sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

I’m a climate scientist. Don’t Look Up captures the madness I see every day

A film about a comet hurtling towards Earth and no one is doing anything about it? Sounds exactly like the climate crisis.

The movie Don’t Look Up is satire. But speaking as a climate scientist doing everything I can to wake people up and avoid planetary destruction, it’s also the most accurate film about society’s terrifying non-response to climate breakdown I’ve seen.

The film, from director Adam McKay and writer David Sirota, tells the story of astronomy grad student Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) and her PhD adviser, Dr Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), who discover a comet – a “planet killer” – that will impact the Earth in just over six months. The certainty of impact is 99.7%, as certain as just about anything in science.

The scientists are essentially alone with this knowledge, ignored and gaslighted by society. The panic and desperation they feel mirror the panic and desperation that many climate scientists feel. In one scene, Mindy hyperventilates in a bathroom; in another, Diabasky, on national TV, screams “Are we not being clear? We’re all 100% for sure gonna fucking die!” I can relate. This is what it feels like to be a climate scientist today.

The two astronomers are given a 20-minute audience with the president (Meryl Streep), who is glad to hear that impact isn’t technically 100% certain. Weighing election strategy above the fate of the planet, she decides to “sit tight and assess”. Desperate, the scientists then go on a national morning show, but the TV hosts make light of their warning (which is also overshadowed by a celebrity breakup story).

By now, the imminent collision with comet Diabasky is confirmed by scientists around the world. After political winds shift, the president initiates a mission to divert the comet, but changes her mind at the last moment when urged to do so by a billionaire donor (Mark Rylance) with his own plan to guide it to a safe landing, using unproven technology, in order to claim its precious metals. A sports magazine’s cover asks, “The end is near. Will there be a Super Bowl?”

But this isn’t a film about how humanity would respond to a planet-killing comet; it’s a film about how humanity is responding to planet-killing climate breakdown. We live in a society in which, despite extraordinarily clear, present, and worsening climate danger, more than half of Republican members of Congress still say climate change is a hoax and many more wish to block action, and in which the official Democratic party platform still enshrines massive subsidies to the fossil fuel industry; in which the current president ran on a promise that “nothing will fundamentally change”, and the speaker of the House dismissed even a modest climate plan as “the green dream or whatever”; in which the largest delegation to Cop26 was the fossil fuel industry, and the White House sold drilling rights to a huge tract of the Gulf of Mexico after the summit; in which world leaders say that climate is an “existential threat to humanity” while simultaneously expanding fossil fuel production; in which major newspapers still run fossil fuel ads, and climate news is routinely overshadowed by sports; in which entrepreneurs push incredibly risky tech solutions and billionaires sell the absurdist fantasy that humanity can just move to Mars.
World leaders underestimate how rapid, serious and permanent ecological breakdown will be if humanity fails to mobilize

After 15 years of working to raise climate urgency, I’ve concluded that the public in general, and world leaders in particular, underestimate how rapid, serious and permanent climate and ecological breakdown will be if humanity fails to mobilize. There may only be five years left before humanity expends the remaining “carbon budget” to stay under 1.5C of global heating at today’s emissions rates – a level of heating I am not confident will be compatible with civilization as we know it. And there may only be five years before the Amazon rainforest and a large Antarctic ice sheet pass irreversible tipping points.

The Earth system is breaking down now with breathtaking speed. And climate scientists have faced an even more insurmountable public communication task than the astronomers in Don’t Look Up, since climate destruction unfolds over decades – lightning fast as far as the planet is concerned, but glacially slow as far as the news cycle is concerned – and isn’t as immediate and visible as a comet in the sky.

Given all this, dismissing Don’t Look Up as too obvious might say more about the critic than the film. It’s funny and terrifying because it conveys a certain cold truth that climate scientists and others who understand the full depth of the climate emergency are living every day. I hope that this movie, which comically depicts how hard it is to break through prevailing norms, actually helps break through those norms in real life.
We need stories that highlight the many absurdities that arise from knowing what’s coming while failing to act.

I also hope Hollywood is learning how to tell climate stories that matter. Instead of stories that create comforting distance from the grave danger we are in via unrealistic techno fixes for unrealistic disaster scenarios, humanity needs stories that highlight the many absurdities that arise from collectively knowing what’s coming while collectively failing to act.

We also need stories that show humanity responding rationally to the crisis. A lack of technology isn’t what’s blocking action. Instead, humanity needs to confront the fossil fuel industry head on, accept that we need to consume less energy, and switch into full-on emergency mode. The sense of solidarity and relief we’d feel once this happens – if it happens – would be gamechanging for our species. More and better facts will not catalyze this sociocultural tipping point, but more and better stories might.


Peter Kalmus is a climate scientist and author of Being the Change: Live Well and Spark a Climate Revolution

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Don´t Look Up ou a moderna alegoria da caverna



"Don’t Look Up“, recentemente disponível na Netflix, realizado por Adam McKay, é uma sátira à forma como a sociedade contemporânea lida com os factos e o conhecimento científico, amalgamando-os com o universo das selfies, dos likes, dos “alternative facts” e das audiências.

Face à possibilidade de uma extinção em massa no planeta, obviamente com humanos incluídos, este filme joga com a dificuldade em passar factos científicos para o público em geral, intoxicado por teorias da conspiração, interesses políticos, redes sociais, manipulação e ignorância pura e dura. A crítica à herança pós-trumpiana é uma constante.

Um excelente registo cinematográfico que lembra uma forma moderna da Alegoria da Caverna de Platão, e que permite abordar questões preementes no âmbito filosófico:
  • Até que ponto somos capazes de distinguir proposições científicas de pseudocientíficas?
  • Qual o papel das redes sociais na elaboração/deturpação da Verdade?
  • Por que razão os factos deixaram de ser suficientes para persuadir?
  • Será o conhecimento científico independente do poder político? Se não é, deveria ser?
  • Será positiva a transparência na divulgação das descobertas científicas ao público? Ou esta informação deveria ser filtrada?
  • Terão os investigadores obrigação ética de divulgar as suas descobertas ao público? Ou a sua divulgação é devida aos financiadores (públicos ou privados)?

Conheça as regras para os apoios à descarbonização da indústria

Ficha limpa no que toca à devolução de apoios no âmbito de uma operação apoiada por fundos europeus, situação financeira equilibrada e não ter atividades incompatíveis com os objetivos ambientais da União Europeia, são apenas três das exigências que terão de ser cumpridas pelos candidatos a estes apoios.

As regras que vão guiar a distribuição dos incentivos de 715 milhões de euros que foram reservados do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para a Descarbonização da Indústria já foram publicadas em Diário da República.

O incentivo pode chegar a qualquer parte do território nacional e a empresas de qualquer dimensão e forma jurídica, desde que se movam na área da indústria. Entidades gestoras de zonas industriais estão incluídas. A condição base é que os investimentos para os quais pedem os apoios possam promover a redução de emissões de gases de efeito de estufa.

Mas há mais critérios que são exigidos para que uma empresa possa ser considerada. É necessário assegurar, até à aprovação da candidatura, que a empresa possui meios - técnicos, físicos, financeiros e de recursos humanos - que permitam avançar com o proposto. Isto implica que não seja uma “empresa em dificuldades”, isto é, que não esteja num processo de insolvência, que mais de metade do capital social não tenha sido consumido por dívidas acumuladas. No caso das não PME, são impostos rácios no que toca à dívida contabilística/fundos próprios e na cobertura dos juros com base no EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações).

Também não são consideradas candidatas as empresas cujos donos maioritários, ou respetivos cônjuges e familiares de primeiro grau, não tenham cumprido a notificação para devolução de apoios no âmbito de uma operação apoiada por fundos europeus. Por fim, não serão aceites candidaturas cujas proponentes possuam atividades que causem danos significativos a qualquer objetivo ambiental.

As despesas são elegíveis desde que devidamente comprovadas e relacionadas apenas com a concretização do projeto, não com operações correntes ou consultoria. Deixam-se de fora, por exemplo, os investimentos relativos à produção de gases renováveis.

São admissíveis projetos que introduzam novos processos, produtos e modelos de negócios que visem a descarbonização, nos quais se inclui, contudo, a incorporação de novas matérias-primas, de combustíveis derivados de resíduos, como biomassa e biogás. Aqui insere-se também a eletrificação dos consumos finais de energia. Apoiam-se também medidas de eficiência energética, que reduzam o consumo de energia e as emissões de gases com efeito de estufa, em paralelo com a adoção de sistemas de monitorização e gestão de consumos.

Em terceiro e último lugar, têm espaço projetos de incorporação de energia de fonte renovável e armazenamento de energia, como é o caso do hidrogénio e de outros gases renováveis.
Seleção dos projetos

Os critérios pelos quais estas empresas vão ser avaliadas e ordenadas por mérito, são quatro: as emissões em causa, a maturidade técnica, a maturidade financeira do projeto e a redução dos consumos.

A análise e seleção das candidaturas é assegurada pelo IAPMEI com o apoio do Comité Coordenador, que inclui representantes da Autoridade de Gestão do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização, da Agência Nacional de Inovação (ANI), da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
Após a vitória, mais responsabilidades

Assim que uma empresa conseguir ter a aprovação do apoio ao seu projeto, tem de iniciar os investimentos no prazo máximo de seis meses após a notificação da decisão, salvo motivos não imputáveis ao beneficiário e aceites pelo IAPMEI. Os investimentos ou as infraestruturas financiadas devem ser mantidos e afetos à respetiva atividade pelo menos durante cinco anos, ou três anos quando estejam em causa investimentos de PME. Não pode ser cessada ou realocada a atividade nestes prazos, nem mudar os donos de forma a dar a uma entidade pública ou privada “uma vantagem indevida”. Também fica proibida a mudança de atividade caso isto comprometa os objetivos e metas contratualizados inicialmente.

O incumprimento destas obrigações, bem como a inexistência ou a perda de quaisquer dos requisitos de concessão do incentivo, podem determinar a redução do incentivo ou mesmo a revogação da decisão.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Recuperar as populações de baleias ajuda a combater as alterações climáticas



As baleias podem ser grandes aliadas no combate às alterações climáticas e no aumento da produtividade dos oceanos, sugere um novo estudo, publicado na revista científica Nature.

Os cientistas descobriram que as baleias de barbatana, ou seja de espécies como a baleia-comum, a baleia-azul e a baleia-jubarte, comem três vezes mais por ano, do que se pensava. Esta alimentação varia consoante o ecossistema. mas as baleias destas espécies que vivem nas águas da Califórnia comem, cada uma, mais de 2 milhões de toneladas de alimentos anualmente.

Mas a caça baleeira no século XX levou a uma perda em massa das populações de baleias em todo o mundo. À época, estima-se que as populações de baleias do Oceano Antártico consumiam, anualmente, 430 milhões de toneladas de krill antártico, o dobro da quantidade que se estima que existe hoje.

Ao se alimentarem, as baleias acabam por defecar e os seus excrementos são uma fonte essencial de nutrientes para o oceano. Ao serem libertados, estes nutrientes ficam à superfície na coluna da água, onde alimentam o fitoplâncton que, por sua vez, são a base da cadeia alimentar aquática e absorvem carbono.

“Sem as baleias, estes nutrientes afundam mais rapidamente no fundo do mar, o que pode limitar a produtividade em certas partes do oceano e limitar a capacidade dos ecossistemas oceânicos de absorver o dióxido de carbono que aquece o planeta”, explicam os autores.

Os excrementos das baleias são também uma fonte de ferro: no Oceano Antártico, as baleias reciclam cerca de 1.200 toneladas métricas de ferro por ano. Este número, no início do século XX, ascendia às 12 mil toneladas métricas de ferro, uma quantidade dez vezes superior.

Assim, os especialistas sugerem recuperar o número de baleias que existiam antes da caça, a fim de aumentar a produtividade marinha em 11% no Oceano Antártico, e de reduzir cerca de 215 milhões de toneladas métricas de carbono. Para Nicholas Pyenson, curador de fósseis de mamíferos marinhos do Museu Nacional de História Natural de Smithsonian e autor do estudo, trata-se de uma “solução climática natural”, e que equivale à “contribuição dos ecossistemas florestais de alguns continentes”.

“Os nossos resultados dizem que se restaurarmos as populações de baleias aos níveis anteriores à caça das baleias, vistos no início do século 20, restauraremos uma grande quantidade de funções perdidas nos ecossistemas oceânicos”, explica Nicholas Pyenson, sublinhando que esta é “a mais clara leitura até agora sobre o enorme papel das baleias grandes no nosso planeta.”

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Illegal Pesticides


Europe's farmers must slash the use of their pesticides by half, by 2030. But due to these increasingly stricter requirements, farmers feel vulnerable to unfair competition, as producers outside of the EU can carry on using chemicals now barred in Europe. Some desperate farmers have taken to importing chemicals illegally, sometimes buying dangerous counterfeits.

Edward O. Wilson, um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu aos 92 anos


Edward Osborne Wilson, tido como o “herdeiro de Darwin” e um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu a 26 de Dezembro em Burlington, Massachusetts (Estados Unidos), aos 92 anos, informou a EO Wilson Biodiversity Foundation.

Wilson, um perito em insectos e ecossistemas que lutou para travar o declínio mundial da biodiversidade, era um biólogo premiado e professor nas Universidades de Harvard e Duke. Chamavam-lhe o herdeiro natural de Charles Darwin.

“Wilson dedicou a sua vida a estudar o mundo natural e a inspirar outros para cuidarem desse mundo natural tal como ele”, segundo uma nota daquela Fundação.

Nas palavras de Paula J. Ehrlich, presidente da Fundação, “o santo Graal do Edward era o puro entusiasmo da conquista de conhecimento”. “O seu foco científico corajoso e a voz poética transformaram a forma como nos compreendemos a nós próprios e ao nosso planeta. A sua maior esperança era que estudantes por todo o mundo partilhassem a sua paixão pela descoberta como a fundação científica para a gestão futura do nosso planeta. O seu legado foi uma crença profunda nas pessoas e na nossa vontade humana partilhada de salvar o mundo natural.”

E.O. Wilson era chamado o “herdeiro natural de Darwin” e era afectuosamente conhecido como o “homem das formigas” pelo seu trabalho pioneiro como entomólogo. Wilson lembrava, fascinado, que se conheciam mais de 20.000 espécies de formigas desde o Círculo Polar Árctico à ponta da América do Sul. Só na floresta tropical da Amazónia, as formigas representam mais de 10% da biomassa de todos os animais.

No seu livro The Diversity of Life, de 1992, escrevia sobre uma expedição que fez à floresta tropical da Amazónia e sobre os seus insectos: “Subitamente apercebi-me do quão pouco se sabe sobre estas criaturas da floresta tropical e quão profundamente gratificante seria passar meses, anos, o resto da minha vida neste lugar até conhecer todas as espécies pelo nome e cada detalhe das suas vidas.”

E.O Wilson era professor Emérito da Universidade de Harvard, onde deu aulas durante 46 anos, presidente da E.O. Wilson Biodiversity Foundation e presidente do Half-Earth Council.

Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos científicos, recebeu por duas vezes o Prémio Pulitzer, primeiro em 1979 com o livro de On Human Nature e depois em 1991 com o livro The Ants.

Wilson nasceu em 1929 em Birmingham, Alabama (Estados Unidos), e desde cedo cresceu nele um interesse pelo mundo natural. Estudou na Universidade de Alabama e fez o doutoramento em Harvard, onde ensinou durante 46 anos.

Durante a sua carreira, E.O. Wilson descobriu mais de 400 espécies de formigas e provou que as formigas usam excreções de feromonas para comunicar umas com as outras.

Este investigador, que estudou como a selecção natural e outras forças podem influenciar o comportamento dos animais, era também um ávido activista pela conservação e foi instrumental em lançar a Encyclopedia of Life, uma base de dados online gratuita que documenta todas os 1.9 milhões de espécies da Terra reconhecidas pela Ciência.

Em 2016 publica o livro Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life, onde propõe um plano exequível para salvar a biosfera: dedicar metade da superfície da Terra à natureza. Entre as regiões do planeta que Wilson defendia ainda poderem ser reclamadas para o mundo natural estão o Parque Nacional da Gorongosa (Moçambique), a bacia hidrográfica do rio Amazonas e as planícies do Noroeste da Europa.

Fonte: Wilder

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Morreu Thomas Lovejoy, o “padrinho da biodiversidade”



Biólogo dedicou a sua carreira a alertar-nos para a necessidade de conservação das florestas tropicais, sobretudo da Amazónia brasileira.

O biológo conservacionista Thomas Lovejoy morreu este sábado (25 de Dezembro) aos 80 anos. Muitas vezes chamado “padrinho da biodiversidade”, o biólogo norte-americano dedicou a sua carreira à conservação do planeta e era considerado um dos grandes especialistas da biodiversidade da Amazónia.

Thomas Lovejoy tinha um doutoramento em biologia da Universidade de Yale (Estados Unidos) e passou mais de 50 anos a trabalhar na […]
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Viu um animal selvagem morto? Agora pode avisar as autoridades numa App



A Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) lançaram recentemente uma nova plataforma, onde é possível registar e avisar as autoridades de forma imediata quando encontra um animal selvagem morto.

A plataforma “Animais” (Aplicação de Notificação Imediata de Mortalidade de Animais Selvagens) está agora disponível em formato online, através do site, para utilização em dispositivos móveis. Podem ser notificadas todas as espécies selvagens de aves, anfíbios, mamíferos, répteis e peixes.

Antes de utilizar a plataforma, deve registar-se de forma a criar uma conta. Para o registo da ocorrência, deve selecionar o nome da espécie encontrada, o sexo e a classe etária, o estado em que se encontra o cadáver, se existe mais do que um, e indicar o local onde está.

Segundo o ICNF, este registo vai permitir não só alertar as autoridades para que possam agir atempadamente, mas também que sejam conhecidos os valores de mortalidade das espécies, identificar situações de mortalidade aumentada que precisam de investigação e detetar doenças em fase precoce.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Morreu Desmond Tutu, arcebispo sul-africano e Nobel da Paz pela luta contra o apartheid


"Quando vemos os outros como o inimigo, arriscamo-nos a tornar-nos aquilo que odiamos. Quando oprimimos os outros, acabamos oprimindo a nós mesmos. Toda a nossa humanidade depende de reconhecer a humanidade nos outros. "
Desmond Tutu
07/10/1931 - 26/12/2021

Romancero de Durrutti - Chicho Sánchez Ferlosio



0:00 Por alli viene Durrutti... 
0:58 Historia de tres amigos... 
3:13 Canta garganta... 
4:58 Fotografías de presos políticos coleccionadas por un policía 
5:46 Yo soy del campo... 
6:56 El ejército español... 
7:54 Malditas elecciones... 
9:12 19 de noviembre malos tiempos me recuerdas... 
10:47 Los de Oviedo 
12:36 Aunque en Madrid y en Paris... 
14:12 Para tierras africanas...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Não digo do Natal, por Pedro Tamen

Ito Kazuo- Winter Trees, 1980


Não digo do Natal – digo da natal
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos
por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,
e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Devolver metade do planeta à natureza não é uma ideia tão louca quanto parece


A sexta extinção em massa – é assim que os biólogos se referem ao que está a acontecer hoje em dia. Estima-se que, até ao final do século, uma em cada seis espécies esteja extinta devido a uma variedade de causas, entre as quais o crescimento populacional e a perda de habitat, causas estas que são complexas e estão interligadas.

Edward O. Wilson, biólogo de Harvard e vencedor de dois prémios Pulitzer, acredita, no entanto, que ainda temos tempo para salvar o planeta. O seu plano, exposto no livro “Half Earth: Our Planet’s Fight for Life” (Meia Terra: a Luta do Nosso Planeta pela Vida), é ousado: e se devolvêssemos metade do planeta à natureza? Este é um plano que o influente biólogo acredita ser possível e que poderá salvar de 80 a 90% das espécies da Terra.

Em conversa com a National Geographic, E. O. Wilson explicou, com mais pormenor, a sua teoria, defendendo que o desespero não é a resposta para os problemas enfrentados pelo nosso planeta e que, no fim de contas, a maioria das espécies da Terra ainda não foi identificada.

A situação actual do planeta

“Houve cinco grandes episódios de extinção durante a história geológica do passado, tendo o último ocorrido há 65 milhões de anos. Acho que é correto chamar ao que está a acontecer, atualmente, devido à atividade humana, o sexto. Se permitirmos que continue, poderíamos levar a uma diminuição da diversidade de vida na Terra que a deixaria perto do que era na última grande extinção, no final do Mesozoico. Temos bons cálculos, e embora se tratem de aproximações, foram elaborados cuidadosamente por equipas de cientistas, que colocam a taxa de extinção num valor 100 a 1000 vezes superior ao de antes do aparecimento da humanidade. De facto, acredito que esteja mais perto dos 1000, de momento, do que dos 100.”

“O processo de extinção pode ser resumido com a palavra HIPPO [alusão ao hipopótamo, espécie considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN]. Cada uma das letras, do H ao O, designa uma das causas de extinção. Portanto, H é habitat; I é o impacto das espécies invasoras; o primeiro P refere-se aos contínuos níveis elevados de crescimento populacional; e o segundo P é para a poluição. [O O refere-se a um termo em inglês “overharvesting”, que engloba a pesca, a criação de animais e a agricultura insustentáveis.]

Sobre a “nova conservação” e quem defende que se deve deixar de tentar salvar o planeta

“Isto é derrotismo que é tanto irracional como perigoso. O que eles estão a dizer é que não há como parar a extinção, que a humanidade é uma força imparável essencialmente irracional e que nos deveríamos concentrar em salvar as espécies que mais valorizamos, como os elefantes e outros mamíferos grandes. Parecem não estar cientes da vastidão da biodiversidade, que ascende a milhões de espécies, muitas das quais ainda desconhecidas pelo mundo científico. É uma combinação de ignorância e de desespero. O outro elemento que surge é uma proposta de que, se guardarmos o ADN, poderemos clonar essas espécies mais tarde e trazê-las de novo à vida. Isto é um absurdo.”

Metade do planeta como reservas naturais

“Se se pudesse reservar metade da superfície da Terra [para a natureza], conseguir-se-ia salvar entre 80 e 90 por cento de todas as espécies.”
“Comecemos com o oceano. Atualmente, 3% do oceano está protegido sob a forma de reservas marinhas. As reservas estão localizadas, normalmente, ao longo das zonas costeiras dos países e queremos que isso chegue aos 50%. Pode parecer quase impossível. Mas dois estudos independentes recentes, realizados por especialistas em organismos marinhos, mostram que se pudéssemos pôr de parte a totalidade da água azul fora das Zonas Económicas Exclusivas dos países costeiros e proibir a pesca em alto mar, teríamos, de facto, um aumento, não uma diminuição, do crescimento global das pescarias. Haveria pescarias mais ricas e um crescimento mais rápido nas áreas costeiras de pesca. Seria para nosso benefício reservar o oceano, o alto mar. Esta é uma consequência notável e não intencionada do conceito da meia Terra.”

O desconhecimento da vida na Terra

“O nosso desconhecimento da diversidade biológica é um dos grandes escândalos das ciências biológicas. Aqueles de entre nós que trabalham em biodiversidade, retrocedendo ao tempo de Lineu [naturalista sueco do séc. XVIIl, conhecido como o “pai da taxonomia moderna”], catalogaram um pouco mais de dois milhões de espécies de todos os tipos de organismos. Mas o número estimado de plantas, animais e micro-organismos no mundo está próximo dos 10 milhões. Por outras palavras, aproximadamente 80% das espécies na Terra continuam por descobrir. Vivemos num planeta com muito por descobrir.”

A fragilidade do ser humano

“Fizemos avanços inimagináveis no nosso conhecimento científico e tecnológico. Mas esse conhecimento está, na sua maioria, confinado ao nosso bem-estar imediato, em particular no que diz respeito aos aspetos biológicos da medicina. Temos um instinto muito poderoso para explorar; sabemos, agora, bastante de astrofísica, mas quando olhamos para o mundo biológico – os recursos que há e como vamos gerir o nosso futuro com ou sem um certo número de espécies a viver connosco – é praticamente uma incógnita. Nós somos frágeis e se continuarmos as tendências vigentes na utilização da Terra, poderíamos ter uma catástrofe.”

O papel da tecnologia e da revolução digital

“Tomei um rumo diferente de alguns dos meus colegas, que defendem a oposição clássica entre o progresso humano e a tecnologia versus a Natureza. Penso de outra forma. Na era digital, com os incentivos económicos básicos que os seres humanos têm para tirar o máximo proveito de qualquer coisa, a economia caminha, quase automaticamente, em direção a um mundo menos material, com menos energia e mais eficiência. Esta tendência, aliada a uma mudança para as fontes de energia alternativas, cria o potencial de se reduzir aquilo a que chamamos a nossa pegada ecológica: a quantidade média de espaço necessária para a subsistência de cada ser humano.”

Como seria implementado? A Terra seria mesmo dividida ao meio?

“Atualmente, 15% da superfície terrestre e 3% do mar estão reservados para fins de conservação. O sistema de Parques Nacionais dos EUA idealizou algumas estratégias que demonstram como se pode alcançar a meia Terra em etapas. Estas incluem coisas como os monumentos naturais nacionais: áreas que têm um valor especial para o país, seja em termos de natureza ou de história. Não haveria alteração na posse [da propriedade] ou regras contra o uso desta terra. Mas quando as pessoas possuem propriedades num monumento natural nacional, costumam ter orgulho disso e fazer bom uso da terra. Este é apenas um dos muitos passos que foram idealizados dentro do nosso sistema atual de parques nos Estados Unidos. Também existem as áreas demarcadas reconhecidas oficialmente pelas Nações Unidas. Podemos fazê-lo aos poucos.”

Estou bastante otimista. Acho que uma das principais razões por que não temos avançado mais rapidamente é porque não passámos por essa transformação em que as pessoas valorizam aquilo a que se chama vida selvagem. Não apenas os animais grandes, mas o resto das formas de vida. Assim que as pessoas se apercebam do que isso é e da sua importância para os ecossistemas da natureza e, em última análise, para elas próprias, acredito que uma mudança rumo à preservação das outras formas de vida seguir-se-ia, para nosso benefício geral.

Fonte: Uniplanet

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Iluminação artificial noturna está a tornar-se um problema para o oceano


A iluminação artificial noturna pode estar a tornar-se um problema para os ecossistemas marinhos. Há medida que a iluminação noturna aumenta, seja devido às áreas urbanas costeiras, seja devido a estruturas offshore, como por exemplo as plataformas de petróleo, mais espécies estão a ser condicionadas por estas alterações e a criar respostas biológicas.

Um novo estudo, financiado pelo Natural Environment Research Council, reuniu vários cientistas para criarem um atlas global de luz artificial à noite (ALAN – Artificial light at night) do fundo do mar. O seu principal objetivo era estudar o impacto da luz nos ecossistemas subaquáticos.

De acordo com a Universidade de Plymouth, para esta investigação, os investigadores utilizaram ferramentas como software de modelagem, tecnologia de satélite e observações in situ, mais especificamente no Rio Tamar, no Reino Unido, com recurso a um atlas mundial de brilho artificial no céu noturno.

“A extensão da poluição luminosa artificial na terra é conhecida há muitos anos. Algumas pessoas podem considerar que esta luz não entra nos oceanos, mas entra, e em quantidades suficientes para causar impactos biológicos”, explica Thomas Davies, um dos autores do estudo. “Este atlas é o primeiro a quantificar a extensão de ALAN nos oceanos”.

Os resultados demonstraram que 1,9 milhões de quilómetros quadrados de águas costeiras do mundo estão expostas a níveis significativos de ALAN. A 10 metros de profundidade no oceano, estão expostas 1,6 milhões quilómetros quadrados de águas costeiras, e a 20 metros de profundidade, estão expostas 840 mil quilómetros quadrados de águas costeiras. Regiões como o Golfo Pérsico, o Mar da China Meridional e o Mediterrâneo, destacam-se pela acentuada exposição ao problema.

Tim Smyth, autor principal da investigação, afirma: “A criação deste atlas mostra-nos como a questão da luz artificial à noite está difundida nos nossos mares costeiros e pode levar a destacar a ALAN como uma perturbação, da mesma forma que vemos atualmente o ruído subaquático como uma preocupação. Ainda é necessária muita investigação para compreender, por exemplo, os efeitos específicos que tem nos organismos marinhos, a natureza espectral exata dessa poluição luminosa e de como é alterada pelas estações ou marés. Mas reconhecer a sua presença global desta forma é um grande passo em frente na compreensão de ALAN e das suas consequências para o oceano.”

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Poema decrescentista


Poema inédito de Sophia de Mello Breyner Andresen que, não tendo sido escrito como libelo decrescentista, enuncia alguns dos princípios e valores duma ética da frugalidade e da suficiência (fonte):

Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa.
Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal.
Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela.
Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre.
O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser.
Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário.
Dai-me a limpeza de que não haja lucro.
Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo.
Chegou o tempo da nova aliança com a vida.

Petição: É Possível Impedir a Destruição do Geossítio do Paredão


O Curral das Freiras é conhecido pela sua paisagem, uma paisagem que marca a nossa identidade enquanto madeirenses, e que a distingue de muitos outros destinos turísticos. A Freguesia conhecida no exterior pela sua beleza quase intocada e movendo essencialmente turismo externo e interno de natureza, não pode ver destruído o seu bem mais precioso com uma plataforma suspensa que a atravessará de uma ponta a outra e a irá descaracterizar brutalmente. Para ver teleféricos bastará ir a tantos outros destinos que já os têm, mas a marca identitária do Curral das Freiras, apenas existe no Curral das Freiras, um dos espaços naturais mais privilegiados da nossa Região. Este projecto megalómano irá, não só destruir a identidade de um povo, mas destruir também património geológico inestimável que está inventariado pela “Estratégia de Conservação do Património Geológico da Região Autónoma da Madeira”, identificado na Carta de Património e que integra o Plano Director Municipal de Câmara de Lobos, o Miradouro do Paredão. Por isso, o Miradouro do Paredão está classificado como Geossítio.
No dia 3 de Dezembro, o Governo Regional publicou a resolução n.º 1261/2021, dando conta de que o processo de expropriação já está em curso e que, aliás, prevê-se a comparticipação financeira ainda para este ano de 3.419.831,13€. Um valor exorbitante para destruir o que de mais valioso temos.
Os cidadãos abaixo-assinados, vêm assim exigir que o processo de construção do Teleférico do Paredão não vá em frente e que seja preservada a identidade de um povo e de uma Região.

domingo, 19 de dezembro de 2021

São precisos 17 mil litros de água para produzir um quilo de chocolate


O impacto ambiental da época natalícia faz-se sentir, nomeadamente, pela produção de papel de embrulho e de chocolates.

A produção de papel de embrulho e de chocolates aumenta nesta altura do ano e tem uma pegada ecológica expressiva, sendo que, no caso do chocolate, são necessário 17 mil litros de água para produzir apenas um quilo. [Water Food Print]

Debaixo das árvores de Natal, os presentes fazem parte da decoração em muitas casas.

Muitos dos que são oferecidos têm uma pegada ecológica expressiva, como é o caso dos chocolates.

Para produzir um quilo deste doce, são necessários cerca de 17 mil litros de água, o equivalente ao que cada português consome, em média, em três meses a tomar banho, lavar os dentes e em tarefas domésticas.

A água, um recurso cada vez mais escasso, é também necessária na produção de papel de embrulho, que muitas vezes não é reutilizado e acaba no lixo.

O papel de embrulho mais brilhante resulta de uma mistura de vários materiais, o que impede que seja reciclado.

As opções mais amigas do ambiente passam por reutilizar o que já se tem em casa ou comprar materiais reciclados.

Quanto aos presentes, também eles podem ter mais ou menos impacto, dependendo sempre das escolhas de cada um.

Todos os produtos importados, à partida, têm uma pegada ecológica maior porque, no transporte ainda são utilizados, na grande maioria, combustíveis fósseis.

António Guterres pede acção urgente para reverter destruição da natureza



O secretário-geral da Organização das Nações Unidas recebeu o prémio Lâmpada da Paz de São Francisco, atribuído pela Igreja Católica.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, recebeu o prémio Lâmpada da Paz de São Francisco, atribuído pela Igreja Católica, e apelou a acções urgentes para reverter a destruição da natureza.

Outras formas para atingir a paz, segundo António Guterres, são a justiça económica, investimentos na inclusão social de todos os grupos e a rejeição de “figuras religiosas e políticas que exploram as diferenças”, num contexto em que as sociedades estão a tornar-se “multiétnicas, multireligiosas e multiculturais”.

O antigo primeiro-ministro português, que se reafirmou como católico crente no discurso de aceitação de prémio, de forma virtual durante a cerimónia de entrega do galardão em Assis, Itália, considerou que “o santo padroeiro da ecologia”, São Francisco, “tem muito a ensinar sobre como fazer as pazes com a natureza”.

“Os nossos hábitos insustentáveis de produção e de consumo estão a provocar uma tripla crise planetária: uma disrupção do clima, uma perda catastrófica de biodiversidade e níveis de poluição que matam milhões de pessoas todos os anos”, destacou o secretário-geral.

Textos de Sá Carneiro 74-75: O PSD à esquerda

O Instituto Sá Carneiro lança agora o terceiro volume de uma obra que reúne textos do ‘Príncipe do PPD’. Um PSD de Esquerda, como dizia Sá Carneiro e insiste Pinto Balsemão.



Oito meses depois do pré-lançamento, em exclusivo no Nascer do SOL, do segundo volume da obra com que o Instituto Francisco Sá Carneiro (IFSC) assinala o 40º aniversário da morte do antigo primeiro-ministro e líder social-democrata, segue-se agora o lançamento do terceiro volume desta coleção, ficando apenas a faltar o quarto – e último.

Este terceiro volume – que poderá adquirir com a próxima edição do Nascer do SOL – compreende os textos políticos do ‘Príncipe do PPD’ na fase entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro – período em que, como introduz Graça Carvalho, «estiveram em jogo a paz e a democracia no nosso país, ameaçadas por uma extrema-esquerda que esteve muito próxima de lançar Portugal numa guerra civil». Para Sá Carneiro, a título pessoal, tratou-se de um período «particularmente complexo», com «problemas sérios de saúde que o obrigaram a submeter-se a uma operação cirúrgica e a extenuantes tratamentos em Londres», relata a presidente do instituto e eurodeputada.

Ao Nascer do SOL, João Montenegro, vice-presidente do IFSC, explica que o livro é oportuno porque «versa a atuação politica de Sá carneiro» num dos «períodos mais importantes da nossa história recente». Um período em que, «em pouco mais de um ano, passamos de uma promessa do regresso da democracia à angustia de um verão quente». «O IFSC, ao editar esta obra, e com esta parceria com o Nascer do SOL, quer fazer com que a população tenha acesso a um dos momentos mais importantes da história democrática». Montenegro nota também que o IFSC tem procurado sempre ter um papel «pró-ativo no que diz respeito à produção de conteúdos que querem fazer reflexão político em Portugal» – o objetivo é chegar a eleitores «não-partidários» que queiram «ser esclarecidos».

O prefácio do livro é, novamente, de Pinto Balsemão. Neste, o fundador do PPD e militante número 1 do PSD dedica-se a resgatar as intervenções em que Sá Carneiro balizou ideologicamente o partido, numa missão clara e declarada de relembrar aos portugueses quais as estruturas fundacionais do PPD/PSD. O mesmo admite-o, no fim, notando que a sua escrita do prefácio visa fundamentar a sua «conceção da social democracia e do papel a desempenhar pelo PSD na segunda década do século XXI». Assim, neste texto, Pinto Balsemão assume, no quadro ideológico do PSD, a mesma função que atribui a Sá Carneiro no quadro político nacional da época – a de «pêndulo» que procura «recentrar» ideologicamente o partido: ao centro-esquerda, como sempre defendeu.

Prefácio de Pinto Balsemão
Durante esses 19 meses, viveu-se, em Portugal, a fase mais aguda do chamado PREC, o processo revolucionário em curso, que culminou com uma quase confrontação armada que poderia ter conduzido a uma guerra civil.
Para quem se interesse pela História recente do nosso país, os Textos que integram este III Volume são uma excelente fonte sobre o que foi acontecendo e um case study daquilo a que alguns historiadores chamam aceleração histórica, referindo se a épocas em que os acontecimentos se desencadeiam com grande rapidez, como que puxando uns pelos outros e produzindo profundas e por vezes irreparáveis alterações sociais, económicas e culturais.

(…)

Muita gente ignora que o então militante n.º 1 do PPD estava doente, gravemente doente, numa fase crucial do dito PREC: de fevereiro a outubro de 1975. A sua substituição como secretário geral do Partido só se concretiza em maio, mas já antes disso se encontrava enfermo e de tal modo que praticamente não participou na campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte. Aliás, insistira, por mais de uma vez, em ser substituído. (…) Quando volta, no fim de setembro de 1975, apesar de ainda convalescente e aconselhado pelos médicos a repousar, volta a todo o gás. Há uma subida de tom, dentro e fora do Partido, à medida que o ambiente aquece, a caminho do 25 de novembro. O discurso proferido em Faro, num comício em que as luzes e o som foram apagados por ação sabotadora de terceiros, é um magnífico exemplo de virulência, coragem e desassombro.

(…)

[O] tema da democracia económica, social e cultural, como parte integrante de um conceito global de democracia, é abordado frequente mente por Francisco Sá Carneiro, sempre com o mesmo rigor: (…) «A democracia política implica o reconhecimento da soberania popular na definição dos órgãos do poder político, na escolha dos seus titulares e na sua fiscalização e responsabilização; exige a garantia intransigente das liberdades individuais, o pluralismo efetivo a todos os níveis e o respeito pelos direitos das minorias; não existe se não houver alternância demo crática dos partidos no poder, mediante eleições livres, com sufrágio uni versal, direto e secreto. A democracia económica postula a intervenção de todos na determinação dos modos e dos objetivos de produção, o predo mínio do interesse público sobre os interesses particulares, a intervenção do Estado na vida económica e a propriedade coletiva de determinados setores produtivos; pressupõe ainda a intervenção dos trabalhadores na gestão das unidades de produção. A democracia social impõe que sejam assegurados efetivamente os direitos fundamentais de todos à saúde, à habitação, ao bem estar e à segurança social; exige a abolição das distinções entre classes sociais diver sas e a redistribuição dos rendimentos, pela utilização de uma fiscalidade justa e progressiva».

(…)

Quase um ano depois, a 6 de novembro de 1975, escreve no Povo Livre: «Por outro lado vai se nos fazendo justiça no reconhecer que somos um partido de esquerda empenhados na construção do socialismo democrático que Portugal merece e quer».

(…)

A separação de águas com o PS é outro aspeto interessante:

«Nos seus ataques, o PS e seus dirigentes são versáteis. Começaram por nos chamar liberais. Reconheceram depois que éramos sociais democratas, mas eles não. Dizem agora que afinal não há sociais democratas em Portugal, querendo empurrar nos outra vez para os liberais. (…) [O PSD] conta, através dos seus militantes, com um apoio dos trabalhadores portugueses pelo menos não inferior ao do PS. Os vastos recursos financeiros deste, bem como certas alianças, podem dar impressão contrária, já que aqueles permitem organizar vastas reuniões de grupos sócio profissionais e dispor de órgãos de Imprensa, possibilitando as segundas algumas vitórias sindicais, pelo menos momentâneas».

(…)

Já quanto ao CDS, o afastamento ideológico é nítido:

«A social democracia só se entende por ser um socialismo democrático em marcha. Se isso fosse dar mais possibilidades ao CDS é porque há um leque de posições em Portugal que a social democracia não cobre; mas não me parece, porque suponho que a linha social democrata corresponde aos grandes anseios do povo português e à situação concreta em que ele se encontra. E não vejo como uma via neocapitalista ou neoliberal possa dar solução às graves contradições e desigualdades com que se debate a sociedade portuguesa».

(…)

O PCP é, sem dúvida, o adversário principal.

«(…) não pode haver acordo possível, não pode haver plataforma possível entre um partido democrático, como nós somos, e um partido antidemocrático, como é o PCP. Mas o secretário do PCP atinge quem tinha pelo menos o direito de ser respeitado, porque foi miseravelmente escorraçado da sua terra. Atinge os refugiados angolanos. (…)
O PCP, na pessoa do seu secretário geral, faltou gravemente, indesculpavelmente, a esse dever mínimo de respeito pelas pessoas humanas. Porque na realidade o que interessa ao PC a pessoa humana, a sua liberdade, a sua felicidade? Não interessa nada. Interessa lhe apenas a conquista do poder, por qualquer meio. Interessa lhe apenas o reforço do imperialismo soviético, e é por isso que nós estamos nesta condição, e é por isso que o país está à beira do caos, da ruína e da própria perda da independência. Porque, meus amigos, nós estamos a viver neste momento a última fase desse plano de conquista do poder. Obtido o controlo das autarquias locais, obtido o controlo dos órgãos de informação, obtido o controlo do aparelho de Estado e dos seus quadros administrativos, o PCP, especialmente depois do 11 de março, conseguiu o controlo da própria economia nacional».

(...)

Poderá dizer se que, ainda em vida de Francisco Sá Carneiro, o país evoluiu, desde os meses acelerados e tormentosos do PREC, que o pêndulo se recentrou, depois de uma guinada à esquerda, que a necessidade de encontrar soluções estáveis obrigou a coligações e concessões. Poderá acrescentar se que, decorridos 30 anos sobre a morte trágica de Francisco Sá Carneiro, a 4 de dezembro de 1980, o mundo mudou radicalmente, desde a queda do muro de Berlim à ascensão da China, desde a globalização económica à revolução imposta nas comunicações pela televisão, pelo telefone e pela internet, desde o crescimento, em poder e em número de Estados membros, da União Europeia à crescente divergência de Portugal relativamente aos seus 26 parceiros na mesma União, tanto em matéria de indicadores económicos, como noutras áreas – as desigualdades sociais, a educação ou o funcionamento da justiça, por exemplo. Poderá mesmo sustentar se que a minha seleção de temas e citações para a escrita deste prefácio é demasiado subjetiva e visa fundamentar a minha conceção da social democracia.

Tudo ou parte disto será eventualmente verdade. Mas não é menos verdade que, perante a situação em que Portugal se encontra, a resposta, pela afirmativa, dos sociais democratas é a única possível às interrogações formuladas por Sá Carneiro, em novembro de 1974, no discurso de encerramento do 1.º Congresso do PSD:

«Num momento em que são limitados os recursos, será possível utilizá los de modo a garantir o livre e completo desenvolvimento da personalidade de cada um, não pelo exercício da coação mas pela solidariedade e pelo consenso de todos, malgrado as inegáveis lutas de interesses entre grupos e classes diversas? Numa época em que, em certas sociedades, o poder é pertença de minorias compostas pelos detentores do grande capital e por membros da tecnostrutura; em que, noutras sociedades, dele se apropriou uma classe burocrática que domina não só todo o aparelho de Estado como todas as estruturas económicas e sociais – ou se quer apropriar uma elite de intelectuais autoiluminados que pretendem pôr em prática os seus dogmas e as soluções mais ou menos originais que conceberam – pergunto me: poderão as sociais democracias retirar o exclusivo do poder às minorias oligárquicas, promovendo a sua efetiva transferência a nível político, económico ou social, para toda a população, desde os órgãos de Estado às unidades de produção?»

Pense se no que foi acontecendo em Portugal e conceda se que o enunciado das perguntas, retoricamente colocadas por Francisco Sá Carneiro, descreve, com premonitória acuidade, a situação em que nos encontraríamos 36 anos depois.

Música do BioTerra : Croix Sainte-The Life of He

sábado, 18 de dezembro de 2021

O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo



Há no homem um desejo imenso pela liberdade, mas um medo ainda maior de vivê-la. Algo parecido disse Dostoiévski, ou talvez eu esteja dizendo algo parecido com o dito pelo escritor russo.

No entanto, como seres significantes que somos, analisamos as coisas sempre a partir de uma determinada perspectiva e, assim, passamos a atribuir-lhes valor. Dessa maneira, até conceitos completamente opostos, como liberdade e escravidão, podem se confundir ou de acordo com o prisma de quem analisa, tornarem-se expressões sinônimas, como acontece no mundo distópico de George Orwell, 1984, em que um dos lemas do partido – “Escravidão é Liberdade” – é repetido à exaustão.

Não à toa, as boas distopias têm como grande valor predizer o futuro. E em todas elas – 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica – há um ponto em comum: a liberdade dos indivíduos é tolhida e, consequentemente, convertida em escravidão. No entanto, através de mecanismos sócio-políticos a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos entendem gozarem plenamente desta.

Nas histórias supracitadas, embora a maior parte da população esteja acomodada e aceite com enorme facilidade absurdos, existem indivíduos que se permitem compreender as suas reais situações e ousam lutar contra a ordem estabelecida. Esse processo é, todavia, extremamente doloroso, uma vez que é muito mais fácil se acomodar a enfrentar a realidade e todas as consequências dolorosas que enfrentamos invariavelmente quando decidimos sair da caverna, para lembrar Platão.

Posto isso, há de se considerar que ser verdadeiramente livre requer a responsabilidade de encarar o mundo sem fantasias, ou seja, tal como ele é. Dessa forma, existe no homem grande suscetibilidade a aceitar o irreal como real, a fantasia como verdade, a Matrix como o mundo real. Sim, Matrix é um grande exemplo do medo que possuímos de encarar a realidade.

No personagem de Cypher (Joe Pantoliano) encontramos o maior expoente desse comodismo, já que sendo a realidade um mundo destruído, um caos constante, é muito melhor viver na Matrix, onde ele “pode ser o que quiser”, ainda que não passe de uma grande mentira.

Em outras palavras, Cypher representa a ideia de que sendo a realidade algo tão assustador, a ignorância é uma benção, pois sendo ignorante, pode-se comprar mentiras como verdades facilmente, bem como, aceitar a Matrix como realidade e a escravidão como liberdade.

As realidades apresentadas no mundo das artes (ficções, que ironia), refletem a nossa própria realidade, em que, assim como Cypher, temos preferido viver vidas fantasiosas, cercadas de superficialidade e aparências, determinadas pelo hedonismo da sociedade de consumo e, consequentemente, o nosso egoísmo ganancioso buscando galopantemente realizar todos os desejos que impedem de acordarmos de um sonho ridículo.

Apesar de tudo isso, pode-se considerar que de fato é melhor ser um escravo feliz do que um ser livre, triste, inconformado e amedrontado. No entanto, a problemática ganha corpo na medida em que se entende que há coisas que só podem ser feitas sendo o sujeito livre, uma vez que a gaiola é sempre limitadora, sobretudo, aos desejos mais intrínsecos e, portanto, mais latentes e verdadeiros no ser.

Assim, por mais que a escravidão seja ressignificada, fantasiada e “transformada” em liberdade, sempre haverá pontos em que o indivíduo sentirá necessidade de alçar voos mais altos, os quais, obviamente, não poderão ser realizados, haja vista a limitação das gaiolas, o que implica a insatisfação, ainda que tardia, da condição escrava em que o indivíduo se encontra.

Sendo assim, constatamos que “O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo”*, posto que para gozar a liberdade é preciso coragem para se arriscar no terreno das incertezas e da luta. E, assim, temos preferido permanecer na caverna, orgulhosos das nossas sombras, já que lembrando outra vez Dostoiévski – “As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Entretanto, como disse, mais hora, menos hora, nos enxergamos e percebemos que o que nos circunda é falso, de tal maneira que desejamos sair, correr, voar, ser livres.

O grande problema nisso é que quando se acostuma a viver em uma gaiola, quando se é livre perde-se a capacidade de voar, pois as correntes que nos prendem são criadas pelas nossas mentes, de forma que mesmo fora da caverna, continuamos prisioneiros de uma mente que se acostumou a ser covarde e preferiu acreditar na contradição de que ser escravo era o maior ato de liberdade.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Is the way we think about overpopulation racist?

Half the world lives in urban areas, yet environmental concerns about megacities often focus on developing economies. But consumption is as important as population.


It is just 50 years since the publication of Paul Ehrlich’s book The Population Bomb galvanised the global discussion on overpopulation. Published in 1968, his million-selling Malthusian polemic suggested that over-breeding poor countries were killing the planet. And it began in a megacity: India’s capital, Delhi.

On the first page, he wrote of a taxi ride “one stinking hot night in Delhi. We entered a crowded slum area. The streets seemed alive with people. People eating, people washing, people sleeping. People visiting, arguing and screaming. People thrusting their hands through the taxi window begging. People defecating and urinating … Since that night I’ve known the feel of overpopulation.”

But did he? Was he describing a city stretched beyond its limits, in a world similarly stretched? As the Australian demographer Jack Caldwell later pointed out, he could have seen as many people in similarly crowded conditions during any rush hour in London, Paris or New York. “What he did see were poor non-Europeans.”

This is the rub when we express fears about the teeming megacities of the developing world. Whether it is Delhi or Dhaka, the shanty towns of Nairobi or the favelas of Rio de Janeiro, are we just reacting badly to people different from us? Is there sometimes a tinge of racism in our environmental concerns?

Ehrlich was not wrong that cities matter hugely for the future of humanity. Our planet is crowded and half of us live in urban areas. That figure is predicted to rise to 66% by 2050. It is the giant urban areas of developing countries such as India that are experiencing most of the growth.
Despite appearances, cities are not the cause of rising human numbers. In fact, they are the solution

But are these megacities really the problem, or just the most visible manifestation of our crowded world? And, if they are a problem, is it the cities of the rich or the poor world that should concern us?

Despite appearances, cities are not the cause of rising human numbers. In fact, they are the solution. People in cities almost everywhere tend to have fewer children than their compatriots in rural areas. The average woman in Kenya has 4.3 children, whereas those living in the capital, Nairobi, have just 2.7. In India the average is 2.4 children, but in Delhi it’s just 1.6 and in Mumbai 1.4. That’s lower than London, where the average is 1.72.

This demographic divide between town and country is not so surprising. On a rural farm, children are handy for looking after the goats or helping with the harvest. In cities, they are expensive to feed and need educating before they can start earning.

Urban numbers are rising only because of the global rush of migrants from rural areas to the cities in search of jobs. Once there, they swiftly adopt small families as the norm. Anyone concerned about overpopulation should cheer them on.

Of course, that is not the whole story. While cities are defusing the population bomb, they are also creating a consumption bomb. Urbanites consume more stuff. Cities may house half the world’s population, but they consume three-quarters of the materials we take from the planet – whether that’s minerals or crops, timber or meat.
Prince Charles once called the Mumbai shanty town Dharavi a model of green development. Many laughed. He was right

Cities are heavily dependent on the world beyond their limits. These hinterlands provide water, materials and food, as well as human resources such as commuters. One study found that annually, London consumes almost 40m tonnes of construction materials, 2.4m tonnes of food, 2.2m tonnes of paper, 2.1m tonnes of plastic, 0.4m tonnes of glass and 1.2m tonnes of metal. Its citizens drink, shower and flush a billion tonnes of water. Meanwhile it disgorges 8m tonnes of sewage and 4m tonnes of household waste.Cities build huge amounts of infrastructure: roads, sewers, high-rise blocks and metro systems. As part of its breakneck urbanisation programme, China’s vast construction industry used more cement in the three years from 2011 to 2013 than the US managed in the entire 20th century. No wonder environmental pessimists see cities – especially the fast-growing cities of the developing world – as environmental cancers.
Ideas factories

But there is another side. Some people argue that the very concentration of humans in cities – the hordes of people that so alarmed Ehrlich – is the key to unlocking a sustainable future for us all. In short: the challenges of city life necessitate solutions.

Their sheer density means that cities can carry out various eco-friendly processes much more efficiently, like recycling waste and replacing cars with buses, trains and bicycles. And the denser the better. Compact cities like London, Paris or Copenhagen require far fewer car journeys than those with sprawling suburbs.

Indian shanty towns may have frightened Ehrlich, but what he was seeing was far from an environmental armageddon. Shanty towns could often use better sanitation, of course. Some lack reliable electricity and endure high crime rates. We should not romanticise them. But they have a lot to teach us about green living. They are high-density neighbourhoods, their alleys are largely pedestrianised, and many of their inhabitants are inveterate recyclers of the surrounding city’s refuse.

One of the biggest and densest in Asia is Dharavi in Mumbai, where the hero of the movie Slumdog Millionaire was brought up. Smithsonian Magazine, a respected journal, has called it “a vision of urban hell”.

But when I visited, I saw a thriving community. More than half a million people are packed into an area full of workshops and retail outlets, schools and clinics, bakeries and drug dispensaries, with schoolchildren in neat uniforms walking home hand-in-hand through lanes safe from traffic or hoodlums. Most homes had power and water. Prince Charles once called Dharavi a model of green development. Many laughed. But he was right.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Pesticidas encontrados em até um terço das águas superficiais na Europa

Os pesticidas encontrados com mais frequência são inseticidas e herbicidas, cujo uso foi aprovado para proteção de plantas durante os períodos de monitorização.



Até um terço das águas de superfície europeias apresentaram nos últimos anos níveis excessivos de pesticidas, segundo um novo indicador divulgado hoje pela Agência Europeia do Ambiente, que mediu a presença destes produtos entre 2013 e 2019.

"Um ou mais pesticidas foram detetados acima do limite a partir do qual produzem efeitos em 13 a 30 por cento de todos os locais de monitorização de águas superficiais", refere a agência, apontando "excesso de um ou mais pesticidas em 03 a 07% dos locais de monitorização".

Apesar destes resultados, salienta que não é possível deduzir uma tendência na presença destes produtos químicos nas águas europeias, indicando que "as perdas decorrentes da aplicação de pesticidas podem variar consideravelmente de ano para ano, dependendo, por exemplo, do tipo de cultura e da meteorologia".

Além disso, alterações nos regulamentos sobre uso de pesticidas "influenciam a utilização e a presença nas águas, o que também pode causar dificuldades na interpretação de tendências ao longo do tempo".

A agência prevê que "uma tendência se evidencie nos próximos anos".

No que respeita a Portugal, os dados apontam a presença de pesticidas acima do nível em 33% dos locais de monitorização em grandes rios, em 15% dos locais de monitorização em rios médios, em 12% dos locais de monitorização de águas superficiais e em 05% dos postos que monitorizam águas subterrâneas.

Olhando para o conjunto da Europa, foram detetados pesticidas na água em 9.237 locais com águas superficiais e 13.544 com águas subterrâneas, com grandes diferenças entre países: Hungria, Islândia, Luxemburgo e Suíça apresentaram níveis acima do limite em 10 locais com águas superficiais, enquanto em França, Itália, Polónia e Espanha foram encontrados em mais de 1000 locais.

Quanto às águas subterrâneas, há variações como os 39 locais detetados na Lituânia e os mais de mil na Áustria, França, Alemanha e Espanha e mais de 3.000 em Itália.

O número de pesticidas detetados em águas superficiais variou entre menos de 10 em países como a Dinamarca, Hungria, Islândia Luxemburgo, Noruega e Suíça e mais de 100 na República Checa, França, Alemanha e Itália. Nas subterrâneas, o número mais baixo de pesticidas diferentes foi identificado na Áustria (seis) e o maior em França (215).

Os pesticidas encontrados com mais frequência são inseticidas e herbicidas, cujo uso foi aprovado para proteção de plantas durante os períodos de monitorização.

Um dos produtos, a atrazina, continua a ser encontrado em águas subterrâneas apesar de o seu uso ter sido limitado em 2007, o que se explica pela sua capacidade de persistir no meio ambiente.

No Pacto Verde europeu estabelece-se a meta de reduzir em 50% o uso e riscos de pesticidas químicos até 2030.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

5 + 1 falsificações para branquear o eucalipto na moratória atual



A ADEGA acaba de reportar uma grande derrubada de matagal bem preservado, seguida poucos dias após a abertura de sulcos para plantio de eucalipto no município de Sobrado dos Monxes. Os sulcos até passavam por uma campina recém-pastada próxima ao arbusto agora extinto. Em abril, os madeireiros reconheceram que “foram ajudados pelo plantio de eucaliptos por seu preço” ( LINK 1 ). Parecia que eles estavam recuando, mas essa reversão era um propósito FALSO!

Perto dali, um hectare de pântanos (habitat 4020 pântanos atlânticos de zonas temperadas de Erica ciliaris e Erica tetralix), habitat de interesse considerado de conservação prioritária pela União Europeia, foi desmatado, drenado e plantado com eucalipto em pleno vigor da moratória do eucalipto (setembro). Surpreendentemente, eles plantaram os eucaliptos não na vala cavada para drenar, mas no acúmulo linear de solo próximo à vala, para evitar que a água estragasse as raízes.

Este hectare de zona húmida deve ser objecto de ajudas à conservação, nos termos do artigo 11.º da Lei n.º 5/2019, do Património Natural e da Biodiversidade da Galiza ( LINK 2 ). Textualmente: “Na concessão das ajudas (…) serão priorizadas (…) as acções a desenvolver nas zonas de presença ou crítica de espécies ameaçadas de extinção, ou nas zonas com habitats em perigo ou qualificados prioritários para a União Europeia ”. Quando o governo afirma que está fazendo o possível para conservar habitats prioritários, é absolutamente FALSO!

Enquanto isso, e no mesmo município, está sendo limpo outro matagal no qual os restos da obra dos tratores (galhos, casca, terra) caem no trajeto do Caminho de Santiago, lotado de peregrinos neste Ano Santo. Os sulcos cultivados para a futura plantação de eucaliptos violariam mesmo as distâncias mínimas ao Caminho, estipuladas em ridículos 30 metros pela Lei 7/2021, de Montes de Galicia.

Se visitarmos o site do Turismo de Galicia ( LINK 3 ), é-nos dito: “No caminho de Sarria, você vai entrar em contato com o coração da Galiza mais rural, passando pelas províncias de Lugo e A Coruña. Durante o passeio, você passará por bosques de carvalhos, bosques e prados onde poderá ver vacas louras galegas ou frísias pastando pacificamente. Esta é sem dúvida a melhor oportunidade para ver como é a vida no campo e respirar o ar puro destas terras verdes . ” FALSO .

Ao mesmo tempo, a principal empresa de laticínios do estado está aproveitando a situação da COP26 da Escócia ( LINK 4) para publicar conteúdo (frequentemente patrocinado) na imprensa que diz que o eucalipto fixa carbono e ajuda a mitigar as mudanças climáticas. Suponha que eles se refiram à Austrália. Se querem falar das plantações de eucalipto na Galiza, esquecem (queremos pensar que não intencionalmente) todo o CO2 que é libertado quando as máquinas são levadas para a floresta e quando a floresta é desmatada. E mais dióxido de carbono na atmosfera depois de um tempo quando a árvore for cortada (e mais máquinas no monte), reboques transportando madeira por muitos quilómetros (e emitindo muito CO2) e por todo o processo de produção de celulose e depois do papel. Isso sem falar nas queimadas que podem ocorrer no eucalipto enquanto cresce, que também emitem gás carbónico. Fixação de CO2? FALSO !

E, claro, enquanto tudo isso acontece, a montanha galega continua infestada de eucaliptos. São tantos que a ADEGA já certificou uma extensão mínima equivalente a 200 campos de futebol para eucaliptos plantados ilegalmente desde o fim da moratória ( LINK 5 ).

Em suma, ouvir que agora existe uma moratória para novos plantios de eucalipto é algo definitivamente FALSO . O que existe é um branqueamento do eucalipto sem nenhuma vergonha.
Adendo: Esquecimento intencional do parecer científico do Ministério

Dentro de poucos dias, terão passado 4 anos desde o histórico parecer do Comité Científico do (então) Ministério da Agricultura, Pescas, Alimentação e Ambiente ( LINK 6 ). Nele, com uma argumentação impecável em 18 páginas, concluíram que “Tendo constatado com os dados científicos disponíveis a natureza invasiva das espécies de Eucalyptus naturalizadas no nosso país, conclui-se que a mesma deverá ser incluída no Catálogo Espanhol de Espécies Exóticas Invasivas regulamentado pelo RD 630/2013, de 2 de agosto, a critério da IUCN (2000), para todas essas espécies: Eucalyptus camaldulensis, E. globulus, E. gomphocephala, E. gunnii, E. nitens e E. sideroxylon, bem como qualquer outra espécie deste género cujo destino seja a exploração madeireira, devido à alta risco de invasão por essas espécies consequência de suas características biológicas, fisiológicas e ecológicas. Extremo cuidado é recomendado com novas introduções e plantações,”.

Esta opinião foi rejeitada às pressas pelo governo espanhol, sem mais argumentos além das avaliações de um professor ligado à indústria do eucalipto ( LINK 7 ). Dada a justeza dos argumentos do Comité Científico e a resposta insatisfatória à ADEGA por parte do governo espanhol, se alguém disser que o eucalipto não é invasor na Galiza podemos responder claramente: FALSO!