terça-feira, 22 de junho de 2021

"Só neste país." De Beja para Faro há uma ida quase a Lisboa, cinco horas de viagem e duas escalas

Por António Neto
Estão a fazer estudos preliminares e esperamos que em dois ou três anos, tenhamos Beja a 1h30 de Lisboa e com um aeroporto low cost". A ver vamos, mas não lhe quero matar a esperança..."
"Até porque, com ligação de ferrovia ao aeroporto, eletrificando (como se espera a linha de Beja), em cerca de 1h30 o turista (e nós) está em Lisboa."
"E pensam eles, e pensamos nós: "eh... mas isso fica muito longe... txi... 1h30 de comboio depois de duas ou três de avião?". Pois bem, é o que temos em Paris (com Beauvais), é o que temos em Londres (com Stansted), e até mesmo com a alternativa de Bruxelas (o segundo aeroporto - Charleroi) que fica a 1h do centro da cidade. Calma aí... funciona para os outros, para nós é que nem. E na única vez que voei para Charleroi nem comboio tinha, a viagem fi-la de autocarro em trânsito, por isso foram quase 2h."



Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia
nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

Hoje é o dia reservado às escalas e do inóspito. Estou em Beja. Cheguei no dia anterior (com frio, em Beja e em junho... a sério?). Quero ir para Faro que, pelo mapa e a direito, distam a pouco mais de cem quilómetros uma da outra e que estiveram, durante largos anos, unidas por ferrovia, através da Funcheira (por aqui, pelos caminhos que tenho feito tenho ouvido muito chamar-lhe ramal da Funcheira, mas na verdade, desde 1992, o troço entre o Barreiro, Beja e a Funcheira foi designado de linha do Alentejo). Em 2021 já não estão e é assim desde o encerramento ao serviço de passageiros da via entre a Funcheira e Beja em 2012. O encerramento deste pequeno troço causa o inóspito da viagem, pois para ir de Beja a Faro é preciso subir quase a Lisboa para voltar para baixo, apanhar três comboios e viver duas escalas. Havia um programa na rádio pública que se chamava "Só neste país". Ora, foi esta a frase que mais vezes me ocorreu ao longo das cinco horas de viagem. Parou o comboio em Casa Branca, saí, respirei fundo e ouvi a voz da querida camarada Maria de São José e do grande José Guerreiro a ecoar-me no cérebro "só neste país". Entrei no IC que vinha de Évora em direção a Lisboa, para depois sair no Pinhal Novo e quando coloquei de novo os pés na plataforma foi inevitável: "só neste país". Volto a entrar no IC, desta feita, com direção ao destino. Pensava eu que a frase estava arrumada, mas quando o comboio para, com vista para a ria Formosa (esta estação deve ter as vistas mais bonitas de todas), lá estava de novo: "só neste país".

Saí, portanto, de Beja às 8h22 e cheguei a Faro às 13h30. Aqui, confesso, com isto, para quem está numa destas capitais de distrito e quer ir para a outra, a realidade é um convite ao autocarro ou ao carro próprio.

E volto a confessar-vos que também não encontro grande resposta para que Beja se tenha tornado tão periférica. Dirão os desconhecedores da realidade que é da falta de gente. Aliás, o preconceito com o Alentejo é tanto que grande parte dos portugueses acha que entre chaparros imensos e vaquinhas muitas, por lá anda um ou outro ser humano. Contudo, e a bem da verdade, no dia do caminho Lisboa > Beja, o IC que vai para Évora ficou a meio gás na Casa Branca. Metade daquela gente saiu para a ligação à linha do Alentejo e às estações de Cuba, Alvito, Vila Nova de Baroina e Beja. Também no dia seguinte foi considerável o nome de passageiros que apanhou o IC das 8h22, tal como eu. Eu digo metade, mas Paulo Tito Silva, utilizador do comboio, conta-me que "não diria metade", ele "diria dois terços". E não é pontual, "é uma realidade de todos os dias". "Atualmente a CP, acho, tem consciência disso e até já criou ligações diretas entre Évora e Beja", já lá iremos mais abaixo.

Foi um encontro inesperado. Tropecei assim em parte da resposta para este afastar de Beja da centralidade ferroviária do país. E até vínhamos sentados um atrás do outro, sem nos conhecemos, mas foi em Casa Branca que o Paulo Tito Silva me abordou na plataforma, chamando-me pelo nome (o que é estranho para uma pessoa como eu que tenta passar despercebida) e confirmando se eu era o "rapaz das crónicas da TSF". Sentámo-nos juntos. Sabem aquelas situações em que dois estranhos se acabam de conhecer e parece que toda a vida viajaram juntos. Foi assim.

O Paulo é enfermeiro, mas os olhos brilham-lhe quando fala de comboios (por isso tem lido as crónicas e seguido a viagem nos grupos do Facebook). Vinha de Vigo (de comboio, claro), de visitar uns amigos. Conta-me que "a linha ligava Casa Branca à Funcheira e, de seguida ao Algarve, e o que aconteceu foi que eles eletrificaram a linha até Évora e Beja passou a ter um papel secundário". Um pequeno erro com consequências grandes. "Como se vê os comboios têm uso. Este comboio passa aqui no interior, em concelhos que não têm autocarros de longo curso e o comboio é uma mais-valia para as pessoas", ou seja, é simples de ver: não havendo concorrência dos autocarros, a sua utilização é garantida. "Estão a fazer estudos preliminares e esperamos que em dois ou três anos, tenhamos Beja a1h30 de Lisboa e com um aeroporto low cost". A ver vamos, mas não lhe quero matar a esperança...

Falta qualquer coisa à estação de Beja, mas não é beleza...

É cedo e a bilheteira da estação de Beja está fechada. Afinal está fechada porque é sábado e não porque é cedo, constato no papel colado na parede ao lado do guichet. Assim reparo nisto, sou questionado por um turista como faz para tirar o bilhete. Lá lhe explico do "nosso" sistema de tirar bilhetes dentro do comboio (também aplicável em outros países da Europa em linhas secundárias). Fica mais calmo. Ele e eu somos dois dos 18 passageiros que entram em Beja naquela manhã de sábado e que não sabemos qual será a automotora azul que nos levará até Beja: já vos disse (mas volto a repetir), a bilheteira estava fechada, não há televisões com informação dos horários e linhas dos comboios, não há painéis digitais juntos às linhas. Aliás, como poderão ver na fotografia, as indicações de linha são até bem "vintage" e bonitinhas. É tudo bonitinho nesta gare, mas há a sensação de que falta qualquer coisa. Outro exemplo: há o sítio do bar-restaurante, mas não há bar. Há... a uns metros... no largo da estação, uma taverna e até estava aberta, mas um "chiripiti" às 8h da manhã como pequeno-almoço levar-me-ia, com certeza, a perder a primeira escala e a voltar para trás adormecido no banco.


"Se for atento vai passar pela estação de Alcaçovas e do Alvito, são aquelas que a IP quer deitar abaixo", alertava-me o Paulo. A bem da verdade é que, para o passageiro, aquilo ou nada, é mais ou menos a mesma coisa. Quando se pensa e se argumenta com o património e com a história, isso já é outra coisa. Mas se lá vamos por este argumento, então é melhor fazer alguma coisa, porque o que está, neste momento, é feio e dá uma má imagem ao país. E se estas fossem casos únicos, até que nem estávamos nada mal. Mas se há coisa que tenho reparado é que património como este ao abandono, à beira das nossas linhas de comboio é como ervas daninhas num jardim, aparecem por todo o lado.

Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

Falemos agora de "coisas" boas: Beja e Évora estão, desde meados de junho, ligadas por comboio direto, três vezes ao dia em cada sentido. A viagem tem é de ser feita pelas automotoras a diesel UDD450, que têm sido remodeladas e atingem por volta dos 110 a 120km/h, porque, da Casa Branca a Beja, a via continua por eletrificar.

O PNI, apresentado em outubro do ano passado, bem que prometeu e a comunicação social noticiou "as ligações ferroviárias de Beja a Faro vão ser alvo de modernização, num projeto de 230 milhões de euros", mas até agora... nada. Calma, o investimento é para os próximos dez anos, tenhamos, por isso, paciência de alentejano. A coisa vai devagarinho, mas lá se há de fazer.

Partamos o bolo do investimento às fatias: 68 milhões para a eletrificação CB-Beja, para ter comboios a 140km/h, mais 77 milhões de euros para a modernização e eletrificação do traçado atual Funcheira-Beja (onde a linha é bastante plana e retilínea... pelo que fui ouvindo por aqui). Se quiséssemos colocar o comboio a circular a 200km/h, então precisaríamos de abrir ainda mais um bocadinho os cordões à bolsa e gastar cerca de mais 9 milhões de euros.

E isto levanta voo de vez ou não?

Falar de Beja e não falar daquela estrutura que aterrou ali algures no meio das searas nos arredores da cidade, é o mesmo que ir à minha terra natal e não beber água. A pergunta que se me impõe sempre que penso no assunto é: quanto é que aquilo custou? Pelas pesquisas que fiz, o número ronda os 33 milhões de euros. É conhecido que população, empresários e autarcas acusam o(s) governo(s) de "falta de vontade política" para dar uma vida melhor àquela estrutura: ou isso, ou inércia. Até porque, com ligação de ferrovia ao aeroporto, eletrificando (como se espera a linha de Beja), em cerca de 1h30 o turista (e nós) está em Lisboa. E pensam eles, e pensamos nós: "eh... mas isso fica muito longe... txi... 1h30 de comboio depois de duas ou três de avião?". Pois bem, é o que temos em Paris (com Beauvais), é o que temos em Londres (com Stansted), e até mesmo com a alternativa de Bruxelas (o segundo aeroporto - Charleroi) que fica a 1h do centro da cidade. Calma aí... funciona para os outros, para nós é que nem. E na única vez que voei para Charleroi nem comboio tinha, a viagem fi-la de autocarro em trânsito, por isso foram quase 2h.

Uma variante ao aeroporto de Beja, em ferrovia, custaria entre 20 a 26 milhões de euros.

Muito dinheiro, mas que daria toda uma nova centralidade a Beja e ao interior alentejano. Espera, falei aqui numa palavra que está na moda dos discursos políticos da última temporada: interior. Não é só falar. Há que fazer alguma coisa.

Até porque a paisagem das linhas do Alentejo são qualquer coisa "para inglês ver", ou para francês, italiano, russo... e português. Fazem lembrar aqueles desenhos monocromáticos que as crianças fazem quando começam a desenhar/pintar, mas que quando mostram aos pais tem um valor enorme: muito amarela, com uns riscos de verde e, aqui e ali, uma pincelada de branco. Tal como os desenhos dos nossos filhos: encantador. Se bem que na zona de Alvito, a ideia com que fico é que o pintor se prendeu ao verde, pela mancha de olival intensivo e de vinhas que vemos para além da janela da automotora. Diria que é uma paisagem que tem pouco de alentejano e de searas... mas é a economia a mexer, dirão alguns. A que preço?

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Ambientalistas contra a conversão para biomassa na central do Pego

Associações ambientalistas manifestaram-se hoje contra a conversão para biomassa na central termoelétrica do Pego, no concelho de Abrantes (Santarém), projeto anunciado por um dos acionistas da Tejo Energia, tendo alertado para os riscos ambientais associados.

Em carta aberta dirigida ao Governo e à Comissão Europeia, a que a Lusa teve acesso, a Quercus, em nome da plataforma de nove associações ambientalistas, como a Zero, a FAPAS e o GEOTA, entre outras, afirma que os impactes decorrentes da queima de biomassa para a produção de eletricidade são "devastadores em termos de conservação dos solos, da capacidade de armazenamento de água e da manutenção da biodiversidade", rejeitando a proposta de projeto anunciada para a reconversão da central a carvão do Pego.

"Numa altura em que são cada vez mais evidentes os impactes da queima de biomassa sobre os ecossistemas, as populações e o clima, a Trustenergy", principal acionista da Central Termoelétrica do Pego, com uma potência total de 628 megawatts, "anunciou a intenção de converter a unidade de queima de carvão para a queima de resíduos florestais, mas que, na prática, se traduzirá sem dúvida na queima de arvoredo", pode ler-se no documento.

Nesse sentido, alertam que, "em condições médias de operação, a central irá gerar cerca de 508 GWh por ano, correspondente a uma necessidade de consumo anual de biomassa de 1,1 milhões de toneladas por ano", valor que, na sua plena capacidade, "poderia aproximar-se dos cinco milhões de toneladas de madeira", gerando uma "procura acrescida de matéria-prima que ultrapassaria em muito os recursos disponíveis".

Por outro lado, "pese embora que se alegue apenas vir a queimar resíduos florestais na central do Pego", os ambientalistas alertam para o facto que, de acordo com as regras atuais da União Europeia, este termo pode incluir qualquer tipo de madeira, sejam resíduos das indústrias da madeira ou arvoredo.

As organizações signatárias, que apelam ao Governo português e à Comissão Europeia para "não viabilizarem o financiamento público à queima de árvores para a produção de eletricidade", notam que "um dos cenários mais prováveis para o fornecimento de biomassa ao Pego seria a rolaria de eucalipto", situação que aumentaria a procura por madeira desta espécie, em concorrência direta com unidades muito próximas de produção de pasta e papel.

Tal facto, sublinham, "tenderia a criar condições para a instalação de novas áreas de monoculturas na bacia hidrográfica do rio Tejo, o que poderia agravar ainda mais os problemas associados aos grandes incêndios", para além de exigir maior pressão sobre as importações de madeira de eucalipto por Portugal, a partir de Espanha, do Uruguai ou de Moçambique".

Para os ambientalistas, "qualquer aumento na utilização industrial de arvoredo em Portugal contribuirá, no imediato, para um agravamento da perda de coberto arbóreo, com destaque para as espécies autóctones", sendo que "a possibilidade de se vir a recorrer à sua queima na central do Pego agravaria ainda mais o nível de emissões de gases de efeito estufa".

No documento, a plataforma ambientalista defende a alocação de "financiamento público no apoio à requalificação e criação de novos postos de trabalho na região, em particular os que possuem ligação à promoção de fontes de energia verdadeiramente renováveis, para compensar uma eventual perda de postos de trabalho" com o encerramento da unidade de carvão na central do Pego.

O fundamental é, concluem, "direcionar a subsidiação pública para apoio aos proprietários rurais, na conservação de habitats e no estímulo à adoção de sistema de produção verdadeiramente sustentáveis".

Entrevista inédita a Gonçalo Ribeiro Telles: 'Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural'


Por José Alex Gandum14 de Novembro de 2020

Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista, e não só, o que podia não ter acontecido se não tivesse Ribeiro Telles um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa, de onde desde muito cedo uma visão sobre grande parte da capital despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico. Viria a ser também político, passando por diversos Governos e estando na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Tido como um visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam), estando também e esteve na génese de muitas áreas protegidas, áreas que ele viria a criticar nesta entrevista inédita feita nos finais de 2010 e que nunca tinha sido publicada. 

 
José Alex Gandum - Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas - muitas das quais tiveram a sua assinatura - e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia?

Gonçalo Ribeiro Telles - Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão. 

Mas as áreas protegidas não são importantes?

As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia... e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje - e que é gravíssimo - é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural?

O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias,condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos... foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar... desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal?

Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais...

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta...

Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não?

Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma... além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais "seguros", leia-se vilas e cidades... e até para o estrangeiro.

domingo, 20 de junho de 2021

D. Dinis: o Rei poeta que colocou os portugueses a escrever e a falar português


Foi um dos mais cultos e educados reis portugueses. D. Dinis ajudou a criar a Língua Portuguesa e foi casado com a Rainha Santa Isabel. Conheça a sua história.


Uma das grandes figuras da nossa história, D. Dinis era, na sua época, um dos monarcas mais respeitados do mundo. Ficou conhecido como “Rei-Poeta”, pela sua extensa obra de poemas em Galaico-português e como “Rei-Lavrador”, pela sua aposta nos campos. Foi o 6º monarca de Portugal e reinou durante 46 anos, sendo descrito como culto, justo, por vezes cruel, piedoso, decidido e inteligente. Era filho de D. Afonso III e D. Beatriz de Castela, tendo nascido a 9 de outubro, dia de São Dinis, em Lisboa. Esteve para se chamar Sancho, mas um conflito com o seu tio-avô Sancho desfez essa ideia.

Pouco se sabe da sua infância. Apenas se conhece que, aos 10 anos, passou umas férias na corte do seu avô Afonso X, rei de Castela, onde se suspeita que terá adquirido a sua veia artística, já que o avô era igualmente conhecido pelos seus poemas e amor à cultura. Aos 17 anos, em 1279, D. Dinis sobe ao trono, num país que vivia tempos instáveis. Entre 1279-1287, a sua mãe, Beatriz de Castela, queria ser rainha consorte, algo que D. Dinis não aceitou.

Em 1281, o seu irmão D. Afonso colocou em causa a sua competência enquanto rei, tendo D. Dinis imposto a sua vontade e continuando a segurar o trono. Entre 1280-1287, negoceia com a Santa Sé para restabelecer a paz em Portugal, já que a relação com a igreja estava deteriorada há muitos anos, tendo inclusive D. Afonso III sido excomungado. No seguimento, implementou inquirições e leis de desamortização, apesar da contestação dos concelhos e da nobreza.

D. Dinis

D. Dinis

D. Dinis pensara já no seu casamento no início do seu reinado, tendo encontrado a esposa ideal em Isabel de Aragão, conhecida hoje como “Rainha Santa”. O casamento seria realizado dois anos depois, por procuração, em Barcelona, sendo que na altura Isabel tinha 10 anos. A cerimónia em Portugal foi realizada em Trancoso, vivendo depois os noivos em Coimbra. Tiveram dois filhos: D. Constança e D. Afonso, futuro Afonso IV. No entanto, sabe-se que o rei teve vários filhos de relações extraconjugais, que acabaram por ser educados pela rainha.

Depois destes anos conturbados, D. Dinis tomou várias medidas, como a criação de um sistema de leis, a criação de feiras, a aposta na pesca e em outras atividades marítimas, e a cedência de terrenos para cultivar a quem não tinha posses. Foi, no entanto, a agricultura que mais o interessou, procurando interessar toda a população na exploração das terras, e facilitando a sua distribuição.

No Entre Douro e Minho, dividiu as terras em casais, sendo que cada casal veio mais tarde a dar origem a uma povoação. Em Trás-os-Montes, o rei adotou um regime coletivista: as terras eram entregues a um grupo que repartia entre si os encargos, determinados serviços e edifícios comunitários, tais como o forno do pão, o moinho e a guarda do rebanho. Na Estremadura, a forma de povoamento dominante foi a que teve por base o imposto da jugada; outros tipos de divisão foram também utilizados, como, por exemplo, a parceria.

Rainha Santa Isabel

Rainha Santa Isabel, esposa de D. Dinis

No ano de 1290, D. Dinis fundou a primeira universidade do país, que inicialmente se situava em Lisboa e mais tarde passou para Coimbra. Ajudou a desenvolver o pinhal de Leiria (sendo que, ao contrário do que se pensa, não terá sido ele a criá-lo). Em agosto de 1297, juntamente com Fernando IV de Castela, assinou o Tratado de Alcanizes, que reconhecia oficialmente as fronteiras de Portugal.

Foi no ano da assinatura do tratado que D. Dinis decretou que a “língua vulgar” (o galaico-português) fosse usado em vez do latim na corte, e nomeada de português. Assim, o rei adotava uma língua própria para o reino. Em 1296, o português foi adaptado pela chancelaria régia e passou a ser usado na poesia, em notários e na redação de leis. Nasceu assim a Língua Portuguesa.

D. Dinis teve um reinado extraordinário, conseguindo grande prestígio internacional com a mediação do conflito entre Aragão e Castela. Os últimos anos do seu reinado foram, no entanto, conturbados, entrando em guerra com o filho D. Afonso entre 1319 e 1324, tendo acabado por fazer as pazes. Diz-se, no entanto, que a relação com a sua mulher nunca mais foi saudável após o conflito.

D. Dinis falece em Santarém a 7 de janeiro de 1325, com 63 anos (idade avançada para a altura). Foi sepultado no Mosteiro de Odivelas, criado por si. Análises ao seu túmulo revelaram que o rei foi muito saudável, tendo falecido com todos os dentes, media cerca de 1,65 metros de altura e tinha cabelo e barba ruiva.

Fonte: Vortex Magazine

Ainda Ronaldo e a Coca-Cola



Por João Mendes
Gostei de ver a UEFA a sair em defesa da Coca-Cola, na sequência da ronalidice a que assistimos há dois dias. Até porque nem todos se podem dar ao luxo de cuspir no prato onde comeram, como fez Cristiano Ronaldo.
Por causa deste episódio, fui espreitar os patrocinadores oficiais do Euro 2020. E descobri que pelo menos um terço das empresas patrocinadoras são geridas por oligarcas e directamente controladas por um regime totalitário:
Qatar Airways: a companhia aérea de um regime absolutista, cuja Constituição se baseia na Sharia, onde o testemunho de uma mulher em tribunal vale metade - literalmente - do testemunho de um homem, e onde se aplicam penas como a flagelação ou a lapidação. Direitos humanos? Que se fodam os direitos humanos.
Gazprom: empresa energética do regime russo, gerida por um oligarca que come na mão de Vladimir Putin, de seu nome Aleksej Miller. É também um dos principais patrocinadores da Liga dos Campeões. Como se o dinheiro do futebol europeu não fosse já suficientemente sujo.
Hisense: tecnológica chinesa, dona da Lenovo e da Xiaomi, controlada pelo regime de partido único chinês. Tem tentáculos no Schalke 04, na NASCAR, em provas organizadas pela Red Bull e já patrocinou, anteriormente, o Euro 2016 e o Mundial de 2018. Na volta também tratam da "segurança" destes eventos.
Tiktok: rede social chinesa, "propriedade" de Zhang Yiming, um empresário que é o 13° mais rico da China. Vassalo de Xi Jinping, a sua ByteDance, casa-mãe do Tiktok, é suspeita de ser uma fachada para um sistema de vigilância internacional do regime chinês, alimentada pela cortesia dos milhões de utilizadores do Tiktok.
Sorte desta malta, nenhuma destas empresas está sediada em Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte, os três únicos regimes ditatoriais que o Ocidente democrático não tolera. Todos os restantes torturadores, lapidadores e assassinos são bem vindos e neoliberalíssimo capitalismo cá os espera, de braços e pernas bem abertas. Pelo preço certo em euros, tudo se resolve. Que role a bola
⚽🥳

Mais de 110 anos de registos de borboletas na Península Ibérica ajudam a saber como estes insectos respondem a ameaças


Investigadores espanhóis analisaram 115 anos de registos de monitorizações de borboletas na Península Ibérica para descobrir como estes insectos estão a adaptar-se às alterações climáticas e a outras ameaças. O estudo foi publicado recentemente na revista científica Insect Conservation and Diversity.

A diversidade de insectos e a sua abundância está ameaçada por uma série de ameaças, desde logo pelas alterações climáticas, degradação de habitats e poluição. A intensidade destas ameaças varia geograficamente e ao longo do tempo.

Para determinar como os insectos respondem às alterações climáticas, é preciso conhecer as alterações a longo prazo nas comunidades de insectos no maior número de ambientes e ecossistemas possível. Foi isso que fizeram investigadores do Museu Nacional espanhol de Ciências Naturais (MNCN-CSIC) e da Universidade Autónoma de Madrid (UAM), que analisaram os registos de borboletas da Península Ibérica desde 1901 a 2016. Graças a esta larga série temporal, os investigadores comprovaram como a variação climática local e a heterogeneidade topográfica podem proteger, a pequena escala, determinadas comunidades de borboletas dos impactos das alterações climáticas.

“Os insectos são bons indicadores do que se passa na natureza”, disse, em comunicado, Robert Wilson, investigador do MNCN. “As borboletas, o grupo de insectos de que temos mais registos de distribuição na Península, são muito sensíveis a mudanças ambientais, quer dizer, são bons bioindicadores devido também aos seus curtos ciclos de vida.”

“Por outro lado, a zona mediterrânica, área de especial relevância para a biodiversidade, sofre gravemente os efeitos das alterações climáticas, assim como outros factores como o abandono dos solos, com o consequente aumento da cobertura vegetal, a intensa urbanização, a agricultura intensiva ou as secas”, acrescentou.

Com esta investigação, os investigadores comprovaram que as variáveis ambientais como a temperatura e a precipitação variaram significativamente. Mas a resposta das populações de borboletas a estas mudanças não foi tão marcada. Por outro lado, as diferenças na orografia local e a altitude amorteceram a resposta da comunidade ao aumento das temperaturas e das secas, sugerindo que a heterogeneidade topográfica poderá proteger regionalmente as borboletas dos impactos das alterações climáticas.

“Estes resultados sugerem que as comunidades que habitam zonas montanhosas podem estar parcialmente protegidas contra os efeitos das alterações climáticas, já que a variação topográfica, que faz com que lugares muito próximos espacialmente pareçam muitos micro-climas, pode reduzir a taxa de aquecimento”, indica Mario Mingarro, investigador no MNCN.

“Por isso, os efeitos ecológicos das alterações climáticas dependem, em grande medida, da distribuição geográfica de cada espécie. Não obstante, à parte das alterações climáticas, a biodiversidade enfrenta ameaças como as alterações no uso dos solos e este estudo demonstrou que as borboletas responderam a um aumento na cobertura da vegetação arborizada por causa do abandono dos solos”, salientou.

Esta investigação mostra ainda que uma das principais limitações neste tipo de estudos é a quantidade de dados que cada região dispõe, e enfatiza a necessidade de programas de monitorização a longo prazo para poder compreender a resposta dos insectos às mudanças globais.

“Na Península Ibérica estamos a acumular dados de tendências populacionais a partir de programas de monitorização de borboletas há relativamente pouco tempo, ainda que tenha havido programas pioneiros a nível local. Este tipo de dados deve ser analisado em séries anuais longas para podermos interpretá-los correctamente, pelo que serão muito úteis num futuro próximo”, acrescentou Juan Pablo Cancela, do Centro para a Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da Faculdade de Ciências de Lisboa e colaborador nesta investigação.

“Mas enfrentamos desafios muito grandes e graves sobre o diagnóstico das ameaças que as alterações globais representam para os insectos, a biodiversidade e os serviços oferecidos à humanidade pelos ecossistemas dos quais todos dependemos”, comentou Helena Romo, da UAM. “Na medida do possível, é preciso conhecer o nosso património natural através de programas inovadores, que permitam monitorizar os insectos e as suas respostas tanto às alterações globais como quanto aos esforços de conservação.”

Fonte: Wilder

Música do BioTerra: Radiohead - Paranoid Android (Jools Holland-1997)


Please could you stop the noise?
I'm trying to get some rest
From all the unborn chicken
Voices in my head
What's there?
(I may be paranoid, but not an android)
What's there?
(I may be paranoid, but not an android)
When I am king
You will be first against the wall
With your opinion
Which is of no consequence at all
What's there?
(I may be paranoid, but no android)
What's there?
(I may be paranoid, but no android)
Ambition makes you look pretty ugly
Kicking and squealing Gucci little piggy
You don't remember, you don't remember
Why don't you remember my name?
Off with his head, man
Off with his head, man
Why don't you remember my name?
I guess he does
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height
Height
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height
Height
Rain down, rain down
Come on rain down on me
That's it, sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children
God loves his children, yeah

sábado, 19 de junho de 2021

Como fazer corretamente as rotundas?




Mais de três mil condutores foram multados por não saberem “fazer” as rotundas desde que o “novo” Código de Estrada entrou em vigor, em 2014, e até ao final de 2016. Os dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), divulgados pelo “Jornal de Notícias”, mostram, de forma clara, que circular em rotunda não é tão fácil quanto parece.

A rotunda é um espaço de circulação rodoviária, onde o trânsito se processa em sentido giratório, num único sentido, em torno de uma placa central geralmente circular. Dada a confusão existente, resumimos aqui as regras essenciais que deve saber para corretamente utilizar uma rotunda.

O artigo nº 16º do Código da Estrada indica que nas rotundas o trânsito se faz de modo a dar a esquerda à parte central da mesma, pelo que o trânsito se efetua em sentido oposto ao dos ponteiros do relógio. Em Inglaterra, dado que aí se conduz com o volante à direita, a regra é a oposta.

Ceder prioridade

De acordo com o artigo nº 31º do Código da Estrada, os condutores que se aproximam de uma rotunda perdem prioridade, devendo ceder a passagem a quem nela circula.

Antes de entrar numa rotunda o condutor deve também posicionar-se de acordo com o local onde pretende dela sair. Assim, se pretende sair na primeira saída (ou na segunda saída numa rotunda pequena) deve, na aproximação à rotunda, entrar pela via da direita. Se, por outro lado, pretende contornar mais de metade da rotunda então deve entrar pela via da esquerda.

Fazer pisca

À entrada da rotunda, o condutor deve ainda assinalar a sua intenção de se inserir na via da direita para sair na primeira saída da rotunda, utilizando o sinal de mudança de direção da direita (o “pisca”). Se, por outro lado, pretender inserir-se na via central ou na esquerda dentro da rotunda, deve sinalizar a manobra para a esquerda, abrindo o “pisca”.

Já dentro da rotunda, enquanto circula na mesma via, deve manter ligado o sinal de mudança de direção à esquerda, exceto se pretende sair ou mudar para uma via mais à direita, caso em que deve utilizar o sinal de mudança de direção para a direita. O “pisca” é sempre indispensável.
À direita só antes de sair

Quando pretender sair da rotunda só deve ocupar a via de trânsito mais à direita após passar a via de saída imediatamente anterior àquela por onde pretende sair, aproximando-se progressivamente desta e mudando de via depois de tomadas as devidas precauções.

Apoiamo-nos de seguida no material que o Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) elaborou sobre este tema para exemplificarmos, através de diagrama, como se deve processar a circulação numa rotunda. Uma imagem vale afinal mais do que mil palavras.





sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ecosofia



A palavra “hermenêutica” vem do grego e significa “interpretação”. No coração de hermenêutica há um nome próprio: “Hermes”. “Hermenêutica” : “arte relativa a Hermes”. Quando Dioniso foi despedaçado por seus carrascos , Hermes guardou de Dioniso o coração , semente da arte de renascer. Deus mensageiro, Hermes agora também transportava o coração como mensagem primeira . Simbolicamente, isso significa que o sentido das mensagens que alguém lê e interpreta depende , em primeiro lugar, do coração que a pessoa tem : se o coração for pequeno, apequenará o sentido; se o coração for generoso, enriquecerá a mensagem ; se o coração for ignorante, surdo será a toda mensagem; se o coração for sábio, aprenderá a ouvir a mensagem ( por mais simples que a mensagem seja).
A Constituição Brasileira está fundada na seguinte mensagem: a “Dignidade da Pessoa Humana”. Essa mensagem tem sentido político, social, sanitário, educacional...O coração dessa mensagem é a ideia de “pessoa”. Mas pessoa não é o mesmo que ego, tampouco é uma dimensão apenas individual-neoliberal. A própria linguagem nos auxilia a compreender a dimensão plural da pessoa, pois existem seis pessoas: as três pessoas do singular ( eu, tu , ele) mais as três pessoas do plural ( nós, vós , eles). Deleuze afirma que há ainda uma “quarta pessoa do singular”, a que se expressa no pronome reflexivo “se” ( como em “pensa-se”).
Assim, a “pessoa humana” não é apenas o “eu”, ela é também o “nós”. Quando a pessoa individual sofre uma injustiça ou se vê no hospital à beira da morte por culpa de um governo genocida, é a pessoa coletiva “nós” que também se vê ameaçada e atingida, pois faz parte desse nós aquela pessoa que o poder trata como mera estatística. Uma das características de todo poder genocida é tratar o nós, o nós coletivo e plural, como um “eles”. Pois o pronome “ele” também pode ser aplicado a uma coisa, como na frase: “onde guardei ele, o celular?” . O poder genocida reduz toda pessoa ao “ele” da coisa : para fazer da morte de uma pessoa apenas um “CPF cancelado”...
O que caracteriza toda pessoa , e a distingue das meras coisas , é a capacidade de pensar, sentir e agir. Não é apenas a primeira pessoa do singular que é capaz disso, também é capaz a primeira pessoa do plural, o nós. Não é somente o “eu” que tem coração, o nós também precisa ter, pois é desse coração coletivo que podem nascer empatias, agenciamentos e a interpretação ativa do que precisamos fazer para mudar uma situação de indignidade e opressão. “Coragem” vem do latim “cor”: “coração”.
Assim, pensa pouco quem apenas diz ensimesmado: “Eu penso, logo existo”. Espinosa ensina que há mais potência libertária quando conjugamos o pensar , o sentir e o agir na primeira pessoa do plural , pois o coração da democracia é esta mensagem: “nós devemos pensar, sentir e agir coletivamente para tornarmos nossa existência social digna”.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Pedrógão Grande: 4 anos duma tragédia a nunca esquecer!



Em mais um 17 de junho, após a tragédia de Pedrógão, e em nome das suas vítimas, não podia a Íris, Associação Nacional de Ambiente, deixar de se pronunciar sobre a resposta política, entretanto desenvolvida, nomeadamente no que diz respeito à recuperação da área florestal ardida.
Quatro anos e três Secretários de Estado das Florestas depois, falhou redondamente a operacionalização de todos os planos, aprovados pelo Governo.
Três Secretários de Estado das Florestas, três inflexões na coerência de planeamento e operacionalização, de uma mesma Política Florestal, demonstram bem o divórcio entre o discurso imediatista e a ação, que se reclama projetada a longo prazo, na reconstrução da Floresta.
O plano de Revitalização do Pinhal Interior, revelou-se um autêntico fiasco em relação à floresta modelo, em Projeto Piloto, no que reporta ao seu ordenamento e reflorestação, com uma abaixa adesão aos apoios” do PDR 2020 (Programa de Desenvolvimento Rural), em que dos 16 milhões de euros disponibilizados, foram apenas mobilizados cerca de 900 mil euros, no total de 41 projetos aprovados.
Atrás de planos, planos vêm. A produção de planos é grande, mas a sua operacionalização nula.
Transformou-se a área ardida em “novo paiol”, enquanto se criam novos planos de transformação da paisagem.
Apesar de tudo, resta sempre a esperança, da transformação gradual da sensibilidade cívica aos problemas ambientais, que dite uma chance maior à efetiva Transformação da Paisagem.

Ler mais
  1. Pedrógão Grande: Quatro anos depois, a paisagem está em “colapso”. Associação das vítimas diz que pouco mudou
  2. Pedrógão Grande: dezenas de casas reconstruídas têm apenas o vento por inquilino

Reportagem- Ecoaldeia de Cabrum Permacultura, sustentabilidade em Portugal | Sustainability permaculture


A ecoaldeia de Cabrum, uma Comunidade hippie com 17 habitantes, que apostam na permacultura e sustentabilidade. Viver no campo num modo de vida sustentável.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Covid-19: Um ano depois, o consumo de vida selvagem diminuiu 30%


Já passou um ano desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a situação de pandemia devido à propagação em grande escala da Covid-19. Desde então que os hábitos dos consumidores sofreram alterações, especialmente no que toca ao consumo de animais selvagens, dado que uma das ideias iniciais é que a doença tenha origem num mercado em Wuhan, na China.

O novo relatório da WWF “Covid-19 One year later”, revela as perceções e mudanças por parte das populações de Mianmar, Tailândia e Vietname, China e Estados Unidos. De acordo com os resultados, 30% dos inquiridos reduziram ou pararam o consumo de animais selvagens.

Em paralelo, mais de 80% acredita que o fecho dos mercados de animais selvagens é necessário para prevenir a propagação de doenças pandémicas no futuro, e admitem apoiar o Governo e os Ministérios da Saúde no fecho dos mesmos.

Relativamente às compras de espécies selvagens nos mercados nos últimos 12 meses, 14% dos inquiridos afirmam tê-lo feito no Vietname, 11% na Tailândia e 10% na China. As espécies mais compradas correspondem, por ordem decrescente, a pássaros vivos, cobras, tartarugas, morcegos, civetas e pangolins.

Por outro lado, mais de 90% – e apenas 68% dos inquiridos dos Estados Unidos – apoiam fortemente os esforços para preservar as florestas e para travar a desflorestação no seu próprio país ou em outros, como meio de prevenir futuras pandemias.

Carter Roberts, CEO da WWF dos Estados Unidos, afirma: “O mundo teve um curso intensivo sobre pandemias no ano passado. Prevenir o futuro exige que reparemos o nosso relacionamento estragado com a natureza, e isso começa com o fim do comércio e do consumo de vida selvagem de alto risco e o fim da desflorestação. Esta nova investigação mostra que o público apoia essas mudanças. Na WWF, o nosso próximo passo será trabalhar com governos, empresas e consumidores para converter essas atitudes em ações e garantir que sejam cumpridas”.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Especialistas que identificaram a Covid-19 alertam para perigo de nova pandemia


Dois cientistas chineses, George Fu Gao e Weifeng Shi, que identificaram o vírus que causa a Covid-19, em 2019, lançaram um alerta para o perigo de uma nova pandemia, segundo o ‘El País’.

Num artigo publicado na revista ‘Science’, os especialistas apontam como principal suspeito para essa possível pandemia o vírus responsável pela conhecida gripe das aves: H5N8.

O patógeno é um velho conhecido. Circula na Europa desde 2014, causando surtos que afetaram milhões de aves, de acordo com o Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC).

A 20 de fevereiro de 2021, a Rússia avisou que o vírus tinha atingido os humanos pela primeira vez. Sete trabalhadores foram infetados numa gigantesca quinta com 900 mil galinhas, na região de Astrakhan, no sul do país. Nenhum dos sete apresentou sintomas.

Em Espanha, o Ministério da Agricultura declarou nos últimos meses três surtos em aves selvagens, mas o assunto não mereceu grande relevância. “A deteção deste caso não implica risco para a saúde pública, pois estudos genéticos mostram que se trata de um vírus aviário sem afinidade específica para humanos”, disse em comunicado.

Contudo, estes dois especialistas chineses estão menos otimistas. “A disseminação mundial do vírus da gripe aviária H5N8 é um problema de saúde pública”, alertam na revista Science.

George Fu Gao é o diretor geral do Centro Chinês para o Controlo e Prevenção de Doenças e Weifeng Shi é o diretor do Laboratório de Referência para Doenças Infeciosas Emergentes nas Universidades de Shandong.

Ambos participaram da identificação do novo coronavírus em dezembro de 2019.

Para estes responsáveis, os vírus da gripe aviária podem causar “pandemias desastrosas” em humanos.

Pelo menos 46 países na Europa, Ásia e África reportaram surtos mortais de H5N8 em aves. Os investigadores chineses sublinham que o vírus dos sete trabalhadores russos pertencia ao subgrupo 2.3.4.4b, com mutações “preocupantes”, que parecem aumentar a sua afinidade por células humanas.

Essa mesma variante do vírus já causou o abate de mais de 20 milhões de aves na Coreia do Sul e no Japão, alertam Fu Gao e Shi. “É imperativo que a disseminação global e o risco potencial do vírus da gripe aviária H5N8 não sejam ignorados”, alertam.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Estudem, que vos faz falta, por Pacheco Pereira

 


1Tive honras, esta semana, de quase metade da opinião de um dia do PÚBLICO, Palma no meio e Tavares no fim. Palma, aliás, está num activismo de tweets e entrevistas a insultar-me, descuidado quer nos seus atributos académicos, quer nos meus, e dizendo que tem medo que eu faça parte de uma comissão de censura do artigo 6.º da Carta dos Direitosque ajudei a denunciar… Descuidado é um eufemismo. O pano de fundo é político. A convenção do MEL correu mal, primeiro porque a defesa do regime salazarista-caetanista tornou-se incómoda e isso faz lembrar que esta direita radical precisa de “lavar” 48 anos de ditadura em que esteve no poder; e depois porque, com as palavras de Rio sobre o posicionamento ideológico do PSD, a captura do partido para a tribo ainda não foi conseguida. É isto que justifica tanta fúria, o resto são pretextos. Acresce que, como diz a expressão popular, meteram o pé na poça, sabem disso e agora andam a justificar-se por todo o lado.

2. Comecemos pela vitimização das pobres vítimas da “ditadura da memória” e de campanhas contra o seu “prestígio” académico, da censura do politicamente correcto, da manipulação esquerdista da história da “Velha Senhora”, por aí adiante. Quanto à vitimização, a mim, que não tenho feitio para o papel de vítima, parece-me sempre coisa de fracos. Acho demasiado cobarde, e percebo como pôr a independência e liberdade de pensar e de falar antes da carreira, do dinheiro e dos 15 minutos de fama tribal incomodam muito. Aprendi também com os velhos anarquistas que um homem de joelhos a fazer de Calimero é apenas meio homem.

3. A vitimização é uma técnica conhecida para suscitar simpatia, muito usada por quem tem por tradição e hábito o ataque pessoal. Já repararam como Tavares usa o nome de pessoas quase sempre nos títulos dos artigos? Já reparam como Palma rapidamente aprendeu a lição e o estilo? Dá resultados, alimenta o monstro do populismo, mas não é novidade, é uma antiga tradição da direita radical e da extrema-direita e do seu “jornalismo”, um pouco por todo o lado, do caso Dreyfus à Fox News e aos tweets de Trump ou de Marjorie Taylor Greene. Se for preciso, mando bibliografia.

Livro da 1.ª classe na ditadura. Nas versões dos anos 60, esta franqueza apologética diminuiu, mas a endoutrinação, principalmente quanto ao colonialismo, acentuou-se

4. Vamos, para se perceber o mecanismo da retórica política usada na intervenção no MEL, que nada tem de académico, mostrar como ela funciona. Um exemplo: de 1933 a 1942, ou seja, já bem dentro da II Guerra, os alemães melhoraram as suas condições de vida, o PNB alemão aumentou significativamente, os salários dos operários alemães cresceram, as condições de “alegria no trabalho” dos operários eram excelentes, havia cruzeiros para trabalhadores, campos de férias, excursões, as mulheres alemãs arianas tinham assistência na maternidade, havia um programa de habitações operárias, ar livre e medicina para matar as anomalias dos deficientes e robustecer os soldados, naturismo, apologia do corpo ariano, etc., etc.

5. Se eu disser apenas isto, não estou a fazer história, estou a escrever um manifesto político que funciona como legitimação do nazismo, mesmo que diga que “no plano político era indefensável”. Falta o resto e o resto é explicativo para os sucessos anteriores. A ausência de lei e de liberdade, de sindicatos, de direitos laborais, o papel da economia militarizada, mais de um milhão de presos políticos, trabalhos forçados de estrangeiros, seis milhões de mortos no Holocausto, 25 milhões de mortos na guerra na URSS, sete milhões na própria Alemanha, execuções em massa, etc., etc., tudo com apoio popular – se houvesse eleições, Hitler ganhava-as. Por comparação com a República de Weimar, a frágil experiência democrática do pós-guerra, o nazismo ganha e não é por pouco. E, se não houvesse Plano Marshall, ganhava durante muitos anos à República Federal Alemã. Se for preciso, mando bibliografia. (Para depois não perder tempo a responder a fantasmas, afirmo desde já que Salazar não era Adolf Hitler, mas a retórica de Palma funciona bem para os dois casos, porque o mecanismo é o mesmo.)

6. Quanto à pergunta de Palma: podem os regimes autocráticos ser eficazes no combate ao analfabetismo? Sem dúvida que sim, e a resposta pode ser dada com dois exemplos: a URSS e Cuba. Em particular Cuba, mais rápida e eficaz do que o “Estado Novo”, e não só para as crianças. O que é que isso justifica? A seguir o seu raciocínio no discurso no MEL, o carácter “superior” do socialismo. Se for preciso, mando bibliografia.

7. O problema disto tudo é o contexto. É suposto que nada, a começar por estatísticas, seja apresentado com uma série de conclusões sem contexto, ainda por cima em matérias que são densas de significado político. Foi a crítica que fiz e faço. Nunca disse que não havia prevenções, mais ou menos tímidas, sobre o carácter “indefensável” do “Estado Novo”, a questão é que essas prevenções são mera retórica, nenhum papel têm na economia argumentativa, nem na lógica dos raciocínios, nem estão presentes em qualquer causalidade, não têm pura e simplesmente função, quer no texto do artigo originário, quer na intervenção no MEL. São proclamações, não são argumentos. Podiam não estar lá e nada mudava.

Palma e Tavares estão confortáveis na sua tribo e usam invectivas e ataques pessoais como gritos de guerra. Recebem demasiada complacência e palmas para o ego. Vão continuar, porque não há nada como os falhanços para estimular a persistência nos radicais.

8. Chamar a Palma e a Tavares “fascistas” é um erro que, aliás, nunca cometi. Eles são outra coisa. Em 2021, são radicais de direita de uma actual geração, cujas intervenções públicas vivem da defesa de governos “fortes” da TINA, a que chamam “anti-socialistas”, ligados aos interesses económicos, ou da nostalgia de momentos autoritários de forte conteúdo inconstitucional, como aconteceu no Governo troika-Passos-Portas, e tendo como alvo as classes médias “baixas”, aquelas que saíram da pobreza através do Estado, em Portugal como em toda a Europa – daí a sanha contra os funcionários públicos, assente numa concepção neoliberal da economia, na negação de direitos aos trabalhadores. São tradicionalistas quando lhes convém, radicalizados em política, todos despachados em matérias de alguns costumes, mas não quanto aos direitos sociais. Não são genuínos conservadores, acham socialista a doutrina social da Igreja, e o actual Papa um comunista disfarçado, não têm uma mínima empatia com os mais fracos, os excluídos, usam grandes palavras como liberdade para justificar sociedades desiguais e moralmente inaceitáveis por gente que preza a dignidade humana. Se estivessem nos anos 20-30 do século XX, seriam propagandistas do Integralismo Lusitano, mas não camisas azuis do Nacional Sindicalismo, porque isso metia muita rua e podia dar pancada.

9. Até dá dó a facilidade com que se pode responder a Palma e Tavares. Palma quis dar ao MEL um sustento doutoral para a sua tese sobre os 20 anos de estagnação do “país falhado que é Portugal” (que inclui Sócrates, Passos e Costa, strange bedfellows). Tavares acrescenta-lhe meia dúzia de confrangedoras manipulações disfarçadas por palavras arrogantes e muita vitimização, o habitual todas as semanas. Não há estudo, nem conhecimento, nem pensamento, nem acham que seja preciso. Eles estão a fazer propaganda política, mas não assumem que seja isto que estão a fazer. Precisam do rótulo académico, que é também uma velha técnica para evitar a discussão e usar argumentos de autoridade. Não sabem nada da história portuguesa do século XX, e o mais grave é que não querem saber. Acima de tudo não a querem “sentir”, na sua enorme e longa violência, porque isso lhes dá uma má genealogia.

10. Eu aconselho-os a estudar, mas não tenho nenhuma dúvida de que não vão aprender. Estão confortáveis na sua tribo e usam invectivas e ataques pessoais como gritos de guerra. Recebem demasiada complacência e palmas para o ego. Vão continuar, porque não há nada como os falhanços para estimular a persistência nos radicais. Tenho mais que fazer. Boa sorte.

Historiador

Moral behavior in animals por Frans de Waal


Empathy, cooperation, fairness and reciprocity - caring about the well-being of others seems like a very human trait. But Frans de Waal shares some surprising videos of behavioral tests, on primates and other mammals, that show how many of these moral traits all of us share.

domingo, 13 de junho de 2021

Música do BioTerra: Joy Division- Warsaw [Full Album]


Tracklist 
A1 All Of This For You 00:00​ 
A2 Leaders Of Men 01:42​ 
A3 They Walked In Line 04:05​ 
A4 Failures 06.48 
A5 Novelty 09.17 
A6 No Love Lost 13:09​ 
B1 Transmission 18:00​ 
B2 Living In The Ice Age 22:17​ 
B3 Interzone 24:44​ 
B4 Warsaw 26:54​ 
B5 Shadowplay 29:08