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sábado, 4 de julho de 2026

Massive Attack - Ritual Spirit feat. Azekel

Melhor som aqui

Letra
[verso 1]
Who'll mend this broke beat star
Who’s strength do I speak of
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[verso 2]
Who's words that I spoke now storm
I keep it turning
It's Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deeper

[refrão]
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[verso 1] 2X
Who'll mend this broke beat star
Who’s strength do I sleep on
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

[refrão]

Significado da canção
A canção "Ritual Spirit" funciona quase como um mantra hipnótico sobre a vulnerabilidade, o esgotamento existencial e a busca por regeneração através do autoconhecimento. A sua letra foca-se na dor e no transe da transformação interior, algo que se torna evidente através de versos repetitivos como "climbing deeper" e "kinda deep burning". No cerne desta narrativa, a expressão "Who'll mend this broke beat star" sugere a imagem poética de alguém que está quebrado, desgastado pelo peso do mundo ou pelas exigências da fama, mas que, ainda assim, procura uma força interior — ou uma conexão quase espiritual com o outro — para se reconstruir. Esta densidade psicológica encontra o seu reflexo perfeito no icónico videoclipe da faixa, onde a supermodelo Kate Moss dança na escuridão total, iluminada apenas por uma lâmpada nua que ela própria manipula. O vídeo serve como uma metáfora visual exata para o processo evocado pela música: a iluminação dos cantos mais sombrios e esquecidos da nossa própria mente.
Esta atmosfera distópica e existencialista não nasce ao acaso; ela é profundamente alimentada pelas inspirações literárias e filosóficas que moldam os Massive Attack. Embora Robert "3D" Del Naja, o cérebro por trás desta era do coletivo, raramente aponte um único poema ou livro para justificar uma linha específica, a banda é historicamente guiada por um panteão muito claro de pensadores, poetas e romancistas. O tom meditativo e doloroso de "Ritual Spirit" ecoa, desde logo, a filosofia de Friedrich Nietzsche. A ideia de mergulhar no próprio abismo e o conceito de passar por uma destruição inevitável para alcançar a transformação pessoal e a superação ligam-se diretamente às noções nietzscheanas de superação do niilismo. Paralelamente, as dualidades entre o sagrado e o profano, a luz e a escuridão, e o misticismo puramente urbano presentes na escrita da banda bebem muito da poesia visionária e espiritual de William Blake.
O isolamento e a alienação que a faixa transmite encontram também raízes nos romances de ficção científica de J.G. Ballard e Philip K. Dick. Embora estes autores sejam mais frequentemente associados aos temas explicitamente políticos da discografia do grupo, a paranoia urbana e a solidão tecnológica que eles descreveram servem aqui de cenário para a imagem da tal "estrela partida" que tenta sobreviver à modernidade. Por fim, o minimalismo cirúrgico da letra e a sua profunda sensação de fragmentação espiritual remetem para a estrutura modernista de T.S. Eliot. Em particular, a obra The Waste Land surge como um paralelo perfeito para esta canção, celebrando a ideia de que a reconstrução do "eu" contemporâneo só se consegue fazer juntando, pacientemente, os pedaços que ficaram partidos pelo caminho.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Pearl Jam - Jeremy


Vídeo original aqui

At home
Drawing pictures
Of mountain tops
With him on top
Lemon yellow sun
Arms raised in a V
The dead lay in pools of maroon below

Daddy didn't give attention
To the fact that mommy didn't care
King Jeremy the wicked
Ruled his world

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

Clearly I remember
Pickin' on the boy
Seemed a harmless little fuck
Oh, but we unleashed a lion
Gnashed his teeth
And bit the recess lady's breast
How could I forget
He hit me with a surprise left
My jaw left hurtin
Oh, dropped wide open
Just like the day
Like the day I heard

Daddy didn't give affection
And the boy was something mommy wouldn't wear
King Jeremy the wicked
Ruled his world

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

Try to forget this... (try to forget this)
Try to erase this... (try to erase this)
From the blackboard

Jeremy spoke in class today
Jeremy spoke in class today

A Vida Fascinante e a Morte Trágica de Trevor Wilson, a Estrela do Vídeo "Jeremy" dos Pearl Jam

O videoclipe de "Jeremy" dos Pearl Jam esteve em alta rotação na MTV em 1992, tornando-se um marco visual para a "geração grunge". Para o jovem ator Trevor Wilson, que interpretou o perturbado Jeremy com apenas 12 anos, o vídeo trouxe uma fama avassaladora, mas curta. O artigo da Billboard, publicado na altura do 25.º aniversário do lançamento do teledisco, revelou que Wilson teve uma vida fascinante longe dos holofotes e que faleceu tragicamente em agosto de 2016, aos 36 anos.

A escolha para o papel
O realizador do vídeo, Mark Pellington, explicou à Billboard que procurava alguém que não parecesse o típico "totó" ou o cliché do rapaz rejeitado da escola secundária. Quando viu a cassete de audição de Trevor Wilson, soube imediatamente que tinha encontrado o ator certo.

"Ele estava doente no dia em que gravou a audição", recordou Pellington. "Ele não tentou agir de forma forçada ou dizer 'Ah, vejam como estou angustiado'. Estava apenas ali sentado, com um olhar entorpecido, meio apático e confuso. Só mais tarde soube que ele estava febril, mas tinha uma enorme expressividade sem ser histriónico."

No estúdio, Pellington disse a Trevor para olhar fixamente para a câmara e não dizer nada, acontecesse o que acontecesse à sua volta. O diretor de fotografia, Tom Richmond, elogiou o profissionalismo do rapaz, referindo que ele estava "100% focado, mas ao mesmo tempo relaxado e amigável".

A fama e a rejeição de Hollywood
O sucesso do vídeo foi imediato e Trevor Wilson tornou-se uma das caras mais conhecidas da MTV. Em 1993, os Pearl Jam ganharam o prémio de "Vídeo do Ano" nos MTV Video Music Awards e levaram Trevor com eles ao palco. O vocalista Eddie Vedder apresentou-o ao público dizendo: "Este é o Trevor. Ele está vivo."

Apesar do sucesso e de uma ligação forte com a banda — a mãe de Trevor revelou que o grupo lhe prometeu bilhetes vitalícios para qualquer concerto que dessem em Nova Iorque —, o jovem não ganhou gosto pela fama. Ele começou a achar a atenção desconfortável e rejeitou as cartas de fãs e o mediatismo. Decidiu abandonar a representação muito cedo para viver a vida nos seus próprios termos.

Uma vida dedicada ao Mundo
Depois de se afastar de Hollywood, Wilson focou-se nos estudos, desenvolveu uma paixão pela literatura clássica e pela política internacional. Teve uma vida repleta de viagens e de causas humanitárias:
  1. Fez um estágio no Egito através da Organização das Nações Unidas (ONU).
  2. Passou por vários projetos de desenvolvimento internacional e, pouco antes de morrer, estava a preparar-se para assumir um posto oficial na ONU em Myanmar (Birmânia).
O trágico acidente
Em julho/agosto de 2016, enquanto passava férias em Porto Rico antes de iniciar o seu novo trabalho na Ásia, Trevor Wilson foi nadar sozinho na praia de Ocean Park, em San Juan. Infelizmente, foi apanhado por uma corrente forte e acabou por se afogar. Um banhista ainda tentou salvá-lo e os paramédicos tentaram reanimá-lo no local, mas sem sucesso.

A mãe de Trevor, Diane, partilhou uma reflexão emotiva no artigo: "Tenho de pensar que era a hora dele, independentemente de tudo. Partir daquela forma foi muito pacífico, ele estava a fazer o que adorava e estava muito feliz, o que para mim é o mais importante."

A história real por trás da canção é profundamente trágica. Jeremy Wade Dell foi o rapaz real que inspirou Eddie Vedder a escrever a música "Jeremy".

Fonte: Texas History


Se a história de Trevor Wilson, o ator do videoclipe, é fascinante, a história real por trás da canção é profundamente trágica e tornou-se um dos casos mais marcantes e discutidos dos anos 90 nos Estados Unidos sobre saúde mental juvenil e isolamento social. O rapaz real que inspirou Eddie Vedder a escrever a música chamava-se Jeremy Wade Dell e tinha apenas 15 anos quando o incidente aconteceu, na manhã de terça-feira, 8 de janeiro de 1991, na Richardson High School, no Texas. Jeremy chegou atrasado à sua aula de Inglês e a professora, Fay Barnett, indicou-lhe que ele precisava de ir à secretaria obter uma autorização de atraso para poder entrar na sala. O jovem saiu do espaço, mas em vez de se dirigir à secretaria, foi até ao seu cacifo, onde tinha guardado um revólver Magnum de calibre .357 que tinha trazido de casa. Ao regressar à sala de aula, caminhou firmemente até à frente da turma, olhou para a professora e disse que já tinha o que realmente procurava. Antes que alguém conseguisse reagir, Jeremy colocou a arma na boca e disparou, morrendo instantaneamente à frente da docente e dos seus 30 colegas de turma.

Ao contrário do que o videoclipe dos Pearl Jam sugere, onde o ambiente escolar e familiar é dramatizado para fins artísticos, a realidade de Jeremy era muito mais complexa. Os seus pais eram divorciados e ele vivia com o pai, Joseph Dell. Embora a letra da música mencione que o pai não lhe dava atenção e a mãe não se importava, a família e os amigos mais próximos contestaram firmemente esta imagem mais tarde, afirmando que o pai tentava apoiar o filho e que o jovem sofria de problemas psicológicos profundos que iam além da dinâmica familiar. Jeremy tinha sido transferido recentemente de outra escola secundária e era descrito por alguns colegas como um rapaz tímido, calado, triste e com grandes dificuldades em integrar-se no novo ambiente escolar. Ele faltava muito às aulas, frequentava sessões de aconselhamento psicológico na escola e, pouco antes do incidente, chegou a escrever uma nota de suicídio que entregou a um colega, mas o aviso infelizmente não foi levado a sério a tempo.

Eddie Vedder, o vocalista dos Pearl Jam, não conhecia Jeremy Dell. Na altura, Vedder vivia em Seattle e leu a notícia do suicídio num pequeno artigo de jornal. O que mais chocou o músico não foi apenas o ato em si, mas o facto de um rapaz de 15 anos ter tirado a própria vida à frente dos colegas para fazer um comunicado final, sentindo que essa era a única forma de ser finalmente notado ou ouvido pelo mundo. Vedder explicou mais tarde em entrevistas que sentiu uma enorme responsabilidade ao escrever sobre o assunto, mas percebeu que se não o fizesse, a história de Jeremy seria reduzida a apenas três parágrafos esquecidos num jornal, quando na verdade o jovem merecia mais e as pessoas precisavam de refletir sobre o que leva um rapaz a chegar a esse ponto.

O sucesso estrondoso da música e do videoclipe acabou por se tornar um pesadelo prolongado para a família de Jeremy Dell e para os sobreviventes daquela sala de aula. Durante mais de 25 anos, a família de Jeremy manteve um silêncio absoluto, recusando dar entrevistas para não reviver o trauma e por sentir que a imagem do jovem tinha sido mercantilizada pela MTV e pela indústria musical. Apenas em 2018 é que a mãe de Jeremy, Wanda Crane, e uma das suas melhores amigas de escola, Brittany King, que estava na sala no momento do disparo, aceitaram falar publicamente pela primeira vez num canal de televisão local do Texas. Wanda Crane expressou a sua mágoa pelo facto de o mundo lembrar o seu filho apenas pelo momento da sua morte trágica, preferindo focar-se na memória de Jeremy como um rapaz talentoso, que adorava desenhar, pintar e que tinha um amor enorme por animais. Por sua vez, Brittany King partilhou que a música dos Pearl Jam lhe causava uma imensa ansiedade sempre que passava na rádio, pois sentia que a canção transformou um trauma real e doloroso numa peça de entretenimento pop, ignorando o impacto brutal que o suicídio teve na saúde mental de todos os jovens que testemunharam a cena.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Música do BioTerra: Always Centered at Night feat. Moby & Gaidaa - Transit


It's too hard to pick up all the way
That I have found where your precious love don't come back for more
Will you?
How to move on cause
What is it for?
Let's cruise it all away

Why do you want more than
Shadow man
Shadow man
Where do you run from then?
Shadow man
And the way it made me feel untrue
Hold it back don't be like you
Then you're on the way
You don't pass
The timings on the left
But it calls

Where I would roam
Where I went home
And the way that I made it make of feel
I'm better off
Better off
Wondering how better off again
I'm better off
Wondering how better off again
I'm better off
I'm better off
I'm better off

Who am I?
I'm thinner
Finished upon
Everything that's wrong with me
How does my head spin
Something is destined
I'm through scared of what these words will form
You grew
Sing your tune

Where I would roam
Where I went home
And the way that I made it make of feel
I'm better off
Better off
Wondering how better off again
I'm better off
Wondering how better off again
I'm better off

Better off
Don't better things
What you want
Can't hurt to sing
How to be, don't ask
Where you is
Don't gotta know
What it do
Don't gotta show
Will it last
What I am
Don't gotta be
Find amends
Don't got to see
Will it lie?

Where I would roam
Where I went home
And the way that I made it make of feel
I'm better off
Better off
Wondering how better off again
I'm better off  [6X]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

Encontros Improváveis: Sarah Blasko e Eça de Queirós


A Inevitabilidade das Revoluções

As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regímens, com as tiranias, são maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolução de 93, é uma coisa horrível; mas as mulheres, as crianças, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finanças perdidas, e da fome e da morte da agricultura, é pior ainda. As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias.
Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

Sobre a Canção
A canção "All I Want" é uma exploração profunda e honesta sobre a necessidade de isolamento para alcançar o autoconhecimento. Lançada em 2009, no aclamado álbum As Day Follows Night a música marca um momento de transição na vida de Sarah Blasko, funcionando como um manifesto de integridade pessoal. Em vez de focar no romance ou na busca por uma ligação externa, a letra centra-se na relação da artista consigo própria, partindo da premissa de que não se pode amar ninguém verdadeiramente sem antes compreender a própria identidade.

Ao longo da composição, a narradora é direta e vulnerável, admitindo que não procura um novo amor e pedindo espaço para que o seu "feitiço" — um estado de introspecção quase sagrado — não seja quebrado. Existe uma tentativa clara de honestidade para evitar magoar o outro, reconhecendo que a confusão interna faz parte do processo de cura. No fundo, a música defende que a solitude não é solidão, mas sim uma etapa essencial para quem deseja, um dia, chegar a conhecer-se plenamente.