Mostrar mensagens com a etiqueta Irlanda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Irlanda. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Fontaines D.C. - Marianne

Melhor som aqui
Conheço o trabalho impactante dos Fontaines D.C. e sigo-os atentamente desde Dogrel (2019). Na era da fragmentação cultural e dos algoritmos de recomendação, já não existem 'hinos geracionais' capazes de unir populações inteiras como acontecia nas décadas de 1960 ou 1970 - ou como a contracultura punk, que foi cooptada e virou entretenimento. Hoje, a música de intervenção opera em nichos. A banda fala para uma bolha informada e consciente, mas que já partilha das mesmas angústias e do mesmo sentimento de impotência. Deixaram, assim, de ser a voz da raiva jovem que protesta nas ruas para se tornarem os cronistas da exaustão existencial de uma geração que começa a sentir o peso do cansaço, a perda do idealismo de juventude e o perigo da apatia cívica no mundo contemporâneo.

A canção "Marianne", dos Fontaines D.C., insere-se num estilo marcado pelo Rock Alternativo / Pós-Punk, incorporando elementos de Synth-Rock, Indie Rock e Art Rock. No que diz respeito às principais características sonoras do tema, destaca-se o Post-Punk Moderno, que mantém a linha de baixo pulsante e expressiva - característica fundadora do género - aliada a uma atmosfera densa e soturna. A presença de texturas eletrónicas e sintetizadores (Synth-Rock / Industrial Lite) contrasta com os discos de estreia da banda, nos quais predominavam as guitarras cruas; aqui, a faixa utiliza loops mecânicos e timbres sintéticos que conferem ao tema um tom hipnótico, frio e moderno. Além disso, a vertente de Art Rock e a orquestração noir enriquecem a faixa com arranjos mais cinematográficos e dramáticos, marcados por "floreios orquestrais noir" e camadas que constroem uma tensão progressiva. Por sua vez, o Indie Rock e o Shoegaze subtil fazem com que as guitarras funcionem mais como "paredes de som" difusas e com efeitos (reverb, delay) do que propriamente com riffs diretos de garagem. Esta sonoridade reflete um resumo claro da evolução estética dos Fontaines D.C., assinalando a transição da banda irlandesa - originária de Dublin — da sua sonoridade inicial de Punk/Post-Punk de garagem, cru e acelerado, para uma estética mais ambiciosa, polida e eletrónica, na qual a eletrónica e o rock alternativo dos anos 90 servem de base para a atmosfera de anestesia e alienação descrita na letra. No que concerne ao significado da canção, "Marianne" aborda o escapismo, o entorpecimento emocional e a ténue fronteira entre a obsessão e a autodestruição. Em termos de intervenção, a faixa não funciona como uma canção de protesto político tradicional de intervenção direta, mas constrói uma crítica existencial e social sobre o vazio da sociedade moderna, questionando para onde se pode fugir quando o próprio ato de escapar se torna cada vez mais difícil num mundo dominado pela alienação.  O videoclipe do tema, dirigido pelo prestigiado realizador Dave Meyers, traduz visualmente esta carga dramática através de uma estética alucinógena e cinematográfica. O clipe explora a perda de identidade e a claustrofobia num ambiente surreal que espelha o tom entorpecedor da música. Esta ambiência liga-se diretamente às influências literárias e filosóficas do tema: literariamente, a banda inspira-se no conceito de reinvenção e farsa associado à obra de Patricia Highsmith (The Talented Mr. Ripley) e na poesia fragmentada do modernismo; do ponto de vista filosófico, a faixa bebe do Existencialismo e do Niilismo, ao retratar a busca por anestesia não como uma libertação triunfante, mas como uma diluição existencial no meio da modernidade. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Caoilfhionn Rose - Canyons


A atuação ao vivo de "Canyons" pela cantora e compositora britânica (com raízes familiares irlandesas e sediada em Manchester) Caoilfhionn Rose transmite uma beleza singular ao despir-se de artifícios de produção, apostando plenamente na atmosfera, na geografia e na textura sonora. Gravado numa encosta remota junto ao Loch Cluanie, na Escócia, o vídeo regista um momento puro e autêntico, onde a sua voz e a guitarra acústica azul interagem diretamente com o ar livre. Em vez de recorrer a um estúdio requintado, a atuação apoia-se na acústica natural, no vento ambiente discreto e num cenário vasto e contemplativo que espelha fisicamente os temas da canção sobre distância, espaço e perspetiva.

Musicalmente, a peça cruza o folk tradicional com nuances atmosféricas de dream pop e jazz espiritual, um estilo distintivo associado à sua editora, a Gondwana Records. A sua interpretação vocal leve e delicada cria um contraste íntimo com a imensidão da paisagem escocesa.

Em termos de influências literárias e filosóficas, o tema inspira-se diretamente no livro On Connection do poeta e dramaturgo britânico Kae Tempest, bem como em reflexões de cariz existencialista e estoico sobre a transitoriedade do tempo. A letra aborda o distanciamento emocional - os "desfiladeiros" que se abrem entre as pessoas - não como uma tragédia, mas sim como um lembrete sereno para valorizar o presente e aceitar os ciclos de mudança da vida. A obra destaca-se por parecer menos um videoclipe encenado e mais um registo íntimo e espontâneo capturado em viagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Shakespears Sister - Hello (Turn Your Radio On)

Melhor som aqui
O Significado e o Mitologismo de Hello (Turn Your Radio On) de Shakespears Sister
As Shakespears Sister foram um projeto britânico de synth-pop, pop gótico e glam rock formado no Reino Unido no final dos anos 80, integrando a cantora e compositora irlandesa Siobhan Fahey (ex-membro fundador das Bananarama) e a norte-americana Marcella Detroit. Lançado em 1992 como um dos singles principais do aclamado álbum Hormonally Yours, o tema "Hello (Turn Your Radio On)" destaca-se como uma das composições mais emotivas e atmosféricas da música pop dessa época, combinando arranjos sinfónicos sumptuosos com uma sensibilidade melancólica e dramática.

A canção é uma reflexão existencialista sobre a solidão, a vulnerabilidade humana, a impermanência e a procura desesperada por ligação num mundo alienante e moderno. O ato de ligar o rádio funciona como a metáfora central do tema: o recetor representa uma ponte entre o isolamento individual e a voz do mundo exterior, um sinal na escuridão para nos recordar de que não estamos sozinhos nas nossas dores. Marcella Detroit e Siobhan Fahey vocalizam a efemeridade das conquistas terrenas e o desejo primordial de validação através da expressão artística.

O videoclipe oficial foi realizado pela lendária realizadora britânica Sophie Muller, responsável por definir a identidade estética sombria e teatral do duo. Filmado com um apurado contraste a preto e branco que evoca a atmosfera do cinema mudo e do melodrama vitoriano, o vídeo coloca as artistas a atuar no interior de um armário claustrofóbico que se abre no início da narrativa e se fecha no final. Essa encenação visual reforça o sentimento de clausura e o desejo de evasão, transformando a performance numa experiência quase ritualística.

Essa linguagem estético-narrativa estabelece uma ponte direta com o ensaio feminista de 1929 de Virginia Woolf, Um Quarto Que Seja Seu (A Room of One's Own), do qual brotou a premissa para o próprio nome da banda (através do tema "Shakespeare's Sister" dos The Smiths). No seu ensaio, Woolf cria a figura hipotética de Judith, a genial irmã de Shakespeare que acabou por suicidar-se na obscuridade por lhe ser negada a liberdade, a educação e um espaço próprio de criação sob o patriarcado. Sophie Muller e a banda convertem essa clausura histórica numa afirmação artística de libertação. Ao projetarem a sua voz a partir do espaço confinado do cenário, e ao subverterem os arquétipos vitorianos da "mulher angelical" versus a "louca no sótão" através do contraste entre as personas de Marcella e Siobhan, as Shakespears Sister oferecem simbolicamente um palco à voz silenciada da irmã esquecida do dramaturgo. 

Página Oficial
Shakespears Sister

terça-feira, 21 de julho de 2026

The Smashing Pumpkins - Stand Inside Your Love

Melhor som aqui

Letra
You and me
Meant to be
Immutable
Impossible
It's destiny
Pure lunacy
Incalculable
Insufferable (Inseparable)

But for the last time
You're everything that I want and asked for
You're all that i dream

Who wouldn't be the one you love
Who wouldn't stand inside Your love?
Protected and the lover of

A pure soul
And beautiful
You
Don't understand
Don't fear (feel) me now
I will breathe for the both of us
Travel the world
Traverse the skies
Your home is here
Within my heart

And for the first time
I feel as though i am reborn in my mind
Recast as child and mystic sage

Who wouldn't be the one you love?
Who wouldn't stand inside our love?

And for the first time
I'm telling you how much i need and bleed for
Your every move and waking sound in my time
I'll wrap my wire around your heart
and your mind
You're mine forever now

Who wouldn't be the one you love and live for?
Who wouldn't stand inside your love and die for?
Who wouldn't be the one you love?

Simbolismo, estética Gótica e shoegaze sinfónico na obra-prima dos The Smashing Pumpkins
Lançada no ano 2000 como o segundo single do álbum Machina/The Machines of God, "Stand Inside Your Love" é uma das composições mais marcantes da banda de rock alternativo The Smashing Pumpkins, fundada em Chicago, nos Estados Unidos da América. 
Do ponto de vista estético e sonoro, a canção insere-se no rock alternativo com uma forte matriz de rock gótico, shoegaze e dream pop, caraterizada por camadas densas de guitarras distorcidas mas melodiosas, um ritmo cavalgante de bateria e arranjos de grande amplitude dramática que roçam o rock sinfónico.
Liricamente, a canção representa um momento singular na obra do vocalista e compositor Billy Corgan. Concebida como uma declaração de afeto à sua namorada da altura, a fotógrafa e artista ucraniana Yelena Yemchuk, a faixa foi descrita pelo próprio Corgan como a sua tentativa de escrever "a canção de amor definitiva". Afastando-se do cinismo, da angústia e da alienação habitual no rock dos anos 90, o significado do tema centra-se na devoção romanticamente absoluta, na vulnerabilidade e no amor enquanto refúgio e força redentora. 
O ato de "estar dentro do amor de alguém" simboliza a rendição total do ego a uma união espiritual mais elevada, onde a entrega emocional não é vista como uma fraqueza, mas sim como um escudo contra a decadência do mundo exterior.
O videoclipe da canção, realizado pelo cineasta britânico W.I.Z., amplia esta carga dramática ao transpor a narrativa para uma estética teatral expressionista e decadentista em preto e branco. Protagonizado por Billy Corgan e Yelena Yemchuk, o teledisco é uma reinterpretação visual da tragédia literária Salomé (1891), do escritor irlandês Oscar Wilde. No teledisco, Corgan assume uma figura trágica e devota, enquanto Yemchuk encarna a figura enigmática e hipnotizante de Salomé, criando uma atmosfera gótica de desejo, paixão e fatalismo onde a beleza e a tragédia coexistem.
As influências literárias e filosóficas da obra assentam profundamente no Esteticismo e no Decadentismo do final do século XIX, refletindo a obra de Wilde e as célebres ilustrações a tinta da China de Aubrey Beardsley. A canção e o vídeo bebem também do Romantismo do século XIX, explorando a filosofia do sublime e o conceito do amor trágico e devocional (l'amour fou), no qual a união amorosa é encarada como uma experiência mística quase sacra. Ao fundir a espiritualidade alquímica do conceito do álbum Machina com o drama existencialista da finitude humana, "Stand Inside Your Love" estabelece um diálogo permanente entre o desejo de imortalidade do espírito através do afeto e a fragilidade inevitável da condição humana.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Irlanda é o cão de colo das grandes tecnológicas - e isso compromete a sua presidência da União Europeia

Irlanda assume Presidência do Conselho da UE. Saiba mais aqui
Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

À primeira vista, a Irlanda comporta-se como uma boa europeia, sendo uma firme defensora dos direitos humanos e um farol de progressismo na extremidade ocidental do continente. Mas há uma área vital onde o seu historial está longe de ser perfeito - uma área que deve suscitar preocupação depois de o governo irlandês assumir a presidência rotativa semestral da UE, a 1 de julho. O pacote de regras da UE para a tecnologia e a inteligência artificial será renegociado durante esse mesmo período, mas o Estado e a economia irlandeses foram capturados pelas grandes tecnológicas (big tech). A Irlanda está de tal forma comprometida que, enquanto presidente do Conselho da UE, deveria declarar-se impedida de participar em todas as negociações sobre tecnologia e soberania digital.

A última vez que a Irlanda deteve a presidência da UE foi em 2013, durante as negociações do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Um memorando do Facebook descreve uma reunião de 2013 na qual os executivos da empresa se reuniram com o então primeiro-ministro da Irlanda para se queixarem das regras propostas para a privacidade de dados. Saíram do encontro convictos de que tinham a garantia de Enda Kenny de que a Irlanda usaria a sua “influência significativa” como presidente do Conselho da UE para assegurar o que o Facebook apelidou de um “resultado positivo”. Os executivos também participaram num “jantar organizado por políticos irlandeses de topo para analisar as várias formas através das quais os irlandeses poderiam ser prestáveis”.

Os 27 Estados-membros da UE alternam entre si a liderança da presidência. O país incumbente preside às reuniões e, na prática, controla o ritmo das negociações da legislação europeia. Pode prioritizar certos temas e deixar deslizar outros. Por exemplo, Chipre, um país pequeno e vulnerável numa região volátil, conseguiu utilizar a sua presidência, de janeiro a junho deste ano, para colocar os compromissos de defesa mútua na agenda europeia.

Atraídos por benefícios fiscais e por uma cultura de complacência cordial, gigantes como a Google, Meta, Apple, Microsoft, OpenAI, TikTok e X estabeleceram todos as suas sedes europeias na Irlanda. O princípio do “país de origem” da UE determina que o país que acolhe a sede europeia de uma empresa é o responsável por regulá-la em toda a UE. Esta particularidade jurídica transformou a Comissão de Proteção de Dados (DPC) da Irlanda no principal regulador da Europa para o setor tecnológico: a Irlanda pressionou para que assim fosse enquanto presidente do Conselho, em 2013.

Os efeitos deste arranjo são avassaladores. A presidente da DPC admitiu recentemente que, à exceção de “resoluções amigáveis” sobre questões triviais, a Irlanda não concluiu um único inquérito europeu à Google ou a qualquer uma das suas subsidiárias nos dez anos decorridos desde a promulgação do RGPD. As proteções à escala europeia estão paralisadas porque todos os outros Estados-membros têm de esperar que a Irlanda aja numa resposta conjunta da UE.

Quando a DPC aplicou sanções contra empresas tecnológicas, fê-lo de forma deficiente e sob coação de outros reguladores europeus. Agiu, de facto, com uma celeridade invulgar num caso específico, contra a IA Grok de Elon Musk, mas aceitou depois um acordo que parece ter colapsado. O regulador dos média da Irlanda, Coimisiún na Meán, goza de melhor reputação, mas dispõe de poderes muito mais fracos. Há já uma década que a Irlanda mantém aberta a porta dos fundos da regulação, permitindo que gigantescas empresas norte-americanas e chinesas operem com impunidade por toda a Europa. Tornou-se não apenas um paraíso fiscal, mas um paraíso regulatório.

A dependência económica é gritante. Três empresas norte-americanas foram responsáveis por quase metade das receitas fiscais sobre as sociedades na Irlanda em 2024. Em 2022, a Irlanda arrecadou quase cinco vezes mais impostos sobre as sociedades por habitante do que a França ou a Alemanha. Pode-se admirar um país outrora pequeno, pobre e não industrializado por ter ganho a "corrida ao fundo" e se ter tornado rico. Mas as consequências têm sido nefastas para a democracia, a competitividade e a segurança europeias - e, em particular, para as crianças.

O filme de 2026 “Molly vs. the Machines” conta a história de como os algoritmos das redes sociais empurraram conteúdos suicidas para o feed de Molly Russell, de 14 anos, que pôs fim à própria vida em 2017. Há e haverá mais Mollys por toda a Europa, a menos que a Irlanda comece a aplicar as regras de dados da UE que exigem que os “algoritmos de recomendação” sejam desativados por defeito, dado que se alimentam de dados particularmente íntimos.

A Irlanda pode já nem sequer estar a tentar manter as aparências. A mais recente comissária de proteção de dados do país, Niamh Sweeney, foi anteriormente a principal lobista da Meta na Irlanda durante o escândalo da Cambridge Analytica e o período sombrio marcado pelas revelações da denunciante Frances Haugen. O processo do governo irlandês para recrutar Sweeney foi absurdo: o único especialista em tecnologia no júri de seleção era um advogado das grandes tecnológicas. Os critérios de seleção focaram-se em competências genéricas, como a “gestão de relacionamentos”, em vez de tentar contratar um fiscal capaz de investigar as empresas tecnologicamente mais sofisticadas do mundo. Ninguém verificou, durante o processo de contratação, se a candidata indigitada estava vinculada à notória prática da Meta de proibir ex-funcionários de a criticarem - o que amordaçou de forma tão absoluta a antiga executiva e denunciante da Meta, Sarah Wynn-Williams. A Irlanda dota a DPC de dezenas de milhões de euros para operar, mas lobotomiza-a.

E as portas giratórias continuam a rodar: a anterior comissária de proteção de dados, Helen Dixon, acaba de começar a trabalhar para a sociedade de advogados da Meta. A firma continua a deparar-se com vários casos em aberto da Meta contra a DPC. Sob a liderança de Dixon, a DPC processou outras autoridades de dados europeias no mais alto tribunal da UE, porque estas tinham votado no sentido de obrigar a DPC a investigar a utilização que a Meta faz dos dados mais íntimos dos cidadãos. Embora o caso tenha sido rejeitado, a ação de Dixon concedeu à Meta uma trégua de um ano antes sequer de a investigação ter início.

No livro “Careless People”, de Wynn-Williams, a autora articula a visão que a Meta tem da DPC como um “cão de colo”. Isto espelha de forma inquietante a hesitação e a deferência do regulador financeiro irlandês face aos bancos do país nos anos que antecederam a crise bancária de 2008. No início deste mês, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda publicou na sua página do LinkedIn uma fotografia onde posava com uma lobista da Meta. “Excelente reunião ontem com a Meta para discutir prioridades para a próxima presidência europeia da Irlanda”, dizia a legenda, acompanhada de vários pontos de argumentação do memorando da Meta de 2013 que, em 2026, parecem ter-se tornado política oficial do governo irlandês.

A Irlanda é inclusivamente acusada de “bloquear” a instauração de ações populares contra empresas tecnológicas em nome de crianças, ao proibir o financiamento comercial destas ações, embora permita tal financiamento para arbitragens comerciais. De acordo com a sondagem do Eurobarómetro da UE deste mês, 92% dos europeus querem que a UE garanta uma melhor proteção online para os seus filhos. A Irlanda não irá assegurar essa proteção a menos que outros governos da UE comecem a exigi-la de forma insistente. Durante quanto mais tempo irão os líderes europeus tolerar que a Irlanda venda a saúde mental das crianças dos seus países?

Houve um tempo em que a Europa parecia ser a resposta do mundo contra os piores excessos das grandes tecnológicas. A Irlanda sabotou esse sonho a troco de uma recompensa massiva. Se o país não se afastar espontaneamente de todas as discussões tecnológicas durante a sua presidência de seis meses, então Berlim, Paris, Varsóvia, Madrid e Bruxelas deverão exercer sobre a Irlanda o mesmo tipo de pressão que alguns exerceram após a crise bancária. O que foi injusto na altura seria inteiramente justo desta vez.

Saber mais:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

The New Division & Podsongs - Idols

Melhor som aqui

Letra
[verso1]
Prayers to fill the silence of the void
Notions of control have been destroyed
When enveloped and caressed
Doubt collapses under its duress

[Chorus 1]
It goes on and on and on and on, we go,
We start and stop, we speed and slow
Now we know we're all we ever had
We all worship idols good and bad 

[verso 2]
Preaching to the prophets in the crowd
Heretics and loyals all allowed
Every leader's worshipped like a God
Hanging on the words they offer us

[Chorus 2]
We go on and on and on and on, we go,
We offer up, we cast below
Do we know we're all we ever had?
When we worship our idols good and bad 

O conceito de "Idols" nasceu de uma forma muito curiosa. O Podsongs é um podcast gerido por Jack Stafford onde músicos entrevistam personalidades inspiradoras (filósofos, cientistas, ativistas) e criam uma música inédita baseada nessa conversa.

Para esta faixa, John Kunkel entrevistou o filósofo e teólogo norte-irlandês Peter Rollins. O debate girou em torno da ideologia moderna, do vazio existencial, das contradições humanas e do que Rollins chama de "a tirania da felicidade" (a cobrança social implícita para estarmos sempre bem).

O tema central aborda as contradições humanas, o vazio existencial e aquilo que Rollins designa como a "tirania da felicidade", questionando a tendência da nossa sociedade para transformar líderes, figuras públicas ou conceitos em ídolos, como se fossem divindades capazes de nos oferecer respostas definitivas. Através de uma letra que explora a futilidade da nossa procura por controlo e a constatação de que, no fundo, somos tudo o que temos, a música acaba por ser um manifesto filosófico disfarçado de tema para a pista de dança.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Klændestine - The Watcher

I am the guardian
The one who sees everything
I do not participate I watch
The details, the gestures and the looks

I pierce the mysteries
The moments of grace
The abandonment of the senses, the reluctance
I film, I examine 

The little abandonments of my love
I watch, I look after, I take care
Three meanings in one word
I am the watcher 

Epileptic Lord
Where are you?

O Klændestine é um projeto musical internacional de origem anglo-francesa que une veteranos da cena underground europeia. A banda é fruto de uma colaboração transfronteiriça entre Usher San, uma figura histórica do movimento coldwave de Dijon, na França, e Martin Bowes e Julia Waller, integrantes da icónica banda de pós-punk e industrial britânica Attrition, baseada em Coventry, na Inglaterra.

O estilo musical do grupo situa-se firmemente dentro de vertentes eletrónicas sombrias, sendo classificado predominantemente como darkwave e coldwave, com fortes pinceladas de dark ambient e eletrónica industrial. Sonoramente, a faixa The Watcher é marcada pelo uso de sintetizadores analógicos minimalistas, batidas mecânicas e linhas de piano melancólicas, contrastando uma voz masculina sussurrada e soturna com vocais femininos etéreos.

O videoclipe de The Watcher, filmado em Dijon sob a direção de Sébastien Fait Divers, carrega um significado profundamente ligado à paranoia urbana, ao isolamento e ao sentimento psicológico de vigilância contínua sugerido pelo próprio título. Visualmente, a produção evoca uma atmosfera cinematográfica claustrofóbica e expressionista que serve para ilustrar a alienação moderna, ao mesmo tempo em que registou o primeiro encontro físico dos músicos após um longo período trocando ideias e arquivos à distância através do Canal da Mancha.

Embora essa atmosfera densa e introspectiva evoque temas comuns à literatura modernista, não existe nenhuma ligação direta ou inspiração oficial na obra do escritor irlandês James Joyce. A associação mental com o autor é compreensível devido a paralelos estéticos espontâneos: a figura do observador solitário que vaga pela cidade remete ao fluxo de consciência de personagens urbanos como Leopold Bloom em Ulysses, o sentimento de paralisia e alienação dialoga com os contos de Dublinenses, e a própria natureza multicultural do projeto Klændestine espelha o trânsito de Joyce entre o mundo anglófono e a Europa continental, em especial a França. 
  1. O conceito de "The Watcher" (O Observador): na literatura modernista — da qual James Joyce é um dos maiores pilares — o conceito do observador distante e do fluxo de consciência (uma mente vagando e observando a cidade, como Leopold Bloom em Ulysses) é muito forte. O clipe traz essa mesma energia de alguém caminhando e vigiando uma cidade cinzenta (Dijon).
  2. Conexão anglo-francesa: James Joyce era irlandês, mas escreveu e publicou grande parte de suas obras-primas enquanto morava na Europa continental, especialmente na França (Paris) e em Itália (Trieste). O Klændestine é justamente esse "ponto de encontro" cultural entre artistas da França e do Reino Unido.
  3. A paranoia e a decadência urbana: assim como Joyce retratava a paralisia espiritual e o isolamento dos cidadãos em Dubliners (Dublinenses), o visual e as texturas sonoras do Klændestine pintam um retrato de alienação e mistério dentro do cenário urbano moderno.
Todavia, o conceito da música e do vídeo permanece puramente fundamentado na poesia visual e sonora clássica das subculturas gótica e industrial.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Philip Pilkington - O colapso do liberalismo global e ideias um pouco polémicas


No livro The Collapse of Global Liberalism (O Colapso do Liberalismo Global), o economista Philip Pilkington apresenta uma análise contundente sobre o declínio terminal da ordem liberal internacional, o sistema de cooperação política e comércio global liderado pelo Ocidente desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A sua tese central baseia-se na ideia de que o "globalismo" não foi meramente um fenómeno económico de eficiência de mercados, mas sim um projeto ideológico falhado que pressupunha uma convergência universal para os valores da democracia liberal e do livre mercado. Pilkington argumenta que potências como a China e a Rússia demonstraram a fragilidade desta premissa ao integrarem-se na economia mundial sem abdicarem dos seus próprios modelos políticos e sociais, desmentindo a inevitabilidade da hegemonia ocidental.

Um dos pontos mais críticos da obra foca-se na desindustrialização do Ocidente. O autor sustenta que a busca desenfreada por lucros de curto prazo e eficiência logística impulsionou o offshoring, transferindo a base manufatureira para o exterior e criando uma dependência estratégica perigosa de rivais geopolíticos. Este processo não só enfraqueceu a segurança nacional das nações ocidentais, como também devastou a classe trabalhadora doméstica, servindo de combustível para a instabilidade política interna e para a ascensão de movimentos populistas. Paralelamente, Pilkington destaca a crise energética e de recursos, sublinhando que a prosperidade liberal dependia de energia barata e fluxos estáveis. Com a atual fragmentação geopolítica e os desafios da transição energética, o controlo do poder real deslocou-se para os países que detêm a produção física e os recursos naturais, deixando o Ocidente vulnerável na sua segurança material.

Para o economista, estamos a assistir ao fim da era do "idealismo liberal" e ao nascimento de um mundo dominado pelo "realismo geoeconómico". Neste novo paradigma, o comércio internacional deixa de ser visto como um instrumento de paz universal para ser utilizado como uma arma política, o que levará inevitavelmente à formação de blocos regionais fechados em detrimento de um mercado global único. Pilkington dirige ainda duras críticas às elites tecnocráticas ocidentais, acusando-as de estarem desconectadas da realidade material e de insistirem em estruturas obsoletas que apenas aceleram o colapso. Em última análise, o autor não prevê necessariamente o fim da civilização ocidental, mas sim o fim da ilusão do seu domínio global indefinido, defendendo que a sobrevivência nesta nova era de fragmentação exige um retorno pragmático à soberania nacional, à reindustrialização e à garantia da segurança material de cada Estado.


Minha análise
A tensão atual no liberalismo revela-se profunda quando confrontamos os ideais humanistas com a crueza da nova realidade geoeconómica. Para um liberal que se revê no Manifesto de Oxford, o cenário descrito por Philip Pilkington assemelha-se a um verdadeiro pesadelo, pois a fragmentação do mundo em blocos fechados e protecionistas coloca em causa a promessa fundamental de que cada indivíduo possa decidir o seu próprio rumo. Se a análise de Pilkington estiver correta, a mobilidade humana será drasticamente reduzida por fronteiras mais rígidas e o custo de vida sofrerá um agravamento inevitável, uma vez que o fim da eficiência global retira poder de compra às famílias, limitando as suas opções de vida reais e tangíveis.

Neste contexto, assistimos também a um crescimento perigoso do papel do Estado. Para garantir a reindustrialização e a segurança material exigidas pela soberania, o poder público tende a tornar-se cada vez mais interventivo, o que frequentemente resulta no atropelo da iniciativa privada e da autonomia individual. Ao admitir que Pilkington tem razão no seu diagnóstico do colapso, mas mantendo a fidelidade aos princípios de Oxford, o liberal contemporâneo mergulha num dilema intelectual fascinante: é o reconhecimento de que, embora o ideal de liberdade seja o destino desejado, a realidade material está a destruir a estrada que a ele nos deveria conduzir.

A questão crucial que agora se coloca é como salvar o espírito do Manifesto de Oxford num mundo que parece ter deixado de acreditar na cooperação global. O grande desafio passa por encontrar formas de preservar a dignidade e a liberdade da pessoa humana num ambiente que privilegia a segurança física e o poder estatal em detrimento da liberdade individual. Resta saber se o liberalismo terá a agilidade necessária para se reinventar, garantindo que o indivíduo não se torne um mero peão nas disputas geoeconómicas de uma nova era de fragmentação.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

sábado, 4 de abril de 2026

Paraísos fiscais globais "alimentam a desigualdade" enquanto os países ricos bloqueiam reformas da ONU

Uma década depois do Panama Papers, os 0,1% mais ricos da Terra escondem mais de 2,8 biliões de dólares em contas offshore para evitar o pagamento de impostos, concluiu um relatório da Oxfam International. Só esse dinheiro representa mais riqueza do que a detida por toda a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de 4,1 mil milhões de pessoas.

Ilhas Caimão

De acordo com o relatório publicado na terça-feira, a economia global continua a perder centenas de milhares de milhões de dólares todos os anos devido ao abuso fiscal transfronteiriço — uma perda de receitas que os especialistas afirmam estar a alimentar a desigualdade extrema e a privar os governos de recursos necessários para combater a crise climática e financiar serviços públicos.

Em conjunto com o relatório The State of Tax Justice 2024, publicado pela Tax Justice Network (TJN), estima que os países perderão 4,8 biliões de dólares em receitas fiscais nos próximos dez anos se as tendências atuais se mantiverem.

"O abuso fiscal global não é um desastre natural, mas uma escolha política", afirmou Liz Nelson, diretora da TJN. "Os governos têm o poder de acabar com esta injustiça, mas os países ricos continuam a proteger os interesses dos abusadores fiscais em vez dos seus próprios cidadãos."

O relatório destaca que os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — frequentemente descrita como o "clube dos países ricos" — são responsáveis pela maior parte das perdas fiscais mundiais. Segundo a análise, os países da OCDE e as suas dependências facilitam a maioria do abuso fiscal corporativo global, enquanto os países de baixo rendimento continuam a ser os mais afetados proporcionalmente.

Durante décadas, a OCDE liderou as negociações sobre as regras fiscais globais. No entanto, o relatório da TJN argumenta que estas regras foram concebidas para beneficiar as multinacionais e os países ricos, deixando o resto do mundo de fora.

O relatório surge num momento em que cresce o impulso para a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Cooperação Fiscal Internacional. No ano passado, os países votaram esmagadoramente a favor de levar as negociações fiscais para a ONU, desafiando a oposição de grandes economias como os EUA e o Reino Unido.

"A transferência da liderança das regras fiscais da OCDE para a ONU é o passo mais importante que podemos dar para acabar com a era dos paraísos fiscais", disse Alex Cobham, diretor executivo da Tax Justice Network.

A Common Dreams reportou que a erosão da base tributária obriga os governos a depender de impostos sobre o consumo, que prejudicam desproporcionalmente os pobres, enquanto as multinacionais ganham uma vantagem competitiva injusta sobre os negócios locais. O relatório conclui com um apelo urgente para que os países apoiem o processo da ONU para garantir que os impostos sejam pagos onde a atividade económica real ocorre.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

U2 - Easter Parade


A canção apresentada no vídeo é uma versão de "Easter Parade", um tema original da banda escocesa The Blue Nile, interpretado aqui pelos U2. No que toca ao estilo musical, esta peça afasta-se do rock de estádio mais convencional da banda irlandesa para mergulhar no Sophisti-pop e no Art Pop.

Trata-se de uma composição minimalista e atmosférica, onde impera uma sonoridade polida e elegante, muito característica da produção de finais dos anos 80 e início dos 90. A faixa assenta numa estrutura de Ambient Pop, privilegiando texturas suaves de piano e sintetizadores que criam uma envolvência etérea e quase hipnótica.

Do ponto de vista interpretativo, a música funciona como uma balada contemplativa. A voz de Bono assume um tom mais contido e vulnerável, focando-se na carga emocional e espiritual da letra. A presença de elementos litúrgicos, como a repetição da expressão grega "Kyrie Eleison" (Senhor, tende piedade) na secção final, reforça o carácter solene e devocional da obra, transformando-a numa espécie de hino moderno de cariz espiritual.

sexta-feira, 20 de março de 2026

JJ72 - Snow


A canção é do álbum homónimo JJ72 (2020) e aqui

Snow - Letra (Lyrics)
As fast as you can
Run my way again
As fast as you can
I'm waiting

[Refrão]
As fast as you can
Run my way again
As fast as you can
I'm waiting

[Verse 2]
And it's a long way down
To the place where we'll be found
In the snow
In the snow

[Refrão]

And it's a long way down
To the place where we'll be found
In the snow
In the snow

[Verse 2]

As fast as you can
Run my way again

Os JJ72 foram uma das bandas mais marcantes do rock alternativo irlandês no início da década de 2000. Formados em Dublim, o trio destacou-se pela sua sonoridade melancólica e etérea. O tema "Snow" é, sem dúvida, o seu hino mais icónico, servindo de porta de entrada para um álbum de estreia que atingiu o galardão de platina. A canção é definida pela voz invulgar de Mark Greaney — capaz de atingir notas altíssimas — e por uma atmosfera de urgência emocional que capturou perfeitamente o espírito do indie daquela época.

A origem do nome JJ72 
A "Janela de juncos": a explicação mais aceite e citada pelo próprio Mark é que o nome surgiu de uma referência a uma janela específica na escola onde estudavam em Dublim. Segundo ele, havia uma janela (ou uma série delas) que tinha as iniciais "JJ" e o número "72" gravados ou marcados nela. Eles acharam que a combinação soava bem e decidiram adotá-la.

Significado da canção
A canção "Snow" é uma peça central do rock alternativo dos anos 2000, destacando-se pela sua estrutura minimalista que foca intensamente na carga emocional. A letra funciona como um apelo urgente e quase desesperado por conexão, onde a repetição constante de frases como "As fast as you can" (Tão depressa quanto possas) cria uma sensação de pressa e ansiedade juvenil. Esta urgência é contrastada com a imagem estática e silenciosa da neve, que serve como uma metáfora poderosa para o isolamento e para um refúgio emocional onde o ruído do mundo exterior é finalmente silenciado.

Para Mark Greaney, o mentor e vocalista dos JJ72, a neve não representa apenas o frio, mas sim um estado de pureza e uma forma de fuga à realidade. A descida mencionada no refrão ("And it's a long way down") sugere um mergulho profundo na introspeção ou numa relação tão íntima que se torna um esconderijo. É esta dualidade — a energia frenética da batida e da voz aguda contra o cenário gélido e imóvel da letra — que define o impacto da música. No fundo, "Snow" é um retrato da vulnerabilidade adolescente, capturando aquele desejo cru de encontrar um lugar (ou alguém) onde nos possamos perder para, finalmente, sermos encontrados.

terça-feira, 10 de março de 2026

Data centers — a contradição energética da transição digital

Portugal tornou-se, nos últimos anos, um destino apetecível para a instalação de data centers. A localização geográfica, a ligação a cabos submarinos transatlânticos, o clima temperado e os custos energéticos competitivos colocaram o país no mapa dos grandes operadores tecnológicos. Os números são expressivos: estima-se que o setor passe de um contributo de 160 milhões de euros para o PIB em 2024 para mais de 3,7 mil milhões em 2031, com um consumo energético previsto de 8,5 TWh por ano, segundo o estudo Market Outlook Data Centers Portugal 2025, da Portugal DC. Esta semana, a Digital Realty, empresa norte-americana com um valor de mercado superior a 62 mil milhões de dólares, anunciou a sua entrada em Portugal com entrada em operação prevista para 2027. O sinal de que esta vaga está a chegar é inequívoco.

O discurso que acompanha esta expansão é, regra geral, o mesmo: compromissos de carbono zero, garantias de origem renovável, PPAs de energia limpa assinados e relatórios de sustentabilidade elaborados com detalhe. A imagem projetada é a de uma indústria verde, digital e consciente. E essa imagem não é totalmente falsa grandes operadores tecnológicos investem genuinamente em energia renovável. No entanto, o problema é que esse investimento tem um ponto cego de dimensão considerável, e esse ponto cego chama-se continuidade de fornecimento.

Um data center de grande escala consome entre 50 e 500 MW de forma ininterrupta, 24 horas por dia, 365 dias por ano, maioritariamente para refrigeração dos equipamentos. Esta exigência de continuidade torna-o estruturalmente incompatível com a variabilidade das fontes renováveis. Um parque solar produz durante algumas horas por dia. Um parque eólico produz quando o vento sopra. Um data center não para. Nunca. Isso significa que a infraestrutura de rede pública tem de garantir capacidade de fornecimento em qualquer momento, dimensionada para o pico de consumo com redundância absoluta, isto independentemente de quantos PPAs o operador tenha assinado. Os acordos de compra de energia renovável não dispensam o reforço das redes de transporte e distribuição. E esse reforço implica infraestrutura adicional, mais cabos, mais subestações, mais capacidade de geração de reserva. Parte desta capacidade de reserva é ainda hoje assegurada por fontes convencionais. Este é o verdadeiro desafio de planeamento que o crescimento dos data centers coloca à REN e à E-Redes, e é um desafio que raramente aparece nas páginas de sustentabilidade dos operadores.

A questão não é, portanto, se os data centers usam energia renovável. Muitos usam, ou compram certificados que o atestam. A questão é se a renovável que financiam é adicionada ao sistema, ou se apenas é contabilizada em relatórios enquanto o consumo real aumenta a pressão sobre uma rede que ainda depende parcialmente de combustíveis fósseis para garantir segurança de abastecimento. Há uma diferença enorme entre um PPA assinado algures na Península Ibérica e um parque solar ou eólico novo, construído em Portugal, a alimentar diretamente a carga de um data center. Só o segundo representa uma âncora verde real. O primeiro é, em grande medida, declaratória.

Faria sentido que a E-Redes condicionasse a aprovação de novos pedidos de ligação de grande consumo à apresentação de um plano concreto de instalação de capacidade renovável dedicada. Não para bloquear o crescimento do setor, mas para garantir que esse crescimento tem uma correspondência real no sistema energético e não apenas nos relatórios anuais. Existem precedentes. Nos Estados Unidos, a Federal Energy Regulatory Commission introduziu o conceito de “Bring Your Own Generation” (BYOG), que levou os grandes hyperscalers a assumir o compromisso formal de trazerem a sua própria capacidade de geração. Na Irlanda, foi mais longe ainda: os novos data centers têm de garantir que uma parte significativa da energia consumida provém de renovável nova, desenvolvida no país. O data center deixa de ser apenas um consumidor e passa a ser parte da solução para a transição energética.

Existem duas consequências desta equação energética que merecem atenção redobrada da comunidade ambiental, precisamente porque surgem envoltas em argumentos aparentemente razoáveis.

A primeira é o regresso silencioso do debate nuclear. A tendência já é observável nos EUA, onde a Microsoft reativou a central de Three Mile Island encerrada em 2019, através de um contrato de 20 anos exclusivamente para alimentar os seus data centers. Google e Amazon seguiram com investimentos em reatores modulares de nova geração. A necessidade de geração despachável, energia que se liga e desliga conforme a procura, ao contrário do solar e do eólico (é um dos argumentos centrais que os defensores do nuclear têm utilizado para reabrir a discussão em Portugal). Os data centers são, neste contexto, o catalisador perfeito: uma carga enorme, contínua e previsível, que justificaria a estabilidade de base que o nuclear promete oferecer. O argumento tem uma lógica técnica própria, e seria desonesto ignorá-la por completo. Mas é também um argumento que merece escrutínio ambiental sério, sobre a possibilidade, se quer, de algum município aceitar na sua zona uma central nuclear, sobre custos reais, prazos de construção, gestão de resíduos e o que representa face a um sistema renovável bem desenhado com armazenamento. O que não pode acontecer é que a procura dos data centers se torne, por omissão regulatória, o pretexto para decisões energéticas estruturais que o país não debateu adequadamente.

A segunda é a pressão crescente sobre o território para instalar renovável em grande escala. Alimentar um único data center de 200 MW de forma contínua exigiria cerca de 400 ha de painéis solares. A resposta ao modelo BYOG e às exigências de fontes renováveis próprias tende a traduzir-se em projetos de grande dimensão, com decisões de localização condicionadas pela escala dos contratos e não necessariamente pela melhor integração territorial disponível. Em Portugal, onde o licenciamento de grandes infraestruturas energéticas já enfrenta contestação crescente, esta pressão adicional sobre o território é uma variável que os próprios promotores de data centers raramente incorporam nas suas projeções. A procura dos data centers não cria apenas um desafio para a rede elétrica, cria também uma pressão sobre o pipeline de projetos renováveis que o país terá de gerir com critério.

A digitalização da economia é um processo irreversível e, em muitos aspetos, positivo para a descarbonização de outros setores. Mas não é, por si mesma, sinónimo de sustentabilidade energética. Os data centers que chegam a Portugal trazem capital, emprego qualificado e capacidade computacional. Trazem também uma pegada energética considerável que o sistema elétrico nacional terá de suportar. A questão não é se os queremos cá. É se vamos exigir que a sua presença contribua genuinamente para a transição energética ou se nos contentamos com a narrativa verde enquanto a conta ambiental fica, silenciosamente, por pagar.

Saber mais:

sábado, 28 de fevereiro de 2026

U2 - Yours Eternally ft. Ed Sheeran and Taras Topolia


"Yours Eternally" é uma colaboração poderosa lançada em fevereiro de 2026 pelo U2, com a participação de Ed Sheeran e Taras Topolia (vocalista da banda ucraniana Antytila).

A canção é o grande destaque do EP surpresa de 6 faixas do U2, intitulado Days of Ash, lançado em 18 de fevereiro de 2026 (Quarta-feira de Cinzas).

Detalhes principais da colaboração:
A mensagem: a música foi escrita como uma carta de um soldado no front para aqueles que ficaram em casa. O tema central foca no conceito de Volya — uma palavra ucraniana que significa tanto "liberdade" quanto "força de vontade". O U2 traz a bagagem histórica da Irlanda com conflitos e processos de paz, o que Bono frequentemente conecta à situação atual na Europa

As origens: a parceria nasceu da relação criada quando Bono e The Edge se apresentaram no metro de Kiev em 2022. Taras Topolia, que serviu como paramédico de combate, trouxe a perspectiva real do soldado para as letras.

O videoclipe: para marcar o quarto aniversário da invasão em grande escala da Ucrânia, um documentário de curta-metragem para a música foi lançado em 24 de fevereiro de 2026. Dirigido pelo cineasta ucraniano Ilya Mikhaylus, o vídeo utiliza imagens reais de combate da Brigada Khartiya.

Produção: a faixa foi produzida por Jacknife Lee, colaborador de longa data do U2, e conta com um "coro virtual" que inclui membros do Antytila e ativistas como Bob Geldof e Nadya Tolokonnikova, dos Pussy Riot.

Sobre o EP Days of Ash:
Bono descreveu este trabalho como um "cartão-postal do presente", com canções de "desafio, consternação e lamentação" que não podiam esperar pelo próximo álbum completo da banda (previsto para o final de 2026).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

U2 - Numb


Canção premonitória do mundo que seria no século XXI.
O videoclipe do primeiro single do álbum Zooropa foi realizado por Kevin Godley e filmado em Berlim, no verão de 1993.

O significado da canção Numb
A letra de "Numb" funciona como um mantra de negação. É uma sucessão frenética de ordens contraditórias e proibições (ex: "Don't move, don't talk out of line, don't believe, don't think"), que pintam o retrato de um indivíduo encurralado.

1. Sobrecarga sensorial e mediática
A música reflete a paralisia perante o excesso de estímulos da década de 90 - a explosão da TV por cabo, o nascimento da internet e o fluxo ininterrupto de notícias.
O "ruído" do mundo torna-se tão alto que o cérebro deixa de conseguir processar a informação.
É o som de alguém a tentar encontrar silêncio num mundo que não se cala.

2. O entorpecimento como defesa
O título "Numb" (Entorpecido/Insensível) descreve um estado de desapego emocional.
Mecanismo de proteção: o eu lírico opta por não sentir nada para não ser esmagado pela confusão exterior.

Se não houver crença, desejo ou pensamento crítico, o indivíduo torna-se imune à dor e à desilusão. É uma apatia voluntária.

3. A ironia da performance
O facto de ser The Edge a cantar, com uma voz propositadamente monótona e sem vida, reforça a ideia de uma máquina ou de alguém que já "desligou" os seus sentimentos. Enquanto isso, os falsetes de Bono ao fundo soam como os últimos vestígios de humanidade a tentar emergir do caos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Documentário: Beautiful Noise


Direção e Produção
O filme foi realizado (dirigido) por Eric Green. Levou quase uma década para ser concluído, dependendo fortemente de uma campanha bem-sucedida no Kickstarter para conseguir licenciar a vasta quantidade de músicas icônicas presentes na trilha sonora.

Bandas em Destaque
O documentário foca no "triunvirato" sagrado da gravadora Creation Records e da 4AD, explorando como elas moldaram o som da época:
  1. My Bloody Valentine: O foco na genialidade (e perfeccionismo) de Kevin Shields.
  2. The Jesus and Mary Chain: A transição do ruído punk para as melodias pop.
  3. Cocteau Twins: A influência da voz de Elizabeth Fraser e das texturas de Robin Guthrie.
Entrevistas e Participações
Um dos grandes méritos de Eric Green foi reunir tanto os arquitetos do som original quanto os artistas que foram influenciados por eles.

Os protagonistas:
Kevin Shields (My Bloody Valentine)
Jim Reid (The Jesus and Mary Chain)
Robin Guthrie (Cocteau Twins)
Emma Anderson & Miki Berenyi (Lush)
Neil Halstead & Rachel Goswell (Slowdive)
Mark Gardener & Andy Bell (Ride)

Os admiradores (influenciados):
Robert Smith (The Cure)
Billy Corgan (The Smashing Pumpkins)
Trent Reznor (Nine Inch Nails)
Wayne Coyne (The Flaming Lips)
Bobby Gillespie (Primal Scream)

O que o documentário aborda?
O filme não é apenas uma lista de bandas; ele narra a evolução tecnológica e artística de como o ruído (noise) se tornou algo belo (beautiful).

Ele explora o uso de pedais de efeito, a técnica de "glide guitar" de Kevin Shields e como essas bandas foram inicialmente ridicularizadas pela imprensa britânica (que cunhou o termo "Shoegazing" de forma pejorativa) antes de se tornarem cultuadas mundialmente.

Destaque: O documentário é rico em imagens raras de arquivo de concertos em clubes pequenos e bastidores de gravações lendárias.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

The Smashing Pumpkins - Dancing In The Moonlight

Em Estúdio

Ao Vivo

Letra
When I passed you in the doorway
You took me with a glance
Should have took that last bus home
But I asked you for a dance

Now we were steady to the pictures
I always get chocolate stains on my pants
Father says "he's going crazy"
Says I'm livin' in a trance

Dancing in the moonlight
It's caught me in its spotlight
It's alright, it's alright, the moonlight
This long, hot summer night

It's three o'clock in the morning
I'm on the streets again
Disobeyed another warning
Shoulda been home by ten

Now I stay out 'till Sunday
I have to say I stayed with friends
It's a habit worth forming
It's a means to justify the end

Dancing in the moonlight
It's caught me in its spotlight
It's alright, it's alright, the moonlight
This long, hot summer night

I'm walking home
Last bus is long gone

A versão que os Smashing Pumpkins gravaram de "Dancing in the Moonlight" é um exemplo perfeito de como uma banda pode pegar numa canção alheia e transformá-la por completo, alterando radicalmente o seu estilo musical original.

Estilo Musical: O Contraste entre o Rock e a Melancolia Acústica
A canção original, lançada em 1977 pela banda de rock irlandesa Thin Lizzy, é um tema de rock clássico com fortes influências de funk e soul, caracterizado por uma linha de baixo muito gingada, palmas e um ritmo dançável e urbano. No entanto, em 1993, os Smashing Pumpkins decidiram despi-la de toda essa energia elétrica para o B-side do single Disarm.

A versão dos Pumpkins enquadra-se no rock acústico alternativo e na folk-pop melancólica. Tocada apenas com guitarras acústicas dedilhadas e uma percussão muito suave, a música ganha uma atmosfera íntima, despojada e caseira (estilo lo-fi). A voz de Billy Corgan, quase num sussurro nasal e vulnerável, transforma o que era originalmente uma celebração jovem numa balada nostálgica, solitária e até um pouco triste.

Significado e Contexto
Escrita por Phil Lynott (vocalista do Thin Lizzy), a letra é uma crónica sobre a juventude, os primeiros amores e a rebeldia adolescente em Dublin. A história acompanha um rapaz que se apaixona instantaneamente por uma rapariga numa festa e, por causa dela, perde a noção do tempo, ignora o recolher obrigatório imposto pelos pais e mente para conseguir passar o fim de semana fora.

Há um contraste muito bonito entre a inocência da idade (ir ao cinema e ficar com manchas de chocolate nas calças) e a pequena rebeldia noturna de andar na rua às três da manhã. O "dançar misterioso à luz da lua" funciona como uma metáfora para esse transe da paixão inicial, onde mais nada importa e as regras do mundo adulto deixam de fazer sentido. Na interpretação acústica dos Smashing Pumpkins, a frase final - onde o protagonista caminha sozinho para casa porque já perdeu o último autocarro - ganha um peso enorme, soando como o despertar inevitável de um sonho perfeito para a realidade fria da solidão.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Zohran Mamdani - um marco histórico


Depois da Holanda e Irlanda mais uma luz ao fundo do túnel. Que boas notícias para todos nós.

Uma vitória histórica. Os meios de comunicação dominantes não o levaram a sério. Trump e os republicanos passaram o tempo a ameaça-lo. Grande parte dos democratas virou-lhe as costas. As elites económicas combateram-no.

Chamaram-lhe inexperiente, antissemita, comunista e os estigmas islamafóbicos foram uma constante. Mas Zohran Mamdani, 34 anos, muçulmano, de raízes africanas e indianas, pró-Palestina, defensor dos imigrantes, com politicas sociais claras, foi mesmo eleito esta madrugada para dirigir os destinos de Nova Iorque.

Os que se lhe opuseram vão agora diminui-lo e tudo fazer para que não vingue. É importante que o imaginário progressista não se difunda. Vão desvalorizar a vitória. Dizer que Nova Iorque é apenas simbolismo, com pouco significado político. Ou que foi só a especificidade do cosmopolitismo nova-iorquino a razão do triunfo.

Vão também dizer que é uma espécie de estrela pop que sabe comunicar nas redes, ou que é apenas sorriso e performance sem conteúdo, até porque aquilo que propõe será impossível de cumprir e outras coisas que tais. Propagar o medo. Não deixar que o acreditar ponha a cabeça de fora.

O mundo não vai mudar por artes mágicas por causa dele. Não tem nada de providencial. O seu feito foi ter gerado uma onda coletiva, transgeracional e multiétnica, à sua volta – simbolizada por dois dos seus maiores apoiantes, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez.

Fê-lo em total contraciclo com o neoliberalismo desenfreado e o populismo musculado, discorrendo sobre habitação acessível, desigualdade, salários, saúde ou comércio local, e propondo medidas como a taxação dos super-ricos, alguns transportes gratuitos, creche universal ou congelamento de rendas.

A sua vitória significa uma ferida aberta na oligarquia financeira e na governação de Trump e o recuperar da esperança na política, independentemente do lugar. Passam o tempo a querer-nos convencer que nada pode mudar e vem ele com comprometimento e ideias claras, repescadas no socialismo e na social-democracia que a esquerda quando chega ao poder tende a esquecer, dizendo: sim, é possível.

Esta madrugada a “cidade que nunca dorme” despertou e, por ressonância, o mundo descrente lembra-se que o futuro não está escrito de antemão. Agora Mamdani terá à sua frente outros desafios. Mas já fez algo que parecia difícil neste ciclo, projetar um imaginário de mudança com mais democracia, equidade e justiça social. Não chega. Mas não é pouco. E é inspirador.