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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Trocar uma crise por outra? Preço do petróleo pode aumentar em 70% a procura global por biocombustíveis até 2030


A atual procura por matérias-primas para produção de biocombustíveis para escapar aos impactos da subida dos preços do petróleo pode vir a fazer disparar o consumo desses combustíveis de baixo carbono.

Um estudo da organização Transport & Environment (T&E) prevê um aumento de até 30% do consumo de biocombustíveis a nível global ainda este ano, e que poderá chegar aos 70% em 2030. Os especialistas temem que esse aumento acentuado da procura por biocombustíveis faça subir ainda mais os preços dos alimentos, levando-os para novos máximos.

Apelando aos governos para não trocarem “uma crise dos combustíveis por uma crise alimentar”, a T&E diz que, um pouco por todo o mundo, os preços de vários produtos alimentares, especialmente dos óleos vegetais, uma das principais matérias-primas do biodiesel, estão a subir há três meses consecutivos. Os analistas desta organização não-governamental referem que esse é um padrão já visto em 2022, altura da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e com a crise no Médio Oriente daí resultante, os preços dos combustíveis fósseis atingiram máximos históricos, o que levou vários governos, como o norte-americano, o tailandês e o indonésio, a definirem novas metas de incorporação de biocombustíveis nos combustíveis fósseis para tentarem amortecer os impactos da subida de preços do petróleo.

Ao mesmo tempo, grandes potências exportadoras, como o Brasil e a Indonésia, têm limitado a quantidade de matérias-primas para biocombustíveis que vendem para outros mercados.

“Os governos estão a correr riscos ao promoverem a conversão de alimentos em combustível”, avisa Kädi Ristkok, diretor das áreas de energia e clima na T&E. “Compreensivelmente, os líderes estão a tentar encontrar soluções para a atual crise do petróleo, mas os biocombustíveis jamais poderão desempenhar um papel mais do que marginal nos nossos sistemas energéticos sem consequências devastadoras”, salienta.

Para o responsável, “os impactos indesejados nos preços dos alimentos e no ambiente são enormes” e argumenta que “em vez de alimentarem os carros, os governos devem apostar em opções mais sustentáveis, como a eletrificação”.

A guerra no Médio Oriente levou também a uma escassez de fertilizantes de escala mundial, pressionado os sistemas de produção agroalimentar e refletindo-se nos preços dos produtos. Por isso, a T&E considera que a corrida aos biocombustíveis poderá esgotar rapidamente as reservas globais de produtos alimentares.

Os biocombustíveis já consomem 5 % dos fertilizantes mundiais para produzir apenas 4 % dos combustíveis para transportes a nível global, diz a organização, que alerta que qualquer aumento na produção dos biocombustíveis exerceria “ainda mais pressão sobre um mercado que tem sido fortemente afetado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz”.

Os analistas da T&E acreditam que não é possível aumentar a produção de biocombustíveis sem entrar em concorrência direta com a produção alimentar, e estimam que se os esses combustíveis passassem a representar 20% da composição dos combustíveis usados nas estradas por todo o mundo, como países como a Indonésia e o Brasil propõem, seriam precisos mais 130 milhões de hectares de terras para consegui-lo.

Isso, apontam, resultaria no agravamento da perda de ecossistemas e de florestas, e em mais emissões de gases com efeito de estufa do que as libertadas pelos combustíveis fósseis que se pretende substituir por biocombustíveis.

“A escassez mundial de fertilizantes ameaça pôr em risco a segurança alimentar global. Enquanto os governos procuram formas de armazenar fertilizantes, ninguém fala dos biocombustíveis. Quanto mais cultura queimarmos, de mais fertilizantes precisaremos. Os governos têm de dar prioridade aos alimentos em vez de aos combustíveis”, defende Kädi Ristkok.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Onde estão os Pirilampos?


Quem tem mais de cinquenta anos lembra-se deles. Nas noites quentes de Verão, os campos piscavam como se pequenas estrelas tivessem descido à Terra. Havia luzes verdes a pairar sobre a erva, junto aos muros, nos caminhos rurais.
Hoje, em muitos locais, desapareceram. E quase ninguém parece dar por isso.
A explicação não é um mistério. Durante anos fizemos guerra aos caracóis e às lesmas. Espalhámos moluscicidas pelos campos, jardins e quintais. Considerámo-los inimigos a exterminar.
Mas esquecemo-nos de uma coisa.
As larvas dos pirilampos são predadoras especializadas de caracóis e lesmas. Alimentam-se deles. Dependem deles. Sem caracóis e sem lesmas, não há alimento. Sem alimento, não há novas gerações de pirilampos.
É mais uma lição que insistimos em não aprender: na Natureza, quase nada existe isoladamente.
Quando eliminamos uma espécie, afectamos muitas outras. Quando destruímos uma presa, condenamos um predador. Quando quebramos uma ligação, enfraquecemos toda a rede.
E depois admiramo-nos.
Admiramo-nos de os nossos filhos e netos conhecerem estas criaturas apenas através de fotografias ou documentários.
Mas talvez a pergunta correcta seja outra:
Quantas luzes tivemos de apagar para acreditarmos que estávamos a resolver um problema?
Os pirilampos não iluminavam apenas as noites de Verão.
Iluminavam também uma verdade simples: a vida é feita de relações invisíveis. E quando destruímos essas relações, a escuridão acaba sempre por chegar.
E este tema toca-me particularmente. O desaparecimento dos pirilampos é daqueles fenómenos discretos que não fazem manchetes, mas que contam uma história profunda sobre a transformação dos nossos campos. É uma perda ecológica, mas também uma perda poética. Uma paisagem sem pirilampos é, de certo modo, uma paisagem mais pobre de imaginação.

O "apocalipse" silencioso - o declínio dos insetos 


omo a agricultura intensiva elimina os insetos?
Os dados científicos mostram que a biomassa global de insetos está a diminuir cerca de 2,5% ao ano. Se olharmos para o gráfico acima, percebemos que grupos vitais como as abelhas (Bees, com 46% de declínio) e as borboletas (Butterflies, com 53%) estão a desaparecer a um ritmo alarmante.

A grande e recente decisão (tomada no final de maio de 2026) que toca diretamente no coração do modelo da agricultura intensiva foi a aprovação da suspensão, por um ano, dos direitos aduaneiros (tarifas) sobre as importações dos principais fertilizantes à base de azoto e das suas matérias-primas (como a ureia e a amoníaca).

A medida, proposta pela Comissão Europeia e formalizada pelo Conselho Europeu, reflete precisamente essa corda bamba entre as metas ambientais e as exigências da produção em larga escala.

Os Dois Lados da Moeda
Esta decisão ilustra bem o choque de realidades e as críticas à insistência no modelo intensivo:
  • O argumento económico/produtivo: Com o fecho do Estreito de Ormuz e a escalada de conflitos no Médio Oriente, os preços dos adubos dispararam, ameaçando as colheitas, a tesouraria dos agricultores e prevendo uma forte inflação alimentar. Para Bruxelas, aliviar estas taxas (uma poupança estimada em 60 milhões de euros) e apresentar um Plano de Ação para os Fertilizantes foi a forma encontrada para garantir que a produção de alimentos não colapsa a curto prazo.

  • O argumento ambiental (a crítica à agricultura intensiva): Para os críticos e ambientalistas, esta medida representa um passo atrás na transição ecológica. Os fertilizantes químicos azotados são um dos pilares da agricultura intensiva e estão diretamente ligados à degradação dos solos, à poluição da água e às emissões de gases com efeito de estufa. Facilitar o seu acesso, em vez de acelerar a transição para alternativas orgânicas e sustentáveis, é visto como um "balão de oxigénio" para um modelo poluente.

Outro recuo recente na Política Agrícola Comum (PAC)
Vale a pena lembrar que isto surge no seguimento de uma tendência recente de Bruxelas em "suavizar" as exigências ecológicas. Sob forte pressão dos protestos dos agricultores em toda a Europa, a UE já tinha aprovado a flexibilização de várias regras ambientais da PAC, como a dispensa da obrigatoriedade de deixar uma percentagem de terras em pousio (terras paradas para recuperação do ecossistema) e a redução das exigências de rotação de culturas.

Resumo: A aprovação recente da isenção de taxas para a importação de fertilizantes químicos visa travar uma crise de preços nos alimentos, mas acaba por subsidiar e manter a dependência do modelo de agricultura intensiva que a própria UE prometeu combater no "Pacto Ecológico Europeu".

Os pirilampos
Os pirilampos são, talvez, a face mais poética e trágica deste "apocalipse silencioso" dos insetos. O seu desaparecimento dos campos e quintais europeus nas últimas décadas não é uma impressão romântica; é um facto científico alarmante.

Sendo predadores na fase de larva (alimentam-se de caracóis e lesmas) e dependentes da sua luz na fase adulta para a reprodução, os pirilampos são considerados excelentes bioindicadores — ou seja, a sua ausência é o primeiro sinal de que um ecossistema está gravemente doente.

O modelo de agricultura intensiva e as recentes desregulações atacam os pirilampos em três frentes fatais:

1. Poluição Luminosa: o curto-circuito no amor
Os pirilampos dependem da bioluminescência (a luz que produzem no abdómen) para se encontrarem e acasalarem no escuro.

A expansão das estufas industriais iluminadas durante a noite, a maquinaria pesada a trabalhar 24 horas e a urbanização associada ao agro-negócio criam um brilho artificial constante no céu.

Com tanta luz artificial, os machos não conseguem ver os sinais luminosos das fêmeas (que muitas vezes nem sequer voam). Se não se encontram, não há acasalamento, e a população daquela zona colapsa numa única geração.

2. A destruição do solo e do pousio (onde as larvas vivem)
A recente decisão da União Europeia de flexibilizar as regras da PAC e dispensar a obrigatoriedade do pousio (terras em descanso) é um golpe duro para esta espécie.

Os pirilampos passam até dois ou três anos na fase de larva, a viver na terra húmida, na folhagem seca e nas margens de sebes e caminhos.

Quando a agricultura intensiva revira o solo constantemente, elimina as sebes para aumentar a área de cultivo e aplica fertilizantes sintéticos agressivos, destrói o habitat húmido e sombrio de que as larvas precisam para sobreviver e caçar.

3. Falta de alimento (o efeito colateral dos pesticidas)
Como as larvas de pirilampo se alimentam quase exclusivamente de caracóis e lesmas, o uso massivo de pesticidas e moluscicidas nas monoculturas elimina a sua fonte de alimento. Sem presas, as larvas morrem de fome antes sequer de chegarem à idade adulta de poderem brilhar.

O diagnóstico: o pirilampo precisa de três coisas que a agricultura intensiva destrói ativamente: escuridão total, solo intocado e biodiversidade. Ver cada vez menos pirilampos no verão é o aviso visual de que estamos a transformar os nossos campos agrícolas num ecossistema estéril e artificializado.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Poluição atmosférica responsável por 79 mil mortes anuais na Europa, revela estudo


Um trabalho relaciona a exposição a curto prazo a uma série de poluentes atmosféricos com aproximadamente 146.500 mortes prematuras por ano na Europa, sendo as partículas finas as mais nocivas, responsáveis por 79.000 mortes.

Publicada na revista 'Nature Health', a investigação do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC) fornece a primeira estimativa à escala europeia da mortalidade a curto prazo atribuível aos efeitos combinados de múltiplos poluentes em 31 países, representando mais de 530 milhões de pessoas.

Embora o maior impacto na saúde seja causado pela exposição a longo prazo, a poluição atmosférica a curto prazo pode também desencadear respostas fisiológicas agudas, como inflamação sistémica, desequilíbrio e aumento da coagulação sanguínea, que elevam o risco de mortalidade, noticiou na quarta-feira a agência Efe.

O estudo analisou quase 89 milhões de mortes registadas entre 2003 e 2019 em 653 regiões europeias, combinando dados de estações de monitorização, satélites, uso do solo e variáveis meteorológicas, ajustados para os níveis regionais.

Ao contrário da maioria das investigações anteriores, que se centravam apenas nas cidades ou analisavam um único poluente, este estudo considera quatro poluentes em conjunto: material particulado fino, dióxido de azoto, ozono e material particulado de tamanho intermédio.

"Isto permite uma análise mais precisa de como a exposição a curto prazo afeta as pessoas de forma diferente, dependendo da idade, sexo e causa da morte", explicou Zhao-Yue Chen, investigador do ISGlobal e primeiro autor do estudo.

Analisadas individualmente, as partículas finas causam anualmente aproximadamente 79.000 mortes, seguidas pelo dióxido de azoto com 69.000, do ozono com 31.000 e partículas de tamanho intermédio com 29.000, embora estes números não sejam cumulativos, uma vez que os poluentes tendem a ocorrer em simultâneo e os seus efeitos sobrepõem-se.

As partículas finas são as mais nocivas porque, devido ao seu tamanho, penetram profundamente nos pulmões e podem entrar na corrente sanguínea, desencadeando inflamação.

As partículas maiores afetam principalmente o trato respiratório superior, enquanto o dióxido de azoto e o ozono irritam os pulmões e aumentam a vulnerabilidade a doenças respiratórias.

A poluição do ar não afeta todos da mesma forma: os homens jovens apresentaram maior vulnerabilidade do que as mulheres da mesma faixa etária, de acordo com o estudo, devido à maior exposição ocupacional, ao tráfego e ao tabagismo, bem como ao início mais precoce de doenças crónicas.

No entanto, o padrão altera-se com a idade, uma vez que a partir dos 85 anos, o maior risco é observado nas mulheres, que também apresentam riscos cardiovasculares mais elevados devido à exposição a partículas do que os homens.

“Os nossos resultados apoiam a utilização de modelos epidemiológicos ajustados por sexo, idade e comorbilidades para criar sistemas de alerta precoce especificamente direcionados para grupos vulneráveis”, concluiu Joan Ballester, investigador do ISGlobal e coordenador do estudo.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Trump cometeu um erro estratégico no Estreito de Ormuz. Agora o Irão tem um ás de trunfo na mão - e está a jogá-lo nestas negociações


O Irão parte para as negociações de um acordo de paz com os Estados Unidos levando consigo a sua maior cartada. O controlo do Estreito de Ormuz é, na ótica do especialista em Direito Internacional Francisco Pereira Coutinho, um verdadeiro "ás de trunfo" que pode ajudar o regime a ter uma alavanca nas negociações que aí vêm, enquanto um frágil cessar-fogo se tenta aguentar.

Até lá, as últimas informações apontam que o Irão vai permitir a passagem de um máximo de 15 embarcações por dia através do Estreito de Ormuz, informou a agência de notícias estatal russa TASS, citando uma fonte iraniana não identificada. Esta informação, que ainda não foi confirmada por nenhum outro órgão de comunicação, surgiu depois de Hamid Hosseini, porta-voz da União dos Exportadores de Petróleo, Gás e Produtos Petroquímicos do Irão, ter declarado ao Financial Times que o Irão ia cobrar taxas de portagem - pagas em criptomoedas - a todos os petroleiros que passem pelo estreito e avaliar cada embarcação, podendo estar em cima da mesa um preço de dois milhões de dólares por embarcação.

"O estreito não está aberto, os navios não estão a passar. O Irão mantém o controlo do Estreito de Ormuz. E essa é uma mensagem importante que está a ser passada", afirma Francisco Pereira Coutinho à CNN Portugal. "Há muita informação contraditória, por isso não sabemos bem o que é verdade sobre o acordo. Mas até agora o que nós sabemos é que estão a passar menos navios do que antes do cessar-fogo ter sido anunciado. É uma arma de pressão que o Irão tem sobre a economia mundial e isso significa também sobre os EUA." 

Esta escalada da situação no Estreito de Ormuz "mostra a derrota estratégica de Trump", afirma Francisco Pereira Coutinho. Antes da intervenção americana, "o estreito estava aberto, o Irão nunca tinha feito isto. E agora o Irão tem esta arma nas negociações". Talvez por saber isso, o presidente dos Estados Unidos vai continuando com as ameaças - a última das quais prometeu a abertura da via, seja com a participação de Teerão ou não, o que soa a uma ameaça clara, até porque o regime dos aiatolas está a fazer um "pobre trabalho" nesta parte.

Embora o cessar-fogo tenha sido anunciado no final de terça-feira, o dia seguinte registou o menor tráfego de navios através do Estreito de Ormuz desde o final de março, segundo dados da Kpler, empresa global de rastreamento de navios. Apenas cinco navios graneleiros transitaram pelo estreito, sem que nenhum petroleiro ou gasoduto fizesse a travessia, informou a empresa. Isto mesmo significa que um dos grandes objetivos da reabertura continua por cumprir, já que o petróleo continua sem sair do Golfo Pérsico, zona que antes de 28 de fevereiro produzia um quinto dos barris diários.

Os armadores ocidentais não arriscam passar por ali enquanto não são conhecidos mais pormenores sobre se e como o estreito poderá ser reaberto, sem que nenhuma embarcação estivesse atualmente a aventurar-se pela travessia, com exceção das ligadas ao Irão. “O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas ainda não oferece total segurança marítima”, disse a Maersk, a segunda maior empresa de transporte marítimo do mundo, acrescentando que continuaria a adotar uma “abordagem cautelosa”.

Esta quinta-feira de manhã, o ministro da Indústria dos Emirados Árabes Unidos, Sultan al Jaber, afirmou que havia 230 navios "carregados de petróleo e prontos para zarpar", mas impedidos de o fazer devido ao bloqueio do estreito - uma faixa de água com apenas 34km de largura entre o Irão e Omã, proporciona a passagem do Golfo Pérsico para o Oceano Índico e é a principal rota para cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo e outros bens vitais, incluindo fertilizantes.

O Irão praticamente fechou o porto desde o início do conflito, no final de fevereiro, o que levou a uma redução da oferta e a um aumento dos preços globais do petróleo. Al Jaber exigiu que todas as embarcações tenham liberdade de navegar pelo corredor sem restrições, porque "nenhum país tem direito legítimo a determinar quem pode passar e sob que condições". Exigiu ainda que os produtores de energia "possam restabelecer a produção em larga escala de forma rápida e segura".

O trânsito no Estreito de Ormuz é uma das questões mais difíceis que os negociadores dos EUA e do Irão enfrentam na sua tentativa de transformar um cessar-fogo temporário numa paz duradoura. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou na noite de terça-feira que o cessar-fogo estava condicionado à “abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz pela República Islâmica do Irão”. Por outro lado, um comunicado do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão enumerou 10 pontos que constituem a base para as negociações com os EUA, incluindo um novo “protocolo para a passagem segura” pelo estreito, em coordenação com as forças armadas iranianas.

Quinze navios por dia é "uma gota no oceano"
Quinze navios por dia é “uma gota no oceano”, afirma António Costa Silva, um dos melhores especialistas de petróleo em Portugal. Antes da guerra passavam 91 navios, o que representa 20 milhões de barris de petróleo. Os “5 ou 6 milhões de barris” que vão ser transportados nestes 15 navios “não resolvem a situação, o efeito no mercado será muito limitado”, antevê o também antigo ministro da Economia à CNN Portugal. “Continuamos a ter um grande défice e, se isto se confirmar, vamos viver durante muito tempo debaixo desta asfixia.”

“Nesta altura há uma grande apreensão sobre a solidez do acordo de paz, que essencialmente sofre de dois escolhos”, diz António Costa Silva. “Por um lado o Líbano, perceber se faz ou não parte do acordo, Israel não quer que faça, a única coisa que Israel quer é que não haja acordo, e isso dá uma grande imprevisibilidade aos mercados; o outro é o estreito de Ormuz, a proibição de circulação é uma violação total do Direito Internacional, concretamente da convenção da ONU sobre o Direito do Mar, segundo o qual as passagens naturais devem estar livremente abertas à navegação. Isto é a subversão total das regras.” Sendo assim, perante todas as incertezas que existem sobre o futuro na região, prevê-se que os preços do crude e dos produtos refinados continuem a “aumentar bastante”, como aconteceu já na quinta-feira. 

Cerca das 13:00 de quinta-feira em Lisboa, o preço do barril de Brent do Mar do Norte, para entrega em junho, subiu 3,09 dólares. Apesar disso, a previsão para a próxima segunda-feira aponta para uma descida no preço dos combustíveis, ainda que os valores se mantenham bem acima dos registados antes da guerra.

Vários operadores do setor disseram ao Financial Times acreditar que a situação nos próximos dias se assemelhará ao que se passou nas últimas semanas, com um pequeno número de navios autorizados pelo Irão a ter permissão para passar por uma rota específica, até porque a Guarda Revolucionária Islâmica já admitiu que existe o risco de alguns locais terem minas marítimas. Esta autorização tem estado grandemente restrita às embarcações que têm relações com o Irão e que não têm qualquer ligação com os EUA, Israel ou os países do Golfo que serviram de base aos ataques.

Quem vai aceitar pagar para passar no Estreito de Ormuz?
Na quarta-feira surgiu a informação de que o Irão estava a cobrar cerca de dois milhões de dólares em criptomoedas aos navios que quisessem passar o Estreito. “O Irão precisa de monitorizar o que entra e sai do estreito para garantir que estas duas semanas não são utilizadas para a transferência de armas”, justificou Hamid Hosseini, porta-voz da União dos Exportadores de Petróleo, Gás e Produtos Petroquímicos do Irão, associação que trabalha em estreita colaboração com o governo, citado pelo Financial Times. “Tudo pode passar, mas o procedimento levará tempo para cada navio, e o Irão não tem pressa”, acrescentou.

Hosseini afirmou que qualquer petroleiro que passasse pelo estreito deveria enviar um e-mail às autoridades a informar sobre a sua carga. Após o envio, o Irão informaria o valor da taxa a pagar em criptomoedas, explicando que a tarifa é de um dólar por barril de petróleo, acrescentando que os petroleiros vazios podem passar livremente. Os petroleiros no Golfo Pérsico receberam, na quarta-feira, uma emissão de rádio a alertar que seriam alvos de ataques militares, a não ser que obtivessem aprovação prévia das autoridades iranianas. “Se alguma embarcação tentar transitar sem permissão, será destruída”, dizia a transmissão, em inglês, segundo uma gravação partilhada com o Financial Times.

As decisões sobre as condições de passagem pelo estreito são tomadas pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão. As declarações de Hosseini sugerem que o Irão exigirá que todos os petroleiros utilizem a rota norte, junto à sua costa, o que levanta dúvidas sobre se as embarcações ligadas a países ocidentais ou do Golfo estarão dispostas a arriscar a travessia.

Permitir que o Irão continue a controlar esta importante via navegável será provavelmente algo inaceitável para os países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos. Isto também levanta questões para a OPEP+, o grupo de produtores de petróleo, com os analistas a avisarem que a entrega do controlo do Estreito de Ormuz ao Irão pode alterar fundamentalmente o equilíbrio de poder dentro da organização, dando a Teerão um potencial poder de veto sobre as exportações de membros concorrentes ou rivais.

Entretanto, e para complicar ainda mais a situação, "Donald Trump sugeriu, meio a brincar, a possibilidade de criar uma espécie de joint venture entre vários países para explorar o Estreito de Ormuz, transformando-o numa oportunidade de negócios", lembra Francisco Pereira Coutinho. Embora não se possa confiar completamente nas palavras de Trump, há que sublinhar que esta proposta é uma violação do Direito Internacional. "Historicamente, os EUA sempre se interessaram em manter os estreitos abertos. Foi isso que aconteceu durante a guerra entre o Irão e o Iraque. Por isso, este tipo de declarações causa alguma preocupação. Os países do Golfo obviamente não podem aceitar uma coisa destas, é uma forma de extrair dinheiro a estes países, eles precisam do estreito para continuar as suas atividades económicas", afirma o especialista em relações internacionais. "Mesmo que os EUA se desinteressem do estreito, os países da região vão recorrer à força para garantir a sua reabertura."

Impor uma taxa aos navios que navegam pelo crucial Estreito de Ormuz "criaria um precedente perigoso" e os países não devem impedir a liberdade de navegação, disse a agência marítima da ONU na quinta-feira. "Não existe nenhum acordo internacional que permita a introdução de taxas para a travessia de estreitos internacionais. Qualquer taxa deste tipo criará um precedente perigoso", disse um porta-voz da Organização Marítima Internacional (OMI) da ONU, citado pela Reuters. 

"Como é que isto se resolve? O Irão vai trocar este controlo sobre estreito pelo quê? Pelo levantamento de sanções?", pergunta Francisco Pereira Coutinho. A resposta a estas questões ainda não é clara, diz, recordando que o estreito não são só águas territoriais do Irão, são também de Omã.

Abrir o estreito pela força é "uma operação praticamente impossível"
A outra solução possível, na qual Trump continua a insistir, é realizar uma operação militar com o único objetivo de abrir o Estreito de Ormuz. “Sob o ponto de vista militar, essa é uma operação muito complicada”, considera o tenente-general Marco Serronha. “Além disso tenho sérias dúvidas que uma operação militar que tenha algum grau de eficácia no que toca ao objetivo de abrir o estreito à navegação. Não é possível controlar totalmente o estreito, não basta controlar as margens para dizer que a passagem é segura. Podem deixar passar os navios e escoltar os petroleiros, mas a qualquer momento o Irão pode lançar um míssil ou pode haver minas”, sublinha o especialista militar à CNN Portugal. 

Não sendo possível garantir a segurança do estreito, "as companhias de navegação internacionais não arriscam passar. Aliás, nem são as companhias, são as seguradoras", diz Marco Serronha. “Portanto, tenho muitas dúvidas sobre a eficácia de uma intervenção desse género e os EUA sabem isso, Trump pode dizer o que quiser, mas os seus chefes militares sabem isso. É uma operação praticamente impossível.”

“Uma solução possível e mais imediata seria os EUA conquistarem a ilha de Kharg e usarem isso como moeda de troca”, sugere Marco Serronha. “Sem a ilha, o Irão não consegue escoar o petróleo e o gás e seria obrigado a negociar com os EUA.”

Na quinta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rute, afirmou que a NATO estará disposta a desempenhar um papel numa possível missão no Estreito de Ormuz, caso tenha condições para tal. "Se a NATO puder ajudar, obviamente não há razão para não ajudar", disse Rutte numa conferência em Washington. "No que diz respeito ao Estreito de Ormuz, o que estamos a ver sob a liderança de Keir Starmer e destes 34 países a trabalhar em estreita colaboração com os EUA é, naturalmente, um compromisso partilhado, um acordo de que não podemos aceitar que este comércio seja fechado. Precisa de ser aberto. E quando for aberto, precisamos de o manter aberto", acrescentou.

Nota pessoal
Os EUA nunca assinaram a Convenção  das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O Irão assinou, mas ainda não ratificou. Mesmo não sendo parte do tratado, os EUA utilizam as definições da Convenção para navegar em águas internacionais, o que cria uma situação diplomática irónica onde defendem as regras de um "clube" ao qual decidiram não pertencer oficialmente.

sábado, 7 de março de 2026

Birds Aren’t Just Declining. They’re Declining Faster, a New Study Finds



Bird populations are in free fall across North America. And in some hotspots their decline is accelerating, a new study reveals.

Wild bird numbers declined at an accelerating rate in California, the Midwest and the Mid-Atlantic between 1987 and 2021. Across these hotspots, losses were associated with high-intensity agriculture, according to the study.

Although the study, published Feb. 26 in the journal Science, shows a correlation between declining bird populations and intense agriculture, it doesn't definitively prove that agriculture is driving the increased decline or identify which agricultural activities might be responsible.

However, signs of intense agricultural activity consistently proved to be the best predictor of increased bird decline, which mirrors similar research conducted in Europe. The researchers also found that declines were stronger in warming areas, suggesting that rising temperatures due to climate change were driving some bird disappearances.

Birds perform important roles in the ecosystem, including spreading plant seeds and keeping insect populations under control. For decades, scientists have been concerned that bird populations are falling due to human activities, both in North America and globally — a plight shared by many other animals. What's special about the new research is that it reveals how the decline in North America has accelerated since the late 1980s.

"We are not talking about the decline but the acceleration of the decline," study lead author François Leroy, a postdoctoral researcher in macroecology at The Ohio State University, told Live Science. "We see that this decline is getting faster and faster with the intensification of human activities."

Leroy and his colleagues mapped bird decline by studying data from the North American Breeding Bird Survey, which is an annual surveying effort by professional biologists and skilled amateurs to monitor bird populations across North America. As a part of the survey, participants walk along specific routes and record the birds they find.

The researchers focused on specific routes with enough data to measure the rate of decline over 35 years. These routes were primarily in the U.S. and included 261 bird species. Across all of the species surveyed, the overall abundance of birds fell by at least 15%, with significant drops documented in about half (122) of the species and accelerating declines reported in about a quarter (63) of the species. Common birds ‪—‬ like red-winged blackbirds (Agelaius phoeniceus), house finches (Haemorhous mexicanus) and American crows (Corvus brachyrhynchos) ‪—‬ were among the native species found to have suffered an accelerated decline.

The study focused on the rate of decline in specific routes, so it's unclear how many individual birds were lost across the entire continent during the study period. However, previous research has found that billions of birds have disappeared in recent decades.

A 2019 study published in the journal Science estimated that the North American bird population decreased by 2.9 billion individual birds between 1970 and 2017. That estimate equated to a drop of 29%, which is almost double the 15% decline documented in the new study. However, the 2019 study also covered an earlier and longer time period when there may have been more severe losses.
People only started surveying North American birds in the second half of the 20th century, but we've been killing them directly and indirectly for much longer than that. For example, commercial hunting by humans forced passenger pigeons (Ectopistes migratorius), a species estimated to have once had a population of 3 billion to 5 billion, to extinction in 1914.

What caused the "birdemic"?
The new study demonstrated that birds were incurring losses not just at the species level but across whole families of species and across different habitats. To better understand the worrying trend, the researchers compared the bird data to potential contributing factors, such as temperature change, rainfall and land-cover changes.

The acceleration of bird decline coincided with large areas of croplands and high usage of fertilizers and pesticides, which are signs of intense agriculture. This tracks with research in Europe that has found that agricultural intensification has negatively impacted bird diversity.

Intense agriculture can destroy, change and break up traditional bird habitat. The amount of land used for farming in the U.S. hasn't changed that much since the 1980s. Agriculture has become more consolidated in that time, with a decline in midsize farms and a shift to larger farming operations, but there's slightly less land being used for farming overall. Thus, the bird losses can't be blamed solely on the amount of farmland. However, they could be the result of changes in farming practices.

Leroy said that from the new study, it's not really possible to say which specific practice in agriculture is the worst for bird losses. However, he noted that from previously published studies, it seems like pesticide use is one of the main suspects.

A 2023 study published in the journal PNAS found that the use of pesticides and fertilizers was the key to agricultural intensification being the main pressure behind most bird population drops, particularly in birds that feed on invertebrates. Most disappearing bird species depend on insects for food, and insects are in steep decline as they are killed through the use of pesticides. Birds also consume pesticides directly.

Leroy said he would like to see what farmers think about the correlation between agricultural intensification and bird losses. He and his co-authors also noted in the study that agriculture warms landscapes by reducing the amount of vegetation and altering its properties, which may then amplify warming impacts on birds.

While the findings were mostly bad news for birds, there were some bright spots. For example, the researchers found some local increases in forest bird populations, which likely benefited from the reforesting of old farmland. There was also a small pocket of land just north of the U.S.-Canada border where the overall abundance of birds increased — the only region in which this occurred. However, Leroy said he had "no clue" why this was the case.

"It doesn't mean that Canada is doing better because if you look at other regions in Canada, there were also some significant declines," he added.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Over a pint in Oxford, we may have stumbled upon the holy grail of agriculture

I knew that a revolution in our understanding of soil could change the world. Then came a eureka moment – and the birth of the Earth Rover Program

It felt like walking up a mountain during a temperature inversion. You struggle through fog so dense you can scarcely see where you’re going. Suddenly, you break through the top of the cloud, and the world is laid out before you. It was that rare and remarkable thing: a eureka moment.

For the past three years, I’d been struggling with a big and frustrating problem. In researching my book Regenesis, I’d been working closely with Iain Tolhurst (Tolly), a pioneering farmer who had pulled off something extraordinary. Almost everywhere, high-yield farming means major environmental harm, due to the amount of fertiliser, pesticides and (sometimes) irrigation water and deep ploughing required. Most farms with apparently small environmental impacts produce low yields. This, in reality, means high impacts, as more land is needed to produce a given amount of food. But Tolly has found the holy grail of agriculture: high and rising yields with minimal environmental harm.

He uses no fertiliser, no animal manure and no pesticides. His techniques, the result of decades of experiment and observation, appear to enrich the crucial relationships between crops and microbes in the soil, through which soil nutrients must pass. It seems that Tolly has, in effect, “trained” his soil bacteria to release nutrients when his crops require them (a process called mineralisation), and lock them up when his crops aren’t growing (immobilisation), ensuring they don’t leach from the soil.

So why the frustration? Well, Tolly has inspired many other growers to attempt the same techniques. Some have succeeded, with excellent results. Others have not. And no one can work out why. It’s likely to have something to do with soil properties. But what?

Not for the first time, I had stumbled into a knowledge gap so wide that humanity could fall through it. Soil is a fantastically complex biological structure, like a coral reef, built and sustained by the creatures that inhabit it. It supplies 99% of our calories. Yet we know less about it than any other identified ecosystem. It’s almost a black box.

Many brilliant scientists have devoted their lives to its study. But there are major barriers. Most soil properties cannot be seen without digging, and if you dig a hole, you damage the structures you’re trying to investigate. As a result, studying even basic properties is cumbersome, time-consuming and either very expensive or simply impossible at scale. To measure the volume of soil in a field, for example, you need to take hundreds of core samples. But as soil depths can vary greatly from one metre to the next, your figure relies on extrapolation. This makes it very hard to tell whether you’re losing soil or gaining it. Measuring bulk density (the amount of soil in a given volume, which shows how compacted it might be), or connected porosity (the tiny catacombs created by lifeforms, a crucial measure of soil health), or soil carbon – at scale – is even harder.

So farmers must guess. Partly because they cannot see exactly what the soil needs, many of their inputs – fertilisers, irrigation, deep ploughing – are wasted. Roughly two-thirds of the nitrogen fertiliser they apply, and between 50% and 80% of their phosphorus, is lost. These lost minerals cause algal blooms in rivers, dead zones at sea, costs for water users and global heating. Huge amounts of irrigation water are also wasted. Farmers sometimes “subsoil” their fields – ploughing that is deep and damaging – because they suspect compaction. The suspicion is often wrong.

Our lack of knowledge also inhibits the development of a new agriculture, which may, as Tolly has done, allow farmers to replace chemical augmentation with biological enhancement.

So when I came to write the book, I made a statement so vague that it reads like an admission of defeat: we needed to spend heavily on “an advanced science of the soil”, and use it to deliver a “greener revolution”. While we know almost nothing about the surface of our own planet, billions are spent on the Mars Rover programme, exploring the barren regolith there. What we needed, I argued, is an Earth Rover programme, mapping the world’s agricultural soils at much finer resolution.

I might as well have written “something must be done!” The necessary technologies simply did not exist. I sank into a stygian gloom.

At the same time, Tarje Nissen-Meyer, then a professor of geophysics at the University of Oxford, was grappling with a different challenge. Seismology is the study of waves passing through a solid medium. Thanks to billions from the oil and gas industry, it has become highly sophisticated. Tarje wanted to use this powerful tool for the opposite purpose – ecological improvement. Already, with colleagues, he had deployed seismology to study elephant behaviour in Kenya. Not only was it highly effective, but his team also discovered it could identify animal species walking through the savannah by their signature footfall.

By luck we were both attached, in different ways, to Wolfson College, Oxford, where we met in February 2022. I saw immediately that he was a thoughtful man – a visionary. I suggested a pint in The Magdalen Arms.

I explained my problem, and we talked about the limits of existing technologies. Was seismology being used to study soil, I asked. He’d never heard of it. “I guess it’s not a suitable technology then?” No, he told me, “soil should be a good medium for seismology. In fact, we need to filter out the soil noise when we look at the rocks.” “So if it’s noise, it could be signal?” “Definitely.”

We stared at each other. Time seemed to stall. Could this really be true?

Over the next three days, Tarje conducted a literature search. Nothing came up. I wrote to Prof Simon Jeffery, an eminent soil scientist at Harper Adams University, whose advice I’d found invaluable when researching the book. I set up a Zoom call. He would surely explain that we were barking up the wrong tree.

Simon is usually a reserved man. But when he had finished questioning Tarje, he became quite animated. “All my life I’ve wanted to ‘see’ into the soil,” he said. “Maybe now we can.” I was introduced to a brilliant operations specialist, Katie Bradford, who helped us build an organisation. We set up a non-profit called the Earth Rover Program, to develop what we call “soilsmology”; to build open-source hardware and software cheap enough to be of use to farmers everywhere; and to create, with farmers, a global, self-improving database. This, we hope, might one day incorporate every soil ecosystem: a kind of Human Genome Project for the soil.

We later found that some scientists had in fact sought to apply seismology to soil, but it had not been developed into a programme, partly because the approaches used were not easily scalable.

My role was mostly fixer, finding money and other help. We received $4m (£3m) in start-up money from the Bezos Earth Fund. This may cause some discomfort, but our experience has been entirely positive: the fund has helped us do exactly what we want. We also got a lot of pro-bono help from the law firm Hogan Lovells.

Tarje, now at the University of Exeter, and Simon began assembling their teams. They would need to develop an ultra-high-frequency variant of seismology. A big obstacle was cost. In 2022, suitable sensors cost $10,000 (£7,500) apiece. They managed to repurpose other kit: Tarje found that a geophone developed by a Slovakian experimental music outfit worked just as well, and cost only $100. Now one of our scientists, Jiayao Meng, is developing a sensor for about $10. In time, we should be able to use the accelerometers in mobile phones, reducing the cost to zero. As for generating seismic waves, we get all the signal we need by hitting a small metal plate with a welder’s hammer.

On its first deployment, our team measured the volume of a peat bog that had been studied by scientists for 50 years. After 45 minutes in the field, they produced a preliminary estimate suggesting that previous measurements were out by 20%. Instead of extrapolating the peat depth from point samples, they could see the wavy line where the peat met the subsoil. The implications for estimating carbon stocks are enormous.

We’ve also been able to measure bulk density at a very fine scale; to track soil moisture (as part of a wider team); to start building the AI and machine learning tools we need; and to see the varying impacts of different agricultural crops and treatments. Next we’ll work on measuring connected porosity, soil texture and soil carbon; scaling up to the hectare level and beyond; and on testing the use of phones as seismometers. We now have further funding, from the UBS Optimus Foundation, hubs on three continents and a big international team.

Eventually, we hope, any farmer anywhere, rich or poor, will be able to get an almost instant readout from their soil. As more people use the tools, building the global database, we hope these readouts will translate into immediate useful advice. The tools should also revolutionise soil protection: the EU has issued a soil-monitoring law, but how can it be implemented? Farmers are paid for their contributions “to improve soil health and soil resilience”, but what this means in practice is ticking a box on a subsidy form: there’s no sensible way of checking.

We’re not replacing the great work of other soil scientists but, developing our methods alongside theirs, we believe we can fill part of the massive knowledge gap. As one of the farmers we’re working with, Roddy Hall, remarks, the Earth Rover Program could “take the guesswork out of farming”. One day it might help everyone arrive at that happy point: high yields with low impacts. Seismology promises to shake things up.

E-Livro: Regenesis, by George Monbiot

sábado, 22 de novembro de 2025

Cremação: o que é e porque não é sustentável



Cremação é o processo de reduzir um corpo a cinzas usando fogo. É uma alternativa para o enterro convencional e geralmente ocorre depois de um funeral ou uma cerimônia de despedida.

A cremação é realizada em uma câmara pré-aquecida que recebe o corpo e o queima, variando de temperatura entre 870ºC a 980ºC. Ela dura por volta de uma ou três horas e resulta em cinzas e pequenos fragmentos de osso que podem ser guardados.

O procedimento de cremação virou uma alternativa popular para o enterro por ser mais barata — além de ter o custo do enterro, existem também as manutenções do túmulo e do cemitério — e possibilitar às pessoas de ficarem com as cinzas de um ente querido.


Também é possível transformar as cinzas resultantes da cremação em outros objetos. Empresas especializadas conseguem fazer joias, diamantes e até discos de vinil com o material.

Impacto ambiental
Porém, a cremação pode não ser a melhor opção para o meio ambiente e para pessoas que se importam com ele. O método pode muitas vezes ser promovido como uma técnica menos prejudicial ao meio ambiente, principalmente em comparação com o enterro convencional, mas isso não significa que ele se isenta de causar danos ao planeta.

É estimado que apenas um processo de cremação seja responsável pela produção de mais de 100 kg de dióxido de carbono. Um relatório publicado em 2008 pela Adelaide’s Centennial Park indica que o enterro comum gera por volta de 39 kg de CO2, ainda assim, avaliando os efeitos em longo prazo, ele tem 10% mais impacto negativo no meio ambiente do que a cremação. A maioria das emissões vem da manutenção dos túmulos e do cemitério.

O concreto usado nos túmulos é considerado um dos materiais mais destrutivos do planeta. Os químicos utilizados no embalsamento dos corpos também podem ser absorvidos pelo solo e causam danos ao local. Além disso, os cemitérios ocupam muito espaço e podem requerer o desmatamento de certas áreas para a implantação de túmulos. Na cremação, contudo, existe a liberação de outros gases além do CO2, como o mercúrio e a dioxina. Métodos de filtração de mercúrio podem ser implantados em crematórios para reduzir parte desse impacto.

Ressomação
Ressomação é o processo de reduzir um corpo usando a hidrólise alcalina. Ela geralmente envolve água e algum tipo de alcalino e promete ser a forma funerária mais sustentável que existe.

Pode parecer que a utilização de água resulta em desperdício, mas não é bem assim. A água da ressomação tem nutrientes que podem virar fertilizantes. Acredita-se que tudo nesse processo pode ser reciclado e que a técnica emite seis vezes menos carbono que outras cerimónias e sete vezes menos energia que o enterro.

Embora seja uma alternativa para a população sustentável, a ressomação ainda não é feita no Brasil.

Compostagem humana
A compostagem humana é um método que surgiu em 2019 em Seattle e promete transformar cadáveres em solo. É um método eco-friendly e não conta com o embalsamento dos corpos para que a decomposição ocorra naturalmente. O corpo é reduzido com materiais orgânicos, como palha ou lascas de madeira, por algumas semanas até que consiga virar solo.

Outras soluções
Muitos dos métodos eco-friendly não estão disponíveis no Brasil, portanto é difícil se despedir de entes queridos de um modo completamente sustentável. A cremação ainda é uma opção melhor que o enterro convencional, mas a produção de gases do efeito estufa é um problema a ser solucionado.

Existem algumas pequenas soluções para as pessoas que desejam planear um serviço funerário pensando no meio ambiente. Entre elas estão a utilização de um caixão biodegradável feito de papelão ou madeira bio, sem alças de metal. É possível, também, vestir o corpo com roupas de materiais biodegradáveis como algodão.

Fontes
NewsBreak, National Geographic, Calgary Memorial, The Guardian, Cremation Source, Bare e Popular Science

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Como reduzir a exposição a microplásticos



Muito do que consumimos hoje em dia contém plástico, ou melhor, microplásticos, pequenas partículas com menos de cinco milímetro que são invisíveis a olho nu. Para se ter uma ideia, uma pesquisa realizada pela Universidade de Victoria, no Canadá, apontou que a ingestão dessas partículas varia de 74 mil a 121 mil partículas por ano por pessoa, conforme idade, sexo e hábitos de consumo.

O impacto disso sobre a saúde humana ainda não é totalmente compreendido, mas existem indícios de que é bastante prejudicial. Alguns estudos já demonstraram associação com doenças cardiovasculares, câncer, desequilíbrio hormonal, falhas no desenvolvimento fetal, infertilidade e lesões celulares, entre outras condições.

Os microplásticos, atualmente, estão presentes na água, no ar e no solo, e é por isso que chegam aos alimentos e, também, a itens cotidianos como cosméticos, embalagem e até roupas. Apesar dessa onipresença, há maneiras de evitá-los. Confira, a seguir, 8 dicas:

1-Evite utilizar utensílios de plástico
Produtos como potes, garrafas, tábuas de corte e copos feitos de plástico podem transferir microplásticos para alimentos e bebidas. No caso da tábua, um estudo da American Chemical Society (ACS) mostrou que elas podem expor os seres humanos a até 79,4 milhões de microplásticos de polipropileno - um tipo de polímero plástico - por ano. Sempre que possível, opte por utensílios de vidro, silicone ou aço inoxidável (inox).

2-Não coloque recipientes plásticos no micro-ondas
Quando aquecidos no forno de micro-ondas, os recipientes de plástico podem libertar quantidades significativas de microplásticos nos alimentos. Um estudo realizado em 2023 por cientistas da Universidade de Nebraska-Lincoln, dos Estados Unidos, encontrou até 4 milhões de microplásticos por centímetro quadrado em certos alimentos para bebês embalados em plástico que podem ser levados ao micro-ondas.

3-Substitua os enlatados e os alimentos embalados em plástico
As latas geralmente são revestidas com produtos químicos como BPA (Bisfenol A), um conhecido desregulador do sistema endócrino, ou outras alternativas de plástico que podem contaminar o conteúdo. Os alimentos vendidos em embalagens plásticas nos supermercados, incluindo processados e mesmo frutas e verduras, também têm risco de serem contaminados pela liberação de microplásticos. Se possível, evite enlatados e alimentos embalados em plástico.

4-Filtre a água que irá beber ou cozinhar
Tanto a água engarrafada quanto a água da torneira podem conter microplásticos. Por isso, a indicação é utilizar um filtro. Invista num de alta qualidade e certificado, capaz de remover partículas de microplástico da água.

5-Reduza o consumo de frutos do mar
Mariscos, mexilhões ostras e vieiras tendem a ter mais microplásticos porque os pegam da água. Esses seres acabam ingerindo as partículas que estão na água e aí, quando os consumidos, ingerimos também. Opte por peixes selvagens e frutos do mar de fontes confiáveis que sejam coletados usando práticas de pesca sustentáveis.

6-Fique atento aos chás
Muitas marcas de chá usam plástico em seus saquinhos para vedá-los, e o material pode passar para a bebida quando a água quente é adicionada. Tenha atenção na hora de comprar, dando preferência para os chás que vem em saquinhos de algodão ou linho orgânicos. Ou, então, prefira adquirir as folhas naturais de chá e utilize coador de metal para preparar.

7-Escolha alimentos frescos e integrais
Tente comer mais alimentos frescos, como frutas, vegetais, grãos, feijões, nozes, ovos e carne, sobretudo os que não são vendidos em embalagens plásticas. Sempre opte por uma dieta integral, rica em alimentos orgânicos, proteína de qualidade e gorduras saudáveis.

8 - Opte por produtos naturais
Roupas de fibras naturais, como algodão, lã e linho, liberam menos fibras microplásticas em comparação com os tecidos sintéticos (poliéster e náilon, por exemplo). No caso de produtos de limpeza, muitos contém elementos plásticos, então, aposte no vinagre e no bicarbonato de sódio. E, em relação aos cosméticos, e maquiagens, verifique os rótulos com cuidado e garanta que não contenham microplásticos adicionados, como politetrafluoretileno (PTFE) ou do polietileno (PE).

Ler ainda mais:
How to Reduce Exposure to Microplastics

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

"Não há um único pesticida inócuo, que possa garantir a segurança das populações”, diz toxicologista


A entrevista concedida pelo toxicologista Ricardo Dinis-Oliveira ao jornal Expresso, em fevereiro de 2024, traz um alerta contundente sobre os impactos dos pesticidas na saúde pública e no ambiente, motivada pelo recuo da Comissão Europeia na proposta de reduzir o uso destes químicos na agricultura. O especialista, que é Professor Catedrático e Presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses, defende convictamente que não existe nenhum pesticida totalmente inócuo. Segundo o investigador, mesmo quando estes produtos são aplicados dentro das doses e margens legais permitidas pelas autoridades, o conceito de "risco zero" não passa de uma ilusão, uma vez que a exposição crónica e cumulativa a estas substâncias acarreta perigos reais que a legislação atual ainda não consegue travar eficazmente.

Um dos principais focos de preocupação apontados por Ricardo Dinis-Oliveira prende-se com a segurança das populações que residem ou circulam próximo de zonas agrícolas. O toxicologista explica que o fenómeno da deriva — ou seja, a dispersão dos químicos pelo vento e pelo ar — acaba por expor populações vulneráveis em locais como escolas, habitações e hospitais, sem que estas tenham qualquer ligação direta à atividade agrícola. Esta exposição contínua e invisível está cientificamente associada ao desenvolvimento de patologias graves a longo prazo, tais como distúrbios no sistema endócrino, doenças neurodegenerativas como o Parkinson, problemas de fertilidade e uma maior incidência de determinados tipos de cancro.

Outro argumento central do especialista reside no chamado "efeito cocktail", que representa um enorme desafio para a toxicologia moderna. Ricardo Dinis-Oliveira sublinha que a avaliação de segurança é habitualmente feita para cada substância isolada, ignorando o facto de que as pessoas estão expostas a uma mistura diária de múltiplos resíduos químicos através do ar, da água e dos alimentos. A combinação destas diferentes moléculas pode gerar um efeito sinérgico, tornando a mistura muito mais tóxica do que a soma dos seus componentes individuais. Perante este cenário, o toxicologista critica a decisão política de recuar nas metas ecológicas, lamentando que os interesses económicos de curto prazo tenham sido colocados à frente da proteção da saúde humana e da sustentabilidade dos ecossistemas.

No dia 5 de julho de 2023, foi divulgado o relatório de Avaliação de Impacto e Anexos (SWD(2023) 417 final) que acompanha a proposta da Lei de Monitorização do Solo. Os documentos originais podem ser consultados no portal oficial da Comissão Europeia - Documento sobre o Solo. [1]

A 6 de fevereiro de 2024, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, discursou no Parlamento Europeu. O momento central foi marcado por uma forte tomada de posição política e pelo reconhecimento da agricultura como pilar da segurança alimentar. [1, 2]

sábado, 13 de maio de 2023

Abandone a sua pá, esqueça o fertilizante, ouça as ervas daninhas: o guia para uma jardinagem descontraída


Ansioso para colocar os seus canteiros de flores ou hortas em forma, agora que a primavera finalmente chegou? Não tão rápido! A vida é muito mais fácil quando você trabalha com a natureza e não contra ela

Depois de quase 30 anos de jardinagem, vários deles em boas instituições, como a Royal Horticultural Society e Kew Gardens, percebi que muito do que me ensinaram, se não está errado, também não está exatamente certo. Todo aquele esforço trabalhoso – capinar, fertilizar, cavar, cuidar e podar, selecionar e conformar – não está funcionando. Não pelas plantas, pelo solo ou pela comunidade ao seu redor, o que inclui você e eu. Culturas indígenas em todos os lugares basearam suas práticas em observar e honrar a ecologia, enquanto nós, no “mundo desenvolvido”, escrevemos nossas regras. Nossa tentativa de controlar a natureza tem perpetuado relações precárias com todos os seres do jardim, transformando tudo em uma espécie de batalha, ou regimes sem fim, seja ceifando, capinando, regando ou atacando algum bicho. É muito trabalho e hoje em dia muito mais do que estou preparado para fazer. Agora a primavera está finalmente se desenrolando, esta estação de crescimento, talvez, em vez de trabalhar em nossos jardins, todos pudéssemos relaxar um pouco, passar mais tempo olhando e ouvindo, esperando em vez de reagir, estando no jardim tanto quanto jardinando ativamente. Aqui está como é feito.

Deite fora a sua pá
Se você estiver minimamente interessado em jardinagem, já deve ter ouvido falar de “no dig”, no qual você evita sua pá e pega numa enxada. Em vez de revirar o solo, uma estrutura que levou centenas de milhões de anos para ser construída e, portanto, pensou muito sobre qual caminho deveria ser, você capina levemente ou “faz cócegas” no solo para remover quaisquer ervas daninhas indesejadas e deixa suas multidões de micróbios, fungos e insetos intactos, exatamente onde eles querem estar. Micróbios felizes tornam as raízes das plantas felizes, mais capazes de absorver nutrientes, combater pragas e doenças e resistir à seca. Conforme você continuar fazendo isso, haverá menos ervas daninhas para remover.

Todo solo tem seu banco de sementes de ervas daninhas: diz o ditado que uma semente de um ano são sete anos de ervas daninhas, mas na verdade são décadas para várias delas. Eles estão lá não para incomodá-lo, mas para agir como um colete salva-vidas para o solo. O solo exposto e livre de ervas daninhas é muito facilmente danificado ou erodido pelo clima: o sol o queima, o vento assola, a chuva o abate, compactando-o ou se vier um dilúvio, causando escoamento. Mais uma vez, aqueles vários milhões de anos de evolução não eram um sistema parado, mas avançando para um ponto de auto-resiliência. A grande maioria das sementes de ervas daninhas precisa de luz para germinar. Quanto mais você perturba o solo, abrindo-o, cavando coisas, mais luz você deixa entrar e mais o solo tem que correr para se proteger. Ele libera seu banco de sementes de ervas daninhas como uma camada protetora para manter o sistema unido.

Facilitar a remoção de ervas daninhas
Falando em ervas daninhas, é hora de abandonarmos a palavra completamente. Até mesmo a própria exposição de flores de Chelsea já está a redefinir  as ervas daninhas como “plantas heroicas”. Talvez possamos falar deles como pessoas comuns ou anciãos (eles existem há muito mais tempo do que nós), porque cada erva daninha no seu jardim está a tentar lhe dizer algo muito importante.

Quanto mais um tipo domina, mais alto é o sermão. Os dentes-de-leão estão dizendo que seu solo é um pouco compacto, com poucos nutrientes superficiais, principalmente cálcio e potássio; as urtigas dizem que há muito azoto na superfície (não tão bom quanto parece). Uma enxurrada de ervas daninhas anuais – erva-do-mato comum, morugem e agrião-menor – dizem que o seu solo é dominado por bactérias, enquanto cardos, docas, alcanetes verdes e confrei são outro sinal de que a superfície está com poucos nutrientes e apenas aqueles com raízes longas para minar a camada do subsolo pode prosperar. As silvas tendem a proliferar onde há excesso de azoto, mas a terra foi deixada em paz para que elas possam se desenvolver melhor. Há alguma evidência, porém, de que elas têm um papel potencial na regeneração natural de mudas de árvores: os cervos não vão pastar no meio de um matagal e, numa floresta, isso significa que as mudas de árvores não serão mordiscadas, enquanto os fungos micorrízicos vão explorar a rede da floresta para aumentar as mudas com crescimento suficiente para compensá-lo e sair do matagal.

Uma vez que você comece a estudar a ecologia de qualquer coisa que chamamos levianamente de erva daninha, você descobrirá que é fundamental na reciclagem de nutrientes, fornecendo alimento na forma de néctar e pólen para todos os tipos de insetos, em todos os tipos de clima. E não apenas para polinizadores, mas também para coisas como minadores de folhas que se transformam em micro-mariposas e moscas que se transformam em comida para bocas famintas saindo do ninho, que se transformam em comida para aves de rapina voando alto. "Eu sei", eu ouço você chorar. Claro que sim, mas aposto que você ainda sai capinando quando não precisa.

Muitas dessas pessoas comuns chegam para ajudar o solo. Se você diminuir a remoção de ervas daninhas (você ainda terá que intervir algumas vezes) e, em vez disso, prestar atenção ao solo, muitas das pessoas comuns rapidamente se tornarão pessoas ocasionais. Os anuais são um sinal de que o solo se tornou dominado por bactérias, tendo evoluído de planícies aluviais a prados e campos, e prosperando na companhia de bactérias. Eles não prosperam nos solos dominados por fungos das florestas. Os fungos prosperam em solo rico em carbono porque é isso que eles comem.

Se você tiver muitas ervas daninhas anuais, adicione mais carbono ao seu solo na forma de composto caseiro volumoso, papelão (pode ser triturado, pode ser colocado como uma folha, pode ser adicionado à sua compostagem doméstica) ou folhas marrons (você nem precisa fazer molde de folha). Você não precisa cavar - as minhocas irão incorporar tudo no solo. Ou seja, se você desistiu de sua pá porque uma das maiores ameaças às minhocas é nosso hábito de arar e cavar, em parte porque se você for cortado ao meio, não volta a crescer e porque os túneis de minhocas têm sua própria bela arquitetura que suporta o solo, mas não se eles desabaram.

Abrace a podridão e a morte
'Se uma coisa prolifera em um sistema natural, outra coisa virá para aproveitar esta oportunidade.' 

Então, deitamos fora a pá, consideravelmente afrouxada na capina; agora é hora de abrir mão da arrumação. Todos nós fazemos isso, removemos uma folha amarelada ou mordiscada, varremos as folhas gastas e pegamos gravetos, podamos os mortos e moribundos. Em parte porque a ideia era que todo esse material abrigasse lesmas, outras pragas e doenças. Pode, mas a praga de uma alma é o jantar de outra. É verdade que as lesmas adoram uma pilha de folhas húmidas e levemente apodrecidas, mas também os escaravelhos que as caçam.

Esta história se repete continuamente: se uma coisa prolifera num sistema natural, outra coisa, às vezes muitas coisas, virá para aproveitar essa oportunidade, para restaurar o equilíbrio. Um jardim que consegue encontrar esse equilíbrio não tem problemas com pragas ou doenças – tem seres, que vivem e morrem, às vezes prosperando, mas raramente à custa de todo o sistema. Esse acto de equilíbrio leva tempo, vários anos ou mais, mas eu prometo a você: até as lesmas se acalmam. Apodrecimento, doenças, pragas são apenas o sistema de reciclagem da Terra. Não é um grande ato de fé confiar no tempo. As plantas existem há muito mais tempo do que jardinagem, com muito tempo para trabalhar nas nuances da reciprocidade.

Pare de perseguir o crescimento rápido
Desde a II Guerra Mundial, temos adorado falsamente o azoto e o fósforo como reis no jogo dos fertilizantes. Os fertilizantes sintéticos, uma ressaca muito ruim da fabricação de bombas, nos levaram a acreditar que poderíamos manipular o sistema. Usá-los significava que os agricultores podiam transformar cada pedacinho de solo num campo, pelo menos por um tempo, e isso se refletiu na maneira como jardinávamos.

Há um debate muito mais amplo sobre o uso excessivo de fertilizantes , em particular o azoto, na agricultura, mas isso está fora de nosso controle. O jardim não é.

Não há necessidade de produtos químicos manufaturados de qualquer tipo aqui. Em primeiro lugar, todos os solos diferem, mas os fertilizantes sintéticos, particularmente os vendidos a jardineiros, adoptam uma abordagem de tamanho único. Independentemente de onde você esteja, você aplica a mesma quantidade de alimento vegetal. Estes fertilizantes sintéticos não ficam in situ; eles fogem. E há evidências de que, com o tempo, eles podem esgotar o carbono armazenado dos solos , reduzindo a fertilidade, mesmo que a matéria orgânica ainda seja adicionada. Em resumo, se você compra fertilizantes, está pagando por ganhos de curto prazo. O composto caseiro é gratuito e vai construir o seu solo, ajudando a armazenar carbono e a alimentar as suas plantas. Mesmo se você fizer isso muito mal.

Composto in situ

Chega de trabalho pesado... deixe o seu solo fazer o trabalho pesado 

Se você deseja uma abordagem ainda mais despreocupada, pode fazer a maior parte da compostagem sem espalhar coisas. Não limpe as suas colheitas gastas, deixe os caules e as folhas da abóbora, derrube os pés velhos de tomate e feijão e deixe tudo na terra. Você pode cobri-lo para acelerar as coisas - os jardineiros tendem a usar plástico preto por conveniência, mas o papelão é abundante, gratuito e fácil o suficiente para um pequeno jardim. Coberto ou não, permite que os resíduos da colheita voltem direto para o lugar de onde vieram. Se você quiser plantar de volta no espaço que acabou de colher ou limpar, tente cortar, aparar, triturar ou cortar manualmente as colheitas usadas e plantar diretamente nelas. É mais rápido, evita carregar coisas para a pilha de compostagem e vice-versa e cria um solo maravilhoso e friável. Toda aquela noção de capinar e ajuntar o solo para fazer uma boa lavoura para crescer? Acontece que é melhor feito pelo sistema do solo do que pelo seu suor.

Não estou sugerindo que devamos desistir do composto. Ainda é a melhor maneira de lidar com a matéria orgânica doméstica, seja restos de comida, papel e papelão, pêlos de animais, etc. Os métodos de solo podem levá-lo a um solo mais rico com menos esforço e menos custo. E se você trouxer composto, nunca, nunca use turfa. Estamos a destruir preciosos habitats de turfa que precisamos para armazenamento de carbono, água limpa e gestão de enchentes. Os seres vivos que vivem em turfeiras não querem viver em mais nenhum outro lugar, então não vamos destruir a sua casa pelas idiotices da jardinagem.

Incentive a promiscuidade das plantas
Finalmente, vamos abraçar o diverso, o ligeiramente diferente, o variável em nossas flores e alimentos. Durante milénios, selecionamos e cultivamos plantas para que elas nos beneficiem – esta é a nossa história de origem. Mas, por muito tempo, esse foi um processo descontraído de deixar os polinizadores trabalharem, guardando sementes, crescendo e percebendo o que funcionava melhor nas condições em que você estava. É conhecido, tecnicamente, como criando um landrace, uma cultivar antiga que é variável, muitas vezes contendo muitos alelos (formas de genes) que não estão presentes nas cultivares modernas altamente cultivadas. A Jardinagem Landrace é o oposto: semelhante a uma orgia de plantas, você permite que todas as suas variedades de cenoura, ou o que quer que esteja cultivando, se polinizem entre si para criar uma população reprodutora diversificada. É uma estratégia de sobrevivência que diversifica o pool genético, tornando-o melhor preparado para o futuro do que é algo altamente criado.

'Não sabemos para onde estamos indo, mas é melhor irmos preparados com um amplo pool genético.' 

O resultado é uma beterraba ou um feijão ou uma flor que não é uniforme; à medida que os diferentes alelos desempenham sua expressão, uma raça varia em cor, tamanho, textura e até sabor. Qualquer um pode se tornar um jardineiro Land Race . É uma experiência divertida de mais de cinco anos que exige muito pouco esforço e o recompensará com vegetais e flores que funcionam inteiramente para o seu sistema de cultivo e solo. Não quer passar o verão todo regando excessivamente (posso lembrar como o verão passado foi quente)? Crie uma folha verde que não precise dela. Tem solo pobre? Crie uma batata que adora. Quer um tomate com gosto de alguma coisa, mas não se importa com uma geada tardia? É tudo possível.

Semeie todas as variedades nomeadas que tenham as características que deseja, cultive-as e, com a ajuda das abelhas, promova a promiscuidade e deixe-as fazer a polinização cruzada. Selecione e salve sementes apenas daquelas que se dão bem em seu solo. Comece novamente na próxima primavera, semeando a sua semente salva. Até a metade pode não sobreviver, mas você terá muitas sementes, então não importa. Deixe os polinizadores nas novas plantas, selecione as sementes daquelas que estão funcionando e continue. Em algumas temporadas, você pode ter alho totalmente adaptado ao seu solo – pode levar mais alguns anos para encontrar aquela abóbora ou tomate perfeito.

Não sabemos para onde estamos indo no que diz respeito ao nosso futuro neste planeta, mas podemos ir preparados com um amplo pool genético, em relação às nossas plantas populares comuns e as suas comunidades, maravilhados com os nossos insetos, fascinados pelos nossos amigos fungos, com os nossos solos e as nossas energias reabastecidas. E como qualquer grupo de amizade, isso é feito melhor saindo, relaxando e aproveitando a companhia um do outro.

Em tudo isso, não estou defendendo a desistência da jardinagem, mas mudando a perspectiva do que precisa ser feito. Se o dente-de-leão, as azedas ou as amoras não estiverem no caminho que esperava, deixe-as. Se a planta cair numa orgia de pulgões, deixe-a para algum outro ser do jardim limpá-la. Deixe as plantas morrerem no lugar, aprenda a observar e observar antes de fazer qualquer movimento. Você verá que a natureza está muito mais disposta a ajudar do que a causar problemas.

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