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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

domingo, 19 de julho de 2026

Plano verde em Madrid

Madrid transformou milhares de árvores numa das suas principais estratégias para enfrentar o calor urbano. Em vez de depender apenas de obras de concreto, a cidade expandiu sua cobertura vegetal e criou uma verdadeira floresta em meio às ruas.

Hoje, a capital espanhola reúne mais de 300 mil árvores espalhadas pelas vias públicas. Somando parques e áreas verdes administradas pelo município, esse número passa de 1,5 milhão.

O efeito aparece no dia a dia
Mais sombra, melhora da qualidade do ar e temperaturas mais amenas numa cidade que, assim como outras regiões da Europa, enfrenta verões cada vez mais intensos.

Esse planeamento de longo prazo também rendeu reconhecimento internacional. Madrid recebeu por sete anos consecutivos o título de "Cidade das Árvores do Mundo", concedido às cidades que se destacam pela gestão e preservação da arborização urbana.

Cada árvore plantada faz parte de um projeto maior: tornar a cidade mais agradável para viver, fortalecer a biodiversidade e preparar os espaços urbanos para um clima cada vez mais desafiador. No fim das contas, algumas das obras mais valiosas de uma grande cidade continuam crescendo silenciosamente, folha por folha.

Pois cá está. Portugal sempre em retrocesso. E a dendrofobia é estrutral. Encontra muita resistência. Só mesmo uam visão acodemocrática de um autarca visionário, como o que aconteceu em Guimarães. 

Guimarães foi distinguida recentemente com o prestigiado título de Capital Verde Europeia 2026, um galardão atribuído pela Comissão Europeia que reconhece o compromisso e o esforço da cidade na vanguarda da sustentabilidade ambiental. Para conquistar este prémio, a cidade minhota apresentou-se sob o lema "One Planet City" e superou na final as cidades de Heilbronn, na Alemanha, e Klagenfurt, na Áustria.

Além do prestígio internacional, a distinção garantiu a Guimarães um apoio financeiro de 600 mil euros destinado a impulsionar novos projetos ambientais e a acelerar a meta local de neutralidade climática. Este prémio junta-se a outros reconhecimentos recentes obtidos pelo município, como o prestigiado prémio internacional Green Flag Award, que distingue a excelência na gestão de espaços verdes como o Parque da Cidade e o Jardim do Monte Latito, e a presença entre os finalistas europeus na Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, consolidando a cidade como uma referência em políticas de sustentabilidade e ecologia urbana.

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Plataformas e base de dados

quinta-feira, 5 de março de 2026

Solar e Agricultura: como os projetos agrivoltaicos apoiam os agricultores e a economia rural?


Os projetos agrivoltaicos são uma solução prática que combina a atividade agrícola com a produção de eletricidade a partir de energia solar no mesmo terreno, permitindo um duplo uso do solo. Com um bom planeamento, os projetos agrivoltaicos asseguram que a terra continue produtiva, gerando novos rendimentos para os proprietários e proporcionando maior estabilidade às comunidades locais.

Estudos recentes indicam que a implementação de projetos agrivoltaicos na União Europeia pode aumentar a eficiência do uso do solo, permitindo manter o rendimento agrícola, promovendo soluções como o pastoreio e a apicultura.
Protegendo a agricultura através da transição energética

A transição energética é um dos maiores desafios da atualidade, e a energia solar assume um papel central nesse processo. Segundo a International Renewable Energy Agency (IRENA), em 2024 foram adicionados 585 GW de nova capacidade renovável a nível global, representando 92,5% de toda a expansão de capacidade elétrica.

À medida que a energia solar cresce, surge uma questão essencial: como maximizar o uso do solo, conjugando simultaneamente a produção energética e a atividade agrícola?

O que são projetos agrivoltaicos e como funcionam?
Esta tipologia de projetos combina a agricultura com a produção de energia solar no mesmo terreno instalando painéis solares de forma a permitir a continuidade do uso agrícola do solo, seja para pastoreio, culturas específicas ou apicultura.

Exemplos comuns incluem:
  1. Pastoreio de ovinos
  2. Culturas de baixo porte adaptadas à sombra parcial
  3. Instalação de colmeias
A estrutura dos painéis (cerca de 2,5 a 3 metros no ponto mais alto) permite a circulação de animais e a manutenção da atividade agrícola regular, combinadas com a produção de energia solar.

Projetos agrivoltaicos e rendimento agrícola: dados concretos
Estudos internacionais indicam que esta tipologia de projetos permite:
  1. Reduzir a perda de água das culturas, mitigando o stress hídrico em contextos de calor extremo através de sombreamento parcial

  2. Melhorar a produtividade de determinadas culturas sensíveis ao calor extremo
  3. Aumentar a eficiência do uso dos solos
Para agricultores rurais, isto traduz-se em:
  1. Diversificação de fontes de receitas
  2. Redução da dependência exclusiva de ciclos agrícolas voláteis
  3. Maior previsibilidade financeira a longo prazo
Projetos agrivoltaicos e economia rural: impacto local
Para além do rendimento direto para agricultores, os parques solares podem gerar benefícios económicos locais:
  1. Contratação de serviços locais
  2. Receita fiscal municipal
  3. Estabilidade financeira para proprietários de terrenos
  4. Criação de emprego durante construção e operação – o setor solar fotovoltaico é o maior empregador global nas renováveis, representando cerca de 4,9 milhões de empregos em 2022
Promoção de soluções que favoreçam biodiversidade e polinizadores

Apicultura e energia solar: uma parceria natural
Parques solares integrados em modelos agrivoltaicos podem apoiar polinizadores e apicultores locais, integrando apicultura e energia solar na atividade agrícola existente.

A criação de prados floridos e zonas de pastoreio solar permite instalar colmeias, monitorizar a biodiversidade e gerar rendimento complementar, contribuindo para reforçar a economia rural.

Como os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores e economia rural?
Os projetos agrivoltaicos apoiam agricultores ao permitir que continuem a utilizar a terra para a atividade agrícola enquanto geram rendimento adicional através da energia solar. Este modelo diversifica receitas, reduz riscos associados à variabilidade climática e contribui para a estabilidade económica das comunidades.

Energia solar e agricultura: possibilidades de uso duplo do solo
Quando cuidadosamente planeados, os parques solares funcionam de forma a complementar a atividade agrícola, não a inviabilizá-la ou substituí-la. A transição energética pode ser também uma estratégia de revitalização rural.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Gata-Malcata, colaboração transfronteiriça para a mitigação de incêndios florestais e a conservação da água


A Serra da Malcata e a Serra de Gata formam uma região transfronteiriça caracterizada por paisagens, potencialidades e desafios comuns. Ambas as áreas são rurais, pouco povoadas e enfrentam economias frágeis. Esta região foi selecionada como piloto devido à sua classificação como "ecorregião", que denota uma unidade substancial de terra e/ou água, caracterizada por climas únicos, atributos ecológicos e diversas comunidades vegetais e animais.

Em ambos os territórios, prevalece uma consciência coletiva dos riscos ambientais, que impactam o quotidiano da população local. Os riscos ambientais decorrem principalmente das alterações climáticas, que afectam ambas as regiões de forma semelhante, tornando-as profundamente conscientes das suas vulnerabilidades ambientais.

À luz destes desafios comuns, este projecto defende o estabelecimento de um espaço transfronteiriço concebido para abordar a mitigação dos incêndios e incentivar as transformações no uso do solo. Esta iniciativa visa não só prevenir os incêndios florestais, mas também contribuir para a conservação da água, explorar fontes de energia alternativas e promover a cooperação internacional.

Visando a construção de uma instituição colaborativa, o projeto procura facilitar a cooperação entre as duas regiões e promover iniciativas participativas. O objectivo central deste esforço conjunto é alavancar as práticas existentes em ambos os lados da fronteira, partilhar o conhecimento disponível de organizações da sociedade civil, investigadores e particulares, e criar uma plataforma para a apresentação de propostas e iniciativas dedicadas ao combate ou mitigação de incêndios e à escassez de água.

domingo, 28 de abril de 2024

Zona de Coimbra de Monte Formoso em risco de extinção


Eucaliptos e pinheiro, pinheiro e eucaliptos e betão, hotéis e real state. Nas cidades, cantoneiras sem árvores, podas radicais continuam. Temos involuído a olhos vistos. Portugal está feio, pobre em diversidade florestal e pobre na criação de mais Paisagens protegidas.
Há pouco tempo passei por Coimbra.
A Zona de Coimbra de Monte Formoso, o último e único verdadeiro Jardim Natural Botânico de vegetação Nacional, está em vias de se tornar uma zona de prédios e estradas!!! Vamos perder um património natural Nacional que é de todos só porque alguém quer construir mais e mais e simplesmente não querem saber o que vão destruir!!! Contem-se nas fotos mais de 3 espécies de orquídeas, uma Empusa pennata (Louva-a-Deus) e uma diversidade fantástica de tantas outras flores e insectos! Colegas meus sinalizaram-na como zona de caça de andorinhas e andorinhões, milhafres, águias de asa redonda e até águias calçadas… mas como é tão extraordinário então toca a destruir! Toca a contribuir para a evolução da floresta nacional destruindo pouco a pouco os poucos jardins e paisagens realmente portuguesas e que mereciam queixa-crime no Ministério Público.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Dia da Floresta Autóctone - Apenas um habitat florestal em Portugal está em bom estado de conservação


Nesta quinta-feira, 23 de novembro, celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, e a ZERO fez uma avaliação ao estado de conservação dos habitats florestais de Portugal, de acordo com um reporte do ICNF, relativo ao período 2013-2018, e revela que “a situação é preocupante”.

Assim, para as três regiões biogeográficas – Atlântica, Mediterrânica e Macaronésica – verifica-se que das representações presentes (sete habitats ocorrem em mais do que uma região) apenas uma se encontra em estado de conservação favorável, 15 encontram-se em estado desfavorável-inadequado, e nove em estado desfavorável-mau.

De forma mais detalhada, a região biogeográfica macaronésica, que abrange as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, tem apenas o habitat prioritário Laurissilvas macaronésicas em estado de conservação favorável, enquanto as florestas endémicas de zimbros e as florestas de zambujeiros e de alfarrobeira estão em estado desfavorável-inadequado e o habitat prioritário turfeiras arborizadas se encontra em mau estado de conservação.

No que respeita à região biogeográfica Atlântica (noroeste de Portugal continental), a situação também não é melhor. Dos cinco habitats representados, dois encontram-se em estado desfavorável-inadequado e três em estado desfavorável-mau, com destaque para o mau estado de conservação dos carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e dos bosquetes de teixo.

Quanto à região biogeográfica mediterrânica, a com mais habitats representados, o panorama não se altera muito, com 10 habitats em estado de conservação desfavorável-inadequado e seis em desfavorável-mau, sendo os carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e os bosquetes de teixo repetem a má condição e juntam-se a estes os freixiais de freixo-de-folhas-estreitas, os carvalhais de carvalho-português e os bosques de sobreiro.

sábado, 18 de novembro de 2023

Bruxelas autoriza a utilização de glifosato na UE por mais 10 anos


A Comissão Europeia autorizou, quinta-feira, a utilização de glifosato na União Europeia (UE) por mais 10 anos, depois de os Estados-membros não terem chegado a acordo sobre proibir a sua utilização.

"A Comissão, com base em avaliações de segurança exaustivas efetuadas pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) e pela Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), em conjunto com os Estados-membros da UE, irá proceder à renovação da aprovação do glifosato por um período de 10 anos, sujeita a determinadas condições e restrições novas", afirmou em comunicado.

"Estas restrições incluem a proibição da utilização pré-colheita como dessecante e a necessidade de determinadas medidas para proteger os organismos não visados", acrescentou.

O glifosato é um herbicida de amplo espetro e dessecante de culturas agrícolas, usado para matar ervas daninhas, especialmente as folhosas perenes e gramíneas. A AESA afirmou numa avaliação, em julho passado, que não tinha encontrado "áreas críticas de preocupação" para a renovação da utilização para além de 15 de dezembro, quando expirava o prazo de autorização.

O executivo da UE tem o poder de aprovar a sua própria proposta depois de os Estados-membros não terem conseguido, pela segunda vez, alcançar uma maioria qualificada a favor ou contra o plano apresentado, em setembro.

A bancada dos Verdes no Parlamento Europeu está contra a decisão, tendo a eurodeputada francesa Marie Toussaint dito, à Euronews, que há estudos em sentido contrário ao da AESA.

"A Europa tem uma escolha: ou se envenena ou se protege. E esta votação, esta abstenção dos Estados-membros - que tinham os meios para impedir esta proposta - acaba por contribuir para a deterioração da saúde, para a devastação da natureza. Esta proposta de renovação do glifosato é um drama para a saúde humana, com um número crescente de vítimas que sofrem de cancro e deformações desde tenra idade, e também para outros organismos vivos. Numerosos estudos demonstraram o efeito devastador do glifosato na biodiversidade", explicou.

"A Europa tem uma escolha: ou envenena ou protege. E esta votação, esta abstenção dos Estados-membros - que tinham os meios para impedir esta proposta - acaba por contribuir para a deterioração da saúde, para a devastação da natureza. Agora escondem-se por detrás da sua abstenção, alegando que se opuseram porque se abstiveram, para não passarem um cheque em branco à Comissão Europeia, o que é totalmente hipócrita", concluiu Marie Toussaint.

O presidente da Comissão do Ambiente do Parlamento Europeu, Pascal Canfin, criticou a decisão por ser contrária aos pareceres científicos: “Esta proposta não tem o apoio dos três maiores países agrícolas do nosso continente - França, Alemanha e Itália. Lamento profundamente. Não é a Europa de que gosto."

Aplicação depende de cada país
Embora o executivo comunitário tomado esta decisão, recordou que os Estados-Membros são responsáveis pelas autorizações nacionais dos produtos fitofarmacêuticos que contêm glifosato.

Cada país da UE continuará, por conseguinte, a ter a possibilidade de restringir a sua utilização a nível nacional e regional, se o considerar necessário, "em função dos resultados das avaliações de risco, tendo em conta, em especial, a necessidade de proteger a biodiversidade", afirmou a CE.

Um estudo europeu, divulgado no passado dia 6 de setembro, que envolveu 12 países, revela que Portugal é campeão em termos de concentração tóxica para consumo humano do herbicida glifosato em cursos de água doce. As amostras foram recolhidas em rios, ribeiras e lagos. Uma das amostras em Portugal, recolhida em Idanha-a-Nova, continha três microgramas/litro (µg/L), isto é, 30 vezes mais que o limite legal, tendo sido a mais elevada concentração de glifosato detetada nas amostras analisadas no estudo. O limite de segurança para o glifosato na água potável é de 0,1 µg/L.

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha alertado, em 2015, para os riscos cancerígenos do glifosato, a Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos e a Agência Europeia dos Produtos Químicos afirmaram ter provas científicas para classificar o herbicida como não cancerígeno.

Assim, após dois anos de polémica, o herbicida glifosato (da empresa norte-americana Monsanto) recebeu, em 2017, luz verde para continuar a ser utilizado na UE, embora por um período mais curto do que o habitual, cinco anos em vez dos habituais 15. No ano passado, a licença foi renovada mais uma vez até 15 de dezembro, na pendência de um relatório da EFSA, que foi publicado este verão.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A poluição por glifosato ameaça as águas superficiais europeias


A Comissão Europeia quer renovar a autorização de uso do glifosato por mais 15 anos.

De Portugal à Polónia, da Bélgica à Bulgária, a água de rios e ribeiras está contaminada com glifosato e o seu resíduo metabolito de degradação AMPA (1). Mesmo fora da época de aplicação de pesticidas, final de outubro, estas substâncias foram detectadas nas águas superficiais em 11 dos 12 países estudados.

Esta é uma descoberta chocante revelada pelo estudo europeu da ONG Pesticide Action Network-PAN Europe, em colaboração com os Verdes Europeus. Esta contaminação, vaticinada há muito pela sociedade civil, constitui uma séria ameaça para a vida aquática, para a qualidade da água potável e para a saúde humana.

O glifosato está em toda a parte: na urina humana, na poeira doméstica, nos solos e nas águas superficiais. Sabe-se que tanto o glifosato, como o AMPA, constituem riscos graves para os ecossistemas aquáticos (2). Glifosato e AMPA em conjunto foram detectados acima de 0,2 μg/L em 17 de 23 amostras (74%). As amostras recolhidas na Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, França, Alemanha, Hungria, Países Baixos, Espanha, Polónia e Portugal estavam contaminadas com pelo menos uma das substâncias.

Considerando que o limite de segurança para o glifosato (sem o AMPA), na água potável, é de 0,1 μg/L, 5 das 23 amostras de água (22%) coletadas na Áustria, Espanha, Polónia e Portugal continham glifosato em concentrações tóxicas para consumo humano. Uma das amostras em Portugal, na bio-região (3) de Idanha-a- Nova, continha 3 µg/L, isto é 30 vezes mais que o limite legal, o que confirma estudos anteriores da Plataforma Transgénicos Fora em Portugal (PTF) que revelaram a contaminação da urina humana na grande maioria das pessoas analisadas (4).

O estudo salienta também a grave lacuna existente na regulamentação de salvaguarda dos nossos recursos hídricos devido à inexistência de um sistema europeu de monitorização das águas superficiais e da falta de valores de referência para o AMPA que, embora seja um produto da degradação do glifosato, é também muito tóxico.

O glifosato tem permanecido no mercado, em possível violação das disposições do Regulamento (CE) 1107/2009, segundo o qual os pesticidas (as substâncias ativas e os adjuvantes dos produtos comerciais) colocados no mercado não devem ter efeitos nocivos nas pessoas, nos animais, ou no ambiente.

Em 2018 a utilização do glifosato foi renovada por apenas 5 anos devido às dúvidas sobre a sua segurança. A autorização terminaria em 2022, mas foi prorrogada, também com a aprovação de Portugal, para recolher provas dos impactos ecotoxicológicos.

Entretanto o corpo de literatura científica independente que associa a exposição ao glifosato a doenças graves e a danos ambientais continua a aumentar. Por exemplo, para além do seu potencial carcinogénico identificado pela OMS/IARC (2015), estudos recentes revelam que o glifosato e os produtos à base de glifosato podem ser nocivos para a saúde humana.

Para além disso o glifosato está implicado na alarmante perda de biodiversidade – 65% em 40 anos, a nível mundial, prevendo-se perder 25% da existente nas próximas décadas. Ciente do problema a Comissão Europeia (CE) propôs a redução de pesticidas (incluindo herbicidas) para 50%, até 2030, na nova PAC. Os pesticidas têm de ser substituídos por práticas agrícolas capazes de proteger as culturas e os recursos naturais pois, havendo vontade política, tal é realizável.

No entanto, a CE propõe agora renovar a utilização desta substância ativa, com o risco de não haver o adequado debate científico e escrutíno público (6). Prevendo-se que esta proposta seja votada em meados de outubro. As conclusões recentes da própria EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) identifica lacunas (7)

Notas:
  1. AMPA, ácido aminometilfosfónico, resulta da degradação do glifosato e ele próprio também é tóxico metabolito de degradação AMPA;
  2. Ecotoxicology of Glyphosate-Based Herbicides on Aquatic Environment
  3. Nesta bio-região têm sido instalados amendoais intensivos em produção integrada com uso permitido de Foram subsidiados em medidas agroambientais e, desde 2023, no PEPAC português, são subsidiados em regime ecológico.
  4. Nova et al, Glyphosate in Portuguese Adults – A Pilot Study. Environmental Toxicology and Pharmacology 80 (2020). 
  5. Silva et al, Distribution of glyphosate and aminomethylphosphonic acid (AMPA) in agricultural topsoils of the European Union. Sci Total Environ (2017)
  6. Pesticide Action Network: “Leaked: EU Commission plans to swiftly reapprove glyphosate to avoid scientific and public debatel
  7. EFSA p23. “a data gap for addressing the risk to aquatic macrophytes due to contact exposure via spray drift of glyphosate was identified and this resulted in an assessment not finalised” “For chronic exposure to glyphosate, a proper comparison between fishand amphibians could not be carried out, since relevant and reliable chronic endpoints for amphibians were not available. A full comparability between fish and aquatic stages of amphibians would anyway be hampered by the different response types being measured for the two groups.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Lítio: viabilizada exploração em Boticas, autarca e associação estão contra


A Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada, emitida à mina do Barroso, impõe a interdição da captação de água do rio Covas, um acesso à autoestrada 24 e os ‘royalties’ [alocação dos encargos de exploração], assim como os rendimentos da exploração da mina, “revertem todos em benefício do município”.

A mina de Lítio do Barroso, proposta para Boticas, em Vila Real, obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada por parte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Num comunicado divulgado esta quarta-feira, a APA disse que decidiu viabilizar ambientalmente a exploração de lítio na mina do Barroso, emitindo uma DIA favorável, mas que integra um "conjunto alargado de condicionantes".

A mina do Barroso, que a empresa Savannah quer explorar, tem uma duração estimada de 17 anos, a área de concessão prevista é de 593 hectares e é contestada por associações locais e ambientalistas e a Câmara de Boticas.

Autarca de Boticas reage com tristeza e preocupação
O presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga, reagiu com tristeza e preocupação à declaração e afirmou que o concelho não "está à venda".

Para o autarca, a mina "vai pôr em causa o investimento que Boticas tem seguido e que é baseado na agricultura, na pecuária e no turismo".

"Não pensaram nas pessoas, no concelho, no território e acima de tudo no selo que temos e que é único do Barroso Património Agrícola Mundial", salientou, acrescentando ainda não entender "como é que possível fazer um investimento desta envergadura contra as pessoas".

De acordo com a APA, a mina do Barroso obedecerá "a exigentes requisitos ambientais" e incluirá, ainda, "um pacote de compensações socioeconómicas, tais como a alocação dos encargos de exploração ('royalties') devidos ao município de Boticas e, entre outros benefícios locais, a construção de um novo acesso que evite o transtorno das populações.

"São medidas. Compensatórias já não lhe quero chamar porque o que vai destruir se calhar não compensa. O concelho de Boticas não está à venda e, portanto, não é destruindo e colocando novas situações que nós estamos de acordo", afirmou o autarca.

Na sua opinião, o projeto a ser concretizado "vai destruir muito, mas muito, o concelho de Boticas".

A consulta pública do reformulado Estudo de Impacte Ambiental (EIA) da mina do Barroso terminou em abril com 912 participações submetidas através do portal Participa.

"E nem um mês depois já tem o parecer emitido, isto quer dizer que as mais de 900 opiniões que foram dadas garantidamente não foram tidas em linha de conta, nem sequer olharam para elas, não tenho dúvida nenhuma", sublinhou.

Fernando Queiroga disse que a câmara vai, agora, analisar o que pode fazer ou a quem recorrer para travar este projeto.

Associação repudia declaração
Após a notícia, a associação Unidos em Defesa do Barroso (UDCB) repudiou a declaração e prometeu continuar a lutar contra as minas a céu aberto.

A associação afirmou, em comunicado, que repudia "veementemente" esta decisão, que considera "um desrespeito pelos direitos ambientais, humanos e sociopolíticos" e prometeu que continuará a "defender a natureza e proteger as populações da ameaça de minas a céu aberto".

Segundo salientou, o projeto da Savannah prevê a construção de "quatro minas a céu aberto, numa área de quase 600 hectares, em terrenos maioritariamente baldios e muito próximos das aldeias de Covas do Barroso, Romainho e Muro, consagradas Património Agrícola Mundial".

"A concretizar-se, este seria o maior projeto de mineração de lítio a céu aberto na Europa", salientou.

A UDCB mostrou-se "perplexa" pela aceitação deste projeto, "consistentemente rejeitado por especialistas ao longo de dois anos", e frisou que "face aos irremediáveis e devastadores impactos ecológicos, ambientais e socioeconómicos do projeto", considerou "inaceitável que a APA legitime um projeto desta natureza".

A associação citou a página 15 da DIA em que se afirma que "o conjunto das referidas afetações diretas e indiretas, incluindo os impactes residuais, a par dos impactes cumulativos potenciais, impostos pela elevada pressão de projetos sobre a área de estudo, pode comprometer a classificação de Património Agrícola Mundial" e ainda "considera-se ainda que não existe compatibilidade e possibilidade relevante de integração paisagística do presente projeto no território, sobretudo, tendo em consideração a sua classificação".

"A 1.ª vez que um projeto de lítio em Portugal tem uma DIA favorável"

Em comunicado, a empresa Savannah salientou que "esta é a primeira vez que um projeto de lítio em Portugal tem uma DIA favorável" e referiu que, após esta decisão pela APA, pode "iniciar a próxima fase de desenvolvimento do projeto ao nível do licenciamento ambiental".

A APA refere que o projeto foi "alterado substancialmente face à proposta inicial, salvaguardando as suas dimensões ambientais (na dimensão da proteção dos cursos de água, da salvaguarda da biodiversidade ou da gestão de resíduos, entre outros)".

A DIA impõe a alocação da "parcela devida dos 'royalties' ao município de Boticas e o desenvolvimento do 'Acesso Norte', que ligará Carreira da Lebre ao Nó de Boticas/Carvalhelhos da A24".

A decisão ambiental emitida incorpora um conjunto alargado de medidas a cumprir pela Savannah Lithium, entre as quais a APA destaca a interdição de captação de água no rio Covas, a definição de uma zona de proteção, com o mínimo de 100 metros de largura, para cada lado do limite do leito do rio Covas.

Ainda a definição do período de desmatação entre 1 de setembro e 15 de março, isto é, fora da época crítica de nidificação da avifauna da região, da época de reprodução do lobo ibérico e das demais espécies da fauna, bem como a criação de um corredor que permita e promova a circulação de lobos entre alcateias.

A empresa terá que desenvolver e aplicar um plano de ação, no qual deverão também ser aprofundados os mecanismos de compensação da área do Barroso Património Agrícola Mundial.

Quais são as medidas compensatórias?
Entre as medidas compensatórias a aplicar estão um Plano de Compensação do Património Cultural, o qual deverá incluir um estudo histórico e etnográfico dos vales dos rios Beça e Covas, face à importância do Barroso enquanto Património Agrícola Mundial, um programa de apoio aos criadores de gado, um Plano de Compensação de Carvalhal (habitat 9230), um Plano de Compensação de Gralha-de-bico-vermelho.

Inclui ainda a criação e manutenção de um centro de reprodução de mexilhão-de-rio (Margaritifera margaritifera) no rio Beça, um projeto de compensação do regime florestal e de áreas de povoamentos florestais.

No comunicado, a APA refere que o "aproveitamento do lítio, quando feito em condições ambiental e socialmente responsáveis, tem a potencialidade de gerar uma oportunidade económica nos territórios onde os jazigos minerais se localizam, assim como de promover o cluster industrial associado, potenciando a transição energética, criando emprego e valor acrescentado nacional".

Assim, acrescentou, "perante a potencialidade de ocorrência deste mineral no nosso território, importa assegurar as condições para a valorização deste recurso do domínio público, assegurando a necessária salvaguarda dos requisitos ambientais".

A empresa submeteu o EIA da mina do Barroso em junho de 2020 e, dois anos depois, o projeto recebeu um parecer "não favorável" por parte da comissão de avaliação da APA, mas, ao abrigo do artigo 16.º do regime jurídico de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA), o projeto foi reformulado e ressubmetido a apreciação.

Saiba mais

domingo, 7 de maio de 2023

Rewilding – Renaturalização da Natureza, mas sem fundamentalismos!

Desde 2021 e até 2030 estamos na Década das Nações Unidas para o Restauro dos Ecossistemas; por causa disso, ou por isso, têm surgido por todo o mundo organizações e iniciativas que se reclamam do “rewilding”.

Mesmo em Portugal – onde a palavra “renaturalizar” existe há muito - surgem movimentos que adotam a designação de língua inglesa, rewilding, em lugar de usarem a nossa língua, vá-se lá saber porquê!

O termo foi usado inicialmente, em 1990, e consagrado pelos biólogos americanos Michael Soulé (1936-2020) e Reed Noss (1952) num artigo publicado em 1998 (1)

No geral, rewilding é definido como “... esforços de conservação destinados a restaurar e proteger processos naturais e áreas selvagens. Rewilding é uma forma de restauração ecológica com ênfase na recuperação do conjunto geograficamente específico de interações e funções ecológicas que teriam mantido a dinâmica do ecossistema antes das influências humanas. Isso pode exigir intervenção humana ativa para ser alcançado. As abordagens podem incluir a remoção de artefatos humanos, como represas ou pontes, conectando áreas selvagens e protegendo ou reintroduzindo predadores de ponta e espécies-chave.” (2)

O conceito de restauro ecológico é antigo, e o rewilding pouco lhe acrescenta. O busílis está no conceito de “espécie-chave”, termo cunhado em 1969 pelo zoólogo americano Robert Trent Paine (1933-2016); o que são? Resumindo, trata-se de espécies fundamentais para o funcionamento de um ecossistema e não, necessariamente, espécies emblemáticas ou vedetas, estas também designadas por “espécie-bandeira”, que são usadas para protagonizar uma causa ambiental.

Define-se espécie-chave como “uma espécie cujo impacto na sua comunidade ou ecossistema é desproporcionalmente grande relativamente à sua abundância relativa. O desaparecimento de uma espécie-chave do seu ecossistema pode ter consequências dramáticas neste último. Uma espécie-chave é aquela que desempenha um papel crítico na manutenção da estrutura de uma comunidade ecológica e cujo impacto é maior do que seria esperado com base na sua abundância relativa ou biomassa total. [...] Espécie-chave difere de espécie dominante, pois seus efeitos são maiores do que o previsto em relação a sua abundância.” (3)

Segundo Pedro Prata, líder da Equipa Rewilding Portugal, em declarações à imprensa em 03/03/2022, “... se uma paisagem está degradada, e faltam espécies-chave ou estão presentes espécies invasoras, poderá ser preciso intervir para remover essas espécies invasoras e promover o retorno da vida selvagem nativa. Tendo isso feito, devemos deixar que as coisas sigam o seu rumo natural, com o mínimo de intervenção humana.” (4)

O cerne da questão é “... promover o retorno da vida selvagem nativa.” Mas “nativa” com referência a que período da história? Idade Média, após a Revolução Industrial, atualidade? Ao tempo de um Portugal com 1 milhão de habitantes (Séc. XV a XVII), com 2 a 4 milhões de habitantes (Séc. XVIII a XIX), ou aos 10 milhões atuais?

É que a densidade populacional humana e, logo, as atividades a ela ligadas (agricultura, pastorícia, urbanização, redes de comunicações, indústria, etc.) condicionam de sobremaneira o território, logo a flora e a fauna, não sendo possível existirem no séc. XXI todas as espécies dos séculos anteriores, com particular destaque para as espécies de grandes dimensões e conflitualidade territorial com o Homem. O que não quer dizer que algumas espécies entretanto extintas não possam reaparecer (cf. Esquilo, Águia-imperial, etc.).

Uma das vantagens que tem sido apontada para a (re)introdução de grandes herbívoros é a sua capacidade de controlar a vegetação e, assim, diminuir o risco de incêndios rurais e florestais.

A herbivoria é conhecida e estudada há muito, e consiste na utilização na alimentação de animais de plantas vivas, ou partes de plantas, fazendo, assim, a produção primária subir na cadeia alimentar.

Os insetos são o grupo animal que mais contribui para a herbivoria que, em animais terrestres de quatro membros, se começou a desenvolveu no período carbonífero (há 307 - 299 milhões de anos) (5)

Mas a herbivoria também pode ter efeitos negativos sobre a natureza, nomeadamente sobre alguns grupos de plantas; os Javalis, por exemplo, praticam herbivoria (embora sejam omnívoros) e tem um predileção especial por bolbos de orquídeas, ranúnculos, narcisos e outras espécies selvagens, muitas delas um situação muito crítica do ponto de vista de conservação.

Também é preocupante em ambientes insulares, como se verificou na ilhas Desertas, levando ao abate, em 2019, das cabras descendentes das ali introduzidas, pensa-se que no séc. XV. (6).

Assim, há que ser muito cuidadoso na utilização destes conceitos, sob pena de resultados negativos.

Recentemente (13/03/2023) o jornal Público trazia um peça com o título “Castores – Descoberto o rasto perto de Portugal. Será que vão voltar?” e dentro do artigo uma peça intitulada “Análise do valor económico - O trabalho dos castores pode poupar “milhões de euros” onde se dá ênfase ao papel destes mamíferos na modelação de rios remetendo para um artigo de Daniel Veríssimo e Catarina Roseta-Palma, dois economistas e professores do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, publicado na revista Nature-Based Solutions, 3 (2023), intitulado, “Rewilding with the beaver in the iberian peninsula - Economic potential for river restoration”.

Perante o entusiasmo pela presença, perto de nós, desta espécie extinta em Portugal pelo séc. XV e na Península Ibérica no séc. XVII, até nos esquecemos que a sua presença atual em Espanha se deve a uma introdução clandestina feita em 2003, na Bacia do Ebro, e que na altura foi muito contestada por entidades oficiais e ambientalistas.

E esquecemos de ponderar se ainda há condições biogeográficas para a presença desta espécie em Portugal, sem entrar em conflito com a população humana e as suas atividades.

Também o Urso-pardo, cuja presença de um indivíduo "espanhol" divagante no Norte de Portugal foi confirmada em 2019, despertou os mesmos desejos de regresso, esquecendo, mais uma vez, que não temos áreas despovoadas suficientemente amplas (como têm a Galiza ou as Astúrias) para que este carnívoro (embora de dieta omnívora) possa viver sem conflitualidade. Trata-se, além do mais, de um animal muito perigoso, dada a sua atração por locais humanizados. Em Itália, por exemplo, já este ano houve vários casos de ataques mortais de ursos-prdos a pessoas, e nos Estados Unidos são correntes.

O mesmo se passa com algumas ideias, a meu ver absurdas, de reintrodução do Bisonte-europeu; no relatório “Current status of the European bison (Bison bonasus) and future prospects in Pan-Europe - A Large Herbivore Network project” da autoria de Yannick Exalto, publicado pelo Large Herbivore Network (LHNet) em 2011 a possibilidade de introdução do Bisonte em Portugal nem sequer é colocada.

Claro que, como amante da biodiversidade, gostaria de ver Ursos, Auroques, Bisontes e Castores nas paisagens lusas; mas diz-me o bom senso que isso se poderia virar contra a conservação da natureza, a exemplo do que se passa com o pacífico Lobo-ibérico cuja presença tem sido relativamente tolerada à custa do pagamento, pelo Estado, das reses que abate.

O lobo é uma espécie-chave dos nossos ecossistemas, como poderia ser o bisonte ou o castor, mas estes noutras latitudes mais setentrionais.

Por cá há inúmeras outras espécies de animais e plantas bem mais carecidas de medidas de conservação. Não usemos as espécies-chave como espécies-bandeira, se queremos conservar a biodiversidade no seu conjunto, embora as espécies-bandeira rendam mais nas campanhas de angariação de apoios.

Poucos contribuiriam para uma recolha de fundos destinada à conservação do pardal-dos-telhados, mas facilmente se recolherão apoios para reintroduzir o urso-pardo, que daria belas fotografias em anúncios comerciais.

Restaurar (rewilding) a natureza, claro que sim, mas sem fundamentalismos e com respeito pelo Homem!

3 de Maio de 2023

Nuno Gomes Oliveira

Fontes

(1) Soulé, Michael; Noss, Reed (Fall 1998), "Rewilding and Biodiversity: Complementary Goals for Continental Conservation", Wild Earth, 8: 19–28)

(2) Rewilding (conservation biology)

(3) Espécie-chave

(4) Não sabe o que é o Rewilding? Este artigo é para si

(5) Sahney, S., Benton, M.J. & Falcon-Lang, H.J. (2010). "Rainforest collapse triggered Pennsylvanian tetrapod diversification in Euramerica". Geology. 38 (12)

(6) Recuperação dos Habitats Terrestres das Ilhas Desertas e Selvagens

sábado, 29 de abril de 2023

Pode o camaleão chegar a novas zonas de Portugal?


O camaleão ou camaleão-do-mediterrâneo (Chamaeleo chamaeleon) é um pequeno réptil que pode medir até 30 centímetros e pesa entre 10 a 120 gramas, sendo a única espécie de camaleão presente na Europa, além do camaleão-africano, que tem uma população introduzida na Grécia. O camaleão-do-mediterrâneo ocorre ao longo do Norte de África e em zonas costeiras do Sul da Europa e Médio Oriente e ao longo das zonas costeiras ocidentais da Península Arábica.

Em Portugal, este réptil pode ser encontrado na zona do Algarve, em zonas costeiras e em algumas regiões interiores. Segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, terá sido introduzido no sul do país há mais de 500 anos, antes de 1500.

É um caçador de insetos perfeito, tem uma língua longa, flexível e explosiva, os olhos são salientes e podem mover-se independentemente, podendo mudar de cor para se camuflarem na paisagem. Podem viver cerca de 10 anos, as fêmeas põem ovos no Outono – entre 5 a 40, que eclodem no Verão do ano seguinte – e no Inverno entram em modo letárgico (período de menos atividade), de Dezembro a Março.

Uma espécie flexível na escolha de habitat, apesar de na Europa ser mais comum em zonas costeiras como pinhais ou dunas. Noutras partes da sua distribuição, ocorre desde zonas costeiras até paisagens montanhosas, de partes de floresta fechada até áreas com matos dispersos. Em algumas zonas de Espanha, se o habitat for bom, podem ser encontrados 10 a 25 animais por hectare; se for excelente, até 50 animais por hectare.

Existem algumas ameaças ao camaleão, como a destruição de habitat, o uso de pesticidas, os incêndios cada vez mais frequentes, a drenagem de zonas húmidas e ainda a convivência com animais domésticos ou assilvestrados como cães e gatos, que podem caçá-los e destruir ninhos.

Para o bem ou para o mal, o ser humano molda os ecossistemas a uma escala planetária, podemos usar essa capacidade para o bem e ajudar espécies a adaptarem-se e a prosperar. Com o aumento das temperaturas na Península Ibérica, muitas distribuições de espécies vão mudar, algumas podem ficar mais raras, outras abundantes ou até mesmo desaparecer ou aparecer.

À semelhança de muitas espécies de plantas – como sobreiros, azinheiras, medronheiros e carvalhos – e de alguns animais – por exemplo o veado, a gineta e o coelho – o camaleão existe dos dois lados do Estreito de Gibraltar, tanto no Norte de África como na Península Ibérica. É uma espécie que com as alterações climáticas verá a sua área de distribuição potencial aumentar, principalmente para o Centro e Norte da Península.

Hoje, já existe habitat para o camaleão em algumas zonas de Portugal, a sul do Tejo, ao longo da Costa Vicentina, nos pinhais de Melides, Comporta e Meco, na Serra da Arrábida, ao longo dos estuários do Tejo e do Sado, no Alentejo e até em partes da Beira Baixa ou do Douro Internacional. No futuro, à medida que o clima muda e fica mais quente, é provável que novas áreas tenham as condições para o camaleão viver e prosperar.

Corredores ecológicos

A expansão natural é pouco provável devido à fragmentação de habitat e ao estado ameaçado que algumas populações enfrentam. Por isso, é necessário encontrar novas zonas com bom habitat, criar novas populações e criar corredores ecológicos, por exemplo com cordas ou cabos para ligar duas áreas por cima de uma estrada, para os cameleões se deslocarem por cima do asfalto e não terem a necessidade de baixar ao chão onde podem ser atropelados.

Fazer uma visita de campo, numa manhã ainda fresca de Primavera, junto a uma zona húmida criada por castores. Uma zona verde, a fervilhar de insetos, de todos os tamanhos e cores, libelinhas, mosquitos e cigarras, e encontrar um camaleão camuflado num ramo de sabugueiro, com flores brancas de aroma doce, à espera da primeira refeição do dia. Ou dar um passeio por uma zona de sobreiros e azinheiras e entre o canto de abelharucos ser surpreendido por um camaleão num ramo à espera de gafanhotos.

Optamos por ter uma atitude passiva perante o declínio da vida selvagem ou proativa? Apenas responder a ameaças ou aproveitar novas oportunidades? Apontar problemas ou apontar soluções?

O camaleão pode chegar a novas zonas de Portugal.

sábado, 15 de abril de 2023

Agricultores espanhóis alertam para seca severa e falam em cenário “catastrófico”


O setor agropecuário de vários pontos de Espanha manifestou esta sexta-feira o receio pelos efeitos da seca no abastecimento de água em geral, alertando para uma situação “dramática” e propondo 50 medidas urgentes para lidar com o cenário “catastrófico”.

Depois de um mês de março sem chuva e de um início de abril seco e sem perspetivas de chuva para os próximos dias, a seca continua a avançar, principalmente em grandes áreas do norte, nordeste e na Andaluzia, noticiou a agência Efe.

Esta seca persistente colocou o setor agrícola da Catalunha em perigo, o que exige que o mecanismo de ajuda seja colocado em funcionamento perante uma situação que qualificam de “dramática”.

Nesse sentido, a União dos Sindicatos de Agricultores e Pecuaristas (UdU) apresentou esta sexta-feira, em Madrid, ao Governo central, um conjunto de 50 medidas urgentes para enfrentar a situação “catastrófica”.

Até 70% das colheitas de inverno podem ser perdidas em certas áreas se continuar sem chuva, estimou a organização agrícola, que solicitou um regulamento que contemple as suas propostas e seja ativado automaticamente com base em certos indicadores.

A UdU também quer, entre outras medidas fiscais devido à situação, que sejam ativados os mecanismos de reserva de crise e declaradas zonas de emergência de proteção civil para todos os afetados pela seca, ao mesmo tempo em que exorta o Governo e as comunidades a apresentarem “medidas concretas e imediatas” na reunião do Comité Nacional da Seca na próxima quarta-feira.

Segundo os seus dados, Andaluzia, Estremadura, Catalunha e Comunidade Valenciana são as regiões mais afetadas pela seca hídrica e meteorológica.

A expectativa é que mais de 40.000 dos 50.000 hectares de cultivo de algodão não tenham possibilidade de irrigação, o que compromete 70% da receita dessas quintas.

Na Estremadura, quase toda a colheita de cereais de inverno foi danificada e mais de 16.000 hectares de milho e 6.000 hectares de arroz ficarão sem plantar devido à falta de abastecimento de água.

A colheita de frutas de caroço na província de Lleida (Catalunha) pode ser comprometida, enquanto 70% da produção de inverno em Castilla y León pode ser perdida se não chover.

As vinhas, os olivais e os cereais de Castilla-La Mancha também sofrem com a seca, assim como os cereais de inverno da Comunidade Valenciana, com perdas possíveis de 35%, segundo a UDU.

Além disso, os agricultores de sequeiro olham para 2024 com medo depois de uma colheita que no sul da Comunidade Valenciana é “desastrosa” devido à seca, com perdas que ultrapassam 90 e 95% dos hectares, e se a chuva não chegar , algumas culturas como a amendoeira terão de ser replantadas.

Os diferentes tipos de cereais que se cultivam no norte da província de Alicante e as amendoeiras e alfarrobeiras de Vega Baja são as principais culturas que se deterioraram.

Na Catalunha, o presidente da organização Jovens Agricultores e Pecuaristas da Catalunha (AJEC), Joan Carles Massot, garantiu à Efe que “foi pedido há um mês à Generalitat [governo regional] que prepare as medidas compensatórias”.

“Porque se não chover estamos perdidos”, alertou.

A Comunidade Geral de Irrigantes do Canal de Urgell (CGRCU) já decidiu solicitar à Generalitat e ao Governo a declaração de área catastrófica devido à “situação dramática, excecional e persistente” de falta de água, a fim de permitir a cobrar indemnização dos irrigantes.

O coordenador das regiões serranas da Unió de Pagesos, Joan Guitart, também já alertou, em declarações à Efe, para a situação em que se encontram as regiões serranas.

“Se não chover em 15 dias, o gado que vai para esses pastos não vai”, indicou.

Muitos produtores de leite podem ser obrigados a abater os animais por não poderem alimentá-los, alertou este sindicato.

quarta-feira, 22 de março de 2023

sábado, 4 de março de 2023

Os benefícios do castor

O estudo Renaturalizar com o Castor na Península Ibérica – Potencial Económico para Restauro Fluvial, da autoria de Daniel Veríssimo e Catarina Roseta-Palma, acabou de ser publicado na revista científica Nature Based Solutions. O documento partiu da análise do programa de recuperação de rios e ribeiros desenvolvido pela Agência Portuguesa de Ambiente. Este programa, com um custo aproximado de 12 milhões de euros, incluiu muitas intervenções que poderiam ser feitas de forma equivalente pelo castor livres de custo, como suavizar as margens das ribeiras, criar pequenas barragens com ramos, promover a dispersão de sementes ou até controlar espécies invasoras.

O regresso do castor
Duas das estatísticas mais notáveis que surgiram do recente Relatório de Regresso da Vida Selvagem de 2022, encomendado pela Rewilding Europe, ilustram o quão longe o castor chegou num espaço de tempo relativamente curto – principalmente devido à proteção legal, uma redução dramática na pressão de caça e reintroduções e translocações. A abundância destes engenheiros aquáticos aumentou uns incríveis 16.000% entre 1960 e 2016, com a atual população europeia (excluindo a Rússia) totalizando mais de 1,2 milhões!

Além disso, a sua distribuição em todo o continente europeu aumentou cerca de 835% entre 1955 e 2020. Concluindo, os castores estão em alta, o que é uma ótima notícia para a biodiversidade e para uma grande variedade de outras espécies que beneficiam do impacto desta espécie na paisagem.

Gerador de biodiversidade
As lagoas e os canais de água que os castores criam à volta dos seus alojamentos através da construção de diques, atraem uma infinidade de insetos, peixes e anfíbios. Isso, por sua vez, atrai pássaros, morcegos e outros pequenos mamíferos. À medida que derrubam árvores sobre a água, os castores ajudam a criar um habitat vital de madeira morta, bem como a abrir áreas de floresta, o que estimula uma maior diversidade de crescimento de plantas em clareiras ensolaradas e prados alagados.

As árvores ribeirinhas, como os salgueiros, evoluíram com os castores e geralmente não morrem quando um castor abre caminho através do tronco. Em vez disso, isso estimula o crescimento de novos caules, o que gera uma maior complexidade estrutural que beneficia muitas espécies. Sabe-se que os répteis usam-nos como abrigo, enquanto as lontras e martas usam tocas abandonadas. Grandes represas podem até atuar como corredores ecológicos na paisagem, funcionando como pontos de passagem que poupam energia para espécies de topo à base da cadeia alimentar.

Defensor de cheias
As represas dos castores, a teia de cursos de água que se estendem ao seu redor e todos os galhos e ramos usados para criá-las podem reter grandes quantidades de água. Isso ajuda a diminuir a velocidade geral do fluxo a jusante e a recarregar os lençóis freáticos subterrâneos, podendo reduzir os impactos das inundações em terras agrícolas e em áreas urbanas. Os diques agem como esponjas, libertando água lentamente através da sua estrutura permeável, o que significa que imensas pequenas lagoas e riachos podem formar-se em áreas mais altas.

Essa redistribuição da água interrompe e diminui o leito máximo do rio à medida que se move em direção às áreas de planície. Permitir que os rios libertem gradualmente os seus benefícios hídricos beneficia também a terra à sua volta, pois evita que o precioso solo superficial seja arrastado durante períodos de chuvas fortes.

Bombeiro
Os ambientes aquáticos do castor também podem fornecer santuários à prova de fogo que salvam vidas para uma grande variedade de plantas, animais – e até pessoas. Com os incêndios florestais a aumentar tanto em frequência como em intensidade, como resultado das mudanças climáticas, o valor dos castores não pode nem deve ser subestimado. Como um sábio disse uma vez: “água não queima!”

Quando as habilidades magistrais de engenharia do castor têm rédea solta numa escala grande o suficiente, o habitat que eles criam pode até tornar-se uma barreira natural que impede que o fogo se espalhe ainda mais. No mínimo, a exuberante vegetação verde encontrada dentro e na envolvência dos habitats dos castores irá amortecer o progresso de um incêndio – ao contrário da vida vegetal combustível, muitas vezes seca, normalmente encontrada em áreas sem castores, que podem alimentar incêndios florestais. E a vegetação costuma ser um salva-vidas para herbívoros no calor do verão e nos períodos de seca também.

Purificador de água
Os castores também nos podem ajudar na luta contra a poluição. As suas represas podem atuar como peneiras gigantes que retêm sedimentos contendo nitratos e fosfatos da agricultura, que podem desenvolver proliferação de algas nocivas. Estas algas podem impactar negativamente a vida selvagem, o gado e as pessoas, pois podem produzir toxinas perigosas.

Estas também consomem todo o oxigénio da água e bloqueiam a luz solar, que pode ser fatal para a vida aquática. A poluição por nitrogénio, em particular, pode ser bastante reduzida, já que as bactérias que prosperam em lagoas com castores podem digerir nitratos, com qualquer excesso confinado a sedimentos. Esta é uma boa notícia para as pessoas, já que o nitrogénio e o fósforo precisam de ser removidos da água para esta se tornar segura para beber.
 
Mitigador de secas
Toda a água que as zonas húmidas criadas pelos castores retêm pode ser muito útil durante os períodos de seca. A necessidade que o castor tem de lagoas e canais profundos significa que, quando tudo à sua volta está a ser afetado pela seca, a região habitada por castores não. Esse fluxo constante de água a jusante e nos solos circundantes pode ser vital durante os períodos quentes de verão: um serviço gratuito de armazenamento de água que pode ser uma tábua de salvação para uma infinidade de espécies. A temperatura da água nas lagoas com castores também permanece fria no verão, enquanto os rios mais rasos sobreaquecem – um potencial assassino para algumas espécies de peixes, como os salmonídeos. Essas lagoas também são uma fonte vital de água no inverno, pois a sua profundidade significa que são as últimas a congelar.

Apoiar o regresso do castor
Em todas as áreas rewilding da Rewilding Europe – através do restauro de zonas húmidas e da criação de iniciativas de turismo de vida selvagem – estamos a apoiar o incrível trabalho dos castores e as suas contribuições para o rewilding. A última área a sentir os amplos benefícios do castor foi a área ucraniana do Delta do Danúbio, com avistamentos a surgirem na Reserva da Biosfera do Danúbio em 2021. Os castores já estão bem estabelecidos na Lapónia sueca e no Delta do rio Oder, onde são uma importante fonte enquanto presa para jovens lobos. Um estudo polaco também descobriu que estes beneficiam populações de aves invernantes em florestas temperadas.

Os castores também estão presentes na área de rewilding das Affric Highlands, na Escócia, onde uma união de proprietários de terras públicas e privadas acaba de finalizar uma consulta pública – realizada pela Trees for Life – sobre uma proposta de reintrodução em Glen Affric. Nenhuma decisão foi ainda tomada, mas já foi identificado um habitat adequado num estudo realizado em junho de 2022. Também sabemos que os castores vivem perto das áreas rewilding dos Cárpatos do Sul e dos Apeninos Centrais, com o seu regresso natural a ser esperado nas próximas décadas.

O castor de regresso a Portugal?
Na Península Ibérica, registos históricos indicam que a espécie esteve presente pelo menos até ao final do século XVI. Em 2003, o castor regressou a Espanha através de uma reintrodução não autorizada na bacia do rio Ebro. Desde então a espécie, catalogada como espécie protegida neste pais desde 2011, tem recolonizado novas áreas do Ebro, chegando também às bacias do Douro e do Tejo. Recentemente foram avistados indícios de presença de castor no rio Tormes, a cerca de oito quilómetros da fronteira com Portugal, e portanto muito próximos do lado português do Parque Natural do Douro Internacional. Apesar de ainda não existirem dados sobre qual o tamanho da população nesta zona e ritmo de expansão, é possível que brevemente o castor se disperse pelo noroeste da bacia do Douro desde este novo núcleo no Tormes e regresse a Portugal após a sua extinção na idade média.

Na Rewilding Portugal, encaramos esta possibilidade com grande optimismo e com vontade de ajudar a preparar a paisagem e as pessoas para o regresso desta espécie-chave.

Com a proteção e o habitat adequados, esperamos que os castores continuem a recolonizar mais da Europa, renaturalizando-a com todos os benefícios que trazem!

quinta-feira, 2 de março de 2023

Autarcas sem consenso sobre fim do referendo à regionalização em 2024


"Há dimensões que carecem de uma concertação alargada e não apenas do Governo ou de um único partido. A possibilidade de darmos os próximos passos [referendo para a regionalização] depende de um consenso alargado", disse Mariana Vieira da Silva, após uma reunião do Conselho de Ministros, realizada esta quinta-feira em Faro, no Algarve. O referendo só se realizará "quando e se esse consenso existir", acrescentou a governante.

O Governo aprovou esta quinta-feira o diploma que estabelece uma nova lei orgânica para as CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional), que passam a ser institutos públicos e a ser constituídas por um conselho diretivo com um presidente e até quatro vices.

A ministra da Coesão Territorial apontou que a espera do Governo, quanto à realização do referendo, resulta de uma "mudança de opinião do líder do principal partido da Oposição". "Neste momento, não faz qualquer sentido falar de referendo", afirmou Ana Abrunhosa aos jornalistas.

Em julho do ano passado, o presidente do PSD Luís Montenegro disse que seria "uma irresponsabilidade, uma precipitação e um erro" realizar um referendo sobre a regionalização em 2024.

Serão portugueses a decidir

"Fazer um referendo neste quadro crítico e delicado seria uma irresponsabilidade, uma precipitação e um erro. Os portugueses não compreenderiam. Tenhamos as noções das prioridades", defendeu Montenegro no encerramento do 40.º Congresso do PSD, no verão.

"Um dia quando estas entidades [CCDR] provarem ser o caminho certo para prestar melhores serviços aos cidadãos e mostrarem que houve ganhos, não só monetários, mas de racionalidade, eficácia e qualidade, serão os portugueses a dizer se querem dar esse passo [regionalização]", disse Ana Abrunhosa, em conferência de Imprensa, esta quinta-feira.

No verão passado, e em reação às palavras de Luís Montenegro, António Costa afirmou, na abertura de uma reunião da Comissão Nacional do PS, que não se podia deixar de fazer o referendo por se ter "medo de ouvir os portugueses".

Passagem de serviços concluída no próximo ano

Questionada sobre se o novo funcionamento das CCDR irá retirar poder aos autarcas, a ministra da Coesão Territorial respondeu que a nova lei orgânica representa "transferência de atribuições e competências dos ministérios e de serviços da administração pública mais central para as regiões".

"O presidente [da CCDR] é eleito não só pelos autarcas, mas por todos os membros das assembleias municipais e os presidentes de junta. Um vice-presidente é eleito pelos presidentes e um vice-presidente é mandatado por membros não autárquicos dos conselhos regionais, como universidades, empresas e IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social)", explicou Ana Abrunhosa.

As CCDR passam a executar competências desconcentradas da Administração Central. As áreas que transferem para estas comissões são a agricultura, o ordenamento do território, a conservação da Natureza, a saúde e a educação, entre outras. A passagem dos serviços será feita de forma gradual e deverá estar concluída em março de 2024.

De forma a "garantir que haja articulação entre políticas nacionais e operacionalização a nível regional será estabelecido entre o governo, no contexto do Conselho de Concertação Territorial, e as CCDR um contrato programa que garantirá que os objetivos de política pública nacional são concretizados pelas regiões", referiu a governante. Será ainda criado um balcão único para as CCDR, para que as empresas, os cidadãos e os municípios comuniquem com aquelas entidades.