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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A oliveira e a arte de resistir à seca

Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui

Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.

Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.

Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.

Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.

Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.

Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui]

Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.

A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.

Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.

Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026

Saber mais:

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Dia Europeu da Ecologia


Passaram mais de 150 anos desde que a palavra ecologia foi criada, para dar nome à ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o ambiente. Hoje, esse conhecimento continua a ser essencial para compreendermos o mundo.

O Dia da Ecologia, que hoje se celebra, lembra-nos do impacto das nossas escolhas e de como tudo está interligado: da floresta ao oceano, do ar que respiramos à comida que nos chega ao prato.

É também a ecologia que nos dá as bases científicas para encontrar caminhos para viver em maior equilíbrio com o planeta.

O Dia europeu da ecologia, Ecology Day, reúne um conjunto de atividades e recursos pedagógicos que pretende sensibilizar o público para as mais diversas questões do campo da Ecologia.

A história da ecologia é marcada pela transição de uma observação naturalista e descritiva para uma ciência quantitativa, preditiva e interdisciplinar. Em 1866, o biólogo e naturalista alemão Ernst Haeckel formalizou o termo na sua obra Generelle Morphologie der Organismen, combinando as palavras gregas oikos (casa) e logos (estudo). Haeckel definiu a ecologia como o estudo das interações entre os organismos e o seu ambiente orgânico e inorgânico, focando-se essencialmente na adaptação individual das espécies ao seu habitat natural.

Ao longo das primeiras décadas do século XX, a disciplina ganhou rigor metodológico e abrangência concetual. Em 1935, o botânico britânico Arthur Tansley introduziu o conceito seminal de ecossistema, integrando os componentes biológicos e os fatores físicos e químicos num único sistema funcional. Na mesma época, cientistas como o matemático americano Alfred J. Lotka e o físico italiano Vito Volterra desenvolveram modelos matemáticos para descrever as dinâmicas de populações e as relações predador-presa, transformando a ecologia numa ciência com capacidade preditiva.

Na segunda metade do século XX, o foco desviou-se para a circulação de matéria e energia. Os irmãos Eugene Odum e Howard Odum, com a publicação do influente manual Fundamentals of Ecology em 1953, consolidaram a ecologia sistémica ao aplicar os princípios da termodinâmica ao estudo dos biomas. Pouco depois, em 1962, a bióloga marinha Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, uma obra marcante que expôs os perigos dos pesticidas e impulsionou o movimento ambientalista moderno, unindo o conhecimento científico rigoroso à consciência social e política.

Na viragem do século XXI, a disciplina expandiu-se para responder à crise global da biodiversidade. Investigadores como E. O. Wilson, pioneiro da sociobiologia e defensor da conservação da biodiversidade, e ecólogos contemporâneos como Robert Costanza, focado na valoração económica dos serviços dos ecossistemas, adaptaram a ecologia à era do Antropoceno. 

Hoje, a ciência ecológica apoia-se em Big Data, sequenciamento genético ambiental (eDNA) e deteção remota por satélite para monitorizar as alterações climáticas e fundamentar decisões globais de sustentabilidade.

A SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia, empenha-se na dinamização deste dia: uma iniciativa internacional que une, de forma única, a ecologia e a sociedade, rumo à construção de um desenvolvimento humano mais sustentável.

Em associação com a Federação Europeia de Ecologia (EEF), a SPECO dedica-se anualmente a este dia, com o Alto-Patrocínio da Comissão Nacional da UNESCO.

Mais informações em Ecology Day.Eu ou em Ecology Day.

"Para mim, a ecologia não deve ser um dogma, deve ser integrada em uma grande pensamento político sobre a humanidade. O problema não é apenas preservar a Natureza, mas perceber que a nossa sobrevivência está ameaçada por dentro pela nossa forma de vida, pela consumição, pela circulação, pela nossa forma de ser submetida à ditadura do lucro, que é contrária à possibilidade de regenerar os recursos do planeta. Hoje, a minha preocupação é o destino da humanidade na Terra."
  
Edgar Morin  

sábado, 22 de agosto de 2026

Alterações climáticas nas montanhas europeias: porque é que o aquecimento não explica tudo

As temperaturas nos pontos mais elevados da Europa estão a aumentar - um reflexo regional do aquecimento global. Como consequência, as comunidades vegetais nos cumes montanhosos registam uma presença cada vez maior de espécies associadas a climas quentes. Contudo, esta transformação não ocorre da mesma forma nem ao mesmo ritmo em todos os locais.

Um estudo que analisou dados de mais de 700 sítios em 53 cumes europeus, ao longo de 21 anos, revela que a relação entre o aumento da temperatura e a "termofilização" (o avanço da flora adaptada ao calor) é mais complexa do que se pensava. Embora cerca de 63% das zonas monitorizadas confirmem esta tendência, a subida direta da temperatura explica menos de 10% da variação na mudança das plantas a nível local.

Os investigadores descobriram que o verdadeiro acelerador do processo é a ecologia envolvente: onde já existem espécies de zonas mais baixas na vizinhança do cume, a transição é muito mais rápida. Em contrapartida, os terrenos rochosos funcionam como uma barreira natural contra essa colonização. 

Como explica Johannes Hausharter, da Universidade de Viena, 'os nossos dados mostram claramente que a vegetação nos cumes está a mudar, mas o ritmo dessas alterações não depende apenas do aumento da temperatura'. Stefan Dullinger, coautor do estudo, reforça que a resposta da flora alpina depende tanto da magnitude do aquecimento como da presença prévia de espécies vindas de zonas mais quentes.

O estudo indica ainda que a vegetação alpina reage com um atraso médio de quatro anos às mudanças térmicas. Para as plantas endémicas e exclusivas das zonas frias - que já não têm para onde migrar no topo das montanhas -, a chegada destas novas concorrentes representa uma ameaça silenciosa, mas real, à biodiversidade europeia.

Embora as alterações climáticas sejam a causa central destas transformações, o seu impacto nos ecossistemas de altitude não é uniforme: varia de cume para cume e é profundamente moldado pelas condições e pela geografia locais.

sábado, 8 de agosto de 2026

No mundo dos pássaros, as fêmeas têm vidas mais curtas do que os machos. Mas não se sabe bem porquê



A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Ao contrário do que, regra geral, acontece nos mamíferos, em que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos, no mundo dos pássaros elas têm vidas mais curtas do que eles.

A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, os cientistas dizem ter percebido que, em média, as fêmeas de 35 espécies apresentam, depois de atingirem a idade adulta, uma taxa de sobrevivência 12,4% inferior à dos machos da mesma espécie.

“O que me pareceu interessante foi o facto de este padrão ser consistente em muitos tipos diferentes de aves, de papa-moscas e toutinegras a cardeais e tanagrídeos”, diz Joanna Wu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e primeira autora do estudo.

A sobrevivência na vida adulta é fortemente influenciada por fatores como gastos de energia e outros custos biológicos associados à reprodução, ao movimento e à competição por recursos. As migrações exigem muito em termos energéticos e expõem as aves a predadores e ao risco de ferimentos. Quando não estão em viagem, as aves têm de defender o seu território e os seus recursos.

Para as fêmeas, os custos acrescidos associados à produção e postura de ovos são mais um fator de pressão, ainda que o cuidado das crias possa, dependendo das espécies, ser partilhado pelos dois progenitores.

Ao olharem para as várias décadas de dados em mãos, os investigadores perceberam que os machos têm taxas de sobrevivência mais elevadas tanto em espécies migradoras como não migradoras, embora sejam maiores em migradores de longas distâncias. Além disso, percebeu-se que nas espécies com asas mais pontiagudas os machos também tendem a viver mais que as fêmeas, algo que também se constatou em machos com níveis mais altos de gordura corporal.

A equipa reconhece que, além desses aspetos, não conseguiram, para já, encontrar uma explicação clara para as diferenças entre machos e fêmeas no que toca à longevidade. Ainda assim, há algumas hipóteses em cima da mesa, e uma delas tem a ver com a genética.

A hipótese cromossómica
Nos mamíferos, as fêmeas têm duas cópias do mesmo cromossoma sexual - XX - e os machos têm dois cromossomas sexuais diferentes - XY. Como explicam os investigadores, isso significa que se um dos cromossomas tiver algum gene defeituoso, as fêmeas têm um “substituto”, mas os machos não.

Nos machos humanos (ou seja, nos homens), problemas nos cromossomas sexuais e falta de um “plano B” estão associados a uma maior suscetibilidade, por exemplo, a doenças cardíacas e cancro à medida que o avanço da idade faz degenerar o cromossoma Y.

Por isso, há cientistas que consideram haver uma relação entre a longevidade e o par de cromossomas sexuais. Contudo, nas aves esses cromossomas estão invertidos: as fêmeas têm XY e os machos XX.

“Nas aves, ao contrário dos mamíferos, são as fêmeas que transportam dois cromossomas diferentes, enquanto os machos carregam dois do mesmo”, diz Wu. “Isto pode ser mais uma prova que associa o cromossoma sexual a uma menor longevidade nas aves fêmeas, mas essa é uma questão que ainda não investigámos diretamente”, acrescenta.

A investigadora diz que investigações futuras devem também tentar perceber se existe alguma relação entre a reduzida longevidade das aves fêmeas e o declínio acentuado de várias populações de aves que está a ocorrer pelo mundo fora.

“Se as fêmeas se tiverem já reproduzido com sucesso antes de morrerem, o facto de as suas vidas serem mais curtas não faz grande diferença. Mas não sabemos ainda se é esse o caso ou não”, explica.

“Sabemos que a perda de habitat e as alterações climáticas são os principais culpados, mas queremos perceber se esses fatores podem estar a tornar a sobrevivência ainda mais difícil para as fêmeas do que para os machos, num mundo que os humanos estão a transformar rapidamente.”

Foto: Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

As estratégias das plantas: o arsenal invisível de defesa

Saiba como as plantas são capazes de se defender de ataques de animais, da seca e da competição com outras plantas neste novo artigo da série botânica dedicada às extraordinárias estratégias das plantas, em Portugal e no mundo.

Ao longo de milhões de anos de evolução, as plantas desenvolveram estratégias únicas de defesa para enfrentar a seca, temperaturas extremas e solos pobres, além do ataque de herbívoros, microrganismos e até de outras plantas.

Desde espinhos afiados até venenos letais, passando por redes subterrâneas de comunicação e técnicas de engano, o arsenal invisível das plantas revela uma impressionante capacidade de adaptação ao ambiente. E o mais surpreendente? Muitas destas defesas são ativadas apenas quando necessário, garantindo uma resposta altamente eficiente e ajustada às circunstâncias.

Defesas físicas: a primeira linha de proteção
A defesa mais evidente das plantas encontra-se nas suas estruturas físicas, verdadeiros escudos naturais contra predadores e condições adversas. Estas adaptações ajudam a conservar água, a reduzir danos causados por herbívoros e a minimizar a entrada de microrganismos prejudiciais.

Por exemplo, plantas como a silva (Rubus ulmifolius), o pilriteiro (Crataegus monogyna), a roseira-brava (Rosa sempervirens), a salsaparrilha (Smilax aspera) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa), têm espinhos ou acúleos que dificultam a predação e causam desconforto aos herbívoros.

Além disso, algumas plantas possuem tricomas – estruturas semelhantes a pêlos que cobrem folhas e os caules – com funções como a redução da perda de água, a criação de barreiras físicas para dificultar a movimentação de insetos.

As urtigas (Urtica dioica), por exemplo, libertam substâncias irritantes ao contacto, enquanto o alecrim (Salvia rosmarinus) e a esteva (Cistus ladanifer) têm tricomas glandulares que emitem compostos aromáticos capazes de afastar os insetos.

Para enfrentar a seca e a exposição solar intensa, muitas espécies protegem-se através de cutículas cerosas que cobrem as folhas, como acontece com a esteva (Cistus ladanifer), o medronheiro (Arbutus unedo), a azinheira (Quercus rotundifolia) e o sobreiro (Quercus suber), cujas folhas coriáceas com cutículas espessas reduzem a desidratação e dificultam a entrada de microrganismos prejudiciais, como os fungos e bactérias.

Certas plantas têm folhas modificadas que reforçam a sua defesa. As folhas em forma de agulha, como as do pinheiro-bravo (Pinus pinaster), do pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) e do pinheiro-manso (Pinus pinea), ajudam a conservar água em ambientes secos. A forma reduzida e a cutícula espessa destas folhas minimizam a superfície exposta ao ambiente, diminuindo a perda de água por evaporação e transpiração.

Outras plantas possuem catafilos – folhas modificadas para proteger os gomos contra condições adversas. É o caso de árvores como a cerejeira-brava (Prunus avium), a aveleira (Corylus avellana) e o castanheiro (Castanea sativa), cujos catafilos envolvem os gomos, protegendo-os do frio e da desidratação. Em plantas bolbosas como a campainha-amarela (Narcissus bulbocodium) e a cebola-albarrã (Drimia maritima), os catafilos desempenham um papel semelhante, envolvendo os órgãos subterrâneos para reduzir a perda de água e assegurar a sobrevivência em períodos de seca.

Já as trepadeiras, como a ervilhaca-comum (Vicia sativa) e a salsaparrilha (Smilax aspera), têm gavinhas foliares que se enrolam em ramos, caules ou outras estruturas, garantindo estabilidade à planta enquanto ela cresce em direção à luz e reduzindo o risco de danos mecânicos causados pelo vento ou pelo seu próprio peso.

A gilbardeira (Ruscus aculeatus) apresenta cladódios, que são caules modificados semelhantes a folhas, que desempenham a função fotossintética. Rígidos e com um espinho terminal, contribuem para a proteção da planta. As verdadeiras folhas da gilbardeira estão reduzidas a pequenas escamas membranáceas localizadas nas axilas dos cladódios.

As cascas espessas de algumas árvores também protegem contra predadores e condições extremas, como incêndios e temperaturas elevadas. A cortiça do sobreiro (Quercus suber), por exemplo, atua como barreira térmica e protege os tecidos internos da planta contra o fogo.

Por fim, algumas plantas desenvolveram adaptações especializadas. As orvalhinhas (Drosera sp.) têm folhas modificadas em forma de armadilhas para capturar insetos, complementando as suas necessidades nutricionais em solos pobres.

Defesas químicas: um laboratório natural de toxinas
Quando as defesas físicas não são suficientes, as plantas recorrem a compostos químicos, verdadeiros “laboratórios naturais” que atuam como defesa direta ou indireta contra predadores. Algumas produzem substâncias tóxicas que podem ser fatais para herbívoros, enquanto outras libertam compostos que atraem aliados naturais para combater os seus inimigos. 

O teixo (Taxus baccata) sintetiza taxanos, substâncias altamente tóxicas para muitos animais e até para humanos. O trovisco (Daphne gnidium), por sua vez, contém diterpenos e cumarinas, compostos irritantes e tóxicos que desencorajam herbívoros. O azevinho (Ilex aquifolium) produz saponinas, compostos amargos que tornam as suas folhas e frutos tóxicos e de difícil digestão, afastando predadores. O sabugueiro (Sambucus nigra) também utiliza glicosídeos cianogénicos, que podem libertar cianeto, tornando as suas folhas e frutos verdes potencialmente tóxicos para herbívoros.

Algumas plantas ajustam a produção de substâncias químicas em resposta ao ataque. O carvalho-negral (Quercus pyrenaica), por exemplo, aumenta a concentração de taninos nas folhas quando estas são atacadas, tornando-as menos apetecíveis. Já a morganheira-das-praias (Euphorbia paralias) excreta um látex branco e leitoso, que é altamente irritante para a pele e mucosas.

Outras plantas utilizam estratégias químicas mais subtis. O aipo (Apium graveolens), por exemplo, emite feromonas que atraem predadores naturais dos seus inimigos. O tomilho (Thymus sp.) exala substâncias repelentes que podem afastar herbívoros. Da mesma forma, o rosmaninho (Lavandula stoechas) e o funcho (Foeniculum vulgare) produzem compostos aromáticos que atraem polinizadores, ao mesmo tempo que atuam como repelentes naturais contra insetos nocivos.

Curiosamente, muitas das substâncias que as plantas produzem para se defenderem têm também aplicações medicinais. Os taxanos do teixo, por exemplo, são usados no tratamento do cancro, os compostos do sabugueiro possuem propriedades antivirais e os taninos de várias espécies são valorizados pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Assim, as estratégias de defesa das plantas acabam também por nos proteger.

Defesas comportamentais: enganando predadores
Algumas plantas adotam estratégias comportamentais para escapar de ataques. Embora não se movam de forma ativa como os animais, as plantas têm maneiras engenhosas de manipular os seus predadores.

Uma das estratégias mais fascinantes é o movimento. Algumas plantas, como a dormideira (Mimosa pudica), originária do continente americano, fecham as suas folhas ao menor toque, confundindo e afastando os herbívoros que tentam alimentar-se delas.

Outra estratégia é o disfarce. Muitas plantas imitam o ambiente ao seu redor, seja através da forma, da cor ou da textura, para passar despercebidas pelos herbívoros. A fritilária (Fritillaria lusitanica), por exemplo, possui flores pendentes com cores e padrões que se confundem com a vegetação rasteira e o solo calcário onde cresce, passando despercebida por herbívoros.

De forma semelhante, a serrátula-do-algarve (Klasea algarbiensis) possui folhas basais avermelhadas que se integram visualmente no solo rochoso e arenoso, dificultando a sua deteção.

A erva-abelhão (Ophrys tenthredinifera), por sua vez, utiliza o mimetismo para atrair polinizadores: as suas flores imitam insetos específicos, o que beneficia a reprodução da planta e também pode confundir herbívoros ocasionais, fazendo-os pensar que as flores são insetos perigosos ou pouco apetecíveis.

Além disso, outras plantas podem descartar algumas partes mais frágeis, como folhas ou caules, quando são atacadas, de forma a minimizar os danos e garantir a sobrevivência. Esta estratégia confunde o predador e dá à planta o tempo necessário para recuperar. Um exemplo são os fetos, como o feto-real (Osmunda regalis) e o feto-pente (Blechnum spicant) que libertam as frondes (folhas) quando danificadas. Este mecanismo protege o rizoma subterrâneo, permitindo que a planta volte a rebentar quando as condições forem favoráveis.

Também a esteva (Cistus ladanifer) pode perder as folhas para reduzir a perda de água e concentrar energia nas partes mais resistentes, como os caules lenhosos, em períodos de seca extrema ou face a um ataque de herbívoros.

Rede “Wi-Fi” das plantas: comunicação invisível
Embora não tenham um sistema nervoso como os animais, as plantas desenvolveram formas sofisticadas de comunicação que lhes permitem trocar informações sobre ameaças e condições ambientais por meio de sinais químicos voláteis ou redes subterrâneas de fungos micorrízicos.

Quando atacadas por herbívoros ou patógenos, plantas como o alecrim-da-serra (Thymus caespititius), a murta (Myrtus communis) e o rosmaninho (Lavandula stoechas) libertam compostos aromáticos que funcionam como um alarme, ativando os mecanismos de defesa das plantas vizinhas antes que o ataque se propague.

As plantas também “falam” umas com as outras através da “Wood Wide Web“, uma rede subterrânea complexa formada por fungos micorrízicos que estabelecem relações simbióticas com as raízes de diferentes plantas. Esta rede permite a troca de nutrientes, sinais químicos e alertas sobre ameaças.

Plantas como o castanheiro (Castanea sativa), o carvalho-português (Quercus faginea) e o freixo (Fraxinus angustifolia) estabelecem relações simbióticas com fungos micorrízicos, melhorando a absorção de nutrientes e aumentando a resiliência a condições adversas.

Além disso, algumas plantas, quando bem estabelecidas – como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho-alvarinho (Quercus robur) – podem transferir nutrientes para plantas mais jovens ou debilitadas, contribuindo para a regeneração do ecossistema.

Longe de serem organismos passivos, as plantas desenvolveram um repertório incrível de estratégias para se defender. Algumas usam barreiras físicas, outras apostam na química e, em certos casos, recorrem à comunicação e ao engano para garantir sua sobrevivência.

No entanto, algumas espécies também combinam múltiplas estratégias de defesa, utilizando simultaneamente barreiras físicas e químicas ou aliando defesas comportamentais à comunicação, revelando a versatilidade e a complexidade das suas adaptações.

Esse arsenal invisível não só as protege, mas também influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas.

Da próxima vez que vir uma planta aparentemente indefesa, lembre-se: ela pode ter mais truques do que imagina.

Se quiser aprender mais sobre plantas e a sua importância nos jardins e no ambiente, recomendo explorar alguns dos artigos da série “Abra espaço para a natureza”. No texto Como criar um jardim para borboletas?descubra espécies específicas que ajudam a atrair e a sustentar estes polinizadores essenciais. Já no artigo Como criar um jardim para a vida selvagem? encontra algumas práticas que incentivam a presença de fauna diversa no jardim. E se a curiosidade for por plantas carnívoras, o texto Como ter um jardim num apartamento: plantas carnívoras oferece uma abordagem prática para cultivar estas espécies mesmo em espaços reduzidos. Estas leituras complementares mostram como pequenas escolhas no planeamento de jardins podem ter impactos significativos na biodiversidade e na qualidade de vida, promovendo uma relação mais harmoniosa entre o ser humano e a natureza.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies Preservadas ∝ Área Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

terça-feira, 2 de junho de 2026

June is a month that reminds us of fireflies



The Silent Weavers
They are not lanterns lit for human eyes,
nor stagecraft for a summer night’s romance;
they are the pulse where wildness never dies,
the quiet architects of field and plants.

In rotting logs and undisturbed decay,
the armored larvae hunt beneath the screen,
consuming snails and slugs along the way - 
the fierce, invisible balance of the green.

They are the measure of a forest’s breath,
the proof of waters pure, of soils unchained;
where chemicals and false lights deal out death,
their golden signatures are quickly drained.

A frog’s brief meal, a spider’s glowing thread,
they weave their bodies through the tangled net—
a silent currency of life and bread,
a feast of light the wilderness won’t forget.

For in their flashing, fragile, brief design,
the hunger of the ecosystem thrives;
the smallest spark sustains the grand outline,
and feeds the deeper dark that keeps us all alive."
João Soares, 02/06/2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Olhar nos olhos de uma ave

Papa-amoras-comum (Curruca communis)

"Olhar nos olhos de uma ave não é encarar um reflexo primitivo do passado, mas sim vislumbrar uma forma alternativa de inteligência. Sob o crânio minúsculo de um pássaro esconde-se um novelo de engenho: uma mente que mapeia continentes sem bússola, que cria ferramentas com a astúcia de um artesão e que reinventa a música todas as manhãs. A verdadeira genialidade das aves não está na capacidade de voar, mas na audácia de compreender o mundo com um cérebro do tamanho de uma noz."-Jennifer Ackerman

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

sexta-feira, 20 de março de 2026

The Common Root, The Open Field


The sun is a golden carpenter, planed and raw,
Not a thought of God, just the heat upon the stone.
I see with eyes that have forgotten how to name,
Stripping the silk from the corn, the myth from the bone.
I am the keeper of flocks that are only the passing wind,
Content to let the river be water, and the air be thinned.

And so the valley breathes a deep, fern-scented sigh,
Where ancient hemlocks haunt the mist-drenched floor.
There is a poetry in the granite’s edge, the eagle’s cry,
The rhythmic pulse of the river’s wild and hidden roar.
I see the silver birch’s bark, a lily in the gloom,
And the vast, tangled geometry of the mountain’s room.

Yet, look closer—there is a circuit made of sun, 
Where silent cells weave the carbon from the air. 
The plant is not a thing, but a process, a run
A thinking heart that finds the cosmic everywhere.
The earth is a living being, dreaming in the dark,
Waiting for the human soul to strike the inner spark.

I walk the lanes where a poet lost his mind to find his soul,
Naming every nested bird and the trembling of the rye.
The fences steal the common, but they cannot take the whole
Of the vast, unlettered music of the open summer sky.
The badger in the brake, the lady-smock in the dew—
Simple things are the only things that are ever truly true.

And when the world begins to fray, when the shadows grow too long,
A steady hand reaches out and leads me through the grief.
To love the world is to mourn it, a fierce and ancient song,
Finding the "Great Turning" in the falling of a leaf.
We are the web itself, the pulse of the ancient deep,
Awakening from the long, industrial, lonely sleep.

Finally, there is the white silence of a master’s hand,
Where the word is a body, bare and salt-washed by the sea.
A solar clarity that understands the shifting sand,
And the brief, bright miracle of what it means to be.
Just the earth. Just the light. Just this breath we share—
The common root of everything, blossoming in the air.

sábado, 7 de março de 2026

Birds Aren’t Just Declining. They’re Declining Faster, a New Study Finds



Bird populations are in free fall across North America. And in some hotspots their decline is accelerating, a new study reveals.

Wild bird numbers declined at an accelerating rate in California, the Midwest and the Mid-Atlantic between 1987 and 2021. Across these hotspots, losses were associated with high-intensity agriculture, according to the study.

Although the study, published Feb. 26 in the journal Science, shows a correlation between declining bird populations and intense agriculture, it doesn't definitively prove that agriculture is driving the increased decline or identify which agricultural activities might be responsible.

However, signs of intense agricultural activity consistently proved to be the best predictor of increased bird decline, which mirrors similar research conducted in Europe. The researchers also found that declines were stronger in warming areas, suggesting that rising temperatures due to climate change were driving some bird disappearances.

Birds perform important roles in the ecosystem, including spreading plant seeds and keeping insect populations under control. For decades, scientists have been concerned that bird populations are falling due to human activities, both in North America and globally — a plight shared by many other animals. What's special about the new research is that it reveals how the decline in North America has accelerated since the late 1980s.

"We are not talking about the decline but the acceleration of the decline," study lead author François Leroy, a postdoctoral researcher in macroecology at The Ohio State University, told Live Science. "We see that this decline is getting faster and faster with the intensification of human activities."

Leroy and his colleagues mapped bird decline by studying data from the North American Breeding Bird Survey, which is an annual surveying effort by professional biologists and skilled amateurs to monitor bird populations across North America. As a part of the survey, participants walk along specific routes and record the birds they find.

The researchers focused on specific routes with enough data to measure the rate of decline over 35 years. These routes were primarily in the U.S. and included 261 bird species. Across all of the species surveyed, the overall abundance of birds fell by at least 15%, with significant drops documented in about half (122) of the species and accelerating declines reported in about a quarter (63) of the species. Common birds ‪—‬ like red-winged blackbirds (Agelaius phoeniceus), house finches (Haemorhous mexicanus) and American crows (Corvus brachyrhynchos) ‪—‬ were among the native species found to have suffered an accelerated decline.

The study focused on the rate of decline in specific routes, so it's unclear how many individual birds were lost across the entire continent during the study period. However, previous research has found that billions of birds have disappeared in recent decades.

A 2019 study published in the journal Science estimated that the North American bird population decreased by 2.9 billion individual birds between 1970 and 2017. That estimate equated to a drop of 29%, which is almost double the 15% decline documented in the new study. However, the 2019 study also covered an earlier and longer time period when there may have been more severe losses.
People only started surveying North American birds in the second half of the 20th century, but we've been killing them directly and indirectly for much longer than that. For example, commercial hunting by humans forced passenger pigeons (Ectopistes migratorius), a species estimated to have once had a population of 3 billion to 5 billion, to extinction in 1914.

What caused the "birdemic"?
The new study demonstrated that birds were incurring losses not just at the species level but across whole families of species and across different habitats. To better understand the worrying trend, the researchers compared the bird data to potential contributing factors, such as temperature change, rainfall and land-cover changes.

The acceleration of bird decline coincided with large areas of croplands and high usage of fertilizers and pesticides, which are signs of intense agriculture. This tracks with research in Europe that has found that agricultural intensification has negatively impacted bird diversity.

Intense agriculture can destroy, change and break up traditional bird habitat. The amount of land used for farming in the U.S. hasn't changed that much since the 1980s. Agriculture has become more consolidated in that time, with a decline in midsize farms and a shift to larger farming operations, but there's slightly less land being used for farming overall. Thus, the bird losses can't be blamed solely on the amount of farmland. However, they could be the result of changes in farming practices.

Leroy said that from the new study, it's not really possible to say which specific practice in agriculture is the worst for bird losses. However, he noted that from previously published studies, it seems like pesticide use is one of the main suspects.

A 2023 study published in the journal PNAS found that the use of pesticides and fertilizers was the key to agricultural intensification being the main pressure behind most bird population drops, particularly in birds that feed on invertebrates. Most disappearing bird species depend on insects for food, and insects are in steep decline as they are killed through the use of pesticides. Birds also consume pesticides directly.

Leroy said he would like to see what farmers think about the correlation between agricultural intensification and bird losses. He and his co-authors also noted in the study that agriculture warms landscapes by reducing the amount of vegetation and altering its properties, which may then amplify warming impacts on birds.

While the findings were mostly bad news for birds, there were some bright spots. For example, the researchers found some local increases in forest bird populations, which likely benefited from the reforesting of old farmland. There was also a small pocket of land just north of the U.S.-Canada border where the overall abundance of birds increased — the only region in which this occurred. However, Leroy said he had "no clue" why this was the case.

"It doesn't mean that Canada is doing better because if you look at other regions in Canada, there were also some significant declines," he added.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria Sibylla Merian (1647-1717) - uma das pioneiras em Ecologia

Ilustração: ‘Dissertação sobre a geração e metamorfoses de insetos surinameses’, (1719)



Anna Maria Sibylla Merian foi uma naturalista e pintora. Ela utilizou o seu talento para o desenho, adquirido numa família de editores e ilustradores de renome, para complementar as suas observações naturalistas altamente detalhadas, particularmente sobre a metamorfose das borboletas.

Ela revolucionou a história da ciência com o seu trabalho sobre a transformação dos insetos.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

Do mar à terra, passando pelos céus: como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O fascínio das corujas

Fotografia do meu Amigo Luís Aguiar

O Fascínio das Corujas: As Guardiãs Silenciosas da Noite
As corujas sempre ocuparam um lugar ambíguo no imaginário humano. De símbolos da sabedoria na Grécia Antiga a presságios de mistério em outras culturas, essas aves de rapina noturnas dominam a escuridão com uma eficiência biológica que beira a perfeição. Mas o que, exatamente, alimenta esse fascínio das corujas? A resposta está na sua anatomia altamente especializada.

Engenharia Biológica: Feitas para a Invisibilidade
A biologia das corujas é um testemunho da evolução adaptativa. Enquanto outros predadores confiam na velocidade ou na força bruta, a coruja domina através da furtividade.

1. O Voo Fantasmagórico
Ao contrário de um pombo ou de uma águia, cujo bater de asas produz um som característico, o voo da coruja é praticamente inaudível. Isso se deve às fímbrias: serrilhas nas bordas das penas que quebram a turbulência do ar, permitindo que a ave se aproxime da presa sem ser detectada.

2. Visão de Túnel (literalmente)
Os olhos de uma coruja não são globos oculares, mas sim estruturas tubulares alongadas. Essa forma permite uma retina maior e, consequentemente, uma capacidade de absorção de luz extraordinária. No entanto, por serem tubulares, elas não conseguem mover os olhos. Para compensar, a natureza as dotou de 14 vértebras cervicais (o dobro dos humanos), permitindo uma rotação de cabeça de até 270°.

3. Audição em 3D
Muitas espécies possuem aberturas auditivas assimétricas. Essa diferença de altura entre os ouvidos permite que o cérebro processe o som com um "atraso" milimétrico, criando um mapa mental tridimensional da localização da presa, mesmo que ela esteja escondida sob folhas ou neve.

O Fascínio sob a Óptica Científica
O fascínio pelas corujas não é apenas estético; é ecológico. Como predadores de topo, elas são indicadores fundamentais da saúde de um ecossistema. 
As corujas são sentinelas do ecossistema. O estudo de suas egagropilas (pelotas de restos não digeridos) é uma das ferramentas mais ricas para entendermos a biodiversidade local.
Onde há corujas saudáveis, há um controle eficiente de populações de roedores e um ambiente equilibrado.

Referências para Estudo

1. Para quem deseja aprofundar-se na biologia dessas aves, recomendamos as seguintes fontes:
  1. BACKHOUSE, Frances. Owls: Our Most Charming Bird. Firefly Books, 2021.
  2. CATRY, Paulo; COSTA, Helder; ELIAS, Gonçalo; MATIAS, Rafael. Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, 2010.
  3. ELIAS, Gonçalo; et al. Aves de Portugal
  4. KÖNIG, Claus; WEICK, Friedhelm. Owls of the World. Yale University Press, 2008.
  5. MULLARNEY, Killian; SVENSSON, Lars. Guia de Aves (Edição portuguesa da Assírio & Alvim).
2. Estudos Académicos e Conservação
  1. ROQUE, Inês. Ecologia e Conservação de Rapinas Noturnas em Portugal. (Pesquisadora da Universidade de Évora e do ICAAM, com vasto trabalho sobre a Coruja-do-mato e o Mocho-galego).
  2. TOMÉ, Ricardo. Estudos sobre a dieta e habitat da Asio otus (Bufo-pequeno) e Tyto alba (Coruja-das-torres) em zonas agrícolas portuguesas.


sábado, 17 de janeiro de 2026

Faleceu Pedro Sarmento - coordenador do programa de reintrodução do lince-ibérico em Portugal


O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas manifesta o seu mais profundo pesar pelo desaparecimento prematuro do nosso colega Pedro Sarmento, esta sexta-feira.

Biólogo de formação, Pedro Sarmento coordenava no ICNF o programa de reintrodução in-situ do lince-ibérico em Portugal e foi uma figura essencial no sucesso do trabalho desenvolvido. Integrou os quadros do ICNF em 1994 e desde então a sua paixão, vontade e dedicação inabaláveis foram fundamentais para o sucesso deste programa.

O Pedro amava os linces, que eram a sua razão de viver.

Quando em 16 de dezembro de 2014 se libertou o primeiro casal de linces-ibéricos - a Jacarandá e o Katmandú - no cercado de solta branda, na Herdade das Romeiras, em Mértola – o Pedro permaneceu durante várias noites no exterior do cercado, velando para que nada de anormal acontecesse aos linces recém-chegados, ela proveniente do CNRLI, em Silves, e ele originário de Zarza de Granadilla, na Extremadura espanhola.

Desde então, foram muitas as noites mal dormidas e incontáveis os dias em que o Pedro percorreu quilómetros atrás de quilómetros, a pé e em viatura, dando tudo o que tinha, muitas vezes excedendo-se, para que o regresso do lince-ibérico a Portugal não falhasse e viesse a revelar-se, aos dias de hoje, o projeto de conservação da natureza de maior sucesso em Portugal e na Península Ibérica.

O Pedro viveu num outro Universo, mais acelerado e mais brilhante do que aquele em que a maioria de nós vivemos e, aos 59 anos, deixa-nos uma marca incomensurável e um vazio difícil de preencher.

Nunca esqueceremos o ser humano extraordinário, a mente brilhante e o amigo insubstituível. Uma perda irreparável.

A toda a família, amigos e colegas, o ICNF endereça as mais sentidas condolências.

O Pedro dormia com os linces, e agora descansa em paz.

Até sempre, Pedro, e Obrigado