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segunda-feira, 5 de maio de 2025

A nova Lei dos Solos


O preço da casa em Portugal é determinado pelos Bancos que foram salvos em 2008, ou seja, pelos accionistas.
Quem diz que isto se vai resolver cuidando dos sem abrigo com assistência social e "arrefecer" o luxo (Livre), com tectos de rendas (Bloco), taxando a Banca (PCP), construindo mais e mais até não sobrar um sobreiro - PS, PSD, IL e Chega - está a mentir, embora possa ser sem intenções, mas a vida é como é. Qualquer uma destas medidas vai levar a tirar casas do mercado, aumentar o seu preço ou, no caso da direita, destruir o país ainda mais, que fica sem terrenos agrícolas. Sem nacionalizar (sob controlo dos trabalhadores, não do Estado) a Banca, as casas vão continuar a subir, porque tudo o que for para o mercado está no mercado mundial, está na mão da Banca mundial ( a ser comprado pelos poupanças e pensões da classe média do norte da Europa, e pelos fundos imobiliários). A esquerda que não é radical e tem medo de ser radical fica sem programa. Ficar sem programa autónomo não parece mas é de facto deixar de existir. Portugal é um refugio para investidores em solo, e os governos do PS a toda a direita são os mediadores desse processo. Há muito que o Estado português é um protetorado de facto, e que a "economia" é pura rapina.
Não precisamos de construir sem parar, precisamos aliás de menos cimento e mais jardins. A Banca alemã e francesa determina o preço da casa. A IL, o Chega, o PSD, o PS querem construir, em solos agrícolas, para vender a estrangeiros (o Livre também entrou no jogo defendendo "arrefecer" mas não impedir a compra). Esses estrangeiros não são para "deportar", são "investidores". Até porque não estão cá a viver. Açambarcam casas. Ao meu lado estão 6 casas vazias, uma delas um T0 foi vendido há 2 anos por 200 mil euros, depois foi vendido a brasileiros por 225 mil euros, está à venda por 240 mil. Ninguém nunca lá viveu, é puro açambarcamento. Especulação. Nada mais.
Sem propriedade pública dos solos - que impeça a especulação que determina o valor astronómico das casas - e habitação massiva pública, bem como total proibição de quem não é residente regular comprar casas, nada se resolverá.
Sem nacionalização da Banca e das casas dos fundos imobiliários - que também são Banca - nada se resolverá e ontem o mais longe que foi o PCP foi ter "um contributo da Banca". Esta é a esquerda menos envergonhada, ou seja, não consegue dizer em palavras que uma sociedade não pode ter os investimentos em mãos privadas, banca privada, que isso nos torna a todos reféns de accionistas, que por sua vez são donos de cada vez mais casas.

Em 1974-75 uma onda generalizada de ocupação de casas que estavam para especulação fez cair o preço da habitação. Não porque muitas casas foram ocupadas (só foram ocupadas casas para especulação, nunca foram as de segunda habitação). A ocupação levou ao medo dos senhorios que estavam a especular que colocaram as casas no mercado e assim o preço caiu. Em muitas regiões grupos de trabalhadores ocuparam terrenos, muitos públicos, e construíram bairros. A partir das comissões de moradores. E claro, a banca foi colocada sob controlo público - na verdade foi nacionalizada para ver se se retirava aos trabalhadores bancários o controlo sob a Banca. Parece radical? Não parece. É.

O país está à venda, teve um apagão eléctrico, vai ter um apagão alimentar (só um ignorante pode achar que a Europa fala a uma voz, e que a Europa não se vai dividir em lutas entre os seus Estados), Portugal terá um apagão de combustíveis, tem já um apagão na saúde e na educação, porque não há carreiras e decência no trabalho. Tem um apagão moral, de um governo que é alegadamente o conselho de administração da Spinunviva aos governos que apoiam de facto o genocídio em Gaza, mantendo relações com Israel, há muito se bateu abaixo do fundo.

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quinta-feira, 9 de maio de 2024

O alerta severo de David Attenborough: Deixar florir os relvados. Parar os cortes até ao fim da floração.


O alerta severo de David Attenborough para evitar tarefas comuns de jardinagem até julho.
Sir David Attenborough exortou os britânicos a 'atrasar o corte' de seus relvados - e disse às pessoas que essa tarefa comum de jardinagem não deveria ocorrer até meados de julho.
O raciocínio por trás deste apelo não é apenas estético, mas também relacionado ao bem-estar de nossas populações de insetos. Insetos como borboletas, abelhas e vespas dependem fortemente de margaridas e outras plantas que crescem entre as lâminas da relva para polinizar e sustentar seus ecossistemas.
Sir David corroborou essas advertências no documentário sobre a natureza das Ilhas Selvagens da BBC. Ele destacou que cortar a grama alta pode perturbar e até matar esses insetos cruciais, que são parte integrante do ecossistema mundial.
Ele disse: “Nenhum lugar aqui é mais rico em flores silvestres e insetos polinizadores do que os nossos tradicionais prados de feno. Infelizmente, nos últimos 60 anos, perdemos 97% deste precioso habitat."

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sexta-feira, 3 de maio de 2024

Dia Mundial da Jardinagem Nua 2024


Dia Mundial da Jardinagem a Nu 2024 (World Naked Gardening Day) decorre no primeiro sábado de Maio e incentiva as pessoas de todo o mundo a fazerem jardinagem sem roupas em locais, sejam em espaços públicos ou privados, apropriados para a prática naturista.

Assim, se és adepto da jardinagem, aproveita este dia e celebra praticando a nu as tuas tarefas.

Segundo o programa Today da NBC, o Dia Mundial da Jardinagem Nua (WNGD, na sigla em inglês) "tornou-se uma tradição anual que celebra a jardinagem, a plantação de flores e a poda de sebes em trajes de banho. Embora esteja ligado a um movimento de nudistas que promovem a aceitação saudável e despudorada do corpo humano, o dia pretende ser divertido, descontraído e apolítico, dizem os fundadores."

Os organizadores afirmam que "além de ser libertador, a jardinagem nua só perde para a natação como atividade que as pessoas estão mais dispostas a considerar fazer nuas".

Para além da positividade corporal, Corky Stanton, da Clothes Free International, uma organização que promove o lazer nu, afirmou que o evento oferece os "benefícios adicionais do lazer nu e sem pudor: a satisfação de fazer exercício ao ar livre; a beleza de um bronzeado uniforme; mais vitamina D em todo o corpo; a experiência incomparável de nadar nu se o evento naturista envolver uma praia ou um lago."

domingo, 28 de abril de 2024

Zona de Coimbra de Monte Formoso em risco de extinção


Eucaliptos e pinheiro, pinheiro e eucaliptos e betão, hotéis e real state. Nas cidades, cantoneiras sem árvores, podas radicais continuam. Temos involuído a olhos vistos. Portugal está feio, pobre em diversidade florestal e pobre na criação de mais Paisagens protegidas.
Há pouco tempo passei por Coimbra.
A Zona de Coimbra de Monte Formoso, o último e único verdadeiro Jardim Natural Botânico de vegetação Nacional, está em vias de se tornar uma zona de prédios e estradas!!! Vamos perder um património natural Nacional que é de todos só porque alguém quer construir mais e mais e simplesmente não querem saber o que vão destruir!!! Contem-se nas fotos mais de 3 espécies de orquídeas, uma Empusa pennata (Louva-a-Deus) e uma diversidade fantástica de tantas outras flores e insectos! Colegas meus sinalizaram-na como zona de caça de andorinhas e andorinhões, milhafres, águias de asa redonda e até águias calçadas… mas como é tão extraordinário então toca a destruir! Toca a contribuir para a evolução da floresta nacional destruindo pouco a pouco os poucos jardins e paisagens realmente portuguesas e que mereciam queixa-crime no Ministério Público.

domingo, 7 de abril de 2024

Poema - Jardim das Flores Brancas


"No jardim das flores brancas,
Perfume subtil paira no ar,
Beleza que encanta, que lança
A sua aura de paz a contemplar.

Em cada pétala, uma história,
Um poema que a natureza compõe,
Numa dança suave e notória,
Que aos corações mais duros amolece.

Contemplação profunda, olhar sereno,
Nesse jardim, a alma se aquieta,
E encontra-se em cada pequeno
Detalhe, a essência que completa.

Flores brancas, símbolos de pureza,
No seu silêncio, segredos contidos,
Inspiração para uma alma em clareza,
Neste poema que busca os sentidos.

Que o jardim das flores brancas
Seja sempre fonte de inspiração,
E em sua beleza, as nossas esperanças
Encontrem renovada comunhão."

Foto e poema de João Soares. 07.04.2024

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Alterações climáticas e mão criminosa: a tragédia dos incêndios no Chile


Cidade mais afetada é Viña del Mar, onde pelo menos 1.600 pessoas ficaram sem casa. Há ainda duas centenas de pessoas por localizar.

Os incêndios florestais dos últimos dias no Chile já fizeram 122 mortos e não estão a dar descanso aos bombeiros. Em Viña del Mar, onde os fogos lavram com mais intensidade, pelo menos 1.600 pessoas ficaram desalojadas e um célebre jardim botânico de 1931 foi consumido pelas chamas este domingo.

Vários bairros na parte leste da cidade foram cercados pelas labaredas e pelo fumo, surpreendendo algumas famílias dentro das próprias casas. Segundo as autoridades chilenas, 200 pessoas estão dadas como desaparecidas em Viña del Mar e arredores, zona conhecida por ser uma popular estância balnear e por acolher um conhecido festival de música no verão do hemisfério sul.

A cidade de Quilpé, no centro do Chile, também foi fustigada pelos incêndios. O balanço de 122 mortes pode aumentar, já que as equipas de resgate procuram corpos por entre os destroços das casas que colapsaram, sendo que várias das pessoas que chegam aos hospitais estão em estado crítico.

O governador da região de Valparaíso, à qual pertencem Viña del Mar e Quilpé, acredita que alguns dos fogos têm mão criminosa. Os incêndios na área de Viña del Mar começaram em zonas montanhosas de difícil alcance, mas entretanto já se propagaram a bairros densamente povoados na periferia da cidade. Já foram consumidos 8.000 hectares de floresta e áreas urbanas. Para evitar pilhagens, foi decretado em algumas áreas o recolher obrigatório.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, declarou dois dias de luto. "Todo o Chile está a sofrer. Mas nós vamos reerguer-nos", afirmou.

Os incêndios no Chile começaram numa semana em que as temperaturas subiram até níveis sem precedentes no centro do país. Nos últimos dois meses, o fenómeno El Niño causou secas e temperaturas elevadas no oeste da América do Sul, o que tem aumentado o risco de incêndios florestais.

Desde quarta-feira, as temperaturas aproximam-se dos 40 graus no centro do Chile e na capital Santiago.

"Esta é a maior tragédia a que assistimos desde o terramoto de 2010", acrescentou, referindo-se ao terramoto de magnitude 8,8 seguido de um tsunami em 27 de fevereiro de 2010, que matou mais de 500 pessoas.

domingo, 17 de dezembro de 2023

A beleza e as propriedades medicinais da Rosa-de-Natal (Helleborus, sp.)


Como agora vivo numa região com casario, observo muito os jardins que os meus vizinhos têm. Hoje vi a rosa de natal ou Helleborus, sp.
Os Helleborus são soberbos arbustos perenes, fáceis de tratar e extremamente resistentes.
Apesar destas caraterísticas, que agradam a qualquer amante de plantas, é a sua época de floração em pleno inverno, que faz com que sejam obrigatórios em qualquer jardim.
Os Helleborus surpreendem-nos com uma riqueza de flores, no momento em que a natureza parece estar a dormir e o jardim está triste e sem cor. A maior parte das variedades começam a florir em novembro, suportando o frio e a neve.
Outras florescem no fim do inverno e continuam a sua floração até à primavera. Após a floração, os Helleborus funcionam como uma ótima planta de cobertura, desde o fim da primavera até ao outono.

Propriedades medicinais
Helleborus é usado no tratamento adjuvante de vários tipos de cancro, bem como de doenças inflamatórias crónicas. A planta contém propriedades de combate ao cancro como resultado da indução específica de apoptose através da via intrínseca do sinal mitocondrial. Também pode ser usado como suporte para ansiedade, demência, depressão e doença de Parkinson. No entanto, é importante lembrar que o uso desta planta deve ser feito com orientação médica, já que em grandes quantidades ela pode ser tóxica.

Alguns cuidados
A planta inteira, da flor às raízes, é tóxica e não comestível. Suas raízes são a parte mais perigosa e são potencialmente fatais se consumidas em grandes quantidades. A seiva da planta pode causar eczema e outras irritações se a pele entrar em contato com ela.
O heléboro é também tóxico para cães, gatos e cavalos.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Dia de Jimi Hendrix

Planta moreia- exótica mas muito bonita (Dietes bicolor)

"Quando o Poder do Amor superar o Amor pelo Poder, o mundo conhecerá a Paz"~ Jimi Hendrix (nascido a 27 de Novembro de 1942)

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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Dia Mundial da Alimentação: Quercus exige medidas do Governo para proteger os insetos polinizadores

Rainha: Bombus terrestris  Planta :Tilia cordata

Em vésperas de se celebrar mais um Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de outubro, a Quercus vem relembrar e sensibilizar para a relação direta entre o declínio dos insetos polinizadores e a segurança alimentar de uma população mundial em crescimento.

Nos últimos anos, são muitas as ameaças que têm conduzido ao declínio das populações de abelhas e de outros insetos polinizadores. Na Europa, cerca de um terço da população de abelhas e borboletas está em risco de desaparecer. Muitos são os estudos e relatórios que apresentam os fatores de declínio destes insetos, como a utilização crescente de pesticidas e fertilizantes sintéticos associados à agricultura intensiva e super-intensiva, doenças e parasitas diversos, interferência de espécies invasoras como a vespa velutina, também conhecida como vespa asiática, e as alterações climáticas.

Porém, sabe-se hoje que 75% das culturas agrícolas mundiais dependem, total ou parcialmente, dos insetos polinizadores para a produção de alimento. A polinização é um serviço dos ecossistemas vital para a natureza, para a agricultura e para o bem-estar humano. O papel essencial dos polinizadores foi, de resto, amplamente reconhecido pelas entidades governamentais após a Convenção para a Diversidade Biológica (CBD) ter estabelecido a Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI), apoiada e coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Na Europa, a Estratégia «do Prado ao Prato» representa um elemento fundamental do Pacto Ecológico Europeu e funciona em concertação com a Estratégia de Biodiversidade da União Europeia (UE) para 2030. Tornar os alimentos da Europa mais saudáveis e sustentáveis é o objetivo da UE, que fixa como principais metas reduzir a utilização de pesticidas em 50 % e reforçar a área de agricultura biológica em 25%, até 2030.

Todavia, a excessiva utilização de pesticidas, em particular do glifosato, compromete irremediavelmente o cumprimento destas metas. O glifosato é um herbicida tóxico bastante nefasto para as abelhas, o principal inseto polinizador do qual dependem muitas culturas agrícolas. Os dados disponíveis são preocupantes, não apenas porque confirmam que em Portugal se mantém o uso generalizado e excessivo de pesticidas (com a consequente contaminação dos solos agrícolas, da água e dos alimentos), mas também porque trazem a nu a total ausência de políticas e de medidas para inverter este estado de coisas.


Para tal, é essencial implementar medidas concretas e eficazes tais como restringir o uso intensivo de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura; fomentar a criação de refúgios para os insetos polinizadores, como corredores silvestres e hortas comunitárias; ou promover a manutenção dos prados floridos e da vegetação espontânea em geral. Medidas que poderiam e deveriam incluir também, e desde já, o fim da atribuição de subsídios agroambientais que continuam a permitir a utilização de pesticidas na agricultura.

Campanha SOS Polinizadores tem reforçado sensibilização
Sabe-se, hoje, que a segurança alimentar do Planeta depende diretamente da implementação de medidas urgentes de proteção dos insetos polinizadores. Através da campanha SOS Polinizadores (com vários materiais disponíveis ), a Quercus e a Jerónimo Martins têm vindo a acompanhar a temática do declínio dos insetos polinizadores e a desenvolver várias ações de sensibilização, reforçando sinergias com autarquias locais através de ações concretas que incentivem uma alimentação segura e uma agricultura mais sustentável, bem como a criação de mais espaços amigos dos polinizadores, como hortas e corredores silvestres nas cidades e nas escolas.

É fundamental aumentar a consciencialização da sociedade sobre a importância e a problemática do declínio dos polinizadores. Mais ainda, tendo em conta que, segundo relatórios da Comissão Europeia, Portugal não possui ainda um plano ou estratégia nacional ou local para a proteção de polinizadores selvagens, um passo essencial para ajudar a estabelecer metas uniformes para todo o país e servir de orientação para as entidades públicas e privadas responsáveis pela gestão dos espaços verdes em cada cidade.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Experiências de vida e genética influenciam a forma como vemos a Natureza

Para alguns de nós, a Natureza pode estar refletida em espaços verdes bem mantidos e cuidados (à direita), ao passo que para outros ela está em lugares ‘selvagens’, em que o toque e presença humanos é residual ou praticamente inexistente (à esquerda). 

A Natureza é definida por muitos como um ‘universo’ além dos espaços humanos, ao qual estão confinados os animais e as plantas selvagens, lugares intocados, ou ligeiramente alterados, embora as paisagens agrícolas possam também caber nessa categoria.

Apesar de o conceito de Natureza, como algo destacado da experiência e vivência humanas, tenha as suas raízes no pensamento ocidental, que pressupõe uma linha divisória entre os mundos social, ou humano, e natural, continua a ser a base da tradição científica dominante. Como tal, e numa altura em que se mobilizam muitos esforços, vontades e fundos para atenuar os impactos humanos sobre o planeta, saber como as pessoas veem a Natureza é fundamental para que se possa perceber onde estará o epicentro dos problemas.

Cada pessoa tem uma forma diferente de percecionar a Natureza – umas adoram-na, outras olham para ela como um conjunto de recursos a explorar, e outras são indiferentes –, mas investigadores suíços acreditam que essas perceções são influenciadas quer pela nossa genética, quer pelas experiências e aprendizagens ao longo das nossas vidas.

Num artigo publicado na revista ‘Trends in Ecology & Evolution’, os cientistas da Universidade de Gotemburgo e da Universidade Sueca de Ciências Agrárias defendem que a hereditariedade e o ambiente em que crescemos são ambos fatores que determinam as nossas atitudes para com a Natureza.

Através da revisão de múltiplos estudos sobre como os humanos percecionam o mundo natural, os investigadores concluíram que essas perceções são construídas por “uma interação entre a hereditariedade e a influência ambiental”, salientando que cada um de nós reage de forma diferente perante a Natureza.

Um dos trabalhos revistos foi um estudo realizado no Japão que comparou os batimentos cardíacos de pessoas enquanto passeavam na floresta e na cidade, e revelou que 65% dos sujeitos experienciou uma redução do ritmo cardíaco enquanto caminhava por entre as árvores. Os investigadores consideram que esta é uma prova de que nem todas as pessoas reagem da mesma forma à Natureza.

Outro estudo apontava que as pessoas cujas infâncias tiveram uma forte componente de contacto com o mundo natural eram mais atraídas pela Natureza do que as demais.

Isto, relativamente ao peso das experiências de vida na forma como vemos a Natureza. No que toca à influência genética, Bengt Gunnarsson, um dos autores do artigo, recorda que um outro trabalho sobre gémeos idênticos e ‘falsos’ mostrava que “uma componente genética influencia a relação positiva ou negativa de um indivíduo com a Natureza”, acrescentando que esse trabalho “também salientava a importância do ambiente”.

A dupla de cientistas suecos diz, no entanto, que devemos evitar generalizações sobre como as pessoas veem a Natureza e sobre o que entendem que ela seja. Para uns, a Natureza pode ser vista em jardins urbanos bem mantidos, com relva aparada, ao passo que para outros pode significar florestas repletas de animais e plantas selvagens.

E acreditam que mesmo essa distinção pode ser influenciada quer pela genética, quer pelas experiências que essas pessoas tiveram aos longo das suas vidas.

Apesar das conclusões desta investigação, Bengt Gunnarsson afirma que futuros estudos que aprofundem a compreensão “das interações entre os fatores de hereditariedade e ambientais são essenciais se quisermos compreender o que molda as relações dos indivíduos com a Natureza”.

Diversos são os planos implementados e em marcha para tornar mais verdes as cidades em que vivemos. Mas a diversidade de visões sobre o que é, ou o que deveria ser, a Natureza, poderá ter efeitos muito diferentes sobre cada uma das pessoas. Por isso, o cientista sublinha que “temos de nos recordar que somos todos diferentes” e que os planos para aumentar os espaços verdes em contextos urbanos devem ter em conta as diversas perceções e não assumir que existem ‘soluções de tamanho único’.

A consciência dessa diversidade de perceções, na ótica destes autores, será fundamental para que todas as pessoas possam encontrar nas suas cidades espaços verdes que correspondam à sua ideia de Natureza e nos quais possam experienciar os benefícios que têm sido associados a esses lugares.

sábado, 13 de maio de 2023

Abandone a sua pá, esqueça o fertilizante, ouça as ervas daninhas: o guia para uma jardinagem descontraída


Ansioso para colocar os seus canteiros de flores ou hortas em forma, agora que a primavera finalmente chegou? Não tão rápido! A vida é muito mais fácil quando você trabalha com a natureza e não contra ela

Depois de quase 30 anos de jardinagem, vários deles em boas instituições, como a Royal Horticultural Society e Kew Gardens, percebi que muito do que me ensinaram, se não está errado, também não está exatamente certo. Todo aquele esforço trabalhoso – capinar, fertilizar, cavar, cuidar e podar, selecionar e conformar – não está funcionando. Não pelas plantas, pelo solo ou pela comunidade ao seu redor, o que inclui você e eu. Culturas indígenas em todos os lugares basearam suas práticas em observar e honrar a ecologia, enquanto nós, no “mundo desenvolvido”, escrevemos nossas regras. Nossa tentativa de controlar a natureza tem perpetuado relações precárias com todos os seres do jardim, transformando tudo em uma espécie de batalha, ou regimes sem fim, seja ceifando, capinando, regando ou atacando algum bicho. É muito trabalho e hoje em dia muito mais do que estou preparado para fazer. Agora a primavera está finalmente se desenrolando, esta estação de crescimento, talvez, em vez de trabalhar em nossos jardins, todos pudéssemos relaxar um pouco, passar mais tempo olhando e ouvindo, esperando em vez de reagir, estando no jardim tanto quanto jardinando ativamente. Aqui está como é feito.

Deite fora a sua pá
Se você estiver minimamente interessado em jardinagem, já deve ter ouvido falar de “no dig”, no qual você evita sua pá e pega numa enxada. Em vez de revirar o solo, uma estrutura que levou centenas de milhões de anos para ser construída e, portanto, pensou muito sobre qual caminho deveria ser, você capina levemente ou “faz cócegas” no solo para remover quaisquer ervas daninhas indesejadas e deixa suas multidões de micróbios, fungos e insetos intactos, exatamente onde eles querem estar. Micróbios felizes tornam as raízes das plantas felizes, mais capazes de absorver nutrientes, combater pragas e doenças e resistir à seca. Conforme você continuar fazendo isso, haverá menos ervas daninhas para remover.

Todo solo tem seu banco de sementes de ervas daninhas: diz o ditado que uma semente de um ano são sete anos de ervas daninhas, mas na verdade são décadas para várias delas. Eles estão lá não para incomodá-lo, mas para agir como um colete salva-vidas para o solo. O solo exposto e livre de ervas daninhas é muito facilmente danificado ou erodido pelo clima: o sol o queima, o vento assola, a chuva o abate, compactando-o ou se vier um dilúvio, causando escoamento. Mais uma vez, aqueles vários milhões de anos de evolução não eram um sistema parado, mas avançando para um ponto de auto-resiliência. A grande maioria das sementes de ervas daninhas precisa de luz para germinar. Quanto mais você perturba o solo, abrindo-o, cavando coisas, mais luz você deixa entrar e mais o solo tem que correr para se proteger. Ele libera seu banco de sementes de ervas daninhas como uma camada protetora para manter o sistema unido.

Facilitar a remoção de ervas daninhas
Falando em ervas daninhas, é hora de abandonarmos a palavra completamente. Até mesmo a própria exposição de flores de Chelsea já está a redefinir  as ervas daninhas como “plantas heroicas”. Talvez possamos falar deles como pessoas comuns ou anciãos (eles existem há muito mais tempo do que nós), porque cada erva daninha no seu jardim está a tentar lhe dizer algo muito importante.

Quanto mais um tipo domina, mais alto é o sermão. Os dentes-de-leão estão dizendo que seu solo é um pouco compacto, com poucos nutrientes superficiais, principalmente cálcio e potássio; as urtigas dizem que há muito azoto na superfície (não tão bom quanto parece). Uma enxurrada de ervas daninhas anuais – erva-do-mato comum, morugem e agrião-menor – dizem que o seu solo é dominado por bactérias, enquanto cardos, docas, alcanetes verdes e confrei são outro sinal de que a superfície está com poucos nutrientes e apenas aqueles com raízes longas para minar a camada do subsolo pode prosperar. As silvas tendem a proliferar onde há excesso de azoto, mas a terra foi deixada em paz para que elas possam se desenvolver melhor. Há alguma evidência, porém, de que elas têm um papel potencial na regeneração natural de mudas de árvores: os cervos não vão pastar no meio de um matagal e, numa floresta, isso significa que as mudas de árvores não serão mordiscadas, enquanto os fungos micorrízicos vão explorar a rede da floresta para aumentar as mudas com crescimento suficiente para compensá-lo e sair do matagal.

Uma vez que você comece a estudar a ecologia de qualquer coisa que chamamos levianamente de erva daninha, você descobrirá que é fundamental na reciclagem de nutrientes, fornecendo alimento na forma de néctar e pólen para todos os tipos de insetos, em todos os tipos de clima. E não apenas para polinizadores, mas também para coisas como minadores de folhas que se transformam em micro-mariposas e moscas que se transformam em comida para bocas famintas saindo do ninho, que se transformam em comida para aves de rapina voando alto. "Eu sei", eu ouço você chorar. Claro que sim, mas aposto que você ainda sai capinando quando não precisa.

Muitas dessas pessoas comuns chegam para ajudar o solo. Se você diminuir a remoção de ervas daninhas (você ainda terá que intervir algumas vezes) e, em vez disso, prestar atenção ao solo, muitas das pessoas comuns rapidamente se tornarão pessoas ocasionais. Os anuais são um sinal de que o solo se tornou dominado por bactérias, tendo evoluído de planícies aluviais a prados e campos, e prosperando na companhia de bactérias. Eles não prosperam nos solos dominados por fungos das florestas. Os fungos prosperam em solo rico em carbono porque é isso que eles comem.

Se você tiver muitas ervas daninhas anuais, adicione mais carbono ao seu solo na forma de composto caseiro volumoso, papelão (pode ser triturado, pode ser colocado como uma folha, pode ser adicionado à sua compostagem doméstica) ou folhas marrons (você nem precisa fazer molde de folha). Você não precisa cavar - as minhocas irão incorporar tudo no solo. Ou seja, se você desistiu de sua pá porque uma das maiores ameaças às minhocas é nosso hábito de arar e cavar, em parte porque se você for cortado ao meio, não volta a crescer e porque os túneis de minhocas têm sua própria bela arquitetura que suporta o solo, mas não se eles desabaram.

Abrace a podridão e a morte
'Se uma coisa prolifera em um sistema natural, outra coisa virá para aproveitar esta oportunidade.' 

Então, deitamos fora a pá, consideravelmente afrouxada na capina; agora é hora de abrir mão da arrumação. Todos nós fazemos isso, removemos uma folha amarelada ou mordiscada, varremos as folhas gastas e pegamos gravetos, podamos os mortos e moribundos. Em parte porque a ideia era que todo esse material abrigasse lesmas, outras pragas e doenças. Pode, mas a praga de uma alma é o jantar de outra. É verdade que as lesmas adoram uma pilha de folhas húmidas e levemente apodrecidas, mas também os escaravelhos que as caçam.

Esta história se repete continuamente: se uma coisa prolifera num sistema natural, outra coisa, às vezes muitas coisas, virá para aproveitar essa oportunidade, para restaurar o equilíbrio. Um jardim que consegue encontrar esse equilíbrio não tem problemas com pragas ou doenças – tem seres, que vivem e morrem, às vezes prosperando, mas raramente à custa de todo o sistema. Esse acto de equilíbrio leva tempo, vários anos ou mais, mas eu prometo a você: até as lesmas se acalmam. Apodrecimento, doenças, pragas são apenas o sistema de reciclagem da Terra. Não é um grande ato de fé confiar no tempo. As plantas existem há muito mais tempo do que jardinagem, com muito tempo para trabalhar nas nuances da reciprocidade.

Pare de perseguir o crescimento rápido
Desde a II Guerra Mundial, temos adorado falsamente o azoto e o fósforo como reis no jogo dos fertilizantes. Os fertilizantes sintéticos, uma ressaca muito ruim da fabricação de bombas, nos levaram a acreditar que poderíamos manipular o sistema. Usá-los significava que os agricultores podiam transformar cada pedacinho de solo num campo, pelo menos por um tempo, e isso se refletiu na maneira como jardinávamos.

Há um debate muito mais amplo sobre o uso excessivo de fertilizantes , em particular o azoto, na agricultura, mas isso está fora de nosso controle. O jardim não é.

Não há necessidade de produtos químicos manufaturados de qualquer tipo aqui. Em primeiro lugar, todos os solos diferem, mas os fertilizantes sintéticos, particularmente os vendidos a jardineiros, adoptam uma abordagem de tamanho único. Independentemente de onde você esteja, você aplica a mesma quantidade de alimento vegetal. Estes fertilizantes sintéticos não ficam in situ; eles fogem. E há evidências de que, com o tempo, eles podem esgotar o carbono armazenado dos solos , reduzindo a fertilidade, mesmo que a matéria orgânica ainda seja adicionada. Em resumo, se você compra fertilizantes, está pagando por ganhos de curto prazo. O composto caseiro é gratuito e vai construir o seu solo, ajudando a armazenar carbono e a alimentar as suas plantas. Mesmo se você fizer isso muito mal.

Composto in situ

Chega de trabalho pesado... deixe o seu solo fazer o trabalho pesado 

Se você deseja uma abordagem ainda mais despreocupada, pode fazer a maior parte da compostagem sem espalhar coisas. Não limpe as suas colheitas gastas, deixe os caules e as folhas da abóbora, derrube os pés velhos de tomate e feijão e deixe tudo na terra. Você pode cobri-lo para acelerar as coisas - os jardineiros tendem a usar plástico preto por conveniência, mas o papelão é abundante, gratuito e fácil o suficiente para um pequeno jardim. Coberto ou não, permite que os resíduos da colheita voltem direto para o lugar de onde vieram. Se você quiser plantar de volta no espaço que acabou de colher ou limpar, tente cortar, aparar, triturar ou cortar manualmente as colheitas usadas e plantar diretamente nelas. É mais rápido, evita carregar coisas para a pilha de compostagem e vice-versa e cria um solo maravilhoso e friável. Toda aquela noção de capinar e ajuntar o solo para fazer uma boa lavoura para crescer? Acontece que é melhor feito pelo sistema do solo do que pelo seu suor.

Não estou sugerindo que devamos desistir do composto. Ainda é a melhor maneira de lidar com a matéria orgânica doméstica, seja restos de comida, papel e papelão, pêlos de animais, etc. Os métodos de solo podem levá-lo a um solo mais rico com menos esforço e menos custo. E se você trouxer composto, nunca, nunca use turfa. Estamos a destruir preciosos habitats de turfa que precisamos para armazenamento de carbono, água limpa e gestão de enchentes. Os seres vivos que vivem em turfeiras não querem viver em mais nenhum outro lugar, então não vamos destruir a sua casa pelas idiotices da jardinagem.

Incentive a promiscuidade das plantas
Finalmente, vamos abraçar o diverso, o ligeiramente diferente, o variável em nossas flores e alimentos. Durante milénios, selecionamos e cultivamos plantas para que elas nos beneficiem – esta é a nossa história de origem. Mas, por muito tempo, esse foi um processo descontraído de deixar os polinizadores trabalharem, guardando sementes, crescendo e percebendo o que funcionava melhor nas condições em que você estava. É conhecido, tecnicamente, como criando um landrace, uma cultivar antiga que é variável, muitas vezes contendo muitos alelos (formas de genes) que não estão presentes nas cultivares modernas altamente cultivadas. A Jardinagem Landrace é o oposto: semelhante a uma orgia de plantas, você permite que todas as suas variedades de cenoura, ou o que quer que esteja cultivando, se polinizem entre si para criar uma população reprodutora diversificada. É uma estratégia de sobrevivência que diversifica o pool genético, tornando-o melhor preparado para o futuro do que é algo altamente criado.

'Não sabemos para onde estamos indo, mas é melhor irmos preparados com um amplo pool genético.' 

O resultado é uma beterraba ou um feijão ou uma flor que não é uniforme; à medida que os diferentes alelos desempenham sua expressão, uma raça varia em cor, tamanho, textura e até sabor. Qualquer um pode se tornar um jardineiro Land Race . É uma experiência divertida de mais de cinco anos que exige muito pouco esforço e o recompensará com vegetais e flores que funcionam inteiramente para o seu sistema de cultivo e solo. Não quer passar o verão todo regando excessivamente (posso lembrar como o verão passado foi quente)? Crie uma folha verde que não precise dela. Tem solo pobre? Crie uma batata que adora. Quer um tomate com gosto de alguma coisa, mas não se importa com uma geada tardia? É tudo possível.

Semeie todas as variedades nomeadas que tenham as características que deseja, cultive-as e, com a ajuda das abelhas, promova a promiscuidade e deixe-as fazer a polinização cruzada. Selecione e salve sementes apenas daquelas que se dão bem em seu solo. Comece novamente na próxima primavera, semeando a sua semente salva. Até a metade pode não sobreviver, mas você terá muitas sementes, então não importa. Deixe os polinizadores nas novas plantas, selecione as sementes daquelas que estão funcionando e continue. Em algumas temporadas, você pode ter alho totalmente adaptado ao seu solo – pode levar mais alguns anos para encontrar aquela abóbora ou tomate perfeito.

Não sabemos para onde estamos indo no que diz respeito ao nosso futuro neste planeta, mas podemos ir preparados com um amplo pool genético, em relação às nossas plantas populares comuns e as suas comunidades, maravilhados com os nossos insetos, fascinados pelos nossos amigos fungos, com os nossos solos e as nossas energias reabastecidas. E como qualquer grupo de amizade, isso é feito melhor saindo, relaxando e aproveitando a companhia um do outro.

Em tudo isso, não estou defendendo a desistência da jardinagem, mas mudando a perspectiva do que precisa ser feito. Se o dente-de-leão, as azedas ou as amoras não estiverem no caminho que esperava, deixe-as. Se a planta cair numa orgia de pulgões, deixe-a para algum outro ser do jardim limpá-la. Deixe as plantas morrerem no lugar, aprenda a observar e observar antes de fazer qualquer movimento. Você verá que a natureza está muito mais disposta a ajudar do que a causar problemas.

Para saber mais:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Para onde foram todos os pardais? Culpe os pesticidas de jardim


Costumo imaginar que a maioria das pessoas que ama seus jardins também ama a vida selvagem e deseja fazer o possível para ajudá-la a prosperar.

Claro, isso não é inteiramente verdade. Algumas pessoas adoram um jardim com um gramado falso. Alguns não se importam com o que é necessário para garantir que sua horta esteja livre de ervas daninhas e pragas.

Mas a maioria de nós realmente se importa - e se você é uma dessas pessoas e ainda usa herbicida e pesticida, um novo estudo de pesquisadores da Universidade de Sussex certamente fará você pensar novamente. O relatório foi intitulado “Qualidade do habitat, urbanização e pesticidas influenciam a abundância e riqueza de pássaros em jardins” e destacou os efeitos negativos dos pesticidas nas espécies de pássaros.

Descobriu-se, por exemplo, que a abundância média de pardal-doméstico era 12,1% menor em jardins que aplicavam qualquer pesticida, 24,9% menor com glifosato e 38,6% menor com metaldeído.


Como seu autor, Dave Goulson (que também escreveu um livro de alerta sobre o “apocalipse dos insetos”, Silent Earth) resumiu a importância do relatório: “Agora há evidências esmagadoras de que os pesticidas prejudicam a vida selvagem e o meio ambiente.

“Esses produtos químicos simplesmente não são necessários em nossos jardins. Por que pulverizaríamos veneno onde nossos filhos e animais de estimação brincam? Devemos simplesmente proibir o uso de pesticidas urbanos e domésticos, seguindo o exemplo da França”.

Antes comuns, os pardais caíram 70% no Reino Unido. Enquanto isso, o uso de pesticidas de jardim continua onipresente. O estudo constatou que 32% dos jardins participantes usavam pesticidas – embora as taxas de uso fora desse grupo de observação de pássaros autosselecionado provavelmente sejam mais altas. Uma pesquisa online de 2019 do Health and Safety Executive (HSE) do Reino Unido descobriu que, dos jardineiros pesquisados, 42,8% usavam pesticidas.

O pesticida mais amplamente utilizado no estudo de Goulson foi o glifosato. A chamada para proibir este organofosforado não é, obviamente, uma notícia recente. Outros países já o proibiram e a OMS em 2015 o descreveu como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Talvez, no entanto, o que devemos prestar mais atenção seja o seu impacto sobre os insetos. O glifosato, embora seja um herbicida, inibe a capacidade das abelhas de manter suas colónias na temperatura certa.

Foi demonstrado que afeta o sistema imunológico dos insetos e prejudica o microbioma intestinal das abelhas. Os insetos alimentam a maioria dos pássaros e morcegos. Eles são polinizadores e recicladores. O que prejudica a biodiversidade de insetos prejudica a todos nós.

O estudo de Goulson se soma a um corpo de pesquisa que sugere que devemos observar o impacto indireto de um produto químico – sua redução, por exemplo, na disponibilidade de alimentos para pássaros – bem como seus efeitos diretos.

Ainda assim, nós no Reino Unido estamos muito longe de bani-lo até mesmo dos jardins. O Roundup contendo glifosato ainda é vendido em Wickes e Homebase. The Range vende um herbicida glifosato concentrado. Eu poderia continuar com a lista, mas agora corro o risco de soar como um fornecedor querendo ligá-lo a revendedores exatamente das substâncias que não quero que você compre.

Não só isso, mas este produto químico parece estar disponível no Reino Unido por alguns anos, apesar de ser proibido em outros países. A razão para isso é que, após o Brexit, como parte do processo de aprovação, todos os pesticidas com vencimento antes de dezembro de 2023 foram prorrogados por três anos, até 2026.

Um relatório da Ferret no ano passado descobriu que todos os conselhos escoceses ainda usavam glifosato. Nos 31 (de 32) conselhos que responderam ao seu pedido de liberdade de informação, eles descobriram que 40.250 litros do herbicida foram usados. Mais de 18.000 litros foram aplicados pelos maiores usuários, Glasgow, Edimburgo, Fife, Aberdeenshire e Aberdeen City.

Enquanto isso, outros pesticidas também foram associados, por meio do estudo de Goulson, à queda no número de pássaros. Estes incluíram o inseticida acetamiprid, o inseticida deltametrina e o produto químico encontrado em pellets de lesma, metaldeído.

A boa notícia é que os grânulos de balas de metaldeído foram proibidos de vender ou usar no ano passado.

Mas e a deltametrina? Sim, você ainda pode obtê-lo em produtos como Provanto Ultimate Fruit and Vegetable Bug Killer, disponível na Wilko e online.

Precisamos colocar a natureza no centro da jardinagem. Como disse Dave Goulson, “a vida selvagem do Reino Unido está em rápido declínio, mas nossos jardins podem ser um refúgio para muitas espécies. Nosso novo estudo mostra que a maneira como cultivamos tem uma enorme influência no número e na variedade de pássaros que vivem em nossos jardins”.

Alguns podem ficar tristes com a ideia de que o jardim perfeito e de fácil manutenção acabou. Mas é melhor um jardim selvagem e maravilhoso rico em biodiversidade do que um que parece perfeito, mas está morrendo.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Seco há 50 anos, o Aqueduto de Lisboa vai ser reativado — a água vai voltar a circular


O Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, foi desativado em 1973 devido à diminuição dos caudais das nascentes. Mandado construir por D. João V no século XVIII, ergue-se sobre o vale de Alcântara, localização que lhe permitiu sobreviver ao terramoto de 1755.

Após cinco décadas a seco, o aqueduto voltará a ter água já a partir de 2023, anunciou a Empresa Portuguesa de Águas Livres (EPAL) na sexta-feira, 25 de novembro. O circuito vai voltar a ser ativado graças ao reaproveitamento de águas, que serão posteriormente utilizadas para regar jardins na Amadora e em Lisboa.

A partir do próximo ano, também será possível fazer todo o percurso do monumento nacional, do Aqueduto geral até à Mãe d’Água das Amoreiras, além da já conhecida travessia do Vale de Alcântara. À galeria subterrânea Loreto, que já está aberta ao público, deverão juntar-se as restantes quatro galerias que fazem parte do sistema.

As novidades não ficam por aqui: a empresa também irá instalar 200 bebedouros pela cidade. Os primeiros 50 já estão instalados, sendo que os restantes deverão estar prontos até ao final do primeiro semestre de 2023.

O lago do Jardim do Príncipe Real, que foi “concebido e organizado à volta de um grande lago octogonal com repuxo”, também será reabilitado. Segundo a EPAL, o lago funcionará em circuito fechado de água para uma maior poupança de água.

Outros dos projetos da EPAL que prometem revolucionar a vida em Lisboa são a reabilitação do Reservatório da Penha de França, a instalação de painéis fotovoltaicos em recintos da empresa em Lisboa, a construção de um novo edifício na Rua José Gomes Ferreira, em Campos de Ourique, com habitação e escritórios, e reabilitar o edifício do Páteo do Tronco, na Avenida da Liberdade, para criar dois tipos de unidades de alojamento que possam ser utilizadas por estudantes.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Rede portuguesa de Estações de Borboletas Nocturnas já registou mais de 500 espécies



Saber onde estão e quando voam as borboletas nocturnas de Portugal é o objectivo da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas. Desde que começaram em janeiro de 2021, os cidadãos que estão a registar estes insetos em 50 locais de amostragem, incluindo em quintais e varandas de Norte a Sul do país, já fizeram mais de 11.000 registos de 512 espécies. Os resultados de 2021 já estão publicados na plataforma GBIF (Global Biodiversity Information Facility).

A Wilder falou com João Nunes, coordenador do projecto de ciência-cidadã Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN), e com a restante equipa. Aqui contam como funciona esta rede de vários locais de amostragem dispersos pelo país onde, de uma forma coordenada, se faz a amostragem destes insectos com recurso a um método estandardizado baseado em armadilhas luminosas. Além de aumentar o conhecimento sobre as espécies de Portugal, esta rede ajuda a reunir os naturalistas num objectivo comum.

WILDER: Quando e porquê começou esta a REBN a funcionar?

REBN: A Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN) começou a funcionar em Janeiro de 2021. Apesar de Portugal ter cerca de mais de 2.600 espécies de borboletas nocturnas conhecidas, os aspectos da ecologia e fenologia de muitas espécies são ainda mal conhecidos. Assim, achámos que um projecto de ciência-cidadã poderia ser a solução para uma amostragem em grande escala e de forma sistemática. Outro aspecto muito importante do projecto é a divulgação e sensibilização para a diversidade de espécies de borboletas nocturnas e o seu papel como bioindicador da qualidade dos habitats.

W: Neste momento, quando estão prestes a fazer dois anos, quantas estações existem e onde se encontram?

REBN: Neste momento temos 50 locais de amostragem, que designamos de “Estações”. Estas estações estão distribuídas por todo o país e em vários habitats diferentes, que vão desde varandas em prédios inseridos em ambiente urbano até zonas dunares. Todos os habitats são interessantes de amostrar embora, por uma questão de facilidade de acesso regular, muitas estações estão localizadas em jardins e quintais. Uma característica demográfica do nosso país é também reflectida na distribuição das estações, já que muitas estão concentradas na faixa litoral, onde há uma maior concentração de população. Esta é uma tendência que gostaríamos de contrariar e estimular a criação de estações no interior do país, que é muito biodiverso.

W: Qual o objectivo desta rede?

REBN: Um dos grandes objectivos da REBN é a recolha sistemática de dados sobre borboletas nocturnas em Portugal. Estes dados podem depois ser trabalhados de vários ângulos, mas de forma mais imediata é possível obter dados sobre a distribuição das espécies no território e períodos de voo. Pretendemos que a REBN seja um projecto de amostragem a longo prazo, de forma a trabalhar as tendências populacionais para as espécies mais comuns. Só com uma amostragem continuada no tempo, regular e padronizada é possível detectar variações nas populações de borboletas nocturnas. A REBN disponibiliza integralmente os dados que recolhe na Global Biodiversity Information Facility (GBIF), uma plataforma que agrega dados biológicos e que permite outros investigadores utilizarem os dados.

Ao integrarmos cidadãos que nunca tiveram contacto com as borboletas nocturnas estamos também a criar uma maior consciencialização para a diversidade de espécies e a necessidade de preservação dos habitats. Apesar de os dados serem muito úteis quando analisados em conjunto, há também uma outra dimensão local que é desafiante para os participantes, por exemplo, perceber quantas espécies visitam o seu jardim ou quintal.

W: Quem coordena as estações e de quem partiu a iniciativa?

REBN: A iniciativa para a criação deste projecto partiu do Helder Cardoso, ornitólogo e que se dedica a estudar borboletas nocturnas de forma amadora há 12 anos. Na sequência de amostrar durante vários anos na região Oeste, surgiu a ideia de tentar comparar dados com outros locais e seguiu-se o contacto com outros entusiastas das borboletas nocturnas. Rapidamente a ideia evoluiu para a criação de um projecto de ciência-cidadã. Os moldes do projecto são muito próximos do que tem vindo a ser feito noutros países do norte e centro da europa, caso do Reino Unido, Holanda ou Bélgica.

Neste momento o projecto é coordenado por um grupo informal de seis elementos (Ana Valadares, Helder Cardoso, João Nunes, João Tomás, Paula Banza e Thijs Valkenburg) e conta com o apoio de outras pessoas organizadas em pequenos grupos de trabalho, dedicados à edição do boletim informativo ou à divulgação do projecto.

W: Em que consistem estas estações e como funcionam?

REBN: A REBN é essencialmente uma rede de pontos de amostragem de borboletas nocturnas (Estações), com recurso a armadilhas luminosas não letais. Estas armadilhas são colocadas num local fixo e que, idealmente, não sofra muitas alterações de habitat. O princípio de funcionamento é muito simples: a lâmpada vai atrair as borboletas para dentro de uma caixa de retenção temporária. As borboletas ao entrarem, têm dificuldade em sair e vão ficar pousadas nas caixas de ovos vazias no interior.

As armadilhas devem funcionar pelo menos uma vez por mês, onde a lâmpada é ligada ao final do dia e fica a atrair borboletas a noite toda para dentro da caixa de retenção. Na manhã seguinte a armadilha é visitada e procede-se à identificação e contagem do número de indivíduos por espécie e as borboletas são posteriormente libertadas.

As amostragens decorrem durante todo o ano, já que muitas espécies estão apenas activas nos meses de inverno.

Mensalmente temos também a publicação de um boletim informativo (Borboletim). No boletim são abordados diversos temas relacionados com as borboletas nocturnas, incluindo artigos de identificação de espécies mais difíceis e também uma compilação dos dados do mês anterior. Qualquer pessoa pode subscrever o boletim gratuitamente e ficar a par do que se vai fazendo no projecto.

W: As pessoas comuns podem participar? Se sim, como? É preciso ter conhecimentos sobre estes insectos?

REBN: A participação na REBN é aberta a todos, mesmo a quem não tem qualquer tipo de experiência prévia com borboletas nocturnas e a sua identificação. Basta ter vontade de aprender e descobrir o mundo natural.

O primeiro passo para começar a participar é contactar a REBN de forma a podermos explicar como construir uma armadilha simples e onde a colocar. Criámos ainda várias ferramentas com o intuito de auxiliar quem está a começar incluindo um e-mail dedicado a dúvidas de identificação, um pequeno guia das borboletas nocturnas mais comuns e um grupo de Facebook.

W: Na vossa opinião, qual a importância deste projecto?

REBN: Projectos de monitorização de invertebrados são algo de extrema importância no panorama actual para que possamos perceber e quantificar, a longo-prazo, as tendências nas populações destes organismos. O declínio dos insectos é uma problemática conhecida. Contudo, em Portugal não temos dados passados que nos permitam quantificar com rigor quanto perdemos até agora, ou quanto o cenário se modificou até agora. Projectos semelhantes à REBN já existem em alguns países da Europa. O projecto inglês já conta com mais de 30 anos de dados, o que permitiu constatar recentemente (“The State of Britain’s Larger Moths 2021 report”), entre outras coisas, a alteração dos padrões de distribuição de algumas espécies e uma generalizada queda na abundância. Este projecto pioneiro em Portugal permitirá, a longo-prazo, avaliar o estado das populações, a real fenologia e distribuição das espécies e a sua variação no tempo. A recolha de informação já começou, agora é a parte mais difícil, manter as amostragens. As borboletas nocturnas são um grupo usualmente utilizado neste tipo de estudos devido à facilidade de atracção destes animais.

Fonte e mais fotos: aqui

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Alterações climáticas: Cientistas alertam que é preciso agir rapidamente para proteger os insectos (e a espécie humana)


Numa revisão científica publicada agora, na mesma semana em que decorre a Cimeira do Clima COP27, uma equipa com 70 cientistas, de 19 países, avisa que não há tempo a perder e é preciso agir rapidamente.

Se não forem dados passos para proteger os insectos face às consequências das alterações climáticas, isso irá “reduzir drasticamente a nossa capacidade de construirmos um futuro sustentável baseado em ecossistemas saudáveis e funcionais”, alerta este novo artigo, que analisou os resultados de pesquisas realizadas por todo o mundo.

Os autores do trabalho, publicado na Ecological Monographs, lembram que o aquecimento global e os eventos climáticos extremos já estão a pressionar algumas espécies de insectos rumo à extinção. E se nada for feito, as coisas só vão piorar. “Alguns insectos vão ser forçados a mudar para climas mais frios para sobreviverem, enquanto outros vão enfrentar impactos na sua fertilidade, ciclo de vida e nas interacções com outras espécies”, explica uma informação sobre a revisão agora publicada, divulgada pela Universidade de Maryland.

O problema é que essas “disrupções drásticas dos ecossistemas” podem reflectir-se nas pessoas, afirma Anahí Espíndola, um dos co-autores do artigo e ligado àquela universidade americana. “Precisamos de perceber, como humanos, que somos uma espécie entre milhões de espécies, e que não há razão para assumirmos que nunca nos vamos extinguir. Estas mudanças nos insectos podem afectar a nossa espécie de formas muito drásticas.”

Ondas de calor? Insectos estéreis

Entre os vários efeitos das alterações climáticas incluídos no âmbito desta revisão, está por exemplo o declínio de várias espécies de abelhões na América do Norte. “Os insectos de sangue frio estão entre os grupos de organismos mais afectados pelas alterações climáticas, porque a sua temperatura corporal e metabolismo estão fortemente ligados à temperatura do ar circundante”, explica Jeffrey Harvey, que liderou esta revisão.

“A mudança gradual na temperatura global à superfície impacta os insectos na sua fisiologia, comportamento, fenologia, distribuição e interacções com espécies”, descreve o mesmo investigador, ligado à Universidade Vrije de Amesterdão e ao Instituto de Ecologia da Holanda, citado num comunicado desta última instituição.

Outro dos exemplos avançados é o efeito das ondas de calor sobre as moscas-da-fruta, as borboletas e os besouros-da-farinha (géneros Tribolium e Tenebrio). Estas espécies conseguem sobreviver, mas ficam estéreis e incapazes de assumir uma das suas principais funções: a reprodução.

Quanto aos serviços de ecossistema que podem acabar afectados pelas alterações climáticas, a equipa avança com três exemplos. Desde logo, os insectos reciclam os nutrientes e são um alimento para outros seres que estão mais acima na cadeia alimentar, incluindo os humanos. Em segundo lugar, o grupo dos polinizadores – como as abelhas, as moscas-das-flores e as borboletas – assegura o fornecimento de uma parte importante da comida a nível mundial. Em contrapartida, só os ecossistemas saudáveis é que evitam o crescimento descontrolado de pestes e de insectos portadores de doenças.

“Ao longo do tempo, os insectos precisam de ajustar os seus ciclos de vida sazonais e a sua distribuição, à medida que o mundo aquece”, acrescenta Harvey. “No entanto, a sua capacidade para fazer isso é prejudicada por outras ameaças de origem humana, como a destruição de habitats e a fragmentação dos mesmos, e os pesticidas.”

A equipa acredita que ainda é possível aos insectos sobreviverem às mudanças no clima. E entre as formas de ajuda que colocam em cima da mesa, estão várias que dependem dos cidadãos comuns. Por exemplo, cuidar de uma grande diversidade de plantas silvestres, e também fornecer comida e áreas onde os insectos se consigam abrigar de eventos extremos. Outra tarefa importante: reduzir o uso de pesticidas e de químicos em geral.

“A uma escala maior, precisamos de lidar com as alterações climáticas. Os programas de ‘rewilding’ também necessitam de planear micro-ecossistemas, que se foquem na preservação de pequenos animais como os insectos”, sublinha o mesmo responsável, que conclui: “São pequenas criaturas teimosas e devemos estar aliviados por ainda haver espaço para corrigirmos os nossos erros. Mas precisamos mesmo de lançar políticas que estabilizam o clima mundial.”

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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Pesticidas- publicado o relatório da Pollinis


Relatório aqui

Em junho de 2022, a POLLINIS organizou uma campanha de testes capilares em 44 pessoas, incluindo 30 eurodeputados, jornalistas e cientistas, a fim de detectar a presença de 62 pesticidas, incluindo herbicidas, inseticidas, fungicidas e multiprodutos.

A POLLINIS compilou os resultados desses testes neste relatório que destaca a omnipresença dos pesticidas no meio ambiente, sua persistência e os riscos dessa ampla exposição para a saúde humana.

Os 3 pesticidas mais abundantes (4,4-DDE, aletrina, transflutrina) são inseticidas proibidos na União Europeia. Proibida em uso agrícola, a transflutrina pode ser encontrada em certos inseticidas domésticos. 

O 4,4-DDE é a molécula resultante da deterioração do DDT (metabólito), um inseticida particularmente tóxico para abelhas e polinizadores proibido desde 1978, e particularmente persistente. Este pesticida como seu metabólito também são desreguladores endócrinos.

domingo, 23 de outubro de 2022

Como assegurar a diversidade de cogumelos (e outros fungos) num espaço verde

Cogumelos do choupo (Cyclocybe aegerita)

Em Portugal, estima-se que há cerca de 3.000 espécies diferentes de macrofungos (os fungos que produzem cogumelos), embora ainda sem certezas sobre o número exato. Susana Gonçalves, investigadora ligada ao Centro de Ecologia Funcional e ao MyCoLAB da Universidade de Coimbra e bióloga que se dedica à investigação sobre estes pequenos seres, lembra que são muitas vezes olhados como “o parente pobre” da vida na Terra, mas têm um papel importantíssimo: são os principais decompositores da natureza, reciclando as árvores e outra matéria vegetal, e estabelecem parcerias de mútuo benefício com 80 a 90% das plantas do globo. “Sem fungos, a vida no planeta não existiria tal como a conhecemos”, sublinha a investigadora, que no passado dia 23 de outubro realizou uma visita orientada sobre “Jardins, cogumelos e o fantástico reino fungi”, no Jardim Gulbenkian.

Mas afinal, o que são os fungos? Susana Gonçalves adianta que são seres eucariotas, pois tal como os animais e as plantas possuem células com núcleo. Por outro lado, precisam de carbono para sobreviver, que conseguem ir buscar “por absorção”. “Emanam enzimas que decompõem a matéria em redor, que depois absorvem.”

A grande maioria dos fungos é filamentosa, pois possuem uns filamentos muito fininhos a que se dá o nome de hifas, que por sua vez formam conjuntos que têm o nome de micélio. À laia de comparação, Susana explica que o micélio é como se fosse o nosso cabelo e cada um dos cabelos que o compõem fosse uma hifa.

Ao contrário do nosso cabelo, no entanto, o micélio costuma estar bem escondido, muitas vezes debaixo da terra. Só os cogumelos que irrompem do solo ou das árvores, o que acontece mais no outono, sinalizam que por ali há fungos, e é graças a isso que “podemos observar os heróis invisíveis do jardim alguns dias por ano”. Mas o que são cogumelos? São “estruturas reprodutoras que alguns fungos produzem”, descreve a investigadora, e estão para aqueles “como as maçãs estão para uma macieira”.

Agaricus sp. © Paula Côrte-Real

Agaricus sp. © Paula Côrte-Real

O que podemos fazer
Susana Gonçalves indica várias medidas para assegurarmos a conservação e a diversidade das espécies deste grupo, ao cuidarmos de um espaço verde:
  1. Planear jardins com diferentes micro-habitats (prado, bosquete, alternar bordaduras e áreas de cultivo) e com plantas diversificadas e autóctones.
  2. Evitar fertilizantes inorgânicos, que prejudicam um grupo importantíssimo de fungos do solo, os fungos micorrízicos, presentes nas raízes de 80-90% das plantas. Estes fungos exploram o solo em busca de nutrientes naturalmente existentes no solo e passam-nos para as plantas em troca de carbono que aquelas produzem através da fotossíntese.
  3. Não utilizar fungicidas, pois usados em excesso contribuem para a evolução de fungos multi-resistentes, que podem constituir ameaças para a saúde pública. Para além disso, frequentemente têm efeitos nefastos em espécies que não são as espécies-alvo.
  4. Deixar madeira morta no terreno, pois pequenos ramos, touças e troncos caídos são fundamentais para os fungos decompositores da madeira, e além disso, se forem inoculados com espécies apropriadas, podem proporcionar cogumelos para alimentação. A madeira em decomposição, por seu turno, é fundamental para sustentar toda uma comunidade de organismos, nomeadamente as larvas de muitos insetos.
  5. Deixar árvores veteranas de pé, desde que não haja perigo de queda, que deverá ser avaliado e monitorizado ao longo dos anos. As cavidades existentes em árvores velhas resultam da ação de fungos parasitas e, por sua vez, constituem abrigo para muitos outros seres vivos, como aves que aí nidificam ou pequenos mamíferos que aí dormem ou hibernam (morcegos, ouriços-cacheiros, texugos, esquilos).
  6. Não mobilizar excessivamente o solo antes das plantações/sementeiras para não “romper” as redes subterrâneas de micélio.
  7. Não deixar o solo nu, prevenindo a erosão e a dessecação.
  8. Evitar a compactação do solo, não pisando sempre nos mesmos locais, o que tem efeito negativo sobre as redes subterrâneas de micélio.
  9. Plantar árvores e arbustos diversos e autóctones nos jardins e bordaduras, o que vai trazer fungos ectomicorrízicos para o jardim e com eles belos cogumelos silvestres. Se houver o perigo de ingestão por crianças ou animais de companhia, basta cortar e descartar os cogumelos que forem aparecendo.
Brigada de lixo e parceiros das árvores
Nem todos os fungos vivem da mesma forma. Entre os fungos filamentosos, desde logo, existem três tipos principais, incluindo os saprófitas, “a brigada de lixo da natureza”. “Um tronco que caia ao chão já não está lá ao fim de algum tempo, porque entretanto os fungos fizeram o seu trabalho”, menciona a investigadora da Universidade de Coimbra, que sublinha que estes seres “são os únicos capazes de decompor os polímeros complexos que constituem a madeira”. No Jardim Gulbenkian, por exemplo, podem ver-se cogumelos do choupo (Cyclocybe aegerita), que se alimentam das partes mortas das raízes dos choupos estão num relvado ali perto. Dentro do mesmo grupo, neste espaço verde também se podem ver cogumelos do género Ganoderma e ainda o curioso gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber).

Cogumelo do choupo Cyclocybe aegerita © Paula Côrte-Real

Pormenor do cogumelo do choupo Cyclocybe aegerita © Paula Côrte-Real

Já os fungos micorrízicos vivem em associação com as raízes das plantas, numa parceria em que estas sintetizam e fornecem carbono aos primeiros, que por sua vez exploram o solo e lhes dão os elementos minerais de que precisam. “Muitas das plantas em Portugal são dependentes de fungos micorrízicos”, afirma Susana, que distingue entre vários tipos de relações, diferentes consoante o tipo de fungos e plantas envolvidos.

Entre estas, uma das relações mais fascinantes são as ectomicorrizas, descobertas no final dos anos 1880. Nesses casos, “as pontas das raízes parece que calçaram uma meia de fungos”, brinca Susana, que esclarece que existem “imensos fungos que investiram neste tipo de relação”. Muitas vezes envolvendo árvores, as ectomicorrizas costumam associar fungos que frutificam como cogumelos silvestres muito apreciados – como boletos ou cantarelos – a carvalhos, pinheiros, abetos, bétulas e castanheiros, exemplifica.

Por fim, os fungos parasitas, ao contrário dos micorrízicos, são os únicos que beneficiam das relações que estabelecem. “Podem ser parasitas de árvores, insetos ou mesmo de outros fungos”, indica Susana, que esclarece que a morte do hospedeiro muitas vezes não é imediata. “Num sistema em equilíbrio, um fungo parasita e uma árvore podem coexistir por muitas décadas. Só quando a árvore fica fragilizada é que pode acabar por sucumbir.”

Aliás, sublinha a investigadora, alguns parasitas são muito importantes porque se alimentam da parte central da árvore, onde não passa seiva. “Devemos lembrar-nos que uma árvore pode viver infectada por um fungo parasita durante décadas antes de mostrar sintomas de doença e sucumbir. Esse mesmo fungo pode, por exemplo, contribuir para a criação de cavidades que, por sua vez, são importantes para insetos, aves e pequenos mamíferos.”

A relação dos fungos com outras espécies num jardim não se fica por aqui. Muitos cogumelos servem de casa a diferentes invertebrados. Já os esquilos e as lesmas preferem comê-los, tal como muitos humanos.

Chapéu-leitoso Lactarius torminosus © Paula Côrte-Real

Cogumelo esquizófilo-comum Schizophyllum commune © Paula Côrte-Real

Se for apanhar cogumelos
Quanto à apanha destas “maçãs” dos fungos para a alimentação, Susana deixa também alguns conselhos gerais:
  1. Não apanhar todos os cogumelos (apanhar 1/3 é uma boa regra) que estão a frutificar numa dada área. Por um lado, para que dispersem os esporos; por outro, para que outros (humanos e outros animais) também possam usufruir deles.
  2. Apanhar apenas cogumelos maduros, que já libertaram os esporos (e que também são mais difíceis de ser confundidos com espécies tóxicas).
  3. Não usar ancinhos ou outras ferramentas que perturbem o solo.
  4. Repor sempre folhas mortas, musgos ou ramos que possam ter sido remexidos durante a apanha para prevenir a dessecação do solo e promover a integridade do habitat.
  5. Não apanhar sempre na mesma área para evitar a compactação do solo devido ao pisoteio.
  6. Usar cestos, que permitem a dispersão dos esporos e promovem o arejamento.
E por último, termos sempre certeza absoluta da espécie que apanhámos, pois a ingestão do cogumelo errado pode levar à morte, o que já sucedeu a famílias inteiras. “Em caso de dúvida, não coma!!”, alerta a mesma responsável.

O Jardim Gulbenkian promove um conjunto de visitas sobre como tornar os nossos jardins, parques e terrenos, tanto no interior das cidades como fora, em espaços mais acolhedores para vida silvestre – fundamental para a vida na Terra! Estas visitas são acompanhadas pela revista Wilder que, em parceria com a Fundação Gulbenkian, publica artigos sobre cada um dos temas.