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domingo, 30 de janeiro de 2022

René Robert - Assassinado pela indiferença

 


Por José Ramos e Ramos -29 de Janeiro, 2022O conhecido fotógrafo René Robert morreu depois de estar 9 horas caído numa rua de Paris, sem ninguém o ajudar. Tinha 85 anos, mais do dobro da idade de Ernest Hemingway, Nobel, autor de “Paris é uma festa”.

Nos anos 50 do século passado, Hemingway matava a fome com umas ostras, as “Portugaises”, no Café dos Amateurs. E contava com a ajuda de Miss Gertrude Stein, na Rue de Fleurus, mentora de uma das muitas tertúlias literárias de Paris.

Hemingway escreveu nesse livro: “andava a passear-me a mim próprio, porque nesse tempo não tínhamos posses para sustentar um gato”; “nessa época não havia dinheiro para comprar livros, alugava-os”.

72 anos depois, Macron preside à União Europeia. E, bem vistas as coisas, Paris nunca será uma festa… a não ser para meia-dúzia, como sempre!

terça-feira, 12 de maio de 2020

The Clash - Spanish Bombs

Melhor som aqui
Letra
Spanish songs in Andalucia
The shooting sites in the days of '39
Oh, please, leave the ventana open
Federico Lorca is dead and gone
Bullet holes in the cemetery walls
The black cars of the Guardia Civil
Spanish bombs on the Costa Rica
I'm flying in on a DC 10 tonight

[refrão]
Spanish bombs, yo te quiero infinito
Yo te quiero, oh mi corazón
Spanish bombs, yo te quiero infinito
Yo te quiero, oh mi corazón

Spanish weeks in my disco casino
The freedom fighters died upon the hill
They sang the red flag
They wore the black one
But after they died it was Mockingbird Hill
Back home the buses went up in flashes
The Irish tomb was drenched in blood
Spanish bombs shatter the hotels
My señoritas rose was nipped in the bud

[refrão]

The hillsides ring with: Free the people
Or can I hear the echo from the days of '39?
With trenches full of poets
The ragged army, fixin' bayonets to fight the other line
Spanish bombs rock the province
I'm hearing music from another time
Spanish bombs on the Costa Brava
I'm flying in on a DC 10 tonight

[refrão]
Oh mi corazón, oh mi corazón

Spanish songs in Andalucia, Mandolina, oh mi corazón
Spanish songs in Granada, oh mi corazón
Oh mi corazón, oh mi corazón
Oh mi corazón, oh mi corazón

Lançada em 1979 no aclamado álbum duplo London Calling, "Spanish Bombs" é uma das composições mais ricas e multifacetadas dos The Clash. A canção, escrita por Joe Strummer e Mick Jones, destaca-se musicalmente por construir um forte contraste entre a sua sonoridade e o seu conteúdo lírico. Estilisticamente posicionada no ponto de transição entre o punk rock inicial da banda e o post-punk com influências de new wave e jangle pop, a faixa combina guitarras melodiosas, um ritmo fluido com nuances de ska e reggae e uma melodia luminosa com uma letra sombria sobre guerra, assassinato e terrorismo. Um dos elementos mais marcantes da dinâmica musical é o refrão cantado num espanhol gramaticalmente imperfeito, fruto da abordagem direta e intencionalmente crua de Strummer ao tentar expressar afeição na língua local sem ter um domínio formal do idioma.

Historicamente, a canção estabelece uma ponte direta entre dois momentos de forte tensão política e social. De um lado, resgata a memória da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o sangrento conflito em que as forças republicanas de esquerda tentaram conter o avanço do fascismo liderado pelo General Francisco Franco. Do outro, reflete o contexto contemporâneo do final dos anos 1970, período em que Strummer viajou pela Andaluzia durante a conturbada transição espanhola para a democracia. Na época, a Espanha lidava com atentados bombistas do grupo separatista basco ETA em zonas turísticas da Costa del Sol, enquanto o Reino Unido vivia a violência do IRA e o surgimento de movimentos radicais.

Neste sentido, o significado de "Spanish Bombs" gira em torno do desencanto político, da perda da inocência revolucionária e da reflexão sobre a violência histórica. A letra confronta a visão romântica do heroísmo das Brigadas Internacionais da década de 1930 com a realidade brutal e cega do terrorismo moderno, questionando como causas ideológicas nobres acabam muitas vezes afogadas em sangue e destruição. Trata-se, sem dúvida, de uma música de intervenção política e social. No entanto, longe de operar como um mero panfleto ideológico, a intervenção da banda faz-se pela via da conscientização histórica, resgatando a memória da luta antifascista num momento em que a Europa vivia uma nova guinada à direita e enfrentava crises de segurança interna.

O impacto cultural da canção foi significativo. "Spanish Bombs" demonstrou a maturidade do movimento punk ao provar que o género podia articular temas geopolíticos e literários complexos sem perder a urgência ou a energia crítica. A música reintroduziu a narrativa da Guerra Civil Espanhola a uma nova geração de jovens nos anos 80 e influenciou profundamente o rock alternativo de cariz político que surgiria nas décadas seguintes, servindo de referência para bandas como os Manic Street Preachers, R.E.M. e artistas como Billy Bragg.

Por fim, as inspirações literárias e filosóficas da canção são explícitas e profundas. A figura do poeta e dramaturgo andaluz Federico García Lorca, assassinado por milícias fascistas em 1936, é evocada diretamente nos versos que recordam Granada como o local onde o poeta tombou. Além de Lorca, a obra Homenagem à Catalunha, de George Orwell, surge como uma influência fundamental na representação da complexidade e do romantismo trágico da resistência republicana, onde conviviam fações anarquistas e comunistas. Esse imaginário dialoga também com a literatura de  em Por Quem Os Sinos Dobram e com o idealismo do anarquismo e do socialismo libertário, transformando "Spanish Bombs" numa elegia poética sobre a solidariedade internacional e os custos humanos da luta pela liberdade.