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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Oceanos têm aquecido a “ritmo alarmante”


O oceano está a aquecer a um ritmo “alarmante”, com consequências para os ecossistemas marinhos, as zonas costeiras e comunidades de todo o mundo, alerta o 10.º Relatório sobre o Estado do Oceano (OSR), divulgado esta quarta-feira pelo programa europeu Copernicus.

O relatório conta com a participação de 125 cientistas de todo o mundo e tem como foco principal o aquecimento dos oceanos, que acelerou desde 1960. Em 2025, o oceano absorveu um recorde de 23 zettajoules de energia, equivalente a cerca de 40 vezes o consumo energético mundial nesse ano.

O aquecimento das águas contribui para a ocorrência de ondas de calor marinhas, pode intensificar tempestades e afeta os ecossistemas, além de contribuir para a subida do nível do mar devido à expansão térmica da água e ao degelo terrestre.

“O oceano está a transformar-se diante dos nossos olhos: O aquecimento, a subida do nível do mar e a degradação dos ecossistemas são sinais interligados de mudanças significativas e de longo prazo. É nossa responsabilidade construir a capacidade permanente de antecipar esta transformação”, indica Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, que produziu o relatório, citado num comunicado do Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia (UE).

Na Europa, o Mediterrâneo apresenta diferenças significativas entre regiões. O Mediterrâneo Ocidental tem registado uma aceleração da subida do nível do mar desde o início dos anos 2000, enquanto a bacia Oriental apresenta uma aceleração acentuada desde 2018.

O relatório destaca ainda a vulnerabilidade dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento, cujas economias e meios de subsistência dependem fortemente do oceano. Todas as suas Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) são afetadas pelo aquecimento desde 1960 e 65% da área conjunta está exposta à aceleração da subida do nível do mar desde 1999.

As regiões polares também registam alterações profundas. No Ártico, o Grande Ecossistema Marinho do Mar de Barents perdeu 70% da sua extensão de gelo desde 1982. Na Antártida, a reduzida extensão do gelo marinho registada em 2022 coincidiu com uma falha reprodutiva sem precedentes entre os pinguins-imperador.

O nível médio global do mar aumentou entre 3,5 e 4,1 milímetros por ano entre 1999 e 2025, mas o ritmo acelerou para entre 3,9 e 4,5 milímetros anuais no período de 2012 a 2025. O relatório indica ainda que, entre 1985 e 2025, a acidez dos oceanos aumentou cerca de 17%.

Karina von Schuckmann, diretora do relatório, destaca que, além de fornecer um registo científico, o estudo tem mostrado “como a observação, a modelação e a previsão contínuas, bem como a colaboração científica, podem ajudar as sociedades a compreender o que está a mudar, onde e porquê, a antecipar os riscos futuros e a preparar-se para as suas consequências”.

Na Europa, os mares regionais estão sob intensa pressão, com algumas regiões a mudarem mais rapidamente do que outras.

Em março deste ano, o IPCC já tinha alertado aqui

sábado, 23 de maio de 2026

Katerina Papadopoulou - Notio Toxo ft. Chariton Charitonidis


No álbum Notio Toxo (Νότιο Τόξο), lançado pela conceituada cantora de música tradicional grega Katerina Papadopoulou em colaboração com Chariton Charitonidis, a expressão que dá título à obra significa literalmente "Arco do Sul". Neste trabalho, o termo não é apenas uma referência geográfica, mas sim o conceito central e o fio condutor de toda a narrativa musical.

Em termos geográficos e culturais, o Arco do Sul refere-se à rota marítima que engloba as ilhas do sul da Grécia e do Mar Egeu, ligando regiões como Creta, o Dodecaneso e as Cíclades. Historicamente, esta zona funcionou como uma ponte crucial de partilha cultural entre o Ocidente e o Oriente, desenvolvendo uma identidade muito própria e rica.

No plano artístico, os músicos transformam este contorno geográfico numa metáfora para batizar o álbum. A obra funciona como uma verdadeira viagem de navegação, onde cada faixa explora as tradições musicais, os ritmos e as histórias destas ilhas do sul. Através de instrumentos tradicionais como a lira e o alaúde, o álbum resgata a memória dos marinheiros, os sentimentos de saudade e as celebrações destas comunidades piscatórias. Em suma, ao dar o nome de Notio Toxo ao álbum, Katerina Papadopoulou quis criar um mapa sonoro que celebra a alma, a luz e o património cultural do sul do Egeu, unindo o passado da música tradicional ao presente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O aquecimento dos oceanos causa uma redução anual de 20% no número de peixes

O aquecimento crónico e prolongado dos oceanos é o responsável pelo declínio anual de quase 20% na biomassa de peixes (o peso total dos peixes capturados vivos em redes de arrasto), segundo pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

A pesquisa, desenvolvida nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, baseia-se na análise de 702.037 estimativas de mudanças na biomassa de 33.990 populações de peixes registadas entre 1993 e 2021 no Hemisfério Norte.

Os dados coletados, segundo os pesquisadores, devem ser cruciais para aprimorar a gestão da pesca e a conservação dos ecossistemas marinhos, dos quais depende grande parte da segurança alimentar mundial; hoje, 25 de fevereiro, eles publicam os resultados do seu trabalho na revista Nature Ecology and Evolution.

Shahar Chaikin, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais, explicou à EFE que calcularam essa perda de 'biomassa' analisando o peso total dos peixes vivos capturados em redes de arrasto de fundo durante o período abrangido pelos estudos científicos, que inclui espécies comerciais e não comerciais.

As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, não afetam todos os peixes da mesma forma, pois há populações que "perdem" e outras que "ganham", e o estudo mostra que tudo depende da zona de conforto térmico, a faixa de temperatura ideal na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor.

No final das contas, ninguém ganha.
Shahar Chaikin afirmou que, tanto globalmente quanto em nível populacional (em locais específicos), a tendência geral é de diminuição dessa biomassa à medida que os oceanos aquecem, e declarou que o resultado final do trabalho é que "ninguém ganha a longo prazo".

Quando uma onda de calor leva os peixes em águas já quentes além de sua zona de conforto térmico, a sua biomassa pode cair até 43,4%, mas as populações em áreas mais frias muitas vezes prosperam temporariamente com o aumento das temperaturas, aumentando a sua biomassa em até 176%.

“Embora esse aumento repentino na biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, trata-se de um aumento temporário. Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base no aumento da biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar o colapso dos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, alertou Chaikin.

“Ao contrário das flutuações climáticas de curto prazo, que podem variar drasticamente, o aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste do Oceano Pacífico”, disse Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, num comunicado à imprensa divulgado na quarta-feira pelo MNCN.

Coordenação internacional para gerir recursos que não conhecem fronteiras.
A abordagem tradicional à gestão da pesca já não acompanha o ritmo das alterações climáticas e, para garantir o futuro dos recursos pesqueiros globais, os autores propõem uma estrutura de três níveis que combina resposta rápida, planeamento a longo prazo e cooperação internacional. Observaram que as espécies, na tentativa de se manterem dentro da sua zona de conforto térmico, inevitavelmente atravessam fronteiras internacionais, pelo que a conservação requer coordenação internacional e acordos conjuntos de gestão de recursos.

O pesquisador do MNCN-CSIC, Miguel Bastos Araújo, enfatizou a importância de equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo prazo para evitar a sobre-exploração e afirmou que a única estratégia viável diante do aquecimento dos oceanos é priorizar a resiliência a longo prazo. "As medidas de gestão devem levar em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente."

A conclusão é que os recursos pesqueiros não podem ser regulamentados apenas considerando o aumento ou a diminuição ocasional da biomassa devido a uma onda de calor marinha, disse Chaikin à EFE, citando o exemplo do robalo do Mediterrâneo: quando confrontado com uma onda de calor marinha, é essencial reduzir a pressão da pesca, porque enfrenta perdas muito maiores do que as populações em costas mais frias da Galiza ou da Inglaterra.

Mas, embora as populações nessas "bordas frias" possam experimentar um aumento significativo durante uma onda de calor, esses ganhos são "transitórios" e desaparecem com o aquecimento oceânico a longo prazo , portanto, não representam uma oportunidade para a "captura sustentável".

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

‘Profound impacts’: record ocean heat is intensifying climate disasters, data shows

Enquanto Trump insiste nos seus planos para extrair e queimar as colossais reservas de petróleo da Venezuela, o calor continua a aumentar.
Espere mais um ano de emissões crescentes — e de eventos climáticos extremos ainda mais devastadores e letais.

The world’s oceans absorbed colossal amounts of heat in 2025, setting yet another new record and fuelling more extreme weather, scientists have reported.

More than 90% of the heat trapped by humanity’s carbon pollution is taken up by the oceans. This makes ocean heat one of the starkest indicators of the relentless march of the climate crisis, which will only end when emissions fall to zero. Almost every year since the start of the millennium has set a new ocean heat record.

This extra heat makes the hurricanes and typhoons hitting coastal communities more intense, causes heavier downpours of rain and greater flooding, and results in longer marine heatwaves, which decimate life in the seas. The rising heat is also a major driver of sea level rise via the thermal expansion of seawater, threatening billions of people.

Reliable ocean temperature measurements stretch back to the mid-20th century, but it is likely the oceans are at their hottest for at least 1,000 years and heating faster than at any time in the past 2,000 years.

The atmosphere is a smaller store of heat and more affected by natural climate variations such as the El Niño-La Niña cycle. The average surface air temperature in 2025 is expected to approximately tie with 2023 as the second-hottest year since records began in 1850, with 2024 being the hottest. Last year the planet moved into the cooler La Niña phase of the Pacific Ocean cycle.

“Each year the planet is warming – setting a new record has become a broken record,” said Prof John Abraham at the University of St Thomas in Minnesota, US, and part of the team that produced the new data.

“Global warming is ocean warming,” he said. “If you want to know how much the Earth has warmed or how fast we will warm into the future, the answer is in the oceans.”

The analysis, published in the journal Advances in Atmospheric Sciences, used temperature data collected by a range of instruments across the oceans and collated by three independent teams. They used this data to determine the heat content of the top 2,000 metres of the oceans, where most of the heat is absorbed.

The amount of heat taken up by the ocean is colossal, equivalent to more than 200 times the total amount of electricity used by humans across the world. “Ocean warming continues to exert profound impacts on the Earth system,” the scientists concluded.

Ocean warming is not uniform, with some areas warming faster than others. In 2025, the hottest areas included the tropical and South Atlantic and North Pacific oceans, and the Southern Ocean. In the latter, which surrounds Antarctica, scientists are deeply concerned about a collapse in winter sea ice in recent years.

The North Atlantic and the Mediterranean Sea are also getting warmer, as well as saltier, more acidic and less oxygenated owing to the climate crisis. This is causing “a deep-reaching ocean state change in, making the ocean ecosystems and the life they support more fragile”, the researchers said.

“As long as the Earth’s heat continues to increase, ocean heat content will continue to rise and records will continue to fall,” said Abraham. “The biggest climate uncertainty is what humans decide to do. Together, we can reduce emissions and help safeguard a future climate where humans can thrive.”

sábado, 27 de dezembro de 2025

Françoise de Felice

Françoise de Felice (pintora Francesa, nascida em 1952)
Estilo:
Início impressionista - começou explorando a Impressionismo em todas as suas formas até cerca de 1982.

Estilo pessoal - depois de deixar a França e viver na Sicília, desenvolveu um estilo próprio inspirado na luz mediterrânica e no Barroco siciliano, com traços fluídos e linhas finas e precisas.

O seu trabalho é frequentemente descrito como uma narrativa introspectiva, poética e melancólica, reflectindo um universo pessoal onde figuras sugerem estados interiores e dualidades psicológicas.

Técnica:
Principalmente óleo sobre tela.
Também utiliza folha de ouro e aquarela em algumas obras, combinando traços finos com fusões quase líquidas de cor.
A mistura entre precisão e fluídos cromáticos resulta numa estética que transita entre o figurativo e o simbolismo subjetivo.

Biografia
Françoise de Felice nasceu em Paris, filha de pai italiano e mãe francesa, e passou os primeiros 20 anos na cidade. Em criança, foi introduzida ao design gráfico pela sua avó.

Paralelamente à Sorbonne, frequentou a Escola de Belas Artes como ouvinte. A sua primeira abordagem à arte foi o Impressionismo, que se estendeu a todas as suas vertentes até 1982.

De seguida, deixou a França e estabeleceu-se na Sicília, onde o Impressionismo francês estava bastante presente. Teve de construir a sua própria personalidade, trilhando caminhos menos percorridos e recriando a sua assinatura.

O esplendor do Barroco siciliano e a luz da ilha beneficiaram-na, e começou a encontrar o seu próprio estilo, que nasceu por acaso. Transformou a sua pintura numa narrativa introspetiva, uma autoanálise.

Após muitas idas e vindas entre o Mediterrâneo e a França, deixou finalmente a Sicília e instalou-se perto de Paris, montando um atelier onde organizou uma série de exposições internacionais em grandes cidades como Caracas, mas também na Europa, em cidades como Pádua, Roma, Londres, Paris e Genebra.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O ano em revista: as espécies que deram sinais de esperança em 2025


Fique a conhecer os animais e plantas eleitos neste ano que está a terminar, por investigadores e conservacionistas que trabalham com a biodiversidade em Portugal.

1. Abutre-preto (Aegypius monachus)


Com uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros, este que é o maior abutre da Europa deu este ano sinais de expansão e de consolidação das colónias existentes em Portugal, refere Samuel Infante, membro da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional. De facto, nas contas do projeto LIFE Aegypius Return, que trabalha para a conservação desta espécie, em 2025 contaram-se 119 a 126 casais em território português, um forte contraste com os 40 pares contabilizados em 2022.

Hoje conhecem-se cinco núcleos reprodutores: no Tejo Internacional, “que continua a ser a área de maior concentração da população da espécie”, no Baixo Alentejo (Herdade da Contenda), na Reserva Natural da Malcata, no Douro Internacional e ainda na Vidigueira/Portel (Alentejo). A descoberta desta última colónia, em julho de 2024, “veio dar esperança de que a espécie possa recuperar em pleno”, acrescenta Samuel Infante. Ainda assim, o futuro é ainda frágil: apenas metade dos casais com ovos no ninho conseguiram assegurar descendência, este ano, afetados entre outras ameaças pelos fogos do último verão.

2. Cagarra (Calonectris borealis)

Apesar das pressões que se fazem sentir sobre estas e outras aves marinhas, como é o caso das capturas acidentais em artes de pesca, a maior colónia mundial de cagarras, na Selvagem Grande, arquipélago da Madeira, continua a crescer, nota Joana Andrade. A coordenadora de conservação marinha da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves chama a atenção para um estudo científico publicado em janeiro passado, que analisou os resultados de contagens feitas entre 2009 e 2023 naquela ilha, e concluiu que ali nidificam atualmente cerca de 38.830 casais – um número que surpreendeu a equipa de investigadores.

Para o crescimento desta colónia contribuem várias medidas, como a aplicação de um regime de proteção estrita na Reserva Natural das Ilhas Selvagens (que inclui ainda a Selvagem Pequena, o Ilhéu de Fora e outros ilhéus adjacentes) e a erradicação total de coelhos e murganhos na Selvagem Grande.

3. Gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii)


A gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii) é outra das espécies que transmitiu um sinal de esperança ao longo de 2025, notam Joana Andrade, da SPEA, e Gonçalo Elias, ornitólogo e coordenador do portal Aves de Portugal. Esta ave marinha começou a nidificar em território nacional apenas no início do século XXI mas teve um crescimento surpreendente, empurrada por alterações que afetaram estas gaivotas junto ao Mediterrâneo.

Hoje, conta com uma população reprodutora de cerca de 7000 casais no Algarve, incluindo a maior colónia mundial da espécie, na ilha da Barreta, e uma colónia mais recente na ilha da Culatra, ambas na Ria Formosa. Gonçalo Elias considera que o projecto LIFE Ilhas Barreira (2019-2024) deu “um importante contributo para melhorar as condições de reprodução da gaivota-de-audouin no nosso país”. “Embora esteja classificada como Vulnerável a nível mundial, o recente aumento populacional permite ter esperança de que possa deixar de ser considerada ameaçada num futuro próximo”, conclui.

4. Insectos polinizadores


“O ano de 2025 foi um ano muito especial para o futuro da conservação dos insetos polinizadores em Portugal e deu-me um grande entusiasmo pelo que virá nos próximos anos”, afirma Hugo Gaspar, que se dedica à investigação nesta área. Em causa está um grupo grande com mais de 1000 espécies em Portugal, a maioria das quais abelhas selvagens, moscas-das-flores e borboletas diurnas, descreve. O investigador no FLOWer lab, grupo de investigação ligado à Universidade de Coimbra, lembra que se deram “passos importantes” neste último ano “para que possamos ter mais certezas e resultados” no que respeita à conservação destes insetos.

Em primeiro lugar, a publicação do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, com um conjunto de medidas para melhorar o estado de conservação deste grupo em Portugal. Em segundo, foi também em 2025 que a União Europeia formalizou o compromisso de implementação do esquema de monitorização dos polinizadores, em linha com o Plano de Ação. Por fim, concluiu-se o projeto ARCADE, que melhorou o conhecimento e o estado das coleções de referência para o estudo dos polinizadores em Portugal. “Em conjunto, estas e outras ações trouxeram este ano muita esperança para este grupo de organismos, e os próximos anos assim o vão confirmar”, acredita Hugo Gaspar.

5. Lince-ibérico (Lynx pardinus)

O lince-ibérico, que nos últimos anos tem sido alvo de vários projetos de conservação que juntam Portugal e Espanha, é outra espécie que deu provas de esperança no ano que termina agora, apontam Samuel Infante, da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional, e Francisco Álvares, cientista do CIBIO (Universidade do Porto), especializado em mamíferos.

O esforço de conservação desta espécie outrora à beira da extinção conseguiu o número de linces na Península Ibérica aumentasse para 2401 animais, foi anunciado em maio. Em novembro, foi anunciado um recorde de nascimentos nos centros de reprodução de Portugal e Espanha.

“É uma espécie icónica que foi considerada extinta em Portugal há pouco mais de duas décadas e actualmente apresenta uma população de mais de 300 indivíduos”, nota Francisco Álvares, lembrando que todavia este felino enfrenta ainda várias “ameaças sérias”. Desde logo, exemplifica, uma reduzida diversidade genética (com consequências na resistência a patologias), limitada disponibilidade de alimento (face à raridade do coelho-bravo) e mortalidade por causas humanas (por exemplo, atropelamentos e perseguição directa).

O investigador do CIBIO refere ainda outras espécies que também recuperaram em Portugal, “de forma extraordinária”, as suas populações nestes últimos anos. Exemplos? O corço, a cabra-montês, a águia-imperial e o abutre-preto. “Mas também estas espécies, enfrentam várias ameaças, muitas delas semelhantes às do lince-ibérico, por isso estes ‘sinais de esperança’ poderão ser atenuados se não houver esforços para a sua conservação efectiva”, alerta.

6. Saramugo (Anaecypris hispanica)


Este pequeno peixe de rios portugueses, em risco de extinção, surpreendeu recentemente os investigadores, lembra Filipe Ribeiro, cientista do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 2025, um novo estudo conseguiu obter um conhecimento mais exato sobre a distribuição do saramugo. “Durante quase duas décadas, pensou-se que em cinco das 10 populações existentes em Portugal a espécie estaria localmente extinta, uma vez que ao longo deste tempo nunca foram capturados exemplares de saramugo”, explica Filipe Ribeiro. “Porém, através de um estudo baseado em DNA ambiental, realizado em 2023 e publicado em 2025, conseguimos detectar este peixe em todas as 10 populações portuguesas.”

Ainda assim, esses resultados não querem dizer que a situação do saramugo esteja melhor, ressalva o investigador, mas sim que “poderemos alocar esforços de monitorização, que entretanto tinha sido abandonada, e medidas de conservação, às populações que anteriormente tinham sido consideradas como perdidas”.

Para já, explica, são necessárias novas medidas para garantir um futuro ao saramugo, a longo prazo. “Deu-nos algum alento saber que a espécie ainda está nestes locais, porém é necessária uma monitorização dedicada e mais intensiva nestas populações, bem como medidas de melhoria de habitat e remoção de invasoras para a preservação desta espécie endémica da Península Ibérica.”

7. Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)


“O aumento registado este ano no sucesso reprodutor do tartaranhão-caçador é bastante positivo, tendo em conta que, segundo os dados do primeiro censo da espécie realizado em Portugal em 2022-2023, esta ave se encontrava no limiar da extinção e, em Espanha, a situação também é bastante crítica”, refere Joaquim Teodósio, da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus. Este ano, dos 251 ninhos desta espécie migradora que foram alvo de medidas de proteção, na Península Ibérica, 77% conseguiram assegurar pelo menos um juvenil voador. Ao mesmo tempo, atingiram-se 1,98 juvenis por casal nidificante, acima do limiar de viabilidade desta espécie.

8. Planta carnívora Utricularia subulata


A redescoberta da Utricularia subulata, uma planta carnívora que não era observada em Portugal desde 1967, é uma notícia esperançosa deste ano que passou, sublinha Sergio Chozas, ligado à Sociedade Portuguesa de Botânica. “De facto esta notícia dá nos esperanças de que algumas das espécies que foram dadas como extintas podem, de facto, andar ainda por aí, e também nos fazem lembrar da importância de continuarmos a fazer estudos e levantamentos da nossa flora”, sublinha este botânico, que é também investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A tempestade voltou a agitar o mar de dúvidas em torno dos riscos do uso do glifosato para a saúde humana


1) Uma prestigiada revista científica acaba de retratar uma das publicações que mais influenciaram a avaliação da "segurança" do glifosato porque os autores "se esqueceram de declarar o seu conflito de interesses" — ou seja, quem os financiava. Que conveniente!

2) O Parlamento Europeu deverá decidir nas próximas semanas sobre o "abrandamento" das medidas para o registo e aprovação de pesticidas na Europa. A Comissão Europeia irá submetê-las em breve à discussão, e prevêem, entre outras coisas, a eliminação da obrigação legal de considerar provas científicas independentes ao autorizar ou proibir os pesticidas.

Assim sendo, um novo estudo dos nossos colegas da Universidade de Jaén (Espanha, Europa) sobre a presença de glifosato nos olivais de Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Espanha parece particularmente oportuna.

Passo a explicar: Fernández García e os seus colegas encontraram glifosato e os seus produtos de degradação (AMPA e N-acetil-AMPA) nos solos de olivais de gestão tradicional (MT) e de alta densidade (AD); também, mas em concentrações muito mais baixas e a maiores profundidades no solo, nos olivais orgânicos (ORG).

Portugal apresenta as concentrações médias mais elevadas em olivais de maneio tradicional (MT) e de alta densidade (AD). Em Espanha e Marrocos, os olivais de alta densidade (AD) apresentam as concentrações mais elevadas, enquanto que na Grécia, os olivais de maneio tradicional (MT) eram os mais ricos em glifosato.

Acrescentam que, em Itália, o glifosato não é encontrado em olivais porque o seu uso foi altamente restringido desde 2016.

O quê?! Assim, é possível produzir azeite de qualidade sem utilizar herbicidas tóxicos e alcançar uma posição de liderança internacional em termos de prestígio, imagem e marca? Não sei o que estamos à espera para abandonar este hábito prejudicial de matar ervas daninhas a qualquer custo.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Dia Mundial da Oliveira


No Dia Mundial da Oliveira, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) associa-se à celebração de uma das espécies agrícolas mais emblemáticas do território português e do espaço mediterrânico. A oliveira, símbolo de resiliência, biodiversidade e equilíbrio ambiental, representa também um importante pilar socioeconómico para milhares de produtores, contribuindo de forma decisiva para a qualidade e autenticidade do azeite português. Portugal é hoje uma referência mundial na olivicultura, tendo a fileira oleícola um papel estratégico na política agrícola e na economia portuguesas. Com mais de 380 mil hectares de olivais, a produção de azeite aumentou 300% nos últimos 20 anos, sendo a maior parte do azeite produzido extra virgem.

A DGAV reafirma o seu compromisso na proteção e valorização do olival nacional, promovendo políticas e medidas técnicas que assegurem a sanidade vegetal, a sustentabilidade da produção e a segurança alimentar ao longo de toda a cadeia de valor. A prevenção e o controlo de organismos nocivos, como a Xylella fastidiosa, permanecem como prioridades, acompanhadas pelo reforço da vigilância fitossanitária, da cooperação com os produtores e da sensibilização para boas práticas agrícolas.

Neste dia, destacamos igualmente o papel fundamental dos agricultores e técnicos que, com conhecimento e dedicação, contribuem para preservar um património natural e cultural que atravessa gerações. O olival, tradicional ou moderno, continua a ser um elemento estruturante da paisagem rural e do desenvolvimento das regiões onde se insere.

Esta ano a efeméride foi assinalada a nível internacional no passado dia 20 de novembro, em Córdova, por ocasião da realização da 122.ª Sessão Plenária do Conselho Oleícola Internacional (COI), na qual participaram cerca de 47 países, incluindo Portugal, e onde foi assinada a Declaração de Córdova como reforço do compromisso de apoio ao setor oleícola.

A DGAV continuará a contribuir para a preservação do olival como um património para as gerações futuras.

Saiba mais:

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Solstício de Inverno 2023 e Inverno Climatológico

O problema de seca na Andaluzia já perdura há mais de dois anos. Aqui uma excelente intervenção Fernando Díaz del Olmo alertando-nos para as consequências de um aumento de 3 ºC.
 

O solstício de Inverno irá ocorrer no próximo dia 22 de Dezembro pelas 3h27 de Lisboa e Londres (ou 4h27 de Madrid). 

Terá então início o Inverno astronómico, já que o Inverno climatológico teve início a 1 de Dezembro. E para já, e tendo em conta as previsões até ao final do mês, a situação não é animadora, quer para a agricultura quer para os cursos de água e ecossistemas, em particular da região Sul de Portugal e de Espanha. 

Dezembro é geralmente o mês mais chuvoso do ano no sudoeste peninsular, mas nos últimos vinte anos a precipitação caiu a pique. Em Faro, por exemplo, a precipitação média de Dezembro ronda os 100 mm, o que corresponde sensivelmente a 20% da média anual. Os últimos três meses do ano, quer no Algarve quer na Andaluzia Ocidental representam no seu conjunto cerca de 50% da média do ano. Isto significa que quando o Outono e o Inverno são secos ou muito secos a recuperação já será altamente improvável. Anos secos são comuns, e costumam ser compensados por anos húmidos. Sucede que desde 2010/2011 há uma sucessão de anos secos ou muito secos em boa parte do sudoeste da Península, associados também a um aumento generalizado das temperaturas. 

Está também demonstrado que o padrão de precipitação mudou: a tendência é para curtos períodos de precipitação intensa alternarem com longos períodos secos, e para a precipitação cair a pique no Inverno e ficar concentrada nas estações de transição, o que causa prejuízos às culturas agrícolas tradicionais e aos ecossistemas mediterrânicos das região. Se se está perante uma alteração temporária ou permanente só os próximos anos ou décadas poderão confirmar. 

Deserto de Tabernas, em Almeria, uma região com menos de 200 mm de precipitação média anual. A sua área sofrerá uma expansão se a tendência actual de queda da precipitação persistir. 

O que poderia suceder na pior das hipóteses? O clima mediterrânico evoluiria para um clima semiárido quente, idêntico ao que ocorre no Levante espanhol, Marrocos ou Síria, com precipitação média anual entre os 250 e os 400 mm em parte do Alentejo e do Algarve, e boa parte da Andaluzia Ocidental e da Estremadura. Nestas regiões o montado desaparecerá, bem como os pinhais de pinheiro-manso, tão comuns nas províncias de Huelva, Sevilha ou Cádis. Dezenas senão mesmo centenas de espécies de plantas ou animais dependerão do auxílio do Homem para sobreviver à extinção.

Na Andaluzia Ocidental a seca, as pragas e a sobrexploração dos aquíferos estão a provocar a morte a milhares de árvores adultas, como sucede nestes pinheiros em Doñana.

A raiz do problema está na alteração da posição do Anticiclone dos Açores e da dorsal anticiclónica africana, que durante o Inverno bloqueiam a passagem de depressões atlânticas, especialmente a Sul de Sintra-Montejunto-Estrela. A precipitação no sudoeste depende muito da instabilidade no Golfo de Cádis. Ora o triângulo com vértices em Gibraltar, Canárias e Açores corresponde a uma região do Atlântico onde na última década a estabilidade anticiclónica tem persistido com enorme intensidade no período invernal, o que provoca a situação de seca crónica que se vive no Algarve, Andaluzia ou boa parte do Alentejo. Aparentemente a atmosfera mudou e não há nada que possamos fazer senão adaptarmo-nos.

domingo, 26 de novembro de 2023

Monge eremita Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges


Conversa ficcionada com um erudito, sobre temas ligados ao cristianismo, que só muito tarde aprendi e que sei que a maioria dos leitores terá interesse em conhecer.

- Comecemos, então, por dizer que as palavras sinónimas mosteiro e monastério radicam nos elementos gregos monós, que quer dizer sozinho, e terion, que alude ao lugar para fazer algo. Devo dizer que, originalmente, todos os monges cristãos eram eremitas, ou seja, homens que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, viviam sozinhos, em um lugar isolado, longe do mundo, designado eremitério. Sabeis que houve um eremita que ficou na história do monaquismo cristão?
- Não sei. A minha ignorância é muita. Mas sei que a palavra eremita radica no grego erémos, que significa deserto, desabitado, étimo que serviu de raiz ao termo latino eremita, com o significado de "morador do deserto", e à nossa palavra ermo, que quer dizer, deserto, no sentido de desabitado.

- Foi Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges. Muito jovem abraçou o Evangelho como único caminho para a salvação, desfez-se de todos os seus bens, que distribuiu pelos pobres, partindo, depois, para o deserto, onde iniciou uma inspiradora vida monacal.
- Só sei que fui baptizado na igreja que lhe foi dedicada, em Évora.

- Também ficou conhecido por Santo Antão do Egipto, Santo Antão, o Grande e Santo Antão, o Eremita. Natural do Egipto, viveu entre os séculos III e IV, com grande destaque entre os chamados Padres do Deserto, de que foi fundador, sendo lembrado pelo seu papel no desenvolvimento da vida monástica. A vida de Santo Antão e as suas tentações inspiraram numerosos artistas, como Bosch, Brueghel, Velázquez, Flaubert, Zurbarán e Dali.
Falai-me, se puderdes, das Tentações de Santo Antão.
- Sei que mostram um mundo angustiante, entregue ao pecado, dominado por monstros e forças demoníacas, face aos quais, a única esperança e salvação estavam em Cristo. A lição que delas tiramos é que, só pela força da renúncia e fortemente apoiados na Fé nos podemos libertar-se dos demónios que nos atormentam.

- E os Padres do Deserto?
- Foram monges eremitas que viveram e exerceram a sua acção evangelizadora, sobretudo, no deserto da Nítria, a Oeste do delta do Nilo, entre Alexandria e o Cairo. Deste grande santo dizia-se que, por sua acção, “o deserto se tinha tornado uma cidade”.

- Bonita imagem!
- Os Padres do Deserto tiveram uma enorme influência nos primeiros tempos do cristianismo, que podemos dizer primitivo. Quer o monaquismo oriental, representado no Monte Athos, na Grécia, quer o ocidental, definido na Regra de São Bento de Núrsia, escrita na abadia de Monte Cassino, em Itália, quer, em geral, todo o monaquismo medieval, revelam acentuada inspiração nas práticas iniciadas no deserto. Crenças religiosas recentes como o metodismo saído da Igreja anglicana inglesa, o evangelismo alemão e o pietismo do estado norte-americano da Pensilvânia, nascido na Igreja Luterana alemã, têm algumas das suas raízes nos Padres do Deserto. Também a Igreja Ortodoxa tem, nestes padres, as suas raízes.

- Depois deste interessante desvio, continuemos a conversa sobre mosteiros, conventos e abadias.
- Se nos reportarmos aos mosteiros cristãos ocidentais, podemos chamar-lhes conventos cartuxos, conventos de frades, abadias e priorados. Volto a dizer que um mosteiro é uma instituição edificada que alberga uma comunidade de monges ou de monjas, levando uma vida de oração e trabalho, em completo afastamento da sociedade.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Dia da Floresta Autóctone - Apenas um habitat florestal em Portugal está em bom estado de conservação


Nesta quinta-feira, 23 de novembro, celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, e a ZERO fez uma avaliação ao estado de conservação dos habitats florestais de Portugal, de acordo com um reporte do ICNF, relativo ao período 2013-2018, e revela que “a situação é preocupante”.

Assim, para as três regiões biogeográficas – Atlântica, Mediterrânica e Macaronésica – verifica-se que das representações presentes (sete habitats ocorrem em mais do que uma região) apenas uma se encontra em estado de conservação favorável, 15 encontram-se em estado desfavorável-inadequado, e nove em estado desfavorável-mau.

De forma mais detalhada, a região biogeográfica macaronésica, que abrange as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, tem apenas o habitat prioritário Laurissilvas macaronésicas em estado de conservação favorável, enquanto as florestas endémicas de zimbros e as florestas de zambujeiros e de alfarrobeira estão em estado desfavorável-inadequado e o habitat prioritário turfeiras arborizadas se encontra em mau estado de conservação.

No que respeita à região biogeográfica Atlântica (noroeste de Portugal continental), a situação também não é melhor. Dos cinco habitats representados, dois encontram-se em estado desfavorável-inadequado e três em estado desfavorável-mau, com destaque para o mau estado de conservação dos carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e dos bosquetes de teixo.

Quanto à região biogeográfica mediterrânica, a com mais habitats representados, o panorama não se altera muito, com 10 habitats em estado de conservação desfavorável-inadequado e seis em desfavorável-mau, sendo os carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e os bosquetes de teixo repetem a má condição e juntam-se a estes os freixiais de freixo-de-folhas-estreitas, os carvalhais de carvalho-português e os bosques de sobreiro.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico


O conhecimento agroecológico existe e está presente em todo o mundo – desde os agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção, até aos consumidores que optam por uma alimentação baseada em produtos provenientes dos agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção. É muito importante fazer a recolha destas práticas, desde a produção ao consumo, antes que desapareçam. É igualmente importante publicá-las através de meios acessíveis, de modo a transferir estes conhecimentos para as gerações futuras e a popularizá-los. Cientes desta necessidade, a equipa da MedCaravan criou o Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico, que visa ajudar a uma recolha e registo de conhecimentos em agroecologia de uma forma adequada. Com este Guia a equipa do Medcaravan tem a esperança de que as práticas agroecológicas, que fornecem soluções em muitas áreas – da agricultura à arte, dos sistemas de abastecimento à solidariedade nas comunidades – sejam difundidas como uma ferramenta útil para a regeneração dos agroecossistemas.
Contamos convosco para ajudar na disseminação e utilização deste Guia.
Façam o download do documento, utilizem-no e partilhem-no.


Site a consultar:
Urgenci

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Hoje comemora-se o Dia Internacional contra as Alterações Climáticas: porque devemos estar alerta?



Esta terça-feira, 24 de outubro, assinala-se o Dia Internacional contra as Alterações Climáticas. Este dia tem como objetivo informar, consciencializar, educar e sensibilizar o setor privado, instituições públicas e sociedade civil sobre os efeitos devastadores desta realidade.

Esta data, que tem origem na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), surge como resposta unificada e global ao desafio das alterações climáticas e coloca em cima da mesa o desafio do combate às suas consequências, mas também as muitas soluções que estão ao nosso alcance para as mitigar e nos adaptarmos.


O Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), no seu último relatório científico, destacou a urgência de agir por parte de todos os setores e áreas da sociedade. Pois bem, o planeta continua a aquecer a um ritmo acelerado e os efeitos são evidentes, o que serve de alerta para a ameaça real das alterações climáticas, que requerem uma ação global concertada e urgente.

Este aquecimento reflete-se num aumento das temperaturas médias globais. De acordo com o Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus (C3S), o verão de 2023 foi o mais quente a nível mundial alguma vez registado.

Segundo a ONU, está mais do que comprovado que a ação humana é a única responsável pelo aquecimento global dos últimos 200 anos, causando efeitos devastadores que aumentam a cada ano. Esta organização estima que aproximadamente entre 3,3 a 3,6 mil milhões de pessoas vivam em contextos que as tornam altamente vulneráveis aos impactos da crise climática em curso.

O impacto das alterações climáticas na economia e na sociedade tem origem numa série de atividades humanas que libertam na atmosfera gases com efeito de estufa, principalmente dióxido de carbono e metano, resultantes da queima de combustíveis fósseis.

Estas emissões de gases poluentes, que têm vindo a aumentar ao longo dos anos desde a era da industrialização, são o fator chave para o aumento da temperatura global e os seus consequentes efeitos que devastam alguns dos países mais vulneráveis às alterações climáticas. Compreender as principais causas deste fenómeno é essencial para enfrentá-lo de forma eficaz.

Desde eventos climáticos extremos à perda de biodiversidade e à escassez de recursos, as consequências são visíveis em diferentes partes do planeta. Agirmos de forma coletiva e comprometida é uma obrigação comum, para que possamos reverter a situação climática e construir um futuro mais sustentável para as gerações futuras.

Algumas consequências (quase) irreversíveis
Este período de desregulação climática conduzirá (e é já visível) a um aumento das temperaturas, a mudanças nos padrões de precipitação, ao aumento da variabilidade climática e a uma maior frequência e magnitude de eventos extremos, o que se repercutirá num aumento dos riscos e da vulnerabilidade dos nossos sistemas e ecossistemas globais.
"A era do aquecimento global terminou, a era da ebulição global chegou. Os líderes devem liderar. Não há mais hesitação. Não há mais desculpas. Chega de esperar que os outros ajam primeiro. Simplesmente não há mais tempo para isso. Ainda é possível limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC e evitar o pior das alterações climáticas. Mas apenas com uma acção climática dramática e imediata". - António Guterres, Secretário-Geral da ONU.

É cada vez mais provável que este ano se torne o primeiro em que seja ultrapassado 1,5 ºC de aquecimento em relação à média pré-industrial. É, por isso, imperativo que as emissões sejam reduzidas imediatamente e em grande escala, para limitar que este aumento se perdure no tempo e, assim, se evitem as piores consequências.

As consequências do aquecimento do planeta são praticamente irreversíveis. Assim, lembramos aqui apenas algumas delas, que mais recentemente se revelaram objeto de notícia.

A Antártida continua a perder gelo, 43% das plataformas de gelo marinho reduziram o seu volume nas últimas duas décadas como consequência do aquecimento global antropogénico. No total, 7,5 mil milhões de toneladas de água doce derretida foram despejadas nos oceanos, que terá, naturalmente, consequências no nível médio das águas dos mares e oceanos e na vivência de muitas populações humanas e animais.

Noutro espectro, no verão de 2023, a temperatura do Mediterrâneo voltou a atingir valores históricos, ultrapassando os 31,2 ºC. Quanto mais elevada for a temperatura da superfície do mar, maior será a evaporação e, portanto, maior será a energia que alimenta, por exemplo, os ciclones tropicais.

Os modelos climáticos preveem que furacões de maior intensidade e os fenómenos a estes associados, como as chuvas torrenciais, aumentarão no futuro. A Sociedade Meteorológica Americana observou recentemente no seu boletim a formação de um medicane (junção de "mediterrâneo" e "furacão", na terminologia inglesa), que descreveram como “o mais intenso já registado no Mediterrâneo”, que devastou em primeira instância a Grécia e em seguida a Líbia.

É por isso imperioso que se limite a queima de combustíveis fósseis, se estanque o desmatamento, que se optem por práticas agrícolas não intensivas, que se alterem os processos da indústria química, que se reinventem os modos e modelos de transporte e se remodele o setor energético, para que consigamos mitigar as consequências dos erros já cometidos e nos adaptemos a esta nova realidade de vivência na nossa casa comum, o planeta Terra.

Take action now: The Letter film

terça-feira, 22 de agosto de 2023

O estranho Estreito de Gibraltar


Situado entre o extremo sul da Espanha e o Marrocos, o Estreito de Gibraltar liga o mar Mediterrâneo ao oceano Atlântico.
O Estreito de Gibraltar tem 58 quilómetros de comprimento e estreita-se a 13 km de largura entre a "Punta de Tarifa" (Espanha) e a "Punta Cires" (Marrocos), o ponto mais próximo entre Europa e África.
O estreito é uma fossa importante, com uma média de 365 metros de profundidade no arco formado pela cordilheira do Atlas do Norte da África e o alto planalto da Espanha.
Na desembocadura leste do estreito também estão presentes um território ultramarino do Reino Unido (Gibraltar - 6,8 km² e 35 mil habitantes) e um enclave espanhol no território marroquino (Ceuta - 18,5 km² e 85 mil habitantes).

terça-feira, 25 de julho de 2023

Mais de 50ºC no Vale da Morte, 45,3ºC na Catalunha: ondas de calor serão "mais frequentes" no futuro (e este verão "pode ser considerado fresco" para o que aí vem)


Os cientistas indicam que as ondas de calor "já não são acontecimentos excecionais" e as que ocorrerem "serão ainda mais intensas e mais frequentes"

Um estudo, divulgado esta terça-feira, concluiu que, sem as alterações climáticas, as atuais vagas de calor na Europa e nos Estados Unidos teriam sido "praticamente impossíveis".

Mais de 50 graus no Vale da Morte, nos Estados Unidos, um recorde histórico de 45,3°C na Catalunha [Espanha], mais de 43°C em Phoenix [EUA] nos últimos 24 dias: sem as alterações climáticas, estas vagas de calor teriam sido "praticamente impossíveis" na Europa e nos Estados Unidos, indicou a rede científica World Weather Attribution (WWA).

A WWA, que avalia a relação entre os fenómenos meteorológicos extremos e as alterações climáticas, considerou igualmente que as alterações climáticas tornaram a vaga de calor na China "pelo menos 50 vezes mais provável".

Estas ondas de calor "já não são acontecimentos excecionais" e as que ocorrerem "serão ainda mais intensas e mais frequentes se as emissões [de gases com efeito de estufa] não forem reduzidas rapidamente", concluíram os investigadores.

Embora fenómenos naturais, como os anticiclones e o 'El Niño', possam contribuir para desencadear estas ondas de calor, a subida "das temperaturas globais devido à queima de combustíveis fósseis é a principal razão pela qual são tão graves", sublinhou a WWA.

Para chegar a estas conclusões, os autores do estudo - sete cientistas dos Países Baixos, do Reino Unido e dos Estados Unidos - utilizaram dados meteorológicos históricos e modelos climáticos para comparar o clima atual e o aquecimento global de 1,2 graus com o que era no passado.

Estes resultados foram publicados sem passar pelo longo processo de uma revisão por pares, mas combinam métodos já aprovados pelos pares.

Os cientistas prestaram especial atenção aos períodos em que o calor foi "mais perigoso", ou seja, de 12 a 18 de julho no sul da Europa, de 1 a 18 de julho no oeste dos Estados Unidos, Texas e norte do México, e de 5 a 18 de julho no centro e leste da China.

Os responsáveis salientaram que o aquecimento global está a agravar a intensidade das temperaturas: com o aquecimento global, as ondas de calor na Europa são 2,5°C mais quentes, as da América do Norte são 2°C mais quentes e as da China são 1°C mais quentes, indicou a WWA.

Este mês pode ser "o julho mais quente de que há registo"

De acordo com a NASA e o observatório europeu Copernicus, este mês "deverá tornar-se no julho mais quente de que há registo".

"No passado, estes acontecimentos teriam sido aberrantes. Mas, no clima atual, podem ocorrer aproximadamente de 15 em 15 anos na América do Norte, de 10 em 10 anos no sul da Europa e de cinco em cinco anos na China", explicou Mariam Zachariah, cientista do Imperial College de Londres, que contribuiu para o estudo, num briefing telefónico.

Estas ondas de calor "tornar-se-ão ainda mais frequentes e ocorrerão de dois em dois ou de cinco em cinco anos" se o aquecimento global atingir os 2ºC, "o que poderá acontecer dentro de cerca de 30 anos, a menos que todos os países signatários do Acordo de Paris implementem plenamente os atuais compromissos para reduzir rapidamente as emissões", acrescentou.

Este início de verão "pode tornar-se a norma (...) e até ser considerado fresco se não atingirmos a neutralidade carbónica", sublinhou a climatologista britânica Friederike Otto.

Na opinião de Otto, "os resultados deste estudo de atribuição não são uma surpresa. (...) De um ponto de vista científico, é até irritante, porque apenas confirma o que previmos. Mas o que não prevíamos era o quão vulneráveis somos aos efeitos do aquecimento global. Porque ele mata pessoas", insistiu.

No entanto, "estas ondas de calor não são a prova de um 'aquecimento global descontrolado' ou de um 'colapso climático'. Ainda temos tempo" para inverter a situação, disse a cientista.

"Precisamos urgentemente de parar de queimar combustíveis fósseis e trabalhar para reduzir as nossas vulnerabilidades. Se não o fizermos, dezenas de milhares de pessoas continuarão a morrer", afirmou Otto, que considera "absolutamente essencial" que a legislação internacional sobre a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis seja adotada na 28.ª Conferência da ONU sobre o Clima (COP), no Dubai, em novembro.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Proteja as andorinhas

Andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica). Foto por Francisco Bernardo. Cabedelo. Gaia 

Elas pesam cerca de 20 gramas, mas voaram mais de 5.000 kms e atravessaram o deserto do Sahara para cá chegar.
Elas sobrevoaram o mar Mediterrâneo sem nunca conseguir descansar. Lutaram contra ventos e tempestades.
Consomem centenas de mosquitos e moscas por dia!
Se tivermos a sorte de abrigar um ninho desta espécie no nosso ambiente familiar, um casal sozinho pode eliminar cerca de 1.700 moscas e mosquitos por dia.
Não existe insecticida mais eficaz e ecológico.
Vamos fazer com que se sintam bem-vindas.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

"Olho de Sauron": uma torre ofuscante no deserto de Israel


Inaugurada em 2019, a torre solar de Ashalim é uma das estruturas mais altas de Israel e no meio do deserto produz energia para milhares de habitantes. Conhecida como “Olho de Sauron”, essa enorme construção leva o apelido inspirado em “Senhor dos Anéis”, também por conta de seu tamanho, mas principalmente de seu brilho intenso.

É o equivalente a um prédio de 50 andares (a torre é muito mais alta do que alguns dos maiores arranha-céus do mundo) e tem o objetivo de ajudar o país a produzir 10% da sua energia através de fontes renováveis até ao próximo ano.[dados de 2019] 

Este país do Médio Oriente contava ainda há bem pouco tempo com uma produção de 2.5% de energias renováveis, um patamar bastante baixo comparativamente ao que a torre de Ashalim, de 240 metros é capaz.

Trata-se de um projeto de energia solar térmica concentrada (Concentrating Solar Power – CSP).

Tem 50.600 espelhos controlados por computador (helióstatos), com até 20 metros quadrados cada, que ocupam uma área de 3 quilómetros quadrados.

Ao longo do dia e através da movimentação do sol, os espelhos têm a capacidade de refletir a luz sobre uma caldeira localizada no alto da torre de Ashalim, não gerando, portanto, eletricidade de forma direta como acontece com as células solares fotovoltaicas.

O calor da luz do sol direcionado para a caldeira no alto da torre permite a produção de vapor super-aquecido através da água quente que se encontra nessa caldeira (a mais de 500ºC). A radiação solar infravermelha que os espelhos conseguem captar é refletida na caldeira, originando um processo térmico de vapor capaz de mover enormes turbinas.

A energia solar produzida por esta torre, cuja construção se iniciou no ano 2013 e culminou em 2017, é capaz de iluminar 125 mil casas. O contrato foi desenhado para  25 anos.

Este projeto auspicioso e um dos maiores projetos de energia solar a nível mundial permite ao país evitar 110 000 toneladas de emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, por ano.

A torre de Ashalim consegue armazenar energia para ser usada durante a noite e, desta forma, proporciona eletricidade de forma contínua.

A escolha do deserto de Negev para a construção desta torre não terá sido um mero acaso já que neste local há mais de 300 dias de sol por ano. Na verdade, há sol quase o ano inteiro.


Envolta em polémicas e críticas

Segundo o The New York Times, esta torre solar térmica, de 240 metros, era a mais alta do mundo, mas já perdeu essa posição no ranking global. Em Dubai, está o Noor Energy 1, com 260 metros de altura.

Entretanto esta central solar térmica já não é a maior do mundo. No deserto americano de Mojave, está instalada o Ivanpah Solar Power Facility, um impressionante complexo com três torres do tipo.

A torre solar é tão brilhante que olhar diretamente para ela pode ser perigoso para a visão. As aves que passam nas proximidades são queimadas e caem mortas.

Mas a principal polémica está relacionada com o elevado custo- é cara. A Megalim custou US$ 800 milhões e, em troca, o governo prometeu comprar a eletricidade da torre a uma taxa de cerca de 23 centavos de dólar por quilowatt-hora. Isso faz com que a energia produzida no local, apesar de verde, seja mais cara do que outras fontes solares. Especialistas dizem que melhorias tecnológicas podem corrigir essa desvantagem.[tecnologia MOST]

No geral podemos afirmar que Israel  caminha a passos largos para um futuro sustentável e esta torre a par dos gigantescos depósitos de gás natural ao longo da sua costa mediterrânea são um exemplo disso.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Incêndios na floresta portuguesa: quanto pior, melhor?


Aos primeiros bafos de calor extraordinário, fenómeno raro mas que é parte integrante do nosso clima, Portugal arde.

À medida que o mundo rural da agricultura familiar se tornou o bastardo rejeitado por interesses económicos e políticos e o eucalipto se expandiu, os fogos tornaram-se, para alguns, uma lucrativa “indústria” de milhões.

Para os predadores da floresta os incêndios não são uma catástrofe. Os incêndios florestais em Portugal estão longe de ser o desastre nacional que as televisões nos vendem, onde pontificam grandes inquisidores que apresentam imediatamente culpados para queimar na praça pública: os proprietários que não limpam as suas matas, a vaga de calor ou o aquecimento global, conforme dê mais audiências.

Os incêndios crepitam na floresta portuguesa ao longo de todo o ano e tornaram-se um espectro que mina o poder negocial do proprietário. Há poucas décadas era vulgar os proprietários florestais dizerem: “Este ano não corto, vou esperar que a madeira suba um pouco”. Nos últimos anos ouve-se: “Vou vender antes que haja um fogo.” O preço da madeira no mercado passou a ser aceite com humildade, contribuindo para aumentar os lucros das grandes indústrias de transformação, sobretudo no caso do eucalipto que tem apenas um único comprador, as empresas de celulose.

O eucalipto rebenta, como facilmente se observa, e três ou quatros anos depois está recuperado e pronto para nova faina, seja a de ir para a indústria da celulose, seja para arder novamente. O pinheiro ardido não recupera, mas também é consumido por várias indústrias de madeira triturada, pois a indústria de madeira maciça de pinho há muito se finou.

O combate e a prevenção dos incêndios são “indústrias” florescentes onde a corrupção é frequente, como várias denúncias têm mostrado (e apenas mostram a ponta do icebergue de corrupção que gira à volta dos fogos.

Com os incêndios perdem os que morrem ou ficam feridos no inferno das chamas, bombeiros ou simples cidadãos. Perdem os pequenos proprietários florestais que não têm capacidade negocial para vender a madeira ardida (cada vez são mais os que nem sabem localizar o seu pedaço de terra); perdem os agricultores, vítimas colaterais que veem pomares, gados e olivais serem consumidos por chamas vindas de eucaliptais ou pinhais nas proximidades; perdem aqueles a quem a casa ardeu e que nunca receberam nada dos prometidos fundos para a reconstrução da habitação.

Clichés, Dogmas e Mitos Sobre os Incêndios Florestais Em Portugal
“Os eucaliptais das celuloses não ardem.” 
São várias as vozes que repetem esta frase enganadora com o intuito de que se torne um dogma. Mas nenhum destes pregadores demonstrou, seja por títulos de propriedade, por responsabilidade na gestão, ou sequer mostrando alguns exemplos concretos, o que é um eucaliptal das celuloses. Não se conhecem dados oficiais sobre a área de eucaliptal que é diretamente propriedade das celuloses. Mas há indicadores empíricos muito fortes: os intermediários que compram a madeira sabem que a maioria dos eucaliptais são de pequenos proprietários, que os alugam, ou vendem o eucalipto, às celuloses. Assim, estas alijam a responsabilidade pela sua manutenção, que recai sobre os pequenos proprietários - uma espécie de “uberização” do negócio.

“Há fogos grandes sem eucalipto” 
Exasperados com a evidência de os fogos em Portugal terem sido agigantados pela expansão do eucalipto, sempre que há um incêndio em que outras espécies tiveram o papel principal (e.g. Palmela 2022) surgem vozes que rejubilam, como se tivessem alcançado a prova irrefutável de que há fogos sem eucalipto.

Todas a florestas podem arder: até na Escandinávia de verões frescos e chuvosos, de onde tantos turistas se escapam para gozar uns dias de sol no Mediterrâneo, há fogos florestais. Mas são escassos e raramente catastróficos. Querer negar que o problema em Portugal vem da expansão descontrolada das espécies pirófilas que causam fogos colossais com capacidade de contagiar outros cobertos do solo, sejam florestais, agrícolas ou urbanos, é no mínimo desonestidade intelectual e técnica.

“Os matos são culpados” 
No Mediterrâneo, os incêndios nos matos são um fenómeno de sempre. Usar os matos como culpados dos grandes incêndios é mais um embuste para manipular as populações urbanas. Os matos ardem com velocidade e altura de labaredas muito inferior ao das espécies pirófilas, não criam os intensos ventos de convenção dos fogos dessas espécies e não projetam fagulhas a centenas de metros. Os incêndios em matos só se tornam fogos incontroláveis quando chegam a manchas florestais de espécies pirófilas, como o eucalipto e o pinheiro. Mas para aumentar a área de eucalipto toda a retórica serve: “Proprietários florestais e indústrias da celulose pedem o aumento da área de eucalipto e de outras espécies de árvores de crescimento rápido em zonas de mato abandonadas para reduzir o risco de incêndio e desenvolver o setor”, RTP N, 16 de julho de 2022.

"O abandono como causa"
É frequente ouvir dizer, a quem nada sabe sobre o complexo problema do minifúndio em propriedade indivisa e das causas do abandono florestal, que é um fator essencial nos fogos e como tal há que expropriar essas terras. Não o dizem para contribuir para a mitigação dos incêndios, mas apenas como pretexto para o ataque à pequena propriedade. O abandono contribui um pouco para os fogos, mas nunca pode ser assumido como uma causa principal. Os eucaliptais que tanto ardem são tudo menos terras abandonadas.

O problema do minifúndio em propriedade indivisa tem décadas e Portugal nunca teve um governo com coragem de iniciar a reforma desse tipo de propriedade tão danoso para a economia rural do país e que encoraja ao abandono. É um processo longo que não se executa por simples decreto e implica o envolvimento de várias competências técnicas, desde agrárias a jurídicas.

Mas então o que fazer?
Um país com a dimensão florestal em área e importância económica como Portugal deveria ter a sua floresta gerida de forma centralizada, com elevada responsabilidade e nível técnico capazes de conceber um ordenamento florestal com vista aos fogos e a produções em quantidade e qualidade.

As defuntas circunscrições e administrações florestais dos serviços florestais tinham intenções de ordenamento florestal do território e tinham técnicos oriundos de um curso de silvicultura onde foram professores grandes nomes da ciência florestal portuguesa. Essas estruturas foram substituídas por uma miríade de associações florestais a que estão atribuídas funções administrativas e de fiscalização, outrora desempenhadas pelos guardas-florestais, por exemplo sobre as limpezas dos terrenos e dos processos de autorização para alteração de espécies nas rearborizações.

O ordenamento florestal do território é uma obra que requer elevada exigência técnica e vontade política. A estrutura florestal que hoje em dia (des)governa o país dá-nos a certeza de que Portugal vai ser sempre assolado por enormes incêndios, logo que haja uns bafos de calor. Só a incompetência pode conceber que as associações florestais pudessem substituir a antiga estrutura dos serviços florestais.

Carolina Varela - Eng. Silvicultora