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terça-feira, 7 de julho de 2026

A rutura espinosana com o teísmo judaico-cristão e a defesa da liberdade de consciência


O texto aborda a profunda rutura filosófica de Baruch de Espinosa com o teísmo judaico-cristão tradicional, contrastando a sua visão com a de Blaise Pascal. Enquanto Pascal defendia o Deus da fé, da revelação e das Escrituras - o "Deus de Abraão, Isaac e Jacob"-, Espinosa propôs uma desconstrução radical desse modelo antropomórfico (que atribui características humanas a Deus).

Segundo Espinosa, a superstição e o medo são utilizados pelas religiões tradicionais para instituir uma "interdição do pensar", transformando a fé em obediência cega e servindo como ferramenta de controlo político e social. Em contrapartida, o filósofo introduz o conceito de Deus sive Natura ("Deus ou a Natureza"), defendendo que Deus não é um monarca transcendente que julga ou faz milagres, mas sim a própria substância única, infinita e imanente do universo, que opera segundo leis racionais e necessárias.

O ensaio sublinha que, ao destronar o Deus punitivo e providencial, Espinosa liberta a razão humana das amarras do medo, transformando o conhecimento e o "amor intelectual a Deus" na verdadeira via para a liberdade. Adicionalmente, o seu pensamento surge como uma defesa pioneira e intransigente do Estado laico, da democracia e da liberdade de consciência e de expressão.

Podes ler o ensaio completo na sua plataforma de publicação original através da seguinte ligação:

quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

The Unbroken Thread


Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) @ José Morgado Martins

"The bird is not on the branch, but of it
A momentary flowering of the wood,
A pulse of warm blood singing the sky’s own blue.

She does not stand apart to name the world;
She is the world’s own throat,
Translating the deep, silent sap of the cherry tree
Into a language of air and light.

There is no "I" that watches and no "it" that sings,
Only the single, shimmering web of being
Where the frost of the bark and the heat of the heart
Are one slow-burning fire.

To hear her is to feel the weight of centuries
Of starlight and soil rising through those tiny claws,
A testimony that we are not masters of this place,
But plain members of its magnificent, grieving,
And wildly living body.

When she opens her beak, the universe exhales—
Not for us, but because the song is the only way
For the earth to know the depth of its own belonging."

João Soares, 09.04.2026


sábado, 28 de março de 2026

Albert Einstein sobre a nossa interconectividade ecológica e cósmica


"O ser humano é uma parte do todo a que chamamos 'Universo', uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia-se a si próprio, aos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto — uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência.

Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, que nos restringe aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A nossa tarefa deve ser libertarmo-nos dessa prisão, alargando o nosso círculo de compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza na sua beleza."

Esta passagem profunda pertence a uma carta de condolências escrita por Albert Einstein em 12 de fevereiro de 1950.

O destinatário era o Rabino Robert S. Marcus, na época Diretor Político do Congresso Judaico Mundial. O Dr. Marcus havia escrito a Einstein num momento de desespero absoluto, procurando conforto espiritual após a morte prematura do seu filho de 11 anos, vítima de poliomielite.

O Contexto da Carta
Marcus questionava Einstein sobre como conciliar a visão científica do mundo com a necessidade de acreditar na imortalidade da alma para suportar a dor da perda. Einstein respondeu com este texto, que se tornou uma das suas reflexões mais famosas sobre a espiritualidade secular e a interconexão da vida.

O Texto Original (Inglês)
"A human being is a part of the whole, called by us 'Universe,' a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest — a kind of optical delusion of his consciousness.

This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole of nature in its beauty."

Onde ler o original
Como Einstein escreveu esta carta de forma privada, ela não foi um artigo científico publicado originalmente, mas foi preservada nos Arquivos Albert Einstein. Pode encontrar o registo e transcrições em fontes arquivísticas e literárias de referência:

  1. Albert Einstein Archives: o documento está catalogado sob a referência 33-188.
  2. Livro: The New Quotable Einstein, editado por Alice Calaprice (Princeton University Press).
  3. Digital: o site The Marginalian possui um artigo detalhado que inclui a carta enviada pelo Rabino e a resposta de Einstein.
A carta completa também está no livro "The Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet", 2020

Matthieu Ricard formou-se em biologia molecular, trabalhou e concluiu um Doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, sob a supervisão do cientista francês François Jacob, um cientista vencedor do Prémio Nobel, mas quando leu sobre filosofia budista, sentiu-se atraído pelo budismo. Eventualmente, deixou a sua vida na ciência para estudar com mestres tibetanos e é agora monge budista e tradutor do Dalai Lama, vivendo no mosteiro de Shechen, perto de Katmandu, no Nepal. Trinh Thuan nasceu numa família budista no Vietname, mas ficou intrigado com a explosão de descobertas na astronomia durante a década de 1960. Foi para o prestigiado Instituto de Tecnologia da Califórnia para estudar com alguns dos maiores nomes da área e é agora um astrofísico aclamado e especialista em como as galáxias se formaram.
Quando Matthieu Ricard e Trinh Thuan se conheceram numa conferência académica, no verão de 1997, começaram a discutir as muitas ligações notáveis ​​entre os ensinamentos do Budismo e as descobertas da ciência recente. Esta conversa transformou-se numa correspondência surpreendente, explorando uma série de questões fascinantes. O universo teve um início? Ou será que o nosso universo é apenas um numa série de universos infinitos, sem fim nem princípio? Será que o conceito de um início do tempo é fundamentalmente falho? Será que a nossa perceção do tempo é, na verdade, uma ilusão, um fenómeno criado nos nossos cérebros que não possui uma realidade última? Será que o impressionante ajuste fino do universo, que produziu as condições ideais para a evolução da vida, é um sinal de que um "princípio da criação" está em ação no nosso mundo? Se tal princípio da criação sustenta o funcionamento do universo, o que nos diz isto sobre a existência ou não de um Criador divino? Como é que a interpretação radical da realidade oferecida pela física quântica se conforma e, ao mesmo tempo, difere da conceção budista da realidade? O que é a consciência e como evoluiu? Pode a consciência existir independentemente de um cérebro que a gere?
A estimulante viagem de descoberta percorrida pelos autores nas suas discussões é recriada de forma primorosa em "O Quântico e o Lótus", escrito ao estilo de um diálogo animado entre amigos. Tanto os ensinamentos fundamentais do Budismo como as descobertas da ciência contemporânea são apresentados com grande clareza, e o leitor ficará profundamente impressionado com as muitas correspondências entre as duas correntes de pensamento e de revelação. Ao longo do seu diálogo, os autores chegam a um notável encontro de mentes, oferecendo, em última análise, uma nova e vital compreensão das muitas formas como a ciência e o budismo se confirmam e se complementam, e das formas como, como escreve Matthieu Ricard, "o conhecimento dos nossos espíritos e o conhecimento do mundo são mutuamente esclarecedores e fortalecedores".
"O Quântico e o Lótus é uma exploração instigante e reveladora dos paralelos fascinantes entre o pensamento vanguardista na física e o Budismo - uma conversa brilhante que qualquer pessoa pensante teria prazer em ouvir." — Daniel Goleman, autor de "Inteligência Emocional"
"O Quântico e o Lótus é o resultado rico e inspirador de um diálogo profundamente interessante entre a ciência ocidental e a filosofia budista. Este livro notável contribuirá muito para uma melhor compreensão da verdadeira natureza do nosso mundo e da forma como vivemos as nossas vidas." —Sua Santidade o Dalai Lama

sexta-feira, 27 de março de 2026

Nick Cave and Warren Ellis - We Are Not Alone


Melhor som aqui
Apresentação do álbum aqui
Letra
This world has ears and rocks have eyes
Nature loves to hide
The world is a bush full of fiery eyes

Nature loves to hide
I've travelled a lot, I was observed
I was observed and unaware

I've travelled a lot unaware I was observed, I was observed
We are not alone (Good news for life) 20X

Uma Meditação sobre a Natureza: "We Are Not Alone"
No seu trabalho colaborativo para o documentário A Pantera das Neves (The Velvet Queen), Nick Cave e Warren Ellis exploram a linha ténue que separa a humanidade do divino. A canção "We Are Not Alone" serve como o pulsar emocional desta jornada, afastando-se da obsessão moderna pelo "eu" em direção a uma ligação profunda e comunitária com o meio ambiente.

A música sugere que a "presença" não se resume apenas a outras pessoas; trata-se dos espíritos da paisagem, dos animais que nos observam das sombras e dos ecos ancestrais que habitam os lugares silenciosos do mundo. É uma chamada de atenção, assustadoramente bela, para pararmos, ouvirmos e reconhecermos o nosso lugar dentro da tapeçaria viva do planeta.

sexta-feira, 20 de março de 2026

The Common Root, The Open Field


The sun is a golden carpenter, planed and raw,
Not a thought of God, just the heat upon the stone.
I see with eyes that have forgotten how to name,
Stripping the silk from the corn, the myth from the bone.
I am the keeper of flocks that are only the passing wind,
Content to let the river be water, and the air be thinned.

And so the valley breathes a deep, fern-scented sigh,
Where ancient hemlocks haunt the mist-drenched floor.
There is a poetry in the granite’s edge, the eagle’s cry,
The rhythmic pulse of the river’s wild and hidden roar.
I see the silver birch’s bark, a lily in the gloom,
And the vast, tangled geometry of the mountain’s room.

Yet, look closer—there is a circuit made of sun, 
Where silent cells weave the carbon from the air. 
The plant is not a thing, but a process, a run
A thinking heart that finds the cosmic everywhere.
The earth is a living being, dreaming in the dark,
Waiting for the human soul to strike the inner spark.

I walk the lanes where a poet lost his mind to find his soul,
Naming every nested bird and the trembling of the rye.
The fences steal the common, but they cannot take the whole
Of the vast, unlettered music of the open summer sky.
The badger in the brake, the lady-smock in the dew—
Simple things are the only things that are ever truly true.

And when the world begins to fray, when the shadows grow too long,
A steady hand reaches out and leads me through the grief.
To love the world is to mourn it, a fierce and ancient song,
Finding the "Great Turning" in the falling of a leaf.
We are the web itself, the pulse of the ancient deep,
Awakening from the long, industrial, lonely sleep.

Finally, there is the white silence of a master’s hand,
Where the word is a body, bare and salt-washed by the sea.
A solar clarity that understands the shifting sand,
And the brief, bright miracle of what it means to be.
Just the earth. Just the light. Just this breath we share—
The common root of everything, blossoming in the air.

segunda-feira, 16 de março de 2026

O Earthism e a Transição para uma Civilização Ecológica


A crise civilizacional que enfrentamos no século XXI - marcada pelas alterações climáticas, pela perda acelerada de biodiversidade e pela erosão dos tecidos sociais — não é apenas um problema técnico que se resolve com melhores painéis solares ou carros elétricos. Trata-se, fundamentalmente, de uma crise de identidade e de metafísica. No centro da resposta a este desafio surge o Earthism (ou Terrismo), uma filosofia e um movimento ético que propõe uma reorientação radical: a transição de uma visão antropocêntrica para uma visão ecocêntrica da existência.

A Génese do Terrismo: De Whitehead a Cobb Jr.
Para compreender o Earthism, é obrigatório passar pela figura de John B. Cobb Jr., filósofo e teólogo norte-americano que dedicou a sua vida a construir as bases de uma Civilização Ecológica. Cobb fundamentou o seu pensamento na Filosofia do Processo de Alfred North Whitehead. Segundo esta perspetiva, o universo não é uma coleção de objetos inertes e independentes, mas sim um fluxo contínuo de eventos e relações.

Nesta visão, a Terra não é um "armazém de recursos" à espera de ser explorado, mas um organismo vivo e dinâmico onde cada parte — do microrganismo ao ser humano — possui valor intrínseco. Ao contrário da visão mecânica da modernidade, o Earthism defende que a natureza é "experienciadora". Quando destruímos um ecossistema, não estamos apenas a perder matéria-prima; estamos a ferir a própria trama da vida da qual fazemos parte.

Earthism vs. Ecologia Profunda: Uma Distinção Necessária
É comum confundir o Terrismo com a Ecologia Profunda (Deep Ecology), popularizada por Arne Naess. Embora partilhem a crítica ao consumo desenfreado, as nuances são vitais. A Ecologia Profunda é, muitas vezes, uma filosofia secular e puramente biocêntrica que pode tender para uma visão misantrópica, vendo o ser humano como um intruso ou uma ameaça à "pureza" da natureza.

Já o Earthism de Cobb Jr. é profundamente humanista e integrador. Cobb não nega a singularidade humana; pelo contrário, ele afirma que, por sermos a parte da biosfera que atingiu a autoconsciência e a capacidade tecnológica, temos a responsabilidade ética de agir como "guardiões" da Terra. O Terrismo não pede o fim da civilização, mas a sua transformação total numa civilização que floresça em harmonia com os limites planetários.

A Economia como Subsidiária da Ecologia
Uma das maiores contribuições de Cobb para o movimento foi a sua colaboração com o economista Herman Daly. No seu livro seminal For the Common Good, ambos desmontaram o mito do crescimento económico infinito num planeta finito. Para um "Earthista", a economia atual é uma forma de loucura matemática: tratamos o capital natural (solo, água, ar) como se fosse inesgotável.

A proposta de Cobb e Daly é a substituição do PIB (Produto Interno Bruto) por indicadores que meçam o bem-estar real e a integridade ecológica. Defendem uma Economia para a Comunidade, onde a produção é local, circular e regenerativa. Aqui, o sucesso não é medido pela acumulação de riqueza abstrata, mas pela capacidade de uma comunidade sustentar a vida de forma digna e sustentável.

A Convergência com Outros Pensadores
O Earthism não é uma ilha intelectual. Ele converge com o pensamento de Thomas Berry, que nos instigou a realizar o "Grande Trabalho" de transição da era Cenozoica para uma era Ecozoica. Bebe também da Democracia da Terra de Vandana Shiva, que luta contra a privatização da vida e pela proteção das sementes e da biodiversidade no Sul Global.

Conclusão: O Regresso à Terra
Em última análise, ser um adepto do Earthism significa reconhecer que não somos "donos" de nada, mas sim "terrestres". É a compreensão de que a espiritualidade, a política e a economia devem estar ao serviço da comunidade da vida. Como John B. Cobb Jr. frequentemente afirmou, o nosso destino e o destino da Terra são um só. Se a Terra falhar, a humanidade falha; mas se aprendermos a viver como parte integrante deste superorganismo, poderemos finalmente construir uma civilização que seja digna desse nome.

Referências Bibliográficas
  1. Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Nova Iorque: Bell Tower.
  2. Cobb, J. B., Jr. (2010). Spiritual Bankruptcy: A Prophetic Call to Action. Nashville: Abingdon Press.
  3. Daly, H. E., & Cobb, J. B., Jr. (1994). For the Common Good: Redirecting the Economy toward Community, the Environment, and a Sustainable Future. Boston: Beacon Press.
  4. Naess, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  5. Shiva, V. (2005). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. Londres: Zed Books.
  6. Whitehead, A. N. (1929/1978). Process and Reality: An Essay in Cosmology. Nova Iorque: Free Press.

domingo, 15 de março de 2026

A filosofia de John Cobbe


O pensamento de John B. Cobb Jr. (nascido em 1925, Japão) representa uma das sínteses mais ambiciosas dos séculos XX e XXI entre a espiritualidade, a ciência e a economia. Como principal expoente da Teologia do Processo, Cobb baseou a sua visão de mundo na filosofia de Alfred North Whitehead (1861–1947), rejeitando a ideia de um universo estático composto por objetos isolados. Para ele, a realidade é um fluxo contínuo de eventos interconectados, onde cada ser é constituído pelas suas relações com os outros. Esta perspetiva alterou radicalmente a compreensão de Deus: em vez de um monarca onipotente e imóvel, o Deus de Cobb é uma presença sensível que sofre e se alegra com a criação, influenciando o mundo não pela coerção, mas pela persuasão em direção ao bem, à beleza e à vida.

Essa fundamentação filosófica levou Cobb a tornar-se um pioneiro da teologia ecológica. Ao compreender que o bem-estar humano é indissociável da saúde da biosfera, passou a criticar severamente o modelo de desenvolvimento industrial. A sua colaboração mais famosa neste campo ocorreu com o economista Herman Daly (1938–2022), com quem escreveu a obra seminal For the Common Good (1989). Juntos, desafiaram o uso do PIB como única métrica de progresso, argumentando que o crescimento económico cego ignora a degradação ambiental e a erosão das comunidades. Propuseram o Índice de Bem-Estar Económico Sustentável (ISEW), uma ferramenta prática para medir a economia sob uma ótica de preservação e justiça social.

Além de Daly, outros colaboradores foram fundamentais para a expansão deste sistema. Charles Hartshorne (1897–2000) forneceu o rigor lógico necessário para definir a natureza dipolar de Deus no processo, enquanto David Ray Griffin (1939–2022) trabalhou ao lado de Cobb na fundação do Center for Process Studies em 1973, consolidando a teologia do processo como uma alternativa viável à modernidade materialista. Cobb também se destacou no diálogo inter-religioso, especialmente com o Budismo, publicando Beyond Dialogue: Toward a Mutual Transformation of Christianity and Buddhism em 1982. Atualmente, o seu legado vive no movimento pela Civilização Ecológica, uma proposta de reorganização total da sociedade que busca garantir a sobrevivência e o florescimento de todas as formas de vida na Terra, conceito que ganhou forte tração em fóruns internacionais e políticas de sustentabilidade na China a partir de 2007.

E o que é a Civilização Ecológica?
Cobb foi um dos primeiros a usar o termo "Civilização Ecológica". Ele acreditava que o modelo atual de civilização industrial está em colapso e que o Terrismo é a base para a próxima fase da humanidade:
  1. Localismo: comunidades mais pequenas e autossuficientes.
  2. Respeito biocêntrico: leis que protegem o ecossistema acima do lucro corporativo.
  3. Educação integrada: ensinar as crianças que a sua identidade é, antes de mais, "terrestre".
"O destino da humanidade e o destino da Terra são um só." — Esta frase resume a dedicação de Cobb ao longo de décadas.

É fascinante notar como Cobb influenciou até políticas públicas na China, onde o conceito de "Civilização Ecológica" foi adotado oficialmente.[em março de 2018]

Biografia
Mais info aqui

domingo, 19 de outubro de 2025

Amor Universal - Ensaio Filosófico e Ecológico


O conceito de amor universal pode ser compreendido como a manifestação suprema da consciência ética e ontológica do ser humano. Longe de se restringir à afetividade individual, trata-se de uma disposição metafísica que reconhece a unicidade do ser e a interdependência ontológica entre todas as formas de existência.

Em Platão, particularmente no Banquete, o amor (eros) é concebido como um movimento dialético da alma em direção à contemplação do Belo absoluto — o princípio inteligível que estrutura e unifica o real. O amor, neste contexto, constitui uma via epistemológica e ontológica: conhecer é amar, e amar é ascender à unidade do Ser.

Com Espinoza, o amor universal adquire uma formulação racionalista e imanentista. No Ethica, o amor Dei intellectualis designa a alegria derivada da compreensão intuitiva da substância única, Deus sive Natura. Assim, o amor universal espinosano é simultaneamente um ato cognitivo e ético: ao perceber-se como modo da substância infinita, o indivíduo participa de uma beatitude que transcende a particularidade.

A cosmopólis estóica, em autores como Sêneca e Marco Aurélio, inscreve o amor universal no âmbito da razão cósmica (logos). O ser humano, enquanto parte do todo racional, tem o dever moral de agir em conformidade com essa ordem, cultivando a oikeiosis — o reconhecimento progressivo da afinidade ontológica com todos os seres. O amor, neste horizonte, é a dimensão prática da razão universal.

Nas tradições orientais, o amor universal assume expressões fenomenologicamente convergentes. O budismo theravāda propõe a prática de metta (benevolência universal) e karuṇā (compaixão), compreendidas como atitudes que emergem da percepção da vacuidade (śūnyatā) e da interdependência (pratītyasamutpāda). O amor, aqui, é uma resposta lúcida à ausência de substancialidade do eu. 

Em Laozi, o Tao Te Ching concebe o amor como modalidade espontânea da virtus () que acompanha o fluxo do Tao — o princípio impessoal e gerador que sustenta o cosmos.

No Hinduísmo, Amor universal manifesta-se de diversas formas. No Vaishnavismo, reflete o afeto inclusivo do Senhor por todos os seres . Nos Puranas, demonstra-se na admiração por Ramacandra. Em Jyotisha, indica a capacidade de atrair afeto, ligada à posição de Vénus . É um amor abrangente que permeia diferentes aspectos da vida e da espiritualidade.

Na modernidade, Albert Schweitzer formula o princípio da “reverência pela vida” como imperativo ético universal, e Teilhard de Chardin interpreta o amor como energia cosmogénica, vetor de complexificação e convergência evolutiva rumo ao ponto Ômega. Ambos introduzem uma leitura bioética e teleológica do amor universal, articulando-o com a dinâmica evolutiva do cosmos.

Em síntese, o amor universal pode ser definido como categoria ontológico-ética, isto é, como o reconhecimento ativo da cooriginariedade de todos os entes no seio do ser. Constitui o fundamento de uma ética da interdependência e de uma ontologia relacional, na qual o cuidado, a compaixão e a solidariedade não são virtudes contingentes, mas expressões necessárias da estrutura do real.

Referências Bibliográficas 
  • Aurelius, M. (2002). Meditations (G. Hays, Trans.). Modern Library. (Obra original publicada ca. 180 d.C.)
  • Buda. (trad. 2010). The Dhammapada (E. Easwaran, Trans.). Nilgiri Press.
  • Chardin, T. de. (1955). Le phénomène humain. Éditions du Seuil.
  • Espinosa, B. de. (1985). Ethica ordine geometrico demonstrata. In Opera Posthuma. (Obra original publicada em 1677).
  • Laozi. (1997). Tao Te Ching (D. C. Lau, Trans.). Penguin Classics.
  • Platão. (1993). O Banquete (J. A. Segurado e Campos, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Schweitzer, A. (1923). Kultur und Ethik. C. H. Beck.
  • Séneca. (2001). Cartas a Lucílio (A. C. Amaral, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian

sábado, 28 de junho de 2025

Teilhard de Chardin, a síntese e a totalidade cósmica


Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Orcines, França, em 1881 e morreu em 1955 nos Estados Unidos da América. Padre jesuíta e paleontólogo, estudou na Sorbonne e ensinou em Paris mas em 1922 é enviado para a China, certamente também pela inconveniência dos seus escritos, principalmente em relação ao pecado original. As suas ideias foram proibidas de ensinar nos institutos católicos mas a sua obra e influência pós-morte é notável, sendo reconhecidamente influenciador do Concílio Vaticano II. Foi reabilitado pelos papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Precisamente por não ser um verticalizante teólogo, filósofo ou cientista, mas um mestre na síntese horizontal destes vetores, Chardin é um autor incontornável. Se somarmos a sua argúcia e ousadia extrema (para a época em que escreveu) ao seu ser místico, estamos diante de alguém crucial e muito relevante na Igreja mas, em certo sentido, difícil de acompanhar.

O meu amigo P. Alfredo Dinis sj, com quem fiz muito caminho nestas temáticas e a quem presto aqui homenagem, decidiu, nos últimos tempos da sua vida, reler toda a obra de Chardin. Já com a voz caída mas de sorriso alargado e cheio de honestidade, dizia-me: “João, está lá tudo!” (na obra de Chardin, bem entendido…). Estas palavras do Alfredo, porque as sinto na mente e no coração, dão bem conta do potencial deste autor e místico do século passado.

A amplitude da obra e daquilo que está também por interiorizar na vida Cristã, tornam quase ridículo um artigo de poucas linhas sobre alguns dos seus horizontes. Consciente da largueza do que representa Chardin, permito-me um ligeiro alinhamento, quase telegráfico, de algumas ideias fortes do seu pensamento. Reproduzo aqui aquilo que tem vindo a ser mais relevante para mim, já perpassado pela subjetividade de uma leitura necessariamente pessoal. Recomendo, para aprofundamentos ulteriores, as suas vastas obras e/ou os trabalhos de associações à volta desta figura ilustre (ver, por exemplo: Associação dos Amigos de Pierre Teilhard de Chardin em Portugal ).

1- Chardin pode ser sintetizado na ideia charneira de um Deus que cria evolutivamente ou que evolui criativamente… Compreende-se porque o chamaram (e perseguiram como) panteísta: o Universo é divinizador, divinizante e divinizável. Ele próprio quis reabilitar um certo “panteísmo cristão”, sublinhando que o Deus revelado em Jesus Cristo, não se confundido com a natureza, nela está radical e evolutivamente “empapado” (palavras minhas): Deus criou e está a criar o Cosmos, para que o Cosmos, incluindo-nos, seja! As suas referencias a um “Cristo cósmico” são o resultado de uma osmose positiva no alinhamento: antropogénese, cosmogénese, biogénese, cristogénese.

2- Chardin rejeita o tomismo da substância ser “o crucial”. A este substancialismo, propõe-nos uma alternativa a que poderíamos chamar relacionista-evolutiva: incorpora-se o tempo, a mudança e a relação como constituintes de Deus e dos homens.

3- Chardin talvez seja um filósofo da globalização. A sua fidelidade à terra (curiosamente uma expressão de Nietzsche) coloca no centro a unidade evolutiva entre o Cosmos e a consciência da humanidade tomada na sua unidade. A evolução, para ter sentido, tem de fazer convergir e o amor é a força-impulso deste movimento.

4- São de Chardin as ideias de que o Deus do ‘em frente’ supera o Deus do ‘em cima’. Sem prejuízo da transcendência, enfatiza-se uma horizontalidade muito humana (e Cristã, diria eu) e que nos convida a evitar os moralismos.

5- Chardin teve um forte investimento na reteologização do pecado original. Mais do que uma falha em certo instante da história, o pecado original é evolutivamente constitutivo. Relaciona-se com o mau uso da liberdade humana, amorosamente “arriscada” por Deus, querendo dizer principalmente que a criação acarreta falta, fragilidade intrínseca e custo. De arrasto com o problema do pecado original, Chardin dá subsídios novos para rever teologicamente o mal e a cruz, assim tomados no seu dinamismo evolutivo e, crucialmente, tonificados por uma vida que valha a pena viver. Podemos dizer que com Chardin se pode abrir uma visão menos “pessimista” do pecado original, não esquecendo nunca o contexto de um Deus que “viu que era Bom”…

6- Desconheço sínteses mais libertadoras sobre a complexa tensão entre a totalidade e a singularidade do que a obra, em si mesmo, de Chardin. Diz ele: “A preocupação com o Todo tem as suas raízes no fundo mais secreto do nosso ser. Por necessidade intelectual – por carência afectiva – por impressão direta, quiçá, do Universo, somos essencialmente levados, a cada instante, à consideração do Mundo, tomado na sua totalidade”. É verdade que Cristo, é, Ele mesmo, para nós e para Chardin, esta mesma síntese.

7- Chardin teve também rejeições da comunidade científica (não apenas do lado religioso, portanto). Compreende-se tal pois o seu lado místico cria ruído cognitivo a quem está do lado de fora da fé. Embora Chardin tente uma lucidez e uma linguagem universais, é certo que será preciso ter fé para entender Chardin (mais do que conhecer Chardin para ter fé). Mas será que não precisamos de fé para entender “por dentro” seja o que for?…

8- Juan González de Arintero, no final do século XIX, afirmava que havia que fazer com a teoria da evolução de Charles Darwin o que Tomás de Aquino fez com Aristóteles. Chardin, para mim, foi o obreiro desse trabalho. À boa maneira chardiana, reformulo: “Chardin está a ser o obreiro desse trabalho”… pois que, da sua obra, há muito ainda para compreender, extrair e incorporar na vida dos Cristãos!

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard numa linguagem compreensível sem sacrificar a sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu num ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram o seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard – como Mercè Prats ilustra muito bem – provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, o seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Numa época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Teilhard de Chardin: a espiritualidade e a natureza



Texto muito bonito de Pierre Teilhard de Chardin (nascido em Orcines, 1 de maio de 1881 — falecido em Nova Iorque, 10 de abril de1955), que foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia:

*"A religião não é apenas uma, são centenas.*
*A espiritualidade é apenas uma.*
*A religião é para os que dormem.*
*A espiritualidade é para os que estão despertos.*
*A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.*
*A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.*
*A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.*
*A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.*
*A religião ameaça e amedronta.*
*A espiritualidade lhe dá Paz Interior.*
*A religião fala de pecado e de culpa.*
*A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"..*
*A religião reprime tudo, te faz falso.*
*A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!*
*A religião não é Deus.*
*A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.*
*A religião inventa.*
*A espiritualidade descobre.*
*A religião não indaga nem questiona.*
*A espiritualidade questiona tudo.*
*A religião é humana, é uma organização com regras.*
*A espiritualidade é Divina, sem regras.*
*A religião é causa de divisões.*
*A espiritualidade é causa de União.*
*A religião lhe busca para que acredite.*
*A espiritualidade você tem que buscá-la.*
*A religião segue os preceitos de um livro sagrado.*
*A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.*
*A religião se alimenta do medo.*
*A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.*
*A religião faz viver no pensamento.*
*A espiritualidade faz Viver na Consciência..*
*A religião se ocupa com fazer.*
*A espiritualidade se ocupa com Ser.*
*A religião alimenta o ego.*
*A espiritualidade nos faz Transcender.*
*A religião nos faz renunciar ao mundo.*
*A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.*
*A religião é adoração.*
*A espiritualidade é Meditação.*
*A religião sonha com a glória e com o paraíso.*
*A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.*
*A religião vive no passado e no futuro.*
*A espiritualidade vive no presente.*
*A religião enclausura nossa memória.*
*A espiritualidade liberta nossa Consciência.*
*A religião crê na vida eterna.*
*A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.*
*A religião promete para depois da morte.*
*A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.*
*"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual...*
*Somos seres espirituais passando por uma experiência humana..."*

Após anos de pesquisas em paleontologia humana, Teilhard tentou publicar sua obra prima, “O Fenómeno Humano” em 1948, em Roma. Na época, a cúpula da Igreja Católica não aceitava os conceitos evolucionistas de Charles Darwin, expostos em 1859 com o livro “A Origem das Espécies”, e a grande obra de Teilhard de Chardin só foi publicada em 1959, por uma editora americana, 4 anos após a morte do autor.

Para ele, a natureza é um grande templo, onde se realiza a grande evolução que se iniciou há cerca de 13 bilhões de anos atrás, com o Big Bang que deu início ao universo, e que se processa ininterruptamente através dos seguintes grandes estágios; a matéria inanimada evolui para a vida, há cerca de 3 bilhões de anos, e ela se propaga de forma explosiva sobre a terra, e hoje os cientistas já admitem a existência de mais de 30 milhões de espécies diferentes de seres vivos sobre o planeta.

O surgimento e evolução humana

Algo surpreendente então ocorre; o aparecimento dos primeiros hominídeos, há cerca de 4 milhões de anos, que evoluem aos ancestrais da nossa espécie, o Homo sapiens, há uns 200.000 anos, já com um cérebro quase igual aos nossos, e com 100 bilhões de neurônios nele, contra 6 bilhões dos gorilas. Pela primeira vez na história, surge a consciência, o poder de reflexão; não apenas o saber, mas saber que se sabe. Com isto, surge uma nova biologia cósmica; a emergência decisiva, na vida individual, de fatores de arranjos internos, como a invenção, a ciência, a vontade, acima de fatores de arranjos externos, como o instinto, o acaso, a possibilidade. O homem se descobre como dono de uma vontade de viver universal que nele converge, e cuja dinâmica é o progresso contínuo, a procura do pleno desenvolvimento de suas faculdades, a procura incessante do saber. 

Este salto colossal, do inanimado ao espírito, à reflexão, à arte, era visto por Chardin como uma linha de enorme progresso, uma inegável evolução da humanidade num mundo onde a tecnologia se propaga e possibilita a um esquimó, por exemplo, conhecer em poucos dias toda a obra de Mozart, a alunos da escola conhecerem as teorias de Einstein, a indianos se deleitarem com Shakespeare.

O homem, pouco a pouco toma seu destino em suas mãos, e não se deixa mais levar pelo arbitrário. A liberdade passa a ser a capacidade de ser causa própria, e a vida, elevada a seu grau de reflexão e liberdade, não pode continuar sem o progresso contínuo, e o homem passa a ser a evolução que se tornou consciente de si mesma.

Qual seria o apogeu deste processo? Como será o homem daqui a centenas de anos? Uma mescla da inteligência de Einstein com a santidade de S. Francisco, com a coragem de Sócrates e a sabedoria de Espinosa? Seria certamente um ser mais próximo do universo que o cerca, mais em sintonia com os seus irmãos de aventura, mais aberto a mensagens que o cosmos mostra a cada instante, aquilo que Teilhard de Chardin chamava de felicidade do movimento e do crescimento.

Como disse Espinosa, a felicidade não é a consequência da virtude, ela é a própria virtude. Adorar a Deus, então, seria voltar-se de corpo e alma ao ato criador e sua evolução, associando-se a ele para concluir o mundo por meio do esforço, da coragem da pesquisa e da vontade. Deus, assim, se revela pela vontade (desejo autoconsciente) de cada um de nós de saber mais, de encontrar a verdade (a harmonia com o universo), e a beleza (a verdade percebida).

Que sentimento é melhor do que o expresso pela grande síntese de Chardin, de que, pelo esforço humano, o mais verdadeiro será encontrado, e o melhor sempre acaba acontecendo?

sexta-feira, 26 de julho de 2019

James Lovelock celebra seu centenário e 50 anos da Teoria de Gaia


Neste ano de 2019, celebra-se o centenário do nascimento de James Lovelock e sua Hipótese ou Teoria de Gaia cumpre meio século, pois foi descrita pela primeira vez em 1969 e publicada 10 anos depois, em 1979.

A Hipótese Gaia
James Lovelock ficou famoso por ser o primeiro em formular uma teoria científica na qual se aborda uma intuição profunda no pensamento humano: que o Planeta está vivo e que é um organismo complexo em si mesmo. Lovelock formulou esta hipótese, que na atualidade é uma teoria, enquanto trabalhava como consultor da Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, na década de 60.

Nessa mesma época, a petrolífera Shell Oil o convidou como consultor para um programa cuja finalidade era imaginar como seria o mundo no ano 2000; enquanto a maioria dos expertos falava de veículos alimentados por energia obtida através da fusão e outras tecnologias futuristas, Lovelock previu que para o ano 2000 o grande problema seria ambiental e “estaria afetando o seu negócio”.

Ao esboçar sua hipótese, Lovelock definiu Gaia como “uma entidade complexa que inclui a biosfera, atmosfera, oceanos e terra, constituindo na sua totalidade um sistema retroalimentado que busca um entorno físico e químico propício para a vida no Planeta”.

Naquele momento, a Hipótese de Gaia gerou intensos debates na comunidade científica e filosófica pelas suas implicações sociais e inclusive metafísicas. Era uma nova “fronteira”. O nome de Gaia foi sugerido pelo seu amigo, o escritor e Prémio Nobel de Literatura de 1983, William Golding, autor de “O senhor das moscas”. O que ficou de Gaia meio século depois?

Num artigo publicado por The Guardian, Lovelock, diz que “43 anos depois, isso foi o que aconteceu”, destacando a sua autoria por se antecipar ao que está acontecendo no nosso Planeta. Segundo Decca Aitkenhead, jornalista do The Guardian, suas predições, emitidas desde um “laboratório de um só homem”, lhe garantiram um lugar como um dos cientistas britânicos independentes mais respeitados.

Trabalhando sozinho desde que tinha 40 anos, Lovelock inventou o detector de captura de eletrões, que permitiu detectar componentes tóxicos em regiões tão remotas como a Antártida e o crescente buraco na Camada de Ozono (o trabalho do químico mexicano Mario Molina, que o levou a conquistar o Prémio Nobel de Química em 1995, está inspirado em Lovelock).

No seu último livro, “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock previu que o clima extremo seria a norma causando grande devastação. Também afirmou que no ano 2040 Europa se pareceria com o Saara e boa parte de Londres estaria sob a água. Estes cálculos são mais radicais do que os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas não completamente distantes das suas estimativas.

Na opinião de Lovelock, houve sete desastres similares ao que está por acontecer desde que os humanos evoluíram. “Acredito que estes eventos continuam, separando o joio do trigo e, eventualmente, sim teremos um ser humano no Planeta que entenderá isso e viverá de forma apropriada. Essa é a fonte do meu otimismo”, disse.

Segundo ele, a evolução do nosso Planeta, não se comporta de uma maneira linear, mas sofre descontinuidades e grandes saltos no seu trajeto. A história da Terra e a dos modelos climáticos simples baseados na noção de um Planeta vivo e responsivo sugere que a mudança repentina e supressiva é mais possível do que a suave curva ascendente da temperatura que predizem a maioria dos modelos para os próximos 90 anos.

Na Teoria de Gaia, estabelece que a Terra é um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação configura o delicado equilíbrio da biosfera. O Planeta é um ser vivo possivelmente inteligente (sua inteligência é a evolução mesma); uma unidade da qual todas as formas de vida são parte, que se reproduz autorreferencialmente através da autopoiesis e se autorregula para se manter homeostática.

Ainda que a sua teoria fosse usada para firmar as crenças do New Age e as do “movimento verde”, Lovelock não acredita nas ações estilo “salvar o planeta deixando de usar sacolas de plástico”, ou coisas pelo estilo. Lovelock acredita que este tipo de coisas são uma fantasia e uma ilusão que nos fizeram acreditar para nos sentirmos melhor, mas não fazem diferença.

“É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada. Muitas pessoas vêm até mim e me dizem que não posso dizer isso, porque faz que não tenham nada a fazer. Eu digo que, pelo contrário, nos dá uma imensa quantidade de coisas a fazer. Só que não do tipo de coisas que querem fazer”, disse respondendo a perguntas numa entrevista do The Guardian.

Há que dizer que James Lovelock é sumamente controvertido e que suas predições foram apoiadas pelo IPCC. Parece amar a polêmica. Não acredita que a energia renovável permita alimentar uma sociedade como a nossa. Em troca, prefere a energia nuclear.

Ele considera que, ao ter ultrapassado um ponto crítico, o aquecimento global fará com que boa parte do mundo seja inabitável e que desaparecerão até 80% dos seres humanos. O que fazer perante isso tudo? Lovelock diz sorridente: “Desfrutar da vida enquanto se pode. Porque se se tem sorte ainda ficam 20 anos antes que tudo se desmorone”.

A Teoria de Gaia se baseia na ideia de que a biosfera autorregula as condições do Planeta para fazer seu entorno físico (especialmente temperatura e química atmosférica) mais hospitaleiro para as espécies que conformam a “vida”. A Teoria de Gaia define esta “hospitalidade” como uma completa homeostase. Um modelo simples que se usa para ilustrar a Hipótese de Gaia é a simulação do mundo das margaridas.

De acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica, um sistema fechado tende à máxima entropia. No caso do Planeta Terra, sua atmosfera deveria estar em equilíbrio químico, composta maioritariamente de CO2 (estimou-se que a atmosfera deveria se compor de, aproximadamente, 99% de CO2) apenas com vestígios de oxigênio e nitrogênio. Segundo a Teoria de Gaia, o fato de que hoje em dia a atmosfera se configure com 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e apenas 0,3% de dióxido de carbono se deve a que a vida, com sua atividade e sua reprodução, mantém estas condições que a fazem habitável para muitas formas de vida.

Antes da formulação da Hipótese Gaia se supunha que a Terra possuía as condições apropriadas para que a vida acontecesse nela; e que esta vida tinha se limitado a se adaptar às condições existentes, assim como as mudanças que se produziam nessas condições.

A Hipótese de Gaia propõe que dadas as condições iniciais que fizeram possível o início da vida no Planeta, teria sido a própria vida que foi se modificando e, portanto, as condições resultantes são consequência e responsabilidade da vida que a habita. Para explicar como a vida pode manter as condições químicas de Gaia, a bióloga Lynn Margulis co-criadora da Teoria de Gaia desde 1971 e autora de “The Symbiotic Planet”, destacou a grande capacidade dos microrganismos para transformar gases que contêm nitrogênio, enxofre e carbono.

A cosmovisão da Terra viva
Ainda que o conceito de uma Terra viva seja antigo, devemos a Newton a comparação do Planeta com um animal ou um vegetal. James Hutton, (1726-1797), considerado um dos precursores da Hipótese de Gaia, Aldous Huxley, Vladimir Vernadsky e Pierre Teilhard de Chardin expressaram pontos de vista similares, mas, ao carecer de dados quantitativos, essas ideias pioneiras ficaram na anedota ou em meras declarações.

Lovelock iria depurando a sua proposta. Em 1981 criou um modelo de plantas de cores escuras e claras que competiam num planeta com crescente irradiação de luz solar. Tratava de mostrar que a Hipótese de Gaia era coerente com a seleção natural.

Em 1986, o climatologista Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren descobriram o nexo existente entre o gás biogênico dimetilsulfureto (produzido por algas oceânicas), sua oxidação na atmosfera para formar núcleos de condensação nebulosa e o efeito subsequente de criação das nuvens. Margulis, aportou ao modelo a função desempenhada pelos microrganismos que constituem a infraestrutura biológica da Terra. Se durante boa parte da história do Planeta ocuparam todos os espaços da biosfera, em nosso tempo resultam também vitais para uma regulação eficaz da mesma.

Com efeito, os microrganismos do solo são os responsáveis pela produção de gases que encontramos na atmosfera; o vapor de água, o dióxido de carbono e o amônio reduzem a perda de radiação da Terra ao espaço, graças a sua absorção infravermelha.

Estamos falando do Efeito Estufa, graças ao qual a atmosfera mantém o Planeta bastante mais quente do que estaria por si mesmo. Tudo indica que nos primeiros estágios da Terra o Efeito Estufa desempenhou uma missão principalíssima, que foi diminuindo conforme o Sol ia enviando mais calor. Mas, não percamos de vista que os gases decisivos do Efeito Estufa são produzidos pelos organismos.

Geofisiologia
Como o próprio Lovelock declarou em 1969 a Terra é um sistema auto-regulável capaz de manter o clima e a composição química confortável para os organismos. Essa hipótese – a Hipótese de Gaia, agora Teoria de Gaia – ainda deve ser provada. Uma crítica a essa teoria é a que se relaciona com a Teologia. “Esta acusação é injusta, pois nunca me propus atribuir-lhe um propósito ou uma visão do futuro. Seja correta ou não, é uma teoria comprovável e capaz de realizar predições “arriscadas”. Uma delas foi que deveria haver uma emissão de sulfato de dimetilo suficientemente grande desde os oceanos para equilibrar o pressuposto de sulfuro natural”.

“Uma confirmação preliminar veio de minhas próprias medições em 1972, e foi completamente confirmada por M. O. Andreae de forma independente. Mais tarde, considerando a predição por parte de Gaia da regulação do clima, Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren postularam que a densidade das nuvens estava modulada pela abundância de sulfato de dimetilo na atmosfera, e que isso por sua vez mudava o albedo da Terra e a temperatura média da superfície”. “Esta proposta foi publicada como artigo na revista científica Nature em 1987 e ainda está a ser provada. A Teoria de Gaia também ofereceu uma interpretação da regulação em longo prazo do dióxido de carbono e o clima através da erosão biótica das rocas. Esta proposta foi confirmada por Schwartzman e Volk em 1989”.

A obra científica de James Lovelock
Lovelock é autor de quase 200 artigos científicos, distribuídos equitativamente entre temas de medicina, biologia, ciência instrumental e geofisiologia. Possui mais de 50 patentes, na sua maioria de detectores para uso em análises químicas. Um deles, o detector de captura de eletrões, foi importante para o desenvolvimento da consciência ambiental. Revelou pela primeira vez a distribuição ubíqua dos resíduos dos pesticidas e outros compostos químicos que contêm halogêneos.

Esta informação permitiu a Rachel Carson escrever seu livro “Primavera silenciosa” (considerado o iniciador da tomada de consciência ambiental. Mais tarde permitiu a descoberta da presença de PCB (Bifenilos policlorados) no meio ambiente. Mais recentemente, o detector de captura de eletrões permitiu descobrir a distribuição global de óxido nitroso e de clorofluorcarbonos, ambos importantes na química do ozônio estratosférico. Algumas dessas descobertas foram adotadas pela NASA nos seus programas de exploração interplanetária. A NASA lhe outorgou 3 certificados de reconhecimento .

James Lovelock fora de ser o criador da Hipótese de Gaia (agora chamada Teoria de Gaia) e escreveu outros quatro livros sobre esse tema: “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: Um Novo Olhar sobre a Vida na Terra” (1979); o segundo é “Ages of Gaia – As Eras de Gaia” (1988).

O terceiro é “Gaia: The Practical Science of Planetary Medicine – Gaia: una ciência para curar o planeta” (1991) e o quarto, “Homage to Gaia: The Life of an Independent Scientist – Homenagem a Gaia. A vida de um cientista independente” (2000). O principal interesse de Lovelock se focaliza nas Ciências da Vida. No início. através da pesquisa médica e, depois, em relação com a Geofisiologia, a ciência dos sistemas da Terra. Seu segundo âmbito de interesse, o do projeto e desenvolvimento de instrumentos, interagiu com o primeiro gerando benefício mútuo.

As conferências sobre a Hipótese de Gaia
As comunidades científicas de Ciências da Terra, Ciências da Vida e de Filosofia da Biologia debateram nestes 50 anos os diversos aspectos da Hipótese de Gaia. São muitos os aspectos problemáticos de uma cosmovisão tão interdisciplinar como esta. No ano 1985 celebrou-se na Universidade de Massachusetts a Primeira Conferência sobre a Hipótese de Gaia, sob o título: “A Terra é um organismo vivo?” Três anos mais tarde, em 1988 o climatólogo estadunidiano Stephen Schneider organizou a Segunda Conferência de Gaia, onde James Kirchner criticou a Hipótese de Gaia pela sua imprecisão e afirmou que Lovelock e Margulis não tinham apresentado uma Hipótese de Gaia, mas quatro:

– Gaia Co-evolucionária: a hipótese afirma que a vida e o ambiente evoluíram de forma vinculada. Kirchner afirmou que esta ideia já era aceita cientificamente e não era novidade.

– Gaia Homeostática: afirma que a vida mantém a estabilidade do entorno natural, o que permite que a vida possa continuar existindo. Esta hipótese pode-se dividir em Gaia Débil e Gaia Forte, como se indica a seguir.

– Gaia Geofísica: a Hipótese de Gaia gerou interesse pelos ciclos geofísicos, dando lugar a uma nova pesquisa interessante na dinâmica geofísica terrestre.

– Gaia Optimizada: Gaia deu forma ao Planeta de uma forma que fez um ambiente propício para a vida no seu conjunto. Kirchner afirmou que isto não era comprovável e, portanto, não era científico.

Segundo Kirchner, pode-se dividir a Hipótese original (Gaia Homeostática) numa série de hipóteses, desde a inegável Gaia Débil, até a radical e, em sua opinião, não comprovável, Gaia Forte.

Desta forma, numa Gaia Débil, a própria biosfera atuaria como um sistema auto-organizado que mantém um meta-equilíbrio permitindo a vida. Porém uma Gaia Forte incluiria a biosfera, a atmosfera, os oceanos e a terra, dentro de um sistema retroalimentado para conseguir um entorno físico e químico adequado à vida em seu conjunto no Planeta onde os organismos se reproduzem, controlam e adaptam baseando-se nas mudanças ecológicas que o sistema vai sofrendo de acordo com sua evolução.

Outras Conferências
A Terceira Conferência de Gaia (que é a Segunda Conferência Chapman sobre a Hipótese de Gaia) teve lugar em Valência, Espanha, em Junho de 2000, e foi organizada pela Universidade de Valência e a American Geophysical Union. Nessa ocasião a atenção se centralizou nos mecanismos específicos pelos quais a homeostase básica de curto prazo da Terra pode-se manter no âmbito das mudanças estruturais.

Em Outubro de 2006 celebrou-se no campus da Universidade George Mason em Arlington, Virgínia (EUA), una Quarta Conferência Internacional sobre a Hipótese de Gaia. Nessa conferência se abordou a Hipótese de Gaia como ciência e como metáfora, buscando um elemento para entender de que forma poderíamos começar a solucionar os problemas do Século 21, tais como o aquecimento global e a destruição do meio ambiente.

Num artigo na Investigación y Ciencia (versão espanhola da revista Scientific American), [“Gaia, Asentamiento de una teoría controvertida”, 2015], seu autor, Luis Alonso, comentou um ensaio de Michael Ruse [The Gaia hipothesis: Science on a pagan planet – The University of Chicago Press, Chicago, 2013]. Meses depois da publicação do livro de Michael Ruse, James Lovelock publicava o que se considera como o último capítulo de uma série de trabalhos em torno à mesma: A rough ride to the future: The next evolution of Gaia.

Os fundamentos científicos e epistemológicos da ideia de Gaia, lançada em 1969, se mantêm. Estabelecem que a Terra é um sistema autorregulado: organismos e entorno físico evolucionam de forma conjunta e mutuamente retroalimentados. Os organismos regulam a atmosfera no seu próprio interesse. Há um acordo de que se trata de uma metáfora, pois a Terra não é nenhum sistema vivo, mas se comporta como se fosse, no sentido de que mantém constantes a temperatura e a composição química face às perturbações, esclarece Lovelock.

As críticas à Hipótese de Gaia
James Lovelock nunca disse que Gaia, a Terra, era um ser pensante, nem que tinha consciência, mas, apesar disso, suas ideias foram perseguidas e ridiculizadas ferozmente pelos cientistas durante muito tempo, até que, a partir dos anos noventa, começaram a ser aceites de forma mais ampla.

As críticas mais duras procedem do campo do darwinismo radical. Assim, Richard Dawkins [Dawkins, Richard (1982). “The Extended Phenotype: the Long Reach of the Gene”. Oxford University Press], Stephen Jay Gould [Gould S. J. June 1997. “Kropotkin was no crackpot”. Natural History. 106: 12–21].e Ford Doolittle [Doolittle, W. F. (1981). “Is Nature Really Motherly”. The Coevolution Quarterly. Spring: 58–63] nos anos oitenta e noventa, criticaram duramente a hipótese de Lovelock.

Num tom mais moderado se manifestou a bióloga Lynn Margulis considerada como a mãe de Gaia. Sua principal contribuição científica radica na chamada Teoria da Endossimbiose Sequencial a qual explica, entre outros dados, a presença de mitocôndrias ou cloroplastos nas células eucariotas (de animais e plantas) como resultado da fusão de duas bactérias que teriam obtido um benefício mútuo; a existência de organelas ou organoides, que compõem as células eucariontes tenha surgido como consequência duma associação simbiótica estável entre organismos em determinadas formas celulares; ou a presença de motilidade (movimentos intracelulares) em células evolucionadas. Isto é, que os caracteres dos organismos pluricelulares são produto da incorporação simbiótica e em muitas ocasiões de bactérias que antes tinham uma vida livre.

Margulis também colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da Teoria de Gaia. Diferentemente de Lovelock, Lynn Margulis não acreditava que a Terra fosse um único e gigantesco “superorganismo”.

Segundo ela, Lovelock dizia isso “porque acreditava que se as pessoas pensassem no Planeta como se fosse um ser vivo, o cuidariam mais. Eu não acredito nisso. Pode-se dizer que Gaia é um ecossistema muito complexo, mas não um organismo”.

Lovelock é polêmico por suas controvertidas declarações em favor da energia nuclear, mesmo sendo considerado um dos pais da ecologia moderna, e suas críticas em relação à maioria dos ecologistas, considerando que eles “não só desconhecem a ciência, mas que, além disso, a odeiam”. Seu apoio à energia nuclear o converteu no alvo das críticas de muitos dos seus colegas. Numa entrevista virtual realizada pelo jornal espanhol El País foi preguntado ao cientista se levava em consideração as emissões de dióxido de carbono (CO2 ))produzidas pela mineração e processamento do urânio, e na construção/demolição das centrais nucleares e seus cemitérios.

Lovelock respondeu radicalmente: “A energia produzida por um quilo de material nuclear equivale à energia produzida por um milhão de quilos de carvão. Portanto, as emissões de CO2 produzidas na extração do urânio é um milhão de vezes menor do que aquela necessária para extrair carvão”.

James Lovelock defende que a energia nuclear é uma das formas com as quais pode se ajudar a frear o aquecimento global, posto que possa aliviar o enorme consumo de energia da atualidade sem prejudicar a atmosfera e, além disso, é muito rentável.

Implicações filosóficas e teológicas da Hipótese de Gaia
Do ponto de vista filosófico e teológico, a Hipótese Gaia foi etiquetada como uma religião neo-pagã. Qualquer um que tenha estudado o movimento verde global, sem nenhuma dúvida ouviu falar de Gaia. Os crentes de Gaia, ou “gaianos“, como se referem frequentemente a si mesmos, afirmam que a Terra é um ser vivente, um antigo espírito da deusa, merecedor de adoração e reverência.

Na opinião destes autores, James Lovelock, no seu libro “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: um novo olhar sobre a vida na Terra”, afirma que “todas as formas de vida neste Planeta são parte de Gaia – parte de uma deusa do espírito que sustenta a vida na Terra. A partir desta transformação num sistema vivo, as intervenções de Gaia trouxeram com ela a diversidade na evolução das criaturas viventes no Planeta Terra”. Os gaianos ensinam que a “Deusa da Terra”, ou a Mãe Terra, deve ser protegida da atividade humana destrutiva. É essa crença que alimenta o movimento ambientalista, o desenvolvimento sustentável e um impulso global pela mudança nas nações industrializadas por uma forma de vida mais primitiva.

Os gaianos afirmam que “somos parte da natureza e a natureza é parte de nós, portanto, Deus é parte de nós e está em todas as partes, tudo é Deus”. Na realidade Gaia é um renascimento da “deusa da Terra” que se encontra em muitas religiões pagãs antigas. O atual culto a Gaia é uma astuta mistura de ciência, paganismo, misticismo oriental e wicca.

A Teoria de Gaia encontrou sua maior ressonância no movimento New Age que ficou fascinado pelo lado místico de Gaia. Eles acharam fácil conceber que os seres humanos podem ter uma relação espiritual com Gaia. Uma conexão com a natureza e a crença de que os seres humanos são uma parte dessa consciência coletiva chamada Gaia apela fortemente à sua cosmovisão.

Uma simples busca no Google sobre a Gaia pagã revelará milhares de organizações orgulhosamente se proclamando a si mesmas, literalmente, sacerdotes pagãos e discípulos da grande Deusa Gaia. Há dezenas de grupos de Gaia na maioria das cidades importantes. A Wicca, que se diz que é a religião de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, está intimamente relacionada com a adoração a Gaia. Com efeito, muitos gaianos se chamam de bruxas e bruxos.

O movimento feminista também acolheu calorosamente o conceito de uma Deusa Gaia. Para muitos desses defensores, uma parte integral da adoração da Deusa é seu tema predominante em declarações anti-masculinas. Nessa visão filosófica do mundo, posto que o culto à Deusa é bom então, por necessidade, qualquer uso da terminologia masculina em referência a Deus ou qualquer prominência dos homens na cultura ou na sociedade é geralmente desalentado.

De um ponto de vista filosófico, aquele de que a Terra era um planeta vivo, uma ideia de muito longa história no pensamento ocidental, na realidade desde a origem da reflexão científica na Jônia mediterrânea se relaciona com a teleologia ou finalidade do cosmos e seu conteúdo. Platão percebeu uma forma de desenho num mundo que distava muito de um caos que se movimentasse sem nenhuma razão, cego.

A complexidade manifesta não podia ser fruto do acaso, senão que devia subjazer em todo um sentido e uma finalidade. As coisas têm uma explicação finalista, imposta desde o exterior, pelo demiurgo que a planejou. A finalidade convergia com o bem do objeto ou do processo, expõe Platão no “Timeu” onde especula sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos. Já Aristóteles, seu discípulo, da um passo adiante e implanta a finalidade no próprio objeto ou organismo. Os animais, por exemplo, carentes de razão, atuam por um fim, que é o que lhes foi conferido pela sua própria natureza.

Lovelock diferenciou entre causas próximas (o escultor que cinzela a figura e vai eliminando partes do mármore) e o propósito ou finalidade que guia o escultor na talha: a criação da figura. Por um imperativo da natureza e com um propósito, a andorinha constrói o ninho e a aranha tece sua rede, as plantas dão frutos e afundam suas raízes no solo em busca de nutrientes. Com a revolução científica, começou-se a separar com nitidez o trabalho do cientista focado no mecanismo, e não na tarefa do filósofo ocupado no por quê.

Sobre James Lovelock
Lovelock graduou-se como químico na Universidade de Manchester em 1941 e em 1948 obteve o doutorado em Medicina na Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Em 1959 recebeu o título de Doctor of Science em Biofísica na Universidade de Londres. Depois trabalhou no Conselho de Pesquisa Médica do Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres por cinco anos, de 1946 a 1951, na Unidade de Pesquisa do Resfriado Comum do Hospital Harvard de Salisbury (Wiltshire, Reino Unido).

No ano 1974, James Lovelock foi eleito membro da Royal Society, a Academia das Ciências do Reino Unido e em 1975 recebeu a medalha Tswett de Cromatografia. Anteriormente recebeu um prêmio da Fundação CIBA por sua pesquisa sobre o envelhecimento. Em 1980 recebeu o Prêmio em Cromatografia da Sociedade Americana de Química e em 1986 obteve a Medalha de Prata e o Prêmio do Laboratório Marinho de Plymouth.

Em 1988 foi um dos destinatários do Prêmio Norbert Gerbierde da Organização Meteorológica Mundial e em 1990 foi lhe concedido o primeiro Prêmio Amsterdam pelo Meio Ambiente da Real Academia de Artes e Ciências dos Países Baixos. A relevante contribuição à ciência dada através da sua hipótese lhe valeu a prestigiada Medalha Wollaston da Sociedade Geológica de Londres.

Em 1996 recebeu tanto o Prêmio Nonino quanto o Prêmio Volvo Environment. Em 1997 recebeu o Prêmio Blue Planet do Japão. Foi nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades East Anglia (1982), Exeter (1988), Politécnica de Plymouth – atualmente Universidade de Plymouth – (1988), a Universidade de Estocolmo (1991), Edimburgo (1993), Kent, East London (1996) e a Universidade de Colorado (1997). A Rainha Elizabeth II o sagrou Comandante da Excelentíssima Ordem do Império Britânico em 1990.

Em 1954 James Lovelock recebeu uma bolsa para medicina da Fundação Rockefeller, na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston. Em 1958 foi professor visitante na Universidade de Yale durante um período similar. Em 1961 renunciou ao seu cargo no Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres para trabalhar em tempo integral como professor de química na Faculdade de Medicina da Universidade de Baylor em Houston (Texas) onde permaneceu até 1964.

Durante sua permanência nos EUA colaborou junto com outros colegas no Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena, Califórnia, em pesquisa lunar e planetária. Desde 1964 é cientista independente, mas manteve associações acadêmicas honorárias como professor visitante, primeiro na Universidade de Houston e depois na Universidade de Reading. Desde 1982 colaborou na Associação de Biologia Marinha de Plymouth, primeiro como membro do Conselho, e entre 1986 e 1990, como presidente.