Mostrar mensagens com a etiqueta Viktor Orbán. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viktor Orbán. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de maio de 2026

Estudo mostra que notícias falsas estão no DNA da extrema‑direita

Cimeira da extrema-direita europeia em Madrid (2025)

O estudo “Quando os partidos mentem? Desinformação e populismo da direita radical em 26 países”, publicado na revista científica The International Journal of Press/Politics, revela que extrema-direita é significativamente muito mais propensa a disseminar notícias falsas nas redes sociais do que qualquer outro campo político.

Os cientistas holandeses dedicaram-se ao estudo das publicações feitas entre 2017 e 2022 na rede social X por todos os parlamentares de 26 países. Nestes se incluem 17 membros da União Europeia, mas não Portugal, para além de países como os EUA, o Reino Unido e a Austrália. Um total de 8.198 deputados ou equivalentes e 32 milhões de publicações. As ligações a páginas partilhadas pelos deputados, cerca de 18 milhões, foram depois comparadas com as páginas utilizadas por serviços de “fact-checking”, a verificação de factos, e de monitorização de notícias falsas, analisando a fiabilidade das fontes. Os dados mostram que a extrema-direita é “o determinante mais forte para a propensão a espalhar desinformação”, sendo que deputados dos outros campos políticos, da direita até à esquerda mais radical “não estão ligados” a esta prática.

A conclusão, portanto, é que “a desinformação política deve ser entendida como parte integrante da atual onda de populismo radical de direita e da sua oposição à instituição democrática liberal”.

Afastada fica a teoria de que a desinformação era parte de uma prática política “anti-elitista” identificada como “populismo” já que partidos e parlamentares de esquerda que tinham sido como tal identificados não se dedicam à disseminação de mentiras.

Outra das ideias que se podem retirar da investigação é a “relação simbiótica” entre extrema-direita e uma constelação de meios de comunicação social ditos “alternativos” que têm servido precisamente para fortalecer este tipo de mensagens ideológicas baseadas na exclusão e na hostilidade para com as instituições democráticas.

Um dos co-autores do estudo, Petter Törnberg, da Universidade de Amesterdão, sintetiza que “os populistas da direita radical estão a utilizar a desinformação como ferramenta para desestabilizar as democracias e ganhar vantagem política”. Ele defende que é “urgente que decisores políticos, investigadores e público compreendam e lidam com as dinâmicas interligadas da desinformação e do populismo de direita radical”.

sábado, 11 de abril de 2026

A Internacional Reacionária - de olho nas legislativas da Hungria



Como lhe chamou Macron, tem uma agenda clara: destruir o estado de direito, a democracia, a igualdade de direitos entre mulheres e homens, a sociedade baseada no conhecimento e a imprensa livre. A UE é o principal alvo porque é a entidade mais forte que coloca em causa o modelo de poder da Internacional Reacionária e a geopolítica assente no princípio de quem tem a moca maior manda mais. 
Os aspirantes a ditadores, Ventura, Orbán, Le Pen, Salvini, Fico, Abascal que têm servido de caixas de ressonância de Putin e de Trump, conhecem bem o seu papel: à primeira oportunidade é mandar a UE abaixo. Depois será muito mais simples abater nações isoladamente para os confins do autoritarismo, de sociedades em que as mulheres se resumirão a cozinheiro-parideiras, os homossexuais serão considerados doentes, em que a ciência será substituída pelo fanatismo religioso e onde a imprensa será um mero papagaio do querido líder.
Esta semana foram todos apoiar o maior corrupto da Europa, Orbán, que está em maus lençóis para se manter no poder. Mas segundo consta, Orbán já tem um plano para ser presidente depois do mandato de primeiro-ministro expirar. Só espero que a Europol tenha tempo suficiente para lhe meter as mãos em cima assim que acabar a imunidade política. 

A Conexão Budapeste-Lisboa: O Fim do "Manual Orbán" para o Chega?
A sobrevivência política de Viktor Orbán está, pela primeira vez em dezasseis anos, seriamente ameaçada pelo fenómeno ascendente de Péter Magyar e do seu partido Tisza. No entanto, o abalo sísmico desta possível queda não se limita às margens do Danúbio; as réplicas far-se-ão sentir com intensidade na sede do Chega, em Lisboa. Embora André Ventura tenha construído uma narrativa de autonomia nacionalista, o partido é um beneficiário direto do ecossistema iliberal que Orbán exportou para a Europa. A questão central que paira sobre esta aliança é o dinheiro: houve, afinal, fluxos financeiros diretos de Budapeste para Lisboa?

Até ao momento, as investigações do Tribunal de Contas e de consórcios de jornalismo de investigação, como o OCCRP, não encontraram o chamado "fumo da arma" — uma transferência bancária explícita de fundos estatais húngaros para as contas oficiais do Chega. Contudo, a influência financeira manifesta-se de forma muito mais subtil e eficaz através da chamada "Via dos Think Tanks". O Mathias Corvinus Collegium (MCC), uma instituição financiada com milhares de milhões de euros pelo Estado húngaro, tem servido como o braço logístico desta internacional de direita. Através do financiamento de conferências de luxo, viagens internacionais e programas de "formação política" para quadros da direita radical, o dinheiro de Orbán garante uma infraestrutura de apoio que partidos como o Chega dificilmente sustentariam sozinhos. É, na prática, um financiamento indireto de uma guerra cultural coordenada.

A esta rede de influência soma-se o "Mistério do Dubai" e a aquisição da Euronews. A revelação de que fundos ligados ao círculo íntimo de Orbán foram utilizados para comprar órgãos de comunicação internacionais através de estruturas offshore levantou suspeitas legítimas sobre a existência de canais semelhantes para apoiar campanhas digitais e propaganda a favor de aliados europeus. Se o dinheiro não entra diretamente no partido, ele parece circular no ar, financiando o ecossistema mediático que sustenta as suas mensagens.

Pairando sobre tudo isto está a "Sombra de Putin". Orbán tem sido frequentemente descrito como o cavalo de Troia do Kremlin na União Europeia, bloqueando sanções e mantendo uma ambiguidade estratégica que serve os interesses russos. Para André Ventura, esta ligação é um "abraço de urso": embora o Chega tente manter uma fachada pró-Ucrânia para não alienar o eleitorado português, a sua integração no grupo parlamentar Patriotas pela Europa coloca-o sob o mesmo teto financeiro e estratégico que os aliados mais próximos de Moscovo. Se Péter Magyar vencer na Hungria e decidir abrir os arquivos do Fidesz, o que poderá ser descoberto sobre o apoio logístico a partidos "irmãos" no sul da Europa poderá ser politicamente fatal.

O fim do modelo de Orbán significaria, para o Chega, a perda da sua principal validação institucional. Orbán era a prova viva de que era possível ser "anti-sistema", capturar o Estado e governar contra as diretrizes de Bruxelas. Sem o manual de instruções de Budapeste e sem a rede de segurança financeira e política que o grupo de Orbán providencia no Parlamento Europeu, Ventura ficaria isolado. O Chega pode não ser um satélite direto de Budapeste, mas se o regime húngaro cair amanhã, o partido português perderá não apenas um aliado, mas as "vias verdes" de influência e os recursos invisíveis que ligam Lisboa a Budapeste e, por via indireta, a Moscovo.

Conclusão: existe  uma convergência de interesses. Orbán quer aliados que fragilizem a coesão da UE, e partidos como o Chega beneficiam do apoio logístico e da validação internacional que Orbán (enquanto chefe de governo) lhes confere. É um jogo de "soft power" e alinhamento ideológico que, por vezes, é tão eficaz quanto o dinheiro direto.

Saber mais:
1. Hungria cada vez mais próxima da Rússia e dos EUA vai a votos depois de uma campanha marcada por acusações de manipulação
2. Porque é que esta eleição na Hungria interessa e é diferente das outras
3. A conexão evangélica e a Internacional Reacionária


4. A ascensão do autoritarismo reacionário global

terça-feira, 17 de março de 2026

"Trump is aiming for dictatorship". That’s the verdict of the world’s most credible democracy watchdog

The Gunman and the Would-Be Dictator [The Atlantic, July 14, 2024]

The US is no longer a democracy. One of the most credible global sources on the health of democratic nations now says this outright. The Varieties of Democracy (V-Dem) Institute at Gothenburg University reaches the alarming conclusion in its annual report, that the US is hurtling towards autocracy at a faster rate than Hungary and Turkey.

“Our data on the USA goes back to 1789. What we’re seeing now is the most severe magnitude of democratic backsliding ever in the country,” says Staffan Lindberg, founder of the institute.

Since 2012, Lindberg has led his small group of researchers in Sweden to become the world’s leading source for analysis of the health of global democracy. In their latest report, published on Tuesday, they conclude that the US, for the first time in more than half a century, has lost its long-term status as a liberal democracy. The country is now going through a rapid process of what the report’s authors call “autocratisation”.

“For Orbán in Hungary, it took about four years, for Vučić in Serbia, it took eight years, and for Erdoğan in Turkey and Modi in India, it took about 10 years to accomplish the suppression of democratic institutions that Trump has achieved in only one year,” Lindberg says.

US democracy is now back at the worst recorded level since 1965, when US civil rights laws first introduced de facto universal suffrage. All progress made since then has been erased, according to the report.

Worldwide, democracy has receded to its lowest levels since the mid-70s. “The world has never before seen as many countries autocratising at the same time,” Lindberg says.

A record 41% (3.4 billion) of the world’s population currently resides in countries where democracy is deteriorating, the report claims, adding that Washington is leading this global turn away from democracy.

The researchers use 48 different metrics to assess democratic health, such as the freedom of expression and the media, the quality of elections and the observance of the rule of law. The resulting “liberal democracy index” shows that the speed with which US democracy is being dismantled is unprecedented in modern history. The main factor is a “rapid and aggressive concentration of powers in the presidency”, Lindberg says. Congress has been marginalised, jeopardising the “checks and balances” (judicial and legislative constraints on the executive) so crucial to US democracy. At the same time, civil rights have been rapidly declining and freedom of expression is now at its lowest level since the 1940s.

“We’ve seen a very fast concentration of power in the executive wing. The legislative branch has practically abdicated its powers to the president. It no longer functions as a check on executive power,” Lindberg says.
Livro lançado em Setembro de 2020, pouco tempo antes de Joe Biden derrotar Donald Trump 1.0

In Donald Trump’s first year as president, he signed 225 executive orders, whereas the Republican-controlled Congress passed only 49 new laws. “Most of Trump’s executive orders were significant. He shut down entire departments of the government, firing hundreds of thousands of employees. The bills passed by Congress were mostly insignificant modifications to existing laws. So, we no longer have a meaningful division between the legislative and executive branches,” Lindberg says.

Congress has been marginalised and freedom of expression is at its lowest level since the 1940s
Meanwhile, the supreme court has also mostly abdicated power, and even when it does strike down Trump’s executive orders, he circumvents it, Lindberg tells me. He points out that there are more than 600 ongoing judicial procedures against the Trump administration in the courts.

Another aspect of America’s rapidly deteriorating democracy, according to the report, is the removal of internal guardrails that protect the federal government from abuse of power. When I ask Lindberg how we should read the findings, his response is emphatic. “Trump has fired inspector generals and higher levels of civil servants across departments, and replaced them with loyalists. This is exactly what Orbán and Erdoğan did. They remove the constraints on power. It should be obvious by now that Trump is aiming for dictatorship.”

So how did a small research institute in Gothenburg become such a credible source on the decline of democracy in Washington? When Lindberg, a soft-spoken political scientist, founded the V-Dem Institute in 2012, global democracy was near its historic peak.

“Back then, we were all researching the process of democratisation, and we were frustrated that the metrics weren’t good enough, so we wanted to create a credible global index that was relevant for the whole community of democracy researchers,” he says.

Five years later, when the institute published its first dataset of global democracy, its experts realised that things were rapidly going in the wrong direction. “Now, all of us researching democratisation have become researchers on autocratisation,” Lindberg says.

At the time, their reports were criticised for “exaggerating” the risks to global democratic stability. “We were called alarmists. But now our warnings seem justified,” Lindberg says.

The core group of a dozen researchers in Gothenburg works with 4,200 researchers in 180 countries, using what they claim to be the largest global dataset on democracy, with more than 32m data points for 202 countries and territories, spanning from 1789 to 2025. “We have universal standards, but also people on the ground to tell us what is actually going on. The reports are 100% scientific, research-driven, and our data is free from bias and state influence, from general punditry and political considerations.”

V-Dem’s report, titled Unravelling the Democratic Era?, should be required reading for Europe, where seven EU member states – Hungary, Greece, Croatia, Slovenia, Slovakia, Italy and Romania – are “affected by autocratisation”, amid signs of governments using media censorship, curbs on freedom of expression and repression of civil society. Portugal and Bulgaria have joined the institute’s “watchlist”.

The report identifies the UK as a “new autocratiser”, driven by “a substantial decline” in freedom of expression and the media. “In the UK, it began before Keir Starmer, with the Elections Act 2022, and the government expanding its power over electoral commissions,” Lindberg says. “The Policing Act 2022 decreased civil rights and free speech. The Online Safety Act 2023 was used to penalise online speech and lawsuits silencing journalists. The Higher Education (Freedom of Speech) Act 2023 increased demands on universities to monitor protests and police free speech. What’s worrying is that once the democratic backsliding begins, it’s often hard to stop.”.

Denmark, Sweden, Norway, Switzerland, Estonia and Ireland top V-Dem’s global democracy index for 2025. The efforts of others, including Poland, are highlighted for attempting to “U-turn” away from autocracy. But only 18 countries across the world are democratising, a historic low.

A single bright spot in the assessment of the US is that free and open elections are still being held, and the electoral system “remains stable for now”. But executive orders since Trump came to power point to new risks for the electoral system.

Threats to bureaucrats and poll workers administering elections are already alarming, Lindberg says. “We’ve seen media reports that 40% of election/poll workers have quit since 2020. And Trump never accepted his defeat then. Why would he accept a defeat now? If we see a denial of the election results in 2026, then it’s a complete democratic breakdown.”

A potential source of cautious optimism may be that Trump’s authoritarian turn is increasingly unpopular. His approval rating is now below 40%. Large numbers of Trump voters are deeply disappointed with the new war in Iran, and with steadily rising living costs. Many of the liberal states that have been Trump targets, such as Minnesota and California, have successfully fought back against threats to civil rights and local communities.

“We’re also seeing more criticism from within the Maga movement,” Lindberg says.

It would be naive, as the report warns, to think that European countries are immune to democratic decline, whatever happens in Washington. “It’s a global trend,” says Lindberg, “so it’s not just America that is driving this. Research clearly shows that the far right, once they gain power, have a high probability of dismantling democratic institutions.” [ Anne Applebaum expert on dictators warns: Don't lose hope - that's what they want]


In many countries across Europe, voters are now mobilising to elect their own versions of Trump, despite the administration’s open threats to the continent and its persistent support for extremist parties that undermine European stability. Establishment conservatives are following along, hoping against reason that things will somehow work out better this time than in previous eras of authoritarian rule. With stark numbers and crystal-clear language, the V-Dem report underscores the risks of this path.




sábado, 7 de fevereiro de 2026

Era só o que faltava que eu não pudesse reflectir em voz alta - Amanhã votarei em António José Seguro!

Ainda tem dúvidas? 
Autarca do Chega de 49 anos aterrorizou um vizinho com tiros (!!). Além de lhe ter matado uma ovelha, o fulano causou danos avaliados em 20 mil euros à vítima, também resultantes de disparos de arma de fogo.
Amanhã voto ANTÓNIO SEGURO, faça chuva, faça Sol.

Amanhã irei votar contra o ódio, contra o fascismo, contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia, contra a misoginia, contra as touradas, contra a bufaria, contra a militarização das fronteiras, contra a criação de uma polícia migratória estatal e contra criminosos de colarinho branco. 

Não é só Portugal que está em causa. André Ventura partilha e difunde os pilares fundamentais do movimento Internacional Nacionalista, a saber: 

A. Nacionalismo Identitário: A defesa da "identidade cristã" e dos valores tradicionais contra o multiculturalismo. 

B. Populismo de Exclusão: A dicotomia entre o "povo de bem" e as "elites corruptas", estendendo-se frequentemente a ataques contra minorias (especialmente a comunidade cigana e imigrantes). 

C. Segurança e Autoritarismo: Defesa de penas mais pesadas (prisão perpétua, castração química) e um apoio incondicional às forças policiais. (vejam o ICE, nos EUA)

2. As Alianças Internacionais 
André Ventura tem sido muito eficaz a inserir-se na "Internacional Nacionalista". Ele não é apenas um admirador, é um parceiro ativo de figuras chave: 

Santiago Abascal (VOX) Espanha - O aliado mais próximo, com frequentes visitas mútuas e uma agenda comum para a Península Ibérica. 

Matteo Salvini (Lega) Itália - é parceiro no grupo parlamentar europeu Identidade e Democracia (ID). 

Marine Le Pen (RN) França - uma das principais referências e apoiante pública de Ventura em campanhas eleitorais. 

Viktor Orbán (Hungria)- Ventura aponta frequentemente a Hungria como modelo de defesa das fronteiras e da família. 

Donald Trump / Jair Bolsonaro- Ventura adoptou o estilo de comunicação direta e brutalista nas redes sociais e a retórica de "limpeza do sistema" destes líderes.

André Ventura pratica e abusa de deepfake, bots e mentiras.

Só tenho pena de não ter sido discutido o tema ecologia e ambiente.

Provavelmente este “ português de bem ”vai apresentar como defesa, que a ovelha o insultou ou era do Bangladesh (ironia)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Acordo UE-Mercosul foi aprovado. Preocupações ambientais mantêm-se


Os países que votaram contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul justificaram a sua posição sobretudo com preocupações económicas e ambientais, fortemente ligadas à agricultura. França, Irlanda, Polónia, Áustria e Hungria consideram que o acordo expõe os agricultores europeus a uma concorrência considerada desleal, em especial nos sectores da carne bovina, aves, açúcar e cereais, uma vez que os produtores do Mercosul operam com custos mais baixos e regras ambientais e sanitárias menos exigentes do que as da UE. Para estes países, isso pode provocar uma queda dos preços, perda de rendimentos e dificuldades acrescidas para a agricultura familiar. 

Além disso, França e Áustria têm sublinhado que as salvaguardas ambientais incluídas no acordo são insuficientes, nomeadamente no que diz respeito ao combate à desflorestação na Amazónia e ao cumprimento dos compromissos climáticos. Em vários destes Estados-membros, a oposição ao acordo é também alimentada por forte pressão política interna do sector agrícola e por posições já assumidas anteriormente pelos respetivos parlamentos ou governos, tornando o voto contra uma decisão tanto económica e ambiental como politicamente estratégica.

Os defensores do acordo afirmam que este ajudará a aprofundar a cooperação económica da UE com o Sul Global, onde a China já procura alianças em consequência da rutura provocada por Donald Trump na ordem comercial internacional.

O acordo ajudará também a UE a libertar-se da dependência da China em relação aos minerais críticos e às terras raras vitais para os sectores automóvel e tecnológico, uma vez que estes elementos são abundantes nos países do Mercosul.

O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de grafite, níquel, manganês e terras raras. Mas também detém 94% das reservas globais de nióbio, um metal utilizado na indústria aeroespacial, enquanto a Argentina é o terceiro maior produtor de lítio, um material utilizado nas baterias de veículos elétricos.

“O acordo não se resume apenas a questões económicas. A América Latina é uma região de intensa competição por influência entre os países ocidentais e a China. A não assinatura do acordo de comércio livre UE-Mercosul representava o risco de aproximar ainda mais as economias latino-americanas da órbita de Pequim.

“A conclusão do acordo sinaliza também que os europeus estão empenhados em diversificar os seus mercados de exportação, reduzindo a dependência dos EUA”, afirmou Agathe Demarais, investigadora sénior do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, um dos principais thinktank da UE.

Bélgica optou por abster-se na votação.

Preocupações ambientais mantêm-se

1.No final do ano passado, um conjunto de organizações agrícolas acusava o acordo de representar “graves riscos” para a segurança alimentar europeia, para os objetivos ambientais, para o bem-estar animal, para os padrões de condições de trabalho e para a subsistência dos agricultores.

2. Em abril passado, a organização não-governamental CAN Europe publicou uma análise na qual se dizia que o acordo UE-Mercosul provavelmente faria aumentar a contribuição do bloco para a crise climática, ao aumentar o comércio de produtos de elevada intensidade em termos de emissões. Na mesma análise, são levantadas preocupações relativamente à influência do acordo no aumento da desflorestação, com um aumento esperado nas importações europeias de carne de bovino e de soja, no enfraquecimento dos compromissos ambientais dos Estados-membros e no aumento do comércio de pesticidas proibidos no bloco europeu.

3. Mais de 450 organizações europeias e sul-americanas (incluindo redes ambientais, sindicatos, movimentos sociais e associações indígenas) têm criticado o acordo por “ser ruim para o planeta e para as pessoas”, denunciando negociações opacas e exclusão da sociedade civil.

4. Ambientalistas também criticam a falta de cláusulas vinculativas e mecanismos de sanção ambiental. As disposições actuais são vistas como insuficientes para garantir que padrões ambientais sejam realmente respeitados.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

O catolicismo de J.D. Vance. Perfil teológico do herdeiro aparente de Trump


Em 15 de julho, menos de uma semana antes de Joe Biden abandonar a corrida presidencial, Donald Trump escolheu JD Vance, o senador de 39 anos de Ohio (eleito em novembro de 2022) como seu companheiro de chapa. Se eleito com Trump em 5 de novembro, Vance seria o segundo vice-presidente católico na história dos EUA depois de Biden. No entanto, ele seria o primeiro católico “convertido” recente a ascender a essa posição, e isso diz muito sobre as trajetórias teológicas e políticas da Igreja nos Estados Unidos.

1. Um recém-convertido católico, parte de um movimento
Mais do que qualquer outra igreja no Ocidente, o catolicismo dos EUA tem uma parcela significativa de convertidos, ou seja, de membros que se juntaram à Igreja Católica quando adultos (sou casado com um deles). Há muitos convertidos recentes entre os católicos nos Estados Unidos que tornam sua fé pública. Na política, é uma mudança radical do "catolicismo de berço" de gerações mais velhas, como Joe Biden e Nancy Pelosi. Também difere da geração jovem de católicos no Partido Democrata, como Alexandria Ocasio-Cortez, que prioriza outros aspectos de suas identidade em sua política.

Vance falou abertamente sobre seu catolicismo no passado recente: a campanha de Trump entre agora e novembro pode precisar de alguns ajustes nessa mensagem. Ao se juntar à Igreja Católica, Vance faz parte de uma tendência maior de conversões de alto perfil. Nas últimas décadas, vários políticos, jornalistas e intelectuais públicos de persuasão conservadora se juntaram à Igreja Católica, vendo-a como a tradição cristã "mais antiga" e "conservadora". Em contraste com o protestantismo americano tradicional, eles veem essa conversão como um meio de salvar a América do declínio.

"A escolha de Vance de se juntar à Igreja Católica não interferiu, mas acompanhou sua conversão ao trumpismo."

Mas Vance fez isso durante os anos de Trump, durante seu (primeiro) mandato na Casa Branca, em 2019. A escolha de Vance de se juntar à Igreja Católica não interferiu, mas acompanhou sua conversão ao trumpismo; embora ele tivesse sido muito crítico de Trump apenas alguns anos antes, ele então abraçou e se tornou o rosto mais apresentável de Trump.

Sabe-se que os americanos tendem a mudar de igreja ou tradição religiosa frequentemente ao longo de suas vidas, mais do que outros cristãos no Ocidente. Vance foi exposto ao pregador batista do sul Billy Graham por sua avó, e ao pentecostalismo protestante quando adolescente, em uma família que, em seu best-seller de 2016 (com argumento político) Hillbilly Elegy. A Memoir of a Family and a Culture in Crisis (Harper 2016), ele descreveu como profundamente disfuncional. Ele o escreveu entre 2013 e 2015, vários anos antes de se tornar católico, e não dá nenhuma pista de que já tenha considerado o catolicismo. Vance menciona a palavra "católico" ou "católicos" apenas cinco vezes no livro de 264 páginas, e ele nunca se envolve com os ensinamentos católico.

Vance passou por um período de ateísmo, e seus esforços para resolver as contradições entre fé e ciência foram cruciais para sua adoção do cristianismo e do catolicismo. Como ele escreveu em seu ensaio autobiográfico publicado em 2020 na revista católica The Lamp, “Eu li Christopher Hitchens e Sam Harris, e me chamei de ateu.”

Ele foi batizado e confirmado na Igreja Católica em agosto de 2019 no Priorado de Santa Gertrudes em Cincinnati, Ohio, pelo Rev. Henry Stephan, um frade dominicano. Ele escolheu Santo Agostinho como seu santo padroeiro, como disse ao seu amigo e ideólogo "cristão" Rod Dreher (autor do manifesto best-seller internacional de 2017 The Benedict Option, que agora vive e trabalha na corte de Viktor Orban em Budapeste) numa entrevista de agosto de 2019 publicada no The American Conservative.

Vance é um jovem e recente católico que cresceu como um cristão não denominacional e superou muitos estereótipos negativos sobre o catolicismo típicos do protestantismo americano (o suposto antibiblicismo e a mariolatria). Nisso, há um certo orgulho em ser católico que é contracultural e se opõe à tendência dos progressistas liberais de culpar a Igreja Católica por vários males sociais, culturais e políticos. Para Vance, o cristianismo e a igreja não são o problema, mas a solução para os males do projeto político-religioso chamado Estados Unidos da América. Ele disse que as revelações sobre a crise de abuso na Igreja Católica atrasaram sua conversão, mas, no final, não a impediram. A eclesiologia de Agostinho da ecclesia permixta, feita de santos e pecadores, certamente ajuda os fiéis a superar o desgosto que levou muitos católicos de berço, tanto da esquerda quanto da direita, a deixar a igreja.

"Ele é um católico orgulhoso e, como muitos recém-convertidos do protestantismo, não traz o clericalismo consigo."

Ele também é alguém que escolheu o catolicismo como uma resposta à sua percepção dos limites do protestantismo americano, mas também de seu impacto limitado na cultura e na política dos EUA. Ele é um católico orgulhoso e, como muitos convertidos recentes do protestantismo, não traz o clericalismo consigo: há um "orgulho leigo" nesse tipo de catolicismo - o que não implica uma teologia progressista, mas é parte de um certo populismo eclesiológico e raiva conservadora contra a corrupção percebida do sistema eclesiástico e das hierarquias clericais.

2. Mais Vale do Silício do que Doutrina Social Católica
Vance é uma mistura de tecnocracia tipo Elon Musk e catolicismo civilizacional de Charles Maurras. Ele é um protegido de Peter Thiel (o bilionário gay que inventou, entre outras coisas, o PayPal), e a sua ascensão foi amplamente ajudada por um grupo de titãs da tecnologia. Vance personifica a aliança peculiar no GOP de hoje entre tradicionalistas culturais-religiosos (católicos, neste caso) e o Vale do Silício.

O dele é o antielitismo proclamado pelas novas elites, alimentando a raiva daqueles que são social e economicamente marginalizados. A escolha de Vance de abraçar a fé foi uma forma de expressar seu desprezo pelas elites intelectuais seculares: como ele escreveu em The Lamp, “O secularismo pode não ter sido um pré-requisito para se juntar às elites, mas certamente tornou as coisas mais fáceis”. O dele é um catolicismo muito americano, em certo sentido um “catolicismo 'América Primeiro'”, distante do Vaticano e do catolicismo global, que se tornou complacente com o “Make America Great Again” de Trump, bem como com seu gangsterismo e retórica violenta. A visão de Vance sobre as relações entre religião e política é mais próxima de Pat Buchanan, um dos principais ideólogos republicanos e católicos das “guerras culturais” desde a era Nixon, do que de João Paulo II ou Bento XVI.

Comparado a outros convertidos recentes dos EUA, ele tem sido menos polêmico contra o Papa Francisco (embora em 2021, ele educadamente discordou das restrições contra a "Missa Latina" pré-Vaticano II). Vance é um político e não pode prejudicar seu apelo aos católicos romanos, que não gostam de ver o papa atacado. O populismo de Vance nas políticas econômicas pode convergir com alguns aspectos da crítica do Papa Francisco ao capitalismo, mas apenas em um nível superficial. Na entrevista com Dreher, ele disse: "Acho que o Partido Republicano tem tido uma parceria por muito tempo entre conservadores sociais e libertários de mercado, e não acho que os conservadores sociais tenham se beneficiado muito dessa parceria. Parte do desafio do conservadorismo social para a viabilidade no século 21 é que ele não pode ser apenas sobre questões como o aborto, mas tem que ter uma visão mais ampla da economia política e do bem comum."

"Vance adotou o populismo como resposta às políticas neoliberais às quais o catolicismo progressista foi indiferente por muito tempo."

Certamente, há um mar de diferença entre a mensagem de Francisco sobre o meio ambiente e a imigração e o negacionismo de Vance, que é típico do Partido Republicano de hoje. Seu catolicismo não é o catolicismo social do século XX que pressupunha um papel forte para programas governamentais: Vance é apoiado por libertários do Vale do Silício que sabem que se beneficiarão de uma segunda presidência de Trump. Mas, em público, Vance abraçou o populismo como uma resposta contra as políticas neoliberais às quais o catolicismo progressista tem sido indiferente por muito tempo.

3. Teologia e Igreja: Agostinho e Aquino
Teologicamente, é relevante que Vance tenha sido batizado e confirmado (e tenha chegado a essa decisão) por meio de conexões e conversas com membros da Ordem Dominicana. Intelectualmente, é um mundo diferente da conexão de Biden com os jesuítas, a vanguarda do progressismo liberal católico americano, especialmente nas costas leste e oeste. A escolha de seu santo de confirmação confirma a importância fundamental do binômio Agostinho – Tomás de Aquino (interpretado de maneiras que muitas vezes diferem da teologia europeia e continental) para o catolicismo conservador, pós-liberal ou antiliberal nos EUA contemporâneos. Quando ele falou sobre Agostinho em seu artigo em The Lamp, Vance enfatizou não o lado doutrinário e eclesiológico, mas o pessoal-emocional (The Confessions) e o político-Weltanschauung (The City of God : "Eu era fã de Agostinho desde que um teórico político na faculdade designou City of God." Como acontece frequentemente hoje em dia em faculdades e universidades americanas, ele foi exposto ao catolicismo não por um teólogo, mas por um cientista político. Ele expressou interesse em René Girard graças (novamente) a Peter Thiel em 2013, seis anos antes de seu batismo e confirmação.

Ele é um político que pensou por muito tempo sobre religião, cristianismo e catolicismo, mas sem intelectualizá-los demais. Como ele disse várias vezes, "eu gosto que a Igreja Católica seja antiga". Ele não é um católico do Vaticano II: ele é mais a favor do ressourcement do que do aggiornamento em sua busca por solidez teológica e estabilidade doutrinária. O Concílio Vaticano II não aparece em seu panteão teológico, nem se encaixa em sua persona política: isso é típico de muitos convertidos católicos de convicções políticas e religiosas conservadoras. Mas à sua maneira, típico de todos os católicos americanos, incluindo aqueles do lado conservador do espectro, ele é um católico que não poderia viver sem o Vaticano II. Sua esposa, Usha, é filha de imigrantes da Índia e é hindu. Quando o casal se casou em 2014, eles realizaram duas cerimônias, incluindo uma em que um especialista hindu os abençoou. Quando se trata de religiões não cristãs, o islamismo é um assunto diferente, como convém ao companheiro de chapa de Trump: ele afirmou que o Reino Unido, sob o Partido Trabalhista, pode ser o primeiro país "verdadeiramente islâmico" com armas nucleares.

Ele está no lado oposto da doutrina social católica moldada pelo Vaticano II. Como Michael Sean Winters disse em 2022, “a fraudulência de Vance é discernida no fato de que, enquanto ele celebra o catolicismo como um veículo para sua visão sociocultural, ele se afasta do ensinamento da igreja em uma série de questões, da imigração aos direitos trabalhistas e às mudanças climáticas.”

Em 2021, Vance compareceu ao encontro anual do Instituto Napa de grandes doadores e influenciadores católicos de direita, com a participação de alguns bispos conservadores. Em 2022, ele participou de um evento público em uma universidade católica franciscana onde palestrantes argumentaram a favor do integralismo. Vance ainda precisa responder perguntas sobre seus próprios pensamentos a respeito do integralismo católico, isto é, sobre as relações entre a Igreja e o Estado, e suas opiniões sobre o recente aumento do pensamento integralista entre pensadores católicos dos EUA na última década. (Recentemente, Trump desmentiu o "Projeto 2025" da Heritage Foundation, propostas de política conservadora e de direita para remodelar o governo federal dos Estados Unidos e consolidar o poder executivo se ele vencesse a eleição presidencial de 2024. Mas em 2022, ele o endossou, e alguns de seus aliados estão por trás do projeto.)

Ele não fez mistério em uma entrevista recente com o colunista do New York Times Ross Douthat de que ele tolerou o que Trump fez em 6 de janeiro de 2021, em sua tentativa de derrubar o governo que levou a cinco mortes e à mais séria ameaça em gerações à estabilidade do sistema democrático de governo americano. Isso deve dar aos católicos dos EUA (bispos incluídos) que lutaram por pelo menos um século e meio para se tornarem parte do projeto de democracia constitucional na América alguma pausa.

4. Um rosto do novo catolicismo dos EUA
Para onde vai o catolicismo de Vance? Qual será seu efeito na política dos EUA e na igreja? Uma diferença importante em comparação a outros convertidos católicos proeminentes, Vance é um político, e ele precisa vencer no que agora é um país menos religioso, mesmo entre os conservadores, em comparação a apenas dez anos atrás.

Nós, crentes modernos, somos todos viajantes. Vance viajou do ateísmo ao catolicismo, do libertarianismo ao populismo econômico, dos Apalaches a Yale e ao Senado em Washington, DC, passando pelo Vale do Silício. Vance parece ter resolvido, à sua maneira, o famoso ditado do grande escritor católico americano Walker Percy (outro adulto convertido ao catolicismo), que disse uma vez que o homem moderno tem duas escolhas — Roma ou Califórnia. Vance ainda está viajando e pode ir muito mais longe, até mesmo à Casa Branca. Seu catolicismo público está sujeito a mais negociações do que para uma pessoa privada, um jornalista ou um pastor.

Não houve menção à igreja ou ao catolicismo em seu discurso de aceitação na Convenção Nacional Republicana, onde a religião figurou muito marginalmente, seguindo as dicas de Trump e um Partido Republicano mais secular e pós-cristão. Ele mudou sua posição sobre o aborto, deixando os católicos pró-vida com uma sensação de abandono. Mais do que pragmatismo moral contra a crueldade para as mulheres de algumas políticas antiaborto, sua mudança de posição soa como cinismo à luz do fato de que a decisão da Suprema Corte de 2022 "Dobbs" transformou o aborto em uma responsabilidade política para os republicanos. Em uma mensagem de arrecadação de fundos de campanha em 8 de julho, Vance pediu deportações em massa de imigrantes sem status legal, uma promessa também presente na plataforma do Partido Republicano. "Precisamos deportar cada pessoa que invadiu nosso país ilegalmente." É difícil entender como ele conciliará isso com a posição do Papa Francisco e dos bispos dos EUA sobre imigração.

Vance é um millennial neocatólico em uma América secularizada que ainda é o centro do Ocidente. Abraçar a fé é uma forma de dissidência cultural , uma dissidência que, embora genuína, pode se dar bem em uma aliança com tecnocratas neopagãos e antirreligiosos do Vale do Silício que governam o mundo.

O catolicismo americano não é mais apenas o refúgio de ideólogos conservadores, como foi entre os anos 1990 e alguns anos atrás. Agora é uma marca à venda, e Vance também chegou ao cenário nacional, político e global graças aos novos mestres do universo. Não está claro o quão interessado ele está pessoalmente em comprar essa marca e ser identificado com ela porque depende das necessidades políticas determinadas por seu mestre, Donald Trump. Mas outros estão comprando essa marca, pessoas politicamente próximas ao seu partido.

A escolha de Trump marca “a unção de um vice-presidente jovem e herdeiro aparente”, como seu amigo, colunista do New York Times e companheiro convertido católico Ross Douthat colocou. Se eleito com Donald Trump, JD Vance pode não apenas acabar comandando o país, mas também contribuir daquele púlpito para mudar a Igreja Católica nos Estados Unidos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

How to minimize Greenlash



A backlash over the EU’s green policies is not inevitable. Policy-makers should focus on designing green policies that make decarbonisation affordable, and highlight its social benefits.

Since the summer, a new word has entered the EU political lexicon: ‘greenlash’. Popularised by Italian political scientist Nathalie Tocci, the term refers to the political and societal backlash against ‘green’ policies. This can materialise at a local level, with citizens pushing back against clean mobility policies such as congestion charges; at national level, exemplified by the yellow vest movement triggered by the French attempt to increase its carbon tax; and at EU level, as shown by the attempts of centre-right parties in the European Parliament to kill Green Deal policies such as the phase-out of internal combustion engine vehicles or the nature restoration law.

The EU has made the Green Deal – a wide set of policies to address climate change and environmental degradation – a political priority. It aims to reach net-zero carbon emissions by 2050. Inevitably, to reach this goal, decarbonisation now needs to accelerate in sectors that have been lagging behind in emissions cuts. Decarbonising sectors such as road transport and buildings directly affects households, while cutting emissions from agriculture and heavy industry touches specific business interests. Governments are requiring households and these businesses to change their behaviour and to make important investments, which is why we see backlash in the first place.

Therefore, we need to understand the breadth of the ‘greenlash’ and what types of policies are at stake. A slowdown of the European environmental and climate agenda is not inevitable. Contrary to what those opposing the Green Deal allege, an ambitious green agenda is essential for Europeans’ welfare and the competitiveness of European firms.

The varying degrees of ‘greenlash’
There is a difference between critical statements by heads of government about the EU Green Deal and large-scale societal push-back against – or scepticism about – certain environmental and climate policies.

Among EU leaders, over the summer both French President Emmanuel Macron and Belgian Prime Minister Alexander De Croo called for a pause in new European green policy initiatives. This came after a ‘wave’ of new EU policies were introduced to meet 2030 climate goals: they argued governments and businesses need time to implement these new rules and adjust to them. Additionally, they argued the EU should further increase regulatory pressures, not to risk losing industries to jurisdictions with laxer green policies. Later, De Croo nuanced his call by saying that while carbon emission reduction is an absolute imperative, adding further constraints related to biodiversity preservation or chemical regulation could be too ambitious and counterproductive. This shows that some political leaders are wary of targeting specific interest groups like farmers, whose economic interests could be adversely affected by certain Green Deal policies.

Right-wing populist leaders, like outgoing Polish Prime Minister Mateusz Morawiecki and Hungarian Prime Minister Viktor Orbán, have long been attacking European policies for the energy transition. Morawiecki demanded that the carbon prices determined by the EU emissions trading system be capped – a crusade he lost. Orbán tried to blame the energy price spike on EU climate policy, as opposed to Vladimir Putin’s gas flow manoeuvres.

Among European citizens, climate action still ranks high as a political priority: 29 per cent of EU citizens surveyed by Eurobarometer in autumn 2023 believed climate action should be one of the main priorities for the European Parliament to address – after poverty, social exclusion and public health but on a par with support for the economy and job creation. While this was 10 percentage points lower than in November 2021, the ranking of these priorities has not changed.

Yet, in climate-focused polling in summer 2022, Eurobarometer found that, while most Europeans were optimistic about the energy transition creating more jobs than it would destroy, only 46 per cent were convinced that sustainable energy, products and services would be affordable for all. The cost of climate action and its fair distribution worries Europeans. This fear also emerges in a more recent survey carried out by Project Tempo in November 2023: voters who already feel economically insecure and alienated from politics have been driving the recent backlash against green policies. These are so-called ‘forgotten voters’, representing 20 to 30 per cent of the EU’s active electorate. These figures suggest that ‘fatigue’ about green policies, broadly speaking, will be an important theme in the run-up to the 2024 European elections.

‘Triggering’ green policies
To understand and deal with the greenlash, we need to be more specific in identifying the policies that trigger it when poorly designed and implemented.

First, policies that directly affect the cost of living, such as carbon taxes or carbon prices arising from emission trading systems such as the one in place in the EU, are particularly likely to lead to backlash. In 2018, Macron’s planned increase in the carbon tax from €44.6 to €86.2 per tonne of CO2 led to protests of the gilets jaunes (yellow vests) all over France, out of concern it would raise fuel prices. The French government decided to freeze the tax increase.

This type of policy, from fuel taxes to carbon taxes, makes the cost of carbon emissions explicit and inevitably increases the cost of using carbon-intensive goods, such as gasoline-fuelled cars. The aim of these types of policies is to incentivise a shift away from polluting technologies. But higher transport or heating fuel costs can be particularly burdensome for lower-income households which tend to rely on less energy-efficient cars or heaters, and may not have the financial capacity to switch to greener ones. Due to this, these policies can be perceived as socially unjust if not accompanied by measures that help poorer households make greener choices.

Second, banning carbon-intensive technologies can also trigger backlash, as they directly limit the choices of consumers and businesses, as opposed to suggesting or incentivising change. Backlash can be particularly strong if these phase-out mandates are implemented without measures that help households and businesses replace banned technologies with cleaner and more affordable options. For example, over the summer, the German coalition government, pressed by the Green Party, had tabled a proposal to ban the installation of oil and gas heating systems by 2024, requiring households to install new ‘green’ systems instead, such as heat pumps. Backlash came from the political opposition, businesses and large swathes of voters. The government eventually revised the law by continuing to allow new installations of gas and oil heating systems under certain conditions (for example if they can be converted to hydrogen), and by shifting the burden from households to municipalities, which will have to put forward plans outlining how they plan to decarbonise heating.

Another example is the phase-out of the sale of vehicles with internal combustion engines (ICEs) by 2035, which the EU approved earlier this year in an effort to encourage sales of electric vehicles (EVs). Last minute opposition by Germany resulted in the introduction of an exemption: ICE cars will still be allowed on the market provided they run exclusively on carbon-neutral synthetic fuels, a niche technology which is not expected to reach the mass market. Italy’s attempt to obtain a similar exemption for biofuels failed to gain traction. These backlashes were clearly driven by lobbying efforts by the car industry, indicating how organised interests can slow efforts for green reform.

Third, the mirror image of bans on ‘brown’ technologies is legislation that forces the greening of existing assets. Like bans, mandates reflect the policy approach that in environmental economics is labelled ‘command and control’: they require individuals to change their behaviour or green their assets within a precise timeline. Mandates to renovate buildings to make them more energy efficient and reduce energy consumption are a good example of this approach. This type of mandate was one of the cornerstones of the EU’s energy performance of buildings directive, but law-makers toned down this requirement following strong backlash from some member-states led by right-wing governments. Italy, for example, vocally criticised the policy’s attempt to require change in people’s homes. In the end, the obligation to renovate residential buildings to improve their energy efficiency by 2035 will only apply to the “worst performing” ones – less than half of the European housing stock.

A fourth type of policy potentially triggering backlash is the sort that directly touches special interest groups – for example, farmers. These groups are powerful enough to have avoided strong decarbonisation targets so far, but now necessarily need to contribute to climate action. The provincial elections in the Netherlands in spring saw the unexpected rise of the FarmerCitizenMovement. The new movement channelled farmers’ outrage at the government’s plan to reduce livestock numbers so as to curb nitrogen pollution. This electoral outcome had repercussions at EU level: to avoid the ire of farmers, the centre-right European People’s Party (EPP) tried but failed to kill the nature restoration law in the European Parliament. This law would set targets to improve and restore biodiverse habitats such as wetlands and forests. Farmers remain a powerful electoral constituency. Commission President Ursula von der Leyen made sure to laud the role of farmers in ensuring food security in her September 2023 State of the Union speech – while at the same time not budging on the need for “agriculture and protection of the natural world [to] go hand in hand”.

But greenlash is not inevitable. Survey results cited above, from Eurobarometer to Project Tempo, indicate that most citizens care about climate change, but are afraid of changing their own habits and are unable or unwilling to sustain cost increases. Climate deniers are not the main reason for greenlash. So what can be done to prevent or at least control the backlash against green policy?

Managing the greenlash
To prevent or at least manage backlashes, it is critical to provide support to those households and businesses who cannot afford the technology changes that decarbonisation calls for. Last winter, Europe experienced an energy price spike which governments tried to mitigate with generous subsidies and energy price caps. Most of these income support measures were unconditional, meaning all households benefited regardless of their income. This made them easy to roll out, but it has taken a toll on public finances.

Income support should in future be focused on those who need it the most, such as poor consumers who struggle to pay energy bills. Investment support measures should be targeted, income-based and conditional on replacing or renovating older assets with the most efficient ones. Think subsidies for poorer households to efficiently insulate their home or to upgrade their heating system. For example, France offers varying levels of renovation subsidies according to households’ incomes and to the energy savings the renovation would warrant. Conversely, Italy used to offer extremely generous subsidies for home renovations – but these were not capped according to income, not limited to primary residences and not conditional on achieving ambitious energy efficiency improvements.

Investment support should particularly focus on facilitating those upgrades that require large upfront costs and have slow payback. For example, purchasing an electric vehicle is a smaller investment compared to a full-scale house renovation, and it has a shorter payback period, as operating costs are already lower for electric vehicles than for traditional cars. In the wake of its budgetary problems, Germany is freezing investment support for housing renovations and heating decarbonisation while continuing with EV subsidies – a poor decision.

When implementing carbon prices, either via taxes or emissions trading, their regressive impact can be more than offset by appropriately using revenues raised. This could be done using those revenues to fund cash transfers for the entire population. Because the transfers are all for the same amount but the full carbon price burden will depend on how much each person pollutes, those polluting less may gain a net benefit in the end, and bigger polluters instead will bear a larger burden.

The EU has opted for a very targeted approach. As of 2027, it will introduce an EU-wide carbon price on transport and heating fuel through a new emissions trading system, the so-called ETS2. But to reduce the policy’s burden on the poorest, revenues from the auctions of pollution permits under the ETS2 will be in part used to support vulnerable households and businesses in shifting away from carbon-intensive transport and heating (for example replacing gasoline cars with electric ones and gas heating with heat pumps). The main vehicle for this effort is the new Social Climate Fund (SCF), but as its budget allocation has been reduced relative to the Commission’s initial proposal, it may not suffice in supporting all consumers who need it so it will necessarily need to be topped up or complemented with national-level efforts.

But cash, in the form of transfers or subsidies, may not stop greenlash on its own. The Project Tempo survey indicates that voters also want to see broader social benefits from the energy transition, to see how it can positively change both their personal situation and their community’s economic prospects. Arguing that Europe has the duty to cut its emissions, and fast, because of its international commitment to do so may speak to some voters, but definitely not to all.

It is therefore important for lawmakers to communicate the benefits of climate action better, both financially and otherwise. For example, for households, investments in energy efficiency improvements come with renovation hassles, but can deliver improved comfort and lower energy bills. Building renovation is also an activity in which local jobs are created, which can be a positive selling point. It is important for governments to showcase the business case for climate investments: decarbonising operations can bring Europe to the forefront of nascent industries such as clean steel, all while reducing the industry’s dependence on imported fossil fuels which have high and volatile prices. Politicians should not hide the costs of climate action, but they should also showcase its multiple direct and indirect benefits, which go beyond emissions reductions.

Finally, it is important politicians are frank about the social costs of climate inaction: Europe has experienced several extreme weather events in the past years, from floods to wildfires, whose likelihood has been increased by climate change. Their frequency will increase in the future, and so will the damage they cause and the costs of fixing them. This means that Europe cannot fully shield itself from climate change, but it can do its best to mitigate its emissions and adapt to unavoidable climate damage.

Slowing down decarbonisation to appease the leaders of the greenlash would do no favours to Europe. It would not offer respite on the cost-of-living front, because relying on fossil fuels is both expensive and risky, as the energy crunch of the past two years has shown. Similarly, slowing or freezing climate action at a time when both the United States and China are pouring important subsidies into green technology industries would not make Europe more competitive. Business as usual, be it walking back on approved energy and climate laws or hitting ‘pause’ on necessary future changes, is not an option.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Só 29% da população mundial vive atualmente numa democracia

Os governos atuais de todo o mundo podem ser classificados em duas grandes categorias: democracias e autocracias. Com base no sistema desenvolvido pelos politólogos Anna Lührmann, Marcus Tannenberg e Staffan Lindberg e em dados do V-Dem, estima-se que 2.300 milhões de pessoas, aproximadamente 29% da população mundial, viviam numa democracia em 2021. Em contraste, 71% das pessoas viviam sob o que pode ser considerado um regime autocrático.


Significa isto que o número de pessoas a viver num regime de autocracia atingiu o valor mais elevado dos últimos 30 anos, segundo dados que constam no site Our World in Data.


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

'Whataboutism - O entãosismo

'« (...) Whataboutism , em inglês, é uma variante dos argumentos tu quoque», da expressão latina que significa "tu também" (...)»'

'Os "entãosistas” não pretendem que as suas ideias sejam mais úteis ou verdadeiras, mais libertadoras, mais instrutivas ou mais honestas. Pretendem apenas desviar o assunto daquilo que mais os incomoda.
Imaginem que se escreve sobre [Viktor] Orbán. Razões não faltam. Orbán manda cessar a alimentação dos requerentes de asilo de forma a que a fome os impeça de usarem o seu direito de recurso nas decisões judiciais que os afetam. A Universidade da Europa Central, em Budapeste, vê-se forçada a suspender todos os programas com refugiados por causa da nova lei húngara que pune com impostos extorsionários as organizações que ajudem refugiados, incluindo com assistência jurídica. Para completar, Orbán vai a Itália e promove a exportação das suas táticas para violar os valores com que o seu governo se comprometeu através dos tratados europeus.

A resposta não se faz esperar: «então e quando escreves sobre Nicolás Maduro e o desastre em que se tornou a Venezuela?» Um tipo lá assinala que já escreveu (e voltará a escrever) sobre Nicolás Maduro e o desastre, aliás mais do que anunciado e doloso, em que Maduro e [Hugo] Chávez antes dele transformaram a Venezuela. Poderia até dizer que já não são de hoje os avisos sobre a demagogia, o autoritarismo e culto da personalidade que na Venezuela não poderiam deixar de dar em desastre – porque dão sempre em desastre (no meu caso poderia até acrescentar a autoria e a aprovação de resoluções condenando as violações de direitos humanos na Venezuela ou defendendo as liberdades políticas no país). Mal o faça, porém, célere vem o desafio: «então e os crimes do capitalismo? quando é que vão ser denunciados, julgados e condenados os crimes do capitalismo?»

Boa pergunta. Antes de respondermos a essa, lá virá alguém com: «então os crimes do socialismo?» E logo depois «então e os crimes do catolicismo?» Não, espera, antes haveria que responder a «então e os crimes dos islamistas?» E por aí adiante.

Se às vezes parece que boa parte daquilo que passa por debate público, na imprensa e nas redes sociais, é uma repetição infindável deste esquema – é porque é verdade. Em inglês há uma palavra para isto: o whataboutism. A wikipédia define o whataboutism como «uma variante dos argumentos tu quoque», da expressão latina que significa «tu também». Diz a wikipédia que o whataboutism é praticamente uma «ideologia nacional na Rússia de [Vladimir] Putin», que no entanto já tinha sido desenvolvida na União Soviética, onde a réplica «e na vossa terra há linchamentos de negros» era uma resposta corrente – tanto mais eficaz quanto verdadeira, diga-se – a qualquer crítica dos EUA à trágica situação das liberdades na URSS. Se assim é, a disseminação generalizada do whataboutism no comentário público e nas redes sociais é uma prova do triunfo metodológico de Putin. Digo metodológico, e não ideológico. Pode não haver muita gente a querer viver como na Rússia de Putin, mas não há praticamente recanto no espaço público que não esteja dominado pela sua forma de discutir.

E esse é precisamente o objetivo daquilo que decidi traduzir em português por “entãosismo”. Os "entãosistas” não pretendem que as suas ideias sejam mais úteis ou verdadeiras, mais libertadoras, mais instrutivas ou mais honestas. Pretendem apenas desviar o assunto daquilo que mais os incomoda: que alguém tenha o topete de chamar a atenção para os crimes e as violações de direitos humanos que são levados a cabo pelos seus ídolos políticos.

Com isso perverte-se e corrompe-se uma bela palavra. Sim, porque é útil e importante iniciar uma pergunta com «então e?» e é bom fazê-lo para desmascarar um hipócrita. Mas quando o debate é só isso, enfim, os “entãosistas” logram uma vitória tática às custas de um fracasso intelectual e moral – deles e para nós todos.

É possível ser-se conservador, liberal ou socialista e ser-se decente, honesto e inteligente. Vou mais longe mesmo e direi que é por serem decentes, honestas e inteligentes que a maior parte das pessoas de quem discordo pensam como pensam – e ainda bem. Mas não é possível ser um “entãosista” e ser-se intelectualmente honesto. Qualquer pessoa que queira dar um contributo ainda que pequeno à humanidade precisa de crescer para lá do entãosismo e tratar os entãosistas com o escárnio que eles merecem.