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terça-feira, 3 de março de 2026

Dia Mundial da Vida Selvagem


Hoje, 3 de março celebra-se, anualmente, o Dia Mundial da Vida Selvagem. 

Este ano com o tema Plantas aromáticas e medicinais - preservar a saúde, o património e os meios de subsistência.
A 3 de março de 2026, das 12:30 h às 14:30 (hora de Lisboa) assista aqui à celebração oficial da ONU, que contará com histórias e apresentações sobre o uso sustentável e a conservação de plantas aromáticas e medicinais, por especialistas dos Estados-Membros, representantes de alto nível de organizações internacionais, partes interessadas da indústria, líderes comunitários locais e membros de redes juvenis.

Vídeo oficial (em inglês)
Sítio oficial da comemoração (versão espanhola - permite tradução para português).

Utilize ainda os materiais informativos e educativos no sítio do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P.

Como pode ajudar?
- Descubra mais acerca das plantas nativas da sua região.
- Ajude a conhecer onde elas existem inserindo as suas observações em plataformas de ciência-cidadã como a Biodiversity4all.
- Evite a colheita de plantas selvagens, a menos que tenha formação e autorização para tal.
- Se usar produtos à base de plantas, escolha os de origem sustentável.
- Se é pai/mãe ou professor(a) ensine os seus filhos(as) e alunos(as) a conhecer e proteger as plantas nativas.
- Maximize o seu impacto contribuindo para iniciativas de conservação.
- Tenha plantas aromáticas ou medicinais nativas em casa ou no seu jardim ou quintal.

Sabia que?
- Cerca de 25% dos medicamentos modernos são derivados de plantas.
- Estima-se que entre 50.000 a 70.000 espécies de plantas são usadas medicinalmente e cerca de 1.500 delas estão listadas nos Anexos da CITES - Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção - e mais de 800 no seu Anexo II.
- Algumas farmacopeias indígenas documentam milhares de remédios à base de plantas.
- No mundo, as plantas selvagens sustentam milhões de família rurais, através do comércio, da medicina e do artesanato.
- As práticas de cultivo e colheita de plantas aromáticas e medicinais garantem recursos vitais para muitas famílias, sendo que, no mundo, uma em cada cinco pessoas depende de plantas silvestres, algas e fungos para a sua alimentação e rendimento.
- A identidade cultural, as práticas espirituais e as tradições curativas são, frequentemente, indissociáveis da biodiversidade vegetal.
O objetivo deste dia é consciencializar os cidadãos para a proteção da fauna e flora, especialmente as espécies ameaçadas. Pretende-se, também, demonstrar os benefícios que a conservação das espécies tem para a vida no planeta e para a sobrevivência do ser humano.

Sobre o Dia Mundial da Vida Selvagem
Este dia foi criado na 16.ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, em Março de 2013, por iniciativa da Tailândia. Mais tarde, a 20 de dezembro de 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou este dia, através da Resolução 68/205

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Ucrânia: 13.500 km² de vias navegáveis ​​​​contaminadas por minas e explosivos


Aproximadamente 13.500 km² de vias navegáveis ​​na Ucrânia, incluindo o rio Dnieper, lagos e a costa do Mar Negro, estão potencialmente contaminadas por minas e restos explosivos de guerra, estimou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) a 12 de novembro. Esta área é comparável em tamanho ao Montenegro, observou a agência da ONU.

Até à data, os mergulhadores do Serviço Estatal de Emergência da Ucrânia conseguiram limpar apenas 190 km², ou 1,4% da área contaminada, e removeram mais de 2.800 engenhos explosivos, segundo o PNUD. Para acelerar os esforços de desminagem, a Ucrânia está a utilizar robôs subaquáticos capazes de localizar munições a profundidades até 300 metros, mesmo em condições de baixa visibilidade e fortes correntes.

Desde 2014, enfrentando um conflito no leste do país e a anexação da Crimeia, e desde 2022 uma invasão em grande escala, a Ucrânia é agora o país mais contaminado por explosivos do mundo. Segundo o governo ucraniano, 136.952 km², ou 23% do território, continuam afetados por minas terrestres e munições não detonadas.

Já em 2024, Natalia Gozak, diretora da Greenpeace Ucrânia, alertou à Reporterre que a guerra era “um fardo tóxico para gerações”. Em três anos de guerra, a invasão russa da Ucrânia gerou o equivalente a 230 milhões de toneladas de CO₂, de acordo com um estudo da Initiative on Greenhouse Gas Accounting of War, publicado em fevereiro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O que é o patriarcado? O que significa e porque é que toda a gente fala dele?

Amazona - Afro-Brasileira

O que é o patriarcado?
Derivado da palavra grega patriarkhēs, patriarcado significa literalmente “a regra do pai” e é usado para se referir a um sistema social em que os homens controlam uma parte desproporcionalmente grande do poder social, económico, político e religioso, com a herança geralmente a passar pela linha masculina.

Definindo o patriarcado, o famoso sociólogo americano Allan Johnson escreveu: “O patriarcado não se refere a qualquer homem ou conjunto de homens, mas a um tipo de sociedade em que participam homens e mulheres... Uma sociedade é patriarcal na medida em que promove o privilégio masculino ao ser dominada por homens, identificada por homens e centrada em homens. Está também organizada em torno de uma obsessão pelo controlo e envolve como um dos seus aspetos-chave a opressão das mulheres.”

Quais são as características de uma sociedade patriarcal?
Não existem duas sociedades patriarcais exatamente iguais, uma vez que as culturas e as normas são moldadas por diferentes fatores, tais como a geografia, a língua e a religião - e também porque as exigências e os avanços dos movimentos feministas em todo o mundo não são idênticos. No entanto, a principal caraterística de uma sociedade patriarcal é o facto de os homens deterem mais poder e autoridade, o que conduz subsequentemente ao privilégio masculino.

Os preconceitos profundamente enraizados fazem com que os homens ocupem a maioria das posições de liderança e controlem os recursos, tanto na esfera pública como na privada, enquanto as mulheres desempenham um papel secundário e são vistas como mais fracas e mais adequadas ao trabalho doméstico. Como tal, o lugar da mulher numa sociedade patriarcal é principalmente o de dona de casa, procriadora ou cuidadora.

Esta dominação masculina perpetua crenças e práticas (normas culturais) que - consciente ou inconscientemente - favorecem os homens em detrimento das mulheres, e estas crenças não são apenas defendidas pelos homens, mas pela maioria das pessoas nessa sociedade, independentemente do seu género.

Dados recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelaram, em junho, que os preconceitos de género contra as mulheres “permanecem enraizados”, concluindo que “quase 9 em cada 10 homens e mulheres em todo o mundo continuam atualmente a ter esses preconceitos”. O relatório do Índice de Normas Sociais de Género da organização concluiu que “metade das pessoas em todo o mundo ainda acredita que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres e mais de 40% acredita que os homens são melhores gestores de negócios do que as mulheres”.

Em muitas partes do mundo, as normas patriarcais significam que as raparigas recebem pouca ou nenhuma educação, podem casar-se jovens, têm pouco ou nenhum controlo sobre o seu corpo (através do acesso a contracetivos ou abortos) ou sobre o rendimento familiar, e têm menos acesso digital do que os rapazes.

Mesmo quando os resultados escolares são comparáveis ou as raparigas têm melhores resultados escolares, as expectativas patriarcais moldam as trajetórias profissionais, estando as mulheres sub-representadas nas áreas STEM [acrónimo inglês para Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas] e sobre-representadas por exemplo na enfermagem. Os patriarcados também se caracterizam por salários desiguais para o mesmo trabalho; menos investigação sobre doenças que afetam desproporcionadamente alguns géneros mais do que outros (por exemplo endometriose ou enxaquecas); um sentimento de direito ao sexo e ao prazer por parte daqueles que encarnam géneros mais masculinos; a existência de pobreza menstrual, que pode afetar todas as pessoas que menstruam, e o imposto cor-de-rosa - em que os bens de consumo destinados às mulheres são mais caros; encargos desiguais com os cuidados; invisibilidade das mulheres na velhice e estereótipos sobre a menopausa; e a prevalência e aceitação da violência cometida por homens: abuso doméstico, assédio sexual e feminicídio.

O patriarcado é outro termo para designar a desigualdade de género?
A desigualdade de género - o tratamento desigual de alguém com base apenas no seu género - é um resultado das sociedades patriarcais, mas os termos não significam a mesma coisa. A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Os Estados Unidos são um patriarcado?
Apesar dos avanços no sentido da igualdade de género que têm vindo a ganhar força há mais de um século, os EUA continuam a ser uma sociedade patriarcal.

Até à data, por exemplo, nunca nenhuma mulher foi Presidente dos EUA, pelo que o poder supremo como comandante-chefe sempre coube a um homem.

Os dados mostram que os EUA ficam atrás de muitos dos seus aliados em todo o mundo no que diz respeito à licença parental remunerada, aos cuidados de saúde maternos, às taxas de fertilidade na adolescência e, cada vez mais, aos direitos reprodutivos. Também existe uma disparidade salarial persistente entre os géneros, com as mulheres a ganharem, em média, 82 cêntimos por cada dólar ganho por um homem em 2022, de acordo com uma análise do Pew Research Center. Os dados sublinham que esta diferença quase não se alterou em 20 anos e é pior para as mulheres indígenas, asiáticas, latinas e negras.

O progresso no sentido da igualdade de género não é linear nem garantido. Os ganhos no acesso ao aborto perderam-se no ano passado (com a revogação do acórdão Roe vs. Wade) e outros ganhos podem também perder-se, uma vez que a Constituição dos EUA não contém qualquer disposição que proteja explicitamente contra a discriminação com base no sexo. A Emenda dos Direitos Iguais, introduzida no Congresso em 1923, nunca foi ratificada por um número suficiente de estados, embora tenha havido esforços recentes para a reativar.

Todas as sociedades são patriarcais e sempre o foram?
Não. Nem sempre o foram.

Escrevendo para a BBC, a jornalista científica britânica Angela Saini explica que “quanto mais mergulhamos na pré-história, mais variadas são as formas de organização social que encontramos”. Referindo-se a dados arqueológicos de Çatalhöyük, na atual Turquia, descrita como uma das cidades mais antigas do mundo, Saini escreve que esta era “uma povoação em que o género fazia pouca diferença na forma como as pessoas viviam”.

Mas também existem sociedades deste género no mundo contemporâneo. Investigações anteriores identificaram pelo menos 160 populações matrilineares que existem atualmente. Trata-se de sociedades em que a linhagem é transmitida pela mãe. Isto não significa, porém, que os homens sejam discriminados nas matriarquias. Saini escreve: “Muitas vezes, nas comunidades matrilineares, o poder e a influência são partilhados entre mulheres e homens. Nas comunidades matrilineares Asante, no Gana, a liderança é dividida entre a rainha-mãe e um chefe masculino, que ela ajuda a selecionar.”

Que outras sociedades são matriarcais?
Eis apenas algumas das sociedades matriarcais que se sabe existirem em todo o mundo:

Os Minangkabau são a maior sociedade matriarcal conhecida do mundo, compreendendo milhões de pessoas que vivem na ilha de Sumatra, na Indonésia. São matrilineares, traçando a descendência e a herança através da linha feminina.

Os Bribri são uma das mais antigas comunidades matrilineares sobreviventes do mundo. Este grupo indígena vive principalmente na região montanhosa de Talamanca, na Costa Rica e, em 2015, estimava-se que existiam 11 500 pessoas nesta área, com uma população mais pequena no Panamá, mas diz-se que a sua cultura está ameaçada.

Há também os Mosuo na China, os Khasi na Índia, os Himba em Angola e na Namíbia e muitos outros. Mas mesmo as ordens sociais não existem numa escolha binária entre patriarcados e matriarcados. Das 1291 populações definidas no estudo de 2019, 590 eram patrilineares. Para além das matriarquias, tal como referido acima, o estudo também identificou cinco outras formas de as sociedades decidirem a linhagem.

O patriarcado é bom para os homens?
Sim e não. Embora tal não seja concedido de forma uniforme a todos os homens, ser designado à nascença como homem numa sociedade patriarcal traz privilégios. Mas também traz expectativas, e são essas expectativas - de que um “homem viril” é heterossexual, sempre forte, mostra pouca emoção, é o provedor e não o cuidador, domina sobre os outros, deve estar sempre no controlo - que levaram ao que é popularmente referido como masculinidade tóxica.

Estes ideais não são isentos de consequências, certamente para as mulheres (o facto de a violação conjugal não ser crime em muitos países e só ter passado a sê-lo em todos os estados dos EUA em 1993 é apenas um exemplo), mas também para os homens: estudos exploraram - e demonstraram - uma ligação entre o patriarcado e taxas de mortalidade mais elevadas nos homens.

No seu livro de 2004, “The Will to Change: Men, Masculinity and Love” [tradução à letra, “A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor”], a autora feminista negra Bell Hooks escreveu: “O primeiro ato de violência que o patriarcado exige aos homens não é a violência contra as mulheres. Em vez disso, o patriarcado exige de todos os homens que se envolvam em atos de automutilação psíquica, que matem as partes emocionais de si próprios."

O patriarcado pode ser desmantelado?
Qualquer sistema criado por pessoas pode ser alterado por pessoas.

O patriarcado é um sistema social que foi concebido por homens para favorecer os homens. Foi adotado ao longo dos tempos através de comportamentos aprendidos e normas culturais que colocam os homens no topo. Para desmantelar este ideal, temos de desafiar os preconceitos enraizados contra as mulheres.

Parece simples, mas há muito trabalho a fazer. Face ao “retrocesso dos direitos sexuais e reprodutivos” e aos “direitos das mulheres (...) a serem abusados, ameaçados e violados em todo o mundo”, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em março que a igualdade de género parecia estar “a 300 anos de distância”.

Enumerando várias áreas de desigualdade, Guterres foi explícito quanto às suas causas: “Séculos de patriarcado, discriminação e estereótipos prejudiciais criaram uma enorme lacuna de género na ciência e na tecnologia”, antes de acrescentar: “Sejamos claros: as estruturas globais não estão a funcionar para as mulheres e raparigas do mundo. Têm de mudar”.

São muitas as estratégias que podem conduzir à mudança que Guterres exige, desde os esforços para alterar as normas culturais, ao acesso das raparigas à educação, à capacitação económica das mulheres e à reforma institucional. Mas a principal delas é também o financiamento e o apoio às organizações de defesa dos direitos das mulheres.

Numa coluna para a CNN, a presidente da Democracy Alliance, Pamela Shifman, escreveu: “Para inverter os danos crescentes que estão a ser causados todos os dias aos direitos das mulheres e dos LGBTQ+, os movimentos feministas precisam de mais recursos. Precisam também de liberdade para responder a novas ameaças e oportunidades e para inovar com coragem. As ameaças, na sua origem e natureza, estão sempre a mudar e precisamos de organizações feministas que sejam resilientes e capazes de mudar também. Chegou o momento de financiar a criação dessas organizações”.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

What are climate misinformation and disinformation and how can we tackle them?


What is the difference between climate misinformation and climate disinformation?

Climate misinformation refers to false or inaccurate information about climate change and climate action that is generally spread without malicious intent. It usually arises from misunderstandings, misinterpretations of data or simply outdated knowledge. For example, some people might misinterpret short-term weather patterns, like an extended winter season, as evidence against global warming. Despite the absence of intent to deceive, misinformation still contributes to confusion and scepticism about climate science, making it harder for people to access accurate information.

Climate disinformation, on the other hand, is deliberately false and fabricated to deceive people about climate change and climate action for political, financial or ideological reasons. It is spread by individuals or organizations with vested interests in denying or downplaying the reality of climate change and its impacts. For instance, fossil fuel companies have been known to fund campaigns that cast doubt on climate science to protect their profits.

Disinformation tactics can include cherry-picking data, promoting pseudoscience, or amplifying conspiracy theories. Unlike misinformation, which can often be corrected through education and better communication, disinformation is more difficult to address and requires targeted efforts to expose and counter the deliberate falsehoods being spread.

Both climate misinformation and disinformation undermine public trust in climate science, delay policy responses and polarize public discourse. According to the Global Risk Report 2024, misinformation and disinformation, together with the impacts of the climate and nature crises, are the biggest short-term and long-term risks to human society.
Climate misinformation is generally spread without malicious intent. Climate disinformation, on the other hand, is deliberately false and purposefully harmful for political, financial or ideological reasons.

What are the different types of climate misinformation and disinformation?
Climate misinformation and disinformation come in various forms, each serving different purposes but ultimately hindering climate action. While some outright deny climate change, others seek to delay solutions, mislead the public or promote conspiracy theories that undermine trust in science and institutions.Climate denial: Despite the overwhelming scientific consensus that human activities like burning fossil fuels are the primary driver of climate change, some people deny that climate change is real, downplay the severity of its impacts or promote the idea that it is solely a natural phenomenon. Although outright climate denial has lost credibility in mainstream discourse, it still thrives in certain political and online spaces, often resurfacing in the form of misleading arguments that exaggerate natural climate variability or misrepresent climate data. A subtler form, known as soft climate denial, is becoming increasingly prevalent in recent years. Here, individuals or groups acknowledge the impacts of climate change but tend to highlight other urgent issues as a justification for delaying or opposing responses. This approach, often framed as pragmatic, effectively serves as a guise for undermining climate action.
  • Climate delay: Climate delay strategies acknowledge the existence of climate change but aim to obstruct or hinder action. They dispute the feasibility, necessity or fairness of climate policies by claiming measures are too costly or emphasizing uncertainties and unintended consequences. For example, messaging from the fossil fuel industry aims to create panic about potential job losses and economic harm from transitioning to renewable energy sources. Because climate delay messages often seem more reasonable than outright denial, they are particularly effective at shaping public opinion.
  • Greenwashing: Greenwashing is a form of climate misinformation in which companies or institutions exaggerate or falsely claim environmental benefits to maintain their market position without making real changes. This is usually done by using imagery and language associated with sustainability such as lush forests, wind turbines or eco-friendly branding. Such tactics delay stronger policies and regulations by creating an illusion of progress.
  • Climate conspiracy narratives: Conspiracy theories about climate change attempt to delegitimize climate science, policies and activists by suggesting they are part of a hidden agenda. These narratives try to advance false claims such as climate change being a hoax designed to increase government control or renewable energy policies being part of a larger effort to manipulate economies or suppress individual freedoms.
Who spreads climate disinformation?
Considering the scale and urgency of the climate crisis, it may seem counterintuitive that individuals or organizations would deliberately create and share false or misleading information about it. However, research points to two primary motivations behind the spread of climate disinformation:
  1. Protecting fossil fuel interests and maintaining a business-as-usual scenario: Many actors, particularly within the fossil fuel industry and related sectors, have a vested interest in delaying climate action. By spreading doubt about climate science or the effectiveness of renewable energy solutions, they seek to extend the viability of fossil fuels and maintain economic gains.
  2. Gaining revenue, influence or support by exploiting the attention economy: The digital landscape rewards content that sparks strong emotional reactions like outrage or controversy. Questioning mainstream science or promoting conspiracy theories can generate more engagement on social media, translating into ad revenue, online influence or political support.
Moreover, in regions already stressed by environmental pressures such as resource scarcity and extreme weather events, climate misinformation and disinformation can exacerbate existing tensions. False information and narratives, for example around climate-induced migration and displacement, are often exploited by political actors or extremist groups to blame specific communities for climate-related hardships, creating an environment of fear and mistrust which can lead to violence and conflicts. This not only undermines local peacebuilding efforts but also links climate challenges with broader issues of security, destabilizing communities and economies while hindering integrated responses to both environmental and security threats.
Individuals can learn how to verify the accuracy of a piece of information through a series of steps including verifying the source, verifying the data and consulting with experts.

How do climate misinformation and disinformation spread?
The spread of climate misinformation and disinformation, both online and offline, is linked to social processes that shape how people interact and consume information. These dynamics contribute to the reinforcement of false narratives, making it harder to correct misinformation and disinformation once it takes hold.

As social beings, humans have the tendency to form social connections with others who share similar beliefs, interests or backgrounds. Social media platforms reinforce this behaviour by recommending new connections based on existing networks and interests. Combined with the natural inclination to trust information from familiar sources, this leads to the formation of echo chambers – closed communities where the same ideas, whether true or false, are continuously reinforced without being questioned. Over time, these echo chambers can deepen divisions on topics such as climate change.

Furthermore, many social media algorithms are designed to maximize engagement. As such, they often promote content based on a user’s past interactions, rather than its credibility or accuracy. This creates algorithmic bias, where users are more likely to see content that aligns with their existing beliefs, rather than diverse or fact-based perspectives. The effect is then amplified by confirmation bias – the psychological tendency for people to seek out and accept information that supports their pre-existing views while ignoring or dismissing contradictory evidence. As a result, misleading or sensationalized climate content can spread rapidly, especially if it resonates with a particular audience’s worldview.

Beyond organic social behaviours, false information is also actively spread by malicious actors, including bots, trolls and coordinated disinformation campaigns. These actors deliberately create and amplify misleading narratives to shape public perception, undermine trust in scientific institutions or serve certain political and economic interests.

A recent example is a rise in online abuse against climate scientists, where coordinated campaigns on social media platforms target researchers with harassment and false accusations to discredit their work. These attacks often exploit existing echo chambers, amplifying divisive narratives that portray climate science as a hoax or conspiracy. By leveraging algorithmic biases and the viral nature of sensational content, these campaigns sow doubt and erode public trust in evidence-based solutions. This not only undermines efforts to address climate change but also discourages scientists from engaging with the public, further polarizing the discourse and hindering collective action.

How can we tackle climate misinformation and disinformation?
The fight against climate misinformation and disinformation is a global effort, involving a diverse range of actors including governments, academic organizations, think tanks, media organizations, civil society and collaborative partnerships between these entities. Given the high complexity of the issue, it requires multifaceted responses, and these actors play key roles in research, policy advocacy, education and public outreach. Through specialized initiatives and campaigns, they work to address the challenges posed by misinformation, which often undermines public understanding of climate science, fuels scepticism about climate change and hinders policy action.

Recognizing that misinformation, disinformation and hate speech are fuelling conflict, threatening democracy and human rights, the United Nations launched the United Nations Global Principles for Information Integrity, a set of recommendations designed to foster healthier and safer information spaces that champion human rights, peaceful societies and a sustainable future. Moreover, in November 2024, the Brazilian government, the United Nations and the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) launched the Global Initiative for Information Integrity on Climate Change, joining forces to strengthen research and measures to address disinformation campaigns that are delaying and derailing climate action.

However, a large majority of efforts to combat climate misinformation and disinformation are still primarily based in the Global North, which often leads to a skewed focus on issues, narratives and perspectives that are more relevant to them. In this context, it is essential to build the capacities of stakeholders and institutions in the Global South to tackle climate misinformation and disinformation. By empowering local organizations, media and communities with the necessary skills, knowledge and resources, we can ensure that climate communication and responses to disinformation are more culturally appropriate and contextually relevant.

At the individual level, anyone can learn how to prevent climate misinformation and disinformation through a series of steps:
  1. Verify the source: Evaluate the credibility of the source. Is the claim from a peer-reviewed study, a reputable news outlet or a blog with no scientific backing? For scientific data, academic databases and peer-reviewed sources can be used to verify its authenticity.
  2. Verify the information: Check if the information is available from multiple sources and use fact-checkers to verify claims.
  3. Consult experts: Try to connect with scientists and subject matter experts that can corroborate the information. The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) is widely recognized as the most credible source of information related to the science of climate change.
  4. Communicate the truth: To counter climate misinformation and disinformation, evidence-based messages using simple language and relatable examples work best. Engage trusted voices and support claims with credible sources, encouraging respectful dialogue. Repetition of accurate information helps build long-term public understanding and resilience.
How does UNDP support efforts to address climate misinformation and climate disinformation?
UNDP works to address climate misinformation and disinformation through a multi‐pronged approach that combines digital innovation, capacity building and partnerships. This includes developing programmes and platforms that leverage collective intelligence, combining automated tools and crowdsourcing to identify and counter false narratives.

Digital tools such as iVerify and eMonitor+ combine AI with human fact-checking to identify, flag and counter false and misleading narratives including those for climate-related issues. Such platforms, developed as part of UNDP’s broader digital strategy to leverage Digital Public Infrastructure, harness interoperable systems for data exchange and digital identity, supporting transparency and accountability in climate action by helping to counter information that undermines scientific consensus on climate change.

UNDP also supports initiatives aimed at developing media literacy and factchecking skills among journalists, media students and young civic actors. In Somalia, UNDP trains journalists to enhance their understanding of climate change issues, their interlinkages and nuances. In Lebanon, UNDP helps equip young people with the tools to identify and debunk fake news and hate speech, including false narratives on climate change. Such efforts help reduce the polarization and confusion often fuelled by false information, particularly in regions vulnerable to climate misinformation and disinformation campaigns.

Furthermore, through initiatives like Information Integrity, UNDP is working with development organizations, governments, the private sector and civil society on campaigns to ensure information integrity on issues directly and indirectly affecting climate action.

domingo, 9 de março de 2025

O Humanismo Económico: Uma Exploração do Pensamento de Amartya Sen


O pensamento de Amartya Sen representa uma rutura com o utilitarismo clássico. Enquanto a economia tradicional muitas vezes se foca na acumulação de bens, Sen argumenta que o desenvolvimento deve ser medido pela expansão das liberdades substantivas dos indivíduos.
1. O Conceito de Capability (Abordagem das Capacidades)
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação da liberdade de viver uma vida que se tem razões para valorizar. Ele distingue entre:
  1. Meios: bens primários, rendimento e recursos (o que a economia tradicional foca).
  2. Capacidades (Capabilities): o conjunto de alternativas que uma pessoa tem à sua disposição (o que a pessoa pode realmente ser ou fazer).
  3. Funcionamentos (Functionings): a concretização dessas capacidades (ser saudável, estar educado, participar na vida política).
2. A Crítica ao Utilitarismo e ao PIB
Sen defende que o PIB é um indicador insuficiente porque não capta a desigualdade na distribuição de oportunidades. Se uma sociedade é rica, mas apenas uma pequena elite tem acesso a educação e saúde de qualidade, o desenvolvimento é falho. Ele argumenta que o desenvolvimento é um processo de alargamento das liberdades humanas, e não apenas um crescimento económico quantitativo.

3. A Liberdade como Agência
O conceito de "agência" é central. Sen vê o ser humano como um agente ativo, capaz de transformar a sua realidade, e não apenas um recetor passivo de políticas públicas. A liberdade, aqui, não é apenas a "liberdade negativa" (ausência de coerção), mas a "liberdade positiva" (a capacidade real de agir).
Links Recomendados para Aprofundamento

Para explorar estas ideias de forma mais detalhada, recomendo as seguintes fontes:
The Amartya Sen Lectures (Harvard University): O portal oficial onde poderá encontrar artigos, discursos e uma vasta base de dados sobre o pensamento do autor.
Human Development Reports (UNDP): O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento utiliza o Capability Approach de Sen como base para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Stanford Encyclopedia of Philosophy: Capabilities Approach: Uma análise técnica e filosófica rigorosa sobre como as ideias de Sen se inserem na ética contemporânea.

Referência Bibliográfica Principal
Para uma leitura fundamental que consolida estes conceitos, esta obra é incontornável:

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Lisboa: Gradiva, 2010. (Título original: Development as Freedom, 1999).

Neste livro, Sen demonstra como a liberdade política, as instalações económicas, as oportunidades sociais, as garantias de transparência e a segurança protetora trabalham em conjunto para permitir o desenvolvimento humano.

sábado, 9 de março de 2024

Ensaio: A Economia como Expansão de Liberdades



A obra de Amartya Sen representa uma rutura com a economia ortodoxa, que durante décadas mediu o bem-estar social apenas através de métricas monetárias. Para Sen, o desenvolvimento não é um fim em si mesmo, mas sim um meio para a expansão das liberdades reais de que os indivíduos desfrutam.

1. O Capability Approach (Abordagem das Capacidades)
O conceito central de Sen é a distinção entre meios e fins. Enquanto a economia clássica foca-se nos bens (rendimento), Sen foca-se no que as pessoas conseguem fazer com esses bens. Ele introduz dois termos técnicos essenciais:
  1. Funcionamentos (Functionings): são os estados e ações que uma pessoa consegue realizar (ex: estar nutrido, ter boa saúde, participar na vida da comunidade).
  2. Capacidades (Capabilities): representam a liberdade substantiva de alcançar esses funcionamentos. É o "conjunto de vetores" de opções que uma pessoa tem à sua disposição.
2. Pobreza como Privação de Capacidades
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação de capacidades básicas. Um exemplo clássico que ele utiliza é o de uma pessoa com uma deficiência motora. Mesmo que ela tenha o mesmo rendimento que uma pessoa sem deficiência, a sua "capacidade" de se deslocar ou de participar no mercado de trabalho é menor, a menos que o Estado ou a sociedade compensem essa limitação com infraestruturas adequadas. Portanto, a igualdade de rendimentos não garante a igualdade de oportunidades.

3. Liberdades Instrumentais
Sen identifica cinco tipos de liberdades que se reforçam mutuamente para promover a capacidade individual:
Liberdades políticas: direitos civis e democracia.
Facilidades económicas: oportunidades de utilizar recursos para consumo ou produção.
Oportunidades sociais: acesso a educação e saúde.
Garantias de transparência: o direito à informação e ao combate à corrupção.
Segurança protetora: redes de segurança social para os mais vulneráveis.

Referências e Ligações Úteis
Para aprofundar o estudo sobre Amartya Sen, recomendo os seguintes recursos oficiais:
Página Oficial do Prémio Nobel - Amartya Sen: Inclui a biografia e a palestra de aceitação do prémio em 1998.

Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD): O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado por Mahbub ul Haq com a colaboração direta de Sen, aplicando as suas teorias na prática.

Harvard University - Amartya Sen: Perfil académico com acesso a publicações recentes.

Referência Bibliográfica Principal
SEN, Amartya (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press. (Edição em Portugal: O Desenvolvimento como Liberdade, Gradiva, 2003).

sábado, 22 de julho de 2023

Decrescimento: uma resposta a Branko Milanovic


No final de 2017, Branko Milanovic escreveu uma postagem no blog intitulada “A ilusão do decrescimento num mundo pobre e desigual ”. Ele o escreveu, diz ele, após uma conversa que teve com um defensor do decrescimento, que era eu. Escrevi uma resposta, que atualizei aqui para maior clareza e para dar conta de novos dados.

Para recapitular o argumento de Milanovic: ele imagina um cenário em que limitamos o PIB global aos níveis atuais. Os países pobres então aumentam seu PIB per capita para a média global, enquanto os países ricos diminuem seu PIB per capita de acordo. Ele diz que isso implicaria uma redução da produção e do consumo no Ocidente, com a atividade econômica reduzida a um terço de seu tamanho atual.

Para Milanovic, isso é distópico: “Fábricas, comboios, aeroportos, escolas funcionariam um terço do horário normal; eletricidade, aquecimento e água quente estariam disponíveis 8 horas por dia; os carros podem ser conduzidos um dia em cada três; trabalharíamos apenas 13 horas por semana, etc. - tudo para produzir apenas um terço dos bens e serviços que o Ocidente está produzindo agora. Milanovic chama isso de “o empobrecimento do Ocidente” e o descarta como “nem mesmo vagamente provável de encontrar qualquer apoio político em qualquer lugar”. Esqueça isso, ele diz; precisamos de crescimento. Em vez disso, vamos nos concentrar em reduzir nosso consumo de bens e serviços intensivos em emissões, tributando-os, e “pensar em como as novas tecnologias podem ser aproveitadas para tornar o mundo mais ecológico”.

A visão de Milanovic aqui sofre de uma série de falhas empíricas e analíticas. Deixe-me tentar explicar alguns deles:

1. O PIB médio mundial não é distópico; é mal distribuído e mal utilizado
Primeiro, um pequeno ponto para corrigir o registro. O PIB médio mundial per capita é de US$ 17.600 (PPC). Isso não é distópico. Pelo contrário, é mais ou menos consistente com o limite do Banco Mundial para “alto rendimento”.

Isso é bem superior ao que está associado a níveis muito elevados de desenvolvimento humano. De acordo com o PNUD, algumas nações pontuam “muito alto” (0,8 ou mais) no índice de expectativa de vida com apenas US$ 3.300 per capita (e acima de 0,9 com apenas US$ 8.000) e “muito alto” no índice de educação com apenas US$ 8.700 per capita. Na verdade, as nações podem ter sucesso em todos os principais indicadores sociais representados pelos ODS – não apenas saúde e educação, mas também emprego, nutrição, apoio social, satisfação com a vida etc. – com apenas US$ 10.000 per capita.

Noutras palavras, em teoria poderíamos alcançar todos os nossos objetivos sociais, para cada pessoa no mundo, com muito menos PIB do que temos atualmente, simplesmente investindo em bens públicos e distribuindo renda e oportunidade de forma mais justa (agora os 5% mais ricos capturam quase metade do PIB global), mesmo dentro da lógica dos quadros económicos realmente existentes.

Mas tudo isso é irrelevante para a questão em questão, porque:

2. Decrescimento não é redução do PIB; é sobre recursos e energia
Este é o primeiro erro de Milanovic. Decrescimento não é redução do PIB. Em vez disso, trata-se de reduzir o excesso de recursos e produção de energia, ao mesmo tempo em que melhora o bem-estar humano e os resultados sociais; a literatura é bastante clara sobre isso. Do ponto de vista da ecologia, isso é o que importa.

Neste momento, o uso global de recursos é de cerca de 100 biliões de toneladas por ano; aproximadamente o dobro do que os cientistas consideram ser um nível sustentável. Este é um dos principais impulsionadores da degradação ecológica e da perda de biodiversidade. O uso global de energia também é muito alto. O IPCC deixa claro que precisamos reduzir significativamente o uso global de energia (de 400 EJ hoje para cerca de 240 EJ até 2050) para permitir a transição para energias renováveis ​​com rapidez suficiente para ficar abaixo de 1,5°C ou 2°C (Grubler et al 2018; IPCC 2018).

Crucialmente, o uso excessivo de recursos e energia está sendo conduzido por nações ricas, não por nações pobres. Assim, as nações ricas precisam reduzir o seu uso de recursos e energia. Aceitamos que a redução do rendimento agregado de recursos e energia provavelmente levará a uma taxa mais lenta de crescimento do PIB, ou talvez até mesmo a uma redução do PIB; tudo depende da taxa de eficiência. Mas mesmo que o PIB acabe caindo, tudo bem, como veremos. E isso me leva ao próximo ponto:

3. Quando se trata de bem-estar humano, contar o PIB é irrelevante
O segundo erro de Milanovic é que ele assume uma relação de um para um entre o PIB e o bem-estar humano. Quando você parte dessa suposição, é provável que conclua (como faz Milanovic) que estamos numa situação de escassez: claramente não há o suficiente para que todos vivam bem e precisamos de mais (apesar do ponto 1). Mas esse raciocínio é problemático porque o PIB não é, e nunca teve a intenção de ser, uma medida substituta do bem-estar humano. Em vez disso, é uma medida do valor monetário das mercadorias que produzimos e trocamos por dinheiro. Sem surpresa, não há relação causal entre o PIB e os resultados sociais. Usá-lo para esse fim não é científico.

O que realmente importa para o bem-estar humano é o abastecimento – em outras palavras, o acesso das pessoas aos recursos de que precisam para viver vidas longas, saudáveis ​​e prósperas. A razão pela qual o PIB é uma métrica inadequada aqui é porque ele contabiliza apenas uma fatia muito estreita da atividade econômica; especificamente, o que tem a ver com o valor de troca da mercadoria. Não contabiliza todas as formas de aprovisionamento; na verdade, muito do provisionamento do qual dependemos é totalmente ignorado e irrelevante para o PIB. Milanovic sabe disso .

Portanto, é bem possível que o PIB suba enquanto o provisionamento diminui; por exemplo, se o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido fosse privatizado, o PIB aumentaria, mas o acesso das pessoas aos serviços de saúde seria reduzido (o mesmo vale para praticamente todas as formas de privatização ou confinamento). Da mesma forma, o PIB pode cair enquanto o provisionamento melhora; por exemplo, se o governo do Reino Unido impusesse controles de aluguel ou restaurasse a habitação pública, o PIB poderia sofrer um impacto, mas as pessoas teriam acesso mais fácil à habitação. Essa troca é conhecida como Paradoxo de Lauderdale.

Agora, quando pensamos na questão de provisionamento de recursos, o quadro muda um pouco. Fica claro que não há escassez alguma. Pesquisas recentes descobriram que poderíamos acabar com a pobreza global e garantir uma vida próspera para todos no planeta (para 10 bilhões de pessoas em meados do século), incluindo saúde e educação universais, com 60% menos energia do que usamos atualmente (150 EJ, ​​bem dentro do que é considerado compatível com 1,5ºC ) . Quanto ao uso de recursos, sabemos que nações de alto rendimento poderiam atender às necessidades materiais de seus cidadãos em alto padrão, com até 80% menos uso de recursos , trazendo-os de volta ao limiar sustentável.

Deste ângulo, fica claro que o capitalismo é altamente ineficiente quando se trata de atender às necessidades humanas; produz tanto e ainda deixa 60% da população humana sem acesso até mesmo os bens mais básicos. Por quê? Porque uma grande parte da produção de commodities (e toda a energia e materiais necessários) é irrelevante para o bem-estar humano. Considere esta experiência mental: Portugal tem resultados sociais significativamente melhores do que os Estados Unidos, com 65% menos PIB per capita. Isso significa que US$ 38.000 do rendimento per capita dos Estados Unidos são efetivamente "desperdiçados". Isso soma US$ 13 triliões por ano para a economia americana como um todo; US$ 13 triliões em extração, produção e consumo a cada ano, e US$ 13 triliões em pressão ecológica, que nada acrescentam, por si só, ao bem-estar humano. É dano sem ganho.

Isso não deveria ser uma surpresa, porque o objetivo do capitalismo é a extração de excedentes, a acumulação da elite e o reinvestimento para expansão – não atender às necessidades humanas. Na medida em que o sistema atende às necessidades humanas, isso geralmente é resultado de intervenções políticas (ou seja, sindicatos, direitos dos trabalhadores, sector público, etc.).

É irracional esperar que um sistema organizado em torno do aumento da extração e acumulação irá, de alguma forma, melhorar automaticamente os resultados sociais. Se melhorar os resultados sociais é o nosso objetivo, faz muito mais sentido atingi-lo diretamente, organizando a economia primeiro em torno do que sabemos ser necessário para o florescimento humano, em vez de apenas aumentar o PIB indiscriminadamente e esperar que ele satisfaça magicamente as necessidades das pessoas. E quando se trata de bem-estar humano (ou seja, saúde, educação, longevidade, felicidade, satisfação com a vida), os dados são claros: o que importa são os serviços públicos universais, empregos significativos, democracia e uma distribuição justa de renda.

4. Não é o salário em si que conta; é o poder de compra do bem-estar do salário
Os serviços públicos universais são importantes para esta visão por uma série de razões. Primeiro, eles são mais económicos e menos ecologicamente intensivos do que seus equivalentes privados (noutras palavras, você obtém mais provisionamento com menos impacto). Por exemplo, o sistema público de saúde da Espanha gera resultados significativamente melhores do que o sistema dos EUA (a expectativa de vida da Espanha é cinco anos a mais) com menos de um quarto do custo e uma fração das emissões. O transporte público é menos intensivo do que os carros particulares. A água pública é menos intensiva do que a água engarrafada. etc.

Em segundo lugar, os serviços públicos melhoram o "poder de compra do bem-estar" das rendas. Por exemplo: se as pessoas nos Estados Unidos não tivessem que pagar preços exorbitantes por saúde e educação superior, precisariam de muito menos renda para viver bem. Em resumo, a contabilidade de renda de Milanovic não tem sentido porque não é a renda em si que importa; é o que as pessoas podem comprar com essa renda, em termos de bens de que precisam para viver bem. É o poder de compra da renda que conta.

E o poder de compra da renda do bem-estar não é estático; pode ser significativamente melhorado. Na verdade, esse é o objetivo do decrescimento. Pesquisas em economia ecológica deixam claro que desmercantilizar os bens públicos e fechar os bens comuns é uma boa maneira de aliviar a pressão do planeta, porque permite que as pessoas acessem os bens de que precisam para viver bem sem precisar de altas rendas para fazê-lo (o que também significa menos pressão para trabalhar e produzir coisas desnecessárias, o que, por sua vez, significa menos pressão para o consumo em outras partes do sistema). Em outras palavras, inverte o paradoxo de Lauderdale.

5. O decrescimento não busca reduzir todos os setores; apenas desnecessários e destrutivos
Milanovic imagina um cenário em que todos os setores da economia são reduzidos a um terço da sua capacidade atual: fábricas, aeroportos e escolas, em igual medida. Se isso acontecesse, seria realmente desastroso. Mas não é isso que o decrescimento exige; e, novamente, isso é algo que Milanovic saberia se lesse a literatura.

Na economia existente, operamos com base no pressuposto de que todos os setores devem crescer, todos os anos, para sempre, independentemente de realmente precisarmos ou não. Em outras palavras, há uma espécie de lógica totalitária no growthismo. Não é preciso muito para perceber que isto é um absurdo, tanto em termos de necessidades humanas quanto de ecologia. O decrescimento exige uma abordagem mais razoável: vamos conversar sobre quais setores ainda precisam crescer (como energia renovável, serviços públicos, trens, etc.), quais setores já são grandes o suficiente e quais setores são muito grandes e precisam decrescer significativamente (ou seja, combustíveis fósseis, SUVs, publicidade, obsolescência planejada, McMansões, armas, carne bovina industrial, jatos particulares etc. ) .

Num cenário real de decrescimento, o objetivo seria reduzir a produção ecologicamente destrutiva e socialmente menos necessária (o que alguns podem chamar de parte do valor de troca da economia), ao mesmo tempo em que protege e até melhora partes da economia organizadas em torno do bem-estar humano e da regeneração ecológica (a parte do valor de uso da economia). Por outras palavras, é o oposto do cenário de miserabilidade de Milanovic.

6. O crescimento verde não é uma coisa
Milanovic acredita que a tecnologia virá em nosso socorro e tornará o crescimento “verde”. Infelizmente, há um forte consenso contra essa suposição. Revimos as evidências empíricas relevantes aqui (“ É possível o crescimento verde? ”), examinando as emissões de CO2 e o uso de recursos.

Resumidamente, sobre o CO2, a questão não é se o PIB pode ser dissociado das emissões (sabemos que pode ser), a questão é se isso pode ser feito com rapidez suficiente para permanecer dentro de orçamentos de carbono seguros e, ao mesmo tempo, aumentar o PIB. E a resposta para isso é não. Mais crescimento implica em mais uso de energia, e mais uso de energia torna ainda mais difícil atender a essa demanda com energias renováveis. Os únicos cenários que conseguem reduzir as emissões com rapidez suficiente para nos manter abaixo de 1,5 ou 2°C envolvem uma redução no uso de recursos e energia (em outras palavras, decrescimento). Eu discuto isso com mais profundidade aqui . Esta revisão de 2020 examina 835 estudos empíricos e conclui que a dissociação por si só não é adequada para atingir as metas climáticas; requer o que os próprios autores chamam de cenários de “decrescimento”.Este artigo na Nature Sustainability chega a conclusões semelhantes.

Quanto aos recursos: o uso de recursos continua a aumentar junto com o PIB (apesar de melhorias significativas de eficiência e uma mudança significativa para serviços e conhecimento como parcela do PIB) e, de fato, todos os modelos existentes indicam que é improvável que ocorra dissociação absoluta, mesmo sob fortes condições políticas. Veja aqui e aqui para mais.

Ward et al (2016) descobrem que mesmo as projeções mais otimistas de melhorias de eficiência não produzem dissociação absoluta no médio e longo prazo. Os autores afirmam: “este resultado é uma refutação robusta à alegação de dissociação absoluta”; “a dissociação do crescimento do PIB do uso de recursos, seja relativo ou absoluto, é, na melhor das hipóteses, apenas temporária. O desacoplamento permanente (absoluto ou relativo) é impossível… porque os ganhos de eficiência são, em última instância, regidos por limites físicos.” Schandl et al (2016) encontram a mesma coisa. Mesmo em sua projeção de melhor cenário, o consumo global de materiais ainda cresce de forma constante. Os autores concluem: “Nossa pesquisa mostra que, embora algum desacoplamento relativo possa ser alcançado em alguns cenários, nenhum levaria a uma redução absoluta na pegada de energia ou materiais”.

Nossa revisão foi publicada em 2019 e a literatura sobre isso cresceu desde então: ou seja, aqui e aqui o último artigo revê 179 estudos sobre dissociação publicados desde 1990 e não encontra “nenhuma evidência de dissociação absoluta de recursos em toda a economia, nacional ou internacional, e nenhuma evidência do tipo de dissociação necessária para a sustentabilidade ecológica”. Aqui está uma meta-análise de 2020 de todos os dados disponíveis sobre PIB e uso de recursos, que chega à mesma conclusão.

Em suma, é irracional esperar, contra as evidências, que o nosso sistema económico atual proporcione os resultados de desenvolvimento que desejamos e, ao mesmo tempo, reverta o colapso ecológico. Precisamos ser mais espertos do que isso. O decrescimento fornece uma alternativa empiricamente informada: um caminho para reduzir o excesso de recursos e uso de energia e, ao mesmo tempo, garantir uma vida próspera para todos. Dados os riscos da crise que enfrentamos, devemos estar abertos a novos pensamentos.

quinta-feira, 9 de março de 2023

A Justiça entre Bens e Capacidades: O Diálogo entre Sen e Rawls



A filosofia política e a economia do desenvolvimento do século XX foram profundamente moldadas pelo diálogo — e pela divergência — entre dois gigantes do pensamento: John Rawls e Amartya Sen. Enquanto Rawls lançou as bases para uma teoria da justiça social moderna, Sen expandiu esses horizontes ao questionar se os "meios" propostos por Rawls seriam suficientes para garantir a liberdade real num mundo de profunda diversidade humana.

1. O Ponto de Partida: O Institucionalismo de Rawls
Para compreender a crítica de Sen, é necessário olhar para a estrutura de Rawls. Em Uma Teoria da Justiça (1971), Rawls propõe que uma sociedade justa é aquela cujas instituições são desenhadas sob um "véu de ignorância". O resultado seria a escolha de dois princípios, onde o segundo (o Princípio da Diferença) dita que as desigualdades só são aceitáveis se beneficiarem os mais desfavorecidos através da distribuição de Bens Primários.
Estes bens incluem:
  1. Direitos e liberdades fundamentais;
  2. Rendimento e riqueza;
  3. As bases sociais da autoestima.
2. A Crítica de Sen: A Diversidade Humana
A divergência fundamental de Amartya Sen reside naquilo que ele chama de "fetichismo dos bens". Sen argumenta que Rawls foca-se excessivamente nos instrumentos da liberdade (os bens) e ignora a capacidade real das pessoas de converterem esses bens em vidas valiosas.

Sen introduz a Abordagem das Capacidades (Capability Approach) como uma alternativa. Para ele, a justiça não deve ser medida pelo que as pessoas têm, mas pelo que elas são capazes de ser e fazer.

"A conversão de bens primários em capacidades de funcionamento pode variar de pessoa para pessoa, e a igualdade nos bens primários pode coexistir com desigualdades sérias nas liberdades reais de que desfrutam diferentes pessoas." (Sen, 1999).

O exemplo da conversão
  1. Imaginemos duas pessoas com o mesmo rendimento (o mesmo bem primário):
  2. Um adulto saudável em ambiente urbano.
  3. Uma pessoa com uma doença crónica que exige medicação cara ou com uma deficiência que limita a sua mobilidade.
Embora a métrica de Rawls as considere "iguais" em termos de meios, Sen demonstra que a segunda pessoa tem uma liberdade substantiva muito menor. A justiça, portanto, exige que olhemos para a capacidade de locomoção ou de saúde, e não apenas para o saldo bancário.

3. Justiça Transcendente vs. Justiça Comparativa
Outra rutura importante, detalhada em A Ideia de Justiça (2009), é metodológica. Rawls procura uma "Justiça Transcendente": a definição de instituições perfeitas. Sen, por outro lado, propõe uma Justiça Comparativa.

Para Sen, não precisamos de um modelo de sociedade perfeitamente justa para saber que a escravatura, a fome ou a falta de cuidados de saúde básicos são injustiças que devem ser corrigidas. Ele utiliza a analogia de comparar quadros: não precisamos de saber qual é o quadro perfeito do mundo para decidir que um Picasso é melhor que um rabisco aleatório. O foco de Sen é a remoção de injustiças patentes através do debate público.

Referências Bibliográficas
RAWLS, John (1971). A Theory of Justice. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Edição PT: Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença).
SEN, Amartya (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press. (Edição PT: O Desenvolvimento como Liberdade, Gradiva).
SEN, Amartya (2009). The Idea of Justice. London: Allen Lane. (Edição PT: A Ideia de Justiça, Almedina).
NUSSBAUM, Martha (2011). Creating Capabilities. Harvard University Press. (Para uma expansão da lista de capacidades básicas).

Ligações Úteis
The Human Development Report (PNUD): A aplicação prática das ideias de Sen no IDH.

sábado, 4 de março de 2023

Who made you king of everything? Angela Saini on the origins of patriarchy


On the day Angela Saini talks to me from her book-lined study in New York, the patriarchy is hard at work all over the world. Anti-abortion protestors are getting ready to march on the Supreme Court in Washington, the Metropolitan police force is caught up in yet more accusations of rape, Jacinda Ardern has resigned as prime minister of New Zealand after years of misogynist abuse, and Iran is executing protestors after the death in custody of Mahsa Amini. In this context, it’s easy to see how patriarchy operates but harder to explain exactly what it is.

“Patriarchy is one of these words that has lost some of its meaning through overuse,” Saini says. “We rarely interrogate what we really think it means, and that’s part of what I was trying to do with The Patriarchs.” The subtitle of her new book, “How Men Came to Rule”, is a simple question with a fascinating and complicated answer, which boils down to: “In various ways, in different places, but not everywhere, not always and not necessarily.” Just as her 2017 book, Inferior, challenged the idea that gendered inequality is rooted in our biology, and Superior in 2019 exposed the lie of “race science” as it began to creep chillingly back into the mainstream, this book shows that the dominant system we have come to accept is neither natural nor inevitable.

This refusal to accept injustice has characterised Saini’s career. Her first book, Geek Nation: How Indian Science Is Taking Over the World, was published in 2011. She had recently left a reporting job at the BBC to go freelance shortly after her six-month investigation into bogus universities won a Prix Circom European television award. According to Saini, while she was working on that documentary, there were several attempts to give her story to other reporters in the newsroom. “Maybe it was because of my age, I really have no idea why … but those reporters were always white men.” She managed to keep the story by threatening to leave, she says, and then she did. “It’s one of my faults, maybe, that I have too much pride, and I make my career decisions based on things like that. I just couldn’t stay.”

Since then, Saini has made a name for herself with her series of books with short titles and massive subjects. These have tended to meet first with resistance among scientific communities, then with approbation and set-text status, and finally with attacks from the far right and white supremacists that have largely forced her off social media. Now The Patriarchs is calling into question the basic idea that men are in charge because they are stronger, smarter or better suited for it. Matrilineal, matrilocal societies, as the book shows, are “very much part of the fabric of human history and society … not these super rare, unusual worlds in which somehow the laws of nature have been overturned,” Saini says. “What is odder for me is that male-dominated societies are so common. When you think of all the different ways in which we could live, why is it that this one system has … spread so widely?”

In the course of writing, Saini looked at new genetic research and archaeological scholarship; visited Neolithic ruins in Çatalhöyük, Turkey; talked to Onondaga Nation people in Seneca Falls, New York state, and the Khasi community in Meghalaya, northeast India; and met women in Germany, Hungary and the Czech Republic. She found ancient societies that contradicted modern, binary ideas of gender; matrilineal systems that had been subverted by colonialism; and patriarchal rules that were ended at a stroke on the whim of governments.

When you think of all the ways in which we could live, why is it the patriarchal system that has spread so widely?
“For me, it seemed less obvious that there was this one monolithic, conspiratorial, overarching plan of male domination that somehow just swept the world in a very homogeneous way,” Saini says, “and it became clearer that there were different patriarchies that took different forms in different times and places around the world.”

Patriarchy is not something that men did to women at some point in history, but a fragile system whose perpetuation we all participate in every day. “I’m not saying that it’s patriarchal to take your husband’s name,” she offers as an example. “But that is one of the mundane ways in which these systems stay alive. And there are thousands, if not millions, of them in cultures all over the world.”

Saini grew up in southeast London, with parents who encouraged her and her two sisters to think about big ideas, and to ask: “Why is the world the way it is?” Her dad had been an engineer, and her parents “split everything down the middle. They still do. There was no sense for me and my sisters that there was men’s work and women’s work.” The area was not, she says, “the greatest place to be an ethnic minority in the 1990s.” (She remembers one day calling a friend, who was from a Chinese family, to ask if she fancied going to the shops. Her friend’s mum wouldn’t let her because fascists were marching through the town centre.) “I was made to be acutely aware of these things from a young age, and I think that is why, when I got to university, I became very involved in anti-racism activism.” She became a co-chair of the student union’s anti-racism committee, which led to writing for the student newspaper, and that sparked an interest in journalism and a traineeship at ITN. She also has a master’s in engineering from Oxford University, and another in science and security from King’s College London (which she took in her “spare time” while working at the BBC).

It seemed inevitable to Saini that she would return to the subject of race in her work, but at the time Superior was commissioned – before George Floyd’s murder and only just after the election of Donald Trump – the persistence of racist, eugenicist ideas was not a big part of public conversation. “There was this feeling that we were getting past this,” she recalls. “But for many of us, it’s obvious that these things are always lying under the surface. When politics shifts, these ideas come back into the mainstream – and that’s exactly what has happened.”

Saini brings her own background and experiences to her work, and that’s something she acknowledges repeatedly in The Patriarchs. Given how successfully she has exposed scientific bias, it is interesting to see her acknowledge her own. “Well, I think we can only see anything through our own cultural lens,” she laughs. “So either we can ignore it and pretend that we’re like gods, seeing it from a distance from some privileged point of view … Or we can acknowledge it, incorporate that into the way we look at our work, and have the humility to try and see it from other people’s point of view as well.”

Seeing things from other cultural perspectives is one of the best things about moving to live in the US, she says. British people tend to think that we know the country, but you don’t have to travel very far from her home in New York to find very different stories from the ones we see in the movies. At Seneca Falls, for example, she learned about indigenous American cultures, their approaches to gender and how those were changed as a result of colonialism. She has also found a different mode of discussion there. “I feel that the tone of the public, mainstream debate and what plays out in the newspapers around race and gender [in the UK] is sometimes so reactionary, so dehumanising ... I was finding it very difficult by the end.”

Though Saini, her husband and her nine-year-old son do plan to return to the UK eventually, it felt like a relief when her husband was offered a job in New York. In 2020, she had applied to be a commissioner for the UK’s Equality and Human Rights Commission and was disappointed not to make it to the first round. The subsequent appointment of the journalist David Goodhart, who had defended “hostile environment” immigration policies and “white self-interest”, came as a shock. Soon afterwards, the Sewell report was published “and I quickly realised that this government was doing things that were … running counter to what the equalities agenda had been for a very long time.” Then the culture secretary Oliver Dowden began a campaign against what he saw as “woke” policies in museums. At the time, Saini was sitting on the Natural History Museum’s board for naming and representation, and “I could see that affecting the conversations we were having. There was a kind of underlying anxiety or fear. And I think for many of us who work in academia or cultural institutions, there is no doubt that the Tory government’s policies over the last few years have had a really chilling effect on efforts to combat racism, and efforts to improve the safety and lives of transgender people, for instance. And in the UK they feel mainstream.”

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Praias tunisinas estão a encolher. Porquê?



No Magrebe (Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia), a Tunísia regista as taxas de erosão mais elevadas das últimas três décadas, com uma média de quase 70cm por ano, admite o Banco Mundial. Pelo menos 85% da população da Tunísia, com mais de 12 milhões de habitantes, vive junto à costa, o que faz com que o país seja desproporcionadamente afetado pela erosão costeira. A subida do nível do mar, causada principalmente pelo derretimento global do gelo induzido pelo aquecimento e pelo aumento da temperatura da água, é um dos principais culpados da erosão costeira.

Com a erosão das praias tunisinas, os pescadores da cidade costeira de Ghannouch dizem que os seus barcos e redes são cada vez mais danificados pelas rochas o que faz o seu rendimento sofrer quebras de 20% em relação a anos anteriores. O sobredesenvolvimento imobiliário nas praias e a destruição de defesas naturais como as dunas estão a duplicar o efeito da subida do nível do mar.

A aceleração das alterações climáticas trouxe também um aumento das temperaturas, agravando a seca na Tunísia. Juntamente com a subida do nível do mar, isto está a prejudicar não só o sector pesqueiro do país, mas também a sua agricultura e turismo.

80% da areia costeira da Tunísia vem do interior, segundo Gil Mahé, director de investigação do laboratório de hidrociências da Universidade Francesa de Montpellier, atualmente a trabalhar no INSTM na Tunísia. "As barragens... [são] o grande impacto que aumenta a vulnerabilidade das costas arenosas à erosão", diz ele. Três anos de seca deixaram muitas das 37 barragens do país esgotadas ou vazias, e levaram o governo a subir os preços da água da torneira para as famílias e empresas. O país está a investir na construção de mais barragens para tentar armazenar tanta água doce quanto possível.

A subida do nível do mar e o desaparecimento da areia prejudicaram gravemente os negócios de praia, tendo o turismo registado um grande declínio ao longo da última década. À medida que a erosão costeira se agrava, a água salgada move-se para o interior, arruinando áreas aráveis. Há já projetos em parceria com instituições internacionais como o Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para reduzir a erosão através de soluções baseadas na natureza. Uma iniciativa instalou 0,9 km de vedações de retenção de areia e 1,1 km de frondes de palmeiras presas ao solo para reduzir o impacto das ondas numa praia de Djerba, onde a erosão costeira provocou fortes inundações de zonas húmidas.

A erosão costeira é um fenómeno há muito conhecido e documentado. Todos os anos chegam-nos notícias de que o mar ‘engoliu’ mais uma enorme fatia. Da Califórnia, à Carolina doNorte, da Florida, ao Rio deJaneiro, de Yorkshire a Ovar. Mas a ganância, a sede do lucro rápido, a especulação imobiliária, a corrupção têm impedido a tomada de medidas sérias para conter o problema.

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