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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Nick Cave And The Bad Seeds - All Tomorrow's Parties


Versão ainda mais dramática que a original The Velvet Underground & Nico - All Tomorrow's Parties, de 1966.

All Tomorrow's Parties
The Velvet Underground

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
A hand-me-down dress from who knows where
To all tomorrow's parties
And where will she go, and what shall she do
When midnight comes around
She'll turn once more to sunday's clown and cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
Why silks and linens of yesterday's gowns
To all tomorrow's parties
And what will she do with thursday's rags
When monday comes around
She'll turn once more to sunday's clown and cry behind the door

And what costume shall the poor girl wear
To all tomorrow's parties
For thursday's child is sunday's clown
For whom none will go mourning

A blackened shroud
A hand-me-down gown
Of rags and silks - a costume
Fit for one who sits and cries
For all tomorrow's parties

Solidão e máscaras sociais em “All Tomorrow's Parties”
Em “All Tomorrow's Parties”, do The Velvet Underground, a repetição da pergunta “And what costume shall the poor girl wear to all tomorrow's parties” (“E que fantasia a pobre garota usará em todas as festas de amanhã”) destaca a angústia sobre identidade e pertencimento. A música faz referência ao ambiente das festas da Factory de Andy Warhol, conhecidas por reunir pessoas excêntricas e outsiders. A “pobre garota” representa tanto figuras reais, como Darryl (citada por John Cale), quanto qualquer pessoa marginalizada que tenta se encaixar em um meio marcado por aparências e expectativas sociais. O trecho “hand-me-down dress from who knows where” (“vestido usado, vindo sabe-se lá de onde”) reforça a sensação de exclusão e vulnerabilidade dessa personagem.

O tom melancólico da canção se intensifica com a imagem da garota que, ao fim das festas, “turns once more to sunday's clown and cry behind the door” (“volta mais uma vez ao palhaço de domingo e chora atrás da porta”). O “clown” funciona como metáfora para a máscara social que ela precisa usar, escondendo sua solidão e tristeza sob a superfície festiva. A alternância entre “thursday's rags” (“trapos de quinta-feira”) e “yesterday's gowns” (“vestidos de ontem”) sugere um ciclo de tentativas frustradas de renovação, onde o passado e a precariedade sempre retornam. O verso “For thursday's child is sunday's clown, for whom none will go mourning” (“Pois a criança de quinta-feira é o palhaço de domingo, por quem ninguém vai lamentar”) reforça o anonimato e o desamparo da personagem. Assim, a música faz uma crítica à superficialidade e à efemeridade das relações sociais, especialmente em ambientes artísticos e boémios, onde a busca por aceitação muitas vezes esconde solidão e sofrimento.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Música do BioTerra: ANOHNI and the Johnsons - Sliver Of Ice


Este tema é especialmente dedicado ao falecimento do seu amigo Lou Reed. Já me faleceram alguns. Já suportei perdas maiores. Anohni, que já tive o prazer de a ver ao vivo, é um colosso de emoções. Obrigado por existires e continua a tua bela arte.

Há cerca de 5 meses quando saiu este tema, fiquei logo apaixonado por ele. Entrei em loop. Hoje volto a revê-lo. Novas emoções. Olho para o videoclipe e sublinho este trecho da música:

"I couldn’t believe it ’til tonight
This whole place made of light
I made myself a home

Don’t know what’s wrong
Don’t know what’s right
I belong here as animals might"

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Música do BioTerra: Lou Reed- Satellite of Love


Satellite's gone up to the skies
Things like that drive me out of my mind
I watched it for a little while
I like to watch things on TV
Satellite of love
Satellite of love
Satellite of love
Satellite of
Satellite's gone way up to Mars
Soon it'll be filled with parkin' cars
I watched it for a little while
I love to watch things on TV
I've been told that you've been bold
With Harry, Mark and John
Monday and Tuesday, Wednesday through Thursday
With Harry, Mark and John
Satellite's gone up to the skies
Things like that drive me out of my mind
I watched it for a little while
I love to watch things on TV
Lançada em 1972 no célebre álbum Transformer e produzida por David Bowie e Mick Ronson, "Satellite of Love" -original audio - é uma das obras mais emblemáticas de Lou Reed. À primeira vista, a faixa destaca-se pelo tom leve, melódico e quase descontraído, mas por trás dessa sonoridade radiante esconde-se uma narrativa sombria sobre o ciúme obsessivo, a paranoia da infidelidade e a alienação emocional. O próprio Lou Reed descreveu a composição como um retrato do "pior tipo de ciúme", em que o narrador se sente devastado pela traição, mas incapaz de reprimir o seu isolamento ou de reagir de forma direta.

Esta densidade psicológica não surge por acaso; resulta da sólida formação académica de Reed na Syracuse University, onde estudou literatura e escrita criativa com a missão explícita de fundir a gravidade narrativa e filosófica dos grandes romances com a energia visceral do rock 'n' roll. Nenhuma figura foi mais determinante nessa trajetória do que o poeta e contista Delmore Schwartz, seu mentor universitário. Schwartz incutiu em Reed a importância da economia de linguagem e do realismo emocional, ensinando-o a recorrer a palavras simples para traduzir sentimentos complexos. É também de Schwartz — em particular do conto "In Dreams Begin Responsibilities", onde o protagonista assiste à vida dos pais num ecrã de cinema - que deriva a metáfora central da canção: a ideia de observação e distanciamento. O narrador que assiste ao lançamento de um satélite na televisão reage à dissolução da sua vida afetiva como um espetador passivo, encontrando no ecrã um refúgio anestesiante.

À medida que a música avança, a contemplação inicial dá lugar a uma tensão quase detetivesca, fortemente influenciada pelo romance policial noir de Raymond Chandler. Reed, que frequentemente questionava como soaria uma canção de rock escrita por Chandler, veste aqui a pele de um investigador paranoico que junta pistas, datas e nomes — como "Harry, Mark, and John" — para confirmar a sua suspeita de infidelidade. A enumeração fria dos dias e dos intervenientes cria um contraste vincado com o tormento interno da personagem.

Do ponto de vista filosófico, "Satellite of Love" enraíza-se no existencialismo europeu de pensadores como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, correntes muito marcantes entre a intelectualidade nova-iorquina das décadas de 1960 e 1970. A figura do satélite converte-se num símbolo da alienação tecnológica e da cultura do espetáculo, na qual o indivíduo prefere a mediação protetora da tecnologia ("I love to watch things on TV") ao contacto humano direto, evitando a dor do confronto real. Esta postura encarna a "má-fé" (mauvaise foi) sartriana, em que a anestesia perante o ecrã substitui a responsabilidade da ação.

A culminação de todas estas referências - desde a desconstrução narrativa de James Joyce à liberdade expressiva da Beat Generation de Allen Ginsberg - permitiu a Lou Reed rejeitar as convenções da balada pop tradicional sobre corações partidos. Em vez disso, "Satellite of Love" constrói-se como um estudo psicanalítico que expõe o lado mais escuro e vulnerável da mente humana, enriquecido pela marcante justaposição entre a amargura da letra e os arranjos vocais expansivos e luminosos dos coros de David Bowie na parte final.