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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Participação do PEV na Consulta Pública do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)



O Partido Ecologista Os Verdes divulga a sua participação no quadro da consulta pública do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER), por considerarmos que esta é uma matéria crucial para o país e para o planeta.

É cada vez mais claro, que as políticas para o Ambiente em Portugal têm sido subalternizadas, ao longo dos anos, aos interesses do poder económico, levando a que não constituam um objetivo em si mesmas, mas antes assumindo um papel instrumental.

Da análise do PSZAER, também designado como “Mapa Verde”, sabemos que mesmo sendo apenas o resultado da cartografia temática que exclui valores protegidos, representa as áreas com potencial para integrar as futuras ZAER. No entanto, não podemos deixar de ficar preocupados com esta seleção “pouco apurada”, com a exageradamente grande área identificada e com uma insignificante participação dos cidadãos, das estruturas locais e das entidades políticas e administrativas.

Os Verdes valorizam que se definam critérios concretos e específicos para a instalação de solar fotovoltaico, assim como, eólico e que se faça o levantamento das potenciais áreas que cumpram os critérios das restrições, claros e transparentes, à implantação das estruturas de energias renováveis, desde logo assumindo como prioritárias áreas artificializadas, nomeadamente em edificados e infraestruturas, o que neste mapa é amplamente subvalorizado.

O Programa parte, a nosso ver, da premissa errada. Em vez de ter como objetivo primeiro identificar toda a área do território português continental que não apresente conflito para instalação de energias renováveis, devia partir do primeiro objetivo, que passa por definir a área que é necessária para se implantar os 18,10 GW de Solar PV e Eólico que faltam para se atingir a meta para 2030.

Documentos como o “Mapa Verde” precisam de acompanhar a evolução da implementação das diversas medidas ambientais que são essenciais para o ordenamento do território e para o tornar mais resiliente às alterações climáticas. Por este motivo, preocupa aos Verdes que alguns dos dados apresentados ou utilizados pela Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 (EMER 2030) possam estar desatualizados, considerando que Estratégias Nacionais na Área Ambiental se encontram em fase consulta pública ou de implementação, tais como, Projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza ou a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030.

Ouvir as populações e trabalhar em conjunto, será outro desafio, que trará uma maior exigência para o documento que vai, obrigatoriamente, precisar de actualizações constantes e periódicas. O Partido Ecologista Os Verdes continua a afirmar que é preciso e urgente a transição energética, o desenvolvimento das energias renováveis, mas continuaremos a trabalhar para que seja um processo socialmente justo e não permitiremos que continue de costas viradas para as pessoas.

Os Verdes disponibilizam o documento da sua participação na consulta pública

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Europa: milhões com quartos a mais agravam crise da habitação


A Europa enfrenta ao mesmo tempo um problema de espaços vazios e uma grave crise da habitação.

Apesar da falta de habitação a preços acessíveis em todo o bloco, uma em cada três pessoas na UE vive em casas com quartos a mais, segundo o Eurostat. Os números evidenciam o desfasamento entre a oferta de alojamento e as necessidades dos agregados familiares, bem como diferenças marcadas nos padrões de habitação na Europa.

Subocupação designa habitações maiores do que aquilo de que os moradores necessitam, geralmente por terem mais quartos do que o necessário. É o oposto de sobrelotação e está muitas vezes associada a pessoas mais velhas que continuam a viver na casa de família depois de os filhos saírem de casa.

Embora as condições habitacionais inadequadas continuem a ser um desafio em quase todos os países da UE, a dimensão da crise e as suas causas profundas variam de forma significativa, de acordo com o Conselho Europeu.

Quais são, então, os países com taxas mais elevadas de subocupação? 
No conjunto da UE, 33,4 % das pessoas vivem em habitações subocupadas, mas a percentagem varia entre 8,1 % na Roménia e 69,4 % em Chipre.

Europa de Leste regista as taxas mais baixas de subocupação
A subocupação é, em geral, muito menos comum na Europa de Leste e do Sudeste do que no resto do continente.

Após a Roménia (8,1 %), a proporção de pessoas que vivem em casas subocupadas mantém-se abaixo dos 15 % na Sérvia (8,2 %), Turquia (10,3 %), Letónia (10,5 %), Grécia (12,5 %) e Croácia (14,7 %).

A percentagem de pessoas que vivem em casas subocupadas é também relativamente baixa na Bulgária (15,8 %), Eslováquia (15,9 %), Macedónia do Norte (17 %), Polónia (17,9 %), Lituânia (18 %) e Itália (18,2 %).

Em conjunto, estes países formam o grupo com valores mais baixos na Europa, seguido da Estónia, Chéquia e Hungria, onde as taxas rondam os 27 %.

Onde a subocupação é mais frequente
Chipre regista a taxa de subocupação mais elevada da Europa, com 69,4 %, seguido da Irlanda (66 %) e de Malta (63,2 %). Importa notar que os três são países insulares.

A proporção de pessoas que vivem em casas com quartos a mais também supera 50 % nos Países Baixos (58,5 %), Bélgica (57 %), Espanha (54,3 %), Luxemburgo (52,2 %) e Noruega (51 %).

Entre os países nórdicos, a Finlândia (46,6 %) e a Dinamarca (42,4 %) situam-se igualmente muito acima da média da UE.

O quadro diverge claramente entre as quatro maiores economias da UE.
A Espanha tem uma das taxas de subocupação mais elevadas, de 54,3 %, contra apenas 18,2 % em Itália. A França situa-se nos 40,4 %, enquanto a Alemanha está praticamente em linha com a média da UE, com 33,3 %.

Sul da Europa mostra duas realidades habitacionais distintas
Embora a taxa seja bastante mais baixa em grande parte do sudeste e do leste da Europa, o próprio sul da Europa está dividido. Chipre, Malta e Espanha apresentam valores elevados, enquanto Itália, Grécia, Turquia e grande parte dos Balcãs registam taxas reduzidas. Isto sugere que a tendência não se explica por uma simples clivagem norte-sul.

Podem as políticas públicas reduzir a subocupação?
A Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Sem-abrigo (FEANTSA) sublinha que a questão essencial é saber se o parque habitacional, e em especial a nova oferta, responde à crescente procura de casas mais pequenas.

"Essas casas mais pequenas existem de facto e são acessíveis?", disse um porta-voz da FEANTSA à Euronews Business.

Ao referir-se à "bedroom tax", introduzida no Reino Unido em 2013, a organização afirmou que a medida foi ineficaz, porque muitas vezes não existiam casas com a dimensão adequada, o que levou a perdas de rendimento para agregados que pouco mais podiam fazer senão ficar onde estavam.

A organização defendeu que recuperar habitações devolutas para arrendamento acessível e habitação social poderá ser mais eficaz do que focar a subocupação.

"Penalizar a subocupação sem abordar as causas mais estruturais que conduzem à habitação inacessível, como o subinvestimento em verdadeira habitação social e a financeirização e especulação imobiliária, representa um erro de diagnóstico", afirmou o porta-voz.

O efeito da propriedade da habitação
Segundo o Eurostat, a proporção de pessoas que vivem em habitações subocupadas é de 14,2 % entre inquilinos, contra 40,5 % entre proprietários.

O professor Sebastian Kohl, da Universidade Livre de Berlim, afirmou que as diferenças entre países são fortemente condicionadas pelos enquadramentos institucionais, sobretudo pelas taxas de propriedade de habitação e pela composição demográfica.

"Estruturas institucionais como o regime de ocupação têm um papel decisivo. Nos nossos modelos, a propriedade da habitação é o fator isolado que melhor prevê a subocupação objetiva", disse à Euronews Business.

Quem tem maior probabilidade de viver numa casa subocupada?
Um estudo de Jonas Lage e colegas concluiu  que o tipo de agregado familiar está intimamente ligado à subocupação.

A maioria dos quartos subocupados encontra-se em agregados de uma ou duas pessoas. As taxas são também, em geral, mais elevadas nos agregados sem crianças.

Na UE, 41 % das habitações subocupadas situam-se em cidades, com cerca de 30 % em zonas rurais e outros 30 % em vilas e pequenas cidades.

Na maioria dos países, e em média na UE, os agregados com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de viver em casas subocupadas e representam uma fatia maior dos quartos subocupados.

O que conta como divisão depende do país
Kohl destaca também a dificuldade de harmonizar as medições, decorrente das diferentes definições nacionais do que é uma divisão.

Sublinha que Espanha, Irlanda e Finlândia contam explicitamente as cozinhas como divisões nos respetivos inquéritos.

Chama ainda a atenção para o forte desfasamento entre os indicadores objetivos e a perceção subjetiva das pessoas. Os investigadores verificaram que apenas duas em cada cinco pessoas consideravam a sua casa demasiado grande, embora fosse classificada como subocupada segundo os critérios oficiais.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O efeito de ilha de calor de dados: quantificação do impacto dos centros de dados de IA num mundo em aquecimento.



O "Efeito de Ilha de Calor de Dados" (Data Heat Island Effect) refere-se ao aumento localizado na temperatura da superfície terrestre causado pela dissipação massiva de calor dos centros de dados voltados para Inteligência Artificial (IA). Um estudo pioneiro liderado por investigadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Tecnológica de Nanyang quantificou globalmente este impacto, demonstrando que estas instalações alteram os microclimas à sua volta. [1, 2, 3]
Abaixo estruturam-se as principais conclusões e métricas avançadas pela investigação. [1, 2]

Métricas de impacto térmico
O estudo analisou dados de satélite da NASA recolhidos entre 2004 e 2024, cobrindo mais de 6.000 localizações fora de áreas densamente urbanizadas para isolar o efeito das infraestruturas de dados: [1, 2, 3]
  • Aumento médio: a temperatura da superfície da terra aumenta 2°C em média após o início das operações de um centro de dados de IA. [1]
  • Casos extremos: foram registados picos de aquecimento extremo de até 9,1°C na proximidade imediata de algumas infraestruturas. [1]
  • Raio de influência: o efeito térmico propaga-se através do espaço, sendo detetável a uma distância de até 10 quilómetros da instalação. [1]
  • Degradação da intensidade: a intensidade do calor gerado reduz-se para cerca de 30% quando atinge um raio de 7 km de distância. [1]
Dinâmica e Causas do Fenómeno
Os centros de dados focados em modelos de IA operam com milhares de unidades de processamento gráfico (GPUs) de alto desempenho a funcionar continuamente sob cargas de trabalho extremas. Esta arquitetura gera duas fontes principais de perturbação térmica: 
  • Exaustão direta [1]: Os sistemas de refrigeração industrial extraem calor do interior dos edifícios, expelindo massivamente ar quente e vapor de água para a atmosfera circundante. [1, 2]
  • Pegada da construção: As próprias características físicas do complexo (grandes telhados, superfícies de asfalto e betão) absorvem a radiação solar e criam um efeito semelhante ao das ilhas de calor urbanas tradicionais. [1, 2, 3]
Populações e regiões afetadas
Estima-se que mais de 340 milhões de pessoas vivam em zonas sob o raio de influência térmica destas instalações a nível global. Os investigadores apontaram que anomalias de temperatura anteriormente difíceis de justificar coincidem diretamente com a expansão de grandes polos de dados em regiões como: 
  • Aragão (Espanha)[1]
  • Bajío (México)
  • Teresina, Piauí (Nordeste do Brasil) [1, 2]
Caminhos para Mitigação
Para conter o aparecimento destas zonas microclimáticas sem travar a inovação tecnológica, o ecossistema aponta soluções em duas vertentes principais: 
  • Otimização de hardware e refrigeração[1, 2]: integração de tecnologias de refrigeração líquida avançada de ciclo fechado e reaproveitamento do calor residual para sistemas de aquecimento residencial local ou processos industriais. [1, 2, 3, 4]
  • Eficiência de software: desenvolvimento de algoritmos e modelos de IA estruturalmente focados em eficiência energética e sustentabilidade desde a sua conceção, reduzindo o esforço computacional bruto. [1]
A notícia já tinha sido avançada aqui

domingo, 17 de maio de 2026

Portugal em risco de falhar metas climáticas - associação Zero


A associação ambientalista Zero alertou ontem que Portugal poderá falhar as metas climáticas de 2030, após ter reduzido em apenas 3% as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) em 2024.

A propósito dos dados oficiais das emissões de GEE em 2024, a associação diz em comunicado que a redução assenta na eletricidade renovável e em fatores conjunturais (como a chuva), enquanto os transportes representam 35% do total de emissões.

Sem mudanças profundas nos transportes, Portugal pode não cumprir metas, avisa a Zero, que destaca que o inventário de GEE confirma progressos relevantes, mas também “evidencia fragilidades estruturais profundas”, tanto no setor dos transportes como “na ausência de uma governação climática robusta e coerente enquadrada na Lei de Bases do Clima” (LBC).

Segundo os dados, que cobrem o período 1990-2024, Portugal emitiu 51,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono-equivalente (MtCO₂e) em 2024 (excluindo o setor do uso dos solos, alteração do uso do solo e florestas), menos 3% do que em 2023 e cerca de 40% abaixo de 2005.

Confirma-se uma tendência de redução começada em 2005, associada ao fim dos combustíveis mais poluentes, ao aumento da eficiência energética e à expansão das energias renováveis. Em 2024 a produção elétrica renovável aumentou cerca de 18%.

“O setor da energia representa 65,6% das emissões nacionais, sendo que os transportes continuam a ser o principal foco de pressão, com 35,2% do total”, refere a Zero.

Desde 2013 há uma tendência de crescimento ou estagnação do consumo de gasóleo e gasolina, com 2024 a registar uma estabilização.

Mas a Zero nota que os dados mais recentes indicam uma inversão preocupante: em 2025 o consumo voltou a crescer cerca de 0,9%, e no primeiro trimestre deste ano há um aumento ainda mais expressivo, da ordem dos 2,5% face ao período homólogo.

E aponta culpados: A sistemática incapacidade do Governo e da Assembleia da República para implementar políticas públicas robustas neste domínio, o que agrava riscos económicos e impactos ambientais e na saúde pública.

Outras leituras dos dados sobre 2024 indicam que a combustão na indústria, que representa cerca de 10% das emissões, tem vindo a reduzir o seu peso, e na agricultura, responsável por 13,5%, há estabilidade.

Nos resíduos, com 11% das emissões, não tem havido descida. Os gases fluorados, que representam cerca de 4% das emissões totais, registaram um aumento muito significativo desde 1995.

A Zero insiste que, para cumprir o objetivo do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) de reduzir as emissões em 55% até 2030 face a 2005, Portugal terá de passar dos atuais 51,5 milhões de toneladas para cerca de 38,7 milhões em 2030, o que significa um corte de quase 13 milhões de toneladas em apenas seis anos.

Será necessário, enfatiza, “uma aceleração estrutural das políticas climáticas, em particular nos setores mais emissores, como os transportes”.

É imperativo, considera, cumprir integralmente a LBC, orientar o processo de reindustrialização para uma estratégia industrial verde e, no setor dos transportes, é urgente acelerar a eletrificação dos veículos de uso intensivo, reforçar o investimento no transporte público e na ferrovia, e implementar soluções de mobilidade que reduzam estruturalmente a dependência do automóvel individual.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos




Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa. 

Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Na Suécia, calor de data centers passa a aquecer casas — e o “lixo térmico” virou energia útil para a população


Em Estocolmo, na Suécia, empresas de tecnologia firmaram parceria com a rede pública de aquecimento da cidade para reaproveitar o calor liberado por data centers — aqueles prédios cheios de servidores que armazenam dados da internet.

Os computadores funcionam 24 horas por dia e produzem enorme quantidade de calor.
Em vez de desperdiçar essa energia, o ar quente é captado, transferido para a rede de aquecimento urbano e enviado para casas, escolas e hospitais.

Em termos simples:
  1. servidores geram calor
  2. o calor é coletado por sistemas industriais
  3. entra na rede de aquecimento distrital
  4. ajuda a aquecer milhares de residências no inverno
Ou seja: internet → vira calor → vira conforto térmico.

A própria operadora do sistema estima que:
  1. até 10% do aquecimento urbano pode vir de data centers
  2. há queda nas emissões de CO₂
  3. o custo energético diminui
  4. a infraestrutura urbana fica mais eficiente
A Suécia já possui uma das maiores redes de aquecimento distrital do mundo — e a estratégia virou referência global em economia circular de energia.

Transparência sempre:
  1. tecnologia real e documentada
  2. não elimina outras fontes de aquecimento
  3. depende de localização e infraestrutura
  4. expansão é gradual e monitorada
Mas mostra que até o “calor invisível” da internet pode ser convertido em benefício público.

Fontes:
– Stockholm Exergi (rede de aquecimento de Estocolmo)
– Swedish Energy Agency
– BBC / The Guardian / Reuters

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Segurança energética: soluções para os desafios atuais


A energia é fundamental no nosso quotidiano, permitindo o funcionamento da sociedade e da economia. Mas o acesso à energia não é algo garantido.

A Europa tem reduzido a sua dependência dos combustíveis fósseis russos desde a invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia em 2022, estando agora a tratar de a eliminar completamente. Outros desafios incluem a transição progressiva para as fontes de energia renovável e a necessidade de conectar e proteger as infraestruturas energéticas.

Reduzir a dependência energética, principalmente da Rússia
Em 2025, a UE ainda importa 60% da sua energia, incluindo 90% do seu gás e 97% do seu petróleo, bem como combustível nuclear. Uma situação que pode vir a implicar riscos de interrupções no abastecimento e pressão externa, especialmente por parte da Rússia.

É por isso que a UE está a esforçar-se para retirar os combustíveis fósseis russos do seu cabaz energético. Uma nova lei aprovada pelo Parlamento em dezembro de 2025 proíbe as compras de gás natural liquefeito russo para entrega imediata na UE e será diretamente aplicável assim que o regulamento entrar em vigor no início de 2026, enquanto as importações de gás por dutos deverão ser progressivamente eliminadas até 30 de setembro de 2027.

Durante as negociações com o Conselho, o Parlamento também garantiu um compromisso da Comissão Europeia de apresentar legislação no início de 2026 para proibir todas as importações de petróleo russo, de modo a que uma proibição efetiva possa entrar em vigor antes do final de 2027.

As importações de gás da Rússia (gás canalizado e gás natural liquefeito combinados) diminuíram de mais de 40% do total das importações da UE em 2021 para menos de 19% em 2024. Estas importações foram substituídas por fornecimentos provenientes de fontes mais fiáveis, por energia produzida internamente, ou tornaram-se desnecessárias devido à redução do consumo. A quota das importações de petróleo russo também encolheu de 27% no início de 2022 para 3% em 2024.

Aumentar a energia renovável gerada na UE
Desde 2014, o uso da energia eólica quase duplicou e o da energia solar mais do que triplicou na UE. As renováveis forneceram 45% da eletricidade consumida no bloco em 2023.

No entanto, problemas na rede elétrica levaram ao desperdício de 12 terawatts-hora de energia renovável (o equivalente ao consumo médio de eletricidade de aproximadamente 3,3 milhões de famílias da UE durante um ano). É por isso que os eurodeputados insistem no aumento dos investimentos para expandir e modernizar as redes elétricas.

O Parlamento pede também apoio a tecnologias emergentes, como a energia geotérmica e o biometano.
A UE tem como objetivo atingir uma quota de energia renovável de pelo menos 42,5% no consumo total de energia até 2030. O Parlamento apelou a uma cooperação mais estreita e a uma implementação mais rápida dos projetos renováveis para cumprir estas metas.

Melhorar a eficiência energética
Poupar energia é uma das melhores formas de reduzir a dependência de abastecimentos energéticos externos. A resolução do Parlamento salientou que a procura de energia na UE caiu 20% entre 2006 e 2023, graças aos esforços de eficiência.

No entanto, o consumo energético proveniente de centros de dados e tecnologias digitais aumentou de forma acentuada. O Parlamento apelou a políticas mais claras e apoio para reduzir este crescimento. Também pediu melhores medidas de poupança de energia em casas e indústrias para diminuir a procura e evitar sobrecargas na rede.

Prevenir falhas no abastecimento de energia
A resolução alertou que, se não houver energia de reserva suficiente, picos súbitos na procura ou interrupções no fornecimento poderão causar grandes apagões e prejudicar a economia.

O Parlamento referiu que poderá ser necessária uma capacidade extra de 100 GW até 2035 para garantir fiabilidade, segurança energética e redução de custos, e ressaltou que esta capacidade deverá provir de fontes energéticas diversificadas.

Proteger a infraestrutura energética contra ataques
O Parlamento manifestou preocupação com o aumento dos ciberataques e dos incidentes de sabotagem física que ameaçam a infraestrutura energética, especialmente as linhas transfronteiriças, cabos submarinos e ligações a parques eólicos offshore.

Foi pedido um reforço da proteção e uma cooperação mais estreita entre os países da UE, a Comissão Europeia e as agências da UE. As autoridades devem também trabalhar em conjunto com as empresas privadas para garantir o fornecimento de eletricidade e apoiar a segurança nacional.

A resolução destacou a necessidade de controlos obrigatórios de cibersegurança em pequenos dispositivos energéticos ligados à internet, pois podem ser vulneráveis a ciberataques.

Reforçar a solidariedade entre os países da UE
O Parlamento sublinhou que a segurança energética exige solidariedade, pois ações nacionais unilaterais podem desestabilizar o sistema mais amplo. Com base nisso, apelou aos países da UE para coordenarem projetos de infraestruturas e respostas a emergências.


Armazenar gás suficiente para enfrentar interrupções
Em julho de 2025, o Parlamento aprovou também um regulamento sobre o armazenamento flexível de gás, que visa garantir que os países da UE armazenem gás a preços acessíveis para cobrir períodos frios ou interrupções no abastecimento.

A legislação foi inicialmente adotada em 2022, na sequência da invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia, em meio a preocupações de que a Rússia poderia usar o fornecimento de gás como instrumento de pressão sobre a UE.

As alterações de 2025 na legislação introduzem maior flexibilidade na forma como os países da UE podem cumprir as regras. Em vez de terem que atingir uma meta de enchimento dos armazéns de gás de 90% até 1 de novembro de cada ano, os países podem atingir o mesmo objetivo de 90% em qualquer momento entre 1 de outubro e 1 de dezembro. Isto deverá resultar em menos especulação e preços mais baixos nos mercados do gás.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Dia Mundial da Economia de Energia - A energia mais limpa é a que não se consome


O Dia Mundial da Economia de Energia foi criado em 21 de outubro de 1973, logo após a crise mundial do petróleo que começou nesse mesmo ano. O aumento repentino do preço e a escassez deste recurso essencial despertaram a consciência global sobre a dependência energética e a necessidade urgente de racionalizar o consumo.

Esta data convida-nos a repensar a forma como usamos a energia — em casa, no trabalho e nas cidades — e a adotar hábitos mais eficientes e sustentáveis. Economizar energia não significa apenas gastar menos; significa usar melhor, reduzir desperdícios e proteger o planeta.

Todos sabemos que economizar energia é bom para o planeta. Mas, e para o negócio? Neste Dia Mundial da Economia de Energia, vale a pena lembrar que cada kWh poupado é mais um passo dado para empresas se tornarem mais eficientes, competitivas e até mais inovadoras. Porque inovar também é repensar processos, otimizar recursos, fazer mais com menos. A energia mais limpa é, afinal, a que não se consome.

A verdade é que a eficiência energética deixou de ser apenas uma exigência legal: tornou-se uma alavanca estratégica. Não se trata apenas de instalar tecnologia verde ou de cumprir regulamentos; trata-se de criar uma cultura de consumo consciente. É perceber que cada processo, cada equipamento e cada decisão de investimento podem gerar impacto direto nos resultados da empresa. E essa transformação começa dentro de casa: ao mapear processos, identificar desperdícios e agir de forma proativa, as empresas conseguem produzir mais com menos, reduzir emissões e aumentar a competitividade.

Um exemplo claro desta abordagem é a monitorização em tempo real. Quando conseguimos acompanhar, minuto a minuto, como a energia é consumida, deixamos de reagir a problemas e começamos a preveni-los. Os dados deixam de ser números isolados e transformam-se em decisões inteligentes, traduzindo-se em ação e, consequentemente, em resultados. É aqui que se esconde o verdadeiro valor da eficiência: na capacidade de transformar informação em vantagem concreta.

Outro vetor estratégico é a eletrificação da indústria. Portugal tem dado passos importantes, mas ainda há muito a fazer. A eletrificação só é eficaz se estiver integrada com soluções digitais, energias renováveis e armazenamento. Esta transformação exige visão de longo prazo e um trabalho contínuo de melhoria, um processo incremental, mas consistente, capaz de gerar valor real e sustentável.

Depois, a economia de energia também é um exercício de liderança. Empresas que olham para a eficiência como uma prioridade estratégica não estão apenas a cortar custos: estão a construir resiliência, a reforçar a reputação e a abrir portas para novos investimentos.

No fundo, a mensagem é simples: criar hábitos, investir em soluções inteligentes e integrar a eficiência energética na estratégia do dia a dia não é apenas bom para o planeta, é essencial para as empresas que querem liderar o futuro.

⚡ Algumas ações simples que fazem diferença:
  • Substituir lâmpadas incandescentes por LED.
  • Desligar aparelhos e carregadores da tomada quando não estão em uso.
  • Aproveitar a luz natural e melhorar o isolamento térmico das casas.
  • Optar por transportes sustentáveis.
  • Escolher equipamentos com selo de eficiência energética.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Apagão: Energias renováveis são principal foco de desinformação


A existência de uma dependência excessiva em relação às energias renováveis foi a narrativa desinformativa sobre o apagão mais acreditada pelos participantes de um relatório da coligação Ação Climática Contra a Desinformação (CAAD, sigla em inglês).

O relatório destaca que o apagão elétrico que deixou Portugal continental e Espanha peninsular sem energia durante mais de 10 horas foi explorado por agentes mal-intencionados que espalharam alegações falsas.

A campanha de desinformação incluiu narrativas sobre ataques cibernéticos da Rússia, anomalias atmosféricas, falhas de energia renovável e experiências governamentais.

Mais de metade dos inquiridos acreditou em pelo menos uma das narrativas falsas sobre as causa do apagão, sendo que a “dependência excessiva da rede elétrica em relação às energias renováveis” é a mais comum, particularmente entre os eleitores de extrema-direita.

Neste sentido, “as crenças sobre as alterações climáticas e o partidarismo são os principais fatores que determinam as diferenças de atitude” face à desinformação climática.

“As pessoas que pretendem votar em partidos de extrema-direita e que rejeitam as alterações climáticas têm opiniões menos favoráveis ao clima”, lê-se no documento.

O relatório alerta ainda para a necessidade de obrigar as redes sociais a impedir a amplificação de conteúdos enganadores sobre as alterações climáticas nas suas plataformas, bem como o investimento dos governos em campanhas de sensibilização pública para combater a desinformação e promover a integridade da informação.

Além destas medidas, os autores salientaram que se deve impedir que as empresas utilizem publicidade que divulgue informações enganosas ou promova comportamentos prejudiciais ao ambiente, como o consumo excessivo de combustível fóssil.

“Dar mais recursos às organizações de verificação de factos para desmascarar alegações falsas sobre as alterações climáticas”, também deve ser uma prioridade.

O relatório da coligação CAAD entrevistou 2.400 pessoas em Espanha e no Reino Unido, com o objetivo de combater a desinformação climática, pedindo uma ação decisiva e unificada contra o fenómeno.

Na semana passada, o painel de peritos que investiga o apagão elétrico de 28 de abril concluiu que o colapso foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia.

No primeiro trimestre de 2026 espera-se um relatório final que incluirá recomendações concretas destinadas a evitar incidentes semelhantes não apenas na Península Ibérica, mas em toda a rede elétrica europeia.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Amazon lança Centro de Excelência Water-AI Nexus


Numa era em que a tecnologia avança a passos largos e os desafios ambientais se intensificam, surge uma aliança sem precedentes, que promete redefinir a gestão dos recursos hídricos globais. A Water Environment Federation (WEF), a Amazon.com, Inc., o The Water Center at the University of Pennsylvania (WCP) e a The Leading Utilities of the World (Leading Utilities) anunciaram hoje a criação do Centro de Excelência Water-AI Nexus. Esta colaboração pretende assegurar infraestruturas de Inteligência Artificial (IA) sustentáveis no uso da água e alavancar o poder da IA na procura de soluções para a crise hídrica global.

O Water-AI Nexus
O anúncio do Centro de Excelência decorreu na Climate Week NYC, o maior evento climático anual nos Estados Unidos, o que sublinha a urgência e relevância da iniciativa. O Water-AI Nexus dedicar-se-á principalmente a duas missões:

  • Água para a IA – para garantir que a infraestrutura de IA utiliza a água da forma mais eficiente possível, com a otimização do consumo dentro das Regiões AWS e Zonas de Disponibilidade que albergam as cargas de trabalho de IA.
  • IA para a Água – aproveitar as vastas capacidades da Inteligência Artificial (e Machine Learning), em plataformas como o Amazon SageMaker e outras, de análise de dados, para resolver desafios urgentes de escassez e gestão hídrica. O que inclui análises preditivas de procura, deteção de anomalias em redes e otimização de processos de tratamento.

Ralph Erik Exton, diretor executivo da WEF, sublinha a importância desta união: “As empresas de água em todo o mundo, enquanto servem comunidades que dependem de serviços de água fiáveis e acessíveis, enfrentam desafios sem precedentes devido às alterações climáticas e a infraestruturas envelhecidas. O Water-AI Nexus vem acelerar a inovação e conectar profissionais da água com especialistas em IA para que desenvolvam soluções que beneficiem ambos os setores, e as comunidades. Esta plataforma colaborativa promove o desenvolvimento de soluções nativas na cloud e a otimização da gestão da água com recurso a dados.”

Boas Práticas Para o Uso Sustentável da Água
Uma das principais iniciativas do Centro de Excelência Water-AI Nexus é a criação de diretrizes e padrões para o uso responsável da água no setor de IA. O objetivo é promover as melhores práticas na indústria e estabelecer critérios de conformidade para a eficiência hídrica em centros de dados.

Nesse sentido, foi hoje lançado o guia de boas práticas “Princípios para o Uso Sustentável da Água por Data Centers”, um roteiro essencial para operadores de data centers minimizarem os seus impactos hídricos, mas continuarem a maximizar o avanço tecnológico.

Este guia estabelece quatro princípios essenciais:
  1. Design e localização inteligentes – considerando dados e impacto ambiental),
  2. Otimização operacional – com monitorização em tempo real e automação),
  3. Uso de fontes de água sustentáveis – integrando-se com tecnologias como AWS IoT) e
  4. Reposição de água nas comunidades – alinhado com as metas de responsabilidade social).
  5. A partilha de conhecimento é fundamental pelo WATER-AI NEXUS, e garantem estudos de caso e resultados divulgados em eventos como o AWS re:Invent, e outros fóruns, assim como a colaboração intersetorial – ligação entre empresas de água, desenvolvedores de IA, investigadores e o governo – vai ser incentivada para promover a inovação.
O consumo de água é uma grande preocupação entre os principais desenvolvedores de data centers. De acordo com um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), um centro de dados típico de 100 MW nos EUA consome cerca de dois milhões de litros de água por dia. À escala global, a AIE estima que o sector dos centros de dados consuma actualmente mais de 560 mil milhões de litros de água por ano, podendo este número aumentar para 1,2 biliões de litros anualmente até 2030.

A Amazon adotou várias medidas para tornar o seu uso de água mais sustentável. Em junho, a empresa anunciou que estava a expandir o número de locais que utilizam águas residuais tratadas para arrefecimento de data centers de 20 para 120.

Inovação hídrica da Amazon na Península Ibérica
Na Península Ibérica, o compromisso da Amazon com a inovação na gestão hídrica e energética já é visível. Em março deste ano foram anunciados três novos projetos hídricos na região de Aragão, sede da Região AWS Europa. Com um investimento total de 17,2 milhões de euros, estas iniciativas visam proteger 700.000 residentes de Saragoça contra inundações, modernizar infraestruturas críticas e otimizar o uso da água na agricultura através da Inteligência Artificial (IA).

Os projetos incluem:
  1. Sistemas de alerta precoce baseado na cloud e IA para prevenção de inundações,
  2. Programas de apoio agricultores locais na implementação de IA para maximizar a produtividade e reduzir a pegada hídrica.
  3. Melhorias nas infraestruturas de abastecimento de água em Huesca.
  4. Outro exemplo claro de inovação e tecnologia aplicada na gestão da água é o da SPHERAG. Esta empresa espanhola utiliza soluções de IA, machine learning e IoT da AWS para melhorar a eficiência hídrica no setor agrícola, demonstrando como a tecnologia pode transformar a gestão deste precioso recurso e contribuir para o compromisso global da Amazon de devolver mais água às comunidades e ao ambiente do que utiliza nas suas operações até 2030.
As organizações dos setores da água e da tecnologia são convidadas a participar neste esforço colaborativo em Water-AI Nexus

A Google, a Microsoft e a Meta também adotaram iniciativas para apoiar o uso mais sustentável da água e comprometeram-se a atingir a positividade hídrica até 2030.

domingo, 27 de julho de 2025

Calor à porta: 3 estratégias para um verão mais amigo do ambiente



Com o verão a começar, são muitos os que decidem aproveitar os longos dias de calor para tirar férias e recarregar baterias. Embora a descontração seja sempre bem-vinda, é importante não deixar de estar atento a comportamentos que, apesar de comuns, podem ser prejudiciais para o meio ambiente.

Para ajudar todos os que procuram reduzir a sua pegada individual e sensibilizar família, amigos e colegas durante esta época do ano, a Goparity, plataforma de finanças de impacto, reuniu três dicas para ter em conta:

1. Escolher protetores solares menos prejudiciais para o ambiente: um primeiro passo consciente pode ser a verificação dos rótulos e escolha de produtos que contenham o menor número de químicos. Vários protetores solares têm na sua composição partículas de microplástico que contribuem para aumentar a sua espessura ou melhorar a sua aparência, funcionando ainda como filtros UV mais acessíveis. Ao mergulhar no mar após ter aplicado estes protetores no corpo, os microplásticos acabam por ser libertados diretamente no oceano, prejudicando o equilíbrio do ecossistema. Além disso, sabe-se que mais de 3.500 produtos populares de proteção solar contêm ainda substâncias químicas, como oxibenzona e octinoxato, altamente nocivas para ecossistemas como os recifes de coral.

2. Optar por uma alimentação consciente, local e da época: desde os alimentos consumidos à forma como são transportados, podem ser feitas escolhas mais sustentáveis. É importante escolher garrafas ou recipientes térmicos e reutilizáveis sempre que possível. Estes são mais eficientes em termos financeiros, na preservação da temperatura da água e melhores para o ambiente; o mesmo pode ser dito relativamente à forma como se transportam e conservam os alimentos consumidos na praia, como as sandes ou a fruta – a comida levada de casa em recipientes que possam ser lavados e usados novamente é preferível ao recurso a comida pré-feita, embalada em recipientes de utilização única. A acrescentar, optar por alimentos da época produzidos em Portugal, como por exemplo as laranjas do Algarve ou cerejas do Fundão, não só contribuirá para a economia local como evitará as emissões de carbono do transporte de alimentos de outros países e continentes e os gastos energéticos da conservação em arcas de congelação.

3. Procurar reduzir a pegada ecológica individual: o transporte escolhido e a forma como se arrefecem as casas são dois bons pontos de partida. A climatização da casa pode pesar muito na pegada ambiental de cada um. Apesar das melhorias em anos recentes, Portugal continua atrás em relação à média europeia no que toca à eficiência energética dos edifícios, pelo que poderá dar-se primazia à ventilação natural e a equipamentos de melhor classificação energética, como as ventoinhas. No que toca a deslocações para os destinos de férias, é sempre bom tentar evitar aviões e se possível optar por transportes coletivos, como comboios, ou partilhar boleias, de modo a fazer escolhas mais amigas do ambiente (e em muitos casos da carteira). Segundo dados da ZERO, um comboio intercidades ou autocarro entre Lisboa e Porto tem uma pegada de 3,8 e 4,6kg de CO2 por pessoa, respetivamente, ao passo que fazer uma viagem sozinho num carro a gasóleo para o mesmo trajeto terá um peso de 50,2kg em emissões de CO2.

Para além dos comportamentos individuais que têm um impacto significativo quando reproduzidos em massa, a Goparity apela a que todas as empresas e organizações, tendo em conta o seu impacto coletivo, tenham em conta como podem minimizar a sua pegada ambiental. A principal missão da Goparity é a democratização do acesso às finanças sustentáveis, ligando empresas e indivíduos que querem investir em projetos com impacto positivo nas pessoas e no planeta.

A Goparity já permitiu mais de 35 milhões de euros investidos por mais de 45.000 membros registados. Os projetos financiados através da plataforma permitiram impactar positivamente cerca de 89.000 pessoas, criar quase 5.000 postos de trabalho e contribuir para evitar a emissão de 25.000 toneladas de emissões de CO2 para a atmosfera todos os anos.

domingo, 22 de junho de 2025

A China utiliza máquinas gigantes de construção de ferrovias que impressionam pela escala e eficiência


A China utiliza máquinas gigantes de construção de ferrovias que impressionam pela escala e eficiência, impulsionando sua vasta rede ferroviária, uma das maiores e mais modernas do mundo. Equipamentos como as máquinas de colocação de trilhos, tuneladoras de grande porte e guindastes especializados permitem a construção rápida de linhas de alta velocidade em terrenos desafiadores, como montanhas e desertos.
Essas máquinas, muitas vezes automatizadas e equipadas com tecnologia de ponta, como sistemas de posicionamento a laser e controle por satélite, reduzem significativamente o tempo de construção e os custos, enquanto garantem precisão milimétrica.
Projetos como a ferrovia de alta velocidade Pequim-Xangai e a expansão da Rede Ferroviária Transasiática demonstram o papel crucial dessas máquinas no desenvolvimento da infraestrutura chinesa.


Críticas:
1. Pois o carvão quando e triturado com a extração fica os pó preso nas pedras e o trem em movimento esses pós começam a se desprender das pedras de carvão e com ventos da alta velocidade do trem vão se espalhando ao longo dos trilhos do trem ou espalhando se no ar por que os trilhos foram construídos nas alturas , isso gera a poluição do pó de carvão, pois já vi muitos camiões que descarregam e trajetória curta e o basculante joga o carvão sai um fumaça preta que é o pó do carvão, já pensou na quantidade de centenas de vagões, a quantidade desse pó, a China faz as obras, mas não vê a consequência que pode gerar no futuro,  por isso as extração de carvão tem séculos no mundo todo, mas ninguém construíu ferroviária aérea por motivo de espalhar esse pó de carvão que faz mal à saúde , só a China para gastar dinheiro em obras que vai prejudicar a população e nunca melhorar o nível de bem estar da saúde da população!

2. As obras na Chinas são grandiosas, mas ele não calcula as consequências da obra, por exemplo a hidroelétrica, a maior da China a hidroelétrica Três Garganta, quando abrem às comportas ao máximo, os rios abaixo não comportam o volume de água e provocando as enchentes em várias cidades , pois não fizeram rios que comportassem o volumes de águas em grandes quantidades, fizeram estrada em cima do mar lingando uma região a outra região, e o pior que ninguém usa essa estrada, pois viaja vários kms sem ver uma paisagem só água, uma viagem monótona que da até sono, e no temporada de sol fica horrível dirigir batendo no rosto do motorista, então veja o desperdício de dinheiro para grandes obras que não ajuda em nada à população da China, na verdade só atrapalha ou faz mal à população!


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Combustíveis fósseis: Bruxelas diz que Portugal não cumpriu recomendações


Portugal não cumpriu as recomendações da Comissão Europeia para eliminar subsídios aos combustíveis fósseis até 2030, ser mais ambicioso na eficiência energética e responder às necessidades de investimento na transição climática.

A Comissão Europeia concluiu que Portugal "não respondeu" a três recomendações, incluindo a de eliminar subsídios aos combustíveis fósseis.

"O plano reconhece a necessidade de eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis até 2030, em conformidade com os compromissos internacionais, mas não apresenta medidas específicas nem um cronograma claro para tal", assinala a instituição.

Além disso, apesar de o plano português incluir metas sobre a eficiência energética, o país "não aumentou o nível de ambição", critica Bruxelas.

Já quanto ao financiamento da transição energética e climática, o plano de Portugal "não apresenta dados sobre necessidades de investimento", nem "explica como as medidas irão mobilizar investimentos privados", não incluindo uma "divisão entre investimento público e privado".

A Comissão Europeia pede que Portugal garanta "uma implementação atempada e completa" de um novo plano energético.

"A UE está atualmente no caminho para reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em cerca de 54% até 2030, caso os Estados-membros implementem plenamente as medidas nacionais existentes e planeadas, bem como as políticas da UE", concluiu a Comissão Europeia.

A meta da UE é reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em pelo menos 55% face a 1990, alcançar pelo menos 42,5% de energias renováveis no consumo final bruto de energia e melhorar a eficiência energética em pelo menos 11,7%.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Prioridades ambientais para as Legislativas 2025

Os efeitos das alterações climáticas já são sentidos em todo o mundo e constituem ameaças reais à segurança e bem-estar das pessoas. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental, que seguem a um ritmo acelerado, agravam ainda mais esta realidade. Para garantir que os líderes que estarão à frente das decisões em Portugal estejam comprometidos em reverter este cenário, a Coligação C7 destaca as seguintes medidas prioritárias que devem ser incluídas nos programas das Eleições Legislativas que se aproximam:

Conservação e Restauro da Natureza, dentro e fora de Áreas Classificadas:
  1. Retorno da Secretaria de Estado de Conservação da Natureza, e da pasta das Florestas ao Ministério do Ambiente.
  2. Reverter a alteração à lei dos solos que veio permitir construção em solos rústicos.
  3. Garantir o cumprimento da meta de proteção de 30% do território terrestre e marinho até 2030, incluindo os 10% de proteção estrita, através de uma rede eficaz de Áreas Protegidas ecologicamente representativas, conectadas e bem geridas - necessidade de cumprir as metas definidas na Lei do Restauro;
  4. Garantir a implementação da Rede Natura 2000 (nomeadamente, a conclusão da elaboração dos planos de gestão e a ampliação desta rede ecológica em Portugal) e a efetiva aplicação da legislação, da regulamentação e de iniciativas de conservação, monitorização e fiscalização em todo o Sistema Nacional de Áreas Classificadas;
  5. Garantir financiamento para a elaboração e implementação do Plano Nacional de Restauro, para promover o restauro ecológico à escala da paisagem e dos ecossistemas degradados, reabilitar o equilíbrio ecossistémico e reverter a perda de biodiversidade;
  6. Promover o restauro dos rios através da remoção de barreiras fluviais obsoletas, em linha com o Regulamento do Restauro da Natureza e o objetivo do Pacto Ecológico Europeu de libertar 25 mil km de rios;
  7. Repensar a estratégia nacional para a gestão da água apostando em soluções baseadas na natureza, enquanto alternativas mais sustentáveis e de baixo custo, como o restauro de zonas húmidas, proteção de aquíferos e o uso de tecnologias de armazenamento alternativas, como reservatórios naturais ou infiltração de água no solo, em detrimento da construção de novas grandes barragens e transvases;
  8. Aumentar em pelo menos 50% o financiamento disponível (quer em Orçamento de Estado, quer no Fundo Ambiental quer no Fundo Azul) para ações de conservação da natureza, que deverá ser plurianual, de forma a garantir o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos, nomeadamente o Global Biodiversity Framework da Convenção da Diversidade Biológica;
  9. Reforçar a proteção do lobo ibérico ao nível nacional e estimular ativamente a adoção de medidas que promovam a coexistência harmónica, tendo em consideração que a proteção desta espécie será severamente reduzida ao nível europeu;
  10. Criar legislação para a conservação das árvores junto das estradas nacionais e municipais, obrigando as entidades gestoras a fundamentarem publicamente as decisões sobre abates.
Clima e energia:
  1. Garantir a implementação imediata do disposto na Lei de Bases do Clima, atendendo a que o seu calendário de implementação se encontra manifestamente atrasado;
  2. Concretizar a revisão do Roteiro Nacional de Baixo Carbono e a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, previstos para 2025, garantindo a participação efetiva das ONGAs e tendo como ponto de partida uma avaliação completa dos resultados das estratégias anteriormente em vigor;
  3. Garantir a efetiva implementação do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, tendo em consideração a necessidade de compatibilizar as suas ambições com outros objetivos ambientais, como a proteção da biodiversidade, e com a racionalidade económica;
  4. Promover a transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a eliminação de todos os subsídios e apoios públicos aos combustíveis fósseis;
  5. Promover a eficiência energética, nomeadamente garantindo recursos para a implementação da Estratégia de Longo-Prazo para a Renovação dos Edifícios e da Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050, e apostar prioritariamente na descentralização e democratização da produção renovável, nomeadamente através do autoconsumo e das comunidades de energia;
  6. Concretizar o processo de seleção de áreas de aceleração de energias renováveis, através de uma Avaliação Ambiental Estratégica, e definir mecanismos para encorajar a localização de projetos de energias renováveis em áreas de menor sensibilidade ambiental (por exemplo, limitar a aplicação do princípio do “interesse público prevalecente” dos projetos de energias renováveis, previsto na REDIII, a estas áreas de aceleração);
  7. Incorporar critérios ecológicos e sociais (critérios não-preço) nos futuros leilões de renováveis (incluindo os leilões para a energia eólica offshore), bem como realizar um planeamento cuidadoso da instalação das infraestruturas de produção e de rede e uma monitorização rigorosa e contínua dos impactos ambientais e sociais dos mesmos;
  8. Maior integração dos aspetos da transição justa, nomeadamente com a elaboração participada do Plano Social Climático de Portugal;
  9. Garantir recursos para apoiar o desenvolvimento e implementação dos planos municipais e regionais de ação climática.
Agricultura e alimentação:
  1. Criar o Plano Nacional de Alimentação Sustentável, que defina de forma participada e transparente os princípios para a alimentação sustentável e os integre de forma sistémica nas políticas de produção, consumo e combate ao desperdício e perdas de alimentos, bem como nas políticas de saúde;
  2. Elaborar a Estratégia Nacional de Promoção do Consumo de Proteínas Vegetais, conforme disposto no PNEC 2030;
  3. Investir na agricultura de baixo impacto, que realiza práticas sustentáveis de uso do solo e da água, com reduzida emissão de gases de efeito de estufa e que beneficia a biodiversidade e que reduz o desperdício agro-alimentar, através de práticas agro-ecológicas;
  4. Promover o uso eficiente e contido da água na agricultura, diversificação e complementaridade entre origens de água nos diversos sistemas de abastecimento, e a regulação do uso de água em todos os sistemas, respeitando sempre os ecossistemas; Promover instrumentos que permitam acabar com a subsidiação pública da água na agricultura de forma a que os agricultores paguem o real custo da água.
  5. Inserir critérios ambientais obrigatórios para as compras públicas de alimentação escolar, garantindo uma alimentação saudável e sustentável nas cantinas, privilegiando cadeias de abastecimento mais sustentáveis e dando escala à implementação da Estratégia Nacional para as Compras Públicas Ecológicas;
Oceanos e Pescas:
  1. Garantir financiamento estrutural que permita o adequado funcionamento dos comités de cogestão das pescarias e a realização de todas as suas funções, de maneira contínua e que dê resposta às singularidades deste modelo de gestão;
  2. Desenvolver de maneira colaborativa e implementar o Plano de Ação Nacional para a Gestão e Conservação de Tubarões e Raias, bem como o Plano de Ação para a Mitigação dos Impactos da Pesca sobre Cetáceos, Aves e Tartarugas;
  3. Criar o Fórum de Carbono Azul em Portugal;
  4. Apoiar a transição para práticas pesqueiras de baixo impacto, direcionando fundos públicos para avaliações que comprovem os impactos das pescarias e eliminando gradualmente os subsídios prejudiciais aos recursos pesqueiros;
  5. Assegurar a implementação eficaz da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha por meio de planos de monitorização assentes na ciência, com financiamento adequado;
  6. Garantir a implementação correta da Política Comum de Pescas, com destaque para o novo Regulamento de Controlo e o Plano de Ação Marinha.
  7. Assegurar a ratificação do Tratado de Alto Mar, para proteção da biodiversidade em áreas para além da jurisdição nacional.
Para além das prioridades temáticas mencionadas, é fundamental assegurar mais espaços formais de participação da sociedade civil no desenvolvimento das políticas públicas, abrangendo todas as suas fases, desde a concepção inicial até a implementação e monitorização. As consultas públicas podem ser agilizadas através da criação de uma plataforma única (semelhante à utilizada pela Comissão Europeia), seguindo enquanto padrão mínimo o disposto na legislação de Avaliação de Impacte Ambiental e garantindo o cumprimento da Convenção de Aarhus sobre o direito à participação. É essencial também salvaguardar e apoiar a ação das organizações da sociedade civil, pela sua importância democrática e papel na defesa da natureza e do bem-estar das pessoas, incluindo através da garantia da continuidade de instrumentos de financiamento centrais, como o programa LIFE.

A C7 considera que estas medidas representam o mínimo necessário para que Portugal possa enfrentar os desafios ambientais globais, cumprir os compromissos internacionais assumidos, e garantir a manutenção dos ecossistemas e a construção de uma sociedade resiliente.

A Coligação C7 é composta pelas seguintes organizações:
FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
LPN – Liga para a Protecção da Natureza
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves
WWF Portugal
ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável