjunto com o que está em volta. Quem vê um fogo não o esquece, como quem vê a revolução não a esquece. Mas o fogo está sempre ao alcance, em acto individual e grande, e a revolução não. O fogo é a arma dos solitários e, convenhamos, não tem nada que ver com ejaculação.

O fogo, a arma dos desvalidos, dos oprimidos, daqueles a quem querem controlar e a quem tudo é negado. Basta riscar o fósforo em Julho ou Agosto e tudo vai pelos ares. Nem ricos nem pobres, nem poderosos nem indigentes, o fogo está ao alcance de todos, torna a todos iguais, dá sentido à existência, e não nega o gesto a ninguém. De­sesperado, perseguido pela burocracia da natureza, num estado mental que não lhe permitia enfrentá-los, entendia pela primeira vez o porquê de metade dos que ali subsistiam serem incendiários em potência.»

Mais à frente, Bivar ainda ensaia uma réplica àqueles que, a cada ano, com uma espécie de fulgor patriótico, encenam o seu repúdio ou incompreensão diante desses pequenos monstros no íntimo dos quais eclode essa pulsão de largar um fósforo a tudo isto, estes seres que se passeiam por ali nessa deserção etílica, como espectros que atravessam o fumo, fantasmas de tudo o que ardeu e ainda vai arder, assombrados pelo tumulto dos lugares esquecidos. «Quando os via discutir o porquê de tanto fogo posto, de tantos incendiários, dava-lhe vontade de rir de tão óbvia que era a resposta numa terra onde todos tinham sido re­duzidos ao papel de passar os dias em frente da televisão a ver programas da manhã ou agarrados a telemóveis, e que simplesmente queriam voltar a fazer parte deste mundo. Como não respeitar o velho que fechado no lar a ver tele­visão de dia e de noite, que escuta os arrotos dos dez com quem partilha o quarto e que de vez em quando morrem ao fim da tarde e só são tirados de manhã porque há falta de pessoal de noite, e que sai discreto e puxa fogo à serra numa derradeira e última acção cujo resultado assiste ser transmitido em directo na televisão? Como não respeitar o rendeiro que, expulso do terreno de que sempre tratou porque vão plantar olival intensivo, corta os carvalhos centenários, faz explodir a mina de água com dinamite e por fim puxa fogo aos matos de giestas?»

Um novo pacto
Como resulta claro da leitura do livro de Pyne, nenhuma política de fogo é neutra. Toda a técnica carrega uma imaginação, e acaba por gerar as suas catástrofes e assombrações. O século XX cultivou a fantasia prometeica da supressão total do fogo, deixando para o século XXI a obrigação de ter de aprender, à força, que a supressão alimenta o monstro, enquanto acumula combustível, alonga épocas de risco, permitindo que o menor impulso sirva de ignição a esse efeito concatenado. Começa também a ficar claro como, do lado dos homens, o fogo responde a uma ânsia de intensidade pura, prometendo vir, com a sua força, lavrar um tempo que nos esgota na sua condição intervalar, indecisa, enquanto tudo já arde, mas sem se ver. Afinal, o próprio coração é tido como um fogo encoberto que se consome e canta… Ora, sendo o país já em si uma catástrofe para aqueles que se sentem entregues a essa periferia urbana, perante estes, o fogo, esse elemento incapaz da imobilidade, mostra-se um agente de revelação, um monstro propriamente dito, no sentido em que mostra aquilo que foi escondido. E se o fio da história humana pode ler-se como uma sucessão de fogos – o fogo que aquece a gruta, a chama que cozinha e purifica os alimentos, encurtando os intestinos, e que, assim, assume uma co-autoria biológica do humano, permitindo a expansão do cérebro… e o fogo que, mais tarde, arde sob caldeiras e asfaltos –, isto diz-nos que, qualquer que venha a ser o sobressalto do capítulo seguinte, o fogo desempenhará um outro papel, e é possível que esteja uma vez mais ao lado daqueles que se sentem impotentes.

De algum modo, desde cedo o fogo nos convoca, por meio daquela sua soberba ondulação nas formas… Como diz Herberto Helder, «o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma». Perante uma cultura ensurdecida, é a própria natureza que resgata a dimensão épica, e vem reelaborar os caracteres desastrosos que foram despertados por uma civilização que tende claramente para a mitificação do progresso, desertando o real, provocando a degradação dos ecossistemas e a extinção em massa da vida no planeta. O próprio fogo nuclear persiste e vê agravar-se a sua ameaça existencial a cada dia que passa. E, nisto, aqueles homens que ficaram para trás, podem não saber explicar-se melhor, e podem encontrar nessas grandes arcadas de fogo toda a eloquência que falta à sua expressão. Surge neles, assim, esse ânimo de passar fogo à criação inteira, iluminando por dentro as coisas até as carbonizar num espectáculo que sacia o lado demoníaco das naturezas inquietas que nos restam. E uma vez mais vemos como o fogo responde, nos pensa, elabora sobre o que somos. Entre os símbolos nocturnos, emerge essa escrita cheia de prenúncios quanto ao que nos espera. Por isso mesmo, Stephen J. Pyne recusa qualquer fatalismo, e vinca como esta análise da civilização humana na relação com o fogo permite entender como aquilo que se nos impõe é estabelecer uma nova política do fogo, um novo pacto, para que possamos reaprender a gerir combustões, reatar laços com práticas tradicionais de queimada controlada, reconhecer que o fogo não pode ser abolido, apenas administrado. Num planeta saturado de carbono, pensar o futuro é pensar regimes de chama. Assim, o Piroceno não é um conceito que deva apenas situar-nos numa cronologia geológica, mas aparece como uma alegoria do destino humano: o século XXI será julgado pelo modo como lidou com o fogo – se continua a queimar o passado fossilizado até ao último sopro, ou se inventa uma pirotecnia diferente, renovável, reconciliada com o ritmo da Terra.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Alterações climáticas podem estar a enfraquecer dentes de tubarões


Pesquisadores alemães da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf afirmam que a acidificação dos oceanos está enfraquecendo os dentes afiados dos tubarões, tornando-os quebradiços e frágeis. As descobertas, publicadas no dia 27 de agosto na revista Frontiers in Marine Science, levantam preocupações quanto à sobrevivência de um dos principais predadores do oceano, à medida que o dióxido de carbono continua a reduzir o pH da água do mar.

As more of the greenhouse gas carbon dioxide (CO2) is released into the atmosphere, more of this gas is also absorbed by the oceans. The consequence: The so-called pH-value of seawater decreases, making it more acidic. The acidity has a potentially corrosive effect on minerals – including those in the tooth material of marine organisms. 

Sharks are known for being able to replace their teeth, with new ones growing to replace older ones when they wear down. This is crucial for their survival as they rely on their teeth to catch their prey. 

A research team headed by Professor Dr Sebastian Fraune from the Institute of Zoology and Organismic Interactions at HHU has, in collaboration with biologists from the Sealife Oberhausen marine aquarium, examined the impact of ocean acidification on shark teeth. They placed shark teeth in containers of water at different levels of acidity: at the current pH of the oceans and at the expected pH in 2300. 

“Shark teeth comprise highly mineralised phosphates, but they are susceptible to corrosion. The more acidic water in the simulated 2300 scenario damaged the shark teeth, including roots and crowns, much more than the water at the current acidity level. Global changes are thus so far-reaching that they can impact the microstructure of shark teeth,” says Maximilian Baum, former HHU student and now a freelance diver, photographer and speaker. He is the lead author of the study. 

Corresponding author Professor Fraune: “The teeth are highly sophisticated weapons designed to cut flesh, but not to withstand the acidification of the oceans. Our results show how fragile even nature’s sharpest weapons can be. It is possible that the ability of sharks to replace their teeth on an ongoing basis will not be able to keep up with the changes in their environment.” 

Teeth shed naturally by blacktip reef sharks (Carcharhinus melanopterus) kept at Sealife Oberhausen were used for the study. These teeth were divided between separate containers – one holding seawater with a pH of 8.1 (the current level) and the other with a pH of 7.3 (what is expected in 2300) – and incubated for eight weeks. Baum: “This pH corresponds to an almost tenfold increase in acidity compared with today.”

The teeth were then examined under the microscope at the Center for Advanced Imaging at HHU. Fraune: “At a pH-value of 7.3, we observed surface damage such as cracks and holes, increased root corrosion and structural deterioration. In addition, the surface morphology was more irregular, which can weaken the structure of the teeth and make them more susceptible to breaking.”

Timo Haussecker, Aquarium Curator at Sealife Oberhausen and co-author of the study: “As we only examined naturally shed teeth, the study does not take account of any repair processes, which may occur in living organisms. The situation may therefore be more complex in living sharks as they may be able to remineralise damaged teeth, albeit with greater energy expenditure.” 

“Even moderate decreases in pH-values can impact more sensitive species with slow tooth replacement cycles or have a cumulative effect over the course of time,” adds Baum. “For sharks, it is certainly of great importance that the pH-value of the oceans remains near the current average of 8.1.”

Maximilian Baum and Professor Fraune conclude: “Our research reminds us that anthropogenic changes can impact entire food webs and ecosystems.”

Esta é uma notícia preocupante e um exemplo de como a química atmosférica impacta diretamente a biologia marinha. O estudo da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf toca em um ponto crítico: a integridade estrutural da fluorapatita, o mineral que compõe o esmalte dos dentes de tubarão.

Aqui está uma análise do que está acontecendo quimicamente e por que isso é tão vital para esses predadores:

O Processo de Acidificação
Normalmente, o oceano é levemente alcalino. No entanto, à medida que absorve o CO2 da atmosfera, ocorre uma reação química que forma o ácido carbônico (H2CO3), reduzindo o pH da água.
A Estrutura do Dente: Diferente dos humanos, cujos dentes são feitos de hidroxiapatita, os tubarões possuem dentes revestidos de fluorapatita. Isso os torna naturalmente mais resistentes e "pré-fluoretados".
A Corrosão: O estudo mostrou que a exposição prolongada (cerca de 9 semanas) a um pH mais baixo causa uma corrosão visível na superfície dos dentes.

O Impacto Mecânico: Com a superfície danificada, os dentes perdem sua "afiação" e tornam-se propensos a rachaduras e quebras durante a caça.

Por que isso é um problema sistémico?

Abaixo, veja como essa fragilidade afeta o ecossistema como um todo:
ImpactoConsequência para o TubarãoEfeito no Ecossistema
Eficiência de CaçaMenor capacidade de segurar e cortar presas.Desequilíbrio nas populações de peixes menores.
Gasto EnergéticoTubarões precisam trocar de dentes com mais frequência.O animal gasta mais energia metabólica para regeneração.
SobrevivênciaMaior risco de inanição ou infecções bucais.Perda de predadores de topo, essenciais para a saúde dos recifes.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Alteração Primata

Livro científico de Vybarr Cregan-Reid, incide primacialmente nos últimos 200 anos da nossa história, história recente que teve um enorme impacto para os seres humanos, que também protagonizaram grandes mudanças – em si mesmos e no mundo que os rodeia. A actual época geológica, designada por Antropoceno (ou a Era do Homem), revela assim um novo corpo adaptado a novos hábitos e a novas alimentações, que transformaram decisivamente o nosso próprio ADN. Esta alteração do corpo humano no tempo é o cerne deste livro.

Desde a Revolução Agrícola, em que o homem se sedentarizou e produziu alimentos (cereais) para conseguir armazenar, tudo mudou. Natureza e criação passaram a combinar-se com um resultado fascinante. A revolução Industrial – e agora a revolução digital – impôs uma mudança radical no mundo, que o ser humano protagonizou e, ao alterar o mundo, estruturou-se de uma outra forma, com novos hábitos de sedentarização e novos comportamentos, com importantes consequências no corpo, músculos e estrutura facial, sobretudo pela alteração dentária. Baseado em estudos científicos em várias áreas, “Alteração Primata” faz uma excelente abordagem a algumas das actuais fraquezas do corpo humano, apresentando uma análise profunda, rigorosa e abrangente sobre “como o mundo que criámos nos tem modificado“.

O livro propõe, igualmente, uma reflexão sobre as consequências da nossa transformação do mundo, a pensar em como o usamos e a reavaliar o que esperamos dele – e em como nos deveremos portar perante ele. Reflexão que se alarga, também, às transformações do corpo – a nossa aparência e a forma como nos movemos, descansamos, dormimos, pensamos, comemos e comunicamos mudaram drasticamente desde que o Homo sapiens iniciou a sua marcha plantar pelo Planeta, há mais de 300.000 anos.

Vybarr Cregan-Reid nasceu em 1969 e cresceu em Manchester. É um investigador académico, actualmente Leitor em Inglês e Humanidades Ambientais na Universidade de Kent. Ao longo da carreira tem escrito sobre temas nas áreas da literatura, saúde e ambiente

terça-feira, 1 de julho de 2025

Estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam

Com ferramentas modernas, cientistas teriam identificado no século XIX o impacto do CO₂ emitido pela queima de carvão e madeira na Revolução Industrial

Muito antes de a expressão “alteração climática” entrar no vocabulário da ciência, os primeiros sinais do impacto humano na atmosfera já estavam no ar. Um estudo publicado na revista PNAS indica que, se os cientistas da época tivessem acesso à tecnologia atual, teriam identificado indícios do aquecimento global já em 1885 - antes mesmo da invenção dos carros a gasolina.

A conclusão vem de uma simulação conduzida por investigadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, em parceria com instituições como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade de Washington. A equipa partiu de um cenário hipotético: e se, desde 1860, fosse possível monitorizar globalmente a atmosfera com a precisão de satélites e balões meteorológicos modernos?

Naquela época, a queima acelerada de carvão e madeira já lançava grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera - um subproduto da Revolução Industrial que iniciava os efeitos do aquecimento global.

A resposta veio por meio de um método de análise conhecido como fingerprint (impressão digital), que permite separar os efeitos naturais das alterações provocadas por humanos. Segundo os autores, esse padrão de interferência seria visível na forma de um arrefecimento na estratosfera - uma camada alta da atmosfera - causado pelo aumento do CO₂ e pela perda de ozono.

Por que razão a estratosfera arrefece e a Terra aquece?
Os gases do efeito de estufa atuam de maneira distinta nas camadas da atmosfera. Na parte mais baixa, a troposfera, eles retêm o calor irradiado pela superfície da Terra, provocando o aquecimento. Já na estratosfera, a camada seguinte, o acumulado desses mesmos gases intensifica a reflexão da radiação, fazendo com que parte do calor regresse ao planeta e que a própria estratosfera arrefeça.

Esse arrefecimento da estratosfera, segundo os autores, é um sinal inequívoco da ação humana e teria sido detetável com elevada confiança por volta de 1885. Mesmo com medições restritas ao hemisfério norte, os dados simulados indicam que o fenómeno seria percetível até 1894, apenas 34 anos após o início hipotético da monitorização climática global.

O que é que isto muda?
Na prática, o estudo reforça que a interferência humana no clima é mais antiga do que muitos imaginam. Embora a ciência só tenha começado a compreender o papel do CO₂ no aquecimento global a partir da década de 1970, os impactos da Revolução Industrial já estavam a ser registados na atmosfera um século antes.

Os investigadores alertam que os próximos 26 anos deverão trazer mudanças ainda mais intensas do que as observadas desde 1986, especialmente se não houver uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

The Shitthropocene: Welcome to the Age of Cheap Crap


O Antropoceno Merda é uma visão antropológica simulada dos hábitos de consumo da humanidade, lançando um olhar satírico (mas brutalmente honesto) sobre como tudo se está a tornar uma merda e porque é que o impulso por mais pode destruir-nos a todos.

Já deve ter notado que muitas coisas parecem uma droga agora. Este filme não é sobre todas as coisas más — isso seria um filme demasiado longo. Mas trata-se do consumo, que é tanto uma causa como um sintoma da chatice.

Por uma série de razões, praticamente toda a gente está a produzir e a comprar demasiadas coisas, algo que fomos evolutivamente programados para querer. O que antes era uma vantagem (mais! = melhor!) está agora a contribuir para a destruição do planeta.

O Antropoceno é uma viagem desde as origens celulares da nossa falta de controlo dos impulsos até às formas como os nossos sistemas nervosos centrais foram pirateados em nome do capital. É também sobre como podemos começar a salvar-nos de nós mesmos.

David Byars é um premiado documentarista cujo trabalho abrange desde a apátrida na República Dominicana até às Terras Públicas dos Estados Unidos.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Laurent Testot : Trump, Xi Jinping et l'Apocalypse Environnementale


Neste episódio, Arnaud recebe Laurent Testot, jornalista, historiador e escritor de divulgação científica de renome pelo seu trabalho sobre história global e grandes alterações ambientais. Autor de vários livros, entre os quais "Cataclismo" e "Omokanis", oferece-nos uma reflexão fascinante sobre o impacto humano na Terra.
Com Laurent, exploramos o impacto da humanidade na Terra, desde a domesticação dos cães até às mutações ecológicas do Saara, enquanto deciframos os principais desafios do Antropoceno: a aceleração da crise climática, a sexta extinção em massa e a influência das políticas globais. Esta é uma reflexão urgente para repensar a nossa relação com a natureza, a agricultura e os ecossistemas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Scientists just confirmed that Earth is slowly tilting toward its next ice age

A landmark study led by Cardiff University has finally confirmed the precise link between the Earth’s orbital geometry and its historical glaciation cycles.
By analyzing a million-year record of deep-sea fossils and Northern Hemisphere ice sheets, researchers discovered that while deglaciation (the ending of an ice age) is driven by a complex interaction between the planet’s axial tilt and its orbital wobble, the onset of a new ice age is triggered purely by the decline of Earth's axial tilt, known as obliquity.
This groundbreaking find explains why global ice ages have reliably recurred in 100,000-year intervals and indicates that under natural conditions, Earth's current orbit is positioning the planet for another major freeze within the next 11,000 years.
However, scientists emphasize that human activities are rapidly rewriting this cosmic timeline. The unprecedented volume of greenhouse gases emitted since the Industrial Revolution has pushed global temperatures and atmospheric composition far beyond their natural trajectories.
While understanding these orbital mechanics is crucial for modeling Earth's long-term climate behavior, researchers warn that today's anthropogenic emissions could completely override these millennial-scale cycles. The findings make it clear that the climate choices society makes today will play a primary role in deciding whether the planet continues on its ancient, orbitally-driven path or veers into a warmer, highly unstable future.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Hoje é o Dia Mundial do Ambiente - não há muito bons motivos para festejar


Há meio século que se assinala este dia que comemora a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, ocorrida em Estocolmo em junho de 1972.

Foram 51 dias, em 52 anos, a falar e apelar para a defesa do meio ambiente, a par de milhares e milhares de outras iniciativas de sensibilização e educação ambiental por todo o mundo, todos os dias deste meio século.

De pouco adiantou! Hoje a natureza e o ambiente estão piores que em 1972! 

A crise ambiental e, agora, a crise climática, alastrou a todo o mundo e se uns tem calor a mais, a outros falta a água e, outros ainda, têm excesso da mesma com perigosas inundações e derrocadas.

Quanto à natureza, nem se fala; a biodiversidade decaiu assustadoramente nestes 50 anos, e não é o facto de se terem registado resultados pontuais na conservação de algumas espécies-bandeira (lince-ibérico, cabra-brava, abutres, etc.) que nos alegram.

Segundo o relatório “Living Planet Report”, publicado em 2018, pela WWF, organização não-governamental ambientalista, e pela Sociedade Zoológica de Londres, entre 1974 e 2014 a biodiversidade caiu 60%, ou dito de outra maneira, desde 1970 até 2014, mais de metade das espécies desapareceram da Terra

Segundo o mesmo relatório, as taxas de extinção atuais são entre 100 e 1000 vezes superiores às taxas de extinção existentes anteriormente, antes do Homem se tornar um “fator extraordinário de pressão” (Fonte: Marta Gonçalves, Lusa, Jornal Expresso, 30/10 /2018).

Peter Raven, ex-professor da Universidade de Stanford e presidente emérito do Jardim Botânico do Missouri (EUA), escreveu no prefácio do Atlas of Population and Environment: " Impulsionamos a taxa de extinção biológica, a perda permanente de espécies, até centenas de vezes acima dos níveis históricos, e há a ameaça de perda da maioria de todas as espécies no fim do século XXI ”.

Passamos meio século a degradar, sem contar com o que já vinha de trás, de antes de, em 1972, se tomar “oficialmente” consciência da crise ambiental; agora, em 2024, o Dia Mundial do Ambiente tem como temas contrariar os efeitos da manipulação e, nomeadamente, “ acelerar o restauro da terra, a resiliência à seca e à desertificação ” e o rótulo “ Nós somos a geração do restauro ”; significativo! Já não é conservar, já é restaurar o que se degradou!

De resto, já está a decorrer, desde 2021 e até 2030, a Década das Nações Unidas para o Restauro dos Ecossistemas, uma iniciativa global para prevenir, dissuadir e reverter a manipulação dos ecossistemas em todo o mundo, uma década que deveria envergonhar a nossa espécie.

Portugal também não tem sido um exemplo nesta matéria a ponto de, em Maio, a Comissão Europeia ter iniciado um processo de infração a Portugal por falhas na proteção da biodiversidade, nomeadamente não respeitando a Diretiva Habitats (Diretiva 92/43/CEE) e a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia.

Mas se estes 52 anos de Dia Mundial do Ambiente não tiveram grandes resultados em termos de conservação da Terra, foram habilmente aproveitados pelas empresas para vender e produzir mais, e pelos governos para serem laxistas, exatamente o contrário do desejado. 

Desenvolveram com grande maestria e enormes investimentos o “greenwashing” (do inglês green, verde, e whitewash, branquear ou encobrir), que se define como “...a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações (empresas, governos, etc.) ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Tal prática tem como objetivo criar uma imagem positiva, diante a opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas (bem como de suas atividades e seus produtos), ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados.” 

É assim que uma empresa com grande impacto sobre a Terra escreve “Plenamente alinhado com esse objetivo [Década das Nações Unidas do Restauro dos Ecossistemas] o Grupo xxxx trabalha para ajudar a preservar ecossistemas saudáveis nas regiões onde desenvolve sua atividade. O compromisso da xxxx com a proteção e conservação das áreas naturais é desenvolvido de acordo com os princípios estabelecidos em sua primeira política de biodiversidade, criada em 2007 e renovada em 2024, e se baseia em anos de trabalho para integrar a consideração da biodiversidade na gestão e tomada de decisões do grupo.”

E uma papeleira escreve “A conservação da biodiversidade é encarada pela xxxx como a chave para uma produção ambientalmente responsável e uma gestão florestal sustentável.” e “Os objetivos de produção e a conservação da biodiversidade não são valores antagónicos. Pelo contrário, as florestas plantadas podem promover a diversidade biológica, desde que seja seguida uma gestão responsável.”

São afirmações claramente empoladas e sem base. 

É evidente que a indústria papeleira não faz falta pois, o papel, é um artigo insubstituível e de uso quotidiano por todos. Também é verdade que o seu processo industrial, quer antes, quer depois da introdução da celulose (meados do séc. XIX), é altamente poluente.

E desde que se recorreu ao eucalipto como matéria prima para a produção de celulose, e se apostou em grandes plantações monoespecíficas desta árvore, que o território (e referimo-nos especialmente a Portugal) foi profundamente alterado, com prejuízo para a paisagem, a biodiversidade e o bem-estar das situações.

Portanto, seria preferível que a indústria papeleira, em vez de cultivar o “ greenwashing ” e suposta investigação em áreas como a biodiversidade e outras (que pode deixar para a Academia) apostasse na investigação dos processos industriais e florestais, de modo a torná-los menos prejudiciais para o ambiente.

Seria melhor que as celuloses registassem o impacto negativo no ambiente de sua atividade, da mesma forma que os ambientalistas sensatos registam o trabalho positivo na produção e melhoria do papel, cujo uso, mesmo com o desenvolvimento da informática, não parou de crescer nos últimos anos.

Não vale a pena mistificar as coisas com “lavagens verdes”; o correto é encarar as realidades de frente e, quando são geradores de problemas ambientais ou sociais, procurar diminuir o seu impacto não privando, no entanto, a população do seu usufruto.

Mas que essas alternativas não sejam como os painéis solares e as eólicas, para a energia que, se bem que emitam menos CO2, dão cabo dos solos e da paisagem!

5 de junho de 2024

Nuno Gomes Oliveira

Presidente da Direção da FAPAS

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Mais de 2.600 cães de gado apoiados no Norte para repelir ataques de lobo ibérico


Um programa comunitário apoiou no Norte 2.662 cães de gado, com um montante de mais de 860 mil euros, para reduzir o conflito entre o pastoreio e o lobo ibérico, ontem revelado à Lusa.

De acordo com dados solicitados pela agência Lusa ao Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP), na região Norte (NUTS II) foram apoiados 1.805 produtores pecuários com o corresponde a 2.662 cães de gado, num montante global de 867.017 mil euros. Estes números dizem respeito à campanha de 2023, cujo período de candidaturas decorreu ente 01 de março e 01 de agosto de 2023.

Segundo o IFAP, o respetivo pagamento deste apoio, integrado no Plano Estratégico da Política Agrícola Comum – PEPAC 2023-2027, que inclui uma intervenção agroambiental com vista à proteção e recuperação de espécies da fauna com estatuto de ameaça associadas a sistemas agrícolas, foi feita em abril de 2024.

Esta medida tem o objetivo de reduzir a conflitualidade entre a atividade de pastoreio extensivo e a necessidade de conservação do lobo ibérico.

Para beneficiar dos apoios, é necessário candidatar um mínimo de três cabeças de ovinos ou caprinos ou 10 cabeças de bovinos e deter cão de proteção de gado, atestado por declaração emitida pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

Segundo o IFAP, os montantes e os limites do apoio a conceder, por beneficiário, são determinados de acordo com o número de cães detidos.

O distrito de Bragança foi, dos oito distritos da região Norte, o território que obteve mais apoios com 747 beneficiários, o que corresponde a 1.198 cães de gado, num total de 385.376 euros. Segue-se o distrito de Vila Real, com 670 beneficiários correspondeste a 935 cães de gado e um montante de 307.298 euros.

Já Viana do Castelo é o terceiro distrito desta lista de apoios com 171 beneficiários, 216 cães de gado e apoio de 72.144 euros. Ainda no Minho, Braga contou com apoios de 47.917 euros, para 111 beneficiários e que corresponde a 144 cães.

Já no distrito de Viseu foram apoiados 120 cães de gado (38.844 euros), na Guarda 22 (6.862 euros), no Porto 17 (5.286 euros) e em Aveiro 10 (3.290).

A Lusa questionou o IFAP após os pastores do Planalto Mirandês, no distrito de Bragança, se terem mostrado apreensivos devido ao número crescente de ataques de lobos nas imediações das localidades, tendo desde janeiro sido registadas seis ocorrências tratadas pelas equipas de vigilantes da natureza do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), quatro das quais no concelho de Mogadouro.

A diretora regional do Norte do ICNF, Sandra Sarmento, revelou em 11 abril que, segundo os últimos censos, existem 300 lobos ibéricos na região Norte, predadores “de topo” cujos ataques podem ser repelidos com o apoio de cães de gado.

Sandra Sarmento acrescentou ainda que o ICNF tem que garantir um conjunto de cuidados, para evitar que os lobos se aproximem dos rebanhos e das aldeias onde estes são pastoreados, com recurso a cães de gado ou cerca elétricas.

A responsável garantiu ainda que, com o apoio de cães de gado, os ataques de lobos são repelidos, em grande parte.

Um cão de proteção de gado é um cão do tipo mastim de montanha, em adulto com o peso mínimo de 35 quilos para machos ou 30 quilos para as fêmeas e altura mínima ao garrote de 60 centímetros (machos) ou 55 centímetros (fêmeas), com características físicas e comportamentais adequadas à função de proteção de gado contra ataques de lobo e em exercício da mesma.

As raças portuguesas adequadas à função de proteção de gado contra ataques de lobo são: Cão de Castro Laboreiro, Cão de Gado Transmontano, Cão da Serra da Estrela e Rafeiro do Alentejo.

Os cães são utilizados, há centenas de anos, na proteção de gado, pertencem a raças do tipo mastim de montanha e apresentam características que foram sendo selecionadas de modo a assegurar a missão de proteção contra ataques de predadores como o lobo.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Rinoceronte branco do Quénia extinto


Imagine viver 55 milhões de anos, passando por várias eras glaciais, terramotos, eventos de extinção, impactos de meteoritos e asteroides. Então o homem se torna uma forma de vida bípede, aqui sozinho por cerca de 220.000 anos como humanos, e é cúmplice da extinção deste magnífico e longevo rinoceronte branco. O rinoceronte branco do norte está oficialmente extinto do planeta Terra.