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sábado, 18 de julho de 2026

Anatomia de um arboricídio: o sacrifício de um Pinheiro-Manso em Lisboa

A recente condenação de um pinheiro-manso histórico em Lisboa reabriu o debate sobre a forma leviana como o património natural urbano é gerido em Portugal. No centro da polémica, José Ribeiro e Castro alega que a decisão de abate foi tomada com base num parecer técnico contratado a privados, uma manobra que serviu para ignorar e contornar as indicações expressas em sentido contrário dadas pelos técnicos oficiais da Câmara Municipal de Lisboa. Para justificar o corte, a narrativa oficial recorreu ao clássico exagero mediático, empolando o perigo com expressões alarmistas como "dezenas de toneladas" em risco de queda, e invocando os habituais argumentos dos passeios levantados ou de tubagens danificadas. No entanto, não faltaram alertas legítimos da sociedade civil, com o Fórum Cidadania Lx a encabeçar os avisos de que estávamos perante um atentado ambiental desnecessário.

Este abate coloca Lisboa em total contraciclo com as grandes cidades europeias, que hoje competem para expandir as suas copas urbanas. Ao contrário do que a ignorância política faz crer, a ciência atual oferece inúmeras tecnologias que previnem o arboricídio, sem que seja necessário invocar o exemplo máximo da engenharia tradicional japonesa, o Nemawashi. O progresso tecnológico permite-nos, de facto, resolver estes conflitos sem recurso à motosserra. Para o problema das raízes e dos passeios, existem tecnologias subterrâneas como as células de solo modulares e as barreiras físicas, que direcionam o crescimento radicular para baixo e protegem o pavimento. Para a avaliação da saúde da árvore, o diagnóstico pode ser feito com o rigor de uma ecografia através de tomógrafos sonoros e resistógrafos, que revelam se o tronco está oco sem desferir um único golpe. Numa escala macro, as metrópoles usam sensores de inclinação IoT, drones e laser LiDAR por satélite para vigiar o stress hídrico, complementados por plataformas de cadastro aberto e QR Codes que dão a cada árvore um bilhete de identidade digital, permitindo ao cidadão fiscalizar a legalidade de qualquer intervenção e combater a impunidade.

O argumento do custo financeiro destas tecnologias também não colhe. O mercado oferece hoje soluções em vários patamares: se a monitorização contínua por sensores IoT exige orçamentos de grandes capitais, o desenvolvimento de aplicações de denúncia urbana e a instalação de barreiras de raiz são investimentos perfeitamente acessíveis a qualquer pequeno município. Os especialistas são unânimes: investir na preservação é altamente rentável, pois o custo de manter uma árvore adulta saudável é uma ínfima fração do prejuízo económico e ambiental que resulta da sua remoção, da reparação de infraestruturas e do agravamento das ilhas de calor urbanas. No fundo, este caso expõe uma crise de mentalidade. Confundir a gestão de árvores urbanas com o trabalho de um homem de motosserra é o mesmo que confundir um cirurgião com um carniceiro. Ambos usam ferramentas de corte e ambos alteram o corpo, mas enquanto o primeiro estuda anos para curar e preservar a vida, o segundo apenas quer despachar o trabalho, amputando cegamente o que lhe aparece à frente. Lisboa perdeu mais do que um pinheiro; perdeu a oportunidade de demonstrar maturidade e respeito pela ciência.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Mais um miradouro, neste caso, em frente à Cascata de Fisgas do Ermelo


A cascata das Fisgas de Ermelo, conhecida como uma das maiores de Portugal e da Europa, tem agora um novo miradouro. A inauguração oficial aconteceu na manhã deste domingo, 19 de abril, em Mondim de Basto, no distrito de Vila Real. O momento contou com a presença do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Pedro Machado.

A queda de água tem um impressionante desnível de 400 metros e já contava com um miradouro natural. No entanto, a Câmara Municipal realizou recentemente uma construção para melhorar as condições de acesso, deixando-as mais seguras para os visitantes e atletas que percorrem a região.

Foram criados um acesso pedonal e um passadiço para permitir que os visitantes consigam aceder ao miradouro sem qualquer problema. A construção, segundo o autarca, já devia ter sido inaugurada, mas sofreu atrasos devido à falência da empresa responsável.

“Tivemos a infelicidade de a empresa que estava responsável pela construção da plataforma ter entrado em falência. Portanto, todo o procedimento para que a autarquia pudesse assegurar a concretização da obra foi moroso”, apontou, aqui citado pelo “Público”.

As obras também chegaram a ser criticadas por alguns residentes, que acreditam que a nova construção afeta a paisagem natural. No entanto, a autarquia acredita que vai atrair mais turistas para a região.

𝐏𝐞́𝐬𝐬𝐢𝐦𝐚 𝐧𝐨𝐭𝐢́𝐜𝐢𝐚!  Mais um postal para a "Disneylândia" da natureza - a tendência das autarquias para artificializar paisagens selvagens através da construção de passadiços e plataformas de metal e vidro. Este fenómeno transforma o contacto com o mundo natural numa experiência de consumo visual rápido, focada na partilha em redes sociais, em vez de promover uma ligação autêntica e educativa com o ecossistema. 

Paralelamente, o impacto na biodiversidade e na geologia é preocupante, uma vez que estas estruturas permanentes podem fragmentar habitats — afetando aves de rapina que nidificam nas escarpas — e descaracterizar a geologia local, sendo a perfuração de rochas milenares para fixar estacas vista como um atentado ao património.

O Parque Natural do Alvão, com as suas escarpas rochosas e vales profundos (como as Fisgas de Ermelo), é um habitat crucial para várias aves de rapina rupícolas. Espécies notáveis que nidificam nas escarpas incluem o Grifo (Gyps fulvus), o Bufo-real (Bubo bubo), a Águia-real (Aquila chrysaetos) e o Falcão-peregrino (Falco peregrinus).

A área também é frequentada por outras rapinas, como o Bútio-vespeiro e a Águia-cobreira, que, embora prefiram árvores, podem caçar nas áreas rochosas. 

A ZEC Marão-Alvão é uma zona fundamental para a conservação destas espécies em Portugal, beneficiando da orografia acidentada.[Consultar ICNF

Além disso, o lobo-ibérico marca presença no Parque Natural do Alvão, sendo um dos habitantes mais emblemáticos e importantes desta área protegida. Esta espécie, cientificamente designada como Canis lupus signatus, encontra no Alvão e nas serras vizinhas, como o Marão, um habitat fundamental para a sua sobrevivência a sul do rio Minho. Apesar de estar classificado como "Em Perigo" em Portugal, o lobo mantém alcateias na região. Porém no último Censo 2019-2021 [consultar ICNF] este núcleo populacional sofreu uma redução do número de alcateias detectadas, da ordem dos 50 %, não tendo sido detectada a presença de 7 das 13 das alcateias registadas no anterior censo. 

Esta facilitação do acesso acaba por gerar problemas graves de capacidade de carga e massificação, atraindo milhares de pessoas para zonas antes preservadas pelo seu isolamento, o que resulta em acumulação de lixo, pressão sobre os recursos hídricos e perturbação do sossego da vida selvagem. Estes projetos raramente incluem planos de gestão a longo prazo para mitigar o impacto humano. O investimento deveria priorizar a vigilância e a conservação, através da contratação de mais vigilantes da natureza, em vez de se concentrar exclusivamente em infraestruturas turísticas.  
 
Muitas destas obras ignoram o que acontece "antes" e "depois" do miradouro:
1. Estacionamentos - para levar pessoas ao novo miradouro, é preciso alargar estradas e criar parques de estacionamento, o que impermeabiliza o solo.
2. Espécies Invasoras: o movimento constante de carros e pessoas facilita o transporte de sementes de espécies invasoras nas solas dos sapatos e nos pneus, que acabam por colonizar o Parque Natural e expulsar a flora nativa.

Portugal tem um histórico de construir passadiços e miradouros magníficos que, cinco anos depois, estão degradados, tornando-se perigosos e visualmente ainda mais chocantes na paisagem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A graciosidade efémera nas nossas cidades


Foto do meu amigo Nuno Pimenta

Grace amidst the grind

"One gaze follows the path ahead,
Tracing the lines where the sunlight is shed.
The other lingers, a quiet surprise,
With the world’s hidden mischief caught in her eyes.

Between the stone walls and the crowd's muffled roar,
Is a secret shared, then a moment more.
Amidst the grind, two women remain in a soft, steady light
The heart of the city, looking back at you. " 
João Soares, 13.02.206

Sobre os efeitos negativos da gentrificação aqui e aqui

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Mapeado: Como variam os preços das rendas nas principais cidades do mundo (valores em dólares)

Para melhor visualização amplie aqui
Metodologia
Este mapa compara os preços mensais de arrendamento de um apartamento de três quartos no centro das grandes cidades globais em 2025. Os dados para esta visualização são da Numbeo, via Deutsche Bank. O conjunto de dados da Numbeo é maioritariamente colaborativo, baseado em informações sobre o custo de vida enviadas por utilizadores de cidades de todo o mundo.

Análise
A nível global, a crise habitacional em 2026 não é um fenómeno isolado de Portugal, mas sim uma tendência que afeta grandes metrópoles e economias desenvolvidas. Embora as causas locais variem, existem macrotendências mundiais que explicam por que comprar ou arrendar casa se tornou um desafio global.
Aqui estão as principais causas a nível mundial:
1. Financeirização da Habitação
Este é um dos conceitos mais importantes em 2026. A habitação deixou de ser vista apenas como um direito social para se tornar um ativo financeiro.
Capital Global: grandes fundos de investimento internacionais compram milhares de imóveis para gerir carteiras de arrendamento, o que aumenta a competição com as famílias e inflaciona os preços.
Imóveis como Reserva de Valor: em tempos de instabilidade económica, investidores preferem "guardar" o dinheiro em imobiliário em cidades seguras (como Nova Iorque, Londres, Berlim ou Lisboa), muitas vezes mantendo as casas vazias apenas para valorização de capital.

2. Mudanças Demográficas e Urbanização
Urbanização Acelerada: a ONU estima que, até 2050, 70% da população mundial viverá em cidades. A procura concentra-se em centros urbanos com melhores empregos, enquanto as zonas rurais se desertificam.
Agregados Familiares Menores: há uma tendência mundial de as pessoas viverem sozinhas ou em famílias mais pequenas. Isto significa que são precisas mais casas para o mesmo número de pessoas em comparação com décadas anteriores.
Envelhecimento da População: em 2026, com os primeiros baby boomers a atingirem os 80 anos, há uma retenção de stock imobiliário por gerações mais velhas, dificultando a rotatividade para os mais jovens.

3. Choques nas Cadeias de Abastecimento e Custos
Materiais de Construção: os efeitos das crises geopolíticas globais e da pandemia elevaram o custo de materiais como o aço e o alumínio a níveis históricos. Construir uma casa nova custa hoje significativamente mais do que há 10 anos em qualquer parte do mundo.
Escassez de Mão de Obra: existe um défice global de trabalhadores qualificados na construção civil, o que atrasa projetos e encarece o produto final.

4. Políticas de "Zonamento" e Regulação
Restrições de Planeamento: em muitos países (especialmente nos EUA, Reino Unido e Canadá), leis de urbanismo restritivas impedem a construção de prédios altos ou de maior densidade, favorecendo moradias unifamiliares que ocupam muito espaço para pouca oferta.
Exigências Ambientais: embora necessárias, as novas normas de eficiência energética (edifícios de balanço nulo) aumentam o custo inicial da construção, que é invariavelmente passado para o consumidor.

5. Fenómeno dos "Nómadas Digitais"
A tecnologia permitiu que trabalhadores de países com salários altos (como EUA ou Alemanha) se mudassem para países com custo de vida mais baixo.
Gentrificação Transnacional: isto cria uma pressão de preços em cidades de "acolhimento" (como Cidade do México, Banguecoque ou Madrid), onde os residentes locais, com salários nacionais, não conseguem competir com o poder de compra estrangeiro.

O Ciclo Imobiliário de 18 Anos
Alguns economistas apontam que estamos a chegar ao pico do Ciclo de Kuznets (um ciclo imobiliário que dura cerca de 18 anos). Segundo esta teoria, 2026 seria um ano de tensão máxima antes de uma potencial correção ou estagnação global, devido ao desajuste extremo entre os preços e os rendimentos reais.

domingo, 21 de setembro de 2025

Turismo Imersivo: Da Massificação à Experiência com Significado


Hoje, viajar tornou-se uma prática tão comum que se arrisca a uma certa banalização. Em 2023, os residentes da União Europeia com mais de 15 anos realizaram mais de 1,1 mil milhões de viagens turísticas com pelo menos uma noite de estadia. Isso equivale a uma média de 2,4 viagens por pessoa por ano (Eurostat, 2023). No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a maioria das famílias realiza uma média de três viagens por ano.

Apesar da dimensão impressionante destes números, esta massificação e repetição de itinerários semelhantes — praias, monumentos, capitais turísticas — faz com que muitas dessas viagens deixem de ser experiências marcantes ou transformadoras.

É neste contexto que surge com força uma tendência internacional: o turismo imersivo (immersive tourism), também referido como experiential travel ou curated travel. A sua proposta é clara: substituir a quantidade pela qualidade, levando o viajante a viver experiências autênticas e a criar ligações genuínas com as comunidades locais.

O que distingue o turismo imersivo?
Ao contrário do turismo de massas, o turismo imersivo privilegia pequenos grupos e experiências de proximidade, onde os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem participantes ativos:

Aprendendo diretamente com artesãos locais em workshops práticos.
  1. Descobrindo saberes tradicionais, como a cestaria com plantas autóctones ou a produção de queijo de cabra numa pequena unidade artesanal
  2. Partilhando refeições com gastronomia regional preparada com produtos locais.
  3. Integrando-se em festividades comunitárias e tradições vivas.
  4. Explorando a natureza através de passeios guiados que revelam paisagens, histórias e biodiversidade.
Um estudo recente de Zhou & Wang (2024) sublinha que a qualidade destas experiências depende de dois fatores: o experiencescape físico (o ambiente, a temática, e as infraestruturas que envolvem a experiência) e o experiencescape interpessoal (proporcionado pela interação entre anfitriões e visitantes). Ambos os elementos, segundo os autores, potenciam emoções positivas, que aumentam a probabilidade de os viajantes recomendarem o destino ou regressarem no futuro.

Uma prática de Turismo Responsável
As viagens imersivas não são apenas gratificantes para os viajantes – representam também um avanço no movimento global pelo Turismo Responsável. Ao escolher este tipo de experiência:
  1. As economias locais beneficiam diretamente: artesãos, produtores, guias e pequenos negócios veem o seu trabalho valorizado e justamente compensado.
  2. O património cultural é preservado: os ofícios e práticas tradicionais ganham visibilidade e continuam a florescer.
  3. As comunidades são fortalecidas: receber viajantes aumenta o orgulho na identidade local e abre novas oportunidades.
  4. O ambiente é respeitado: o formato de pequenos grupos e as atividades de contacto com a natureza promovem práticas de baixo impacto.
Desta forma, o turismo imersivo gera benefícios mútuos. Os visitantes têm experiências autênticas – não encenadas - que se tornam o ponto alto da viagem: as histórias das pessoas que conheceram, os ofícios que experimentaram com as próprias mãos, as receitas que provaram e as tradições em que participaram. E, ao fazê-lo, cada viagem contribui para uma economia local mais forte e para a preservação do que torna cada lugar único.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Multas, selfies proibidas e códigos de vestuário: as novas regras que deve conhecer antes de viajar para estes países europeus

A Europa prepara-se para um novo recorde de visitantes em 2025, mas os destinos mais procurados estão a apertar o cerco aos comportamentos desordeiros dos turistas. De Espanha à Grécia, passando por Itália e Portugal, multiplicam-se as restrições, as proibições e, sobretudo, as multas. Se está a planear férias no continente europeu este verão, convém conhecer bem as novas regras para evitar surpresas desagradáveis — e caras.

Espanha: tabaco fora da praia, nada de fatos de banho na cidade e multas até €3.000
Espanha lidera o movimento de restrição ao turismo excessivo. Em dezenas de localidades costeiras — incluindo Barcelona, as Ilhas Baleares e a Costa do Sol — está agora proibido fumar nas praias. Quem infringir pode ser multado em até €2.000. Em algumas zonas, também é ilegal reservar espreguiçadeiras na praia e abandoná-las por horas, com multas até €250.

Urinarem locais públicos — incluindo no mar — pode custar aos visitantes até €750 em locais como Marbella e Vigo. O vestuário é outra preocupação: circular em roupa de praia, fora do areal, pode render coimas nas cidades de Málaga e Barcelona.

Até a condução está sob escrutínio. Embora não seja ilegal usar chinelos ao volante, os agentes podem aplicar uma multa até €200 se considerarem o calçado inseguro.

A repressão é particularmente forte nas zonas de diversão noturna como Maiorca, Ibiza e as Canárias. Foram proibidas as festas em barcos e os “pub crawls”, enquanto o consumo excessivo de álcool em público pode levar a coimas de €3.000.

Itália: taxas de entrada, códigos de vestuário e multas por selfies
Em Itália, a pressão do turismo nos principais pontos históricos levou a novas medidas. Veneza cobra agora uma taxa de entrada entra 5 e 10 euros por visitante diário – quem não apresentar prova de pagamento arrisca uma multa que pode chegar aos 300 euros. Também estão proibidos megafones, grupos turísticos grandes e até nadar nos canais, com coimas que podem chegar aos €1.000.

Portofino impôs zonas de “paragem proibida” onde tirar selfies que atrapalhem a circulação pode custar €275. Em Garda, saltar de penhascos ou nadar em zonas perigosas já custou a turistas até €700. Até um simples jogo de futebol pode valer €600 de multa.

O código de vestuário também está em vigor em localidades costeiras como Sorrento, onde andar em fato de banho fora da praia pode ser punido com até €500.

Para limitar multidões, Pompeia passou a aceitar no máximo 20.000 visitantes por dia, enquanto o Coliseu em Roma só permite 3.000 pessoas ao mesmo tempo. Vendedores de bilhetes fraudulentos estão a ser multados.

França: álcool limitado e vigilância sobre o vestuário
Apesar do charme romântico de Paris, as autoridades francesas estão cada vez menos tolerantes. É proibido beber álcool em várias áreas públicas, mesmo junto ao Sena, e as multas podem chegar aos €135.

Na Côte d’Azur, o vestuário excessivamente revelador fora da praia — como andar de bikini ou sem camisa em Cannes — pode render multas de até €38.

Grécia: proteção do património e taxas para cruzeiros
A Grécia aposta na preservação do seu património e ecossistemas. Os passageiros de cruzeiros que desembarquem em Santorini ou Mykonos entre junho e setembro terão de pagar uma taxa de €20. Em Santorini, o número diário de visitantes por cruzeiro foi limitado a 8.000.

As praias gregas devem manter 70% da sua área livre de espreguiçadeiras. Levar conchas ou pedras da praia como recordação é ilegal em muitas zonas e pode custar até €1.000.

Nos sítios arqueológicos, há proibição de usar saltos altos — medida que visa proteger os pavimentos antigos —, com multas até €900. A entrada na Acrópole está limitada a 20.000 visitantes por dia, e os bilhetes são vendidos com hora marcada.

Croácia: silêncio, decoro e menos navios
Na Croácia, a prioridade é restaurar a ordem. Em Split, circular em roupa de praia ou roupa interior no centro histórico pode render €150 de multa. Em Hvar, beber em público durante o horário de silêncio pode custar €600.

Dubrovnik, símbolo do excesso turístico, só permite agora o desembarque de dois navios de cruzeiro por dia. Foram encerradas bancas de souvenirs, reduzido o número de cadeiras nas esplanadas e limitada a circulação de táxis. O objetivo é tornar a cidade mais habitável para residentes e visitantes.

Portugal: multas elevadas e controlo de ruído
Em Portugal, Albufeira tornou-se exemplo das novas medidas. Circular em fato de banho pela cidade pode custar até €1.500 — valor que aumenta em casos de nudez pública. Também são proibidos o consumo de álcool na rua, urinar em público e cuspir.

A poluição sonora é alvo de atenção: colunas com volume elevado estão proibidas em várias praias, com coimas que podem ascender a impressionantes €36.000. Em alguns locais, os horários dos bares foram encurtados. Em Sintra, protestos locais levaram a autarcas a considerar limitar novos hotéis.

Países Baixos: campanha contra o “turismo de festa”
Amesterdão está a tentar conter os excessos com a campanha “stay away”, direcionada a turistas que procuram festas. É proibido fumar cannabis na rua no Bairro Vermelho, os bares encerram mais cedo e os passeios em grupo estão limitados.

As festas em barcos estão sujeitas a regras mais apertadas sobre ruído e álcool. Está também proibida a construção de novos hotéis. Alguns habitantes processaram lojas tornadas virais no TikTok por atraírem multidões.

Áustria: selfies bloqueadas e dashcams proibidas
Hallstatt, a aldeia alpina que inspirou o filme Frozen, instalou temporariamente uma “barreira anti-selfies” para evitar aglomerações junto ao lago. Uma regra pouco conhecida: as dashcams são praticamente ilegais na Áustria devido a leis de privacidade. O uso pode custar até €25.000 em multa.

Alemanha: condução com boas maneiras e menos festas
Na Alemanha, comportamentos agressivos ao volante — como insultos ou gestos obscenos — são considerados “fúria na estrada” e podem render até €4.000 de multa. Em Berlim, o ruído e o consumo de álcool na rua estão sob vigilância, e o atravessamento fora da passadeira (jaywalking) é ilegal.

Chéquia: menos álcool e despedidas de solteiro controladas
Praga quer deixar para trás a imagem de capital da festa. Foram proibidas as “beer bikes”, há limites de ruído nas zonas históricas e é crescente a repressão aos pub crawls, consumo público de álcool e festas de solteiros descontroladas. Os bares podem ser multados por servir clientes já embriagados.

Chipre: comer ou beber ao volante pode sair caro
No Chipre, conduzir enquanto se come ou bebe (mesmo água) é proibido, com multas que podem surpreender turistas menos atentos.

sábado, 3 de maio de 2025

Música do BioTerra: A Garota Não - Não sei o que é que fica


Então voltamos ao mesmo assunto
Somos tão bons pró resto do mundo
Na nossa casa o espeto é de pau
A prata é a fome do lobo mau
Welcome monsieur, a casa é vossa
O mal dos outros não nos faz mossa
Quem não aguenta a subida encosta
Habitação é fractura exposta
E eu que só vinha pra falar de amor
Deitar neste beat um poema em flor
Mas na porta ao lado há mais um despejo
Cai uma família, fica o azulejo
Começam as obras, que casa bonita!
Começam os guests, fome é infinita
Mais um AL, orgulho nacional
Corrida sem lei, onde vais Portugal?
Não sei o que é que fica se corrermos mais
O kê ke fica
Komé ke fica/
Quem é ke fica/
Como é que a gente fica/
Quando essa gente rica/
Gentrifica
Quando há uma gente k fica/
Com cada metro quadrado
Da nossa vida, memória
Onde é que a gente fica/
Quando nem se identifica
Com essa calçada refeita
Com essa fachada que foi feita
Para dar uma cara de outrora
A um fascismo de agora
Que só quer saber da receita
Na sede excêntrica
Quem vem de Paris é na hora
Quem tava aqui é pa fora/
Quem vem de cruzeiro vá bora/
Quem vem no barco que demora
Que vá morrer borda fora/
Que o estado quer o IMI
E o banco quer é penhora/
Voulez vous parlais
Parlais vous français/
Do you speak anglais/
Entre si vous plais/
Excepto se é cale
Excepto se vem de Calais/
E dizem que o mal é
Culpa de pobres, mas afinal
Qual é/
Coisa qual é ela/
Quem tem tanta gente sem casa, e tanta casa sem gente
E um camon à janela/
Qual é coisa qual é ela/
Que Desaloja e aloja
O camon e a loja
Da sardinha do Pastel
Ê o hostel, pa quem foge à
Geada do Norte
E o sul despoja/
Desalojamento local
Pra alojamento local
No mínimo é paradoxal
E agora este local, igual
A qualquer outra capital/
Senhor Presidente não ando feliz
Eu quero ser sonhos e não quem maldiz
Calem-se os fachos que ardam bandeiras
Aqui o assunto não são as fronteiras
É sempre bem vindo quem venha por bem
Problema é haver um casa pra cem
Salários tão baixos amarga a batuta
Que felicidade interna tão bruta

terça-feira, 18 de março de 2025

Gentrificação: o problema de saúde pública que afeta a cidade do Porto


Em 2021, uma equipa de investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) propôs-se a estudar o impacto da gentrificação e da insegurança habitacional na saúde dos habitantes da cidade do Porto. Quatro anos depois, os resultados obtidos mostram que estes fenómenos têm consequências negativas claras na saúde dos portuenses, estando associados ao aumento da solidão, da depressão e até mesmo à deterioração da saúde física.

O projeto HUG: Os efeitos na saúde da gentrificação, da relocalização e da insegurança residencial nas cidades – liderado pela investigadora Ana Isabel Ribeiro, coordenadora do Laboratório Saúde e Território, da Unidade de Investigação em Epidemiologia do ISPUP e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) – surgiu com o objetivo de estudar de que forma a gentrificação urbana, a insegurança habitacional e o deslocamento forçado afetam a saúde física e mental da população.

Um dos primeiros estudos desenvolvidos no âmbito do HUG, liderado pelo investigador José Pedro Silva, procurou estudar a relação entre gentrificação e saúde, no Porto, a partir daquilo que as pessoas que vivem na cidade pensam, dizem e mostram sobre esta realidade. Para isso, os investigadores recorreram ao método Photovoice, que consiste em pedir a um grupo de pessoas que tire fotografias sobre um tema importante para a sua comunidade e que discuta em conjunto o que essas fotografias querem dizer.

Neste caso, foram selecionados 16 participantes da coorte EPIPorto, de contextos sociais e demográficos distintos. Estes participantes aceitaram fotografar a cidade, procurando mostrar, através das suas fotografias, como os processos de gentrificação estão a mudar o Porto e, consequentemente, a vida e a saúde de quem habita a cidade.

A informação que estas pessoas forneceram através das suas fotografias e dos seus testemunhos foi objeto de uma análise intensiva por parte dos investigadores, que procuraram identificar, relacionar e agrupar tematicamente as situações descritas. Estas foram enquadradas em seis grandes temas, cada um deles associado a várias consequências para a saúde dos portuenses – algumas positivas, mas a maior parte delas negativas.

Um Porto cidade mais desigual e com menos saúde
Verificou-se, assim, que o aumento da população flutuante (como turistas ou estudantes de outras cidades e países) revitalizou a cidade e estimulou a economia, mas trouxe também mais stress, ruído e poluição e gerou incerteza sobre a capacidade de resposta dos serviços de saúde face ao aumento de pessoas na cidade.

A dificuldade de acesso à habitação, traduzida sobretudo por preços mais elevados, mas também por processos de desalojamento, deslocou residentes para outras zonas da cidade e para a sua periferia, enfraquecendo laços sociais e gerando consequências graves para a saúde e a qualidade de vida, sobretudo dos mais velhos.

A construção e reabilitação urbana melhoraram infraestruturas, mas aumentaram o ruído, a poluição, as dificuldades de mobilidade e o stress. As mudanças no comércio local reduziram o acesso a bens essenciais, afetando idosos e pessoas com menor mobilidade.

A perda do sentido de lugar, enquanto espaço geográfico com significado afetivo para os seus habitantes, causou alienação, mal-estar psicológico e, em alguns casos, um ressentimento potenciador de violência.

Finalmente, estas mudanças socioeconómicas aumentaram as desigualdades, impactando negativamente a saúde pública e, particularmente, a saúde das populações mais vulneráveis.

Os mais velhos são os que mais sofrem com a gentrificação
A evidência científica internacional e os resultados do já mencionado estudo Photovoice demonstram que os adultos mais velhos são mais vulneráveis aos impactos da gentrificação. Assim, para melhor entender as suas perspetivas sobre o impacto da gentrificação na saúde, foi realizado um novo estudo qualitativo, liderado pelos investigadores Cláudia Jardim Santos e José Pedro Silva.

A partir da análise das entrevistas realizadas, concluiu-se que o ambiente urbano foi amplamente transformado, com a renovação de edifícios e o aumento do número de estabelecimentos comerciais voltados para turistas, elevando o custo de vida e tornando o espaço urbano menos acessível e atrativo para os mais velhos.

O aumento da população flutuante gerou benefícios económicos, mas também trouxe mais ruído, poluição, stress e sérias dificuldades de mobilidade pedonal para este grupo demográfico.

A falta de habitação a preços acessíveis gerou deslocamentos forçados e, com isso, a separação de famílias e o aumento do tempo perdido em deslocações pedonais, afetando a saúde mental e social dos idosos e agravando as desigualdades.

Muitos relataram também sentimentos de desenraizamento e perda de suporte social, com casos de depressão e até mesmo relatos de morte precoce entre a população deslocada.

Por fim, a perda da coesão social foi realçada como uma consequência central da gentrificação, com a perda de redes comunitárias e o maior isolamento.

Más condições habitacionais comprometem o envelhecimento saudável
A gentrificação caminha lado a lado com a insegurança habitacional, um conceito que reflete a dificuldade em garantir uma habitação estável, acessível e com condições adequadas. Assim, através de um outro estudo quantitativo, coordenado por Cláudia Jardim Santos e que envolveu 600 participantes da coorte EPIPorto, procurou-se estabelecer uma relação entre fatores como as condições de habitação, a acessibilidade económica, a habitabilidade e segurança e a estabilidade residencial e os seus impactos em marcadores chave da saúde das pessoas mais velhas, tais como a solidão, a qualidade de vida, a função cognitiva, a perceção do envelhecimento saudável e a qualidade do sono.

O estudo revelou que condições habitacionais precárias, como a falta de aquecimento, infiltrações, humidade e iluminação insuficiente, são muito prevalentes e estão associadas a maiores níveis de solidão e a uma pior qualidade de vida entre adultos mais velhos.

Viver em áreas com elevado nível de ruído, poluição e criminalidade também contribui para o aumento da solidão e reduz a perceção de um envelhecimento saudável. Além disso, a ausência de instalações sanitárias adequadas e o deslocamento forçado comprometem a função cognitiva.

A insegurança habitacional, caracterizada por dificuldades financeiras, despejos e mudanças frequentes de residência, também deteriora a qualidade de vida, intensifica a solidão e está associada a uma pior função cognitiva.

Desempenho cognitivo das crianças piora a cada mudança de residência
Um outro estudo, que incluiu mais de 6.000 crianças da coorte Geração XXI, desenvolvido no âmbito da tese de mestrado em Saúde Pública do estudante Obinna Ezedei, investigou de que forma as mudanças frequentes de residência até aos 10 anos de idade afetam a saúde e o bem-estar infantil.

Os resultados sugerem que a instabilidade residencial está associada a um maior risco de vitimização por bullying e a comportamentos agressivos. Além disso, cada mudança de residência corresponde a uma redução significativa no desempenho cognitivo, especialmente no Índice de Velocidade de Processamento e no Quociente de Inteligência Verbal.

No entanto, alguns destes efeitos variam de acordo com o destino da mudança: crianças que se mudam para áreas com pior qualidade ambiental tendem a apresentar desfechos de saúde mais negativos. Por outro lado, a mudança para regiões com melhor qualidade ambiental está associada a indicadores de saúde mais favoráveis.

É, por isso, fundamental promover a estabilidade residencial para famílias com crianças pequenas e garantir que os ambientes onde vivem sejam verdadeiramente salutogénicos, ou seja, propícios à saúde e ao bem-estar.
Moradores forçados a deixar as suas casas revelam ansiedade, dificuldade em dormir e dizem sentir-se deprimidos

Uma das consequências mais severas da gentrificação é o deslocamento forçado da população, muitas vezes causado pelo aumento das rendas ou pela não renovação dos contratos de arrendamento. Neste contexto, foi levado a cabo um estudo sobre deslocamento direto – a remoção de um agregado familiar da sua casa, por motivos não controlados por ele e preenchendo as anteriores condições necessárias para ocupar o alojamento – no contexto da crise habitacional do Porto, recorrendo a uma amostra de 12 voluntários que, tendo vivido em casas arrendadas, se viram “obrigados” a sair.

O estudo, liderado por José Pedro Silva, revelou que a relocalização forçada tem impactos significativos na saúde física e mental, além de contribuir para a modificação de comportamentos de saúde.

A angústia e a incerteza causadas pela iminência do deslocamento afetam os indivíduos antes mesmo da relocalização, com sintomas de ansiedade e depressão a poderem manifestar-se desde o momento em que surge a ameaça de despejo, e mantêm-se ao longo de todo o processo.

Numa fase posterior, em que já se verificou a deslocação para um novo alojamento, são frequentes os sentimentos de tristeza, impotência e ressentimento, por vezes também associados a sintomas como ansiedade, dificuldade em dormir e sentir-se deprimido. Além disso, a mudança de residência, geralmente para áreas menos centrais ou até para outras localidades, leva a uma reconfiguração do espaço onde se desenrola o quotidiano, implicando deslocações maiores e mais frequentes e mudança de hábitos relevantes para a saúde, por exemplo, a prática de atividade física.

A mudança de residência tem também implicações no que diz respeito aos laços sociais e interações, porque provoca mudanças na vida social das pessoas deslocadas: as interações com algumas pessoas tornam-se menos espontâneas e mais raras, ou deixam mesmo de existir, levando à retração de redes sociais e de suporte. Além disso, as novas relações de vizinhança podem revelar-se mais conflituosas do que as anteriores.

Finalmente, o ambiente residencial também muda frequentemente, podendo, por vezes, prejudicar a saúde, em casos em que a mudança é feita para uma casa sem conforto térmico, com problemas de humidade ou exposta ao ruído.

Tudo isto acontece num contexto habitacional de elevada pressão – marcado pela falta de habitações disponíveis e pelos preços elevados – que diminui as opções para as pessoas que precisam de encontrar um novo sítio para morar.

Refletir soluções para uma cidade mais saudável
Os resultados do projeto HUG vão ser apresentados esta terça-feira, 18 de março, no ISPUP, e mostram claramente que a gentrificação e a insegurança habitacional têm um impacto negativo na saúde dos portuenses, especialmente nos grupos mais vulneráveis.

A equipa do projeto reforça que estas são questões de saúde pública e devem ser abordadas como tal. Os investigadores sublinham ainda a necessidade de adotar políticas eficazes que conciliem a transformação urbana com a justiça social, garantindo que o Porto permaneça uma cidade acessível e saudável para todos os seus habitantes.

A sessão de apresentação dos resultados do projeto HUG contará com a participação de cidadãos, jornalistas, ativistas, investigadores e outros agentes locais. O objetivo não é apenas partilhar as conclusões do estudo com a comunidade, mas sobretudo refletir e discutir soluções que possam promover a saúde e o bem-estar de toda a população.

domingo, 2 de junho de 2024

É assim que o TikTok ou o Instagram destroem praias, montanhas e outros locais naturais

De lugares tranquilos e pouco conhecidos a destinos que se tornaram populares devido ao poderoso efeito das redes sociais. Estas são as consequências para a natureza quando ela se torna um "alvo" em massa de selfies e vídeos.


Há quem sonhe viver em primeira mão as experiências turísticas idílicas e fotogénicas promovidas pelos criadores de conteúdos no TikTok ou Instagram. São lugares, por vezes pouco conhecidos, que, em questão de dias, recebem atenção global devido ao efeito viral das plataformas de vídeos curtos às quais milhões de pessoas estão fisgadas.

Então, é claro, vêm as deceções. E o que se imaginava como destinos exclusivos, como as trilhas naturais, transformam-se, parecendo verdadeiras romarias, filas intermináveis para visitar uma praia e "cotovelaços" para tirar selfies.

A consequência de “criar tendência” nos destinos turísticos é um aumento repentino e inesperado de visitantes em espaços que muitas vezes não são projetados para serem usufruídos por uma massa descontrolada de pessoas.

Um fenómeno ligado ao congestionamento, às multidões e à muita poluição, que já está a ser estudado e que tem consequências negativas para o ambiente natural.

As consequências danosas do ‘efeito TikTok’ na natureza
Em Espanha as ações de alguns influenciadores encorajaram a destruição real de espaços naturais protegidos.

Nas Dunas de Maspalomas, espaço natural localizado no sul de Gran Canaria, a organização de uma “caça ao tesouro” (mil euros enterrados) levou muitas pessoas a escavar nesta área protegida.

Em Tenerife, dois YouTubers, com 111 mil inscritos, vangloriaram-se no seu canal ao fazerem “o percurso mais perigoso” da ilha. Para isso, eles percorreram um caminho protegido numa área que possui espécies ameaçadas de extinção, como o lagarto gigante, sem se preocupar em pisotear a flora nativa. E o pior? Eles “inspiraram” outros.

Parques Nacionais soam o alarme
O efeito indireto causado pelas imagens e vídeos publicados nas redes sociais tornou-se um verdadeiro problema para a maioria dos parques nacionais em Espanha.

Até 11 dos 16 espaços protegidos da rede reportam “problemas óbvios” gerados pela multiplicação de visitantes e que devem ser geridos. Risco de incêndios, destruição de habitats e elevado número de veículos que geram engarrafamentos, poluição e problemas de segurança são os principais problemas.

Fora de Espanha, embora existam inúmeros exemplos, é bem conhecida a situação vivida no segundo pico mais alto do mundo. As intermináveis filas nas encostas do K2, uma montanha na Ásia, prenunciam um mau prognóstico: a montanha passa por um profundo processo de transformação devido à presença excessiva de seres humanos.

Protestos em Espanha contra o turismo maciço
Nas últimas semanas, milhares de habitantes cujos locais ficaram transformados em destinos turísticos saíram às ruas para protestar contra os impactos negativos deste modelo, tanto a nível ambiental como social, cultural e económico.

O movimento, que é global, já chamou atenção em Espanha. Em Palma de Maiorca, Donostia-San Sebastián, Las Palmas de Gran Canaria e em alguns municípios da Cantábria, como Loredo e Langre, os moradores mobilizaram-se com os seguintes argumentos:
  1. Gentrificação: o aumento dos preços da habitação causado pela 'proliferação' de apartamentos turísticos, e também de bens e serviços, resulta no deslocamento dos residentes locais dos seus próprios bairros.
  2. Perda de autenticidade: na sociedade de consumo tudo é comercializável. Também a cultura local, da qual são selecionados apenas os elementos, considerados produtos ou meros espetáculos de entretenimento, que fazem maior sucesso junto dos turistas. A consequência é a perda de tradições e costumes genuínos.
  3. Superlotação: quando afeta locais históricos ou bens culturais, podem sofrer danos devido ao excesso de visitantes.
  4. Dependência económica: quando as economias locais se tornam muito dependentes do turismo, tornam-se muito vulneráveis às mudanças que podem ocorrer na procura turística.
  5. Má qualidade de emprego: que o turismo gera riqueza é um facto. Porém, outra coisa é como isto é redistribuído. E, muitas vezes, os empregos ligados a este setor económico são sazonais e mal remunerados.
Rumo ao turismo sustentável
O impacto do turismo de massa não deve ser medido apenas pelos seus benefícios económicos e pela criação de emprego, que nem sempre é de qualidade. Para o ONU Turismo, o turismo sustentável é o turismo que “leva plenamente em conta os impactos económicos, sociais e ambientais atuais e futuros para satisfazer as necessidades dos visitantes, da indústria, do ambiente e das comunidades anfitriãs”.

Avançar para este novo modelo envolve, antes de tudo, regulamentação. Ou seja, limitar o número de visitantes em áreas sensíveis para evitar a sobre-exploração.

Do ponto de vista do ordenamento do território, é também necessário planear o uso do solo para minimizar o impacto ambiental e preservar a biodiversidade, o que inclui a criação de áreas de proteção e conservação.

Desenvolver uma consciência pública mediante campanhas de sensibilização para as comunidades locais e visitantes, e a promoção do turismo responsável através dos meios de comunicação social e das próprias redes sociais, é outra estratégia essencial para avançar para um turismo mais sustentável.

Fonte: Meteored

sábado, 16 de março de 2024

Bauman e a dificuldade de amar


Zygmunt Bauman é autor de inúmeras obras com a palavra líquido em seu título. A noção de liquidez proposta pelo filósofo e sociólogo polaco, falecido no começo desse mês, é aplicada aos mais variados temas como a modernidade, o amor, o medo, a vida e o tempo, expressando a fluidez, isto é, a imensa facilidade com que estes elementos escorrem pelas mãos do homem moderno. A ideia, extraída de “O Manifesto Comunista” de Marx e Engels, vem da célebre afirmação de que tudo que é sólido se desmancha no ar e de que tudo que é sagrado é profanado: assim é a modernidade e sua essência que se alastra pela vida do homem moderno transformando-o não só como indivíduo, mas também como ser relacional.
O primeiro livro do Bauman que li foi “Amor Líquido” o qual, carinhosamente, valendo-me das palavras de Caetano, defino como “um sopapo na cara do fraco”, que me fez e faz, já que essa sorte de questionamento é constante, pensar na forma como nos relacionamos hoje em dia. Um ponto alto do livro, aos meus olhos, é o capítulo no qual Bauman fala sobre a dificuldade de amar o próximo destacando o modo como lidamos com os estranhos. Penso que nessa dificuldade é que se encontra a raiz de tantos dos nossos problemas seja na esfera pessoal ou pública. E é sobre isso que eu gostaria de refletir conjuntamente hoje.
Vivemos em uma sociedade fortemente marcada pelo conflito ser x ter na qual o homem passa a se expressar pelas suas posses, elementos definidores de sua própria identidade, o que reflete na busca por certa conformidade que ceifa a pluralidade de existências e segrega o que é diferente, estranho. O modo como as cidades se dividem é exemplo disso, os nichos considerados seguros são aqueles onde todos se parecem, exacerbando a nossa dificuldade em lidar com os estranhos que passam a ser evitados através de sistemas de segurança, muros, priorização de espaços que assegurem a conformidade de seus freqüentadores como os shoppings e etc. Evitar a todo custo o incômodo de estar na presença de estranhos, começar a enxergar naquele que sequer se sabe o nome um inimigo em potencial e desconfiar de tudo e de todos só é possível graças ao desengajamento e ruptura de laços para o sociólogo polaco.
Se levarmos em conta que amar outra pessoa não é amar o que projetamos nela e sim a sua humanidade e singularidades, não será difícil compreender que o amor é um desafio nos tempos de modernidade líquida. A busca pela felicidade individual nos transforma em tribunais individuais e, na disputa pela sentença a ser proferida, não raro, o que se vê é sair vencedor aquele que se recusa a ouvir o outro. Facilmente, pois, livramo-nos dos compromissos e de tudo aquilo que nos pareça incômodo. Ainda que tão agarrados a nós mesmos, paradoxalmente, é bastante comum que a solidão seja companhia (e problema) constante de quem vive a descartar.
Os muros que construímos ao nosso redor, físicos ou emocionais, têm mesmo esse condão de isolar e criar dois mundos em cada um de seus dois lados: o de dentro e o de fora. O último, espaço cativo dos que nos incomodam- aqui incluídos tanto quem nos relacionamos de forma íntima, quanto aqueles que preferimos distantes, inviabilizados de estar perto, enfim, aniquilados ao prender, matar, limitar a circulação, fixar em zonas periféricas e etc. É que Narciso acha feio tudo que não é espelho, já diria, mais uma vez, o sempre genial Caetano Veloso.
Dessas reflexões que vão (muito) longe e que, por ora, encerro aqui fica sempre uma mensagem muito clara para mim: amar (mesmo) é um ato revolucionário e só ama quem tem coragem o bastante para lidar com esse desafio porque sabe que, por mais que nem tudo sejam flores, esse amor “sólido” é que nos impulsiona a querermos ser melhores seja como pessoa ou sociedade. Parece distante e utópico, mas está dentro de nós: ame profunda e verdadeiramente. Até quem você não conhece.

domingo, 8 de outubro de 2023

Música do BioTerra: A Garota Não com Xullaji - Não sei o que é que fica

A Garota Não representa uma inovação na canção de protesto portuguesa. Ela é clara nas posições que toma, mas, ao mesmo o tempo, recusa ser agressiva com o ouvinte ou o espetador - o protesto, a denúncia, a indignação estão lá, mas estão subordinados à sensibilidade, ao humanismo, à dignidade, à ternura e à liberdade com que quase todos nós, naturalmente, nos identificamos.


Então voltamos ao mesmo assunto
somos tão bons pró resto do mundo
na nossa casa o espeto é de pau
a prata é a fome do lobo mau
 
welcome monsieur, a casa é vossa
o mal dos outros não nos faz mossa
quem não aguenta a subida encosta
habitação é fractura exposta
 
e eu que só vinha pra falar de amor
deitar neste beat um poema em flor
mas na porta ao lado há mais um despejo
cai uma família, fica o azulejo
 
começam as obras, que casa bonita!
começam os guests,  fome é infinita
mais um AL, orgulho nacional
corrida sem lei, onde vais Portugal?
 
Não sei o que é que fica se corrermos mais [4X]
 
O kê ke fica
Komé ke fica/
Quem é ke fica/
Como é que a gente fica/
Quando essa gente rica/
Gentrifica
 
Quando ha uma gente k fica/
Com cada metro quadrado
Da nossa vida, memória
Onde é que a gente fica/
 
Quando nem se identifica
Com essa calçada refeita
Com essa fachada que foi feita
Para dar uma cara de outrora
A um fascismo de agora
Que só quer saber da receita
Na sede excêntrica
 
Quem vem de Paris é na hora
Quem tava aqui é pa fora/
Quem vem de cruzeiro vá bora/
Quem vem no barco que demora
Que vá morrer borda fora/
Que o estado quer o IMI
E o banco quer é penhora/
 
Voulez vous parlais
Parlais vous français/
Do you speak anglais/
Entre si vous plais/
Excepto se é cale
Excepto se vem de Calais/
E dizem que o mal é
Culpa de pobres, mas afinal
Qual é/
coisa qual é ela/
Quem tem tanta gente sem casa, e tanta casa sem gente,
E um camon à janela/
Qual é coisa qual é ela/
Que Desaloja e aloja

O camon e a loja
Da sardinha do Pastel
Ê o hostel, pa quem foge à
Geada do Norte,
E o sul despoja/
Desalojamento local
Pra alojamento local
No mínimo é paradoxal

E agora este local, igual
A qualquer outra capital/
Senhor Presidente não ando feliz
eu quero ser sonhos e não quem maldiz
calem-se os fachos que ardam bandeiras
aqui o assunto não são as fronteiras
 
é sempre bem vindo quem venha por bem
problema é haver um casa pra cem
salários tão baixos amarga a batuta
que felicidade interna tão bruta