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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Rede Mais Sombria: no interior dos cantos mais ocultos da internet para salvar crianças

Este documentário relata a perspetiva de agentes de infiltração online e analistas de várias agências internacionais que dedicam as suas vidas a combater as redes mais extremas de abuso sexual de menores na dark web. Através de relatos na primeira pessoa, o documentário detalha investigações marcantes:

  • O Caso "Lucy": Uma investigação minuciosa que durou meses. A equipa conseguiu localizar uma criança abusada nos EUA através da análise detalhada de elementos em segundo plano nas imagens — especificamente, o modelo de um conjunto de mobília e a identificação do tipo exato de tijolo usado na parede do quarto (Flaming Alamo), o que permitiu delimitar a busca geográfica e prender o agressor.

  • A Operação "Twinkle": A caça a um dos administradores do fórum Babyheart, dedicado ao abuso de bebés. O suspeito foi traído pelo uso inadvertido de uma expressão idiomática traduzida do português ("custou-me os olhos da cara") e pela identificação de uma condição de pele visível nas fotos da sua mão. Acabou por ser detido numa zona rural em Portugal, onde tinha enterrado os discos rígidos com as provas.

  • O Caso "Lubasa": A detenção, no Brasil, do "mestre marionetista" responsável pela gestão técnica e alojamento de vários dos maiores fóruns criminosos da dark web.

  • O Resgate de LBO (Lover Boy Only): O caso urgente de um utilizador que raptou um menino de sete anos na Rússia. Graças ao trabalho transfronteiriço e à análise de base de dados, a equipa identificou o agressor (Dmitriy Kopylov) através do cruzamento de dados sobre esquizofrenia, a profissão do irmão e a morte da mãe. O rapaz foi resgatado com vida após mais de 50 dias em cativeiro.

O documentário também aborda o profundo impacto psicológico e o trauma secundário sofrido pelos próprios investigadores (como depressão, isolamento e stresse pós-traumático) devido à exposição contínua a conteúdos de extrema violência.

Saber mais:

  1. A prisão de brasileiro que abalou rede global de abusadores de crianças
  2. Greg Squire in Storyville: The Darkest Web

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Green corruption: uma ameaça ao meio ambiente


Combater a corrupção verde é uma questão crítica para a sustentabilidade ambiental

Segundo a Interpol, entre 2006 e 2016, crimes ambientais cresceram entre 5% e 7% ao ano, uma taxa de crescimento duas a três vezes maior que o PIB global1, tornando-se a terceira atividade mais lucrativa para o crime organizado transnacional e gerando até US$ 280 biliões anualmente2. Esses crimes são atrativos para os criminosos pois apresentam atividades de risco relativamente baixo com alta recompensa, em grande parte devido à limitação dos esforços de fiscalização ambiental. A procura por produtos de vida selvagem traficada permanece alta e as penalidades criminais não são tão severas quanto para outras atividades ilícitas3. Assim, o combate à corrupção verde tem se tornado uma questão crítica para a sustentabilidade ambiental.

Cunhado pelo Basel Intitute on Governance, o termo "Green Corruption" (corrupção verde), refere-se à corrupção e crimes financeiros que causam danos ao meio ambiente e à biodiversidade 4. Esse tipo de corrupção está associado a atividades ilícitas relacionadas a recursos naturais, como tráfico de vida selvagem, exploração ilegal de madeira, pesca predatória, mineração e comércio de resíduos, todos impactando ecossistemas e comunidades locais.

Embora essa prática afete países de todas as regiões, seu impacto é particularmente grave em nações mais pobres, onde a regulamentação é mais fraca e a fiscalização limitada. Esses crimes frequentemente envolvem suborno, lavagem de dinheiro e outros delitos financeiros que facilitam atividades ilegais em larga escala. Além disso, causa danos significativos aos ecossistemas locais justamente em um momento em que o mundo está intensificando os esforços para combater as mudanças climáticas e as ameaças à biodiversidade5.

Dada a abrangência desses crimes, o combate à corrupção verde demanda uma abordagem multissetorial e coordenada, abrangendo desde o fortalecimento de agências de aplicação da lei até a colaboração com empresas e comunidades locais. Nesse contexto, as empresas de todos os setores têm um papel essencial, que vai além de suas práticas internas, estendendo-se a suas cadeias de fornecedores e parceiros comerciais. A integridade na cadeia de valor é fundamental para garantir que os recursos naturais utilizados não estejam ligados a atividades ilícitas, como exploração ilegal de madeira e pesca predatória6. Ao incorporar práticas de due diligence ambiental, monitoramento e transparência ao longo da cadeia de valor, as empresas podem evitar a entrada de produtos ou materiais obtidos de forma ilegal, reduzindo assim o impacto da corrupção verde nos ecossistemas e promovendo uma economia mais sustentável.

Estima-se que trilhões de dólares em fluxos ilícitos estejam envolvidos anualmente nessas atividades. O Banco Mundial, por exemplo, estima que as perdas econômicas anuais resultantes de atividades ilícitas relacionadas a crimes ambientais alcancem entre US$ 1 a 2 triliões7. Assim, além de ser um imperativo moral, enfrentar esses crimes é uma necessidade econômica.

Discussão do tema pela primeira vez no B20 Brasil
A pauta da corrupção verde foi tratada como prioridade pela primeira vez no B20, sediado e presidido pelo Brasil em 2024, impulsionada pela força-tarefa de Integridade e Compliance, que destacou sua importância tanto para o País quanto para a comunidade internacional8. Como um dos países com maior biodiversidade do mundo e com 60,1% da Amazônia9 dentro de suas fronteiras, o Brasil possui uma responsabilidade única na proteção de seus recursos naturais. No entanto, práticas corruptas como a exploração ilegal de madeira e mineração ilegal têm levado a perdas irreparáveis nos biomas brasileiros.

Como dispõe o Instituto Igarapé, o desmatamento é apenas a parte visível do crime ambiental. A extração de madeira ilegal é alimentada por redes criminosas transnacionais que utilizam licenças fraudulentas, empresas de fachada em paraísos fiscais e documentos falsificados para integrar recursos ilícitos ao sistema financeiro global. No Brasil, a Amazônia representou 61% do desmatamento nacional no ano de 2020, o que demonstra que o combate a esses crimes não só é uma questão ambiental, mas também de reputação e segurança econômica para o País10. A falta de rastreamento eficaz e a corrupção facilitam esse ciclo, tornando urgente uma ação coordenada para preservar a biodiversidade e garantir um futuro sustentável.

Assim, dado o cenário atual, a força-tarefa de Integridade e Compliance destacou que as práticas corruptas que promovem desvios como o desmatamento ilegal e a exploração predatória são desafios que precisam ser abordados tanto em nível nacional quanto internacional, com a colaboração de governos, empresas e sociedade civil.

O que o B20 demandou ao G20
Durante o B20 Brasil, a força-tarefa de Integridade e Compliance propôs ao G20 ações claras para combater a corrupção ambiental. As recomendações incluem: a convergência de frameworks de sustentabilidade para melhorar a interoperabilidade e garantir transparência nas divulgações, com uma atenção especial às pequenas e médias empresas (MSMEs); a promoção da Ação Coletiva, incentivando a colaboração entre os setores público, privado e sociedade civil para fortalecer a integridade nas cadeias de valor; além da proposta de transparência e accountability a fim de combater a corrupção relacionada à transição verde, crimes ambientais e violações de direitos humanos. Essas propostas visam fortalecer a transparência e a governança, incentivando que o G20 adote diretrizes para que as empresas e os governos se comprometam em combater práticas ambientais ilegais e sustentem os compromissos de desenvolvimento sustentável.

O Policy Paper completo pode ser lido aqui.

Desdobramentos no G20: compromisso ministerial com o combate a crimes ambientais
O combate à corrupção associada a crimes ambientais ganhou espaço na agenda internacional com a reafirmação de compromissos importantes pelo G20. Na Declaração Ministerial Anticorrupção11, os países membros destacaram a relevância da Resolução 8/12 da Conferência dos Estados Partes da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, que trata da "Prevenção e combate à corrupção relativas a crimes que impactam o meio ambiente".

Nesse contexto, o G20 reconheceu a gravidade dos impactos desses crimes e reforçou seu compromisso em fortalecer estruturas anticorrupção, promovendo práticas éticas, integridade e transparência. A declaração também sublinha a importância de prevenir conflitos de interesse que possam facilitar atividades ilícitas relacionadas ao meio ambiente, alinhando os esforços internacionais para proteger ecossistemas e combater redes criminosas transnacionais.

Ao reafirmar esses compromissos, os países-membros demonstram que a corrupção verde não é apenas uma ameaça ao meio ambiente, mas também um desafio significativo para a estabilidade econômica, a justiça social e os esforços globais contra as mudanças climáticas. Essa posição do G20 destaca a necessidade de coordenação entre governos, empresas e organizações da sociedade civil, promovendo uma abordagem coletiva para fortalecer a governança global e implementar soluções sustentáveis e inclusivas.

Embora as recomendações do B20 ao G20 sejam direcionadas aos governos, a comunidade empresarial também tem um papel essencial no combate à corrupção verde. Algumas ações práticas que podem ser adotadas incluem:
  1. Implementar due diligence ambiental: empresas podem adotar processos rigorosos de due diligence que identifiquem e monitorem riscos de corrupção ambiental em suas cadeias de fornecedores.
  2. Promover transparência e divulgação: adoção de padrões transparentes de divulgação ambiental e relatórios frequentes sobre impacto ambiental e conformidade com regulações ambientais, incluindo os padrões sugeridos pelo B20.
  3. Investir em programas de treinamento e conscientização: capacitar funcionários e fornecedores sobre os riscos e as consequências da green corruption pode ajudar a criar uma cultura de integridade dentro da organização e na cadeia produtiva.
O combate à corrupção verde é um tema de alta relevância e urgência, pois as consequências da exploração ambiental ilegal vão além dos danos ao ecossistema: elas ameaçam a estabilidade econômica, agravam a desigualdade social e intensificam a crise climática global. A adoção das recomendações do B20 pelo G20, mas também pela própria comunidade empresarial, representa uma oportunidade essencial para estabelecer padrões globais que incentivem práticas de negócios responsáveis e garantam a proteção dos recursos naturais para as futuras gerações. A colaboração entre empresas, governos e a sociedade civil é crucial para interromper as redes criminosas envolvidas em crimes ambientais e promover um desenvolvimento sustentável.

Fontes: