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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Gigantes globais da carne são forçados a reduzir as alegações enganosas sobre o clima



No final de 2025, um acordo judicial histórico nos EUA colocou a gigante da carne Tyson Foods e as suas alegações climáticas exageradas sob um escrutínio sem precedentes.

O processo, interposto pelo Environmental Working Group (EWG) , representado pelo Animal Legal Defense Fund , Earthjustice, Edelson PC e FarmSTAND, questionou a promessa da Tyson de atingir emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa até 2050 e o seu marketing de "carne de bovino climaticamente inteligente", incluindo a linha Brazen Beef, agora descontinuada, anunciada como "a primeira carne de bovino amiga do clima com uma redução de 10% nas emissões de gases com efeito de estufa". O cientista ambiental Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, questionou a credibilidade científica de alegações tão precisas sobre as emissões e se os consumidores poderiam realmente ter a certeza de que os seus bifes teriam emissões mais baixas em comparação com os produtos de carne de bovino convencionais. Como parte do acordo, a Tyson concordou em deixar de descrever a sua carne de bovino como "emissões líquidas zero" ou "climaticamente inteligente" durante cinco anos, a menos que estas alegações sejam comprovadas por provas verificadas por especialistas, embora a empresa ainda insista que a decisão "não representa qualquer admissão de culpa".

Os dados destacados pelo EWG pintam um quadro negro das prioridades dentro da corporação: segundo o relatório, a Tyson gasta menos de 0,1% da sua receita anual em esforços de redução de emissões, principalmente em investigação, o que equivale a cerca de 50 milhões de dólares de um total aproximado de 53 mil milhões de dólares, enquanto gasta cerca de três vezes mais em publicidade . Durante este período, o EWG estima que as emissões de gases com efeito de estufa da Tyson superam as de países inteiros como a Áustria ou a Grécia, sendo que a produção de carne de bovino é, por si só, responsável por 85% da sua pegada de carbono.

O setor da criação de animais em geral continua a ser um dos maiores poluidores climáticos, com uma estimativa de 12% a 19% de todos os gases com efeito de estufa causados ​​pela atividade humana ligados aos animais explorados para alimentação, sendo a carne de bovino apontada como particularmente prejudicial. Outras corporações têm-se apoiado na marca “carbono neutro”, frequentemente sustentada por compensações em vez de cortes profundos na produção, enquanto a JBS, outro gigante global da carne, foi recentemente pressionada pelo procurador-geral do estado de Nova Iorque a baixar a sua mensagem de “Emissões Líquidas Zero até 2040” para uma mera “meta” ou “ambição” e a investir 1,1 milhões de dólares em programas de agricultura climática inteligente. Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, que há muito critica as chamadas narrativas sobre carne amiga do clima, acolheu bem o escrutínio, dizendo à Corporate Knights : "10% parece uma redução de emissões tão pequena que está bem dentro da margem de erro.
Duvido que alguém tenha informações que possam 'provar' que, quando um consumidor vai ao supermercado, está realmente a consumir menos 10% de emissões do que o bife que está ao lado." 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Países em desenvolvimento lideram culturas geneticamente modificadas no mundo

Fonte: aqui

De 2012 a 2024, os países em desenvolvimento ultrapassaram os países industrializados em hectares de culturas biotecnológicas (OGM), segundo o relatório do ISAAA. A estratégia foca estabilidade económica, resiliência climática e segurança alimentar.

Entre 1996 e 2011, os países industrializados foram pioneiros na adoção de culturas GM (geneticamente modificadas). A partir de 2012, porém, o cenário global mudou: os 26 países em desenvolvimento passaram a deter a maioria da área plantada, com 57%, enquanto cinco países industrializados representaram 43%.

O relatório Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops in 2024 (ISAAA Brief 57) destaca que esta mudança é motivada por políticas que privilegiam estabilidade económica, adaptação às alterações climáticas e segurança alimentar a longo prazo. Além disso, agricultores em países em desenvolvimento obtêm maior retorno financeiro por cada dólar investido do que os seus homólogos nos países industrializados.

Também há um artigo científico de livre acesso, que aborda a mesma problemática Global trends in the commercialization of genetically modified crops in 2024

O lado B da Agricultura Intensiva

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Acordo UE-Mercosul foi aprovado. Preocupações ambientais mantêm-se


Os países que votaram contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul justificaram a sua posição sobretudo com preocupações económicas e ambientais, fortemente ligadas à agricultura. França, Irlanda, Polónia, Áustria e Hungria consideram que o acordo expõe os agricultores europeus a uma concorrência considerada desleal, em especial nos sectores da carne bovina, aves, açúcar e cereais, uma vez que os produtores do Mercosul operam com custos mais baixos e regras ambientais e sanitárias menos exigentes do que as da UE. Para estes países, isso pode provocar uma queda dos preços, perda de rendimentos e dificuldades acrescidas para a agricultura familiar. 

Além disso, França e Áustria têm sublinhado que as salvaguardas ambientais incluídas no acordo são insuficientes, nomeadamente no que diz respeito ao combate à desflorestação na Amazónia e ao cumprimento dos compromissos climáticos. Em vários destes Estados-membros, a oposição ao acordo é também alimentada por forte pressão política interna do sector agrícola e por posições já assumidas anteriormente pelos respetivos parlamentos ou governos, tornando o voto contra uma decisão tanto económica e ambiental como politicamente estratégica.

Os defensores do acordo afirmam que este ajudará a aprofundar a cooperação económica da UE com o Sul Global, onde a China já procura alianças em consequência da rutura provocada por Donald Trump na ordem comercial internacional.

O acordo ajudará também a UE a libertar-se da dependência da China em relação aos minerais críticos e às terras raras vitais para os sectores automóvel e tecnológico, uma vez que estes elementos são abundantes nos países do Mercosul.

O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de grafite, níquel, manganês e terras raras. Mas também detém 94% das reservas globais de nióbio, um metal utilizado na indústria aeroespacial, enquanto a Argentina é o terceiro maior produtor de lítio, um material utilizado nas baterias de veículos elétricos.

“O acordo não se resume apenas a questões económicas. A América Latina é uma região de intensa competição por influência entre os países ocidentais e a China. A não assinatura do acordo de comércio livre UE-Mercosul representava o risco de aproximar ainda mais as economias latino-americanas da órbita de Pequim.

“A conclusão do acordo sinaliza também que os europeus estão empenhados em diversificar os seus mercados de exportação, reduzindo a dependência dos EUA”, afirmou Agathe Demarais, investigadora sénior do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, um dos principais thinktank da UE.

Bélgica optou por abster-se na votação.

Preocupações ambientais mantêm-se

1.No final do ano passado, um conjunto de organizações agrícolas acusava o acordo de representar “graves riscos” para a segurança alimentar europeia, para os objetivos ambientais, para o bem-estar animal, para os padrões de condições de trabalho e para a subsistência dos agricultores.

2. Em abril passado, a organização não-governamental CAN Europe publicou uma análise na qual se dizia que o acordo UE-Mercosul provavelmente faria aumentar a contribuição do bloco para a crise climática, ao aumentar o comércio de produtos de elevada intensidade em termos de emissões. Na mesma análise, são levantadas preocupações relativamente à influência do acordo no aumento da desflorestação, com um aumento esperado nas importações europeias de carne de bovino e de soja, no enfraquecimento dos compromissos ambientais dos Estados-membros e no aumento do comércio de pesticidas proibidos no bloco europeu.

3. Mais de 450 organizações europeias e sul-americanas (incluindo redes ambientais, sindicatos, movimentos sociais e associações indígenas) têm criticado o acordo por “ser ruim para o planeta e para as pessoas”, denunciando negociações opacas e exclusão da sociedade civil.

4. Ambientalistas também criticam a falta de cláusulas vinculativas e mecanismos de sanção ambiental. As disposições actuais são vistas como insuficientes para garantir que padrões ambientais sejam realmente respeitados.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

UE: derrube a proibição contra os «hambúrgueres vegetais»

Uma estranha disputa está em curso na Europa – e tem a ver com o futuro da nossa alimentação. Dezoito governos estão empenhados em proibir termos como «hambúrguer vegetal» e «salsicha à base de plantas» – censurando alimentos sustentáveis para agradar ao lobby da carne.

Ao menos desta vez, a Alemanha decidiu defender o bom senso pelo futuro da nossa alimentação. Mas mesmo o poderoso governo alemão enfrenta uma batalha difícil: a oposição de um grande bloco de outros países e uma forte pressão por parte de grupos de lobby corporativos.

Nós podemos ajudar. Se a opinião popular mostrar seu apoio aos "hambúrgueres vegetais", isso pode ajudar as autoridades a se manterem firmes nas negociações e a convencerem outros países a aderirem à causa.

Vamos invadir Berlim e outras grandes capitais com um apelo urgente: barrar essa proibição e manter os hambúrgueres vegetais no menu. Assine agora e vamos entregar o nosso apelo diretamente aos negociadores da UE e aos deputados do Parlamento Europeu antes de eles se reunirem. Não vamos deixar que o lobby da carne dite as regras do nosso planeta ou do que comemos.

Assine e partilhe a petição

sábado, 6 de dezembro de 2025

Quercus alerta para proposta da Comissão Europeia de desregulação dos pesticidas e apela à mobilização dos cidadãos


A Quercus manifesta profunda apreensão à proposta de alteração do Regulamento Omnibus sobre Alimentos e Rações, que será considerada para votação oficial no próximo dia 16 de Dezembro pela Comissão Europeia. A proposta, liderada pela Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG SANTE), sob o pretexto da “simplificação”, “representa na realidade um ataque sem precedentes aos pilares do Regulamento (CE) 1107/2009, relativo à colocação de pesticidas no mercado, que visa proteger os cidadãos e o ambiente dos riscos dos pesticidas”, sublinha em comunicado.

Segundo a mesma fonte, tratam-se de “três alterações gravíssimas da proposta de alteração do Regulamento Omnibus":
1. Aprovações de Pesticidas por Prazo Ilimitado: Elimina as revisões periódicas obrigatórias (a cada 10-15 anos), que são o mecanismo crucial para reavaliar substâncias à luz do conhecimento científico mais atual. Sem este incentivo, pesticidas perigosos podem permanecer no mercado indefinidamente, ignorando novos dados sobre a sua toxicidade.
2. Abandono da Ciência Independente nas Autorizações Nacionais: Remove a obrigação legal dos Estados-Membros, recentemente reforçada pelo Tribunal da UE, de considerarem as evidências científicas independentes mais recentes ao autorizarem produtos pesticidas. Isto desarma a capacidade nacional de tomar decisões informadas e protetoras.
3. Duplicação dos Prazos de Carência para Pesticidas Proibidos: Permite que pesticidas já considerados demasiado perigosos e oficialmente proibidos continuem a ser vendidos e utilizados por mais três anos. Significa uma exposição prolongada e injustificada da população e dos ecossistemas a substâncias cancerígenas, disruptoras endócrinas e neurotóxicas.

Alexandra Azevedo, Presidente da Quercus, alerta: “Esta proposta representa um grave retrocesso, ameaçando a ciência e colocando em risco o Princípio da Precaução e o propósito de proteger a saúde pública e a biodiversidade”.

Tal como frisou Angeliki Lyssimachou, Diretora de Ciência e Política da PAN Europe, no comunicado inicial da PAN : “Pesticidas altamente tóxicos como o clorpirifós, que afeta o desenvolvimento cerebral em crianças, ou o mancozebe e o tiaclopride, que prejudicam a reprodução, ou ainda o PFAS flufenacet, que atua como disruptor endócrino, nunca teriam sido proibidos sob um sistema tão enfraquecido. Da mesma forma, os neonicotinóides que matam abelhas ainda estariam em uso hoje. Foi a ciência independente, e não os estudos da indústria, que revelou a sua toxicidade excessiva.”

“É inaceitável que, perante as exigências de redução de uso de pesticidas por parte dos cidadãos europeus, através de consultas públicas, de barómetros, da Conferência sobre o Futuro da Europa, de duas Iniciativas de Cidadania Europeia bem-sucedidas e um inquérito de opinião da IPSOS, a Comissão Europeia prepare um retrocesso legislativo que coloca os interesses da indústria à frente da saúde pública, da biodiversidade e da qualidade da água e dos solos”, lê-se na nota.

A Quercus junta-se ao apelo da Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), da qual é membro, exigindo que a Comissão Europeia rejeite categoricamente estas alterações e apelando a todos os cidadãos que se juntem a esta iniciativa, através do envio de um email para a comissária portuguesa, Maria Luís Albuquerque, instando-a a rejeitar a proposta. Este envio pode ser realizado de uma forma simplificada, através do acesso à página da Pesticide Action Network, onde, após aceder ao link disponibilizado, deverá preencher as suas informações e clicar em “Send an Email”: 

Para a Quercus, a urgência é “transitar para territórios livres de pesticidas, através de uma agricultura verdadeiramente sustentável, práticas florestais mais próximas da Natureza e gestão das áreas urbanas e vias de comunicação sem herbicidas ( e outros pesticidas)”.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Estudo influente sobre glifosato retirado após décadas de alertas de envolvimento da Monsanto


Um estudo influente que afirmava que o glifosato não apresenta riscos graves para a saúde foi recentemente retirado por suspeita de conflito de interesses, 25 anos após a publicação, que orientou várias decisões políticas.

Embora os investigadores tenham saudado esta retratação, a lentidão levanta questões sobre a integridade da investigação realizada em torno do ingrediente principal do Roundup, o herbicida mais vendido no mundo.

O produto da gigante Monsanto está no centro de importantes debates políticos, especialmente na Europa, enquanto os seus riscos para a saúde são objeto de numerosos processos judiciais.

Publicado em 2000 no jornal Regulatory Toxicology and Pharmacology, o artigo agora retirado está entre os mais citados sobre o glifosato, nomeadamente por muitas autoridades governamentais que regulamentam a sua utilização.

Na nota de retratação publicada na semana passada, a revista cita uma série de lacunas "críticas": omissão de incluir certos estudos sobre os perigos relacionados com o cancro, não divulgação da participação de funcionários da Monsanto na redação e divulgação dos benefícios financeiros recebidos pelos autores da Monsanto.

A Elsevier, editora do jornal, garantiu à agência France Presse que o processo de reexame do estudo foi iniciado "assim que o atual editor-chefe tomou conhecimento das preocupações relativas a este artigo, há alguns meses".

Mas já em 2002, uma carta assinada duas dezenas de investigadores denunciava "conflitos de interesses, falta de transparência e ausência de independência editorial" na revista científica, mencionando a Monsanto.

O caso veio a público em 2017, quando documentos internos da empresa foram divulgados, revelando o papel dos funcionários da Monsanto na redação do estudo, agora retirado.

Naomi Oreskes, historiadora de ciência da Universidade de Harvard, e coautora de uma publicação em setembro que detalha a enorme influência do estudo em causa, disse à AFP estar "muito satisfeita" com uma retratação "há muito esperada", acrescentando que "a comunidade científica precisa de melhores mecanismos para identificar e retirar artigos fraudulentos".

Os motivos descritos pelo jornal para justificar a retirada do estudo "correspondem totalmente ao que denunciámos na época", disse à AFP Lynn Goldman, da Universidade George Washington, que também assinou a carta de 2002.

Gary Williams, um dos autores do estudo retirado, não respondeu ao pedido de comentários da AFP. Os seus coautores já faleceram.

A Monsanto, por seu lado, reiterou que o seu produto não apresentava riscos e garantiu que a sua participação no artigo criticado, reconhecida pela empresa, "não atingiu um nível necessário para declarar a sua autoria e foi devidamente divulgada nos agradecimentos".

A empresa, posteriormente adquirida pela Bayer, não reagiu à existência de e-mails internos nos quais uma cientista da empresa escreveu que queria agradecer a um "grupo de pessoas" que trabalhou nesse artigo e ainda em outro estudo, "pelo excelente trabalho", oferecendo-lhes t-shirts Roundup.

O glifosato foi comercializado como herbicida na década de 1970, mas teve uma adoção crescente na década de 1990. Classificado em 2015 como "provável carcinógeno" pelo Centro Internacional de Investigação do Cancro da Organização Mundial da Saúde, o glifosato é proibido em França desde o final de 2018 para uso doméstico.

Nathan Donley, cientista do Centro para a Diversidade Biológica nos Estados Unidos, disse à AFP que esta notícia provavelmente não mudará a opinião favorável da Agência de Proteção Ambiental (EPA) da Administração de Donald Trump, decididamente pró-indústria. Porém, acrescentou, pode ser levada em consideração pelos reguladores europeus.

Acima de tudo, observou ainda, o episódio constitui um exemplo de um fenómeno mais amplo na literatura científica.

"Tenho a certeza de que existem muitos artigos semelhantes, escritos por outros que não os seus autores declarados e com conflitos de interesses não declarados", disse também John Ioannidis, professor da Universidade de Stanford.

Porém, "é muito difícil revelá-los, a menos que se mergulhe" nos arquivos, acrescentou.

Pode haver mais retratações a caminho. Kaurov, que está agora a frequentar o doutoramento em ciência e sociedade na Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, diz que ele e Oreskes enviaram recentemente um pedido de retratação à revista Critical Reviews in Toxicology para um artigo de 2013 publicado em nome de outros dois autores, que não revela completamente o papel da Monsanto no artigo. "Não é o fim da história", diz.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

UE afasta alterações ao regulamento que proíbe produtos que causem desflorestação



Os negociadores do Parlamento e do Conselho chegaram a um acordo político provisório para adiar a aplicação do Regulamento Europeu de Desflorestação (EUDR), para ser aplicado pelos Estados-membros a partir de dezembro de 2025. Porém, afastam as alterações de atenuação do mesmo propostas pelos legisladores da União Europeia (UE).

O EUDR estabelece a proibição de comercialização na UE de produtos que causem desflorestação no mundo e que impactam produtos como óleo de palma, gado, madeira, café, cacau e soja.

Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações deste regulamento a partir de 30 de dezembro de 2025, e as micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. Este tempo adicional destina-se a ajudar as empresas de todo o mundo a implementar as regras de forma mais suave desde o início, explica o PE em comunicado.

"Prometemos e cumprimos. Este adiamento significa que as empresas, os silvicultores, os agricultores e as autoridades terão mais um ano para se prepararem. Garantimos que a Comissão irá concluir a plataforma online e a categorização dos riscos no prazo de seis meses, garantindo mais previsibilidade em toda a cadeia de abastecimento", refere a relatora do Parlamento, Christine Schneider, em comunicado. E acrescenta: "Uma avaliação de impacto e uma maior simplificação deverão seguir-se na fase de revisão para os países ou regiões de baixo risco, proporcionando aos países um incentivo para melhorarem as suas práticas de conservação florestal".

A votação do acordo informal entre os colegisladores será incluída na ordem de trabalhos da próxima sessão plenária do Parlamento (16-19 de dezembro). Para que o adiamento entre em vigor, o texto acordado terá de ser aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho e publicado no Jornal Oficial da UE antes do final do ano.

Recorde-se que a Comissão apresentou a sua proposta de adiamento da data de aplicação do regulamento relativo à desflorestação em resposta às preocupações manifestadas pelos Estados-membros, países terceiros, comerciantes e operadores de que existia o risco de não poderem cumprir plenamente as regras até 31 de dezembro de 2024.

No decorrer do ano de 2024, foram várias as vozes que se levantaram contra as novas normas. A indústria de café, por exemplo, manifestou que teria dificuldades em cumprir os prazos. Também os ministros da Agricultura de 20 dos 27 países-membros da UE apoiaram um apelo da Áustria para rever o regulamento. Os países produtores de café também criticaram o regulamento, afirmando que era discriminatório e que poderia acabar por vedar o acesso dos pequenos agricultores ao lucrativo mercado da UE. Também os secretários do Comércio e da Agricultura dos Estados Unidos tinham pedido à UE um adiamento da proibição de importação de produtos ligados à desflorestação, argumentando que colocava desafios críticos aos produtores norte-americanos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Riscos crescentes ameaçam a sobrevivência dos polinizadores selvagens europeus


Mais de 40% das borboletas exclusivas da região europeia e não encontradas em mais nenhum lugar do mundo estão agora ameaçadas ou perto de o ser.
🐝Quase 100 espécies adicionais de abelhas selvagens na Europa foram classificadas como ameaçadas.
🐝🔴A espécie de abelha mineira Simpanurgus phyllopodus, a única espécie deste género na Europa e exclusiva do continente, está agora classificada como Criticamente em Perigo.
🦋O número de espécies ameaçadas de borboletas europeias aumentou 76% na última década.
🦋🔴Uma espécie, a borboleta-branca-grande-da-madeira (Pieris wollastoni), que estava restrita à ilha portuguesa da Madeira, está agora oficialmente classificada como Extinta.

A agricultura intensiva, a poluição e o aumento das temperaturas representam as principais ameaças.

Andalusian Anomalous Blue - Polyommatus violetae (Miguel Munguira); Arctic Blue - Argiades aquilo (Nils Ryrholm); Frejya's Fritillary - Boloria freija (Nils Ryrholm); La Palma Grayling - Hipparchia tilosi (Yeray Monasterio); Nevada Blue - Polyommatus golgus (Miguel Munguira); Zulich's Blue Agriades zullichi (Miguel Munguira)

Saber mais:

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Agrotóxicos e colonialismo químico. Conheça o trajecto e trabalho de Larissa Bombardi



Larissa Bombardi é geógrafa, investigadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas (ULB) no projeto Friction e professora licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo - USP.

Ela é autora do atlas: “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia”, lançado em 2019 em sua edição em Inglês na Europa (Escócia e Alemanha) e "Geografia das assimetrias: o círculo vicioso dos agrotóxicos e o colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia ", lançado em 2021 no Parlamento Europeu.

Após a publicação deste atlas Larissa passou por uma campanha de desinformação que visava atacar a sua credibilidade e a sua carreira. A juntar à campanha difamatória a casa de Larissa foi assaltada e recebeu várias outras ameaças.

Ela é também autora do livro “Agrotóxicos e Colonialismo Químico”, lançado em 2023 em Português e publicado em Francês (Pesticides – Um colonialisme Chimique) em 2024. Pode aceder ao conjunto cartográfico aqui

Larissa é membro do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (Brasil), membro da diretoria da organização internacional "Justice Pesticide" e curadora da aliança Internacional IPSA (International Pesticides Standard Alliance).


Mais informações sobre a Larissa e o seu trabalho:

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Tribunal Superior da Galiza emitiu uma sentença histórica


Numa decisão histórica, um tribunal espanhol declarou que o facto de não se combater a poluição da água causada pela agricultura industrial viola os direitos humanos fundamentais. A decisão, desencadeada por anos de contaminação tóxica na aldeia de As Conchas, na Galiza, abre um precedente poderoso: as autoridades podem e devem ser responsabilizadas quando a negligência ambiental põe em risco a saúde pública. Este é um ponto de viragem para a Europa - e um reconhecimento claro de que a água potável não é apenas uma questão ambiental, mas um direito humano fundamental.
A Espanha é o maior produtor de carne de porco da Europa, e cerca de um terço das suas explorações suinícolas localizam-se na Galiza. 
Ler mais aqui , aqui e aqui

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Fornecedoras de algodão para fabricantes de peças vendidas por Zara e H&M, fazendas no oeste da Bahia têm histórico de desmatamento e grilagem, aponta investigação da ONG Earthsight.

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado nesta quinta-feira (11/04). Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.

Crimes no Cerrado
O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, numa entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

"Grilagem verde"
Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Rota até as marcas europeias
Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnam, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

Mais controle das cadeias
À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora partilhe o resultado da sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Nesta quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de incumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A saúde das plantas e o seu impacto na economia, sustentabilidade social e ambiental


As pragas e doenças que afetam as plantas são, segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, responsáveis por cerca de 40% de perdas das culturas alimentares a nível global, pelo que o seu combate eficaz é determinante para o suprimento das necessidades alimentares mundiais, em particular dos países mais vulneráveis.

A globalização, o comércio internacional, as alterações climáticas, o movimento crescente de pessoas e bens, têm contribuído, nos últimos anos, para a dispersão de pragas e doenças entre países e entre continentes. Os seus efeitos podem ser devastadores na economia, sustentabilidade social e ambiental dos territórios afetados.

Em Portugal, atualmente, são inúmeras as ameaças fitossanitárias que podem causar danos importantes à nossa agricultura e floresta. A nossa grande diversidade de culturas e de espécies vegetais e as nossas condições climáticas favorecem a dispersão e estabelecimento de pragas e doenças e dificultam o seu combate, pelo que é de extrema relevância as ações de prevenção. São exemplo, a introdução do nematode da madeira do pinheiro que atinge atualmente praticamente toda a nossa área de pinheiro-bravo, o escaravelho da palmeira que dizimou, em poucos anos, a maior parte das nossas palmeiras. Culturas tão importantes como são, por exemplo, a pera Rocha, a laranja do Algarve, ou as nossas vinhas, são também atingidas por pragas e doenças, que, além de conduzirem a importantes perdas de produção e de qualidade, implicam grandes intervenções para o seu controlo, por vezes mesmo culminando na destruição total de pomares e vinhas.

É, portanto, reconhecida a crescente importância das autoridades fitossanitárias na criação de normas fitossanitárias que permitam atuar na prevenção e deteção precoce de pragas e doenças emergentes, e com capacidade de acionar, quando necessário e atempadamente, medidas de erradicação.
A Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), enquanto autoridade fitossanitária nacional, implementa dezenas de programas de prospeção fitossanitários em todo o território nacional. Igualmente em todos os portos marítimos e aeroportos nacionais, os serviços de inspeção fitossanitária são responsáveis pela inspeção a vegetais e produtos vegetais, limitando assim a possível entrada de pragas e doenças por via dos produtos importados, mas é premente informar que uma mera peça de fruta ou uma planta trazida na mala de viagem, pode esconder um inimigo para as nossas culturas e florestas.

Devemos estar preparados para enfrentar crises fitossanitárias, priorizando a prevenção por forma a reduzirmos os impactos económicos, ambientais e sociais derivados de ataques de pragas e doenças nas nossas culturas e na nossa floresta.

É também fundamental que a sociedade em geral assuma o seu papel na salvaguarda na saúde das plantas e entenda os desafios e as dificuldades que os agricultores enfrentam diariamente para assegurar o abastecimento de alimentos saudáveis, nutritivos e diversificados, assim como o seu papel determinante na manutenção das áreas rurais e da biodiversidade.

Visando aumentar a consciência de todos para esta problemática, a Autoridade Europeia da Segurança dos Alimentos (EFSA), lança a campanha #PlantHealth4Life que une os esforços conjuntos da EFSA, de 22 países europeus e da Comissão Europeia.

Cada um de nós pode ser um embaixador desta campanha, ajude a divulgá-la, porque a «Proteger as Plantas é Proteger a Vida».

sábado, 8 de junho de 2024

Tese de doutoramento em Biologia da FCUP, que relata os efeitos de um herbicida potencialmente mais tóxico do que o glifosato, entre as melhores do ano


A tese de Cristiano Soares, doutorado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi considerada umas das melhores teses de doutoramento de 2022 pela revista científica Plants, do grupo de publicações suíço Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MPDI).

Desenvolvido sob orientação das docentes e investigadoras Fernanda Fidalgo e Ruth Pereira, o trabalho do investigador da FCUP e do GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável constitui um dos primeiros estudos em Portugal e no mundo que relatam os efeitos de um herbicida potencialmente mais tóxico do que o glifosato e que é apontado como potencial substituto.

“O flazassulfurão faz parte de uma família mais abrangente de herbicidas, a classe das sulfunilureias, que se reconhece não serem tão tóxicos. No entanto, a avaliação de uma bateria de ensaios ecotoxicológicos, conduzidos com espécies vegetais e invertebrados terrestres, revelou que este agroquímico era muito mais nocivo do que o glifosato”, refere Cristiano Soares.

“As concentrações testadas de flazassulfurão eram cerca de 1000 vezes inferiores às de glifosato e incluíam a dose de aplicação recomendada, e mesmo assim, os efeitos eram bem mais significativos”, acrescenta o jovem investigador. Além disso, estudos focados na avaliação da capacidade de retenção do solo revelaram também que o flazassulfurão, nas condições testadas, poderá representar uma ameaça para os cursos de água presentes nas proximidades dos campos contaminados.

Os investigadores da FCUP alertam, por isso, para a necessidade de estudar outros herbicidas presentes no mercado e que começam a ser utilizados em alternativa, ou em complemento, ao glifosato.

“Embora o grande objetivo da Estratégia do Prado ao Prato da União Europeia seja a redução, pelo menos em 50% do uso de pesticidas, existem ainda vários herbicidas aprovados para uso agrícola e urbano, para os quais ainda existem poucos estudos acerca do seu potencial impacto ambiental”, denota Cristiano Soares.

Para quem quiser ler/aprender um pouco mais sobre herbicidas e, nomeadamente, sobre glifosato, pode ler a tese de doutoramento aqui

domingo, 21 de abril de 2024

Mirtilos e morangos voltam à lista negra de alimentos com pesticidas


Estudos nos EUA associam pesticidas a nascimentos prematuros, malformações congénitas, aborto espontâneo e um aumento dos danos genéticos nos seres humanos. A exposição a pesticidas também tem sido associada a concentrações mais baixas de esperma, doenças cardíacas, cancro e outras perturbações

Aproximadamente 95% dos morangos não biológicos, folhas verdes como espinafres e couve, couve-galega e folhas de mostarda, uvas, pêssegos e peras testados pelo governo dos Estados Unidos continham níveis detetáveis de pesticidas, de acordo com o 2024 Shopper's Guide to Pesticides in Produce.

Nectarinas, maçãs, pimentos e pimentas, cerejas, mirtilos e feijão verde completaram a lista das 12 amostras de produtos mais contaminados. É apelidada de "Dirty Dozen" (“Dúzia Suja”, na tradução) pelo Environmental Working Group, ou EWG, uma organização de defesa do ambiente e da saúde que produz o relatório anual desde 2004.

Os pesticidas foram associados em estudos a nascimentos prematuros, malformações congénitas como defeitos do tubo neural, abortos espontâneos e um aumento dos danos genéticos nos seres humanos. A exposição a pesticidas também tem sido associada a concentrações mais baixas de esperma, doenças cardíacas, cancro e outras perturbações.

Os trabalhadores agrícolas que utilizam ou estão expostos a pesticidas estão em maior risco, de acordo com estudos. Uma meta-análise de 2022 revelou que os trabalhadores expostos a pesticidas eram quase cinco vezes mais prováveis de sofrer danos no ADN, enquanto um estudo de fevereiro descobriu que as crianças expostas numa idade precoce apresentavam um pior desenvolvimento neurológico desde a infância até à adolescência.

Nem tudo são más notícias. Os abacates, o milho doce, o ananás, as cebolas e as papaias lideram a lista dos “Clean Fifteen” (“Quinze Limpos”, na tradução) de produtos cultivados convencionalmente com a menor quantidade de vestígios de pesticidas - cerca de 65% dos frutos e legumes desse grupo não tinham resíduos de pesticidas detetáveis, de acordo com o relatório divulgado na quarta-feira, dia 20 de março.

A completar os "Quinze Limpos" estavam as ervilhas doces congeladas, espargos, meloas, kiwis, repolhos, melancias, cogumelos, mangas, batatas doces e cenouras.

Lavados, descascados e esfregados
Todos os anos, uma lista rotativa de produtos nacionais e importados é testada pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla original) e pela Food and Drug Administration dos EUA (FDA, na sigla original). Os funcionários do Programa de Dados sobre Pesticidas do USDA lavam, descascam e esfregam os frutos e legumes como os consumidores fariam, enquanto os trabalhadores da FDA apenas limpam a sujidade dos produtos. Depois, as frutas e os legumes são testados para mais de 250 pesticidas diferentes e os resultados são publicados online.

Para 2024, os investigadores do EWG examinaram os dados de 47.510 amostras de 46 frutas e legumes não biológicos, sendo a maioria dos testes realizados pelo USDA. Uma análise desses dados encontrou vestígios de 254 pesticidas em todas as frutas e legumes analisados, com 209 desses produtos químicos em produtos da lista "Dúzia Suja".

"Descobrimos que o que acaba numa lista ou na outra reflete a forma como essas frutas e legumes são cultivados", disse Alexis Temkin, toxicologista sénior do EWG. "Os abacates, por exemplo, não são intensivos em pesticidas, enquanto que os morangos crescem muito perto do solo e têm muitas pragas".

O relatório é injusto para os agricultores, dizem os críticos
Cerca de 70% dos produtos não biológicos testados pelo USDA e pela FDA têm níveis de pesticidas dentro dos limites legais permitidos pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, de acordo com o relatório do EWG. Este facto torna o relatório enganador, afirmou Carl Winter, professor emérito de extensão cooperativa na Universidade da Califórnia, em Davis.

"A dose faz o veneno, não a sua presença ou a sua ausência e essa dose determina o potencial de dano. Em muitos casos, teríamos de ser expostos a um milhão de vezes mais do que aquilo a que estamos expostos para vermos quaisquer efeitos", disse Winter, falando em nome da Alliance on Food and Farming, que representa os agricultores biológicos e convencionais.

No entanto, "níveis legais não significam níveis seguros", afirmou Temkin em resposta. Ela apontou para momentos em que os reguladores permitiram que produtos químicos potencialmente perigosos, como o pesticida DCPA, permanecessem no mercado muito depois de a pesquisa científica ter levantado preocupações. O herbicida foi associado a preocupações com a tiroide durante anos antes de a EPA dizer ao público que o produto químico representava "riscos significativos para a saúde humana" em 2023.

Outro exemplo: o clorpirifos, um pesticida associado a danos cerebrais em crianças e fetos. A Academia Americana de Pediatria juntou-se ao EWG em 2017, protestando contra a aprovação contínua do produto químico pela EPA.

Para além disso, os pesticidas proibidos pelo governo continuam a aparecer nas culturas vendidas nos EUA, de acordo com o relatório do EWG.

"O feijão verde, por exemplo, continua a apresentar vestígios de acefato, um pesticida tóxico cuja utilização no feijão verde foi proibida pela EPA há mais de 10 anos", afirmou Temkin. “Muitos dos pesticidas que constam da lista "Dúzia Suja" foram também proibidos na União Europeia devido aos seus efeitos nocivos para a saúde humana".

Outra preocupação dos críticos é o facto de a lista "Dúzia Suja" ser um insulto para os agricultores de várias gerações que lutam para produzir alimentos para a nação e dar esses mesmos produtos aos seus próprios filhos, disse Steve Clement, diretor executivo da Pacific Northwest Tree Fruit.

“Quando este relatório é publicado, é como se nos esfaqueassem um pouco, porque estamos a trabalhar arduamente para produzir um produto saudável e a implicação da lista 'Dúzia Suja' é que não é saudável", afirmou Clement. "É como fazer algo de bom por alguém e depois essa pessoa virar-se para nós e chamar-nos uma espécie de monstro".

O relatório pode assustar as pessoas para não comerem os frutos e legumes de que necessitam, disse Neil Nagata, cuja família cultiva morangos orgânicos e convencionais em Oceanside, Califórnia, há décadas.

"Sempre que sai um relatório ou há um susto com os morangos importados, vemos as nossas vendas a cair", disse Nagata. "Não é que estejamos a fazer algo de errado ou incorreto, estamos na verdade a produzir alimentos muito saudáveis e seguros. De facto, vivemos no campo de morangos e o meu pai tem 100 anos e a minha mãe 97 e ainda comem morangos."

É importante que as pessoas comam muitas frutas e legumes, mesmo que sejam cultivados convencionalmente, disse Temkin do EWG.

"Enfatizamos sempre isso", disse ela. "Queremos permitir que os consumidores que desejam evitar o maior número possível de pesticidas optem por versões orgânicas da 'Dúzia Suja', onde os níveis de pesticidas serão mais baixos e, em seguida, se desejarem, escolher produtos cultivados convencionalmente mais baratos dos 'Quinze Limpos'".

Os produtos biológicos não são mais nutritivos, mas estudos revelaram que os níveis de pesticidas na urina de adultos e crianças podem baixar até 95% após a mudança para uma dieta biológica.

Os níveis de fungicida eram elevados
Pela primeira vez, os analistas do EWG analisaram os níveis comunicados de fungicidas, uma forma de pesticida utilizada para matar doenças fúngicas como o oídio.

“Quatro em cada cinco dos pesticidas mais frequentemente encontrados na lista 'Dúzia Suja' eram fungicidas e também foram encontrados em concentrações particularmente elevadas", disse Temkin.

Dois fungicidas - fludioxonil e pirimetanil - registaram uma maior concentração do que qualquer outro pesticida na lista dos "Dúzia Suja", de acordo com o relatório. O fludioxonil foi encontrado em 90% dos pêssegos e em quase 30% de todas as amostras da "Dúzia Suja", segundo o estudo. O pirimetanil foi descoberto em 65% das amostras de pêra, 30% das de maçã, 27% das de uva, 26% das de morango e 24% das de nectarina.

"Os fungicidas são frequentemente aplicados após a colheita para manter os produtos sem bolor a caminho do mercado. É provavelmente por isso que as concentrações eram tão elevadas em algumas amostras - mais altas do que outros pesticidas usados no início da estação de crescimento", disse Temkin. "A aplicação do fungicida também está mais próxima da altura em que os produtos são colocados nas prateleiras das lojas e os consumidores os consomem."

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Portugal mantém um consumo de produtos biológicos per capita de apenas € 2,00, refere relatório


Esta semana foi publicado o último relatório da IFOAM e FIBL "The world of organic agriculture" onde podemos ver que Portugal mantém um consumo de produtos biológicos per capita de apenas € 2,00. Na Europa, pior só mesmo a Bósnia Herzegovina, a Federação Russa, a Túrquia e a Ucrânia. A vizinha Espanha consome € 54.8, a Grécia € 6.3 per capita, chegando aos € 437,0 per capita na Suíça. As compras públicas ecológicas, como nas cantinas escolares podem contribuir para o aumento do consumo per capita de produtos biológicos, acrescentando valor ao setor agrícola, contribuindo para a conversão de produtores, introduzindo novos critérios de adjudicação nos contratos públicos, mas sobre isso não ouço nada. O sector agroalimentar é responsável por cerca de 1/3 das emissões, mas tudo isto atrás descrito não faz parte dos debates dos partidos para as legislativas.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Reflexão: há uma clara ausência de Democracia Participativa em Portugal


Da minha já longa estrada de activista, apercebo-me de muitas lacunas enquanto cidadãos. Elegemos os autarcas, vamos vendo o que eles fazem e depois de 4 anos em 4 anos, damos um prémio ou castigo. Não pode ser assim. A corrupção agrava-se, a degradação das instituições que regulam as Leis Base do Clima, das Florestas, da Habitação, etc...acentuam-se. Só pioramos. Tenho experiências muito positivas da vivência Francesa, Alemã e Austríaca. Para além de maior literacia científica destes povos, rejeitam firmemente os pesticidas, o glifosato, os transgénicos, os lóbis do agronegócio. Conhecem como ninguém o âmago da União Europeia. Protegem muito a Democracia Local. As coimas são mesmo a doer, a participação cívica é intensa, a vários níveis. Em Espanha há uma certa confusão, porque eles têm a Monarquia mais viva no seu espírito e a falta do pragmatismo por vezes é igual ao nosso. Aqui é um desgaste. Não pagamos as quotas para as ONG, vive-se muito do voluntariado. Não nos organizamos. Temos o Tratado de Lisboa a nosso favor e poucos conhecem as suas virtualidades. Nos países que falei existem assembleias comunitárias. Aqui desconhecemos o seu papel. A tradição referendária Suíça é por demais elogiada. Existem alguns exemplos e "laboratórios" sociais (Lousada, Maia). Mas são muito reduzidos. Não estruturamos uma Política positiva para 20, 30 anos. Prazos mais adequados ao "economês" da Natureza. Antes de acusarmos a Justiça e a Assembleia da República, num jogo de passa-culpas, olhemos para nós próprios.