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sábado, 11 de março de 2023

SVB: do vale para o abismo


Na sexta-feira, o banco californiano Silicon Valley Bank (SVB) tornou-se o maior banco a falir desde a crise financeira de 2008. Num súbito colapso que chocou os mercados financeiros, deixou encalhados milhares de milhões de dólares pertencentes a empresas e investidores.

O SVB recebeu depósitos e fez empréstimos a empresas no coração do sector tecnológico da América. A US Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) está agora a atuar como consignatário. O FDIC é uma agência governamental independente que assegura os depósitos bancários e supervisiona as instituições financeiras, o que significa que liquidará os ativos do banco para reembolsar os seus clientes, incluindo depositantes e credores.

O que aconteceu ao SVB? E será isto um acontecimento isolado ou um sinal de que há mais desabamentos financeiros para vir? O desenvolvimento imediato foi o anúncio pelo SVB de que havia vendido com prejuízo um monte de títulos em que investira e que teria de vender US$2,25 mil milhões em novas ações para tentar reforçar o seu balanço. Isto disparou o pânico entre as principais empresas tecnológicas da Califórnia que mantinham o seu cash no SVB. Houve uma corrida clássica ao banco. Com uma velocidade relâmpago, o banco teve de impedir os depositantes de retirarem dinheiro. O preço das ações da empresa entrou em colapso, arrastando outros bancos para baixo com ele. A negociação de ações do SVB foi interrompida e a seguir o SVB abandonou esforços para angariar capital ou encontrar um comprador, o que levou o FDIC a assumir o controlo.

Apesar de pouco conhecido fora do Vale do Silício, o SVB estava entre os 20 maiores bancos comerciais americanos (o 16º maior), com 209 mil milhões de dólares em ativos totais no final do ano passado, de acordo com o FDIC. É o maior credor a falhar desde que o Washington Mutual entrou em colapso em 2008 durante o crash financeiro global. Assim, ao contrário de alguns relatos, o SVB não é um peixinho. Ele oferecia serviços a quase metade de todas as empresas de tecnologia e cuidados de saúde apoiadas por capital de risco nos EUA. O SVB detinha dinheiro para estes "capitalistas de risco" (aqueles que investem em novas empresas "em fase de arranque").

Mas também fez investimentos com os depósitos em dinheiro que obteve, concedendo por vezes empréstimos de risco pessoais a criadores de tecnologia, bem como às suas empresas. Mas os seus investimentos começaram a dar origem a perdas. A SVB apostara na compra de títulos do governo americano aparentemente seguros. Contudo, quando a Reserva Federal iniciou o seu ciclo de subida das taxas de juro para "controlar a inflação", o valor destes títulos do governo caiu drasticamente e o balanço do SVB começou a tomar água. Quando informou o mundo financeiro que estava a vender estes títulos com prejuízo para fazer face a retiradas de dinheiro por parte de clientes, a corrida ao banco ganhou proporções de inundação. Ao não conseguir obter financiamento adicional através da venda de ações, o SVB teve de declarar bancarrota e entrar em processo de concordata (receivership) junto ao FDIC.

Há quem tente afastar a ideia de que o colapso do SVB é um sinal do que está para vir. "O SVB era pequeno, com uma base de depósitos muito concentrada", disse o responsável da investigação europeia sobre ações da Amundi, Ciaran Callaghan. Não estava "preparado para saídas de depósitos, não tinha a liquidez disponível para cobrir resgates de depósitos e, consequentemente, foi um vendedor forçado de obrigações que impulsionava um aumento de capital e criou o contágio. Este é um caso muito isolado e idiossincrático".

Portanto, é um caso isolado. Mas será? O colapso da SVB deve-se a um acontecimento mais amplo, nomeadamente a subida agressiva das taxas de juro da Reserva Federal ao longo do ano passado. Quando as taxas de juro estavam perto de zero, bancos como o SVB carregaram-se com títulos do Tesouro a longo prazo, aparentemente de baixo risco. Mas como a Reserva Federal elevava as taxas de juro para "combater a inflação", o valor desses ativos caiu, deixando muitos bancos sentados sobre perdas não realizadas.

As taxas mais elevadas também atingiram o sector tecnológico de forma especialmente dura, subcotando o valor das ações tecnológicas e tornando difícil a angariação de fundos. Assim, empresas de tecnologia começaram a levantar os seus depósitos em dinheiro no SVB para satisfazerem as suas contas. Ed Moya, analista de mercado sénior da Oanda, comentou: "Toda a gente na Wall Street sabia que a campanha do Fed para a cobrança de taxas acabaria por quebrar algo e neste momento isso está a derrubar os bancos pequenos". O outro racha na parede bancária está nas criptodivisas. O cripto banco prestamista Silvergate também foi forçado a liquidar após o colapso do bitcoin e de preços de outras criptodivisas.

"Os desafios institucionais do SVB refletem uma questão sistémica maior e mais generalizada: a indústria bancária está sentada sobre uma tonelada de ativos de baixo rendimento que, graças a aumentos de taxas do ano passado, estão agora muito debaixo de água – e a afundarem", disse Konrad Alt, co-fundador do Grupo Klaros. Alt estimou que os aumentos das taxas "eliminaram efetivamente cerca de 28% de todo o capital da indústria bancária a partir do final de 2022".

O fracasso do SVB pode ser pontual, mas os crashes financeiros começam sempre com os mais fracos ou os mais imprudentes. Este é um banco que estava a ser esmagado pelas tesouras de uma queda iminente: queda dos lucros no sector tecnológico e queda dos preços dos ativos causada pela subida das taxas de juro. O SVB havia crescido para cerca de US$209 mil milhões em ativos com uma base de clientes concentrada entre empresas tecnológicas em fase de arranque, pelo que se revelou particularmente vulnerável ao impacto do rápido aumento das taxas de juro. Mas as perdas do SVB na venda de obrigações estão a repetir-se entre muitos outros bancos. O FDIC informou recentemente que os bancos norte-americanos estão sentados sobre US$620 mil milhões de perdas combinadas não realizadas nas suas carteiras de títulos.

Entretanto, após os últimos números relativos ao emprego terem continuado a mostrar um mercado de trabalho "apertado", a Reserva Federal parece estar determinada a continuar a aumentar as taxas de juro ainda mais depressa e mais alto do que os investidores financeiros esperavam. Dando testemunho ao Congresso dos EUA na semana passada, o presidente da Reserva Federal, Jay Powell, deixou claro que: "O emprego, os gastos dos consumidores, a produção manufatureira e a inflação inverteram parcialmente as tendências de abrandamento que tínhamos visto nos dados há apenas um mês atrás". E como Larry Summers, o guru keynesiano e ex-Secretário do Tesouro, afirmou: "Temos de estar preparados para continuar a fazer o que é necessário para conter a inflação". Possivelmente ao ponto de deitar abaixo partes do sector bancário e corporativo.

11/Março/2023

Ver também:

domingo, 20 de novembro de 2022

Formação em Transição Justa e Empregos para o Clima


Este será um ano decisivo para o nosso futuro. Ou vão continuar os avanços da indústria fóssil que ativamente procurará desculpas para travar a transição energética, aproveitando a crise socioeconómica para expandir as suas atividades e concentrar poder, ou nós vamos ganhar o argumento para um plano das pessoas para as pessoas para construir um futuro justo e habitável para toda a gente.

Existe um plano concreto para cortar reduzir as emissões nacionais de gases com efeito de estufa em 80-90% em 10 anos ao mesmo tempo que serão criados 200-250 mil novos postos de trabalho em setores-chave da economia, maioritariamente nas áreas de energias renováveis, transportes públicos, construção, agricultura e floresta. Vem saber como nesta formação em Transição Justa e Empregos para o Clima, que se vai realizar online, dia 21 de novembro, às 18h30.

Inscreve-te para receber o link de acesso à formação.

A crise climática e a crise social de custo de vida fazem-se sentir com cada vez mais força nas nossas vidas. A campanha Empregos Para o Clima é a nossa proposta política para responder a estas duas crises duma forma justa e compatível com a ciência climática.

A crise climática é o maior desafio da História. O aumento da temperatura média faz escassear a água potável e comida nutritiva, despoleta guerras por recursos, fluxos migratórios massivos, tempestades e incêndios que destroem casas, infraestruturas, costas, florestas e colheitas. Isto acontece porque o setor energético tem somas exorbitantes investidas em combustíveis fósseis. Estas somas estão a custar a vida, a saúde, a casa e o futuro a muita gente.

Os cientistas climáticos preveem que um aquecimento de 2°C (face a níveis pré-industriais) fará com que hajam mudanças incontroláveis e galopantes no sistema terrestre. Por outro lado, segundo a Agência Internacional de Energia, a infraestrutura energética existente no mundo em 2017 já era suficiente para nos encerrar numa via para os 2°C de aquecimento.

A melhor estimativa da ciência é de que temos até 2030-2040 para mudar o curso da civilização humana e iniciar uma transição energética profunda a nível global.

Em Portugal, temos de cortar as emissões de gases de efeito de estufa em 80-90% num período de 10 anos.

A campanha Empregos para o Clima defende uma transição energética que dê emprego digno e socialmente útil a dezenas de milhares de pessoas. A campanha foi lançada em 2016 e conta com o apoio de várias organizações de sociedade civil, como sindicatos, ONGs e coletivos ambientalistas.

O relatório “Empregos para o Clima” (2021), produzido por um trabalho coletivo de académicos, sindicalistas e ambientalistas, defende que é possível reduzir as emissões nacionais de gases com efeito de estufa em 80-90% em 10 anos. Para esta transição energética rápida, serão precisos 200-250 mil novos postos de trabalho em sectores-chave da economia, maioritariamente nas áreas de energias renováveis, transportes, construção, agricultura e floresta.

As reivindicações da campanha têm quatro princípios:
  1. Criação de novos postos de trabalho;
  2. No setor público;
  3. Nos setores-chave que têm impacto direto nas emissões, como energia, transportes, construção, gestão de florestas e agricultura;
  4. Com garantia de requalificação profissional e prioridade ao emprego para as trabalhadoras e os trabalhadores dos setores poluentes.
Para saber mais:

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Bitcoins, sonho de consumo dos anarco-capitalistas


Fonte: Doug Henwood, 2017

O guru do marketing Robert Prechter, grande psicólogo dos mercados financeiros embora seja seguidor devotado de Ayn Rand e acredite na peça de ficção denominada teoria Elliott Wave, alegou certa vez que num grande mercado especulativo há algo denominado “ponto de reconhecimento”, quando o público embarca. Isso significa que está ficando tarde e já é hora de os profissionais pensarem em cair fora (embora a mania possa continuar bem depois do envolvimento das pessoas comuns).

Parece que estamos nesse ponto com a Bitcoin, cujo preço teve, nos últimos anos, uma trajetória semelhante à de grandes manias da história, como o frenesim do bulbo de tulipa holandês, dos anos 1630, a bolha do Mar do Sul dos anos 1710 e as orgias do mercado de ações norte-americano nos anos 1920 e 1990.

O que acontece? Antes de entrar nos detalhes, é preciso lembrar que dinheiro, em geral, não é um tema simples. A maioria das pessoas tem um bom entendimento de como o ouro, que é um tipo específico de dinheiro, é garimpado, processado e formatado em lingotes e moedas. Um pouco menos óbvia é a razão por que tem um status monetário diferente, digamos, ao da platina. Mas é raro, puro, facilmente divisível, e muito apreciado ao longo dos tempos.

O dinheiro de papel é mais complexo. De 1900 até 1971, o dólar norte-americano era lastreado pelo ouro, o que significa que seu valor era legalmente definido por um certo peso do metal. Isso acabou em 1971, quando o presidente Richard Nixon chocou o mundo ao romper a relação com o ouro e permitir que seu valor fosse determinado pela negociação nos mercados de câmbio.

O Bitcoin, contudo, é um animal completamente diferente. É a primeira e mais famosa de uma família grande e crescente de coisas denominadas “criptomoedas”. A família inclui o Ethereum, o Ripple, o Dash e o Monero – mas o Bitcoin é de longe o maior. O valor total dos Bitcoins existentes hoje é de 261 biliões de dólares. Isso é um terço a mais que o valor total das ações do Citigroup, e pouco menos que o valor das ações da Wells Fargo, bancos reais com milhões de clientes, que produzem dinheiro de verdade.

A origem do Bitcoin está num texto de 2008 escrito por alguém com o pseudónimo de Satoshi Nakamoto. Bem a propósito, a despeito das muitas tentativas, ninguém conseguiu saber quem ele é.

A definição semioficial de criptomoeda é “uma moeda digital produzida pessoa-a-pessoa, descentralizada, cuja implementação baseia-se nos princípios da criptografia para validar as transações e geração da própria moeda.” (Embora seja um tijolo denso de prosa, é preciso fazer justiça para os criptoides lembrando que também não seria fácil definir o dólar de forma sucinta.)

Tudo isso significa que o Bitcoin e as outras são moedas eletrónicas – pura entrada de dados em registros eletrônicos – criadas e transferidas por uma rede de computadores sem que ninguém seja responsável por isso. O papel da criptografia não é simplesmente garantir a segurança da transação, mas também gerar novas unidades da moeda. Novas unidades de criptomoeda são “garimpadas” por computadores ao resolver complicados (e descabidos) algoritmos matemáticos, que uma vez solucionados possibilitam o nascimento de uma unidade da moeda – com assinatura digital garantindo autenticidade e unicidade –, então anunciado ao resto do sistema.

Cada Bitcoin inclui um Blockchain, registo digital anónimo do histórico de transação dessa unidade. O criador ganha o valor da nova moeda quando ela entra no sistema. Você pode comprar ou vender Bitcoins online, e há alguns poucos caixas eletrónicos para Bitcoins espalhados pelo mundo.

A garimpagem requer quantidades enormes de potência computacional. Segundo algumas estimativas, a potência usada pela Bitcoin pode já ser igual à de 3 milhões de famílias dos EUA, e superar o consumo individual de 159 países. A massa dessa garimpagem acontece na China, onde a maior parte da eletricidade é gerada pelo carvão, um negócio sujo. Espera-se que o número total de Bitcoins em circulação chegue a 21 milhões; já estamos por volta de 17 milhões. À medida em que o limite vai sendo alcançado, os algoritmos de criação das moedas ficam mais difíceis de resolver — e mais carbono é gerado. Mesmo as coisas aparentemente mais imateriais têm com frequência profundas raízes materiais.

Vale enfatizar que os algoritmos usados para gerar Bitcoins não têm sentido. Não servem a nada útil. Para alguns adeptos, isso é uma coisa boa, porque estar ligadas a um propósito útil poderia conferir valor intrínseco à moeda; é melhor deixar seu valor flutuar livremente, limitado apenas pela imaginação humana.

É essa a tecnologia do Bitcoin. E o que dizer dela como dinheiro? A clássica definição dos economistas sobre o dinheiro é que ele é uma reserva de valor, uma unidade de medida e um meio de troca. Você vai à loja e vê uma lata de tomates que custa 3 dólares, os quais serão registados pela loja como receita quando a lata for vendida. Você saca 3 dólares do bolso ou do seu cartão de débito. Extrai o valor provisionado (dinheiro na mão ou no banco) e usa-o como meio de troca.

O dólar norte-americano tem valor porque todo mundo nos EUA (e além) considera a moeda bem-sucedida ao preencher estes três requisitos como dinheiro. O dólar é valorizado pelos bens e serviços que pode comprar.

Já o Bitcoin tem sérios problemas em todos esses aspectos. Recentemente, numa única semana, o valor da Bitcoin variou entre 15 mil e 21 mil dólares aproximadamente. Um ano atrás, seu valor era de pouco mais de 800 dólares. Não é, portanto, uma reserva de valor muito confiável. (Está cotado em US$15.625 agora. Mas espere um minuto e ele vai mudar. Aqui, uma cotação ao vivo.)

Quase ninguém aceita Bitcoins, nem empresas mantêm nele sua contabilidade; ele fracassa tanto como unidade de valor quanto como medida de troca. E sua curta história – os primeiros Bitcoins foram cunhadas em 2009 – tem sido turbulenta. Houve vários roubos, fraudes e hackeamentos, que seus partidários consideram dores de crescimento. Mas sem instituição reguladora, sem depósito de segurança e sem banco central, esse tipo de incidente é inevitável. Introduza, porém, esquemas de regulação e seguroança e a Bitcoin perderá todo o seu anarco-charme.

O ouro é como o Bitcoin, por ser uma forma não estatal de dinheiro — razão pela qual é amado pelos ultra-liberais [libertarians, em inglês], mas tem se saído muito melhor como reserva de valor. O preço do ouro varia bem menos que um por cento ao dia – mas seu preço é ainda mais volátil que o do dólar norte-americano. É uma reserva de valor semiconfiável.

Já nos outros requisitos o ouro não é muito melhor que o Bitcoin: não dá pra comprar muita coisa com ele, e quase nada tem seu preço ou é contabilizado em ouro.

A despeito disso, o ouro retém um enorme apelo fantasmático – um tipo “objetivo” de medida de valor, determinada pelo mercado, distante da intervenção dos Estados. Keynes considerou o ouro parte do “aparato do conservadorismo”. Era um velho conservadorismo, o dos rentistas que amavam a austeridade, porque ela preservava o valor de seus ativos. O Bitcoin serve a um propósito totémico semelhante para os ciberliberais de hoje — que o amam não somente pelo fato de ser dinheiro não-estatal, mas também por seu poder de “desestabilizar”. O Bitcoin é parte do aparato do anarco-capitalismo.

O universo político do Bitcoin tem face principalmente ultra-liberal, mas inclui uma esquerda. Um texto escrito há alguns anos por Denis “Jaromil” Roio — um hacker, artista e estudante de graduação — utiliza citações de Michael Hardt, Antonio Negri, Giorgio Agamben e Christian Marazzi para dar ao Bitcoin um giro revolucionário, vendo-o de forma criativa como caminho para “a multidão [construir] seu corpo além da linguagem”. Jaromil não explica como a transformação do instrumento monetário poderá mudar o caráter da produção ou o modo como a renda é distribuída.

Há algo a ser dito sobre o anonimato do Bitcoin – embora deva-se perguntar quão impenetrável é seu véu para a NSA — Agência de Segurança Nacional dos EUA. Por agora, é um meio semisseguro para comprar armas e drogas.

Mas além do anonimato, é difícil enxergar quais os problemas que a Bitcoin resolve. A transição para o dinheiro de papel foi uma resposta à crise do sistema baseado no ouro. Não há valor prático no Bitcoin – de novo, além do anonimato – mas ele carrega bagagem política.

Deixando de lado seus empreendedores e especuladores, que querem apenas enriquecer, a visão política do Bitcoin é de um mundo descentralizado e sem Estados, com sistemas monetários em competição.

Dinheiro competitivo, que acaba com o monopólio do Estado na área, é há muito o sonho da direita. Num texto de 1976, Friedrich Hayek argumentava a favor de permitir a circulação de várias moedas dentro de cada país; a competição levaria ao uso da moeda mais sólida – isto é, a mais adequada às políticas de “austeridade”. Seria uma forma de controlar as tentativas governamentais de inflar as possibilidades de resolver problemas.

Isso significaria ausência de estímulo fiscal ou monetário em crises económicas – deixem a seleção natural agir, simplesmente. As criptomoedas seriam um passo a mais em direção à ideia de moedas competitivas, que poderiam desafiar o próprio monopólio de emissão do Estado. (Na verdade, tínhamos moedas competindo no século XIX; diversos tipos de pequenos bancos emitiam notas que frequentemente acabavam perdendo valor.) Claro, não há inflação; mas o dinheiro governamental provou ser muito mais estável do que suas alternativas — sejam elas ouro ou Bitcoin. Nenhum correntista perdeu um centavo na crise financeira de 2008; não se pode dizer o mesmo sobre os Bitcoins, em sua curta existência. Mas os ultra-liberais – e há muitos deles na tecnologia e nas finanças, as mães do Bitcoin – estão preocupam-se obsessivamente com a inflação; do mesmo modo que os titãs dos fundos de investimento consideram o fim de suas isenções fiscais como uma repetição da Alemanha nazi.

De modo que, embora o Bitcoin falhe como dinheiro, ele adquiriu uma vida intensa como ativo especulativo. Ao contrário da maioria dos ativos especulativos convencionais, porém,o seu valor é completamente imaterial. As ações são, em última instância, direitos sobre os lucros das empresas; e os títulos públicos asseguram um fluxo futuro de pagamentos de juros. Não se pode dizer o mesmo dos bitcoins. Seu único valor é aquilo que alguém vai pagar por eles hoje à tarde ou talvez amanhã. E agora estão sendo negociados no mercado futuro, o que leva a especulação a uma quarta ou quinta dimensão.

E que onda especulativa!. Todoo mundo quer participar do movimento. Imitadores do Bitcoin surgem todos os dias. Há pouco, especuladores garfaram mais de 700 milhões de dólares para uma empresa, a Block One, com uma criptomoeda que não existe realmente e, segundo seus patrocinadores, não tem objetivo. A empresa não divulgou quase nenhuma informação sobre si, e quase nada é conhecido sobre seus fundadores. Alguns dias depois, bem cedo, a empresa Long Island Ice Tea, que vende bebidas não alcoólicas, mudou seu nome para Long Blockchain, e imediatamente o preço de suas ações mais que dobraram. A empresa não tem acordo com nenhum promotor de criptomoeda, nem está prospectando isso. O truque foi a mera troca de nome.

É tudo uma loucura, mas o meu palpite é que este tipo de bolha não causará grande dano econômico, quando estourar. Para isso, ela teria de ser financiada por bancos, que estariam em risco de falência quando as coisas ruíssem. Não é o que parece estar acontecendo. Haverá, contudo, quem perca a camisa.

O que é mais sério, essa bolha mostra que algumas pessoas têm muito dinheiro. Nossas sociedades têm dinheiro mais que suficiente para especular, mas não para suprir as necessidades humanas.