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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Fernando Alexandre defendeu o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados?


Através da partilha de uma notícia do “Jornal Económico” a dar conta de que o Governo já tem o relatório final que vai servir para implementar uma nova reforma da Segurança Social, há quem aponte o dedo à estratégia do Executivo de Luís Montenegro nestas matérias.

“Há muito que venho alertando para o que a direita e a extrema-direita racista anda a ‘preparar’ para lixarem os portugueses no que diz respeito à Segurança Social e, portanto, às suas reformas e pensões”, começa por escrever um utilizador do X.

A publicação continua: “Pretendem privatizar a Segurança Social (SS) pública e, depois, colocá-la em bolsa, isto é, deixar todos os portugueses na mão e à sorte desta seita de capitalistas.”

Segue-se, depois, uma crítica concreta: “Estas ideias cripto-fascistas têm duas madrinhas e um padrinho, Marilu [uma provável referência à ex-ministra Maria Luís Albuquerque], Palma Ramalho e o impagável ministro da Educação Fernando Alexandre que há muito defende o fim definitivo do pagamento do 14.º mês aos reformados/pensionistas.”

Será que esta alegação em relação ao atual ministro da Educação tem fundamento?
De facto, numa entrevista de 21 de novembro de 2011 ao jornal “Público“, o professor de Economia da Universidade do Minho defendia uma “forte redução nas reformas futuras”. A justificação era a seguinte: “A decisão da poupança é tomada em grande medida pela expectativa de rendimento que se quer ter no futuro. Mas eu vou mais longe, e desde o início da crise defendo o corte definitivo do 14.º mês para as reformas acima dos 1500 euros mensais. Esse corte teria um efeito positivo na redução da despesa da Segurança Social, e representaria uma questão de justiça. É que as reformas actuais foram fixadas num período de expectativas demasiado optimistas e estão a ser financiadas por quem está agora a trabalhar e que vai ter um corte brutal no seu rendimento quando se reformar. Este sistema é injusto. É preciso criar um sistema de transição.”

Questionado sobre se o corte do 13.º e 14.º mês para os funcionários públicos devia ser temporário, Fernando Alexandre contestou: “Um dos salários deveria ser cortado de forma definitiva. Quando houver condições, os aumentos na função pública deveriam ser feitos com base no mérito. No entanto, o corte de dois meses, para muitas famílias, vai ser brutal.”

Assim, o corte do 14.º mês faria “as pessoas aterrar”. E “ajudava-as a perceberem que, de facto, muita coisa mudou”. O recado deixava-o aos políticos: “Ninguém gosta de dar más notícias. A democracia é assim. É curioso verificar que dois terços do aumento da despesa pública foram decididos pouco antes de eleições. O último exemplo foi o aumento dos funcionários públicos em 2009. Nas últimas décadas, a política orçamental portuguesa tem sido uma aberração, e por isso chegamos à situação actual. Agora é preciso dizer às pessoas que o Estado social está a diminuir. Em relação à educação e à saúde tenho muito receio do impacto que esse corte pode ter na vida das pessoas e no bem-estar da sociedade em geral. Um modelo de saúde como o americano é assustador.”

Além disso, em 2012, no estudo “A Poupança em Portugal”, que publicou em colaboração com Luís Aguiar-Conraria, Pedro Bação e Miguel Portela, Fernando Alexandre também defendeu um primeiro passo na privatização da Segurança Social, com a criação de um novo modelo contributivo.

A Conta Poupança Desemprego, como lhe chamou, funcionaria em concreto para situações de desemprego, mas substitui, de certa forma, o papel da SS, como explicou na entrevista ao “Público”: “Se o trabalhador ficar desempregado, o subsídio é pago a partir dessa conta, e se ficar negativa, o Estado assume esse pagamento. Quando o trabalhador voltar ao ativo, o Estado recupera o saldo negativo. O que não for gasto em situações de desemprego será recebido na reforma. Este sistema responsabiliza mais o trabalhador“.

Em suma, é verdade que o atual ministro da Educação defende “há muito” o fim do pagamento do 14.º mês aos reformados e pensionistas. Mais concretamente, há 15 anos.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Governo vai rever regime de gratuitidade dos museus e diz que são exigências da Comissão Europeia


No alinhamento da direita populista, a "infanta" Margarida Balseiro Lopes encontrou uma resposta genial: pagar para entrar em todos os museus. Deus nos livre de dar coisas de graça a este povo. A senhora Ministra da Cultura, com a lucidez que só os gabinetes bem iluminados do Palácio da Ajuda conseguem proporcionar, bateu no cerne da questão: os portugueses não gostam de arte; gostam é de borlas e  do ar refrigerado dos Museus. E se há coisa que desvaloriza uma pintura de Amadeo de Souza-Cardoso ou uma escultura renascentista é o ultrajante preço de zero euros. 

É uma questão de pura psicologia económica. Cientistas de algures já provaram que se não nos custar um rim a entrar num museu, os nossos olhos simplesmente recusam-se a focar o óleo sobre tela. O cérebro humano, esse órgão mercantilista, olha para um claustro manuelino gratuito e pensa: "Se não cobram por isto, de certeza que é gesso pintado ou as infiltrações são falsas".  

O plano é infalível. Em breve, os museus estarão vazios de gente, mas repletos de "valor". As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos de manutenção com as pegadas do público.  As obras de arte repousarão finalmente sozinhas, intocadas pelo olhar plebeu de quem não tem dez euros para gastar num domingo à tarde. E quando as salas estiverem perfeitamente desertas, a sustentabilidade estará alcançada: zero custos com as pegadas do público.

A economista Clara Mattei explica isto na perfeição: a obsessão com a austeridade e com a mercantilização da vida não serve para equilibrar contas; serve para nos disciplinar. Para nos recordar que não temos direito à beleza ou ao lazer sem antes mostrarmos a carteira.

Quando a UE invoca o Artigo 56.º do TFUE para travar o "Acesso 52", ela está a demonstrar as suas prioridades, pois o direito de um cidadão é visto estritamente através da sua identidade enquanto consumidor ou destinatário de serviços num mercado globalizado, fazendo com que o acesso à cultura deixe de ser um direito social ou uma ferramenta de coesão nacional para a população local e passe a ser tratado como uma mercadoria que não pode sofrer distorções de concorrência.

Na minha investigação, argumento que o Estado moderno foi reconfigurado para blindar a economia da vontade democrática, e a reação de Bruxelas ilustra isto perfeitamente: o governo português tentou implementar uma medida de redistribuição social para dar acesso gratuito à cultura a quem paga os impostos que mantêm esses museus, mas uma instituição tecnocrática e não eleita intervém para invalidar uma decisão soberana em nome de regras de livre mercado. O resultado prático é a austeridade por via indireta, pois, como Portugal dificilmente conseguirá comportar financeiramente a extensão da gratuitidade a dezenas de milhões de turistas estrangeiros, a pressão da UE vai forçar o país a recuar e a retirar o benefício aos seus próprios cidadãos, o que prova que o mercado nivela sempre por baixo e que, se não pode ser mercantilizado para todos, não pode ser gratuito para ninguém.

Os tecnocratas europeus justificam a sua ação com a neutralidade da lei e a justiça da não-discriminação, mas, como cidadão atento, eu diria que esta igualdade abstrata esconde uma profunda desigualdade material. Exigir que um cidadão português, com um salário médio significativamente mais baixo do que a média europeia, pague o mesmo que um turista de um país com maior poder de compra para aceder ao património do seu próprio país é, em si, uma forma de violência económica, pelo que a lei europeia acaba por proteger o poder de compra do turista consumidor enquanto sufoca a capacidade do trabalhador local de aceder aos bens públicos que ele próprio financia. Concluindo, como Clara Mattei, eu diria que este caso não é sobre regras jurídicas neutras, mas sim sobre como as instituições europeias utilizam o direito económico para impedir os Estados-membros de protegerem os seus cidadãos das forças do mercado, empurrando os bens públicos para a mercantilização total.

Obrigado, Senhora Ministra. Finalmente compreendemos que a cultura não serve para nos elevar o espírito; serve para sabermos quanto pesa a carteira.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Relembrar o pensamento de Charles Chaplin


"Em termos políticos, sou anarquista. Odeio governos, regras e grilhões. Não suporto animais enjaulados. As pessoas têm de ser livres." - Charles Chaplin
Esta frase foi dita pelo lendário cineasta e ator Charles Chaplin e reflete profundamente a postura humanista e anti-autoritária que marcou toda a sua vida e obra. Embora não pertença a um discurso oficial, a declaração resume a sua revolta contra as amarras institucionais, algo que ele expressava frequentemente em entrevistas e na sua própria arte. A personagem do Charlot era, na sua essência, a personificação do homem livre e marginal que desafiava constantemente as convenções sociais e a autoridade policial. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, com o lançamento de obras primas como Tempos Modernos e O Grande Ditador, Chaplin usou o cinema para criticar ferozmente a desumanização industrial, o fascismo e o nacionalismo cego, o que acabou por atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. Durante a era do Macarthismo, o FBI passou a vigiá-lo de perto, acusando-o falsamente de simpatias comunistas. O culminar deste sufoco político aconteceu em 1952, quando Chaplin viajou para Londres e o governo americano aproveitou a ocasião para lhe revogar o visto de reentrada no país. Revoltado com a perseguição e com o controlo estatal, o cineasta recusou-se a implorar o regresso e exilou-se na Suíça. Assim, quando Chaplin afirmava que odiava governos e não suportava ver pessoas como animais enjaulados, falava com o conhecimento de causa de quem sentiu na pele o peso do autoritarismo e da censura de um Estado que tentou travar a sua liberdade.
Este excerto pertence ao filme "O Grande Ditador" (The Great Dictator), lançado em 1940.
Esta cena, em específico, é o lendário discurso final do filme, amplamente considerado um dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um ditador implacável chamado Adenoid Hynkel (uma sátira direta a Adolf Hitler) e um humilde barbeiro judeu. No final, o barbeiro é confundido com o ditador e é obrigado a discursar perante uma enorme multidão; em vez de propagar o ódio, ele quebra a personagem e faz este apelo universal à paz, à humanidade, à união e à liberdade.

domingo, 28 de junho de 2026

Bilionário faz acidentalmente a defesa do imposto sobre os ricos


Neste comentário, Robert Reich utiliza a atuação do cofundador da Google, Sergey Brin, para ilustrar a necessidade urgente de taxar as grandes fortunas. Reich explica que o bilionário terá gasto dezenas de milhões de dólares para tentar derrotar uma iniciativa de votação na Califórnia que pretendia aplicar um imposto único sobre a riqueza dos residentes mais ricos do estado. Esse dinheiro seria canalizado para apoiar o sistema público de saúde (Medicaid), que sofreu cortes significativos devido a reformas fiscais federais anteriores que favoreceram os mais abastados.

Embora Reich defenda que a acumulação de riqueza não é obrigatoriamente um jogo de soma zero, o mesmo não se aplica ao poder político. Na sua visão, os super-ricos conseguem converter as suas fortunas em influência política desmedida, comprando eleições, travando o aumento de impostos e moldando as leis a seu favor, o que acaba por silenciar os restantes cidadãos.

A grande ironia apontada no vídeo é que, ao gastar uma fortuna para impedir a criação de um imposto para bilionários, Sergey Brin acabou por demonstrar na perfeição a razão pela qual essa taxa é indispensável. Robert Reich conclui que o objetivo de taxar as grandes fortunas não é punir os indivíduos ou confiscar os seus bens, mas sim garantir a proteção da democracia, impedindo que um pequeno grupo de bilionários domine por completo o panorama político.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Património dos super-ricos causa danos climáticos desproporcionados, diz estudo

Stargate Datacenter (Texas)
A Greenpeace calcula que os mais abastados contribuem com quase um bilião de dólares de prejuízos por ano através de emissões associadas à propriedade de ativos.

As pessoas ultra ricas que cruzam os céus mundiais nos seus jatos privados, relaxam em iates e se destacam pelo seu consumo ostensivo no Instagram estão entre os culpados individuais mais facilmente identificáveis na crise climática. No entanto, uma nova investigação defende que a culpa não reside apenas nos seus estilos de vida exuberantes, mas também nas suas contas bancárias.

Através da detenção de empresas e de ativos financeiros e físicos privados — que vão desde produtores de petróleo a empreendimentos imobiliários —, os super-ricos são responsáveis por uma fatia desproporcionada dos gases com efeito de estufa que estão a sobreaquecer o planeta. O 1% do topo da população mundial em termos de riqueza controla, através das suas participações acionistas e investimentos, cerca de um quarto do total das emissões anuais globais.

A Greenpeace calculou a "dívida climática" destes indivíduos com elevado património líquido, atribuindo-lhes a respetiva quota-parte dos danos causados ao clima pelos ativos de que são proprietários. Segundo estas contas, os mais ricos do mundo provocam quase um bilião de dólares ($1tn) por ano em prejuízos climáticos.

Clara Thompson, responsável global de campanhas sobre sistemas socioeconómicos na Greenpeace International, afirmou: "Numa altura em que as pessoas enfrentam faturas de energia cada vez mais altas, o aumento do custo de vida e impactos climáticos crescentes, muitos questionam-se por que razão os agregados familiares comuns devem carregar com uma parte tão grande do fardo, enquanto algumas das pessoas mais ricas do mundo continuam a lucrar com as indústrias que alimentam a crise."

A Greenpeace estima que o 1% mais rico da população seja responsável por cerca de 40% de todas as emissões baseadas na "propriedade" — ou seja, as emissões produzidas por empresas e associadas a ativos financeiros e físicos privados —, as quais representam, por si só, 60% da produção global de carbono. Dentro desse grupo, os 0,1% do topo respondem por cerca de 17% das emissões baseadas na propriedade, e os 0,01% mais ricos por cerca de 9%.

O escalão do 1% do topo é composto por indivíduos com um património superior a cerca de 2 milhões de dólares; os 0,1% detêm uma riqueza acima dos 7 milhões de dólares; e os 0,01% correspondem a pessoas com fortunas superiores a cerca de 38 milhões de dólares. Em contrapartida, a metade mais pobre da população mundial detém apenas 3% das emissões associadas à propriedade de ativos.

Thompson sublinhou que é fundamental pensar em termos de emissões baseadas na propriedade porque, embora sejam menos visíveis do que as emissões associadas ao consumo, são mais difíceis de combater.

"Isto não é apenas uma história sobre jatos privados e estilos de vida luxuosos. Quando se trata da poluição dos ultra-ricos, a propriedade importa ainda mais do que o consumo. Uma grande parte das emissões está associada à detenção de ativos e investimentos com elevada intensidade de carbono", explicou. "Durante anos, a política climática focou-se nos consumidores. Mas as nossas conclusões sugerem que deveríamos prestar muito mais atenção àquilo que as pessoas possuem e onde investem."

Uma forma de corrigir este desequilíbrio poderia passar pela aplicação de impostos sobre a riqueza. "A dívida climática tem a ver com responsabilidade", referiu Thompson. "Se concordamos que aqueles que mais contribuíram para o problema devem contribuir mais para o resolver, é perfeitamente razoável perguntar se esse princípio também se deve aplicar à riqueza extrema."

Dados independentes revelaram que os grandes bancos e outros investidores financeiros canalizaram 900 mil milhões de dólares para combustíveis fósseis no ano passado, apesar das promessas feitas por muitos deles há cinco anos para reduzir tais investimentos.

As disparidades gritantes entre o impacto ambiental dos super-ricos e o dos cidadãos comuns estão cada vez mais no centro das atenções, à medida que a desigualdade de riqueza dispara em todo o mundo. Recentemente, um relatório liderado pelo economista Thomas Piketty demonstrou que o mundo poderia viver de forma equitativa dentro dos recursos finitos do planeta, caso os excessos de riqueza fossem travados por impostos e os mais pobres pudessem reter uma maior fatia daquilo que o seu trabalho produz.

Governos de todo o mundo, com exceção dos EUA, estão reunidos em Bona, na Alemanha, para duas semanas de conversações que antecedem a cimeira do clima da ONU (Cop31) em novembro. Um dos temas que deverá receber maior atenção prende-se com os mecanismos para uma "transição justa", que ajude os trabalhadores afetados pelo abandono dos combustíveis fósseis a integrarem-se na economia de baixo carbono.

domingo, 7 de junho de 2026

The Wild Swans - Bringing Home The Ashes


Melhor som aqui

Letra
[Verse 1]
Goodbye...
Flower of England
The pain never fades away after all this time
World war
And revolution
The heart in the heart of England will never die

[Chorus]
Bringing home the ashes
Is more than I can bear

[Verse 2]
Goodbye
King of sorrow
The curse of a thousand years beneath the gloves
Worn down and hardly breathing
The heart in the heart of England will never die

[Chorus 2]
Bringing home the ashes
Is more than I can bear
When winter lightning flashes
You'll find me lonely there

Significado da canção
A expressão "bringing home the ashes" (trazendo as cinzas para casa) carrega uma dualidade profunda que mistura a melancolia pessoal com o peso da identidade britânica dos anos 80. Por um lado, o título remete subtilmente à famosa competição de críquete entre a Inglaterra e a Austrália, conhecida como "The Ashes", que nasceu de um obituário satírico sobre a morte do desporto inglês. Contudo, no contexto poético da canção, a metáfora adquire um tom muito mais sombrio e espiritual, simbolizando o ato de recolher os destroços, as memórias e o que restou de um passado glorioso após a desilusão ou a destruição. Paul Simpson evoca uma visão romântica, mas cansada, de uma Inglaterra marcada por crises sociais e cicatrizes históricas, sugerindo o fardo quase insuportável de carregar a dor do tempo. Ainda assim, mesmo perante a decadência e o inverno rigoroso, a música recusa-se a ceder ao niilismo total, proclamando com resiliência que o coração da nação nunca morre. Trata-se, no fundo, de um hino sobre a perda da inocência e a maturidade, onde a beleza e a dignidade são resgatadas mesmo quando tudo o que resta são cinzas.
É um daqueles temas que consegue ser incrivelmente luminoso na melodia (pelas guitarras brilhantes), mas profundamente nostálgico e triste na poesia e na voz barítona de Paul Simpson. 
Em resumo, o tom barítono dele contrasta perfeitamente com a envolvência quase celestial das guitarras, criando um ambiente agridoce que é a verdadeira alma da canção. É essa fricção entre a luz da música e a penumbra da voz que a torna tão marcante.
No contexto político a banda tece críticas. A década de 1980 no Reino Unido ficou profundamente marcada pelo governo de Margaret Thatcher, cujas reformas económicas agressivas e de cariz neoliberal transformaram radicalmente o tecido social do país. Cidades industriais e portuárias como Liverpool sofreram um impacto devastador, enfrentando o encerramento de estaleiros, o desemprego em massa e uma forte crispação social, que chegou a culminar em violentos motins urbanos. Foi precisamente neste cenário de sufoco e fratura social que a cena musical local floresceu, utilizando a arte como uma forma de protesto e de fuga à realidade cinzenta. Quando os The Wild Swans lançaram “Bringing Home The Ashes” em 1988, a canção acabou por espelhar de forma perfeita esse ambiente da era "Thatcherista". O contraste entre a melodia luminosa das guitarras e o tom barítono, melancólico e pesado de Paul Simpson traduz a dualidade de uma juventude que se sentia desgastada e sem fôlego face às convulsões políticas da época. Ao evocar imagens de guerras de palavras, revoluções e o peso de carregar as cinzas de um passado glorioso, a letra funciona como um retrato íntimo e político de uma Grã-Bretanha dividida. No entanto, a insistência em cantar que o coração da Inglaterra nunca morre surge como um ato de resistência cultural e de apego à identidade comunitária da classe trabalhadora, que recusava deixar-se abater pela austeridade dos tempos.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

The Logic of Taxing Great Wealth

Dados de 2023 [clicar aqui para melhor visualização e mais info]


The 2026 Billionaire Tax Act initiative recently submitted enough signatures to be put on the California ballot for the November 2026 elections. Its goal is to raise revenue by imposing a one-time 5 percent wealth tax on California billionaires to offset large cuts to California’s Medicaid caused by the Trump regime and Congress when, in July 2025, they cut federal taxes mainly on the wealthiest.

The reason for targeting California billionaires for new revenue is their wealth has grown faster than anyone else’s in recent years and they currently pay low taxes relative to their large wealth gains. Many borrow against their wealth for living expenses (banks are delighted to lend to them), enabling them to claim little or no taxable income.

As a result, taxing billionaires can both raise substantial revenue and restore tax progressivity at the very top. California is in the vanguard of what the nation must do. I believe they will do it when Democrats are back in control, and when they enact campaign finance reforms so no member of Congress is necessarily dependent on the super-wealthy for the bulk of their campaign contributions.

The following oped appeared in today’s New York Times. It was written by two of my colleagues at Berkeley, Professors Emmanuel Saez and Gabriel Zucman (who is also at the Paris School of Economics). I have reproduced it in its entirety, with permission, and have highlighted paragraphs I believe to be particularly important.

They make the case for the billionaire wealth tax in California, and indirectly for a billionaire wealth tax nationwide. They also answer the arguments against the tax, such as that California billionaires may leave the state in expectation that such wealth taxes would be renewed, possibly reducing future income tax revenue to the state and reducing its economic dynamism as the engine of tech innovation.

With wealth inequality now surging beyond anything ever witnessed in America, the dictum attributed to Justice Louis D. Brandeis has become dramatically relevant: “America faces a choice: We can have great wealth in the hands of a few, or we can have a democracy, but we cannot have both.” A wealth tax is a necessary precondition for everything else.

The billionaire class in California includes roughly 250 households, a mere 0.001 percent of the state’s families. Yet its wealth now amounts to more than half of California’s entire annual economic output.

This means that if these billionaires spent all of their wealth, they could buy more than half of the goods and services produced in a year in the entire state.

This extraordinary wealth does not translate into extraordinary tax contributions.

From 2019 to 2025, California billionaires’ wealth grew an average of over 15 percent per year, while they paid, on average, just 0.26 percent of their wealth annually in state income taxes. Their income tax payments accounted for only 2.4 percent of California’s income tax revenue.

For the very richest individuals, the effective burden was even lower. The four wealthiest Californians — former Google co-founder Sergey Brin, Nvidia’s Jensen Huang, former Google CEO Larry Page, and Facebook’s (Meta’s) Mark Zuckerberg — paid an average of just 0.07 percent of their wealth annually in California income tax over that period, according to our analysis of Securities and Exchange Commission records on stock sales and executive compensation from their companies.

California’s tax system fails to effectively tax ultrahigh-net-worth individuals. The same is true of the United States’ tax system and those of other countries.

The problem is that billionaires’ fortunes are largely held in assets (mainly stocks) that rise in value over time. This rise in value is not taxed unless the assets are sold. Under current law, when billionaires don’t sell their stock, wealth accumulates while taxes on their gains are deferred indefinitely and sometimes avoided entirely.

To understand how California’s billionaires have become so unfathomably rich, it’s helpful to think of their fortunes as icebergs. Some earnings are easy to see — and tax. From 2019 to 2025, Mr. Zuckerberg reported more than $7.1 billion in income from Meta: $181 million in compensation, $1.4 billion in dividends and $5.6 billion in gains from selling stock.

Despite making so much money, Mr. Zuckerberg was taxed a combined state and federal rate of just 27 percent on that income. That’s not much higher than the average California household’s effective tax rate of about 20 percent.Mr. Zuckerberg’s tax rate was relatively low in large part because most of his income was in the form of capital gains — what he made from selling stock that had risen in value. Capital gains are taxed federally at a lower rate than ordinary income.

Most of Zuckerberg’s wealth is hidden from income taxes. Since 2019, Meta has made hundreds of billions of dollars in profit. As Meta’s chief executive, Mr. Zuckerberg has invested much of that money back into the company, of which he owns about 13 percent. These profits have been taxed at a relatively low 17 percent, Meta’s effective corporate income tax rate. Their reinvestment has boosted the company’s value and, therefore, the value of its shares. This caused Mr. Zuckerberg’s wealth to rise by tens of billions of dollars.

The same is true of the wealth Mr. Zuckerberg accumulated as Meta grew and investors became more bullish about the company. This dynamic increased the value of his shares by an additional $142 billion. Unless Mr. Zuckerberg sells his shares, all of this growth remains untaxed.

But he can put his gains to use without selling them, borrowing tax-free against his holdings at low interest rates, as he did in 2023, when he pledged $3.1 billion worth of his Meta shares as collateral for a loan.

California’s other top billionaires have similarly structured fortunes. Without a wealth tax, these tech barons will continue to hoard the rewards of the state’s economic growth while its cities cut services and its workers lose health care.

Google’s founders, Mr. Brin and Mr. Page, are the state’s richest individuals, with more than $600 billion in wealth between the two of them — up from $345 billion last September. They have come out against the wealth tax initiative while making moves to leave the state. They benefit from the status quo.

Mr. Brin has funded the political campaign against the measure and has funded signature collection for two competing ballot initiatives that could undercut the wealth tax, spending at least $57 million to fight it.

They stepped down from day-to-day management at the end of 2019. That year and in 2020 and 2023, each got from Alphabet, Google’s parent company, only $1 per year in executive compensation.

They didn’t sell stock, and they didn’t receive dividends or any other compensation relating to Alphabet, so they paid no income tax on their wealth related to the company. But their stock wealth rose by $133 billion, driven in part by the reinvestment of their share of company profits, which amounted to $20 billion in those three years. Scenarios like this show why some of the very wealthiest people in America are among the least taxed.

This arrangement violates basic principles of fairness, deprives the government of revenue it needs for public services and fuels wealth concentration.

Overwhelming wealth becomes power — power to influence the direction of corporate behemoths, power to sway society through donations and media ownership, power to steer politics through unlimited campaign contributions to super PACs.

Elon Musk’s recent adventures in the executive branch, after spending hundreds of millions of dollars to help elect Donald Trump, demonstrate how quickly concentrated wealth can transmute into political control.

We don’t imagine that a one-time 5 percent tax on the wealth of California billionaires, as proposed in the 2026 Billionaire Tax Act, would fix all these problems. But it could raise nearly $100 billion in revenue for California. This amount would make up for the funding the federal government is taking away from the state over the next five years. It would also be tiny relative to billionaires’ recent wealth gains.

In the past three years alone, the total wealth of California’s billionaires grew by a staggering 144 percent, to over $2 trillion.

Taking such a small bite out of billionaires’ exponentially growing tech wealth wouldn’t doom Silicon Valley because the value of California’s concentrated tech talent dwarfs the proposed wealth tax. Nvidia’s chief executive, Mr. Huang, who would be one of the biggest payers of the tax, said he would be “perfectly fine” with it.

Other myths about the proposal need to be dispelled. It would tax only billionaires. It has been carefully written to respect the California and U.S. Constitutions. It contains provisions designed to prevent taxation beyond 5 percent of the fair market value of anyone’s shares and to avoid hitting start-ups hard. Billionaire entrepreneurs, with sizable illiquid stakes in newly founded private companies, would be able to defer payments until they began to cash out.

It is too late for superrich Californians to flee the state to avoid the tax. If approved in November, the tax would apply to billionaires who were residents of California as of Jan. 1, 2026. Some affected taxpayers might have left between the ballot initiative’s introduction, in late October 2025, and the end of the year. But it is improbable that any significant number of billionaires fully cut ties with California in that short period.

Critics of the ballot measure have voiced concerns that even a small number of billionaires leaving the state would lead to lower state tax revenues overall. Their math doesn’t add up. California’s billionaires currently pay such a low tax rate that even if all of them left the state, it would take 25 years for the loss of their tax payments under the current set of rules to surpass the amount the state would raise if the one-time tax succeeds this fall.

In 2025, California collected $4.1 billion in income tax from its billionaires. We estimate that California would collect about 25 times that much revenue — about $103 billion — from the proposed wealth tax.

While billionaires who no longer run their businesses day to day may choose to eventually leave California, uprooting an established business that relies on the pool of California’s tech talent and tech ecosystem would be much harder: While Mr. Page and Mr. Brin may leave for Florida or Nevada, there are no discussions of Google leaving Mountain View.

California’s tech sector produces billionaires faster than any other state’s. Its superrich — who have benefited from the state’s infrastructure, universities and networks of people and businesses — have accumulated enormous fortunes almost tax-free. The proposed billionaire tax would finally make them contribute in modest proportion to their gains.

In November, California’s voters should show the nation the way forward.

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Revolta na SIC. Trabalhadores contestam aumentos milionários na administração



A Comissão de Trabalhadores da SIC emitiu esta segunda-feira um comunicado interno na qual manifesta “o seu repúdio” pela proposta para atualizar a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização do grupo, que será votada no dia 26 em Assembleia Geral.

“É particularmente incompreensível e inaceitável que, num contexto em que a empresa continua a recusar aumentos salariais para os trabalhadores – alegando constrangimentos financeiros, necessidade de contenção e sustentabilidade – surja agora uma proposta que prevê uma revisão transversal em alta das remunerações dos órgãos de administração, bem como o reforço dos mecanismos de remuneração variável e benefícios associados”, escreve a comissão de trabalhadores, no comunicado ao qual o ECO teve acesso.

Italiana MFE já é a segunda maior acionista da Impresa

“Esta opção transmite uma mensagem profundamente errada à organização: a de que existem recursos para valorizar a gestão de topo, mas não para reconhecer o esforço coletivo dos trabalhadores”, termina o comunicado, que apela também a que os trabalhadores participem na greve geral de dia 3 de junho.

Amanhã, em assembleia geral, será votada a política de remuneração dos membros dos órgãos de administração e fiscalização da Sociedade para o período de 2026/2028.

Esta prevê que o presidente do conselho de administração e presidente da comissão executiva passe a ter uma remuneração de 385.000 euros, à qual se pode juntar uma remuneração variável plurianual, com pagamento diferido a três anos, que com base no cumprimento de uma grelha de critérios pode ir até seis vezes a respetiva remuneração bruta mensal.

A remuneração variável é aplicável também aos restantes membros da comissão executiva, cuja remuneração fixa oscila entre os 254.800 e os 189 mil euros.

O CEO do grupo, recorde-se, acumula também as funções de chairman desde março, altura na qual o conselho de administração passou, com a entrada da MFE, a ter nove membros.

Francisco Pedro Balsemão, que sucedeu nas funções de presidente a Francisco Pinto Balsemão, o fundador do grupo, recebeu no último ano de remuneração fixa 280 mil euros, mais 60 mil de remuneração variável e cerca de 2.300 euros de subsídio de refeição. Francisco Pinto Balsemão, por seu turno, auferiu até 21 de outubro, data da sua morte, cerca de 101,2 mil euros.

No total, o conselho de administração recebeu no último anos 669.216 euros, 609 mil dos quais de remuneração fixa. Com a nova política de remuneração, o vencimento dos órgãos de administração e fiscalização passa para o dobro, ou seja, para 1,2 milhões de euros.

No entanto, o conselho de administração passou a ser composto por nove elementos e, como avançou o +M em abril, foi também criada uma comissão executiva, que não existia na estrutura anterior.

Ricardo Costa assume pelouro das receitas da Impresa

Nesta, Ricardo Costa é chief product officer, Teresa Gonçalves chief financial officer e Ana Costa chief operating officer, fazendo os três parte do conselho de administração.

Contactada pelo ECO/+M, a comissão executiva da SIC e da Impresa começam por “lamentar que a Comissão de Trabalhadores da SIC não tenha procurado obter esclarecimentos sobre este tema antes de enviar um comunicado interno” e lembra que a proposta é da responsabilidade da Comissão de Remunerações, “órgão independente que efetuou a proposta e submeteu-a à apreciação e votação dos acionistas da sociedade”.

“Sem prejuízo do exposto, a Impresa informa que as alterações salariais em causa resultam, no seu cômputo global, numa poupança para a sociedade“, garante fonte oficial do grupo.

Além disso, prossegue, “os reajustes realizados resultam de acréscimo de responsabilidades, seguindo a regra, transversal ao Grupo, de que a qualquer promoção na Impresa deve ser associada um acréscimo salarial, e que os vencimentos dos membros do Conselho de Administração estão alinhados com os valores praticados no mercado”.

No final de fevereiro, os trabalhadores da SIC mandataram a CT para frisar junto da administração a importância de um compromisso para um reajuste salarial, nos 3 meses que se seguiam, no mínimo de acordo com a inflação.

Em resposta, “o Diretor de Recursos Humanos (DRH) deixou claro que a prioridade da Administração, neste momento, passa por “garantir a manutenção dos postos de trabalho, assegurar a estabilidade da organização e criar condições para fazer crescer o negócio“, recorda esta segunda-feira a CT na nota interna.

“A SIC e a Impresa continuarão a proceder a atualizações salariais, e a uma gestão dinâmica dos seus trabalhadores, sempre que isso se justifique, utilizando critérios objetivos e transparentes para esse efeito”, conclui o grupo em declarações ao ECO/+M.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Clara Mattei: capitalism is not natural - it’s enforced


Nascida em 1988, Clara Mattei é mestre em Filosofia e doutorada em Economia. Foi membro da School of Social Sciences no Institute for Advanced Studies de Princeton entre 2018 e 2019. Autora de artigos premiados pela History of Economics Society e pela European Society for History of Economic Thought, publica também artigos não académicos em publicações como The Guardian, Jacobin, The Nation e Il Fatto Quotidiano. Atualmente é professora auxiliar do Departamento de Economia da New School for Social Research em Nova Iorque.
É mentora do projecto FREE - Forum for  Real Economic Emancipation

Site: Clara Mattei

Pensamento de Clara Mattei
Clara Mattei defende uma visão provocadora e profundamente crítica sobre a relação entre o capitalismo e a geopolítica, argumentando que a economia não é uma ciência neutra, mas sim uma ferramenta de poder. No centro do seu pensamento está o conceito de austeridade, que ela não define como uma resposta técnica a crises de dívida, mas como um projeto político deliberado para salvaguardar a ordem capitalista. Segundo a economista, sempre que o sistema se sente ameaçado por movimentos sociais ou exigências democráticas que reivindicam uma maior partilha da riqueza, as elites políticas e financeiras accionam mecanismos de austeridade - como o corte em serviços públicos, a precarização do trabalho e o aumento das taxas de juro - para disciplinar a classe trabalhadora e reafirmar a primazia do capital sobre a vida humana.

No plano da geopolítica, Mattei observa que esta lógica de austeridade é exportada e imposta globalmente através de instituições tecnocráticas que operam fora do controlo democrático. Ela analisa como o sistema internacional está desenhado para isolar as decisões económicas da vontade popular, criando uma espécie de "blindagem" que impede os Estados de adoptarem políticas alternativas. Para a autora, a geopolítica contemporânea é marcada por uma competição constante entre nações para atrair investimento, o que resulta numa pressão descendente sobre os direitos sociais e salários, transformando governos em gestores de um mercado global em vez de representantes dos seus cidadãos. Mattei vai ainda mais longe ao traçar paralelos históricos, demonstrando como, no pós-Primeira Guerra Mundial, economistas liberais e regimes autoritários colaboraram para impor a austeridade, revelando que o capitalismo, quando em crise, prefere muitas vezes a estabilidade de mercados "disciplinados" em detrimento da verdadeira democracia. Em suma, para Clara Mattei, a geopolítica do capital é uma estratégia de manutenção de classe que utiliza a escassez artificial e a insegurança económica como formas de controlo social permanente.

Mattei defende que o maior sucesso do capitalismo moderno é convencer as populações de que "não há alternativa" (o famoso TINA de Margaret Thatcher). Em termos geopolíticos, isso se traduz  num mundo onde os Estados competem para ver quem oferece o ambiente mais "amigável" ao mercado, resultando em uma "corrida para o fundo" em termos de direitos sociais e salários.


Baseando-se em material de arquivos recém-descoberto na Grã-Bretanha e em Itália, grande parte dele traduzido pela primeira vez, A Ordem do Capital faz um relato novo, lúcido e muito crítico, da promoção da austeridade - e do sistema económico moderno - enquanto alavanca do poder político contemporâneo.

Ao longo de mais de um século, os governos que enfrentavam crises financeiras recorreram a políticas económicas de austeridade - cortes nos salários, nas despesas fiscais e nos benefícios públicos - para garantirem a solvência. Ainda que estas políticas tenham sido bem-sucedidas no apaziguamento dos interesses estrangeiros, tiveram impactes devastadores nas condições sociais e económicas de países de todo o mundo. Atualmente, embora a política da austeridade continue a ser favorecida pelos Estados em dificuldades, uma questão importante permanece sem resposta: e se a solvência nunca foi o verdadeiro objetivo da austeridade?

Em A Ordem do Capital, a economista política Clara E. Mattei investiga as origens intelectuais da austeridade e revela as razões da sua existência: a proteção do capital - e, na realidade, do capitalismo - em épocas de agitação social.

«Uma história fascinante da ascensão das políticas de austeridade no mundo do pós-Primeira Guerra Mundial e do modo como facilitaram o caminho para o fascismo – juntamente com muitas das políticas económicas atuais. Uma leitura obrigatória, com lições cruciais para o futuro. História da economia política no seu melhor.»
Thomas Piketty, economista, autor de O Capital no Século XXI

«Este livro de Clara Mattei é um contributo importante para a construção de uma nova narrativa económica. Num momento em que a inflação está em alta e os governos se inclinam para, uma vez mais, pedirem aos cidadãos “que apertem o cinto” este livro é mais relevante do que nunca.»
Mariana Mazzucato, economista, autora de O Valor de Tudo

domingo, 15 de março de 2026

The Middle Class Is Collapsing. Fascism Could Be Next - Aaron Bastani Meets Clara Mattei

Neste vídeo, a economista italiana Clara Mattei aborda a tese central do seu livro The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism ("A Ordem do Capital: Como os Economistas Inventaram a Austeridade e Pavimentaram o Caminho para o Fascismo").

Ela explica a austeridade não como uma falha teórica ou um erro de política económica, mas sim como uma ferramenta política deliberada, concebida para proteger e manter a ordem capitalista.

Relativamente aos pontos de destaque, a autora começa por analisar a origem histórica no período pós-Primeira Guerra Mundial, durante a década de 1920. Mattei demonstra como a austeridade foi gestada por tecnocratas nas conferências financeiras de Bruxelas e Génova com o objetivo explícito de conter a agitação operária e os movimentos socialistas da época.

Para explicar o funcionamento deste mecanismo, a economista detalha os três pilares fundamentais da austeridade: o pilar fiscal, centrado nos cortes nas despesas sociais e nos serviços públicos; o pilar monetário, caracterizado pelo aumento das taxas de juro para restringir a liquidez e controlar a inflação à custa do emprego; e o pilar industrial, focado na desregulamentação do mercado de trabalho e na contenção salarial para enfraquecer o poder de negociação dos trabalhadores.

Além disso, Mattei estabelece a ligação direta entre austeridade e fascismo, demonstrando como as políticas implementadas no Reino Unido - através de meios democráticos e tecnocráticos - e na Itália fascista de Mussolini partilhavam exatamente o mesmo propósito: disciplinar a classe trabalhadora para garantir a rentabilidade do capital.

Por fim, a autora desconstrói o mito da neutralidade, desmistificando a ideia de que a economia é uma ciência neutra ou puramente técnica e argumentando que a teoria económica convencional atua frequentemente para legitimar a redistribuição de riqueza do trabalho para o capital.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso


Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
 
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.

Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."

Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso. 

Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000

Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Mercados - esses amigos do Povo, do Estado Social e do Planeta

A questão é quase tão antiga quanto as montanhas. Mas a resposta contemporânea é paralisantemente estreita. Vestida com a roupagem do capitalismo tardio, a prosperidade foi capturada pela ideologia do “crescimento eterno”: um mantra que insiste que mais é sempre melhor. Apesar das provas esmagadoras de que a expansão implacável está a minar a natureza e a conduzir-nos para uma emergência climática devastadora, o mito do crescimento ainda reina supremo.

Enquanto escrevemos, a cidade de Nova Iorque foi paralisada por inundações, uma cúpula de calor sobre a Colômbia Britânica levou a temperaturas 10-20°C acima das médias sazonais, e a Europa e o Reino Unido sofreram inundações repentinas. Esses eventos matam. As mortes súbitas aumentaram quase 200% durante a onda de calor na Colúmbia Britânica. Estão a ser movidas ações judiciais contra as grandes empresas petrolíferas que sabiam da possibilidade das alterações climáticas há quarenta anos. Mas o preço será demasiado elevado, mesmo para os gigantes ricos em petróleo pagarem.

O dano planetário causado por este zelo expansionista é agravado por outro custo muito humano. O capitalismo precisa de consumidores egoístas e insaciáveis para alcançar as suas ambições de crescimento. Portanto, incentiva esse tipo de comportamento. Ele homenageia aqueles que se destacam nisso. Simultaneamente, subvaloriza as tarefas que mais importam para a sociedade – o trabalho de prestação de cuidados, por exemplo – e denigre aqueles que nela trabalham. O capitalismo “iluminou-nos” para que aceitássemos uma visão contaminada de nós mesmos e um substituto espalhafatoso para a realização humana.

Se quisermos ter alguma hipótese de viver bem dentro dos limites do planeta, temos de destronar os mitos que assombram a economia – vê-los pelo que são, em vez das “verdades” obstinadas que afirmam ser. Para recuperar a nossa própria humanidade, devemos procurar noutro lado as nossas metáforas de governo.

sábado, 25 de março de 2023

Enquanto famílias sofrem, Banca alarga lucros e engrossa os bolsos

Os cinco maiores bancos a operar em Portugal tiveram lucros 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1000 milhões de euros do que em 2021. Um contraste brutal face ao empobrecimento das famílias.


Termos como «comissões bancárias», «euribor» e «spread» têm sido aspectos com que as famílias estão confrontadas. Todos os dias o aumento do custo de vida tem sido debatido sem que isso seja acompanhado pela avaliação de quem ganha com tudo isto.

A realidade, no entanto, quando acompanhada pelos números poderá revelar quem tem ganho, e os números da Banca não fogem à regra. Segundo contas feitas pela Agência Lusa, os cinco maiores bancos que operam em Portugal obtiveram lucros agregados de 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1.000 milhões de euros do que em 2021.

A Caixa Geral de Depósitos arrecadou lucros de 843 milhões de euros em 2022, mais 45% do que em 2021. O Santander Totta foi o segundo banco com melhores resultados positivos em 2022 de 606,7 milhões de euros, mais 90% do que no ano anterior e o melhor resultado da sua história. O Novo Banco triplicou os lucros e em 2022 esses ascenderam a 560,8 milhões de euros depois de em 2021 ter tido pela primeira vez resultados positivos, de 184,5 milhões de euros. Já o BCP subiram 50% para 207,5 milhões de euros e os do BPI cresceram 19% para 365 milhões de euros.

Enquanto os bancos lucram e distribuem dividendos, quem trabalha tem visto o seu salário perder cada vez mais valor real. A título de exemplo, o salário médio por trabalhador diminui 4,0% em termos reais em 2022. Esse mesmo ano viu a maior subida anual de preços de bens e serviços de consumo dos últimos 30 anos, reflectida numa inflação que se fixou nos 8,1%, já o Salário Mínimo Nacional em 2023 aumentou apenas 7,8%, fixando-se no 760 euros.

Bom bom é sermos pobres. Somos o 7.º país com menor PIB per capita da UE, muito longe da média europeia.

sábado, 7 de maio de 2022

Amazon: dança para o ditador das estrelas, que és livre de ser escravo


«A Amazon, de Jeff Bezos, só não é das empresas mais obscenas porque, nesta matéria, o inferno é o limite. Estas empresas globais são o que mais se aproxima da fase inicial da industrialização. A total amoralidade dos seus proprietários resulta de taxas de lucro que a história nunca conheceu e de uma acumulação de riqueza (e de poder) que torna os Estados incapazes de lhes impor as regras mais básicas.

A falsa autonomia dos que já nem têm direito a ter vínculo com aqueles para quem realmente trabalham – cinicamente tratados como empresários da sua miséria ou ao serviço de pequenas empresas que dependem de um único cliente – resulta da ideia de que a nossa liberdade individual depende da absoluta liberdade do patrão nos escravizar. Começando por recusar ser nosso patrão.

No caso da Amazon, são conhecidas as condições de trabalho indignas exigidas aos seus entregadores. Por falta de tempo, pausas e instalações sanitárias que possam usar têm de urinar em garrafas de água. São responsabilizados quando ficam presos num nevão. Sacrificam a sua segurança quando os tempos de entrega exigidos são virtualmente impossíveis de cumprir.

TikToker asks Amazon delivery driver to dance [Fonte: aqui]
Mas como se não bastasse a exploração levada ao extremo, apareceu, nos Estados Unidos, uma nova moda: clientes que põem nas suas portas pedidos para que os entregadores dancem ou façam algumas graças. Para quê? Para os filmarem através de câmaras de vigilância doméstica como o Ring e publicarem no TikTok.

Alguns dos entregadores fazem o que os clientes pedem com medo de reclamações. Os motoristas são rastreados por câmaras com inteligência artificial e aplicações que os monitorizam e atribuem uma pontuação no fim de cada semana. E são avaliados pelos clientes. Se houver muitas críticas negativas, podem ser demitidos. “Tecnicamente, se o associado de entrega não seguir as instruções, pode ser prejudicado nas suas métricas”, disse um proprietário de uma empresa de entregas do Midwest dos EUA à Vice. Para além da humilhação, perdem o pouco tempo que têm para as entregas.

Entre as muitas publicações que se tornaram virais, fica esta: "Deixei uma placa pedindo aos motoristas para dançarem. Este tipo foi incrível! Alguém o conhece?" Há pessoas estupidas em todo o lado e a empresa não tem culpa disso. Por acaso até poderia banir aquele cliente, diria eu, se a coisa não fosse bem mais grave. É que a própria conta oficial da Amazon deixa comentários nestas contas: “poppin’ and lockin’ while box droppin’” (numa tradução muitíssimo livre, “a dançar e a gingar na hora de entregar”). Ou seja, é a Amazon a incentivar, porque o cliente tem sempre razão mesmo quando é um animal, a humilhação daqueles que lhes entregam as encomendas.

É verdade que ninguém força estes trabalhadores a dançarem. Como escreve Arwa Mahdawi, no jornal "The Guardian", “há uma linha ténue entre exigir oficialmente algo aos seus funcionários e incentivá-lo fortemente”. Também ninguém os força a trabalharem para a Amazon. Esta é a “beleza” deste tempo: ninguém força ninguém a nada. Todos são absolutamente livres de serem escravos ou morrerem de fome. A liberdade deste capitalismo sem freios é essa mesmo: todos somos absolutamente livres, sem qualquer limite. Quem tiver mais poder esmaga o outro, porque assim dita a liberdade de cada um. Tanto pode ser cliente como patrão. Exatamente como na selva.

E esta é uma das razões pelas quais, para além do desprezo que tenho por tudo o que simule empreendedorismo para fugir aos deveres de uma relação assalariada, sou militantemente contra todas as formas de avaliação particular de trabalhadores (diferente da avaliação do serviço de uma empresa). É um sistema perverso que transforma cada cliente num pequeno ditador mimado. A China já transferiu isto para a convivência geral, com os seus créditos sociais. As ditaduras estão a aprender bem com as técnicas de vigilância orwelliana coletiva que o nosso “mundo livre” tem para oferecer. Entre a selva e a tirania, o passo é menor do que parece.

Claro que haverá sempre selvagens que abusam do poder que têm. É por isso que temos leis e vínculos laborais. E é por isso que o despedimento não é livre. Para que as empresas para as quais trabalhamos tenham deveres e os nossos patrões não se tornem nossos proprietários. E quando a alternativa é o desemprego, não me venham dizer que somos livres de aceitar a fome no lugar da escravatura.

Mas a coisa chegou a outro ponto: o cliente passou a ser, ele próprio, um pequeno déspota. E pode fazer o que desde criança aprendemos a reprimir em nós: usar o poder arbitrário para diminuir o outro. Com as redes sociais, até o pode exibir a um mundo que, mesmo que condene, garantirá a viralidade e a fama. Nas empresas, havia a possibilidade do trabalhador dizer não e ninguém o poder despedir por isso. Agora, está nas mãos do ditador das estrelas. No fundo da cadeia alimentar, ponto para ser servido à turba que sempre aí esteve, faminta pela indignidade do mais fraco.»