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domingo, 9 de março de 2025

O Humanismo Económico: Uma Exploração do Pensamento de Amartya Sen


O pensamento de Amartya Sen representa uma rutura com o utilitarismo clássico. Enquanto a economia tradicional muitas vezes se foca na acumulação de bens, Sen argumenta que o desenvolvimento deve ser medido pela expansão das liberdades substantivas dos indivíduos.
1. O Conceito de Capability (Abordagem das Capacidades)
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação da liberdade de viver uma vida que se tem razões para valorizar. Ele distingue entre:
  1. Meios: bens primários, rendimento e recursos (o que a economia tradicional foca).
  2. Capacidades (Capabilities): o conjunto de alternativas que uma pessoa tem à sua disposição (o que a pessoa pode realmente ser ou fazer).
  3. Funcionamentos (Functionings): a concretização dessas capacidades (ser saudável, estar educado, participar na vida política).
2. A Crítica ao Utilitarismo e ao PIB
Sen defende que o PIB é um indicador insuficiente porque não capta a desigualdade na distribuição de oportunidades. Se uma sociedade é rica, mas apenas uma pequena elite tem acesso a educação e saúde de qualidade, o desenvolvimento é falho. Ele argumenta que o desenvolvimento é um processo de alargamento das liberdades humanas, e não apenas um crescimento económico quantitativo.

3. A Liberdade como Agência
O conceito de "agência" é central. Sen vê o ser humano como um agente ativo, capaz de transformar a sua realidade, e não apenas um recetor passivo de políticas públicas. A liberdade, aqui, não é apenas a "liberdade negativa" (ausência de coerção), mas a "liberdade positiva" (a capacidade real de agir).
Links Recomendados para Aprofundamento

Para explorar estas ideias de forma mais detalhada, recomendo as seguintes fontes:
The Amartya Sen Lectures (Harvard University): O portal oficial onde poderá encontrar artigos, discursos e uma vasta base de dados sobre o pensamento do autor.
Human Development Reports (UNDP): O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento utiliza o Capability Approach de Sen como base para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Stanford Encyclopedia of Philosophy: Capabilities Approach: Uma análise técnica e filosófica rigorosa sobre como as ideias de Sen se inserem na ética contemporânea.

Referência Bibliográfica Principal
Para uma leitura fundamental que consolida estes conceitos, esta obra é incontornável:

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Lisboa: Gradiva, 2010. (Título original: Development as Freedom, 1999).

Neste livro, Sen demonstra como a liberdade política, as instalações económicas, as oportunidades sociais, as garantias de transparência e a segurança protetora trabalham em conjunto para permitir o desenvolvimento humano.

sábado, 9 de março de 2024

Ensaio: A Economia como Expansão de Liberdades



A obra de Amartya Sen representa uma rutura com a economia ortodoxa, que durante décadas mediu o bem-estar social apenas através de métricas monetárias. Para Sen, o desenvolvimento não é um fim em si mesmo, mas sim um meio para a expansão das liberdades reais de que os indivíduos desfrutam.

1. O Capability Approach (Abordagem das Capacidades)
O conceito central de Sen é a distinção entre meios e fins. Enquanto a economia clássica foca-se nos bens (rendimento), Sen foca-se no que as pessoas conseguem fazer com esses bens. Ele introduz dois termos técnicos essenciais:
  1. Funcionamentos (Functionings): são os estados e ações que uma pessoa consegue realizar (ex: estar nutrido, ter boa saúde, participar na vida da comunidade).
  2. Capacidades (Capabilities): representam a liberdade substantiva de alcançar esses funcionamentos. É o "conjunto de vetores" de opções que uma pessoa tem à sua disposição.
2. Pobreza como Privação de Capacidades
Para Sen, a pobreza não é apenas a falta de dinheiro; é a privação de capacidades básicas. Um exemplo clássico que ele utiliza é o de uma pessoa com uma deficiência motora. Mesmo que ela tenha o mesmo rendimento que uma pessoa sem deficiência, a sua "capacidade" de se deslocar ou de participar no mercado de trabalho é menor, a menos que o Estado ou a sociedade compensem essa limitação com infraestruturas adequadas. Portanto, a igualdade de rendimentos não garante a igualdade de oportunidades.

3. Liberdades Instrumentais
Sen identifica cinco tipos de liberdades que se reforçam mutuamente para promover a capacidade individual:
Liberdades políticas: direitos civis e democracia.
Facilidades económicas: oportunidades de utilizar recursos para consumo ou produção.
Oportunidades sociais: acesso a educação e saúde.
Garantias de transparência: o direito à informação e ao combate à corrupção.
Segurança protetora: redes de segurança social para os mais vulneráveis.

Referências e Ligações Úteis
Para aprofundar o estudo sobre Amartya Sen, recomendo os seguintes recursos oficiais:
Página Oficial do Prémio Nobel - Amartya Sen: Inclui a biografia e a palestra de aceitação do prémio em 1998.

Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD): O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado por Mahbub ul Haq com a colaboração direta de Sen, aplicando as suas teorias na prática.

Harvard University - Amartya Sen: Perfil académico com acesso a publicações recentes.

Referência Bibliográfica Principal
SEN, Amartya (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press. (Edição em Portugal: O Desenvolvimento como Liberdade, Gradiva, 2003).

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O pensamento económico de Amartya Sen: a fome, a biologia e a política


Hoje, dei por mim a reler Amartya Sen: "Starvation is the characteristic of some people not having enough food to eat. It is not the characteristic of there being not enough food to eat". Recomendo vivamente a leitura do livro "Hunger and Public Action" (e-livro disponível aqui). Em especial, pp. 95-102.
A análise de Amartya Sen sobre a fome influenciou fundamentalmente a minha compreensão da justiça económica, ambiental e reprodutiva. As pessoas não passam fome porque não há comida suficiente para muitos pobres. É porque a sociedade está estruturada para privá-los de comida.
Ex: A fome da batata na Irlanda (A Grande Fome Irlandesa)

Daniel MacDonald (c.1847) - An Irish Peasant Family Discovering the Blight of their Store

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi um evento de suma importância para a formação da Irlanda moderna, assim como das classes trabalhadoras da Inglaterra e Estados Unidos. A fome que atingiu a ilha não foi somente uma recorrente crise de subsistência – tão comum em economias e sociedades pré-capitalistas -, mas, ao contrário, foi engendrada pela colonização inglesa e, além disso, foi parte essencial do processo de industrialização capitalista inglês. Nesse sentido, esse artigo busca defender a tese de que a causa estrutural da fome irlandesa pode ser encontrada no modelo colonial aplicado pela Inglaterra, que possuía três pilares principais: a transformação da economia irlandesa em exportadora de matérias-primas e alimentos, a existência de um mercado de terras via arrendamentos e a solidificação de uma economia interna de subsistência baseada na produção da batata.

Há um famoso ditado popular mexicano, atribuído ao ditador Porfirio Díaz, que sintetiza, de modo genial, a relação do país latino-americano com o seu vizinho do norte: “Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”. Essa relação entre, de um lado, uma potência capitalista industrial e, do outro lado, os seus vizinhos empobrecidos e atrasados não foi nenhuma novidade do imperialismo norteamericano. A Inglaterra, muito antes, já havia posto os povos das Ilhas Britânicas para trabalhar em favor do seu próprio desenvolvimento capitalista, cabendo a maior parte do ônus desse processo para a rural, agrária e camponesa Irlanda. Nesse sentido, dentro desse contexto, uma das principais consequências do modelo colonial inglês aplicado na ilha foi a Grande Fome de 1845-1849 – segundo Eric Hobsbawm a “maior catástrofe humana da história europeia”[1] ocorrida durante a primeira metade do século XIX (1789-1848).

O modelo colonial inglês aplicado na Irlanda possuía três pilares principais: a) a transformação da economia irlandesa em exportadora de commodities (sobretudo grãos) para abastecer o mercado interno inglês, isto é, nesse sentido, produzir alimentos para uma crescente população urbana e matérias-primas para a emergente indústria inglesa – além da exportação de uma força de trabalho barata e numerosa; b) a existência de um mercado de terras (via arrendamentos) e o parcelamento da propriedade agrária; c) uma economia camponesa de subsistência voltada à produção da batata como alimento principal de consumo da maioria da população irlandesa – a economia da batata.

A revolução industrial inglesa teve como principal consequência para a Irlanda um reforçamento da ruralização[2] e a especialização na exportação de commodities, assim como a desurbanização e o declínio da produção manufatureira interna[3] (que possuía um importante e tradicional setor têxtil), ou seja, enquanto a Inglaterra se industrializava, a Irlanda passava por um processo de “desindustrialização”[4], que ocorria em favor do desenvolvimento econômico inglês. Evidentemente que o estabelecimento de uma economia primário-exportadora, como observam Marx e Engels, atendia aos interesses da burguesia industrial ingl­esa (mais interessados na mão de obra barata e numerosa) e sobretudo de uma parte dos landlords (grandes latifundiários ingleses) que possuíam terras na Irlanda. Nesse sentido, as Leis dos Cereais (Corn Laws) de 1815, que buscavam restringir a importação de grãos, uma importante vitória política dos landlords[5], significou para a Irlanda quase que uma situação de monopólio na exportação de cereais para a Inglaterra[6] – embora a maior parte dos lucros desse intercâmbio fossem para os próprios latifundiários ingleses.

Na reestruturação da divisão internacional do trabalho que ocorreu com o advento da revolução industrial, a Irlanda posicionou-se como uma economia subalterna: exportadora de alimentos, matérias-primas e trabalhadores e importadora de produtos industriais. Assim, de um lado, enquanto, ao mesmo tempo, a Irlanda teve um papel fundamental no desenvolvimento industrial inglês (não somente por ter sido o celeiro da Inglaterra, mas sobretudo devido à exportação de mão de obra barata[7]), em outras termos, na acumulação capitalista inglesa, de outro lado, ocorria o seu processo de desacumulação de capitais e perpetuação do seu subdesenvolvimento e periferização ou, como prefiro, do atraso econômico. Esse era, afinal, o sentido da colonização inglesa[8]. Segundo Engels:

A Inglaterra havia de tornar-se a ‘oficina do mundo’; todos os outros países haviam de tornar-se para a Inglaterra aquilo que a Irlanda já era: mercados para os seus bens manufacturados, fornecendo-lhe em troca matérias-primas e alimentos. A Inglaterra, o grande centro manufactureiro de um mundo agrícola, com um número sempre crescente de Irlandas cerealíferas e algodoeiras girando à volta dela, o Sol industrial[9]

Uma peculiaridade do modelo colonial inglês em relação à outras formas de colonização reside no fato de que havia um mercado de terras e o predomínio do parcelamento rural. Os landlords possuíam a propriedade das terras e as alugavam à arrendatários irlandeses que, por sua vez, subarrendavam para arrendatários ainda menores que faziam o mesmo[10], assim o parcelamento da terra e o predomínio de pequeníssimos lotes (cerca de menos de 5 acres) eram a norma do regime agrário. Como consequência, a concorrência entre esses pequenos arrendatários fazia com que os preços das rendas fossem muito altos[11], diminuindo, assim, o investimento em cultivos agrários e rebaixando o padrão de vida dos irlandeses.

Mas por trás desse regime agrário e do aumento populacional – ocorrido desde o início do século XIX –, estava o desenvolvimento de uma economia de subsistência voltada à produção da batata (a economia da batata)[12]. A batata havia sido introduzida na Irlanda em 1586, mas somente no final do século XVIII havia se generalizado na economia irlandesa. O cultivo da batata era relativamente simples, requeria pouca força de trabalho e bastava uma pequena superfície para produzir uma boa quantidade, além disso o seu consumo diário, aliado ao leite, era o suficiente para manter um estado de saúde tolerável[13].

Os ingleses haviam imposto aos irlandeses o abandono dos antigos métodos e cultivos tradicionais e a utilização de métodos modernos de cultivo agrário baseado na fertilização através do guano peruano – que aumentaram a produtividade, embora enfraquecessem imunologicamente as batatas[14]. Além disso, a produção da batata era favorável aos interesses dos ingleses na medida que “não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra”[15]. Nesse sentido, a unidade produtiva camponesa padrão (pequenos lotes) era dividida em dois setores principais: um setor destinado à subsistência, com predomínio ou totalidade do cultivo da batata, e outro setor destinado à produção de commodities para a Inglaterra. A adoção da batata e a maior produtividade agrária teve como consequência o aumento demográfico (em 1791, um pouco mais de 4 milhões; em 1821, entorno de 7 milhões; em 1845, mais de 8 milhões[16]) que, por sua vez, estimulava os landlords a concederem mais arrendamentos cada vez menores, visando os lucros de exportação e das rendas.

A consequência do modelo colonial inglês na Irlanda (economia primário-exportadora, mercado de terras e economia da batata) era a perpetuação e o reforçamento do atraso económico e o pauperismo camponês generalizado[17]. Em 1845, a batata havia se tornado o único alimento sólido de 4 entre 10 habitantes da ilha, e cerca de 1/3 de toda a população apenas consumia batata[18]. Nesse contexto, “as más colheitas e as doenças das plantações na metade da década de 1840 forneceram apenas o pelotão de fuzilamento para um povo já condenado”[19]!

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi, antes de mais nada, uma crise de subprodução alimentícia, algo que era crónico no país, ocorrendo constantemente desde o século XVIII[20], isto é, a fome era sistémica na Irlanda. Sendo assim, a fome da década de 1840 foi apenas a intensificação de um fenómeno recorrente na história da Irlanda colonizada, embora dessa vez tenha atingido o país em sua totalidade e com um “custo humano” muito maior. A causa imediata, além das más colheitas de 1845 e anos subsequentes, foi o fungo Phytophthora infestans – que havia surgido na América do Norte e se espalhado na Europa continental[21] –, responsável pelo apodrecimento precoce das batatas, mais fracas imunologicamente e com baixa variação genética[22]. Em 1845, talvez se tenha plantado cerca de 2,1 milhões acres de batata, do qual cerca de metade ou ¾ foram destruídos pelo fungo[23].

Por outro lado, a principal causa da catástrofe foi a colonização inglesa[24] que, além de explorar a população a partir da dinâmica das rendas e da exportação de commodities e material humano, forçava a economia irlandesa à monocultura – tanto internamente (economia da batata), quanto externamente (economia primário-exportadora) –, além disso atuava contra o desenvolvimento econômico do país na medida que acabava com qualquer alternativa industrial da Irlanda, inclusive destruindo com a sua tradicional produção têxtil. A lógica do sistema colonial se atesta se levarmos em consideração que durante quase todo o período da Grande Fome a exportação de alimentos para a Inglaterra permaneceu, com preços em média de 100.000 libras esterlinas mensais[25]. A colonização inglesa foi, pelo menos nesse período, a verdadeira responsável pelo pauperismo irlandês!

As consequências da Grande Fome de 1845-1849 foram de suma importância para a posterior história irlandesa. Em primeiro lugar, a população da ilha, que em 1845 era maior que 8 milhões, diminuiu para cerca de 6 milhões. Tradicionalmente, a partir de fontes “grosseiras”, se há afirmando que 1 milhão de pessoas morreu diretamente como decorrência da fome (doenças e desnutrição), enquanto outro milhão emigrou para outros países, majoritariamente de tradição anglófona – somando, assim, um descenso de dois milhões de pessoas. Esses dados são muito questionáveis e se baseiam sobretudo nos censos de 1841 (que indicava uma população de 8,2 milhões) e 1851 (que indicava entorno de 6,5 milhões), em contrapartida o “custo humano” e, como consequência, os prejuízos para o desenvolvimento econômico-social são irrefutáveis – a população persistira diminuindo e só voltaria a crescer novamente em meados do século XX, nunca mais atingindo 8 milhões.

Em relação à emigração, muitos irlandeses – essa força de trabalho fundamental para a industrialização inglesa – se dirigiram à tradicional emigração para Inglaterra (cerca de 750 mil, entre 1845-1855[26]), contudo outros irlandeses preferiram principalmente os demais países de tradição anglófona: entre 1841-1850 (sem contar a Grã-Bretanha), 70% emigrou para os Estados Unidos, 27.9% para o Canadá, 1.8% para a Australásia (sobretudo Austrália e Nova Zelândia); na década seguinte, 1851-60, 81% para os EUA, 9.7% para o Canadá, 8.3% para a Australásia. A emigração para os EUA foi significativa: entre 1841-1850, 908,292 irlandeses; 1851-60, 989,880; 1861–70, 690,845; 1871–80, 449,549; 1881–90, 626,604; 1891–1900, 427,301. Enquanto que, na década de 1841-1850, o Canadá atingiu o seu ápice com 362,738 emigrantes e a Australásia, na década 1851-1860, com 101,541[27]. Assim como na Inglaterra, nos Estados Unidos os irlandeses desempenharam um papel fundamental na emergente indústria norte-americana: serviram como mão de obra não-qualificada, ao mesmo tempo que rebaixavam os salários e competiam com os trabalhadores negros[28]. Pode-se dizer, sem exageros, que pauperismo irlandês foi um dos pilares fundamentais do desenvolvimento económico inglês e norte-americano.

Uma das principais consequências da Grande Fome, que possui relações com a própria história da Inglaterra, foi a revogação das Leis dos Cereais, em 1846[29]. A revolução burguesa na Inglaterra, ocorrido em meados do século XVII, havia estabelecido a dominação conjunta de classe dos landlords junto à emergente burguesia inglesa[30] – primeiro, dos setores mercantis, mais tarde, dos setores manufatureiros-industriais. Com o advento da revolução industrial e da sociedade burguesa, a burguesia dominava cada vez mais a sociedade, e a preponderância política dos landlords ia enfraquecendo. Nesse contexto, as Leis dos Cereais de 1815 significaram uma importante vitória política para aristocracia rural, na medida que lhe dava uma parte dos lucros do gigantesco desenvolvimento econômico inglês, decorrente da transformação industrial. Contudo, durante o século XIX, o enfraquecimento dos landlords era notório: a reforma eleitoral de 1832 foi um dos aspectos mais sintomáticos desse processo.

A burguesia industrial buscava impor completamente uma política económica livre-cambista, mas dentro se seu próprio país havia um grande empecilho: as Leis dos Cereais. Nesse sentido, essa legislação protecionista que já era muito criticada pelos setores burgueses, ganhou uma forte oposição durante a crise agrícola de 1845-46, já que a imposição da economia primário-exportadora havia levado a Irlanda a uma catástrofe alimentícia. Evidentemente que a burguesia industrial inglesa não pretendia, em nenhum sentido, acabar com a fome na Irlanda[31] – visto que lhe beneficiava em relação à mão de obra irlandesa –, mas sim acabar com o monopólio dos landlords na produção de commodities, já que eram praticamente obrigados a comprar os grãos encarecidos da Irlanda e Grã-Bretanha, e, com isso, tinham seus lucros diminuídos – tanto por pagarem maiores salários, quanto pela compra das matérias-primas. Assim, a revogação das Leis dos Cereais, em 1846, significou a vitória da burguesia industrial inglesa e da sua política livre-cambista e a derrota dos landlords, dos setores burgueses ligados à especulação e do protecionismo[32].

Para a Irlanda, as consequências do fim do monopólio das commodities também foram importantes. Num primeiro momento, a perda do mercado inglês fez com que aqueles camponeses que ainda não haviam caído totalmente no pauperismo ficassem impossibilitados de pagar as rendas, assim sendo expulsos de seus arrendamentos. A fome irlandesa que havia acelerado o processo de revogação do Corn Laws, dialeticamente, foi intensificada pelo fim do monopólio irlandês. A consequência estrutural para a economia irlandesa foi o fim da economia da batata e uma mudança de direcionamento na economia primário-exportadora, cada vez mais especializada na bovinocultura, ovinocultura[33] e exportação de aveia. Com o descenso populacional e com as mudanças produtivas (os novos cultivos eram menos produtivos e requeriam mais força de trabalho que a batata), o parcelamento da terra diminuiu e ocorreu o processo de concentração dos arrendamentos e propriedades rurais[34].

O estado inglês, de fato, buscou apaziguar o problema da fome a partir do assistencialismo público (a ampliação da Lei dos Pobres, Irish Poor Laws, para a Irlanda já havia ocorrido em 1838) e de um programa de obras públicas, principalmente de construção de estradas. Embora a Irlanda tenha se beneficiado mais tarde da infraestrutura criada nesse período, não houve imediatamente um avanço econômico e o ônus decaiu totalmente sobre os empobrecidos camponeses, que eram obrigados a pagarem impostos maiores. Além disso, os salários pagos aos trabalhadores eram extremamente baixos, inclusive abaixo do gasto calórico necessário para esse tipo de atividade. Em 1847, essas obras contavam com cerca de 735 mil operários e havia cerca de dois mil comitês de assistência pública pelo país[35].

A Grande Fome foi a consequência da imposição à Irlanda, pela colonização inglesa, de uma economia voltada para o mercado externo e, ao mesmo tempo, dependente internamente da monocultura da batata. A Irlanda, que como vimos, desempenhou um importante papel na acumulação de capitais inglesa, não passou despercebida por Marx e Engels. Em várias de suas obras[36], os fundadores do materialismo histórico dedicaram-se a estudar tanto o papel subalterno da economia irlandesa, quanto à importância, supracitada nesse trabalho, da força de trabalho dos irlandeses no desenvolvimento industrial inglês. Além disso, os acontecimentos na Irlanda também fizeram parte da desenfreada luta de classes entre a burguesia liberal e os landlords e a consequente vitória, como afirmou Marx, do partido do livre comércio inglês.

Notas

[1] HOBSBAWM, E. A Era das Revoluções 1789–1848. São Paulo: Paz e Terra, 2015 [1962]. p. 170.

[2] SPECK, W. A. História Concisa da Grã-Bretanha. São Paulo: EDIPRO, 2013. p 67.

[3] “Sob Guilherme III, chegou ao poder uma classe que tinha como único objetivo o lucro, e a indústria irlandesa foi suprimida com o objetivo de forçar a Irlanda a vender suas matérias-primas para a Inglaterra a qualquer preço […] A União deu o tiro de misericórdia nas possibilidades de renascimento da indústria irlandesa […] toda vez que a Irlanda estava prestes a desenvolver sua indústria, ela foi esmagada e reconvertida em uma terra meramente agrícola” In: MARX, K. Proyecto de una conferencia sobre el problema irlandés. Dictada el 16 de diciembre de 1867 en la asociación cultural de trabajadores alemanes en Londres [1867]. In: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979. p. 154-170.

[4] “Exceto no nordeste (Ulster), o país tinha de há muito sido desindustrializado pela política mercantilista do governo britânico colonialista e, mais tarde, pela competição da indústria britânica” In: HOBSBAWN, 1962, op. cit., p. 170. O termo “desindustrialização” deve ser usado com cuidado nesse caso, já que na Irlanda o que existia era a produção manufatureira e artesanal e não, de fato, uma indústria moderna com a utilização do maquinário movido a carvão.

[5] ENGELS, F. Prefácio à Edição Inglesa de 1892 de «A Condição da Classe Operária em Inglaterra». Marxist.org, 1892. 

[6] MARX, 1867, op. cit., p. 164.

[7] “O rápido desenvolvimento da indústria britânica não teria sido possível se a Inglaterra não dispusesse de uma reserva – a numerosa e pobre população da Irlanda” In: ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010 [1845]. p. 131.

[8] Ver: PAULA, P. G. Marx e a formação da periferia do mercado mundial capitalista: o caso irlandês. Esquerda Online, 06 de agosto de 2015. 

[9] ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[10] ENGELS, 1845, op. cit., p. 304; MARX, 1867, op. cit., p. 163; HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170; SPECK, 2013, op. cit., p. 68.

[11] “Os aluguéis aos proprietários no início da década de 1840 representavam algo na ordem de 25-30 por cento da produção agrícola” In: BIELENBERG, A. The Irish Economy, 1815–1880. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 316.

[12] Marx, em 1861, escreveu: “O que a batata foi para a agricultura irlandesa, o algodão é para o ramo dominante da indústria da Grã-Bretanha” In: MARX, K. From The Crisis in England. Marxist.org, 1861. 

[13] RANELAGH, J. O. Historia de Irlanda. Madrid: Ediciones Akal, 2014. p. 162.; STATE, P. A Brief History of Ireland. New York: Facts On File, 2008. p. 184-185.

[14] GUIMARÃES, E. A. M. Agricultura industrial, commodities, cacau, mandioca e batatas. In: Scientiarum Historia IX, 2016, Rio de Janeiro. Livro de Anais do Scientiarum Historia IX. Rio de Janeiro: UFRJ, 2016.; MANN, C. C. 1493: uncovering the new world Columbus created. New York: Alfred A. Knoff, 2011.

[15] “O povo irlandês conseguia cultivar grandes quantias de batatas nutritivas com as quais alimentavam suas famílias e seus animais. Já os latifundiários ingleses se beneficiavam do fato de que o plantio de batatas não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra” In: THORNTON, M. O que causou a grande fome da Irlanda? Mises Brasil, 2014 [1998]. 

[16] Ver: GURRIN, B. Population and Emigration, 1730–1845. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880.

[17] Eric Hobsbawm enxergou a causa estrutural da Grande Fome na contradição entre o aumento populacional (consequência direta da economia da batata) e o atraso econômico: “Uma simples inovação técnica — a substituição pela batata dos tipos anteriormente prevalecentes de agricultura — tornara possível um grande aumento da população, pois um acre de terra plantado com batatas pode alimentar muito mais gente do que um acre dedicado a pasto ou outros tipos de cultura. A demanda dos proprietários de terra por um número máximo de rendeiros que lhes proporcionassem dividendos e também, mais tarde, por uma força de trabalho para cultivar as novas fazendas que exportavam alimentos para o crescente mercado britânico encorajou a multiplicação de minúsculas propriedades. […] durante o século XVIII e princípios do século XIX, a população se multiplicou nestas faixas de terra, vivendo à base de 10-12 libras peso de batata por dia para cada pessoa e — pelo menos até a década de 1820 — à base de leite e de um pedaço ocasional de peixe; uma população cuja pobreza não tinha paralelo na Europa Ocidental. Visto que não havia emprego alternativo — pois a industrialização estava excluída — o resultado dessa evolução era matematicamente previsível. Quando a população tivesse crescido até os limites do último pedacinho de terra plantado de batatas haveria uma catástrofe” In: HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[18] MANN, 2011, op. cit., p. 302.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 162.

[19] HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[20] “A fome já havia atingido a Irlanda muitas vezes. Em 1740-1741, estima-se que 400.000 a 500.000 morreram por causa da praga da batata (uma taxa quase tão alta quanto em 1845-1849). Durante o século XIX, antes de 1845, houve fomes em 1807, 1817, 1821-1822, 1830-1834, 1836 e 1839. No entanto, embora sempre tenha sido acompanhada de morte e emigração, a perda da safra de batata e a fome sempre foi localizado” In: RANELAGH, 2014, op. cit., p. 163. “A Irlanda conheceu falhas de batata (Potato Failure) antes – houve 14 pragas parciais ou completas de 1816 a 1842 e várias no século XVIII, notadamente o Bliain an áir (o ano do abate) em 1740-41” In: STATE, 2008, op. cit., p. 185. “Escassez de alimentos atribuível ao fracasso da safra de batata ocorreu em 1817, 1822, 1831,1835-7, 1839 e 1842, com muito pior para vir entre 1845 e 1849, quando a fome se alastrou por vários anos com consequências devastadoras” In: BIELENBERG, 2018, op. cit., p. 337.

[21] STATE, 2008, op. cit., p. 185.

[22] Ver: A Monocultura e a Grande Fome Irlandesa da Batata: Casos de falta de variação genética. USP, s/d. In: https://evosite.ib.usp.br/relevance/IIAmonoculture.shtml.

[23] MANN, 2011, op. cit., p. 301-302.

[24] Mesmo um economista liberal, ligado à escola austríaca, salienta a importância da colonização inglesa na Grande Fome irlandesa: “A Irlanda foi devastada pelas forças económicas originadas por um dos mais poderosos e agressivos estados que o mundo já conheceu. A sua população sofreu não por causa de um fungo (cujos cientistas ingleses insistiam ser apenas humidade excessiva), mas sim por causa da colonização, da espoliação, da servidão, do protecionismo, dos preços artificialmente altos sustentados pelo governo, do assistencialismo estatal e de insensatos programas de obras públicas” In: THORNTON, 1998, op. cit., s/p.

[25] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.

[26] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 171.

[27] KENNY, K. Irish Emigration, 1845–1900. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 1062-1063.

[28] “O papel dos imigrantes irlandeses, que desenvolveram rapidamente um novo monopólio sobre a mão-de-bra não-qualificada na indústria da construção e do emprego fabril, nesse período, em renhida competição com os negros americanos, revelou-se especialmente importante nesse aspecto” In: WOLF, E. A Europa e os Povos sem História. São Paulo: Editora da USP, 2005 [1982]. p. 435.

[29] MARX, 1867, op. cit., p. 165; NÉRÉ, J. A Inglaterra das grandes reformas (1815-1867). In: IDEM. História Contemporânea. DIFEL: São Paulo, 1981. p. 126.; SPECK, 2013, op. cit., p. 72-73.; MARX, 1861, op. cit., s/p.

[30] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Revolução do século XVII na Inglaterra: “Por que a Revolução na Inglaterra teve sucesso?”: uma crítica do panfleto de Guizot. Marxist.org, 1850.

[31] Engels foi bem “objetivo” ao classificar a atuação dessa classe social: “desconheço uma classe tão profundamente imoral, tão incuravelmente corrupta, tão incapaz de avançar para além do seu medular egoísmo como a burguesia inglesa – e penso aqui na burguesia propriamente dita, em particular a liberal, empenhada na revogação das leis sobre os cereais. Para ela, o mundo (inclusive ela mesma) só existe em função do dinheiro; sua vida se reduz a conseguir dinheiro; a única felicidade de que desfruta é ganhar dinheiro rapidamente e o único sofrimento que pode experimentar é perdê-lo” In: ENGELS, 1845, op. cit., p. 307.

[32] “A revogação das Corn Laws foi uma vitória do capitalista manufactureiro, não apenas sobre a aristocracia fundiária, mas também sobre aquelas secções de capitalistas cujos interesses estavam mais ou menos ligados com o interesse fundiário — banqueiros, especuladores com acções [stock-jobbers], detentores de fundos [fund-holders], etc. Livre-Câmbio significava o reajustamente de toda a política interna e externa, comercial e financeira, da Inglaterra em consonância com os interesses dos capitalistas manufactureiros — a classe que agora representava a nação” In: ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[33] “Entre 1855 e 1866: 996,877 cabeças de gado (bovino, ovino e suíno) substituíram a 1,032,694 de irlandeses” In: MARX, 1867, op. cit., p. 169. Os dados quantitativos utilizados por Marx são questionáveis (baseados em relatórios oficiais da época), mas a interpretação é correta.

[34] RANELAGH, 2014, op. cit., p. 171.; MARX, 1867, op. cit., p. 165-169.

[35] THORNTON, 1998, op. cit., s/p.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.; STATE, 2008, op. cit., p. 183-185.

[36] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979.

quinta-feira, 9 de março de 2023

A Justiça entre Bens e Capacidades: O Diálogo entre Sen e Rawls



A filosofia política e a economia do desenvolvimento do século XX foram profundamente moldadas pelo diálogo — e pela divergência — entre dois gigantes do pensamento: John Rawls e Amartya Sen. Enquanto Rawls lançou as bases para uma teoria da justiça social moderna, Sen expandiu esses horizontes ao questionar se os "meios" propostos por Rawls seriam suficientes para garantir a liberdade real num mundo de profunda diversidade humana.

1. O Ponto de Partida: O Institucionalismo de Rawls
Para compreender a crítica de Sen, é necessário olhar para a estrutura de Rawls. Em Uma Teoria da Justiça (1971), Rawls propõe que uma sociedade justa é aquela cujas instituições são desenhadas sob um "véu de ignorância". O resultado seria a escolha de dois princípios, onde o segundo (o Princípio da Diferença) dita que as desigualdades só são aceitáveis se beneficiarem os mais desfavorecidos através da distribuição de Bens Primários.
Estes bens incluem:
  1. Direitos e liberdades fundamentais;
  2. Rendimento e riqueza;
  3. As bases sociais da autoestima.
2. A Crítica de Sen: A Diversidade Humana
A divergência fundamental de Amartya Sen reside naquilo que ele chama de "fetichismo dos bens". Sen argumenta que Rawls foca-se excessivamente nos instrumentos da liberdade (os bens) e ignora a capacidade real das pessoas de converterem esses bens em vidas valiosas.

Sen introduz a Abordagem das Capacidades (Capability Approach) como uma alternativa. Para ele, a justiça não deve ser medida pelo que as pessoas têm, mas pelo que elas são capazes de ser e fazer.

"A conversão de bens primários em capacidades de funcionamento pode variar de pessoa para pessoa, e a igualdade nos bens primários pode coexistir com desigualdades sérias nas liberdades reais de que desfrutam diferentes pessoas." (Sen, 1999).

O exemplo da conversão
  1. Imaginemos duas pessoas com o mesmo rendimento (o mesmo bem primário):
  2. Um adulto saudável em ambiente urbano.
  3. Uma pessoa com uma doença crónica que exige medicação cara ou com uma deficiência que limita a sua mobilidade.
Embora a métrica de Rawls as considere "iguais" em termos de meios, Sen demonstra que a segunda pessoa tem uma liberdade substantiva muito menor. A justiça, portanto, exige que olhemos para a capacidade de locomoção ou de saúde, e não apenas para o saldo bancário.

3. Justiça Transcendente vs. Justiça Comparativa
Outra rutura importante, detalhada em A Ideia de Justiça (2009), é metodológica. Rawls procura uma "Justiça Transcendente": a definição de instituições perfeitas. Sen, por outro lado, propõe uma Justiça Comparativa.

Para Sen, não precisamos de um modelo de sociedade perfeitamente justa para saber que a escravatura, a fome ou a falta de cuidados de saúde básicos são injustiças que devem ser corrigidas. Ele utiliza a analogia de comparar quadros: não precisamos de saber qual é o quadro perfeito do mundo para decidir que um Picasso é melhor que um rabisco aleatório. O foco de Sen é a remoção de injustiças patentes através do debate público.

Referências Bibliográficas
RAWLS, John (1971). A Theory of Justice. Cambridge, MA: Harvard University Press. (Edição PT: Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença).
SEN, Amartya (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press. (Edição PT: O Desenvolvimento como Liberdade, Gradiva).
SEN, Amartya (2009). The Idea of Justice. London: Allen Lane. (Edição PT: A Ideia de Justiça, Almedina).
NUSSBAUM, Martha (2011). Creating Capabilities. Harvard University Press. (Para uma expansão da lista de capacidades básicas).

Ligações Úteis
The Human Development Report (PNUD): A aplicação prática das ideias de Sen no IDH.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Why Amartya Sen remains the century’s great critic of capitalism



Critiques of capitalism come in two varieties. First, there is the moral or spiritual critique. This critique rejects Homo economicus as the organising heuristic of human affairs. Human beings, it says, need more than material things to prosper. Calculating power is only a small part of what makes us who we are. Moral and spiritual relationships are first-order concerns. Material fixes such as a universal basic income will make no difference to societies in which the basic relationships are felt to be unjust.

Then there is the material critique of capitalism. The economists who lead discussions of inequality now are its leading exponents. Homo economicus is the right starting point for social thought. We are poor calculators and single-minded, failing to see our advantage in the rational distribution of prosperity across societies. Hence inequality, the wages of ungoverned growth. But we are calculators all the same, and what we need above all is material plenty, thus the focus on the redress of material inequality. From good material outcomes, the rest follows.

The first kind of argument for capitalism’s reform seems recessive now. The material critique predominates. Ideas emerge in numbers and figures. Talk of non-material values in political economy is muted. The Christians and Marxists who once made the moral critique of capitalism their own are marginal. Utilitarianism grows ubiquitous and compulsory.

But then there is Amartya Sen.
Every major work on material inequality in the 21st century owes a debt to Sen. But his own writings treat material inequality as though the moral frameworks and social relationships that mediate economic exchanges matter. Famine is the nadir of material deprivation. But it seldom occurs – Sen argues – for lack of food. To understand why a people goes hungry, look not for catastrophic crop failure; look rather for malfunctions of the moral economy that moderates competing demands upon a scarce commodity. Material inequality of the most egregious kind is the problem here. But piecemeal modifications to the machinery of production and distribution will not solve it. The relationships between different members of the economy must be put right. Only then will there be enough to go around.

In Sen’s work, the two critiques of capitalism cooperate. We move from moral concerns to material outcomes and back again with no sense of a threshold separating the two. Sen disentangles moral and material issues without favouring one or the other, keeping both in focus. The separation between the two critiques of capitalism is real, but transcending the divide is possible, and not only at some esoteric remove. Sen’s is a singular mind, but his work has a widespread following, not least in provinces of modern life where the predominance of utilitarian thinking is most pronounced. In economics curricula and in the schools of public policy, in internationalist secretariats and in humanitarian NGOs, there too Sen has created a niche for thinking that crosses boundaries otherwise rigidly observed.

This was no feat of lonely genius or freakish charisma. It was an effort of ordinary human innovation, putting old ideas together in new combinations to tackle emerging problems. Formal training in economics, mathematics and moral philosophy supplied the tools Sen has used to construct his critical system. But the influence of Rabindranath Tagore sensitised Sen to the subtle interrelation between our moral lives and our material needs. And a profound historical sensibility has enabled him to see the sharp separation of the two domains as transient.

Tagore’s school at Santiniketan in West Bengal was Sen’s birthplace. Tagore’s pedagogy emphasised articulate relations between a person’s material and spiritual existences. Both were essential – biological necessity, self-creating freedom – but modern societies tended to confuse the proper relation between them. In Santiniketan, pupils played at unstructured exploration of the natural world between brief forays into the arts, learning to understand their sensory and spiritual selves as at once distinct and unified.

Sen left Santiniketan in the late 1940s as a young adult to study economics in Calcutta and Cambridge. The major contemporary controversy in economics was the theory of welfare, and debate was affected by Cold War contention between market- and state-based models of economic order. Sen’s sympathies were social democratic but anti-authoritarian. Welfare economists of the 1930s and 1940s sought to split the difference, insisting that states could legitimate programmes of redistribution by appeal to rigid utilitarian principles: a pound in a poor man’s pocket adds more to overall utility than the same pound in the rich man’s pile. Here was the material critique of capitalism in its infancy, and here is Sen’s response: maximising utility is not everyone’s abiding concern – saying so and then making policy accordingly is a form of tyranny – and in any case using government to move money around in pursuit of some notional optimum is a flawed means to that end.

Economic rationality harbours a hidden politics whose implementation damaged the moral economies that groups of people built up to govern their own lives, frustrating the achievement of its stated aims. In commercial societies, individuals pursue economic ends within agreed social and moral frameworks. The social and moral frameworks are neither superfluous nor inhibiting. They are the coefficients of durable growth.

Moral economies are not neutral, given, unvarying or universal. They are contested and evolving. Each person is more than a cold calculator of rational utility. Societies aren’t just engines of prosperity. The challenge is to make non-economic norms affecting market conduct legible, to bring the moral economies amid which market economies and administrative states function into focus. Thinking that bifurcates moral on the one hand and material on the other is inhibiting. But such thinking is not natural and inevitable, it is mutable and contingent – learned and apt to be unlearned.

Sen was not alone in seeing this. The American economist Kenneth Arrow was his most important interlocutor, connecting Sen in turn with the tradition of moral critique associated with R H Tawney and Karl Polanyi. Each was determined to re-integrate economics into frameworks of moral relationship and social choice. But Sen saw more clearly than any of them how this could be achieved. He realised that at earlier moments in modern political economy this separation of our moral lives from our material concerns had been inconceivable. Utilitarianism had blown in like a weather front around 1800, trailing extremes of moral fervour and calculating zeal in its wake. Sen sensed this climate of opinion changing, and set about cultivating ameliorative ideas and approaches eradicated by its onset once again.

There have been two critiques of capitalism, but there should be only one. Amartya Sen is the new century’s first great critic of capitalism because he has made that clear.

sábado, 9 de dezembro de 2017

21 Ideias: Amartya Sen e as liberdades efetivas


Economista agraciado com o Prémio Nobel; intelectual de notável participação nos debates sobre temas como justiça social, desenvolvimento e combate à pobreza; filósofo de grande reputação global: eis algumas das descrições que, com muita justiça, costumam acompanhar o nome do indiano Amartya Sen.

Sen notabilizou-se junto do grande público com os seus trabalhos dedicados ao campo da economia do desenvolvimento, área de estudo para a qual deu contributos decisivos — em especial com o chamado capability approach – abordagem das capacidades, que contrasta a chamada “liberdade negativa” (ausência de impedimentos) com a “liberdade positiva” (condições reais de exercício de um direito).

O conceito de Sen deixa claro que de pouco adianta falar na liberdade que um cidadão tem para fazer algo que, na prática, está privado de condições objetivas para realizar. Foi esta a ideia desenvolvida na sua conferência no Fronteiras do Pensamento.

As grandes ideias propostas por Amartya Sen, no palco do Fronteiras, podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atual. O livro reúne o que há de melhor para compreender as mentes contemporâneas: textos de especialistas explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos muito bem escolhidos como representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Confira abaixo um excerto da intervenção do Nobel da Economia e não se esqueça de passar pelo site da Arquipélago Editorial para garantir a sua cópia, também à venda nas principais livrarias!

"A visão clássica segundo a qual a pobreza consiste na falta de rendimento é uma falsidade já bem estabelecida pela literatura; argumento há alguns anos que a pobreza consiste, na verdade, na privação de algumas capacidades básicas que exigimos minimamente das pessoas.

Um rendimento mínimo e uma boa saúde não bastam, se viver numa área em que quase não há escolas ou não há boas escolas, quase não há hospitais nem médicos de qualidade e que enfrenta desafios epidemiológicos devido a um serviço de saúde deficiente; nessas circunstâncias, um rendimento alto não é tão útil. Assim, a partir desta abordagem, a pobreza deve ser vista como privação de capacidades, sendo possível, destarte, mover-se na direção da ampliação da sua abordagem.

Até certo ponto, é isso que John Rawls faz ao deslocar o centro da sua análise da noção de rendimento para a noção de bens primários, os quais incluem, como ele diz: direitos, liberdades, oportunidades, riqueza e a base social da autoestima. Mas tudo isso são meios, como o rendimento.

O que, da minha parte, defendo é que é preciso olhar para a liberdade efetiva das pessoas de realizarem os seus próprios projetos. Uma pessoa pode ter bons meios, mas tais meios serão ineficazes se tal pessoa for afetada por doenças hereditárias, ou doenças adquiridas em epidemias, ou se tiver problemas particulares de algum tipo, como alguma incapacidade.

Cabe notar que, de acordo com as estatísticas do Banco Mundial, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo apresenta incapacidades sérias de um tipo ou de outro. A questão deve ser abordada de uma perspetiva mais ampla e, para tanto, é preciso examinar as liberdades efetivas das pessoas — e não apenas os meios que elas têm, como os bens primários ou o rendimento —, é preciso focar-se nas suas liberdades formais e no modo como tais liberdades podem acentuar a liberdade de facto.

Se queremos julgar a partir de uma perspetiva que favoreça a pessoa, o indivíduo, cabe-nos concentrar na capacidade da pessoa de fazer ou de ser aquilo que ela tem motivo para valorizar, como a habilidade de levar uma vida livre de doenças, de ir e vir livremente, de participar na vida pública e assim por diante. Esta é a abordagem que eu e, como disse, muitos outros entre nós temos vindo a tentar explorar."

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amartya Sen: economist, philosopher, human development doyen


In the 1990s, a set of ideas arrived that might best be called human development. This is a tradition of thought that is unashamed to call itself universalist when it comes to the basics – that we all need to live a "good life". And it is unwilling to give up on the belief that we are all equally entitled to enjoy such things. Accordingly, this point of view takes human flourishing, and not its absence, as its entry point to the problem of poverty and global inequality.

In many ways, that makes human development thinking the mirror opposite of post-development ideas. Where Arturo Escobar and other post- and anti-development thinkers blamed the very ideology of development for the problems of extreme poverty, human development blames our failure to think broadly enough: to imagine and create a way of organising the world that works for everyone, and not just the few.

This does not mean that we have arrived at some point of optimal balance, an approach containing just the right mix of pragmatism and hope, or just the right way to mix markets and states together. As should by now be clear, there is no single panacea to the problems and pitfalls of development. All the same, human development is perhaps not too far off a workable median either, at least potentially. And the Indian economist Amartya Sen is certainly very close to embodying the human development position better than anyone else. He has had the greatest intellectual influence on its arguments, while the longevity of his career and the magnitude of his contributions across a wide spectrum of issues – covering choice theory in economics to philosophical interventions on the idea of justice itself – have taken such arguments well beyond questions of economic development.

Born in Bengal in 1933, Sen has spent the larger part of his working life at institutions in the UK and the US. He is an economist by training, but works with a philosopher's scepticism about what we take to be fundamental truths. Though a Nobel prize-winner in economics, he has chosen not to "consult" with governments on the back of his ideas. As the LSE's Stuart Corbridge notes, for Sen it is a matter of pride that, as he himself puts it: "I have never counselled any government, preferring to place my suggestions and critiques – for what they are worth – in the public domain."

Perhaps the most widely known of those stem from Sen's work on famine. He argues that famines are rarely the result of a lack of food. They are more usually the consequence of a breakdown in people's ability to access or produce food in the way that they usually do – the result of political failures, not natural ones. But whether in his writing about famines – he was long haunted by the memory of the great Bengal famine of 1943 – or on the more arcane computations of social choice theory, Sen's work has at heart most consistently concerned itself with the idea of human freedom.

His thinking is pulled together in the 1999 book Development as Freedom: a must-read on any development studies course and certainly written with a wider public in mind. Sen argues that the expansion of freedom is central to development – "both as the primary end and as the principal means".

Sen would have us conceptualise development as freedom in this way because he wants the goal to be wider than, say, a numerical measure of GNP and because he wants us to be able to then pursue that idea systematically, to ensure it is brought about.

Of these two instances, the latter is more far-reaching, because it requires thinking about poverty not simply as an aberration, as something that we might somehow solve. It involves acknowledging, rather, that "our privileges are located on the same map as their suffering", as Susan Sontag puts it. The problem of development lies as much in what we classify as wealth and how we go about promoting that as it does in poverty.

That development represents a wider set of freedoms than GNP can help us with is also important because of a paradox that Sen expresses in his Tanner lectures (pdf) of the mid-1980s: "You could be happy, without having much freedom. You could have a good deal of freedom, without achieving much." Freedom, then, is not itself free of an individual's capability or desire to use it to any particular end. Accordingly, development becomes not so much about making up for what people lack (modernisation, say) so much as removing the "unfreedoms" that stop them living in a way they might otherwise choose: market inequalities, perhaps, or state violence.

Sen's arguments stem from a commitment to the importance of individual freedoms. Not for him the wishy-washy relativism that gripped many parts of the academy in the 1990s. But not for him either the bone hard individualism of the intellectual right. This means we need to be careful in interpreting Sen. It is not so much that he supports as much individual freedom as will enable the greater good, but that he supports real, lived-in freedoms, or what are often called "capabilities": freedoms of opportunity and not just of theoretical rights.

What use are political freedoms on paper, he challenges, when in practice people are prevented from enjoying them because they also suffer "unfreedoms" of malnutrition, discrimination, or even of greater exposure to epidemiological risk and natural hazard? This claim has yet to be fully taken on board by practitioners and politicians more concerned with addressing perceived needs and the shorter-term political horizon.

Part of the reason may be because Sen has chosen not to champion his thought from the leather-bound chair of the presidency of the World Bank. If you think about what he is saying, of course, it soon becomes clear why he could never have done so. But for all that Sen has refrained from whispering in the ear of individual governments, he has nonetheless advised and shaped significantly the work of international bodies such as the UN's International Labour Organisation.

One only needs to look to the millennium development goals (MDGs) to realise this. Freedom is one of the basic values guiding the MDGs and, to that extent, Sen has given the idea of human freedom a very modern job description. But he is also aware that the challenge of reconciling freedom with economic productivity harks back to the dawn of Enlightenment political philosophy. For this reason, he has not been afraid to champion a more precise interpretation of Adam Smith's ideas about moral sentiments, even though Smith is usually held up these days, by the political left and right alike, as little more than a pro-market poster boy.

This intellectual judiciousness is central to the lessons of Sen's work. Because development is a politically charged field, not to mention an ethically imperative one, we will never resolve the fundamental challenge it poses to society unless we are prepared to do much more of this sort of work. And as Sen has made clear, resolving the challenge of development is becoming more, not less, important in a world torn between the advance of globalisation and the retreat of the political art of good judgment.