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quinta-feira, 9 de março de 2017

Artigo da prestigiada Ana Primavesi - "A Revolução Verde e o Problema do azoto no Solo" (estudo de caso no Brasil)


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Ana Primavesi

Azoto é o adubo químico mais usado, sempre tentando aumentar a massa verde e nunca a saúde vegetal e nem sempre a produção de grãos. O adubo nitrogenado veio maciçamente com a Agricultura Convencional, que foi introduzida graças a uma combinação entre a indústria química e a mecânica. Foi capitaneado pelo prof. Borlaug e mediado pelo então presidente Kennedy (1961-63).
O problema da indústria era que possuía enormes estoques de produtos químicos altamente venenosos, e uma linha de produção para máquinas pesadas que ninguém necessitava mais porque a guerra terminara. E, se a indústria ia à falência, os EUA afundariam numa crise que poderia ser de difícil recuperação.
Foi combinado assim que a agricultura compraria químicos e máquinas das indústrias, e estas, uma vez recuperadas, iriam pagar impostos elevados. Com todas estas despesas, a agricultura convencional obviamente não iria mais ter lucros e até trabalhar no vermelho, mas o Governo se comprometia a devolver à agricultura parte destes impostos em forma de subsídios, dando início a uma “agricultura subsidiada” combatida em vão pelo governo brasileiro, uma vez que esquece a razão do subsídio.
Instaurou-se a famosa “Revolução Verde”. Para os EUA e Europa, que tinham o problema da indústria, era a solução milagrosa. Indústria e países recuperaram-se rapidamente, mas a agricultura familiar tinha de ser trocada pela agricultura industrial para dar espaço às máquinas..
Milhões e milhões de pessoas migravam do campo para as cidades, onde as indústrias as esperavam ansiosamente. Iniciou-se a época de êxodo rural e o crescimento gigantesco das cidades. Era o início da “sociedade de serviço”. E como este convênio era até milagroso para a indústria química e mecânica, ambicionou-se mais. Resolveu-se levar a Revolução Verde também para o Terceiro Mundo, que nesta época, estava em pleno desenvolvimento.
Milhares de “técnicos” americanos se espalharam pelo mundo afora e incutiram em todos as maravilhas da Revolução Verde, e por mais de 10 anos os EUA treinaram os técnicos do Terceiro Mundo gratuitamente nesta agricultura. E até fundaram-se no Terceiro Mundo organizações estatais, como a EMATER para introduzir a Revolução Verde. (Esta reconheceu seu erro e atualmente luta pela Agricultura Orgânica.)
Como o Terceiro Mundo não era o dono destas fábricas, ele tinha que comprar tanto os químicos como as máquinas pesadas, com créditos que o Primeiro Mundo lhes concedia generosamente a juros entre 20 a 25% por ano, endividando os países violentamente.
Para eles, a Revolução Verde tornou-se somente um dreno permanente de todas as riquezas dos seus povos, fluindo para os países do Norte. Também no Sul a população rural tinha de migrar às cidades graças às máquinas, mas como não possuíam indústrias que a esperavam, foram acolhidos somente pelas favelas. E enquanto o Primeiro Mundo enriqueceu, o Terceiro Mundo entrou num ciclo de miséria do qual, até hoje, não conseguiu sair ainda. A Revolução Verde salvou a industria do Primeiro Mundo mas endividou horrivelmente o Terceiro Mundo.

Como foi introduzido
O primeiro passo da Revolução Verde era matar os solos: pela calagem corretiva – a aração profunda – e a adubação nitrogenada.
Por quê?
Porque isso acabou com toda matéria orgânica nos solos. E sem matéria orgânica os solos perderam sua vida, que sem alimento não podia existir, Os solos se desagregaram, compactaram e tornaram-se quase impermeáveis. A água das chuvas escorreu, causando erosão – enchentes – secas aos quais, atualmente, se juntam os ciclones e tufões. É um ciclo do qual não saímos ainda, ao contrário, que está piorando cada vez mais e levando muitas partes do Mundo à desertificação. Mas não se consegue produzir em solos mortos sem todo este pacote químico, mais irrigação. Finalmente os solos servem somente de suporte para as culturas, que praticamente se criam em “hidropónicos ao ar livre.”
Como os solos temperados são rasos (40 a 100 cm) e muito ricos (250 a 2.200 mmol) e os solos tropicais são profundos até muito profundos ( até 35 m) mas pobres ( 1-17 mmol na média as vezes chegando até 35 a 70 mmol), parece lógico que necessitam de manejo distinto. Porém, até agora, foram tratados segundo o manejo dos solos temperados.
O que sacudiu o Mundo após a introdução da Revolução Verde eram os desmatamentos em grande escala, a fim de poder instalar as agroindústrias onde atualmente tem umas com tamanho de até quase 300.000 ha e cuja mecanização é total: trabalham com tratores teleguiados, sem tratorista e com análises químicas e adubação já feitos ao passar dos tratores. Mas nem no laboratório, nem no campo a análise química considera o estado do solo ( agregado, com lajes duras, compactado) nem a possibilidade de absorção pelas raízes, que não somente depende do estado físico do solo mas também do equilíbrio entre os nutrientes.
O azoto do adubo químico não é estável no solo, sendo lixiviado quando em forma de nitratos e nitritos ou se perde para o ar, quando em forma amoniacal ou em estado elementar, Também não considera-se que com o aumento da temperatura pelo aquecimento do Globo os nutrientes Ca – Mg – Cu – B se tornam de difícil absorção.
Pelas deficiências minerais, existentes ou introduzidas, uma adubação elevada com N em forma amoniacal, por exemplo(que pode ser aplicada ou induzida pela falta de oxigênio no solo), resulta na deficiência de Cu, Zn, Mn e a toxidez de Fe além da deficiência de K, Ca e Mg. Enquanto o N se perde para o ar, criam-se desequilíbrios minerais que predispõem as plantas a pragas e doenças.
Também aqui age-se muito sumariamente e combatem-se os parasitas sumariamente com “defensivos” de toxidez cada vez mais elevada. Poucos consideram que uma praga ou doença somente pode atacar uma planta quando sua enzima (bactérias possuem somente 1 enzima, insetos 2 e fungos podem ter até 4) consegue digerir a substância presente mas inacabada.
Não existe enzima nenhuma capaz de quebrar uma substância pronta, como proteínas, somente consegue digerir aminoácidos, ou polissacarídeos, somente conseguem quebrar monossacarídeos. E mesmo quando a planta morrer, suas substâncias completas têm de ser rompidas pelas próprias enzimas da planta, para que depois insetos e micróbios possam fazer a decomposição.

Fica óbvio que cada praga ou doença é ligada a uma deficiência : p.ex. Oídio – B , Antracnose – Ca , Brusone – Cu etc. que impede o acabamento de uma substância completa.
As deficiências podem existir : por causa da falta de um mineral nutritivo ou seu desequilíbrio pelo excesso de outro mineral, por ex., uma adubação elevada em azoto provoca p.ex. Botrytis em videiras, Puccinia em cereais, Erwinia em batatinhas, Alternaria em tomates, Pseudomonas em fumo etc. (Bergmann, 1976). E em lugar de combater a deficiência mineral induzida, combate-se a doença por agrotóxicos, que, por sua vez, em base de algum mineral, produzem outros desequilíbrios e outras doenças.
A degradação ambiental, não somente graças ao desmatamento mas também pela lavração do solo e sua exposição ao sol e o impacto das chuvas levou à erosão – enchentes e rios secos (por causa da deficiente infiltração de água no solo os mananciais subterrâneos ficaram vazios).
Por outro lado, a adubação de pastagens com elevada quantidade de azoto produz no segundo ano um pasto exuberante e no terceiro ano uma decadência violenta. Isso porque as forrageiras formam somente raízes superficiais , pequenas, que não conseguem reabastecer seu estoque de nutrientes e morrem finalmente de exaustão, uma vez que o azoto leva a um crescimento forçado. O azoto não é um nutriente isolado, mas somente um dos nutrientes que a planta precisa. E quando o pasto entra em degradação assenta-se não somente a erosão mas também cupins.
Existe uma diferença muito grande entre o azoto químico e orgânico. O azoto químico sempre contribui para o desaparecimento de matéria orgânica por aproximar a relação C / N, e consequentemente promover sua eliminação por micróbios que leva a decadência e compactação do solo. O azoto orgânico, tem como pré-requisito a vida microbiana, que agrega o solo.
Nenhum processo no solo ocorre isolado. Tudo é interligado como o ciclo da vida. A planta capta luz e gás carbônico e absorve água do solo e com isso forma a primeira substância um açúcar simples ( plantas C-3 ) ou um ácido orgânico como o málico.(plantas C-4). As folhas que morrem cobrem o solo, servem aos micróbios de alimento e recambiam os minerais ao solo. Conforme o solo será a raiz, abundante em solo bem agregado ou retorcida e pequena em solo compactado.
Geralmente supõe-se que os micróbios do solo são independentes e somente depende ter um germe e já se desenvolvem. Mas não é bem assim. Nenhuma bactéria ou fungo nasce em solo que não é apropriado.
O azoto acrescido pelo adubo não é estável no solo, e as leguminosas não enriquecem o solo em azoto como se acreditou que podiam comprovar com mais que 1.200 análises de solo com as mais diversas formas de matéria orgânica, a partir de leguminosas até simplesmente palha de arroz. E muitas vezes a quantidade de N no solo era maior após a palha de que após leguminosas. Por que?
Nenhuma planta é atacadista vendendo um produto como N. Cada uma somente fixa N para si mesma. E o que os micróbios não seguram é lixiviado ou perdido para o ar. E a palha às vezes deixou mais N no solo, porque forneceu mais matéria orgânica que não é “nutriente” para as plantas mas somente comida para a vida do solo, que fixa N do ar e mobiliza nutrientes vegetais até de sílica.
Assim cresce a mata Amazônica e assim produzem as culturas orgânicas em solos vivos. Em solos mortos a agricultura orgânica produz miseravelmente, (por isso necessita o “preço acrescido”) em solos vivos produz abundantemente ( 2 a 3 vezes mais do que a melhor agricultura química) e ainda sem nenhuma praga e doença.
A disponibilidade de N no solo depende das bactérias fixadoras (praticamente todos fixam) e seus fagos, especialmente nematóides (em solos mais húmidos) e protozoários (em solos mais secos) que “pastam” os micróbios e liberam seu azoto. Assim, nematoides liberam 30% do N absorvido pelas plantas e de fagos que pastam fungos fornece-se o resto.
Solos vivos com vida intensa mobilizam nutrientes e fixam azoto do ar.

Microrganismos fixadores de N:

Simbiontes : como rizóbios, Bradyrizóbios, Azospirillo, etc.
Bactérias livres: como Azotobacter, Beijerinckia, Closatridium pasteurianum etc.
Somente 8,6 % das leguminosas nodulam.
Tem rizóbios noduladores e rizóbios endofitas (vivem na folha da planta) graças a estas no Brasil a cana-de-açúcar necessita somente 50 kg/ha de adubo nitrogenado, Nos outros países necessita de 150 a 300 kg /ha de adubo nitrogenado.
Como funcionam os rizóbios endofitas: (Seja ciente: a nodulação não é necesssária para fixar azoto) . Os rizóbios saem da raiz da leguminosa e entram na raiz da gramínea seguinte, p.ex. milho, trigo, arroz etc. (Dazzo, 2006). Eles sobem às folhas onde aumentam a fotossíntese e a atividade enzimática. Parece que no arroz do sistema SRI existem também rizóbios endófitas.
Micorrizas aumentam o espaço radicular das plantas pelos micélios. Em raízes onde existem micorrizas e rizóbios, os primeiros fortalecem as plantas enquanto os rizóbios , nas plantas mais fortes, são mais ativos. Inoculam as plantas com micorrizas porém o efeito depende da variedade de micorrizas – da espécie vegetal – e da nutrição vegetal. Mas micorrizas não necessitam ser inoculadas se as plantas são suficientemente abastecidas com os nutrientes mais essenciais para elas. p.ex. Milho =. Cu e Zn, / arroz = Cu, aveia =Mn, videira = B etc.
Não é somente importante a presença de N no solo mas especialmente sua transformação para proteínas. Cada proteína se forma de 3 aminoácidos em base de N e 1 em base de S. Mas nem todos os aminoácidos formam proteínas. Para isso necessita-se de Molibdênio (Mo) . Assim muitas vezes saúvas começam cortar folhas de uma roseira ou de uma árvore mas logo abandonam tudo e vão para outro lugar. Isso porque a jardineira que fez a análise das folhas avisou: estes não prestam, eles tem proteínas. E proteínas nenhuma fungo, bactéria ou inseto conseguem digerir. Não possuem enzima para isso. De modo que aplicando Mo num pasto, campo, plantação frutífera, bosque etc. Contribui-se para a formação de proteínas e impede que saúvas cortem suas folhas.
Mokiti Okada diz: a substância base de toda vida é N – O – H. e que também Rudolf Steiner afirma. Mas como combina isso com o fato que a primeira substância que uma planta forma é um monossacarídeo C – O – H . :
Mas aí o mestre explica: “ Não existe vida sem proteínas, e não existem proteínas sem azoto.”

O segredo do solo tropical:

Como se explica que os solos mais pobres do Mundo, os amazônicos conseguem criar uma das florestas mais frondosas do Mundo? Se as leis de clima temperado valessem, seria uma região semi desértica. Mas ao contrário, é uma floresta frondosa. Como ?
O segredo da floresta equatorial é:
– solos vivos e ativos,
– biodiversidade máxima (muitas árvores exalam substâncias que impedem o
nascimento de suas próprias semente num raio de até 50 m.)
– proteção contra a insolação direta e o impacto da chuva. Somente 3 a 4% da luz solar
atinge o solo, e muitas vezes a chuva é interceptada pelas folhas, de onde evapora.
– proteção contra o vento (não existe vento nenhum dentro da floresta amazônica)
Sabe-se que o vento leva 51 até 67% da umidade, diminuindo drasticamente o crescimento vegetal. No Ceará, no semi-árido , onde têm bosques que impedem o vento, a agricultura vai bem.
A produção agrícola não é um fator isolado. Tudo na natureza é interligado . É a famosa “ TEIA DA VIDA”, tudo depende de todos. São leis rígidas e imutáveis. E quando queremos “melhorar” um fator rasgamos a Teia da Vida e tudo somente tende a piorar. As leis naturais são imutáveis, modificar é somente destruir. E a natureza se vinga. Assim o azoto orgânico é altamente benéfico, o químico sempre é destrutivo a médio prazo.
Assim, por exemplo, o aquecimento do nosso Globo não é somente pela camada de gases-estufa (CO2 , CH4, N2O). Gases são frios e não quentes. É pelos solos compactados e expostos ao aquecimento do sol (após uma aração, ou numa cultura capinada, tanto faz se é por herbicidas ou por máquinas). O solo aquece e o ar acima dele (até 74ºC). O ar sobe, até como tufão, esbarra na camada de gases e em lugar de se dissipar para o espaço, se distribui pelo Globo. O clima aquece.
Não é tanto por causa dos gases estufa produzidos por carros e aviões, arroz de água, lixo urbano, rebanhos de gado etc. mas é por causa da falta de florestas e uma agricultura que mantém os solos expostos por muito tempo. É a agricultura convencional que acaba com nossos solos, nosso clima, nossa água, nosso Globo.


Saber mais sobre Ana Maria Primavesi

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Biografia de Mokiti Okada

"Buscar a própria felicidade com o sacrifício alheio é criar infelicidade para si mesmo." - M.Okada

Mokiti Okada nasceu no Japão, no bairro de Hashiba, extremo leste de Tóquio, em 23 de Dezembro de 1882. Faleceu em 10 de Fevereiro de 1955, deixando prontas as bases para a construção de um mundo espiritual e materialmente evoluído, denominado por ele “Paraíso Terrestre”, expressão que significa a concretização do mundo ideal. Um mundo onde o pensamento, as palavras e as ações do ser humano se fundamentam na Verdade da Lei da Natureza, ou seja, no Grande Ordenamento Jurídico Universal, que submete, regula e harmoniza toda a Criação.

Ele realizou estudos sobre diversas áreas do conhecimento humano, como política, medicina, educação, filosofia, economia, entre outras, mas, sobretudo, dedicou-se ao estudo da religião, das artes e da agricultura, apresentando propostas viáveis para um desenvolvimento social integrado. [ler com mais detalhe a postagem "Agricultura Orgânica e Biológica- principais mentores"]

Incentivou a prática do altruísmo e a apreciação do Belo, como formas para a elevação da sensibilidade e a aplicação de um método agrícola sustentável, que preserva o meio ambiente e promove a saúde de produtores e consumidores, oferecendo alimentos puros e saborosos.

Toda a sua filosofia foi estabelecida com base nas Leis da Natureza, alicerçada nos princípios da Verdade, Bem e Belo. Embora tenha sido escrita nas décadas de 30 a 50 do século passado, parece ter sido feita para os dias actuais, pela sua perfeita aplicabilidade na vida quotidiana do homem contemporâneo.

Mokiti Okada faleceu em 1955, deixando para a humanidade três grandes obras como protótipos do mundo ideal nas cidades de Hakone, Atami e Kyoto, Japão, e dois museus de arte (nas cidades de Atami e Hakone), conceituados internacionalmente, e ainda, dos arranjos florais que ele mesmo fazia, nasceu o estilo Ikebana Sanguetsu, divulgado pela Fundação que leva o nome de seu patrono.

Para saber mais:

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Agricultura Biológica - a afirmação de um Movimento de reaproximação da Natureza


Perspetiva histórica
A Agricultura Biológica é o modo ancestral de exploração agrícola, mas apenas surgiu como movimento em meados do século XX como reação ao recurso cada vez mais frequente na prática agrícola a químicos de síntese. O uso destes químicos começou com a revolução industrial (séculos XVIII e XIX) mas sofreu um grande impulso no pós-II Guerra Mundial quando os produtos de síntese utilizados no fabrico de munições e na luta química foram transformados em fertilizantes e inseticidas poderosos.
Estes desenvolvimentos conduziram à vulgarização do uso dos fertilizantes e dos pesticidas na agricultura, a par da generalização da irrigação a grande-escala. Foi em resposta estas alterações das práticas tradicionais que surgiu a Agricultura Biológica cujo objetivo é restaurar o equilíbrio perdido como resultado do rápido desenvolvimento tecnológico, que teve custos ambientais.
Em contraste com os métodos agrícolas mais modernos, a Agricultura Biológica apresenta-se uma alternativa “naturalista” que se baseia no uso da rotação de culturas, de estrume e composto como adubo e do recurso a métodos biológicos, culturais e físicos de controlo de pragas, rejeitando o recurso a químicos de síntese com efeitos nocivos para o Ambiente.

A notoriedade da Agricultura Biológica foi crescendo timidamente nas décadas que se seguiram aos seu aparecimento, tendo em 1972 sido fundada a Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Biológica (International Federation of Organix Agriculture Movements – IFOAM) que foi a responsável pela criação dos padrões pelos quais se regem as práticas de Agricultura Biológica a nível mundial.
Mas foi a partir da década de 1990 que a Agricultura Biológica começou a ganhar mais notoriedade, acompanhando a crescente consciencialização da sociedade no que diz respeito aos impactos da Agricultura convencional no Ambiente, e simultaneamente o crescente desejo de uma reaproximação da Natureza, que conduziu ao aumento da procura de produtos mais “naturais”.

A atualidade em números
a) A Agricultura Biológica no mundo
Segundo dados do Research Institute of Organic Agriculture e da International Federation Organic Movements (FiBL e IFOAM) relativos a 2010, a área mundial de cultivos de Agricultura Biológica é de 37 milhões de hectares - mais do triplo do registado em 1999, e que corresponde a um total de 1,6 milhões de produtores.
Do total global, 12,1 milhões de hectares (32,8%) localizam-se na Oceânia, 10 milhões de hectares (27,0%) na Europa, 8,4 milhões de hectares (22,7%) na América Latina, 2,8 milhões de hectares (7,5%) na Ásia, 2,7 Milhões de hectares (7,2%) na América do Norte e 1,1 milhões de hectares (2,9%) em África.
A nível local, a Austrália é o país com maior área de cultivos dedicados à Agricultura Biológica (12 milhões de hectares), seguida da Argentina (4,18 milhões de hectares) e dos Estados Unidos (1,95 milhões de hectares).
Globalmente, a área em que se pratica Agricultura Biológica representa 0,9% da área de cultivos agrícolas global, mas nem todas as regiões contribuem da mesma maneira, com a Oceânia a ser o território continental que mais se destaca, onde 2,9% das terras agrícolas são alvo de Agricultura Biológica, seguida da Europa (2,1%) e da América Latina (1,4%), encontrando-se a África (0,1%) e a Ásia (0,2% no extremo oposto).
No que diz respeito aos países/territórios, aquele que mais se destaca no que diz respeito à representatividade da SAU (proporção da Superfície Agrícola Útil – SAU) de Agricultura Biológica relativamente à SAU global, é o das Ilhas Malvinas (35,9%), seguido do Liechtenstein (27,3%) e da Áustria (19,7%).

Relativamente à ocupação das terras dedicadas à Agricultura Biológica em 2010, verifica-se um predomínio das prados/pastagens permanentes (23,7 milhões de hectares), seguido das culturas arvenses - 6,1 milhões de hectares (17% do total), dos quais 2,5 milhões de hectares são de cereais, 2 milhões de hectares de forragens verdes, 0,5 milhões de hectares de oleagináceas, 0,3 milhões de hectares de proteaginosas e 0,2 millhões de hectares de produtos hortícolas. As culturas permanentes ocupavam, em 2010, 2,65 milhões de hectares (7%) – a mais importante das quais era o café (0,64 millhões de hectares), seguido do olival (0,5 milhões de hectares), do cacau (0,29 milhões de hectares), dos frutos secos (0,26 milhões de hectares) e, finalmente, da vinha (0,22 milhões de hectares).
Em relação em 2009, verificou-se uma redução de 50 mil hectares na área onde se pratica Agricultura Biológica, o correspondente a 0,1% da área dedicada à Agricultura Biológica, sendo que os únicos continentes onde esta área cresceu foram a Europa e a África.
Esta redução contrasta com o aumento, a nível mundial, de 8,7% da área dedicada à Agricultura Biológica entre 2007 e 2008. Neste período, o país que registou um maior crescimento foi a Argentina, seguido das ilhas Malvinas e, depois, da Espanha.

b) A Agricultura Biológica na Europa
No continente europeu a área de território devotado à Agricultura Biológica cresceu, entre 2009 e 2010, 800 mil hectares (8,7%) atingindo, como já foi referido, um total de 10 milhões de hectares (2,1% da superfície agrícola útil), que representa um universo de 277 362 operadores (em 2009 eram 257 641).
Em 2010 os países com maior proporção de Agricultura Biológica relativamente à Superfície Agrícola Útil (SAU) total eram a Espanha 1,5 milhões de hectares), seguida da Itália (1,1 milhões de hectares e da Alemanha (com mais de 0,99 milhões de hectares), sendo 6 os países em que a proporção de SAU da Agricultura Biológica era superior a 10%: Liechtenstein (27,8%), Áustria (19,7%), Suécia (14,1%), Estónia (12,5%), Suíça (11,4%) e República Checa (10,5%).
Entre 2009 e 2010, os maiores aumentos na área de Agricultura Biológica ocorreram na França, Polónia e Espanha, por esta ordem, que constituem também aos países onde a área de Agricultura Biológica mais cresceu a nível mundial.
No período anterior de 2007-2008, 3 dos 10 países com maior crescimento da SAU de Agricultura Biológica também se situam no continente europeu: Espanha, Reino Unido e Alemanha. Por outro lado, dados do EUROSTAT revelam que no Universo de países da UE a área dedicada à Agricultura Biológica aumentou 21% entre 2005 e 2008.
Em 2008, a proporção dos diferentes tipos de culturas arvenses na UE27 era a seguinte (EUROSTAT):
Segundo o FiBL-IFOAM, a comercialização na Europa de produtos orgânicos em 2010 rondou os 19,6 biliões de euros, sendo o mercado alemão o mais, importante, seguido do francês e do Reino Unido.

c) A Agricultura Biológica em Portugal
As estatísticas da Agricultura Biológica em Portugal disponibilizadas pelo Ministério da Agricultura revelam que, ao contrário do que se verificou na Europa e no mundo em geral, se assistiu, a nível nacional, a um retrocesso do setor nos últimos anos, que é visível tanto na redução do número de produtores agrícolas que a praticam, bem como a área de cultivos que representam entre 2007 e 2009.
Com efeito, os dados oficiais da administração central revelam que, em 2009, eram 1651 produtores que praticavam Agricultura Biológica, o que representa um decréscimo relativamente a 2008, ano em que foram contabilizados 1902 produtores que, por sua vez eram já menos do que em 2007, em número de 1949.
De forma semelhante, de 2007 para 2009 assistiu-se a uma diminuição da área agrícola dedicada à Agricultura Biológica que passou de 233 475 hectares para 214 442 hectares em 2008 e 157 179 hectares em 2009.
Este período de regressão do número de produtores e da área de Agricultura Biológica, acontece após um período de estagnação (2005-2006), que tinha sido antecedido por um período de crescimento desde que há registos (1994) – a exceção é o período 1999-2000 em que se assistiu também a uma estagnação.
A INTERBIO – Associação Interprofissional para a Agricultura Biológica identifica acontecimentos-chave para interpretação destas estatísticas: o primeiro foi a interrupção dos apoios (através da medidas agroambientais) à Agricultura Biológica no ano 2000; e o segundo foi aparecimento dos apoios para a produção integrada, em 2007 que motivou, logo nesse ano, a transferência inúmeros produtores para o sistema de produção integrada, movimento que se acentuou nos dois anos seguintes.
No que diz respeito à importância dos diferentes tipos de culturas observa-se uma importante variação desde 1994 a 2009 como se pode constatar no gráfico seguinte:
No fim do período considerado (2009) verifica-se um claro predomínio das pastagens que ocupam 72% da área dedicada à Agricultura Biológica. O cultivo que, a seguir, regista uma maior representatividade é o olival (9%), seguido das plantas aromáticas (7%), das culturas arvenses e dos frutos secos (4% em cada caso), do pousio (2%), da vinha e da fruticultura (1% em cada caso), não chegando a horticultura a ocupar 1% dos terrenos onde se pratica Agricultura Biológica.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Agricultura Orgânica e Biológica

As observações feitas no início do século pelo botânico e agrónomo inglês Sir Albert Howard em relação ao tipo de agricultura praticada pelos camponeses indianos, deram início a estas duas correntes que, apesar dos nomes distintos são muito semelhantes, podendo ser analisadas conjuntamente. Os estudos realizados na Índia sobre compostagem e adubação orgânica, resultaram posteriormente na publicação do livro "Um Testamento Agrícola", com relevantes referências bibliográficas para os praticantes do modelo orgânico. Outro pesquisador que também contribuiu para estas correntes é o francês Claude Aubert que fez estudos sobre o acúmulo do agrotóxico DDT em leite materno e sobre a acumulação de nitrato (substância cancerígena presente nos adubos altamente solúveis) nas águas do subsolo.

Princípios:
Segundo Aubert, a fertilidade dos solos deve ser construída a partir de um amplo suprimento de matéria orgânica e, sobretudo na manutenção de elevados níveis de húmus (matéria orgância já decomposta e estabilizada) no solo. A base científica desta corrente se assenta nas seguintes práticas: rotação de culturas, manejo e fertilização do solo. Assim como as correntes, natural e biodinâmica o princípio gerador da estabilidade e saúde das plantas, encontra-se no manejo da matéria orgânica como prática geradora de boas fertilidade e estruturação do solo. Também como nas outras correntes agroecológicas, o solo é considerado um "organismo complexo", repleto de seres vivos (minhocas, bactérias, fungos, formigas, cupins, etc) e de substâncias minerais em constante interação e inter-dependência, o que significa que ao se manejar um aspecto (adubação, por exemplo), faz-se necessário considerar todos os outros (diversidade biológica, qualidade das águas subterrâneas, susceptibilidade à erosão, etc.) de forma conjunta. Este é o princípio da "visão sistémica" da agricultura (também chamado"holismo"), o qual prescreve que a propriedade agrícola deva ser considerada em todas as suas dimensões (produtiva, ecológica, social, económica, etc.).

A corrente biodinâmica da agricultura teve seu início num ciclo de 8 palestras feitas na década de 1920, na Polónia, pelo filósofo Rudolf Steiner, que formulou uma nova filosofia para ser aplicada na medicina, na pedagogia e nas artes: a antroposofia, a qual pretende captar através de métodos experimentais, fatos supra-sensoriais, ou elementos de natureza espiritual que estão além da matéria no meio natural.
 
Rudolf Steiner (1861/1925)
Princípios: De acordo com esta corrente, a saúde do solo, das plantas e dos animais dependem da sua conexão com as forças de origem cósmica da natureza. Para restabelecer o elo de ligação entre as formas de matéria e de energia presentes no ambiente natural, é preciso considerar a propriedade agrícola como um organismo, um ser indivisível. Através do equilíbrio entre as várias atividades (lavouras, criação de animais, uso de reservas naturais),busca-se alcançar maior independência possível de energia e de materiais externos à fazenda. Este é o princípio chamado de "auto-sustentabilidade", que vale tanto para a agricultura biodinâmica como para todas as outras correntes da Agroecologia.

Mokiti Okada (1882-1955), fundador da religião que originou a Igreja Messiânica propôs, em 1935, um sistema da produção agrícola que tomasse a natureza como modelo: surgiu, daí , a corrente chamada "agricultura natural".

O solo que deixaremos para nossos filhos depende de nós

Princípios: De acordo com Mokiti Okada, a harmonia e prosperidade entre os seres vivos é fruto da conservação do ambiente natural, a partir da obediência às leis da natureza. Através do princípio da reciclagem dos recursos naturais presentes na propriedade agrícola, o solo se torna mais fértil pela ação benéfica dos microorganismos (bactérias, fungos) que decompõem a matéria orgânica libertando nutrientes para as plantas. Assim, o solo, o alimento e o ser humano recuperam a saúde e a vitalidade. É o princípio: solo sadio =plantas e animais sadios = ser humano sadio, válido para a corrente natural e para todas as outras modalidades agroecológicas de agricultura.

A permacultura, também chamada de "agricultura permanente", começou por volta de 1975, 1976, com as ideias de Bill Mollison na Austrália sobre um modo diferente de se pensar a disposição das espécies vegetais, mais próximo dos ecossistemas naturais. Viajando para os Estados Unidos, Bill e outros pioneiros difundiram as suas teorias até conseguirem a construção de um Centro Rural de Educação, primeira instituição oficial da permacultura neste país.

Princípios:
Nesta corrente se procura praticar uma agricultura da forma mais integrada possível com o ambiente natural, imitando a composição espacial das plantas encontradas nas matas e florestas naturais. Envolve plantas semi-permanentes (mandioca, bananeira) e permanentes (árvores frutíferas, madeireiras, etc), incluindo a actividade produtiva de animais. Trata-se, pois, de um sistema "Agrosilvopastoril", ou seja, que busca integrar lavouras, com espécies florestais e pastagens e outros espaços para os animais, considerando os aspectos paisagísticos e energéticos, na elaboração e manutenção destes policultivos (diversas culturas convivendo no mesmo espaço).

Saber mais:
Albert Howard