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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mais de 35% das novas páginas da web já são criadas por inteligência artificial

Relatórios e estudos indicam que a inteligência artificial (IA) está a transformar a internet. Mais de 35% das novas páginas da web já são produzidas por IA, enquanto mais da metade do tráfego online é gerada por robôs e sistemas automatizados, cenário que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico da web aberta.

Segundo uma reportagem do portal Gizmodo, a adoção crescente de ferramentas de IA generativa coincide com mudanças na Pesquisa do Google. Hoje, respostas produzidas por IA aparecem no topo dos resultados para diversas consultas, reduzindo a necessidade de os utilizadores acederem a páginas da web. Um estudo da Growth Memo aponta que 75% dos utilizadores que utilizam o Modo IA permanecem a conversar com o chatbot em vez de clicar em hiperligações de sites. A tendência preocupa empresas de comunicação social e produtores de conteúdo porque o modelo tradicional da internet depende do tráfego gerado pelos motores de pesquisa. Ao aceder a páginas da web, os utilizadores visualizam anúncios que financiam jornalistas, criadores e outros profissionais responsáveis pela produção de conteúdo original. Com menos visitantes humanos e mais respostas entregues diretamente por IA, esse modelo passa a enfrentar novos desafios.

IA produz, IA consome: a internet está morta?
Outro levantamento mostra que mais de 50% do tráfego da internet atualmente não é gerado por pessoas, mas sim por sistemas automatizados. O dado foi divulgado num relatório da Cloudflare publicado este mês e reforça que os robôs já representam uma parcela significativa da atividade online.

O Google, no entanto, contesta parte das interpretações sobre os impactos dos seus recursos de IA. Em nota enviada ao Gizmodo, um porta-voz da empresa afirmou que o estudo segundo o qual 75% dos utilizadores permanecem no Modo IA "não era representativo", argumentando que os participantes receberam "tarefas forçadas e não naturais que provavelmente influenciaram o seu comportamento". Segundo a companhia, a pesquisa não refletia consultas nem hábitos reais dos utilizadores. A empresa também defendeu a precisão dos seus recursos baseados em IA. Em comunicado ao portal, o Google afirmou: "Testámos rigorosamente a qualidade destes recursos usando amostras estatisticamente significativas de consultas representativas de utilizadores. As respostas são precisas na grande maioria das vezes e, quando erramos, usamos esses exemplos para aprimorar continuamente os nossos sistemas”.

Apesar da defesa da companhia, o Gizmodo relata que as respostas produzidas pelo Modo IA ainda apresentam erros factuais. Num teste feito pelo jornalista Mike Pearl, a ferramenta afirmou, de forma incorreta, que o presidente de Madagáscar seria conhecido pela alcunha "Andy" e inventou um suposto ex-chefe de governo de Montserrat. Após ser questionada, a própria IA reconheceu o erro e respondeu: "Está absolutamente correto, e peço desculpa por ter fornecido informações completamente incorretas na minha última resposta”. Para o Gizmodo, a evolução destas ferramentas também está a alterar o comportamento dos utilizadores. Em vez de procurar páginas publicadas por pessoas, cresce o hábito de fazer perguntas diretamente aos chatbots, que sintetizam a informação disponível na web. A mudança pode reduzir ainda mais o acesso aos sites originais e colocar pressão sobre um modelo que, durante décadas, sustentou financeiramente a produção de conteúdo na internet.

Ler mais:
  1. Cloudflare lança o Precursor para conter o tráfego automatizado através da análise contínua das sessões
  2. Cloudflare Introduces Precursor; One-Click Behavioral Defense Against Modern Bots

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Paul Krugman - Porque é que toda a gente odeia a IA


Muitos leitores estarão provavelmente parados na cena do vídeo acima: Eric Schmidt, o antigo CEO da Google, fez recentemente um discurso de formatura no qual anunciou a chegada da IA - e foi fortemente vaiado pelos estudantes. Isto não foi um caso isolado. Têm ocorrido vários incidentes semelhantes ultimamente, prova de que muita gente odeia agora genuinamente a IA.

Estaremos a falar de uma minoria barulhenta mas não representativa? Não. Uma sondagem recente do Pew Research Center revelou que os adultos americanos acreditam, por uma margem larga, que a IA será negativa para a sociedade e, por uma margem menor, que será má para eles a nível pessoal.


Mas não se sentirá o público sempre assim perante a inovação? A análise do Pew sobre as suas próprias conclusões deu a entender isso mesmo, declarando que:
"A nova tecnologia é frequentemente recebida com um certo grau de curiosidade, bem como de ceticismo. À medida que mais americanos incorporam a IA nas suas vidas, surgem preocupações generalizadas sobre o seu impacto, a sua velocidade e sobre se o governo a consegue regular adequadamente."
Contudo, as próprias sondagens passadas do Pew sugerem que, historicamente, a maioria dos americanos acolheu bem os avanços nas tecnologias de informação. Uma sondagem de 1999 sobre as atitudes face à internet (que ainda era uma novidade) revelou visões extremamente positivas sobre os computadores e a tecnologia, especialmente entre os utilizadores da internet.

E em 2015, quando as redes sociais eram ainda relativamente recentes, o Pew descobriu que 71% do público afirmava que as empresas tecnológicas "têm um impacto positivo na forma como as coisas estão a correr neste país", com apenas 17% a expressar uma opinião negativa.

O facto é que, no passado, os americanos geralmente recebiam as tecnologias emergentes com otimismo. O que explica, então, a atual hostilidade contra a IA? Permitam-me oferecer várias explicações que não se excluem mutuamente.

Primeiro, tememos que a IA faça coisas terríveis porque as empresas que a vendem nos disseram que ela faria coisas terríveis. No ano passado, por exemplo, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, declarou numa entrevista à Axios que a IA poderia eliminar metade dos empregos administrativos de nível de entrada e elevar o desemprego geral para uns impressionantes 20% no espaço de 1 a 5 anos.

Mais recentemente, Amodei e Sam Altman, da OpenAI, tentaram recuar nas suas previsões de um "apocalipse do emprego". Mas por que razão estiveram eles tão dispostos a promover visões apocalípticas em primeiro lugar? A resposta é dinheiro. Eles promoveram a ideia de que tinham uma tecnologia que iria transformar rápida e radicalmente a economia, em parte para deslumbrar Wall Street e garantir financiamento, e em parte para assustar as empresas, levando-as a correr para a adoção da IA por medo de ficarem para trás.

Só tardiamente se deram conta de que declarar que a sua tecnologia iria causar devastação geraria uma reação pública adversa, e que essa reação seria um problema sério. Na verdade, não é apenas o público em geral que está a atacar as empresas que usam ameaças de um apocalipse como estratégia de marketing. Até as grandes corporações dizem que já basta. Satya Nadella, CEO da Microsoft, que se tem mostrado visivelmente relutante em alinhar no fanatismo da IA, disse recentemente ao Wall Street Journal:
"Não se pode dizer, 'olhem, todos os empregos administrativos desapareceram, isto pode até ser uma arma e vamos usar toda a energia disponível para construir centros de dados'."
Segundo, muitas pessoas comuns veem a IA de forma negativa porque sentem que esta lhes está a ser imposta.
É verdade que muitas pessoas utilizam voluntariamente grandes modelos de linguagem (LLMs) por conveniência pessoal ou como ferramenta de produtividade profissional. Mas uma parte significativa do uso da IA não é voluntária. Esta manchete do Wall Street Journal de fevereiro diz tudo: "Empresas obrigam trabalhadores a usar ferramentas de IA".

Porque estão as empresas a fazer isto? Presumivelmente, acreditam que a IA irá aumentar a produtividade. Mas, de igual modo, estão a responder à pressão dos mercados financeiros, que estão a recompensar as empresas que adotam rapidamente a IA, aparentemente sem olhar a resultados demonstrados.

E enquanto os trabalhadores americanos são coagidos a usar a IA, os consumidores americanos estão a ser alimentados à força com IA, queiram ou não. O caso mais dramático é o da Google, que substituiu o seu motor de busca pela IA, sem oferecer a opção de desativar essa função. É preciso recorrer a truques obscuros ou a sites de terceiros para obter os resultados de pesquisa tradicionais.

Portanto, muitas pessoas sentem, com razão, que não estão a ter a liberdade de escolher se querem ou não usar a IA — não usar IA tornou-se difícil, tanto como trabalhador quanto como consumidor.

Terceiro, os centros de dados (datacenters) são uma lembrança altamente visível dos custos da IA. Os centros de dados ocupam extensões enormes de terra — um local proposto no Utah terá o dobro do tamanho de Manhattan. Eles devoram eletricidade e água. Quando geram parte da sua própria energia, criam uma enorme poluição local. Como seria de esperar, há uma oposição intensa à construção de centros de dados. De acordo com uma sondagem da Reuters/Ipsos, 57% os americanos — dois terços dos democratas e metade dos republicanos — opor-se-iam a um centro de dados no seu bairro. Apenas 14% apoiariam.

Quarto, mesmo antes do advento da IA, as empresas tecnológicas já tinham perdido a confiança do público. Ao longo dos anos, o Pew tem questionado regularmente o público sobre as suas opiniões acerca das empresas de tecnologia, perguntando se estas têm um efeito positivo ou negativo "na forma como as coisas estão a correr". Em 2015, a opinião pública sobre as tecnológicas era esmagadoramente positiva. Em 2022, o ano em que o ChatGPT foi lançado, essa boa vontade tinha-se evaporado.


Porque é que os americanos se viraram contra as empresas tecnológicas? Embora isso reflita certamente uma crescente consciencialização dos danos psicológicos e sociais causados pelas redes sociais, muito deve-se também à "merdificação" (enshittification) dos produtos tecnológicos.

Finalmente, a IA está fortemente ligada, na mente do público, aos oligarcas tecnológicos que a estão a impulsionar. Há uma perceção generalizada da crescente concentração de riqueza e poder no topo, e de como isso está a distorcer a nossa política e a prejudicar a nossa sociedade. À exceção dos fiéis do movimento MAGA, os americanos apoiam esmagadoramente políticas governamentais para reduzir a desigualdade de riqueza.



E a IA é amplamente vista, com boas razões, como uma tecnologia que irá aumentar a concentração de riqueza no topo. De facto, como referi, as próprias empresas de IA já nos disseram que a tecnologia terá efeitos extremamente negativos nos trabalhadores.

Existem, portanto, múltiplas razões que se reforçam mutuamente para o público ver a IA de forma negativa. E não, isto não é o ceticismo normal diante da mudança. Esta reação adversa intensa é especial.

E esta reação já está a ter grandes consequências políticas. É verdade que a indústria da IA, fiel ao seu estilo, tem injetado dinheiro nas eleições num esforço para impulsionar políticos amigáveis e derrotar os críticos. Mas a maioria destes esforços falhou. Na verdade, aceitar dinheiro da IA ou estar associado à tecnologia em geral está a começar a parecer politicamente tóxico.

Há um forte elemento de justiça poética nesta reviravolta. A indústria da IA tornou-se deliberadamente ameaçadora como estratégia financeira, acreditando que os mercados recompensariam a aparência de estar na "vanguarda radical". Ao fazê-lo, no entanto, a tecnologia tornou-se altamente impopular. E mesmo numa era em que o dinheiro compra o poder demasiadas vezes, a opinião pública importa.

Perdeu tudo: Musk não é mais trilionário após ações da SpaceX caírem

Menos de duas semanas depois da estreia da SpaceX na Bolsa de Nova Iorque, as ações da empresa afundaram, numa altura em que os mercados recuam nas grandes tecnológicas. Elon Musk viu 350 mil milhões de dólares, cerca de 306 mil milhões de euros, desaparecerem do seu património líquido.

As ações da SpaceX dispararam depois da Oferta Pública Inicial de 12 de junho, subindo de um preço de abertura de 150 dólares para um máximo histórico ligeiramente acima dos 225 dólares — o que levou a capitalização bolsista da empresa a aproximar-se dos 3 biliões de dólares, e tornou Elon Musk o primeiro trilionário da História.

Segundo análise da ONG humanitária Oxfam, ele será mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial juntos, cerca de 3,8 bilhões de pessoas.

Se Musk gastasse 1 milhão de dólares por dia, levaria 2.740 anos para gastar 1 trilhão de dólares, supondo que esse valor não rendesse nenhum juro.

"Essa concentração extrema de riqueza é sintomática de décadas de políticas pró-bilionários que lhes permitiram ditar as regras econômicas a seu favor", afirmou a Oxfam em nota.

Nabil Ahmed, diretor sénior de justiça económica da Oxfam América, disse que a ascensão do magnata ao status de trilionário "é um novo marco para a oligarquia e um dia sombrio para a democracia".

Mas, nos dias seguintes, muitos investidores começaram a perder confiança, dissipando centenas de milhares de milhões de dólares em valor à medida que as ações desciam - primeiro lentamente, depois com uma aceleração cada vez mais acentuada.

Só na segunda-feira, as ações afundaram quase 17%, o pior desempenho diário da empresa até à data, nota o Futurism.

Na manhã de terça-feira, a viagem inaugural de 11 dias da SpaceX em bolsa ficava simbolicamente encerrada com as ações a caírem abaixo do preço de abertura, atingindo um mínimo histórico pouco acima dos 147 dólares.

Por outras palavras, a SpaceX perdeu oficialmente todos os ganhos registados desde a entrada em bolsa. Mais tarde, as ações recuperaram para valores intermédios da casa dos 150 dólares, um nível que teria sido impensável apenas alguns dias antes.

Com a queda das ações da SpaceX, 350 mil milhões de dólares desapareceram do património líquido de Elon Musk — que a Forbes estima que tenha atingido, após a OPI e a valorização inicial, os 1,4 biliões de dólares.

Saber mais:

Análise
A recente queda da SpaceX, que perdeu mais de 600 mil milhões de dólares em valor de mercado num espaço de três dias, representa um evento de proporções históricas que cruza a volatilidade financeira com a alta geopolítica. Apesar do impacto numérico impressionante, que equivale à economia inteira de vários países, a empresa ainda retém uma capitalização superior a dois biliões de dólares, mantendo-se acima do preço da sua recente OPI. Para compreender este fenómeno, é necessário analisar o cenário através de duas lentes interligadas: a económica e a política.

Do ponto de vista económico, este recuo acentuado reflete uma forte correção de mercado após a euforia inicial da OPI. Um dos principais fatores técnicos para esta oscilação foi a baixa flutuação de ações no mercado, uma vez que apenas uma pequena percentagem do capital total da empresa foi disponibilizada para negociação pública. Quando a oferta é muito reduzida e a procura por parte de pequenos investidores é maciça, o preço sobe de forma artificialmente rápida, mas o reverso da medalha é que qualquer movimento de venda em massa faz o valor desabar com o mesmo impacto. Além disso, o grande gatilho para a desconfiança dos investidores foi o anúncio de que a SpaceX irá emitir títulos de dívida para angariar pelo menos 20 mil milhões de dólares, com o objetivo de refinanciar empréstimos de curto prazo associados à aquisição e integração da xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk. Como a SpaceX passou a ser avaliada também como um conglomerado de inteligência artificial, a empresa acabou por ser severamente castigada pelo ceticismo geral que atualmente afeta o setor tecnológico global, onde persistem receios de uma bolha tecnológica e de potenciais subidas de juros.

No plano político, o tombo financeiro ganha contornos ainda mais complexos devido ao papel estratégico que a SpaceX desempenha na infraestrutura de segurança e exploração espacial dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, esta perda afetou diretamente a fortuna pessoal de Elon Musk, retirando-lhe o estatuto temporário de trilionário, o que tem impacto na sua capacidade de autofinanciamento e na sua influência geopolítica direta, frequentemente exercida através de tecnologias como a rede Starlink. Em segundo lugar, o governo norte-americano, através da NASA e do Pentágono, depende quase exclusivamente da SpaceX para missões críticas de Defesa e exploração espacial. Uma volatilidade financeira desta magnitude numa empresa que detém um monopólio de infraestrutura vital gera apreensão em Washington, levantando dúvidas sobre se o endividamento para financiar projetos de inteligência artificial poderá, a longo prazo, desviar o foco dos programas espaciais essenciais. Por fim, ao misturar a atividade aeroespacial fortemente regulada com investimentos de alto risco em inteligência artificial, Musk atrai um escrutínio redobrado por parte de reguladores e opositores políticos, que questionam a enorme concentração de contratos estatais nas mãos de uma entidade privada exposta a tanta volatilidade. Em suma, esta perda bilionária não sinaliza a falência da SpaceX, mas sim um ajuste drástico de expectativas que prova como as finanças privadas, a inteligência artificial e a segurança nacional estão hoje indissociavelmente ligadas.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quem detém mais satélites? Fica claro quem manda na órbita da Terra


O mundo mudou muito nesta última década. E as disputas pelo controlo da informação passaram para o fundo do mar, mas, sobretudo, para a órbita da Terra. Hoje, os satélites tornaram-se a espinha dorsal da moderna economia espacial. Desde a internet de banda larga à observação da Terra, a infraestrutura orbital suporta agora indústrias muito para além do setor aeroespacial. Então, quem tem mais satélites no espaço?

Não há dúvidas que os EUA lideram não só a corrida espacial, mas também o espaço em volta da Terra. Como tal, e na preparação do próximo grande comércio global, são empresas americanas que estão na liderança deste segmento.

Para percebermos, de forma mais concreta, quem domina a órbita do planeta, um gráfico, de autoria da Global X Canada, permite perceber quem detém mais satélites. A informação tira partido de dados da AEI Space Data Navigator.


Que operadores detêm mais satélites?
A SpaceX domina claramente a contagem global de satélites, com 10.262 satélites operacionais. Isso representa mais de 16 vezes os 632 satélites da OneWeb, o segundo maior operador identificado.

Posição Operador de satélites Número de satélitesSpaceX - 10.262 satélites
OneWeb - 632 satélites
National Reconnaissance Office - 285 satélites
Forças Armadas dos EUA - 244 satélites
Forças Armadas da China - 168 satélites
Planet Lab - 144 satélites
Forças Armadas da Rússia - 107 satélites
NASA - 90 satélites
Iridium - 80 satélites
Globalstar - 26 satélites
Outros - 3.409 satélites


O ranking mostra a rapidez com que as redes privadas cresceram desde o início da corrida espacial.

Organizações públicas como a NASA e forças militares nacionais operam agora apenas uma pequena parcela, com apenas 894 satélites entre os proprietários identificados na base de dados.

A vantagem de escala da Starlink

A SpaceX opera a Starlink, a maior frota de satélites alguma vez colocada em órbita. Só a sua dimensão representa cerca de dois terços dos 15.447 satélites apresentados na base de dados.

Em vez de lançar apenas alguns satélites de elevado valor, a Starlink aposta na escala. Como resultado, a rede tornou-se num exemplo marcante da infraestrutura orbital comercial.

Redes comerciais entram em órbita
A diferença entre a SpaceX e os operadores tradicionais assinala um importante ponto de viragem. As empresas passaram a deter e operar redes de satélites numa escala que anteriormente estava reservada aos governos.

Isto é relevante porque os satélites deixaram de ser apenas ativos de investigação governamental de nicho. Estão agora a tornar-se infraestrutura crítica para conectividade, dados e resiliência nacional.

A China já tem mais de 1.300 satélites ativos em órbita e continua a expandir rapidamente a sua presença espacial. Entre eles estão satélites militares, sistemas de navegação BeiDou, observação da Terra, comunicações e futuras redes de internet via satélite para competir com a Starlink. O objetivo de Pequim é claro: transformar o espaço numa infraestrutura estratégica para defesa, tecnologia e influência global.

Investir no espaço
À medida que as redes comerciais crescem, a infraestrutura orbital poderá tornar-se um tema de investimento cada vez mais relevante. Satélites, sistemas de lançamento e serviços espaciais fazem todos parte deste ecossistema em expansão.

A economia espacial já está a avançar para áreas como logística, agricultura, defesa e comunicações. Como resultado, os investidores poderão procurar cada vez mais exposição a empresas que impulsionam estas tendências.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Este é o livro do século segundo os utilizadores do Goodreads


Atualmente, o Goodreads é a maior plataforma digital dedicada aos livros e aos leitores. Com milhões de utilizadores em todo o Mundo. Esta é uma aplicação que permite registar leituras, dar classificações aos livros, escrever críticas e acompanhar a atividade de outros leitores, tornando-se numa rede social para amantes de livros.

Assim, regularmente, o Goodreads promove interações com os utilizadores. Em que os leitores podem escolher os seus livros favoritos, ou os mais esperados do ano. Neste caso, os utilizadores escolheram qual é, pelo menos até então, o livro do século.

Qual foi a escolha dos leitores do Goodreads?

“Cloud Atlas” saiu em 2004 e é uma obra de David Mitchell. A popularidade ou a distinção deste livro, é o facto de ser estruturalmente complexo, cruzando várias histórias ao longo de diferentes épocas.

São, então, seis narrativas distintas, em que cada uma é interrompida a meio e retomada mais tarde em ordem inversa. Ao longo do livro, temos histórias e géneros completamente diferentes. O autor aborda, por exemplo, o diário de um advogado no século XIX, rapidamente passa para um thriller contemporânea. Não esquece a comédia, mas também tem tempo para uma distopia futurista.

Apesar destas diferenças de estilo, todas as narrativas estão ligadas por temas comuns, como o poder, a exploração, a reincidência histórica e as consequências das ações individuais. A primeira história acompanha Adam Ewing, um notário americano que viaja pelo Pacífico e testemunha a exploração colonial e a escravatura.

O sucesso de Cloud Atlas
O que fascinou os leitores neste livro foi o facto de, apesar de ter histórias muito diferentes e em épocas distintas, elas acabarem por se cruzar em determinada altura, através de diários, cartas, livros ou filmes. Nesse sentido, há uma sensação de continuidade que agrada aos leitores.

Além disso, a forma como mistura géneros literários que não imaginávamos que se pudessem juntar. Conseguindo sempre explorar temas que são universais a todas as décadas.

Assim, “Cloud Atlas” é um livro que já ganhou vários prémios, além da sua popularidade com o público. Incluindo o British Book Awards Literary Fiction Award, o Richard & Judy Book of the Year Award e uma nomeação para o Nebula and Arthur C. Clarke awards.

A adaptação ao cinema
No Goodreads, “Cloud Atlas” conta com uma avaliação de 4.1 em 5. Uma avaliação quase perfeita dos leitores do Goodreads. Esta popularidade, deu origem a uma adaptação ao grande ecrã.

Para um filme com esta complexidade, não bastou um, mas três realizadores para o concretizar. Lana Wachowski, Tom Tykwer e Lilly Wachowski são os realizadores da adaptação de “Cloud Atlas”, que saiu em 2012.

Ao contrário do livro, o filme opta por uma montagem paralela em que as seis narrativas decorrem em simultâneo, com cortes constantes entre elas. Esta decisão torna a experiência mais dinâmica e acessível, mas também altera o ritmo e o impacto estrutural da obra original.

Nesse sentido, as reações ao filme foram divididas. Muitos elogiaram a ambição, a edição e a banda sonora, enquanto outros criticaram a complexidade e alguma irregularidade narrativa. Ainda assim, não lhe faltam grandes atores no elenco. Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant e Susan Sarandon são apenas alguns dos protagonistas do filme.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Manlio De Domenico - Resilience, not hype: what we are getting wrong about AI

O texto de Manlio De Domenico em "Complexity Thoughts" propõe uma reflexão crítica e fundamentada sobre o estado atual da Inteligência Artificial, afastando-se do ruído mediático habitual. O autor, um especialista em sistemas complexos, argumenta que o debate público está excessivamente polarizado entre o otimismo tecnológico cego e o medo existencial catastrófico, o que nos impede de ver os riscos reais e imediatos.

O ponto central da análise é a distinção entre a eficiência técnica e a resiliência sistémica. Enquanto a indústria foca em criar modelos de IA cada vez mais potentes e rápidos, De Domenico alerta para a "fragilidade" que estes sistemas podem introduzir na sociedade. De uma perspetiva científica, ele defende que não deveríamos estar apenas preocupados com o que a IA pode fazer, mas sim com a forma como ela interage com as infraestruturas humanas, podendo gerar pontos críticos de rutura se não for integrada com foco na robustez.

Segue a sua análise muito pertinente.

[Fonte, com infográficos e links para artigos científicos] 
If you have followed the recent clash between Anthropic and the Pentagon, you can recognize that it has been framed as a “morality play”: the dispute centered on whether Anthropic would relax safeguards that restrict uses of its models for mass domestic surveillance and fully autonomous weapons. One company resisted, another (openAI) accepted at some point, and the public argument quickly turned into a referendum on corporate ethics.

That matters, but I think it is not the deepest issue: the problem is not only whether one company “bends” and another does not. The deeper problem is that institutions are increasingly willing to delegate strategically consequential functions to systems that are statistical, opaque, fallible and controlled by very few private actors. This is a systems-design problem.

To be clear, I am not arguing that current AI systems are useless, since they are often very useful for uncountable tasks. I am arguing something narrower and more important: public discourse keeps treating performance as if it were understanding, prediction as if it were judgment and scale as if it were intelligence.

Even the scientific language here is far less settled than the marketing of your favorite AI-gurus suggests: I am not the first one to report this, and it is disheartening to being continuously exposed, nearly everywhere, to such a sloppy narrative.

A recent Nature Machine Intelligence editorial noted that terms such as intelligence, embodiment and consciousness are widely used but “notoriously difficult to define”. Melanie Mitchell, another authoritative and scientific voice on this matter, made a related point in Science: debates about AGI are often debates about incompatible concepts of intelligence itself, not merely about engineering timelines.

This is why I remain mostly unconvinced by the familiar apocalyptic narrative according to which AI, by itself, will soon become the agent of our destruction. In previous post I have discussed about this in detail:

Therefore, instead of technological singularity, I would bet on reaching an evolutionary stage in which our society becomes increasingly dependent on a technology that is ultimately unsustainable. This fact will force us to to either simplify our systems or face the potential collapse of our society.

The more plausible risk is more mundane and, for that reason, more dangerous: we are embedding these systems into tightly coupled social, administrative, military and informational infrastructures without first asking what happens when they fail, drift, are gamed or become too central to replace. Three mechanisms matter here.

1. We are confusing prediction with judgment
What is commonly called “AI” today is, in most high-visibility deployments, a family of large language models trained to predict likely continuations of sequences. The transformer architecture that made this leap possible was explicitly designed as a sequence model built around attention mechanisms1. That does not make the systems trivial: on the contrary, it explains why they can be astonishingly capable. But it does mean that we should be precise about what they are doing2 before we let institutions present them as substitutes for strategic reasoning. Let’s not conflate a statistical analysis with a cognitive function.

This distinction matters most in high-stakes settings: a system can be extremely effective at generating plausible outputs and still be unreliable in the way that matters for command, surveillance, intelligence triage or decision support in conflict. Anthropic itself justified its refusal in part by arguing that current systems are not reliable enough for fully autonomous weapons. Whatever one thinks of the company, that specific point is hard to dismiss as ideological grandstanding: it is an (honest) engineering claim about failure under uncertainty.
In other words, the relevant question is not whether these systems can impress us, but it is whether they deserve delegation: those are very different thresholds.

2. Centralization turns technical dependence into political dependence
Once a technology becomes infrastructural, governance follows architecture.
If a handful of firms supply the models, the cloud, the interfaces and the update pipeline through which critical institutions operate, then technical concentration becomes a form of political power. Whoever controls access, model behavior, service continuity, pricing and quality of service gains leverage over organizations that can no longer function without that stack.

This is not a speculative concern. In 2025 U.S. negotiators raised the possibility of restricting Ukraine’s Starlink access during broader geopolitical bargaining, and Elon Musk had previously ordered shutdowns of Starlink service in parts of Ukraine’s battlefield. Whatever the specific legal and diplomatic details, the systemic lesson is straightforward: when a critical communications layer is effectively governed by one private actor, questions of sovereignty become entangled with platform discretion.

The same logic applies to AI, and perhaps even more strongly: if strategic analysis, public administration, defense workflows or parts of scientific knowledge production begin to depend on a few model providers, then those providers do not merely sell tools, since they become gatekeepers of cognition at scale. That should trouble democracies regardless of one’s view of any single company.

This is the same systems argument I made in a previous post about conflict propagation:

The real question is often not who is right or wrong in a given episode, but how structure and process determine whether shocks remain local or spread across tightly coupled systems. AI centralization should be read in exactly those terms.

Once a strategic function becomes too dependent on a narrow technological layer, errors, pressures or discretionary choices no longer stay local: they propagate.

3. Hyper-centralization violates the basic logic of resilient systems
From biology to infrastructure, resilience rarely comes from one perfect component: it comes from diversity, redundancy, modularity and hierarchy.

Living systems do not survive because they are optimized around a single response to a single threat. They survive because they preserve multiple partially overlapping ways of functioning. In biology this is often described through modular organization and degeneracy: different components can support similar functions, which makes adaptation possible under shock.

Tightly coupled socio-technical systems become vulnerable when efficiency is purchased at the expense of diversity and replaceability.

This is not just a metaphor imported from biology for rhetorical effect: it is a general principle of complex systems. The classic work on interdependent networks showed how failures can cascade across coupled layers: robustness and resilience depend on architecture, not on optimism.

We have seen this repeatedly. For instance, the CrowdStrike incident showed how a fault in one widely deployed digital layer could propagate rapidly across transportation, finance, communications and resource-management systems. That event is a consequence of digital monoculture and interdependence, not as an isolated software bug.

A different but related example comes from crypto. Even systems built under the banner of decentralization can undergo emergent centralization under stress. The figures below make this visible:

Hype, transaction overload and panic coupled financial activity, online attention and social behavior in ways that produced fragility rather than resilience. Centralization, in practice, can emerge from dynamics even when it was not the design ideal. That is exactly why concentration risk should be treated as a systems property, not only as a market-structure statistic.

I think that this is the point that much of the current AI debate misses: the danger is not only bad outputs, it is in correlated dependence.

The practical implication
It is not “ban AI” nor the equally lazy alternative of “accelerate and adapt”: the relevant priority is to prevent monoculture in critical functions.
That means at least three things:
  1. keep humans meaningfully responsible for strategic decisions;
  2. avoid single-vendor dependence in essential public and military workflows;
  3. design institutions around diversity of tools, auditability, fallback pathways and graceful degradation rather than maximum short-term efficiency.
Of course, the goal is not to stop innovation: it is to stop confusing centralization with progress. Resilient societies are not built by finding one system to trust with everything; they are built by ensuring that no single system, and no single company, becomes too central to fail. “Too big to fail” is not a sign of strength in a healthy society; instead it is evidence that fragility has already been designed into the system.

1 The word sounds cognitive, almost psychological, and that is precisely why it should be handled carefully. In humans, attention is tied to perception, goals, context and conscious or unconscious selection. In transformers, “attention” is simply a mathematical mechanism for weighting relations among elements of an input sequence so that some tokens contribute more than others to the computation of the next token. The name is useful inside machine learning, but misleading in public discourse. It does not mean the system is focusing, understanding or attending in any human-like sense: it means that a function is assigning weights in a high-dimensional space to improve a statistical prediction.

2 The simplest way to explain a language model is to start from a Markov chain. In a Markov chain, the next state depends on the current state according to transition probabilities. For text, a toy version would say: after “good”, the word “morning” may be more likely than “screwdriver”. This is a bit crude, of course, because natural language depends on much longer context.
A large language model generalizes that idea: instead of using only the immediately previous token, it converts many tokens into numerical representations in a high-dimensional space, then uses attention mechanisms to estimate which parts of the context matter most for predicting the next token. The training objective remains predictive: given context, assign probability to the next token. In practice, repeating this at scale yields systems that can summarize, translate, code and maintain long-range coherence surprisingly well.
That is the source of their “power”: it is not, by itself, proof of understanding, judgment or intelligence in any settled scientific sense. This fact is so clear to the vast majority of computer scientists that my comment about this matter deserves no more than a footnote.
The gap between “very good at prediction” and “deserves strategic delegation” is precisely the gap that public discourse keeps trying to erase.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Google admite o óbvio: se a bolha da IA rebentar, ninguém se safa


Sundar Pichai, CEO da Alphabet, decidiu finalmente dizer aquilo que toda a gente no setor sabe, mas poucos admitem… Se a bolha da inteligência artificial rebentar, não há empresa que escape. Nem a Google.

Esta afirmação foi feita numa entrevista à BBC, numa altura em que as ações da Alphabet já duplicaram em sete meses e levaram a empresa aos 3.5 mil milhões de dólares em capitalização de mercado.

Curioso, porque Pichai descreveu o momento como “extraordinário”, mas avisa que há “irracionalidade” clara no mercado.

Aliás, comparou diretamente este ciclo ao final dos anos 90, quando o entusiasmo com a Internet levou a valorizações absurdas, seguidas de colapsos, falências e despedimentos. Segundo ele, a IA vai seguir o mesmo padrão… É revolucionária, sim, mas o dinheiro está a cair demasiado depressa, demasiado cedo.

OpenAI, 1.4 mil milhões e um alerta… Que ninguém quer ouvir ou sequer pensar nisso.
Grande parte deste exagero vem, claro, da corrida entre gigantes.

A OpenAI comprometeu-se com um pacote de investimento absolutamente louco de 1,4 biliões de dólares em infraestrutura nos próximos oito anos. Para comparação, espera faturar 13 mil milhões este ano.

É aí que entra a frase de Sam Altman que já corre a indústria inteira: os investidores estão “overexcited” e “alguém vai perder uma quantia fenomenal de dinheiro”.

Há quem diga que a Google está a tentar posicionar-se do lado certo da história, preparando terreno para quando este castelo de cartas começar a abanar. Mas… Quem estará bem no meio de tudo isto?

A posição da Google: vantagem? Talvez, mas sem escapatória.
Apesar do aviso, Pichai defende que a Google está melhor preparada do que os rivais.

O que faz algum sentido, visto que a Google não é apenas IA. Tem chips próprios, vários hardware que vai desde IoT a smartphones e portáteis, YouTube, etc… A Nvidia, OpenAI, Meta ou Anthropic dependem muito mais de terceiros, o que deixa a Google numa posição teoricamente mais estável.

Ainda assim, Pichai não pinta um cenário cor-de-rosa. Fala dos problemas de precisão dos modelos, diz que as pessoas não devem confiar cegamente nas respostas da IA e lembra que a tecnologia é útil, mas não infalível.

Além disso, assume sem rodeios que a IA está a arruinar os objetivos climáticos da empresa.

Os centros de dados para treinar modelos consomem quantidades absurdas de energia e isso já atrasou as metas ambientais da Alphabet. A promessa continua a ser chegar a emissões zero em 2030, mas o discurso já está cheio de avisos.

Conclusão
Mesmo com todos estes alertas, Pichai trata a IA como “a tecnologia mais profunda na qual a humanidade já trabalhou”. Não esconde o lado transformador, mas admite as dores de crescimento.
Dito tudo isto, no fundo, o que esta entrevista revela é simples.
A Google está no topo da onda, mas, se isso correr mal, ninguém sai limpo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Inteligência Artificial vai salvar a economia?


É difícil discutir o futuro da economia sem que surja o tema da inteligência artificial. A tecnologia tem avançado a um ritmo impressionante e já se tornou um dos temas centrais do debate público. Multiplicam-se as notícias e artigos sobre o potencial de modelos como o ChatGPT, os impactos na forma como trabalhamos e os postos de trabalho que poderão ser substituídos. Ao mesmo tempo, o investimento canalizado para construir centros de dados está a atingir níveis historicamente elevados e o setor tem sido um dos principais motores do crescimento económico de países como os Estados Unidos.

Esta dinâmica tem sido alimentada pelas promessas dos seus promotores. Sam Altman, CEO da OpenAI, disse que “as ferramentas superinteligentes podem acelerar de forma massiva as descobertas científicas e a inovação”, ao passo que Elon Musk, detentor da xAI, prometeu que a sua empresa iria, já este ano, desenvolver um modelo “mais inteligente que o humano mais inteligente”. Todos partem do pressuposto que a IA é a chave para aumentar a produtividade e impulsionar o crescimento das economias.

No entanto, a generalidade das pessoas parece estar mais pessimista em relação ao futuro da economia do que noutros contextos comparáveis, como o da ascensão da Internet na viragem do século. Além disso, têm surgido receios de estarmos perante uma bolha especulativa à beira de rebentar. Para saber o que nos espera, é preciso perceber o que explica o crescimento impressionante da IA, de que forma está a mudar a economia e como se distribuem os ganhos (e os custos) da tecnologia.

Muito barulho por nada?
Nos últimos anos, as cinco maiores empresas tecnológicas – Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft – viram a sua cotação disparar no mercado financeiro. A Nvidia, que fabrica os chips necessários para os centros de dados, tornou-se recentemente a primeira empresa americana com valor de mercado superior a cinco biliões de dólares, enquanto a cotação da Microsoft e da Apple já supera os quatro biliões de dólares.

O entusiasmo dos investidores parte de um pressuposto central: o de que a IA vai permitir aumentar a produtividade da maioria dos setores da economia, passando a ser altamente procurada pelas empresas. Mas, até agora, a realidade não tem correspondido às expectativas. Na verdade, é difícil vislumbrar melhorias na produtividade, que continua a crescer a um ritmo modesto e ainda está longe dos níveis registados na década antes da crise financeira de 2008.

Embora a IA esteja presente em muito do que fazemos hoje em dia, desde pesquisas em motores de busca como o Google aos chatbots com quem interagimos no apoio ao cliente, um relatório recente do MIT concluiu que 95% das empresas que incorporaram a IA não estão a obter qualquer retorno. O cenário começa a parecer-se com o que se verificou após o início da expansão dos computadores, na década de 1980, quando Robert Solow, um dos economistas mais influentes no estudo do crescimento económico, disse que “vemos os computadores em todo o lado menos nas estatísticas da produtividade”.

A utilização limitada da IA até agora prende-se com o fosso entre as promessas dos criadores e as aplicações verdadeiramente úteis que tem. Em traços gerais, a IA generativa consiste em identificar padrões em bases de dados cada vez mais abrangentes e gerar textos, imagens ou extrapolações a partir desses dados. E isso envolve limitações significativas. Longe de possuírem capacidade de raciocínio próprio, os modelos atuais reproduzem os padrões dos dados com que são treinados. Produzem informações, imagens ou linhas de código com base em todas as informações, imagens e linhas de código que já foram publicadas (por pessoas reais). São o que alguns críticos apelidam de “papagaios estocásticos”.

Mesmo nestas tarefas, ainda está por provar que o recurso à IA facilite o trabalho das pessoas. Os modelos de IA continuam a ser influenciados pelos enviesamentos dos próprios dados que utilizam, o que significa que contribuem para perpetuar ideias comuns, mas não necessariamente corretas, ou para tomar decisões discriminatórias através dos algoritmos. Além disso, os chatbots também podem contribuir para espalhar informações falsas e, de acordo com uma investigação recente, o ritmo a que produzem desinformação tem aumentado. Um estudo de vários meios de comunicação europeus concluiu que os modelos de IA cometem erros em quase metade das vezes quando lhes são perguntadas informações da atualidade, chegando a inventar informação.

É por isso que, entre os economistas que se têm debruçado sobre o tema, não há consenso sobre o possível impacto da IA na economia. Dois dos estudos mais influentes chegam a conclusões diametralmente opostas: o primeiro, realizado por economistas da Goldman Sachs (Joseph Briggs e Devesh Kodnani), estima que a produtividade e o PIB dos EUA possam aumentar 15% com a adoção generalizada da tecnologia; o segundo, de Daron Acemoglu, vencedor do equivalente ao Nobel da Economia no ano passado, aponta para um crescimento de pouco mais de 1% do PIB nos próximos dez anos.

A diferença está nos detalhes: Briggs e Kodnani assumem que a IA pode substituir 25% das atuais tarefas e reduzir custos de forma substancial, ao passo que Acemoglu projeta potencial para automatizar apenas 4,6% das tarefas. Como há demasiada incerteza envolvida, é difícil saber que hipóteses são mais realistas e prever o papel que a IA pode desempenhar no futuro. Apesar disso, há riscos reais no presente que não têm merecido atenção suficiente por cá.

Até quando dura o hype?
Não seria de esperar que a adoção de uma nova tecnologia disruptiva fosse imediata. Todas as inovações radicais levam tempo até serem incorporadas na economia. A tecnologia pode estar disponível, mas enquanto as empresas não descobrirem o que fazer com ela nem adaptarem a produção, os ganhos são limitados. Além disso, se já é difícil fazer previsões sobre a economia em tempos normais – os economistas que o digam –, é ainda mais difícil prever de que forma novas tecnologias podem transformá-la. A grande questão é saber até quando durará o entusiasmo dos mercados se os resultados tardarem em aparecer.

Entre 2024 e 2025, as gigantes tecnológicas investiram mais de 750 mil milhões de dólares em centros de dados e têm planos para gastar mais 3 biliões até ao final da década – mais ou menos o equivalente ao PIB de França. Só no segundo trimestre deste ano, as big five investiram mais de 100 mil milhões de dólares, dando um grande contributo para o crescimento do PIB dos Estados Unidos. Só que não se vislumbram receitas que permitam compensar este investimento: uma análise da S&P Global prevê que a receita total do mercado de IA pode chegar aos 85 mil milhões de dólares em 2029. Mesmo nesse cenário, continuaria muito longe de compensar.

O problema acentua-se pelo facto do crescimento da IA estar assente numa lógica de financiamento circular em torno de empresas-chave como a Nvidia, que fabrica chips, a Oracle, que fornece a capacidade de computação, e a OpenAI, que desenvolve modelos de IA (como o ChatGPT). Recentemente, a Nvidia anunciou um investimento de 100 mil milhões de dólares na OpenAI, que, por sua vez, compra os chips da Nvidia para fornecer os seus centros de dados; no dia seguinte, a OpenAI assinou um acordo com a Oracle (de 300 mil milhões de dólares) para a construção de centros de dados, sendo que a Oracle adquire chips à Nvidia.

Este exemplo pode parecer significativo, mas é apenas a ponta do icebergue: os investimentos cruzados entre a Nvidia, a OpenAI e a CoreWeave (que também fornece capacidade de computação) atingem 1 bilião de dólares, com as empresas a atuarem simultaneamente como investidoras e clientes umas das outras. Como explica a economista Grace Blakeley, “todas reportam aumentos da receita, da cotação na bolsa e dos preços das respetivas ações, mas o dinheiro está essencialmente a mover-se em círculos”.

As comparações com a bolha do dot-com são inevitáveis. Na década de 1990, as empresas emergentes da Internet também atraíram enorme interesse dos investidores e as cotações bolsistas dispararam antes da bolha rebentar em 2000. O investimento moveu-se sobretudo pelas expectativas sobre o futuro, tal como agora, mas não havia ganhos visíveis que o justificassem. Quando os Estados Unidos aumentaram as taxas de juro e os investidores se viraram para opções mais estáveis, a bolha rebentou e muitas empresas faliram.

Se é verdade que a Meta, a Microsoft ou a Amazon parecem estar menos endividadas do que as empresas tecnológicas que alimentaram a bolha dos anos 90, também há outras que estão a acumular enormes dívidas para financiar esta aposta. Há fontes contraditórias sobre o papel dos fundos de investimento e de outras instituições da finança-sombra no financiamento da corrida à IA. A opacidade destes fundos, que estão à margem da regulação bancária, faz com que seja difícil avaliar a exposição dos bancos e perceber se o fim da bolha implicará uma crise relativamente circunscrita (como a do dot-com) ou uma crise sistémica como a de 2008.

E se corre “bem”?
Apesar dos sinais de uma bolha especulativa, há quem argumente que nem tudo é necessariamente um problema. Há vários exemplos ao longo da história de bolhas especulativas que, apesar de terem rebentado, provocando perdas para os investidores e, por vezes, empurrando as economias para crises, deixaram inovações e infraestruturas que se revelaram fundamentais no longo prazo. Na década de 1840, o desenvolvimento da ferrovia também esteve associado a uma bolha que veio a rebentar, mas a rede de caminhos de ferro construída revelou-se um benefício inequívoco. A própria bolha do dot-com deixou como legado os cabos de fibra ótica que hoje suportam vários serviços digitais.

A investigação de economistas como Carlota Perez ou Chris Freeman sugere que, em todas as grandes revoluções tecnológicas do passado, as primeiras décadas são marcadas por turbulência. Perez vê a IA como um novo passo na era das tecnologias de informação e comunicação e compara o atual período de transição a outras ondas do passado – como a da máquina a vapor ou a da eletricidade –, também marcadas por tensões sociais, destruição de empregos e criação de novas atividades.

No entanto, mesmo que a IA consiga impulsionar a produtividade nos próximos anos, é preciso perceber quem ganha com isso. O que a experiência histórica nos ensina é que, por si só, as inovações tecnológicas não significam benefícios para todos. O desenvolvimento da IA surge numa economia cada vez mais desigual, dominada por grandes multinacionais que operam em setores fortemente concentrados e dominam os mercados, enquanto o declínio dos sindicatos e o aumento da precariedade deixaram os trabalhadores numa posição fragilizada. Neste contexto, a tecnologia está a ser usada como forma de pressão sobre os trabalhadores, para que aumentem o ritmo de trabalho, assumam mais tarefas e aceitem a compressão dos salários e a vigilância algorítmica.

Outro fator crítico é o consumo de recursos naturais. Os centros de dados de IA exigem enormes quantidades de energia e água para processamento e arrefecimento. Atualmente, os centros de dados já consomem mais energia do que países inteiros como a Alemanha ou a França e estão a provocar pressão sobre a oferta existente, contribuindo para um aumento significativo dos preços da eletricidade nos EUA. Com a escala dos investimentos realizados e projetados até 2030, estima-se que a procura de energia possa aumentar em 165%. Tendo em conta o atraso na transição energética, esta expansão está a ser alimentada em larga medida por combustíveis fósseis, o que explica porque é que empresas como a Google, a Microsoft ou a Amazon estão a aumentar as emissões de carbono devido aos projetos de IA, contrariando o compromisso com a neutralidade carbónica, bem como a planear investimentos em centrais nucleares.

Os centros de dados têm gerado preocupação entre as populações, não apenas devido à enorme quantidade de energia que requerem, mas também às necessidades de consumo de água. Cada centro de dados chega a consumir quantidades de água equivalentes ao consumo de cidades com 50 mil habitantes, o que coloca uma enorme pressão sobre este recurso. Nos EUA, já se registaram problemas de escassez de água e subidas dos preços em alguns estados. No México, o estado de Querétaro tornou-se um polo estratégico para centros de dados e as empresas têm extraído água subterrânea para arrefecer os servidores, enquanto bairros inteiros enfrentam cortes frequentes no abastecimento doméstico. Para lá das promessas sobre a desmaterialização da economia, os recursos naturais continuam a ser um foco de disputas.

Mudar o chip
Em Portugal, a chegada de centros de dados de grandes empresas de tecnologia tem sido vista como uma oportunidade de modernização económica. O acesso a energia limpa e barata, a localização geográfica e a segurança são fatores que tornam o país atrativo para este tipo de investimentos. Apesar disso, o papel dos centros de dados na economia continua a ser pouco discutido e o tema só ganhou atenção mediática quando o maior investimento planeado – o da construção do centro de dados de Sines, da Start Campus – se viu envolvido numa investigação do Ministério Público que levou à queda do governo anterior.

Tanto o governo anterior como o atual acolheram de forma entusiástica este investimento devido à criação de postos de trabalho e ao potencial da economia digital. No entanto, há alguns motivos para pôr em causa os benefícios anunciados, como alertou Ricardo Paes Mamede. Os benefícios do centro de dados de Sines para a economia portuguesa não são assim tão óbvios, uma vez que os lucros serão repatriados e que os centros dependem essencialmente de equipamento eletrónico que deverá ser importado do estrangeiro. Em relação ao impacto ambiental, o centro de Sines promete usar água do mar, com dessalinização, mas desconhecem-se os contornos de outros projetos anunciados (como o do Fundão ou o de Abrantes). De resto, as grandes empresas já estão a inundar a rede elétrica com pedidos para ligação que, de acordo com um administrador da EDP, representam uma mudança “transformacional face à procura que temos tido historicamente”, colocando uma pressão significativa sobre a energia nacional.

O caso português parece ter semelhanças com o de Aragão, no nordeste de Espanha. A corrida à instalação de centros de dados transformou a região de Aragão num dos epicentros europeus da IA, com a Microsoft e a Amazon a investir milhares de milhões de euros para adquirir terrenos e construir centros. Embora as autoridades celebrem os investimentos e a possibilidade de colocar o país na liderança da transição digital europeia, a comunidade local tem-se mostrado preocupada com a pressão sobre os recursos, numa região onde os verões cada vez mais secos e a escassez de água têm afetado a agricultura. Além da água, os centros poderão vir a necessitar de mais energia do que toda a que é atualmente consumida na região, o que pode revelar-se contraditório com as metas de transição energética.

Em países como a Irlanda ou os Países Baixos, projetos de novos centros de dados foram suspensos ou adiados recentemente, uma vez que, embora possam criar emprego e atrair capital, colocam pressão sobre os recursos e levantam preocupações sobre o impacto ambiental. Os casos de Portugal e Espanha mostram como esta tensão é particularmente visível nas economias semi-periféricas, onde a chegada de multinacionais é muitas vezes apresentada como sinónimo de progresso inevitável. Na ausência de planeamento, o investimento estrangeiro é encarado como um fim em si mesmo. Enquanto os interesses privados das multinacionais que pretendem aceder a terrenos, energia barata e água são claros, o interesse público permanece difuso e pouco debatido.

Os investimentos astronómicos no desenvolvimento da IA são possíveis porque, nos últimos anos, as multinacionais tecnológicas têm acumulado enormes lucros, monopolizado o acesso aos nossos dados pessoais e pago taxas efetivas de imposto bastante inferiores às da maioria das empresas, o que lhes permitiu consolidar o poder que detêm e a capacidade de influenciar comportamentos individuais e coletivos. A verdade é que temos muito pouco controlo sobre os investimentos e, por isso, pouco voto na matéria sobre os objetivos prosseguidos, que tanto podem ser socialmente úteis – substituir tarefas penosas, reduzir o tempo de trabalho ou descobrir novos medicamentos – como ser pouco interessantes ou até nocivos para a sociedade. Sem socializar os ganhos da tecnologia, é tudo menos garantido que se traduzam em melhorias da qualidade de vida. O entusiasmo dos mercados tem enviesado o debate público e ofuscado as principais questões em aberto. É preciso mudar o chip.

Fontes: 
The Economist (aqui e aqui, respetivamente)
Notícias: Washington PostNew York TimesBloomberg; Fonte do gráfico: Bloomberg
Entrevista

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Alerta: Não Amplifiquem a Propaganda Chegana

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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ensaio - Contra a boçalidade, polarização, ódio, desinformação e reforço positivo nos jovens


Bom dia, amigos. Um dia de resistência. Uma greve geral!                            
Lembrei-me deste tema que se tronou um ícone da música gótica nos anos 80 e é muito actual.
Há músicas que falam de paisagens interiores — desertos de emoção, mares contidos, ventos que nos atravessam sem deixar rasto. “No Time to Cry”, dos Sisters of Mercy, é uma dessas paisagens sonoras: fria à superfície, mas pulsante por dentro.
Lançada em 1985, é uma confissão disfarçada de resistência. O narrador ergue-se entre ruínas afectivas e declara: “não há tempo para chorar”. Não por falta de sentimento, mas porque a dor já se tornou parte do caminho.
A voz grave de Andrew Eldritch ecoa como um mantra urbano — o cântico de uma humanidade que aprendeu a conter o pranto para sobreviver num mundo acelerado e distraído.
"I've got no time to cry" — sugere que o narrador tenta fugir das emoções, mantendo-se ocupado ou emocionalmente desligado.

Acontecimentos recentes daquele jovem de 14 anos que matou a mãe, ou ainda a filha que esfaqueou o pai. Chocou o País. Já foram ditas muitas opiniões. Na minha opinião a falta de barreiras na educação nos anos iniciais leva a que filhos pensem que podem tudo, que têm direito a tudo sem perceberem que têm igualmente deveres. Incapacidade de aceitarem o "não" às suas vontades, leva a comportamentos destes. Porém há que dizer sempre aos filhos que tal como a natureza, também o ser humano alterna entre ciclos de retraimento e renascimento. Há que dizer aos filhos o Não com convicção, para lhes fornecer ferramentas de integração social.  Há épocas em que o inverno domina a alma, e o gelo emocional é a única defesa possível. Nessa altura cabe à família a escuta e dizer-lhes sempre acreditar no Amor, porque na Natureza também há que sobreviver e as espécies, mesmo nesse silêncio, progridem e reinventam-se. Adaptam-se e avançam com novas estratégias.   

Claro que hoje em dia a tarefa dos pais é muito mais desafiante.. As redes sociais criam dependência, espalham violência, das mais variadas formas. A extrema direita está a alimentar o lado mais fraco que todos temos, está-se a banalizar o ódio, afectando a saúde mental de pais e filhos. Estas situações curam-se com pedagogia, da presença, dos bons exemplos, na família, amigos e até em comunidades. A comunicação social podia e devia ajudar. Porém o que se vê é explorar a violência até ao infinito (Correio da Manhã, p.ex.), dar palco à extrema-direita,  que alimentam o tal lado mau da humanidade. A média perdeu todo o seu sentido pedagógico: não fornece exemplos de altruísmo, de educação ambiental.  E também não podemos esquecer o espectáculo de boçalidade que ocorre com cada vez maior frequência e maior intensidade na AR. Porém, chegar a casa e conversar. Sem net, sem  TV. Ouvir os filhos, netos. 

Aos pais, avós e jovens, estou sempre a dizer: confiem, inspirem-se, leiam mais, adiram a alguma associação ambiental e ou de solidariedade. E façam actividades comuns junto da Natureza. Não adiem o Amor universal.

"No Time to Cry” é, assim, um espelho do nosso tempo: uma elegia à contenção, um hino à resistência emocional e, quem sabe, um lembrete de que até o mais frio dos corações espera pela primavera. É um processo individual e de escuta. E isso faz-se com activismo pró-activo, afectos, cooperação e gregarismo 🌿