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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

John Pilger (1939-2023): A denúncia das opressões e das agendas escondidas do poder

Morreu este domingo, aos 84 anos, o escritor, académico, cineasta, ativista dos direitos humanos e um dos maiores jornalistas de investigação de todos os tempos, cujas obras transcendem nações e gerações. Muitos dos seus trabalhos podem ser encontrados no site John Pilger

O trabalho de John Pilger permitiu desvendar histórias ocultas de inúmeros acontecimentos contemporâneos. As suas obras expuseram opressores e seus crimes, e deram visibilidade à coragem daqueles que resistiram à opressão, dos povos aborígenes vítimas de apartheid na Austrália, seu país de origem, às vítimas do colonialismo, guerras, ocupações, pilhagens, injustiças e abusos vários no Vietname, Timor-Leste, Camboja, Afeganistão, Iraque, Chile, Palestina, entre muitos outros países.

O seu documentário 'Death of a Nation: The Timor Conspiracy', datado de 1994, por exemplo, foi feito a partir de uma reportagem clandestina em Timor-Leste e deu um valioso contributo para tornar conhecido o genocídio do povo timorense sob a ocupação da Indonésia, bem como incluiu testemunhos pessoais e imagens de notícias que descrevem o envolvimento de governos estrangeiros neste processo.

Com quase 30 anos de diferença, os dois documentários de John Pilger sobre a Palestina “Palestine Is Still The Issue (Parte 1 e 2)” mostram-nos que, no decorrer de uma geração, a grande injustiça e a violência que assola o povo palestiniano permaneceu inalterada e impune. No seu filme de 1974, descreveu a fuga e a expulsão de quase um milhão de palestinianos, que se tornaram refugiados na sua própria terra – na criação do Estado de Israel em 1948, e depois como resultado da Guerra dos Seis Dias em 1967. “O que mudou”, disse Pilger no seu regresso para filmar o documentário de 2002, “é que os palestinianos reagiram”. “Apátridas e humilhados durante tanto tempo, levantaram-se contra o enorme regime militar de Israel, embora eles próprios não tenham exército, tanques, aviões americanos, navios de guerra ou mísseis... Para [eles], a rotina dominante do terror, dia após dia, tem sido o controlo implacável de quase todos os aspetos das suas vidas, como se vivessem numa prisão aberta”, referiu.

Pilger ganhou um American TV Academy Award, um Emmy, e um British Academy Award, um BAFTA pelos seus documentários, que também ganharam vários prémios nos EUA e na Europa, como o de Melhor Documentário da Royal Television Society, o Reporter Sans Frontières de França e o Prémio Richard Dimbleby, concedido pela Academia Britânica de Artes Cinematográficas e Televisivas. O British Film Institute incluiu o seu filme de 1979, “Ano Zero: a Morte Silenciosa do Camboja”, entre os dez documentários mais importantes do século XX.

Pilger ganhou duas vezes o maior prémio do jornalismo britânico, o de Jornalista do Ano, pelo seu trabalho em todo o mundo, nomeadamente no Camboja e no Vietname. Foi Repórter Internacional do Ano e vencedor do Prémio da Paz e a Medalha de Ouro das Nações Unidas.

Os seus artigos são lidos em todo o mundo. Em 2001, foi curador de uma grande exposição no London Barbican, Reporting the World: John Pilger's Eyewitness Photographers, uma homenagem aos grandes fotógrafos a preto e branco com quem trabalhou. Em 2003, foi galardoado com o prestigiado Prémio Sophie pelos “30 anos de exposição da injustiça e promoção dos direitos humanos”. Em 2009, recebeu o prémio australiano de direitos humanos, o Prémio da Paz de Sydney. Em 2017, a Biblioteca Britânica anunciou um Arquivo John Pilger, com todos os seus trabalhos escritos e filmados. Em outubro de 2023, foi premiado com o Prémio Gary Webb de Liberdade de Imprensa do Consortium News.

Pilger apoiou firmemente a luta de Julian Assange e a exigência da sua libertação, denunciando incansavelmente a tentativa de silenciamento da verdade e o ataque à liberdade de imprensa.

O premiado cineasta e gigante do jornalismo é conhecido pelas suas críticas à política externa ocidental e por expor todos aqueles que, detendo o poder político, económico ou ambos, prefeririam permanecer intocados. John Pilger passou a vida a denunciar e a combater, de forma destemida, o imperialismo e o colonialismo, e a expor os media “por aquilo que são, uma extensão do poder corporativo", e um instrumento de “promoção e limpeza das guerras contemporâneas”. Para Pilger, “'austeridade' é a imposição do capitalismo aos pobres e a dádiva do socialismo aos ricos - a maioria paga as dívidas de poucos”.

Também era um grande defensor dos direitos dos aborígenes. Na sua última coluna para o Guardian, em 2015, condenou como “os aborígenes serão expulsos das terras onde as suas comunidades viveram durante milhares de anos”.

Numa das suas últimas publicações no Twitter, Pilger escreveu que: “O sangue nunca seca na Palestina. As multidões e as bandeiras em Londres e noutras cidades do Reino Unido são hoje um vislumbre da resistência em todo o mundo à barbárie e às mentiras de uma ocupação patrocinada e armada pelos ‘líderes’ do Ocidente – aqueles que exigem o vosso apoio. Não lhes deem esse apoio”.

Podes ler aqui artigos de e sobre John Pilger publicados no Esquerda.net.

domingo, 2 de outubro de 2022

Free The Truth - Julian Assange


Hi, I’m Kym Staton, Founder and Director of streaming platform Films For Change . I’m making a new documentary about and in support of Julian Assange as well as the wider issues of free speech and freedom of information. This gofundme page is to help cover the costs of the production phase of the making of this powerful new film.

There have been many documentaries made about Assange that perpetuate false narratives or focus on the drama and controversy of the events leading to him seeking refuge at the Equadorian embassy and his subsequent arrest and current incarceration.

Our film will take a very different approach, and instead make a strong case in support of his freedom, highlight the very significant precedent it sets for investigative journalism and independent media, and how the outcome effects every one of us.
I commenced working on this film project in february 2021, with researching potential people to include in the film, and sources for archive and news footage.

WHAT'S IN IT FOR YOU?
As well as the noble act of suporting this campaign to free assange, and educating and spreading awareness to the wider community on his plight and the associated issue of journalistic freedom, those who support the film in this stage will be part of the journey of the production of this film, and receive regular updates as the project commences. We'll also of course provide all contributers with a link to watch the film online for free once it is eventually completed and launched. Contribributer will also have their name mentioned in the credits at the end of the film. (If you do not wish to have your name mentioned in the credits, please simply email us to advise of this).


TIME FRAME FOR COMPLETION?
We expect that it will take between 12-18 months to complete the production stage, after which we will begin post-production which will take a further 2-3 months to complete the film and have it ready for release.

MAIN OUTLINE
No publicist in history has had such a profound impact on the world that Wikileaks has had. Before Wikileaks, we knew a lot less about the worlds’ powerful institutions and leaders than we do now. We knew only what they wanted us to know. WikiLeaks has enabled us to glimpse rampant corruption and the callousness of war and exposed countless injustices perpetrated by governments and corporations. It was founded on the powerful moral principle that governments and other vested interests should not operate behind walls of secrecy. Wikileaks has released millions of documents of public interest since it was established in 2006, and continues to do so.

No-one can forget or unsee the cruelty that we witnessed in the ‘Collateral Murder’ release. If you have not yet seen it, please look it up on youtube or the wikileaks website.

Julian Assange is the founder of Wikileaks. He has won more than twenty international awards for his journalistm work, and in 2019 was nominated for the Nobel Peace Prize. A chain of contrived events and smear campaigns over a decade of pursuit by the US government has seen him go from award winning journalist to a freezing high security cell in a London prison.

He remains inside Belmarsh Prison where he continues to be held in the same conditions as convicted murderers and armed robbers. He is now into his third year of arbitrary, pre-trial imprisonment, awaiting the outcome of the US government's application for permission to appeal.

On the 4th of January, a UK judge blocked the US request for Julian's extradition on medical grounds, however she denied Julian bail.

Because of the Covid lockdown Assange is not allowed to receive any visitors. He has also not been permitted to see his lawyers in person in over 12 months.

In early January, a London court rejected the US extradition request concerning Assange, but the problems surrounding his case are far from solved. He still faces a 175-year prison sentence in the United States. He is still being held in the high-security Belmarsh prison, and he still awaiting a final verdict after two years of incarceration.

Every major human rights group, including Amnesty International, Human Rights Watch, and Reporters without Borders – are on the same page about this issue.

The new Biden administration is appealling against the UK court’s decision, to refuse extradition on the grounds of Assange’s mental health.

Our Free The Truth: Free Assange Documentary will be an appeal to the majority to add their voice to, and magnify the campaign to free Assange. To urge US authorities to drop the charges against him and allow his family to bring him home. By doing so, we would not only free an innocent man, but on a wider scale, we can take an important step in protecting independent media and free expression.

Campanha: Go Fund Me

terça-feira, 12 de julho de 2022

WikiLeaks’ Julian Assange ‘will die’ if extradited to US, Australian journalist John Pilger says


WikiLeaks founder Julian Assange, already ailing following a decade-long struggle for freedom, faces almost certain death if he is sent to a “penal hell hole” upon extradition to the United States, one of his staunchest supporters has said.

John Pilger, the award-winning Australian filmmaker and journalist who has been a close confidante of Assange since 2010, said defeat for the 51-year-old in his battle in British courts against extradition could have far-reaching consequences for journalism.

“I don’t think there is any doubt in my mind... that if Julian goes to the United States, and is effectively dropped in a penal hell hole, that will be the end of him literally, he will die,” Pilger said in an interview on Talking Post with chief news editor Yonden Lhatoo.

Pilger said Assange’s treatment over the years - he has been in London’s high-security Belmarsh prison since 2019 - was “torture”, adding that for the Australian national “anything” would be better than being sent to the US.

Prior to his incarceration, Assange obtained asylum from Ecuador in 2012 and spent seven years in Quito’s embassy in London as part of efforts to avoid extradition to Sweden where he was facing charges of sexual assault. He denies all wrongdoing.

Washington is seeking his extradition over charges of espionage and computer misuse linked to WikiLeaks’ publication of classified US documents since 2010.

Assange’s supporters say the charges are politically motivated and that he would be unable to get a fair trial in the US.

“If Julian is extradited to the United States, I think it will effectively end real, independent investigative journalism,” Pilger said.

“Who will take that risk again, if the United States and other countries ... can reach anywhere in the world and take a journalist for writing something or revealing something it doesn’t approve of?”

Asked if he believed Australia’s new Prime Minister Anthony Albanese would intervene to stop the extradition, Pilger said it remained to be seen if the new Labor administration believed Assange was innocent.

Albanese is a signatory of the “Bring Julian Assange Home” campaign and was reported to have said in a party meeting last year that he believed the journalist should be freed.

“Enough is enough,” Albanese was quoted as saying by Australian media. “I don’t have sympathy for many of his actions, but essentially I can’t see what is served by keeping him incarcerated,” he reportedly said.

But Pilger said whether Albanese would back Assange depended on Canberra’s overall US policy. “Will Australia deviate from the United States? My view is no,” Pilger said.

Albanese’s remarks last year also did not underscore the fact that Assange “has committed no crime”, Pilger said.

“This is a journalist fighting for his life, and for the right of real journalism to publish the truth about governments but [Albanese] has said nothing.”

Pilger, known for his views about contemporary Western imperialism, said Australia’s actions when it came to Assange gave the impression that “nationality means nothing”.

“Australia has done nothing, it has colluded with the United States to keep Julian where he is,” he said.

In the interview, Pilger – a veteran of war reporting – also touched on the Ukraine-Russia war and shared his views on the Albanese administration’s likely stance on China.

Albanese’s predecessor Scott Morrison’s four-year tenure in power saw bilateral ties with Beijing hit the lowest point in decades.

The new government has indicated that it hopes to take a pragmatic approach with China without compromising on Australia’s national interests.

Pilger said any expectations of a change of tack had to be kept “very, very low”, noting that initial signals from Albanese suggested Canberra would continue to “echo” the US in its foreign policy.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Documentário - Vietnam: The Last Battle


Pilger apresenta o filme, no 20º aniversário do fim do conflito, do telhado da Embaixada dos EUA, Saigon, de onde as últimas tropas americanas partiram de helicóptero. O veterano Bobby Muller, entrevistado em China Beach, chama a guerra de mentira e fala sobre sua própria crença nisso logo após seu desembarque lá em 1965. Pilger afirma que Ho Chi Minh citou a Declaração de Independência dos EUA e buscou apoio de Washington para independência de sua nação. Uma mulher idosa, que perdeu o marido e os cinco filhos lutando contra franceses e americanos, é mostrada como um exemplo de luta pela independência. O mineiro de carvão Pham Ngo Duc descreve o enorme bombardeio americano, que, segundo Pilger, os jornalistas James Cameron e Harrison Salisbury, foram difamados por reportagens. Pilger relata a evacuação final da Embaixada dos EUA e o que considera a chegada "pacífica" dos norte-vietnamitas, que pôs fim à guerra.

Sob embargo dos EUA, que segundo Pilger usou sua influência para sabotar empréstimos do Banco Mundial, o país se voltou para a União Soviética. O coordenador do Programa de Pontes da CE, Michael Culligan, discute o retorno dos barcos vietnamitas, como o pescador Mac Van Nhan, que admite seu arrependimento por ter fugido do regime pós-guerra. O sociólogo Nguyen Thi Oanh afirma que a política liberalizante de Doi Moi trouxe muitos benefícios ao país, mas ameaça a sua alma, enquanto o assessor económico do governo Nguyễn Xuân Oánh defende o socialismo de mercado que, segundo Pilger, aboliu as cooperativas e deixou a população como um pool de mão de obra barata para exploração internacional. O Prof. Võ Quý e o Dr. Pham Viet Thanh revelam o desmatamento e os altos índices de defeitos congénitos resultantes da Operação Ranch Hand de pulverização de dioxina.

Após o levantamento do embargo comercial por Bill Clinton, em troca do pagamento de US$ 140 milhões de dívidas de guerra contraídas pelos sul-vietnamitas, Hanói foi gentrificada para estrangeiros por empreendimentos exclusivos discutidos pelos promotores imobiliários Peter Purcell e Alfonso L. DeMatties. O Prof. Nguyen Van Xang recorda o atentado de Natal de 1972 ao Hospital Bạch Mai e as recentes privatizações que, segundo ele, minaram o serviço nacional de saúde. Nguyễn Xuân Oánh e Nguyen Thi Oanh respondem a documentos oficiais do governo britânico recomendando a "exploração" da mão de obra barata do Vietname nas ZPEs. Um morador idoso relembra o Massacre de My Lai, cujo local Pilger contrasta com o local turístico dos túneis de Củ Chi. O produtor de cinema David Puttnam, a assistente de videolocadora Andrea Barnes e o vietnamita-americano Phan Quan criticam os filmes de Hollywood que promovem uma visão americana autocompassiva do conflito, que Robert Muller remonta a Ronald Reagan. Nguyen Thi Oanh afirma que, por causa de sua vitória, o Vietname, ao contrário dos EUA, conseguiu sair da guerra.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Nuclear war is not only imaginable, but planned


The Coming War on China, do premiado jornalista John Pilger, revela o que as notícias não revelam - que a maior potência militar do mundo, os Estados Unidos, e a segunda potência económica do mundo, a China, ambas com armas nucleares, podem muito bem estar em o caminho para a guerra.

A guerra nuclear não é apenas imaginável, mas planejada. A maior concentração de forças militares da OTAN desde a Segunda Guerra Mundial está ocorrendo nas fronteiras ocidentais da Rússia. Do outro lado do mundo, a ascensão da China é vista em Washington como uma ameaça ao domínio americano.

Para combater isso, o presidente Obama anunciou um “pivô para a Ásia”, o que significava que quase dois terços de todas as forças navais dos EUA seriam transferidas para a Ásia e o Pacífico, com suas armas apontadas para a China. Uma política que foi adotada por seu sucessor, Donald Trump, que durante sua campanha eleitoral disse: “Não podemos continuar permitindo que a China estupre nosso país e é isso que eles estão fazendo”.

Filmado em cinco possíveis linhas de frente na Ásia e no Pacífico ao longo de dois anos, a história é contada em capítulos que conectam um passado secreto e "esquecido" às ações gananciosas de uma grande potência hoje e a uma resistência, da qual pouco se sabe em o Oeste.

Documentário - The Coming War on China

The Coming War on China, do premiado jornalista John Pilger, revela o que as notícias não revelam – que a maior potência militar do mundo, os Estados Unidos, e a segunda potência económica do mundo, a China, ambas com armas nucleares, podem estar no o caminho para a guerra.

A guerra nuclear não é apenas imaginável, mas planejada. O maior acúmulo de forças militares da OTAN desde a Segunda Guerra Mundial está em andamento nas fronteiras ocidentais da Rússia. Do outro lado do mundo, a ascensão da China é vista em Washington como uma ameaça ao domínio americano.

Para combater isso, o presidente Obama anunciou um “pivô para a Ásia”, o que significava que quase dois terços de todas as forças navais dos EUA seriam transferidas para a Ásia e o Pacífico, suas armas apontadas para a China. Uma política que foi adotada por seu sucessor Donald Trump, que durante sua campanha eleitoral disse: “Não podemos continuar permitindo que a China estupre nosso país e é isso que eles estão fazendo”.

Filmado em cinco possíveis linhas de frente na Ásia e no Pacífico ao longo de dois anos, a história é contada em capítulos que conectam um passado secreto e 'esquecido' às ações vorazes de grandes potências hoje e a uma resistência, da qual pouco se sabe em o Oeste.

Críticas

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Documentário de John Pilger - "A guerra que você não vê" (The War You Don´t See - 2010)



Neste documentário, John Pilger expõe como os grandes meios de comunicação dos países imperialistas (assim como seus representantes nos países periféricos) manipulam as informações com o objetivo de justificar suas guerras de rapina e outras políticas contrárias aos interesses das maiorias populares. 

John Pilger revela como estes meios agem de modo orquestrado para beneficiar as políticas imperialistas dos Estados Unidos, por exemplo, e de seus agentes no  Médio Oriente (Israel). 

A vida humana nada conta para estas potências imperialistas (ou sub-imperialistas) nem para a mídia que as defende. 

Nada está por cima dos interesses económicos ou estratégicos militares dos estados e grupos econômicos que exercem a hegemonia política no planeta. 

As cenas das atrocidades cometidas no Iraque, no Afeganistão e na Palestina são amostras do grau de perversidade a que se pode chegar com o objetivo de garantir privilégios.

“Está vendo aquelas pessoas lá embaixo? Assim que você os tiver na mira, atire. Atire! Vai, fogo!”. Essa é uma conversa entre dois membros do esquadrão norte-americano na Guerra do Iraque apresentada pelo documentário “A guerra que você não vê”, ou The war you don’t see, em inglês. As pessoas “lá embaixo”, na mira da metralhadora, são civis em Bagdá. Vale constatar que, a despeito do avanço tecnológico, as mortes de civis em guerras têm crescido. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), 15% dos mortos eram civis; na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a quantidade foi de 65%. E durante os conflitos ocorridos na África e Oriente Médio, entre os anos 1990 e 2000, o número de pessoas mortas e não envolvidas diretamente na guerra foi de 90%.

Segundo dados do Iraq Body Count, entidade com sede na Grã Bretanha, dos 174 mil mortos na Guerra do Iraque, 112 mil eram civis. Quase oito entre dez mortos desde que a invasão capitaneada pelos Estados Unidos começou no ano de 2003.

O documentário se concentra no papel que os principais canais dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha exerceram para influenciar a opinião pública em relação à Guerra do Iraque. Destaque para entrevistas com representantes de Cable News Network (CNN) e British Broadcasting Corporation (BBC). Qual é o papel da mídia nessas guerras? De que forma a cobertura midiática muda ou não a opinião das pessoas sobre eventos assim? Como os crimes de guerra foram reportados? Como foi a participação dos iraquianos na cobertura jornalística? E de que forma eles eram representados?

Essas questões foram levantadas pelo jornalista nascido na Austrália e radicado em Londres, John Pilger, de 71 anos. John Pilger já foi correspondente de guerras em países como Vietnam, Camboja, Egito, Índia e Bangladesh. Diversas cenas e diálogos apresentados pelo filme provam que o Iraque não tinha armas nucleares como alegavam os Estados Unidos. A suposta presença de armas foi o estopim para que a guerra começasse. Depois de milhares de mortes – de civis e de soldados – e de milhões de dólares investidos, verificou-se que não havia perigo naquele país. Ou seja: a justificativa dada para que a guerra começasse não procedia. No fundo, a causa da guerra que matou milhares de pessoas era o controle do petróleo.

Outro tema abordado pelo documentário é o papel das relações públicas dentro das guerras. É retomada a “primeira estrutura de propaganda moderna”. O então presidente norte-americano, Woodrow Wilson, criou e instituiu uma forte máquina de propaganda com a ajuda de Edward Bernays. O documentário o cita como um dos responsáveis por convencer a população americana de que a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) era benéfica. Esse conflito tirou a vida de mais de 16 milhões de pessoas e feriu outros tantos. Mesmo assim, a estrutura de propaganda dirigida por Bernays fez com que os pontos positivos desse conflito se concretizassem na memória americana. Ele “vendeu” a guerra ao povo. Na época, um ministro inglês chegou a declarar, conforme mostra o filme: “se as pessoas soubessem o real motivo da guerra, ela acabaria amanhã”.

Quando Bernays faleceu, o jornal New York Times colocou em seu obituário que morria o “pai das relações públicas”. O texto diz que Bernays foi um dos primeiros a expandir os mecanismos de ‘criação da opinião’ (opinion making) e mudanças comportamentais. “Relações públicas, usadas efetivamente, ajudam a validar o princípio oculto da nossa sociedade: competição no mercado das ideias e das coisas”, escreveu Bernays em 1971.

Uma das situações abordadas pelo filme é o caso dos embedded journalists, ou seja, os jornalistas “embutidos”. Recebem esse nome porque vão junto com as forças do exército para os confrontos. Apesar de terem mais segurança trabalhando dessa forma, isso se mostra como um problema para a cobertura investigativa. Em troca dessa segurança, diz o documentário, os jornalistas só podem ir a locais permitidos pelo governo, o que influencia totalmente a cobertura, já que presenciar as situações que o governo não deseja mostrar seria fundamental para registrar com mais fidelidade os fatos.

O documentário apresenta cenas e depoimentos fortes das guerras, revelando coisas jamais televisionadas, como o caso de uma mulher que aponta o lugar de sua casa onde um familiar seu foi metralhado. Ou cenas de crianças chorando contra a brutalidade dos soldados com armas. As imagens demonstram a violência sofrida pelos civis em suas próprias casas, humanizando aquele povo que não conhecemos e, por isso, não nos solidarizamos com ele.

O jornalista Dan Rather, da CBS News, afirma no documentário que acredita que as chances de os Estados Unidos entrarem em guerra com o Iraque seriam menores se os jornalistas tivessem realizado um trabalho mais duro, de questionar, ao invés de somente “ouvir e reportar as notícias oficiais”.

A ideia que o permeia todo o filme é que essa cobertura dos embedded journalists faz com que a imagem do conflito seja diferente para quem o vive, nos países afetados, e para quem os acompanha pelas grandes redes de comunicação. Há um abismo entre a  informação recebida pelo público ocidental e as pessoas comuns que têm seu espaço invadido e suas vidas destruídas.

O documentário cita que foram mais de 700 embedded journalists para a cobertura da guerra no Iraque, número superior ao de muitas redações. Em algumas ocasiões, por exemplo, forjaram imagens. Mudavam os ângulos para criar situações irreais. Tudo isso com profissionais que atuaram na época. A rede Al Jazeera tentou fazer oposição a essa situação. Mostrou o outro lado, o descontentamento dos iraquianos. E seus escritórios no Iraque foram alvos de atentados. Destaque para a entrevista com Julian Assange, fundador do Wikileaks, que revelou diversos documentos contrários à guerra.

Portanto, A guerra que você não vê é um filme indicado para que as pessoas possam enxergar um lado diferente daquele mostrado com frequência. Para pararmos de acreditar totalmente em tudo que vemos ou lemos. Para questionar. 

Saber mais:

domingo, 10 de junho de 2012

Documentário - The Secret Country: The First Australians Fight Back


"Quando crianças, fomos levados a entender que éramos meros espectadores inocentes da morte lenta e natural de um povo antigo, os primeiros australianos, ao invés de herdeiros de uma história tão voraz quanto a dos Estados Unidos, América Latina, África."

O segundo filme britânico de John Pilger sobre sua terra natal, The Secret Country: The First Australians Fight Back, foi inspirado no documentário australiano de 1983 do diretor Alec Morgan, Lousy Little Sixpence, que conta a história da “geração roubada”, filhos aborígenes de ascendência mista que foram tiradas de suas mães e colocadas em instituições ou usadas como trabalho escravo. Em The Secret Country, Pilger também conta as experiências dos aborígenes desde a chegada dos brancos no século XVIII e quantos vivem na pobreza e na saúde precária.

Ele os encontra ainda morrendo de doenças infecciosas evitáveis, incluindo lepra e tracoma – que causa cegueira – e alguns não sobrevivem além da meia-idade. Muitos australianos negros vivem em abrigos de estanho e têm uma das maiores populações carcerárias do mundo, por crimes relacionados à falta de moradia, alcoolismo e desemprego. Pilger também conhece duas vítimas da “geração roubada”, Bobby Randall e Vince Forrester.

Ele se lembra dos massacres de aborígenes após a chegada do capitão Cook a Botany Bay em 1770 e sua guerra de resistência. Hoje, diz ele, há uma nova reação e alguns aborígenes estão ganhando destaque público e assumindo empregos que antes eram reservados aos brancos. No entanto, a promessa de legislação do primeiro-ministro trabalhista Bob Hawke, que permite aos aborígenes controlar os direitos sobre suas próprias terras, foi abandonada após o lobby das empresas de mineração.

Pilger conclui: “Parece-me que, até que uma política comprometida de reconciliação, de nacionalidade real, seja oferecida aos primeiros australianos, aqueles que vieram recentemente nunca poderão reivindicar a sua.”

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Como é que os Jornalistas ajudam a promover a guerra e o que pode ser feito para preveni-lo

… e o que pode ser feito para preveni-lo. A Guerra Que Não Se Vê é o novo filme de John Pilger relacionado com o papel dos media na promoção e limpeza das guerras contemporâneas. Entrevista por Daniel Trilling.

Desde que eu fui pela primeira vez para o Vietman, tomei consciência dos rituais e influências ocultas e pressões dentro do jornalismo que determinam tanto as notícias quanto a qualidade das mesmas. Entrevista a John Pilger, por Daniel Trilling.
É certo que, como o Wikileaks tem demonstrado, a agenda da “corrente predominante” é cada vez mais conduzida pela rede global de Internet.

A Guerra Que Não Se Vê está relacionada com o papel dos media na promoção e limpeza das guerras contemporâneas. Por que motivo faz este filme neste preciso momento?
Há muitos anos que escrevo argumentos e realizo filmes acerca dos media e da guerra. Traduzir esta crítica para filme, especialmente o poder traiçoeiro das relações públicas, tem sido uma espécie de ambição. Peter Fincham assumiu há dois anos o cargo de director de programas da ITV e queria claramente restaurar parte de legado factual da ITV. Ele estava entusiasmado com a ideia; ele também sabia que o filme teria uma abordagem crítica à ITV. Não é algo muito comum.
Desde que eu fui pela primeira vez para o Vietnam, enquanto um jovem repórter, tomei consciência dos rituais e influências ocultas e pressões dentro do jornalismo que determinam tanto as notícias quanto a qualidade das mesmas. O jornalismo de transmissão tem um misticismo poderoso; a BBC alega que é objectiva e imparcial na cobertura da maior parte dos assuntos, especialmente no respeitante à guerra. A pressão para acreditar e manter esta alegação é quase uma questão de fé. Para o público, a realidade é bastante diferente. A Universidade de Wales e a organização Media Tenor levaram a cabo dois estudos sobre a cobertura televisiva na preparação para a invasão do Iraque. Ambas defendem que a BBC seguiu predominantemente a linha governamental: que o seu relato reduziu as opiniões anti-guerra a uma curta percentagem. Entre os maiores emissores ocidentais, apenas a CBS, na América, tinha uma percentagem mais baixa. O público tem o direito de saber porquê.

Porque é que acha que os jornalistas que fizeram a cobertura da Guerra do Iraque – alguns dos quais são entrevistados por si neste filme – estão tão dispostos agora a admitir que não fizeram os seus trabalhos com devia ser? O que é que os impediu de tomar consciência disso naquela altura?
O ambiente mudou. Agora ninguém tem dúvidas que as razões para a invasão do Iraque eram fraudulentas, assim como o são as razões para invadir o Afeganistão, assim como eram as razões para invadir o Vietnam. Ainda assim, os jornalistas que contam no meu filme onde é que tudo – e eles – falhou são corajosos. Pedi a muitos outros para aparecerem, tais como Andrew Marr e Jeremy Paxman, e não me deram qualquer resposta. Efectivamente, quanto mais famoso o nome, maior a aparente falta de vontade em discutir o porquê, tal como Paxman disse a um grupo de estudantes, eles foram “ludibriados”.

Será que as fontes online independentes – sendo o Wikileaks o exemplo mais falado no momento – permitem que o público ultrapassem totalmente a barreira das empresas dos media?
Sim, mas lembre-se que a principal fonte de informação do público ainda é a televisão. Os programas de notícias da BBC têm uma enorme influência. É certo que, como o Wikileaks tem demonstrado, a agenda da “corrente predominante” é cada vez mais conduzida pela rede global de Internet. Para mim, enquanto jornalista, a Internet oferece as fontes mais interessantes e frequentemente mais fidedignas porque elas passam ao lado das tendências consensuais e de uma censura por omissão, que está impregnada nas transmissões.

Como se pode compreender, a sua atenção está voltada para o jornalismo de guerra. Porém, o filme também sugere que a nossa indústria do entretenimento tem um papel na disseminação da propaganda. Como é que isso pode ser prevenido?
Não existe uma máquina de propaganda como Hollywood. Como Ken Loach afirmou recentemente, a larga maioria dos filmes nos cinemas britânicos são americanos, ou britânicos com financiamento americano. Isto tem levado à apropriação tanto dos factos como da ficção: da própria arte. Edward Said descreve o efeito no seu livro Culture and Imperialism, defendendo que a penetração de uma cultura empresarial e imperialista é cada vez mais profunda nos nossos dias do que em qualquer outro período. Como é que combatemos isso? Apoiamos realizadores independentes e cinemas e distribuidores independentes. Começamos a pensar no jornalismo como um “quinto estado” no qual o público desempenha um papel e as organizações dos media são chamadas a prestar contas.

Mesmo quando a realidade mais difícil da Guerra é relatada com veracidade e exactidão, as audiências podem simplesmente escolher ignorá-la. Existem algumas técnicas específicas que leve a cabo na sua realização para evitar que tal aconteça?
Sem dúvida, a responsabilidade de persuadir e desafiar as pessoas, de estimular a sua imaginação, pertence-nos a nós, os realizadores e jornalistas. Culpar o público é uma confissão da nossa incapacidade. A minha experiência é que as pessoas responderão positivamente se estabelecermos uma ligação com as suas próprias vidas, ou tentarmos articular a forma como se preocupam com o mundo, as suas guerras e outros cataclismos. Se chamarmos poder ao facto de nos relacionarmos com os factos, obtemos a recompensa do apoio do público. Por outras palavras, quando as pessoas que se apercebem que somos os seus agentes, e não um agente de um bloco de pedra chamado “media”, ou de outros interesses poderosos, eles dão-nos o seu tempo e o seu interesse. É isso que faz com que o jornalismo seja um privilégio.