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segunda-feira, 5 de maio de 2025

GEOTA alerta para riscos ambientais em proposta do mercado voluntário de carbono


O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente – manifestou esta segunda-feira sérias reservas quanto à proposta de “Metodologia de Carbono sobre Novas Florestações”, cuja consulta pública decorreu até 25 de abril, pois, embora reconheça a importância de mecanismos que incentivem o sequestro de carbono, teme que o documento em causa acabe por viabilizar, de forma indireta, o financiamento de plantações de eucalipto, comprometendo a sustentabilidade florestal em Portugal.

Segundo o GEOTA, a proposta não estabelece limites claros à inclusão do eucalipto, permitindo a elegibilidade de todas as espécies constantes nos grupos I e II dos Programas Regionais de Ordenamento Florestal (PROF), nos quais o eucalipto se encontra. Além disso, a metodologia admite exceções, desde que devidamente justificadas e aprovadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, abrindo a porta a espécies fora dos grupos prioritários. Esta flexibilidade levanta preocupações face aos impactos já conhecidos da proliferação do eucalipto no território nacional.

Miguel Jerónimo, coordenador dos projetos Renature, considera “profundamente perverso” que o mercado voluntário de carbono possa servir de suporte financeiro a uma cultura florestal que já ocupa mais de 25% da floresta portuguesa, associada a riscos como a perda de biodiversidade, escassez hídrica e maior vulnerabilidade a incêndios. Para o GEOTA, permitir a expansão desta espécie é contrário ao espírito da proposta, que deveria contribuir para a mitigação das alterações climáticas de forma ambientalmente responsável.

A organização critica também a possibilidade de conversão de terrenos agrícolas e pastagens atualmente produtivos, alertando para os potenciais efeitos negativos na segurança alimentar e na diversidade de usos do espaço rural. Defende-se, em alternativa, que apenas solos agrícolas abandonados e sem viabilidade de recuperação produtiva sejam considerados elegíveis para florestação.

Outra falha apontada prende-se com a exclusão de áreas recentemente afetadas por incêndios, que não podem ser intervencionadas se tiverem tido presença florestal nos últimos dez anos (ou seis nas zonas prioritárias). Esta restrição, segundo o GEOTA, contraria a urgência de restaurar ecossistemas destruídos pelo fogo e enfraquece a capacidade de adaptação das florestas às alterações climáticas.

Por fim, o GEOTA contesta a possibilidade de corte de madeira durante o período de validade dos créditos de carbono, mesmo que acompanhado de replantação. Essa prática, sublinha, mina o princípio de "permanência" – essencial à credibilidade e eficácia climática do mercado de carbono – e pode colocar em causa a confiança pública e institucional neste tipo de mecanismos. A organização exige uma revisão profunda da metodologia, alinhada com os objetivos da conservação da natureza e da justiça intergeracional.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

CSDDD Datahub reveals law covers fewer than 3,400 EU-based corporate groups


Like the European Commission, SOMO has identified approximately 7,000 companies that currently meet the threshold criteria of the EU Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD). However, many of these companies are part of a corporate group containing several subsidiaries or holding companies that operate under the same umbrella. Data analysis by SOMO – based on companies’ most recent reported revenues and employee figures – shows that in practice, the CSDDD will cover only 4,280 corporate groups, of which just under 3,400 are based in the EU. For example, within these 7,000 companies, there are several corporate groups, of which over ten subsidiary companies meet the threshold criteria individually (e.g. several car manufacturers and supermarkets).

This means that the actual number of corporations that will have to implement the CSDDD is substantially lower than the European Commission’s simple count of companies would suggest. While standardised statistics on the number of corporate groups in the EU do not appear to be available, previous SOMO research showed that the CSDDD would only cover less than 0.1 per cent of all companies in the EU.

SOMO’s analysis shows that the actual coverage of the CSDDD is, in practice, even smaller. It also shows that claims about the CSDDD having an enormous impact on the EU economy simply do not match the reality of the extremely small number of companies that will be within the scope of the law. In February 2025, the European Commission is set to publish an omnibus legislative proposal to amend three key pillars of the European Green Deal: the CSDDD, the Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), and the Taxonomy Regulation. It is crucial that the Commission refrain from reinforcing false narratives about the supposed burdensome impact of the CSDDD on the EU economy as a disguise for deregulatory policies that boost corporate profits at the expense of people and the planet

Ample preparation time for companies
The CSDDD will enter into force in three phases. 31 per cent of the corporate groups SOMO has identified will have to comply with the CSDDD in 2027, followed by 18 per cent in 2028. Over 50 per cent of the corporate groups will only meet the threshold criteria in 2029, leaving them with no less than 4.5 years to prepare for compliance with the law.

CSDDD coverage: key sectors
The companies covered by the CSDDD mainly operate in the manufacturing (24.6%), services (19.1%), and wholesale and retail (16.2%) sectors. Notably, one out of every five companies that will have to comply with the CSDDD is a provider of financial services, though the holding companies of many corporate groups are included in this category. The CSDDD largely exempts financial institutions such as banks and insurers from the obligation to conduct due diligence on adverse impacts associated with their investments and financial services, which makes the total number of corporate groups directly affected by the CSDDD’s obligations even smaller in practice.

Breaking down barriers: access to information and corporate accountability
In countries that already have corporate accountability legislation in place, not knowing which companies fall within the scope of the law has been a crippling obstacle for civil society and workers to effectively hold companies to account for their impacts on human rights, the environment, and the climate. The purpose of SOMO’s CSDDD Datahub is to break down this barrier and make it possible to identify whether companies, suppliers, or buyers can be held accountable under the CSDDD.

About SOMO’s CSDDD Datahub
SOMO has compiled the Datahub based on data from Moody’s Orbis, supplemented with data from the LSEG Workspace and Company.info databases, national business registries, and the annual accounts and websites of companies. The Orbis database was also used by the European Commission and Wageningen University & Research to map companies covered by the CSDDD. While SOMO has aimed to ensure the Datahub is as complete and accurate as possible, these data sources have their limitations. In particular with regard to non-EU companies, the list is incomplete. SOMO is planning to update the CSDDD Datahub on a regular basis.

SOMO also provides pro bono research to activists, communities, trade unions, journalists, and others on corporate structures and supply chains through The Counter.

domingo, 24 de março de 2024

Ponto de situação da Energia Nuclear no Mundo


Europa, EUA e China
Numa cimeira internacional sobre energia nuclear que decorreu durante um dia em Bruxelas, na Bélgica, 34 nações apoiaram uma declaração de apoio à energia nuclear. Os países apelam aos reguladores para que desbloqueiem totalmente o potencial da energia nuclear, numa declaração que tinha como principal objetivo atrair o apoio dos bancos de desenvolvimento para financiar a sua instalação e manutenção. Além de se comprometerem com a construção de novas centrais nucleares em geral, a declaração também defende a rápida implantação de reatores avançados, incluindo pequenos reatores modulares, em todo o mundo. No entanto, acrescenta que, na Europa, ainda existem alguns países, como a Alemanha e a Áustria, que se opõem ao nuclear e querem que o investimento em energia com baixo teor de carbono se concentre nas energias renováveis. Fontes: AP, Euronews e Reuters.

Alemanha
Um estudo encomendado pelo Serviço Federal Alemão para a Segurança da Gestão dos Resíduos Nucleares, examinou os vários tipos de reatores nucleares em desenvolvimento no mundo, analisando a sua economia, segurança e potencial de resíduos radioativos e conclui que os problemas conhecidos da tecnologia nuclear não são susceptíveis de serem resolvidos pelos novos tipos de reatores. No entanto, políticos dos partidos União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU) e Partido Democrata Livre (FDP) propuseram recentemente o relançamento da energia nuclear. Martin Schlak, Der Spiegel.

Austrália
O Dr. Alan Finkel, presidente do Centro de Excelência ARC para a Biotecnologia Quântica da Universidade de Queensland e antigo cientista-chefe da Austrália, explica que, apesar das recentes posturas políticas na Austrália, o país não está prestes a assistir a um aumento dramático da energia nuclear. "Embora a energia nuclear possa ressurgir a nível mundial e vir a ter um papel na Austrália, neste momento, por muita intenção que haja de ativar uma indústria de energia nuclear, é difícil de prever antes de 2040", afirma. Finkel atribui esta situação aos custos elevados e aos prazos longos, salientando que a Austrália é a única nação do G20 a ter uma proibição legislativa da energia nuclear, que teria de ser levantada antes de se poderem construir reatores. A nação também estaria a começar do zero e é "improvável que a Austrália passe de retardatária a líder", salienta. Finkel afirma que a energia eólica e solar devem ser a prioridade na Austrália e que "qualquer apelo para passar diretamente do carvão para o nuclear é efetivamente um apelo para atrasar a descarbonização do nosso sistema de eletricidade em 20 anos".

quinta-feira, 21 de março de 2024

Energia nuclear para descarbonização da Europa é desnecessária


O prolongamento da vida útil da energia nuclear na Europa é desnecessário para a descarbonização, indica um relatório do Gabinete Europeu do Ambiente (EEB, na sigla original), ontem divulgado.

Segundo as conclusões do EEB, que junta 180 associações ambientalistas de 38 países, as energias renováveis, a poupança de energia e opções de flexibilidade podem substituir a energia nuclear, sendo viável a eliminação gradual da “frota nuclear envelhecida da Europa e alcançar a neutralidade carbónica até 2040”.

O relatório é divulgado na véspera de uma cimeira em Bruxelas sobre energia nuclear, que junta dirigentes políticos e empresas, para debater o papel da energia nuclear na redução dos combustíveis fósseis, aumentando a segurança energética e o desenvolvimento económico.

A cimeira será copresidida pelo primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, e pelo diretor-geral da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi e surge na sequência da inclusão do nuclear na declaração da cimeira da ONU sobre o ambiente que decorreu no final do ano passado no Dubai (COP28), admitindo a energia nuclear como fonte de energia com baixas emissões de dióxido de carbono.

No entanto, de acordo com o relatório do EEB, a construção de novas centrais nucleares é “uma estratégia irrealista para a descarbonização”.

Porque tem custos muito elevados e a construção é demorada está também em debate o prolongamento da vida das atuais centrais nucleares, algo que o relatório do EEB também contraria.

O documento mostra “que a atual frota nuclear pode ser eliminada gradualmente, a par dos combustíveis fósseis, à medida que os países da União Europeia (UE) transitam para um sistema energético drasticamente mais eficiente, alimentado por energias renováveis e apoiado por opções de flexibilidade”.

“À medida que as energias renováveis crescem e a procura de energia diminui, o papel da energia nuclear na Europa torna-se redundante. Veja-se o caso de Espanha, onde o aumento da energia eólica, solar e hídrica fez baixar os preços da eletricidade e obrigou as empresas de energia a suspender a energia nuclear para evitar perdas financeiras”, acrescenta.

O EEB salienta que a frota nuclear da UE está envelhecida, que todas as centrais, exceto duas, foram construídas antes de 2000, e que sem extensões de prazo a maioria das centrais deve encerrar até 2030. Segundo o organismo europeu, a contribuição da energia nuclear para o cabaz elétrico está em declínio na UE e os custos a aumentar.

O relatório conclui que os esforços de descarbonização dos Estados membros da UE devem dar prioridade à redução do consumo de energia na indústria, nos edifícios e nos transportes, ao mesmo tempo que aumentam a implantação das energias renováveis.

Por causa da cimeira, uma coligação internacional de ativistas vai organizar uma manifestação de protesto em Bruxelas. A organização ambientalista Greenpeace UE diz em comunicado que os ativistas protestam contra o que consideram “contos de fadas nucleares”.

Esta semana, mais de 500 organizações de todo o mundo assinaram uma declaração anti-nuclear, defendendo “energia segura, acessível e amiga do clima para todos”, e apelando aos governos para que não desperdicem tempo e dinheiro com esses “contos de fadas”.

Outra organização ambientalista, que junta associações europeias, a “Climate Action Network” (CAN Europe) apresenta também um documento segundo o qual a energia nuclear é “uma perigosa distração” da transição para um sistema energético baseado em energias renováveis, “e ameaça atrasar a urgente eliminação progressiva dos combustíveis fósseis”.

“Vemos com crescente preocupação o renascimento da energia nuclear”, diz Thomas Lewis, da CAN Europe, frisando que as energias renováveis são o substituto mais barato, mais rápido e mais viável para os combustíveis fósseis.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Que Fazer Com as Árvores – Madeira ou Créditos de Carbono?


A procura de créditos de carbono tornou as florestas mais atrativas para os investidores. Os gestores de investimentos que adquiriram terrenos florestais estão a analisar árvore a árvore para saber se devem ser abatidas para a produção de madeira ou mantidas para a produção de créditos de carbono.

A procura crescente de créditos significa que o investimento em florestas não se resume à produção de madeira, mas pode ser necessário muito trabalho para determinar o papel que cada árvore deve desempenhar numa carteira, bem como para garantir que está a cumprir os benefícios ambientais prometidos se for mantida de pé. Quando se investe numa floresta, a pergunta que fazemos é: "Como é que se gerem os produtos de madeira versus o carbono?", diz Brian Kernohan, diretor de sustentabilidade, mercados privados, na Manulife Investment Management. "A resposta para nós é: 'O que é que os nossos clientes querem?

A Manulife, que tem 5,4 milhões de acres de floresta na sua carteira de investimentos, calcula o valor de cada árvore para informar a sua estratégia de colheita. Cada árvore de uma floresta tem de ser avaliada com base nas taxas de crescimento das espécies e no valor do produto. Se o valor do crédito de carbono for suficientemente elevado, a árvore mantém-se, mesmo que seja apenas por mais alguns anos. Se não for, é cortada para a produção de madeira. As árvores de folha larga, por exemplo, são melhores para o sequestro de carbono, mas demoram mais tempo a crescer, criando até 500 a 600 créditos por hectare, mas levando mais de 100 anos a atingir a maturidade. As árvores coníferas, por outro lado, criam metade do número de créditos por hectare, mas demoram apenas 35 a 40 anos a atingir a maturidade, o que as pode tornar mais úteis para atingir mais rapidamente as emissões líquidas nulas.

Kernohan afirma que, até há pouco tempo, os terrenos florestais não eram suficientemente valiosos para se considerar que valia a pena investir apenas no sequestro de carbono. "Agora podemos perceber esse valor", diz ele.

O mercado voluntário de créditos de carbono poderá valer 40 mil milhões de dólares até 2030, contra 2 mil milhões de dólares em 2021, de acordo com um relatório do Boston Consulting Group e da Shell. Este mercado oferece uma forma de as empresas ajudarem a anular as emissões de carbono que produzem nas suas operações e pode ser especialmente útil para as empresas de sectores difíceis de eliminar, como a produção de energia e a indústria pesada.

A procura de créditos de carbono tem crescido rapidamente, tanto nos EUA como no estrangeiro, mas nos últimos anos começou a abrandar depois de terem sido levantadas questões sobre se os projetos estão a cumprir o que prometem. Uma investigação levada a cabo em 2023 pelo jornal britânico The Guardian, pelo semanário alemão Die Zeit e pela Source Material, uma organização jornalística sem fins lucrativos, revelou que muitos dos créditos de carbono certificados que são comprados e vendidos não representam, de facto, reduções genuínas das emissões de carbono.

"O problema de todo o mercado é a diversidade dos tipos de créditos e das metodologias utilizadas para os calcular", afirma Tom Frith, gestor de investimentos da JustCarbon, uma empresa de financiamento de projetos de créditos de carbono. "Para uma empresa, é muito mais fácil pensar na compra de créditos de carbono como um investimento num projeto individual do que num produto uniforme".

Há diferentes tipos de créditos de carbono. Os créditos de remoção, por exemplo, são gerados pela quantidade de dióxido de carbono que uma empresa remove da atmosfera e são vistos como mais valiosos porque a tonelagem de carbono pode ser calculada mais facilmente. Entretanto, os créditos de evitação podem ser mais difíceis de calcular com precisão, uma vez que são gerados através de uma atividade que não se realiza - por exemplo, não cortar uma árvore. As iniciativas de plantação de árvores também geram créditos de remoção porque removem carbono através da fotossíntese.

Fonte: WSJ

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O dinheiro que mantém o petróleo fluindo


Um estudo interessante do Project Drawdown revela que muitos bancos utilizam o dinheiro que os seus clientes mantêm nas suas contas para fornecer financiamento à indústria dos combustíveis fósseis , e que isto cria uma pegada de carbono que poderia ser evitada simplesmente exigindo que o seu banco não financiasse a indústria. que provoca a emergência climática – ou, se não lhe oferecer informações ou soluções, mudar de banco.

Nós, cidadãos, deveríamos calcular não só a pegada de carbono derivada do nosso consumo, mas também a gerada pelo nosso dinheiro quando este é utilizado para financiar o investimento ou as necessidades de capital de giro destas indústrias: exigir que os nossos bancos sejam transparentes na gestão do nosso próprio dinheiro é algo que devemos considerar como puro bom senso, especialmente se também sentirmos que esse dinheiro está a ser utilizado para atividades que contribuem para nos prejudicar ao aumentar o impacto da emergência climática, o que acaba por se refletir em catástrofes ambientais mais frequentes que causam fortes impactos em nosso património ou em nossas vidas.

De acordo com o estudo, os bancos que mais financiam a indústria dos combustíveis fósseis tendem a ser os maiores, e não os locais. Mas num momento como este, depois de uma COP28 profundamente hipócrita realizada num petroestado e em cuja declaração final não houve nenhuma referência minimamente séria ao fim dos combustíveis fósseis, nós, cidadãos, deveríamos exercer pressão para que os bancos onde depositamos o nosso dinheiro não não o utilizou para financiar quem realiza essas atividades. A redução do financiamento à indústria petrolífera seria, juntamente com a redução dos subsídios governamentais indecentes , uma das formas mais eficientes de reduzir a produção de combustíveis fósseis e fazê-los perceber a necessidade de mudar. Os bancos geralmente fornecem mais financiamento a esta indústria prejudicial do que dedicam às energias sustentáveis ​​ou alternativas .

É cada vez mais importante que a indústria dos combustíveis fósseis seja pressionada a partir de todas as frentes possíveis, incluindo, claro, a financeira: na medida do possível, temos de transformar a indústria dos combustíveis fósseis em verdadeiros párias de quem ninguém quer aproximar-se. Não pense que só influenciam as decisões de bilionários e magnatas com muito dinheiro: qualquer valor depositado numa conta é importante e, como cliente, você merece que seu banco lhe informe sobre o destino do seu capital de giro e sobre as empresas para o qual financiam. Se os bancos virem um risco real de perder depósitos porque fornecem financiamento à indústria dos combustíveis fósseis, poderão repensar esses investimentos, reduzindo assim a capacidade dessa indústria de continuar a aumentar a sua produção.

Já vi grandes mudanças começarem com coisas muito menores.

domingo, 9 de julho de 2023

A política monetária do BCE não é verde


Christine Lagarde culpou os salários pela inflação. A sua afirmação é sintomática de uma política monetária assente na combinação perniciosa de taxas de juro elevadas e de compressão salarial. Não se espera que o BCE resolva a crise climática, mas sem um banco central alinhado com o investimento público e privado no sistema energético, a transição dificilmente vai acontecer.

No final da semana passada, o Ministério do Ambiente e da Ação Climática (MAAC) publicou a primeira versão da revisão do Plano Nacional Energia e Clima 2021-2030 (PNEC 2030), o principal instrumento de política energética e climática para esta década. O documento, que terá de ser avaliado pela Comissão Europeia e posteriormente alterado em função dessas recomendações, fixa em 85% a meta de incorporação de energias renováveis na produção de eletricidade em 2030 (o objetivo inicial era de 80%).

O governo pretende duplicar a capacidade instalada de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis até ao final da década. O maior crescimento virá do solar fotovoltaico (centralizado e descentralizado): Portugal tem, atualmente, 2,6 GW em operação, o objetivo para 2030 é de 20,4 GW (14, 9 GW de produção centralizada e 5,5 GW de produção descentralizada) – esta meta duplica os valores previstos na versão prévia, aprovada em 2020. De acordo com o comunicado do governo, a estratégia de transição energética representa um investimento de 75 mil milhões de euros em projetos de produção de energia verde (eletricidade e gases renováveis, como o hidrogénio verde e o biometano).

Também na semana passada, Christine Lagarde, aquando da sua participação no Fórum do Banco Central Europeu (BCE) que decorreu em Sintra, atribuiu à recuperação dos salários reais (não do seu, evidentemente) a responsabilidade pela eventual persistência da inflação acima dos valores considerados adequados pelo BCE. Mais do que declarações polémicas que “incendiaram” as redes sociais, as afirmações erróneas de Christine Lagarde são sintomáticas de uma política monetária, assente na combinação perniciosa de taxas de juro elevadas e de compressão salarial, que poderá condenar a transição energética ao fracasso.

Não se espera, obviamente, que o BCE resolva a crise climática, mas sem um Banco Central alinhado com o avultado investimento público e privado no sistema energético, a transição dificilmente ocorrerá. Ao elevar os custos de investimento, através das suas medidas, esta instituição influencia, necessariamente, as opções de política climática e energética. Com efeito, as energias renováveis exigem investimentos iniciais substanciais e são sensíveis à deterioração das condições de financiamento e ao aumento das taxas de juro.

Como exemplificam Philipp Heimberger e Lea Steininger, enquanto uma central termoelétrica alimentada a gás natural pode utilizar as suas receitas presentes para pagar novos combustíveis, um projeto de energias renováveis de grande escala, como um parque eólico offshore, ou até mesmo uma central de hidrogénio verde ou uma mega central fotovoltaica, utiliza as receitas presentes para pagar o serviço da dívida contraída para despesas de capital. Deste modo, quanto mais elevado for o custo do capital, menos atrativo é o investimento neste tipo de projetos.

Por conseguinte, taxas de juro elevadas poderão impedir investimentos urgentes para atenuar a crise climática e realizar a transição energética. Além disso, a concomitante compressão salarial impede qualquer tipo de justiça social ao longo deste processo, esvaziando o slogan da Comissão Europeia de “não deixar ninguém para trás”. Não esqueçamos: fim do mundo, fim do mês, a mesma luta.

As políticas climáticas e energéticas deverão ser conduzidas à escala nacional, por representantes políticos democraticamente eleitos. Os investimentos têm de ser impulsionados pelo Estado através de instrumentos de planeamento robustos e investimento público em energias renováveis, na modernização da rede elétrica, na eletrificação da ferrovia e dos transportes públicos rodoviários, ou ainda na reabilitação e renovação energética do edificado. Isto exige um Banco Central subordinado às prioridades orçamentais democráticas, não impondo restrições financeiras.

O agora ex-editor de energia do insuspeito Financial Times é perentório: “o capitalismo não conseguirá concretizar a transição energética com a rapidez necessária”. Terão de ser os governos a liderar este novo “Plano Marshall”, acrescenta, o que implicará incorrer em “défices orçamentais significativos”.

Com a sua política, o BCE e as restantes instituições europeias são parte do problema social e ecológico. A análise e a solução têm mesmo de ser sistémicas. Nenhum tema, incluindo a moeda, pode ficar de fora da solução ecossocialista.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Relatório "Germany’s great hydrogen race" - Hidrogénio: será mesmo "verde"?


Durante anos, a Alemanha tem feito do hidrogénio a peça central de uma economia neutra para o clima e a UE tem acolhido de braços abertos este alegado "gás milagroso". O papel influente da Alemanha na definição da agenda da UE contribuiu para o hidrogénio estar agora no centro das políticas climática e industrial da UE, e Bruxelas planeia gastar milhares de milhões em subsídios públicos para estimular o setor europeu do hidrogénio.
Este endeusamento ignora vários factos sujos. Em primeiro lugar, 99% do hidrogénio atualmente produzido a nível mundial é hidrogénio "cinzento" feito a partir de combustíveis fósseis, com emissões anuais de CO2 superiores às de toda a Alemanha. Segundo, o hidrogénio 'azul' à base de fósseis, que está a ser promovido como uma alternativa 'com baixo teor de carbono', tem uma pegada climática que é quase tão má quando as suas emissões totais são tidas em conta. Finalmente, mesmo o hidrogénio "verde", considerado "livre de carbono" mas representando apenas 0,04 por cento da produção global de hidrogénio em 2021, vem com sérios desafios e riscos. É ineficiente em termos energéticos, comporta-se como um potente gás com efeito de estufa indireto, e a produção em grande escala exige grandes quantidades de terra, água e energia renovável. A sua produção pode alimentar o "green grabbing" - a apropriação de terras e recursos para fins ambientais. Uma procura inflacionada de hidrogénio está a ser utilizada como um cavalo de Tróia para prolongar a utilização de combustíveis fósseis.
Os projetos de hidrogénio verde apoiados pela Alemanha no estrangeiro seguem padrões coloniais. Os recursos são apropriados enquanto impactos negativos como os danos ecológicos e a escassez de energia são convenientemente externalizados. Os conflitos sobre o uso da terra e da água já estão à vista e podem intensificar-se nos próximos anos. Há também preocupações sobre a subsistência das comunidades piscatórias em resultado dos mega-portos e outras infra-estruturas de exportação, bem como a poluição causada pelos resíduos das fábricas de dessalinização que são necessárias para obter água para a produção de hidrogénio verde em regiões áridas.
Um exemplo chocante de violações dos direitos humanos relacionadas com projetos de hidrogénio verde é Neom, a megacidade da Arábia Saudita, onde o Thyssenkrupp irá instalar um enorme electrolisador para produzir hidrogénio para exportação. Tribos antigas foram expulsas das suas terras à força para dar lugar a Neom. Vários manifestantes foram condenados à morte por causa da sua resistência ao despejo, e um deles foi morto a tiro pelas forças de segurança em abril de 2020.
Os projectos de hidrogénio no Sul Global tendem a ser mega projetos centralizados e carecem de participação cívica. Um mapeamento de 27 países maioritariamente africanos não conseguiu identificar um único projeto de hidrogénio em que a comunidade tenha sido consultada antes da decisão de avançar com o projecto. É provável que um pequeno grupo de elite política e económica lucre com estes processos de cima para baixo.
O iminente colonialismo de hidrogénio na UE e na Alemanha não cumpre a sua promessa principal: ajudar a enfrentar a crise climática. Em vez disso, há um risco real de a corrida ao hidrogénio atrasar a ação para descarbonizar estruturalmente a economia: por exemplo, aumentar a eficiência energética dos edifícios (em vez de aquecer ineficientemente as casas com hidrogénio), fazer a transição para a agricultura agro-ecológica (em vez de apenas tornar verdes os fertilizantes sintéticos) e reduzir o tráfego (em vez de desperdiçar energia em carros movidos a hidrogénio).
Relatório completo aqui 

sábado, 8 de abril de 2023

Coligação C6 manifesta posição contra a Barragem do Pisão


As Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) que integram a Coligação C6, participaram na Consulta Pública do Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE) das Infraestruturas Primárias do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato, mais conhecida como Barragem do Pisão, tendo apelado à desconformidade do projeto.

O projeto do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato (AHFM do Crato) foi alvo de Avaliação de Impacte Ambiental em Fase de Estudo Prévio, tendo obtido a 1 de setembro de 2022, a Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável à execução da Alternativa 2 do projeto e condicionada ao cumprimento dos termos e condições referidos na Declaração.

O projeto AHFM do Crato foi aprovado no âmbito do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR), de acordo com o Regulamento (UE) 2021/241 do Parlamento Europeu e do Conselho de 12 de fevereiro de 2021, para financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), previamente à decisão em sede de Avaliação de Impacte Ambiental.

“O mecanismo deverá apoiar atividades que respeitem plenamente as normas e as prioridades em matéria de clima e de ambiente da União e o princípio de «não prejudicar significativamente»” ("Do No Significant Harm", DNSH), critério necessário para ter acesso aos fundos europeu e que considera que «não prejudicar significativamente» se refere a não apoiar nem realizar atividades económicas que prejudiquem significativamente os objetivos ambientais, na aceção do artigo 17º do Regulamento (UE) 2020/852 (ponto 6 do artigo nº 2 do Regulamento).

De facto, os impactes estimados, seja ao nível dos ecossistemas, da biodiversidade ou decorrentes da intensificação do modelo agrícola ao nível regional, apenas se revelaram de forma mais aprofundada após a publicação do Estudo de Impacte Ambiental (EIA). Acresce que a avaliação subjacente ao princípio de DNSH deve implicar uma análise do projeto com a Alternativa Zero (manutenção da situação existente). Uma lógica comparativa que não foi clara, ou sequer suficiente, no EIA apresentado. Neste sentido, a C6 considera que é necessário realizar uma nova avaliação do princípio de DNSH, cumprindo todos os critérios e considerando os impactes previstos pelo EIA.

Apesar das muitas incertezas e contestação pública ao projeto pelas ONGA e cidadãos, a 26 de setembro de 2022, o Decreto-Lei n.º 62/2022 constituiu o AHFM do Crato, classificando-o como empreendimento de interesse público nacional e adotando medidas excecionais para a sua concretização no prazo de vigência do PRR.

A C6 considera que a construção da Barragem do Pisão põe em causa os interesses da União Europeia, absorvendo os seus próprios fundos num projeto que não respeita as suas estratégias e legislação, como a Estratégia da Biodiversidade (nomeadamente o restabelecimento de 25.000 km de rios livres na Europa) incluídas no Pacto Ecológico Europeu, a Diretiva Quadro da Água, a proposta de Lei de Restauro e o Regulamento (UE) 2021/241, pelo que urge ser travada.

Face ao exposto, por não se verificar conformidade do projeto de execução com o princípio de DNSH, e por estar em causa a salvaguarda de um conjunto de valores naturais e ecológicos de grande importância no contexto regional, nacional e internacional, esta coligação de ONGA (ANP|WWF, FAPAS, GEOTA, LPN, Quercus e SPEA) veio requerer à Agência Portuguesa do Ambiente, Autoridade deste procedimento de AIA, a emissão de Decisão sobre a Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (DCAPE) desconforme, determinando assim o indeferimento liminar do pedido de avaliação e a consequente extinção do procedimento.
Ler mais:
Associação Zero contra construção da Barragem do Pisão no distrito de Portalegre

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

The science is clear: We need an ambitious, undelayed pesticides regulation


More than 700 other scientists from across European member states and scientific disciplines have deep concern about the recent turn of the political tide against the Sustainable Use of Pesticides Regulation, writes Jeroen Candel.

Jeroen Candel is an associate professor teaching food politics and European Union governance at Wageningen University and Research.

The heavy use of chemical pesticides in agriculture is strongly linked to declines in insects, birds, biodiversity in terrestrial and aquatic systems, and detrimental impacts on global public health.

Given the urgent need for mitigating these impacts, it is worrying to observe that a number of member state governments and MEPs have recently called for the delay or watering down of the new pesticides regulation.

Citing questionable ‘food security’ and ‘resilience’ concerns that echo the discourse of vested interests, politicians have called for an additional impact assessment to the thorough assessment performed by the Commission before the outbreak of the Ukraine war.

Let me be very clear: there is not a single, serious scientist in the field who would argue that the pesticides regulation would pose a risk to European food security.

Quite the contrary, there is a high degree of consensus that the rapid loss of biodiversity, together with climate change, constitutes the biggest threat to the sustainability and resilience of our food system, as once more corroborated by the European Commission’s recent staff working document on the drivers of food security.

It is precisely for this reason that both European citizens and scientists have high expectations of European political leadership.

It is highly questionable, whether the required additions to the thorough Impact Assessment performed by the European Commission would result in a gain in knowledge, as the long-term challenges facing the EU food system and state of biodiversity have not changed since the outbreak of the war in Ukraine.

Perhaps the unstable geopolitical environment has made these challenges and the need to act even more urgent. The time to act is now.

And, of course, new legislation will have an impact on the industry and at farm level. It is precisely the point of green legislation to steer the market away from unsustainable business models and production methods, while fostering a scale-up and cost reductions of cleaner alternatives.

A lack of binding targets is exactly the reason why investments in Integrated Pest Management have lagged behind since the adoption of the 2009 Pesticides Directive.

The adoption of binding targets and a reallocation of public resources, including CAP funds, is expected to accelerate innovation of non-hazardous pesticide alternatives.

Steering our agri-food system towards more sustainable outcomes is no easy political task. Transition processes are non-linear, uncertain and disruptive by definition, which make that current modes of impact assessment have limited predictive value.

Tomorrow’s solutions are not yet known today.

At the same time, the history of the European economy, including the agricultural sector, teaches us that disruptive innovation is possible, and can benefit both the economy and society at large, when politicians dare to take the leap and show seamanship.

When drafting the first European agricultural policy, Commissioner Sicco Mansholt aimed for a radical overhaul of the European agricultural sector, but even he may not have foreseen the sheer force of innovation that clear and consistent, long-term regulation and supportive incentives may bring about.

At the end of his political career, however, he also saw the downsides of the agricultural system that he helped to create. Already 50 years ago, he called for a transition toward “a production system without pollution and the development of a circular process”.

It is now up to EU political leaders to finally pick up on Mansholt’s calls and use their political craftsmanship to realize a truly green revolution of the European food system.

The undelayed realisation of the Farm to Fork and Biodiversity Strategies’ pesticides reduction objectives would be a crucial first step in that direction.

As scientific community, we will follow the legislative process with great interest, and we stand ready to provide you with advice where and when necessary.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Webinar “Queimar árvores. Uma (falsa) solução climática?”


Num cenário de crise climática à qual se junta uma crise energética, a biomassa é uma aposta da UE, alegadamente porque é renovável e neutra em carbono. Mas a queima de árvores para energia prejudica o clima, a biodiversidade e a qualidade do ar, custando milhares de milhões de euros, e ameaça a indústria da madeira que é responsável por produtos de valor acrescentado que permitem o sequestro de carbono a longo prazo.
Se por um lado, é importante reduzir a utilização de combustíveis fósseis, também não deixa de ser verdade que a floresta é um dos principais aliados no combate às alterações climáticas com o sequestro de carbono. Desde 2002, quando a UE promoveu pela primeira vez a queima de madeira para produção de eletricidade “renovável”, perdeu 25% da sua capacidade de sumidouro de carbono.
Quando se fala em floresta, e na sua utilização para produção de energia, são muitas as interrogações e preocupações.

No passado dia 14 de dezembro, entre as 18h00 e as 19h30, no webinar “Queimar árvores. Uma (falsa) solução climática?” discutiu-se a temática, dando a conhecer um pouco do que se passa em Portugal. Como convidados:

Paulo Pimenta de Castro, Acréscimo
(In)sustentabilidade na floresta Portuguesa.

Oliver Munnion, Biofuelwatch
Troncos não são resíduos. Os números não mentem.

Fernanda Gonçalves, Associação de Moradores do Sítio da Gramenesa 
Viver ao lado de uma central de biomassa é um Inferno!

Esta iniciativa foi uma parceria entre a ZERO, a Acréscimo e a Biofuelwatch.

Ambientalistas exigem moratória “imediata” à produção elétrica a partir de biomassa e apontam impactos

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Passadiços do Mondego, Tua e Oleiros

Vale do Tua, Murça- Portugal

O que eu desunhei para obter esta foto. O wilderness / selvagem puro no nosso País está um caos. Dantes eram as eólicas e eu evitava as fotos que incluíam eólicas. Agora é a praga dos passadiços. Estão por todo o lado. Imaginem no coração da Beira Baixa, em pleno Geoparque Naturtejo, esconde-se mais um passadiço que veio aumentar a já longa lista de percursos deste género em Portugal: os passadiços do Orvalho, no concelho de Oleiros. Já fiz esta região sem passadiços. É dura, bela, longa e fantástica. Para quê "passadiços"? Até em Murça!!

E a moda dos passadiços não para; agora foi a própria Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, que foi inaugurar os 4 milhões de euros e doze quilómetros dos passadiços do Mondego, equipamento que, segundo o autarca da Guarda, “vai dar a conhecer a serra da Estrela como os visitantes “nunca a viram” (deve-se referir à serra depois de queimada...) e vai dinamizar a economia local da região Centro, até porque estamos perante um projeto de interesse turístico internacional” que incluí “três pontes suspensas de cortar a respiração”... (Em Morbi, na Índia, uma ponte suspensa, objeto de obras de recuperação, reaberta ao público cinco dias antes, desabou no mês passado e cortou, a 137 pessoas, muito mais que a respiração, cortou a vida... longe vá o agoiro).

Qual o interesse internacional deste percurso, numa Europa cheia de percursos pedonais, bem projetados, marcados e sinalizados, mas aproveitando caminhos antigos e não caminhos de tábuas de pinho que apodrecem em dez anos! Que é que isto tem a ver com “coesão territorial”?

É “coesão territorial” devassar e degradar o território? Se calhar é, pois como a maioria do país já está degradado, degradar o que ainda não está dá coesão ao território! Mas, pasme-se, estes passadiços foram cofinanciados a 80% pelo FEDER, ignorando o princípio comunitário do “Do No Significant Harm” (Não Prejudicar Significativamente o ambiente, que determina que os projetos ao abrigo do financiamento europeu não devem causar danos significativos a nenhum dos seis objetivos ambientais definidos no Regulamento de Taxonomia da UE.).

Na Áustria onde estive há pouco tempo, só me chocou uma paisagem plana cortada por enormes torres eólicas. Mas passadiços, não vi. 

Shafelberg - Austria

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Petição - Vamos acabar com a evasão fiscal!



Exijamos um sistema tributário mais justo em que empresas e grandes fortunas paguem a sua parte justa.
Os governos e as instituições da União Europeia devem ter a capacidade de coletar e disponibilizar publicamente dados importantes sobre grandes empresas para garantir a transparência do sistema. A Diretiva de Combate ao Branqueamento de Capitais deve permitir à UE prevenir a evasão fiscal e alargar os registos públicos para abranger também os fundos fiduciários e outras estruturas semelhantes e mostrar a lista completa dos beneficiários efetivos das empresas. Esses documentos teriam que estar disponíveis para quem quiser vê-los e incluir todos os beneficiários efetivos, diminuindo o limite de registos obrigatórios.

Porque é importante
Num contexto em que as pessoas comuns se vêem com dificuldades e querem  enfrentar o aumento do custo de vida , da alimentação e o consumo de energia, os nossos governos limitam-se a repetir que não há dinheiro para resolver o problema ou financiar o transporte público, a rede de saúde ou as medidas para proteger o meio ambiente de que tanto precisamos. Ao mesmo tempo, porém, perdemos biliões de euros por ano porque as grandes fortunas e multinacionais não pagam sua parte justa [1]. Resumindo: as contas não batem.

Para ter um sistema justo, devemos saber quanto cada pessoa realmente ganha. Temos a legislação necessária para garantir que ninguém possa esconder sua riqueza [2], mas hoje existem muitas maneiras de fazê-lo que não estão incluídas nestes regulamentos.

Apenas alguns meses atrás, um grupo de jornalistas descobriu que um banco suíço estava a ajudar criminosos, ditaduras e outra parte de sua clientela a esconder grandes quantias de dinheiro das autoridades fiscais por meio de fundos [3].

Isso mostra mais uma vez que é muito fácil manipular o sistema e que precisamos de uma legislação mais forte.

Aqueles que nos governam em toda a Europa devem encontrar dinheiro para enfrentar a crise inflacionária que enfrentamos e estão procurando uma solução. Para nossa comunidade, a resposta é óbvia.

Em algumas semanas, eles poderão decidir se tornamos muito mais difícil para grandes fortunas e multinacionais esconderem seu dinheiro [4]. Sabemos que o resultado será muito apertado: algumas das pessoas que nos representam ainda não estão claras sobre sua decisão.

Ainda temos a oportunidade de inclinar a balança a nosso favor antes da votação, para que eles lutem por um sistema tributário mais justo em que ninguém possa esconder sua riqueza: basta mostrar a eles que é uma questão que nos preocupa. Deixe-os saber que temos o seu apoio para que todos paguem a sua parte justa na Europa.

Assina e divulga. Obrigado

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Cidades norte-americanas e europeias lideram luta para a neutralidade carbónica


As cidades europeias e as norte-americanas são as que mais contribuem para alcançar as metas de neutralidade carbónica, indica o estudo Savills Impacts 2022. Os dados mostram que estas lideram o ranking na luta contra as zero emissões de carbono com 38%, em comparação com 18% na América Latina, 17% na África Subsaariana, 14% na região Ásia-Pacífico e 4% no Médio Oriente e no Norte de África.

As cidades têm um papel imprescindível na luta contra as alterações climáticas, afinal, são onde se concentram grande parte das emissões de gases com efeito de estufa (+60%), e onde se estima que a maior parte da população mundial vá viver nas próximas décadas.

A cidade de Nova Iorque, por exemplo, continuou empenhada nos princípios do Acordo de Paris quando os Estados Unidos se retiraram em 2017. Por outro lado, o Conselho Municipal de Barcelona aprovou um plano ambicioso para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa da cidade em 45% até 2030, quatro anos antes do congresso espanhol ter aprovado o roteiro global do país para a neutralidade de carbono. Mais perto, em 2018, Lisboa foi eleita Capital Verde Europeia 2020, como forma de distinção do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido. Até 2030, a capital tem o compromisso de reduzir em 70% as emissões de gases com efeito de estufa comparativamente aos valores de 2002.

O mercado imobiliário tem um peso nesta questão. O setor é responsável por 40% das emissões globais de gases com efeito de estufa e é, portanto, uma área de atividade importante a considerar pelas cidades ao planearem as suas estratégias de sustentabilidade.

Como demonstra o relatório, em mercados imobiliários menos maduros, nomeadamente no Médio Oriente, África e Índia, existe potencial para desenvolver novas ações compatíveis com o ambiente. No entanto, os mercados imobiliários maduros devem concentrar-se na readaptação. Este desafio é particularmente urgente na Europa, que apresenta uma taxa de apenas 1-2% de novas construções, resultando na necessidade de atualizar o stock histórico de edifícios. Os governos locais e nacionais devem trabalhar em conjunto com organizações comerciais e cidadãos para desenvolver estratégias coesas de redução de emissões que possam ser implementadas em todos os níveis da sociedade. A construção estará, portanto, na vanguarda desta revolução dos edifícios verdes, com a Oxford Economics a sugerir que o resultado da construção a nível global poderá atingir os 15,2 biliões de dólares até 2030, um aumento de 42% em relação a 2020.

“É necessário acelerar a descarbonização das carteiras imobiliárias sob a ameaça das alterações de climáticas, pressão de novas regulamentações e taxas, bem como acesso aos financiamentos ‘green’ cumprindo com os critérios definidos pela EU Taxonomy”, refere Nuno Fideles, Associate Architect & Sustainability Consultant BREEAM AP da Savills Portugal.

Acrescenta ainda que, “em toda a Europa, a procura de edifícios verdes por parte dos inquilinos levou a um aumento da atividade de desenvolvimento de escritórios, tendo o development pipeline em 2021 aumentado em 24%. A descarbonização de edifícios já está a ser impulsionada por mais proprietários, investidores imobiliários e empresas, não apenas para ajudar a arrefecer um planeta em aquecimento, mas também porque o seu próprio sucesso depende disso”, assegura.

Saber mais:

sexta-feira, 29 de abril de 2022

6 reasons why nuclear energy is not the way to a green and peaceful world



Demolition of the two cooling towers of the Philippsburg nuclear power plant near the river Rhine. The site of the now decommissioned Philippsburg Nuclear Power Plant is located in Philippsburg, near Karlsruhe, Germany. © Bernd Hartung / Greenpeace

Nuclear power is often hailed as a magic bullet solution for the rapid and large-scale decarbonisation of our societies which we all know needs to happen if we have any hope of mitigating the worst effects of the unfolding climate emergency. Among politicians and industry groups, it is consistently favoured over meaningful investment in renewable energy systems, bolstered with misleading claims of its safety, efficiency, stability, and speed of deployment.

With the costs and efficiency of renewable energy solutions improving year on year, and the effects of our rapidly changing climate accelerating across the globe, we need to take an honest look at some of the myths being perpetuated by the nuclear industry and its supporters. Here are six reasons why nuclear power is not the way to a green and peaceful zero carbon future.

1. Nuclear energy delivers too little to matter

According to scenarios from the World Nuclear Association and the OECD Nuclear Energy Agency (both nuclear lobby organisations), doubling the capacity of nuclear power worldwide in 2050 would only decrease greenhouse gas emissions by around 4%. But in order to do that, the world would need to bring 37 new large nuclear reactors to the grid every year from now, year on year, until 2050.

The last decade only showed a few to 10 new grid connections per year. Ramping that up to 37 is physically impossible – there is not sufficient capacity to make large forgings like reactor vessels. There are currently only 57 new reactors under construction or planned for the coming one-and-a-half decade. Doubling nuclear capacity – different from the explosive growth of clean renewable energy sources like solar and wind – is therefore unrealistic. And that for only 4% when we already need to reduce 100%.

2. Nuclear power plants are dangerous and vulnerable

Nuclear factories and plants are easy targets for malevolent acts: terrorist threats, the risk of unintentional or voluntary airliner crashes, cyberattacks or acts of war. The enclosures of plants and certain ancillary buildings containing radioactive materials are not designed to withstand this type of attack or shock.

Nuclear power plants present unique hazards in terms of the potential consequences resulting from a severe accident. Nuclear reactors and their associated high level spent fuel stores are vulnerable to natural disasters, as Fukushima Daiichi showed, but they are also vulnerable in times of military conflict.

For the first time in history, a major war is being waged in a country with multiple nuclear reactors and thousands of tons of highly radioactive spent fuel. The war in southern Ukraine around Zaporizhzhia puts them all at heightened risk of a severe accident.

Nuclear power plants are some of the most complex and sensitive industrial installations, which require a very complex set of resources in ready state at all times to keep them operational. This cannot be guaranteed in a war.

This can’t be guaranteed in a time of climate crisis and extreme weather events either. Nuclear power is a water-hungry technology. Nuclear power plants consume a lot of water for cooling. They are vulnerable to water stress, the warming of rivers, and rising temperatures, which can weaken the cooling of power plants and equipment. Nuclear reactors in the United States and France are often shut down during heatwaves, or see their activity drastically slowed.

3. Nuclear energy is too expensive

To protect the climate, we must abate the most carbon at the least cost and in the least time.

The cost of generating solar power ranges from $36 to $44 per megawatt-hour (MWh), the World Nuclear Industry Status Report said, while onshore wind power comes in at $29–$56 per MWh. Nuclear energy costs between $112 and $189 per MWh.

Over the past decade, the World Nuclear Industry Status Report estimates levelised costs – which compare the total lifetime cost of building and running a plant to lifetime output – for utility-scale solar have dropped by 88% and for wind by 69%. According to the same report, these costs have increased by 23% for nuclear.*

According to a November 2021 study released by Greenpeace France and the Rousseau Institute, power from the under-construction European Pressurised Reactor (EPR) at Flamanville in France would be 3 times as expensive as the country’s most competitive renewable sources.

4. Nuclear energy is too slow

Stabilising the climate is an emergency. Nuclear power is slow.

The 2021 World Nuclear Industry Status Report estimates that since 2009 the average construction time for reactors worldwide was just under 10 years, well above the estimate given by the World Nuclear Association (WNA) industry body of between 5 and 8.5 years.

The extra time that nuclear plants take to build has major implications for climate goals, as existing fossil-fueled plants continue to emit CO2 while awaiting substitution. The construction of a nuclear plant is a long and complex process that obviously releases CO2, as does the demolition of decommissioned nuclear sites.

Uranium extraction, transport and processing is obviously not free of greenhouse gas emissions either. All in all, nuclear power stations score comparable with wind and solar energy. But this latter can be implemented much faster and on a much bigger scale. We cannot wait for another decade for emissions to go down. They need to go down now. With clean renewable sources and energy efficiency, we can do that.

5. Nuclear energy generates huge amounts of toxic waste

The multiple stages of the nuclear fuel cycle produce large volumes of radioactive waste. No government has yet resolved how to safely manage this waste.

Some of this nuclear waste is highly radioactive and will remain so for several thousand years. Nuclear waste is a real scourge for our environment and for future generations, who will still have the responsibility of managing it in several centuries.

Countries like France are pushing hard for nuclear power at the EU level, hoping that when it comes to waste, out of sight is out of mind. But nuclear waste will never go away, and will never be sustainable.

This is one of the obvious reasons why nuclear power shouldn’t be eligible for green funding nor marketed as ‘sustainable’, as pointed out recently by countries like Austria, Denmark, Germany, Luxembourg, and Spain, who spoke against the inclusion of nuclear power in the EU’s green finance taxonomy. This is also one of the reasons why, on 9 March 2020, the EU Commission’s Technical Expert Group on Sustainable Finance (TEF) rejected nuclear energy because it did not meet the EU’s ‘Do No Significant Harm’ principle and recommended excluding nuclear power from the green taxonomy.

Nuclear waste management is costing taxpayers absurd amounts of money, costs for storage projects reaching into the billions. This is true both for Europe and North America. In 2019, a US Energy Department report showed the projected cost for long-term nuclear waste cleanup jumped more than $100 billion in just one year.

6. The nuclear industry is falling short of its promises
 
The EPR nuclear reactor technology has been showcased by the French government and French nuclear operator EDF as a revolutionary technology announcing the dawn of a nuclear renaissance. The reality is that this technology isn’t any kind of technological leap. More importantly, the French EPR reactor located in Flamanville is more than 10 years overdue and nearly four times over budget.

This so-called “next-generation nuclear reactor”, has also sustained multiple problems, delays and cost overruns in France, the United Kingdom, Finland and China.

Hypothetical new nuclear power technologies have been promised to be the next big thing for the last forty years, but in spite of massive public subsidies, that prospect has never panned out. That is also true for Small Modular Reactors (SMRs).

And for nuclear fusion, an idea that is as old as the nuclear industry, which somehow always seems to be fifty years away. The cost and uncertainty of fusion mean investing in thermonuclear reactors at the expense of other available clean energy options. This technology won’t arrive in time, if ever, and the money would be better invested elsewhere.

Let’s exert the utmost caution when presented with pro-nuclear opinions coming from experts and organisations regularly working with stakeholders from the nuclear sector and potentially tainted by vested interests. Nuclear energy has no place in a safe, clean, sustainable future. It is more important than ever that we steer away from false solutions and leave nuclear power in the past.

Fonte: Greenpeace

sábado, 23 de abril de 2022

Scientists: Nuclear Energy is a Waste of Time


Status Quo

It turns out that nuclear energy, which advocates say is a more feasible means of transitioning away from fossil fuels than solar or wind, might not actually be up to the task.

That’s according to research published Monday in the journal Nature Energy, which shows that countries that adopted nuclear energy didn’t actually reduce their carbon emissions a significant amount — but that countries with renewable energy investments did. It’s a compelling case that clean energy initiatives ought to focus on solar and wind, and perhaps skip nuclear as a stepping stone on the road to decarbonization.

Town Ain’t Big Enough

Looking at global data from the years 1990-2014, the University of Sussex science policy researchers also found that nuclear and renewable energy programs don’t play well together, in part since large, centralized nuclear plants require different infrastructure from more distributed solar fields, for example. Since one had a much bigger impact on emissions than the other, the team recommends being strategic.

“This paper exposes the irrationality of arguing for nuclear investment based on a ‘do everything’ argument,” study coauthor Andy Stirling said in a press release.

Least Resistance

With only so much time and money available, study coauthor Benjamin Sovacool argues that spending money on a new nuclear program might effectively block subsequent renewables programs from working and, as a result, continue to emit too much carbon into the air.

“Countries planning large-scale investments in new nuclear power are risking suppression of greater climate benefits from alternative renewable energy investments,” Sovacool said in the release.

Ler mais:

segunda-feira, 7 de março de 2022

Entrevista - « L'uranium de la colère »


Segunda-feira, hoje, 7 de março, às 21h (hora de França), a France 5 transmitirá uma nova série documental inédita “Vert de Rage” de Martin Boudot: “O urânio da raiva”.

Enquanto a Comissão Europeia acaba de conceder o rótulo “verde” à energia nuclear, “O urânio da raiva”, inédito na France 5, permite entender como as centrais nucleares são abastecidas com urânio.

Em Narbonne, no Aude, os cidadãos denunciam a poluição da maior central de conversão de urânio da Europa, gerida por Orano, o novo nome da Areva. Abastecido com urânio da África em particular, o local despeja dezenas de milhares de toneladas de resíduos, a três quilómetros do centro da cidade.

Em Arlit, no Níger, em uma região assolada por ataques terroristas, perto de uma enorme mina de urânio, os moradores vivem em áreas que excedem a radioatividade da zona proibida de Chernobyl.

Apesar das proibições, Martin Boudot e a equipa Vert de Rage, auxiliados por cientistas, estão a investigar nos dois países e a coletar dezenas de amostras para saber mais sobre a poluição de urânio que alimenta nossas centrais nucleares.

Os resultados de sua investigação serão divulgados pela mídia francesa e nigeriana. As suas revelações farão parte do debate político e servirão de evidência para que os cidadãos preservem seu meio ambiente e sua saúde. Cidadãos nigerianos apresentaram queixa, enquanto em Narbonne uma nova rede de vigilância cidadã está se formando em torno da central de conversão de urânio.