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sexta-feira, 24 de julho de 2026

França e Espanha tentam sobreviver a um fenómeno que está a atingir o Mediterrâneo e que ainda não chegou a Portugal

Os incêndios que destruíram parte de Vouzela e Alijó nos últimos dias são um exemplo de que é preciso estar atento, mas Portugal vai-se livrando, pelo menos para já, do inferno que está a atingir os países aqui ao lado.

Com a Europa em pânico perante ondas de calor consecutivas, França e Espanha são os melhores exemplos de um verão terrível que está deixar milhares e milhares de pessoas em sobressalto.

Depois de Almería ter vivido o pior incêndio de sempre da Andaluzia, com 13 mortes contabilizadas, mais acima cerca de 20 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas perante os fogos fogos florestais de França.

É uma nova onda de calor vinda do mar que os investigadores não temem apelidar de “dantesca”, com a costa atlântica francesa a ter um impacto particularmente intenso.

Mais abaixo, e não muito longe de Almería, a província de Murcía vai sofrendo com dias constantes acima dos 40 graus. Esta terça-feira foram 44,7 em Cieza, de acordo com a agência de meteorologia de Espanha, a Aemet.

Antes disso tinham sido cidades como Albacete, Ávila ou Teruel a registar temperaturas recorde para julho, com os termómetros a chegarem aos 42 graus. Já nos arredores de Madrid tiveram de ser retiradas mais de três mil pessoas perante o perigoso aproximar das chamas.

De acordo com o Sistema de Monitorização do Mediterrâneo, esta onda de calor está a afetar 80% da superfície do mar que banha o sul da Europa, provocando temperaturas por vezes extremas, algumas delas com anomalias de cinco graus acima do expectável. Portugal, até porque tem a costa já em mar aberto, vai conseguindo escapar a este fenómeno.

Os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais apontam mesmo um ano recorde em termos de área ardida nesta altura do ano. É quase o dobro em relação ao mesmo período registado nas últimas duas décadas.

Em França a situação não é muito diferente. O fogo que começou junto à vila de Saumos, a 40 quilómetros de Bordéus, já queimou 3.700 hectares em pouco mais de 24 horas.

Não há registo de vítimas, mas muitas vidas não voltarão a ser as mesmas, até porque muitas casas foram totalmente consumidas pelas chamas. Nas últimas horas chegaram a estar 800 operacionais apoiados por vários meios aéreos a tentar conter as chamas, mas a situação continua “desfavorável” e longe de estar controlada.

“O fogo está altamente errático e a ganhar força muito significativa”, avisou o chefe do serviço regional de bombeiros, Marc Vermeulen, citado pelo jornal The Guardian.

“Uma das principais frentes está muito próxima de uma área semi-urbana. Estamos a defender casa a casa”, acrescentou.

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Zonas protegidas ardem duas vezes menos, indica análise da WWF

As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 arderam duas vezes menos entre 2021 e 2025 do que o restante território, segundo uma análise da WWF Portugal, sugerindo uma abordagem integrada de prevenção e conservação da natureza.

“Os resultados desta análise sugerem a necessidade de uma abordagem integrada de políticas públicas que articule prevenção de incêndios, conservação da natureza e gestão ativa do território”, defendeu a associação ambientalista num comunicado hoje divulgado.

A análise da WWF Portugal, ao indicar que nas ZEC há menor proporção de área ardida, contraria estudos que indicam que estas áreas ardem mais. A organização cruzou dados de incêndios com informação sobre o uso do solo e habitats naturais em Portugal continental.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, Catarina Grilo, disse, citada no comunicado, que os resultados da análise mostram que a conservação da natureza “não é incompatível” com a prevenção de incêndios.

“Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, sublinhou.

Por isso, concluiu, integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza “não é apenas possível, é indispensável”.

De acordo com os dados divulgados no trabalho, com o título “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal”, entre 2021 e 2025 ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC, face a 2,9 dentro dessas áreas.

A associação notou que cerca de um quarto da área ardida no período em causa ocorreu no interior das zonas protegidas e os incêndios afetam sobretudo matos e formações arbustivas, um tipo de vegetação que desempenha um “papel ecológico relevante”, mas que “continua a não ser tido em conta na gestão do território”.

A WWF Portugal salientou também que alguns habitats classificados exigem atenção redobrada, como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais, que apresentam “níveis relevantes de afetação pelo fogo”, e que por isso precisam de medidas de gestão e conservação específicas.

O estudo apontou para a importância não só de gerir de forma estratégica áreas de matos e mosaicos agroflorestais, como também considerar a distribuição de habitats na definição de medidas de prevenção, e integrar melhor o conhecimento científico nas políticas públicas.

Indicou ainda que as causas intencionais de incêndio têm maior expressão nas ZEC do que fora delas, algo que “merece aprofundamento”, inclusive “procurando explorar fatores de ordem social”.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mais de 3.000 mortos e 13 milhões afetados por fenómenos climáticos em África em 2025

Mais de 3.000 pessoas morreram e 13 milhões foram afetadas devido aos fenómenos meteorológicos e climáticos extremos em 2025 no continente africano, disse hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Estes fenómenos causaram “impactos em cascata em todos os setores da economia e da sociedade” africana, com os sinais das alterações climáticas “visíveis em toda a África, desde o aumento das temperaturas e da subida do nível do mar até às cheias e secas devastadoras”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, a propósito do relatório divulgado hoje por esta agência especializada das Nações Unidas.

“Este relatório evidencia não apenas a dimensão dos riscos, mas também a crescente importância dos alertas precoces, dos serviços climáticos e da ação coordenada para proteger vidas e meios de subsistência”, sublinhou a responsável.

Segundo o relatório, que reúne contributos de dezenas de especialistas, serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, centros climáticos e parceiros do sistema das Nações Unidas, “o continente continua a ter dificuldades em lidar com estes impactos e apenas 40% dos países dispõem de sistemas de alerta precoce multirriscos, essenciais para salvar vidas e meios de subsistência”.

Ainda assim, enalteceram as melhorias no reforço da cooperação entre os serviços meteorológicos, os organismos de gestão de catástrofes e as autoridades locais, bem como os progressos nos serviços climáticos, como as previsões sazonais.

No mesmo relatório, a OMM detalhou que, em 2025, a temperatura média anual do ar à superfície em África ficou 0,51 graus centígrados acima da média do período 1991-2020.

Por outro lado, os glaciares africanos perderam mais de 90% da sua área desde o final do século XIX. No Monte Kilimanjaro, a área glaciar diminuiu de 11,4 quilómetros quadrados (km²) em 1900 para menos de 1 km² nos últimos anos.

Já o aquecimento dos oceanos prossegue em todo o continente, embora em 2025 o conteúdo térmico dos oceanos e a temperatura da superfície do mar tenham sido inferiores aos níveis recorde observados em 2023 e 2024, com a subida do nível do mar ao longo das costas africanas entre 1999 e 2025 a ultrapassar a média mundial de 3,6 milímetros por ano em várias regiões.

Quantos aos países lusófonos, foram registados totais anuais de precipitação acima da média na maior parte da África Austral em particular, Moçambique.

A agência recordou ainda que ciclones tropicais e as cheias afetaram várias zonas da África Austral no início de 2025.

“Moçambique foi atingido pelos ciclones Dikeledi, em janeiro, e Jude, em março, agravando os impactos já provocados pelo ciclone Chido, em dezembro de 2024”, recordou, detalhando que “mais de um milhão de pessoas foram afetadas pela passagem do Jude em Moçambique, tendo sido registadas 16 mortes e mais de 492 mil deslocados”.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

O climatologista Carlos da Câmara, em entrevista à VISÃO - "Vamos ter um clima no Sul de Portugal mais parecido com o de Marrocos? Sim, e temos de nos adaptar e mitigar os efeitos."


No final de junho, uma onda de calor nunca antes vista matou centenas (milhares?) de pessoas no Canadá e nos EUA. Duas semanas depois, um temporal de dimensões bíblicas abateu-se sobre a Europa Central, matando 200 pessoas e provocando prejuízos que podem chegar aos €3 mil milhões (há estimativas que apontam para €5 mil milhões).

Serão estes desastres causados pelas alterações climáticas? Quase certamente que sim, diz Carlos da Camara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos mais experientes climatologistas portugueses. Munido de um gráfico que se assemelha à bossa de um camelo, o também investigador do Instituto D. Luiz explica que uma pequena subida da temperatura média provoca um enorme aumento probabilístico de fenómenos extremos como estes. “Coisas que pareciam inacreditavelmente impossíveis começam a tornar-se possíveis. E às vezes nem é assim tão dramático: basta um deslocamento pequenino para que aquilo que dantes acontecia uma vez em cada 100 anos passe a acontecer quatro vezes em cada cem. Mas, como é isso que mata, é isso que tem impacto.”
E isto é só o princípio.

A tragédia no Centro da Europa é uma consequência das alterações climáticas ou do mau planeamento urbano?
As pessoas começam a dizer: “Ah, isto não é das alterações climáticas, é porque construíram coisas em leito de cheia.” Não! Um fenómeno extremo com consequências catastróficas nunca é de uma só causa. É como quando cai um avião: é um conjunto de fatores raros que se intercetam. Por exemplo, o 15 de outubro de 2017, aquele dia trágico em que ardeu o País como nunca, teve vários fatores que conduziram ao desastre. Ponto um, os ventos do Ofélia: não era nada habitual um furacão chegar aqui. Era uma coisa rara que, não sendo frequente, se tornou muito menos rara. Ponto 2: uma seca terrível, outro fenómeno que é cada vez menos raro. Ponto 3: os agricultores precisavam de fazer queimadas porque depois vinha a chuva e já não conseguiam (nunca houve tantas ignições como naquele dia). Claro que construir em leito de cheia é perigoso. Só que na Alemanha não era habitual haver coisas destas. E isto só aconteceu por causa das alterações climáticas.

De que forma é que uma temperatura média mais alta pode levar a um aumento de fenómenos de precipitação intensa?
Os estados do tempo são determinados por coisas que se passam a muitos quilómetros de altitude. A corrente de jato é fundamental nisto. É uma espécie de tubos na atmosfera, com ventos de 400 ou 500 quilómetros por hora, que controlam o tráfego de sistemas meteorológicos que estão associados, por exemplo, à precipitação. A posição da corrente de jato está dependente do contraste térmico entre os trópicos e os polos. Ora, o Ártico e o Antártico estão a aquecer muito mais rapidamente do que os trópicos; esse contraste está a diminuir e a corrente de jato está a posicionar-se noutros sítios. Isso faz com que determinados sistemas meteorológicos que não eram habituais passem a ser menos raros.

Então a tragédia que aconteceu no Centro da Europa é o tipo de evento que podemos esperar que aconteça cada vez mais?
Inequivocamente, sim. E ainda há uma outra razão, além da questão da corrente de jato: a atmosfera, quanto mais quente está, maior capacidade tem de reter vapor de água e maior quantidade de água estará disponível para que, caso haja condições para precipitação, ela ocorra com maior intensidade. Portanto, o facto de estes fenómenos se tornarem mais prováveis tem que ver com as alterações climáticas de origem antropogénica.

Qual a probabilidade de cheias como estas ou ondas de calor como a do final de junho no Canadá e nos EUA acontecerem sem o efeito das alterações climáticas?
Seriam acontecimentos extremamente raros. Um recorde que sobe de 45ºC para quase 50ºC é, do ponto de vista probabilístico, pouquíssimo frequente, num cenário sem influência antropogénica. No caso da “cúpula de calor”, a corrente de jato levou à formação de uma região em que o ar não se renova durante muitos dias, como se estivesse em circuito fechado. E sobre essa região há altas pressões, que têm a particularidade de empurrar o ar para baixo, comprimindo-o, o que faz com que aqueça. Além disso, havia já no Canadá uma seca excecional. Se o ar e o solo estiverem secos, aquece ainda mais do que em condições normais. Foram então duas situações absolutamente anómalas que se juntaram.

Uma equipa de investigadores que analisou essa onda de calor disse que esta seria “virtualmente impossível” sem as alterações climáticas.
Não é nada inédito. Um artigo de um colega meu, o Ricardo Trigo, publicado na Science em 2011, na sequência da onda de calor na Rússia, acaba a dizer que a probabilidade de algo semelhante voltar a acontecer é extremamente baixa. Curiosamente, no mês passado, Moscovo teve a onda de calor mais séria dos últimos 120 anos. Isto é que me preocupa imenso. E as regiões do Mediterrâneo e do Nordeste europeu emergem como os hotspots primários. É onde vamos ter estes extremos.

A realidade está a ser mais drástica do que os modelos climáticos previam?
Está em linha com o que se previa, mas a uma taxa mais acelerada. Aquilo que eu achava que ia acontecer depois de eu morrer… Bom, estou a ficar preocupado, porque começa a haver fenómenos extremos que os modelos apontavam mais para a frente.

Como climatologista, estes fenómenos surpreendem-no? Ou olha para isto e pensa: “Há anos que andamos a avisar”?
Há anos que andamos a avisar. O problema é que um climatologista não é um catastrofista. A questão é que quando se transforma um resultado científico numa ideologia, caímos na controvérsia. Eu só digo: “Meus amigos, isto são os resultados. Agora façam o que quiserem.” O que temos de fazer é confiar na Ciência, olhar para os cenários e arranjar medidas para nos adaptarmos. Mitigar os impactos, porque eles estão aí e duvido de que possamos escapar.

Este mês, o Comité das Alterações Climáticas britânico avisou o governo de Boris Johnson de que o país está mais mal preparado para fenómenos extremos do que há cinco anos. Os governantes não estão a levar os alertas a sério?
É um facto que governos mais conservadores tendem a minimizar os impactos das alterações climáticas. Ao mesmo tempo, os de esquerda tendem a dar uma ideologia a uma coisa que não devia ser ideológica, mas sim técnico-científica.

Tivemos então a onda de calor na América do Norte, que matou centenas de pessoas…
Centenas, não. Vão chegar aos milhares. Vai ser essa a conclusão, quando se fizer a análise estatística da diferença de mortes para o mesmo período em condições normais.

… E agora as cheias na Europa, que provocaram pelo menos 200 mortes. Se isto acontece nos países mais ricos e com as melhores infraestruturas, o que podem esperar os países mais pobres do mundo? Nas metrópoles da Nigéria, do Bangladesh ou da América Latina…
Mas já acontece! De cada vez que um furacão assola o México ou a Nicarágua, os mortos são aos milhares. De facto, em países como os EUA reduz-se o número de vítimas, porque há uma capacidade de previsão e de mobilização. Essa é a vantagem das sociedades mais industrializadas. Mas também têm prejuízos económicos muito maiores. O furacão na Figueira da Foz causou uma enorme destruição na rede elétrica, por exemplo.

O objetivo do Acordo de Paris é limitar o aumento da temperatura a um máximo de 2ºC, mas preferencialmente não mais de 1,5ºC. Esses 0,5ºC podem efetivamente significar milhares de vidas salvas todos os anos? Meio grau faz a diferença?
Meio grau faz toda a diferença nos desvios-padrão. Uma coisa que tinha uma probabilidade de 0,13% de acontecer passa para 0,26% – duas vezes mais provável. O problema não é a média. Com essa eu vivo bem. É como com a subida do mar: a questão não são os 80 centímetros a mais até ao final do século, são as flutuações, com ondas e subidas de água capazes de destruir a baixa de uma cidade como Lisboa, que dantes eram raríssimas e passam a ser muito mais frequentes. A discussão do meio grau é fulcral, porque se traduz, em termos de extremos, em variações brutais de probabilidades.

Em Portugal, que consequências das alterações climáticas já se notam mais claramente?
Se analisarmos o perigo meteorológico de incêndio em Portugal dos últimos 40 anos, e o dividirmos num gráfico, vemos que todos os maiores extremos aconteceram nas últimas duas décadas, de 2000 para cá. Se cruzarmos com a área ardida oficial, vemos que acontece o mesmo. Depois podem dizer: “Ah, a paisagem está mais desordenada, ou há mais ignições”… Não estou a dizer que as alterações climáticas são o bode expiatório de tudo, mas, não havendo uma política de ordenamento do território nem de mitigação de ignições, o resultado estatístico está à vista. Outra coisa: entre 1980 e 1999, 89% dos fogos ocorriam de julho a setembro, e apenas 3% de outubro a dezembro; de 2000 a 2019, a proporção de fogos no verão baixou para 76% e de outubro a dezembro subiu para 13 por cento. Isto é um exemplo muito simples dos impactos. As alterações climáticas estão a fazer com que as consequências sejam muitíssimo piores. Tornam mais prováveis acontecimentos que eram raríssimos. Se juntarmos a isto outras condições, o impacto vai ser ainda maior.

Governos mais conservadores tendem a minimizar os impactos das alterações climáticas. Ao mesmo tempo, os de esquerda tendem a dar uma ideologia a uma coisa que não devia ser ideológica

Estamos preparados para o aumento desses riscos? Incêndios, ondas de calor, secas, inundações?
A seguir ao trauma de 2017, houve uma mudança de paradigma. As pessoas passaram a ter medo, o que às vezes é útil. Há uma muito maior colaboração entre as universidades e as instituições, por exemplo. A Proteção Civil está agora a usar conhecimento científico para o posicionamento das aeronaves. Isso nota-se, sim. Mas o problema é extremamente vasto. Além disso, transcende o ciclo governativo, aquela ideia de que o que interessa é ter resultados até às eleições, quando a questão dos fogos é muito mais complexa.

É um problema só nosso?
Não. Uma vez, em 2017, estava à conversa com um diplomata sueco que me dizia, com condescendência: “Vocês, portugueses, são muito indisciplinados. Nós, na Suécia, não temos o impacto dos fogos, porque há muitos anos que temos especialistas competentes.” E eu disse-lhe: “Prepare-se, porque vão ter problemas. As alterações climáticas estão a chegar lá.” No ano seguinte, ardeu a Suécia. Esta ideia de que os países nórdicos ou a Alemanha estão bem preparados… Não estão, porque isto ultrapassa os cenários menos usuais. Mas também lhe digo que os belgas e os alemães não brincam em serviço. Morrerem ou desaparecerem tantas pessoas é completamente inaceitável e vai haver uma mudança qualitativa na previsão e na resposta a este tipo de coisas.

Portugal devia também aprender com esta tragédia na Alemanha?
Há uma mentalidade que começa a mudar. Nos fogos, isso é óbvio: começou a perceber-se que um fogo vencido não é uma vitória, é uma derrota. Uma vitória é evitar o fogo. É como dizer: “O tipo espetou-se, mas a ambulância chegou em três minutos.” Não, vitória era não haver acidente. E isto é transposto para tudo, incluindo cheias.

Está otimista, então?
Como estes extremos vão continuar a ocorrer, as pessoas vão perceber que os climatologistas tinham razão. Agora, as alterações climáticas vão ser o Armagedão, o fim do mundo? Não. Vamos ter um clima no Sul de Portugal mais parecido com o de Marrocos? Sim, e temos de nos adaptar e mitigar os efeitos. Vão morrer uns milhares de quando em vez? Ah, pois vão, com certeza. Como se está a ver.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Nos países ricos a comida é muito barata. Nenhuma civilização gastava tão pouco



Reproduzo na íntegra um excelente artigo jornalístico de Marta F. Reis, publicado em 12 Mar 2012, para o Ionline

Produzir um quilo de leite exige 700 litros de água. Um quilo de carne de porco 4600 litros. Um quilo de carne de vaca 13 mil litros. “Se reflectirmos sobre estes números, teremos de fazer uma revisão radical da nossa dieta”, introduziu Emídio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, na passada sexta-feira, em Lisboa, no arranque do ciclo de conferências sobre o futuro da alimentação. O problema, perante a escassez de água e tendo em conta a carne que comemos, já seria colossal, e mudar de dieta até pareceria fácil. Mas o desafio é global e as soluções continuam em discussão. Em 2050, seremos mais dois mil milhões de habitantes no planeta, 9 mil milhões. Na Europa e nos Estados Unidos o consumo de carne tem-se mantido estável, mas na China quadruplicou em 40 anos. 
Há mil milhões de pessoas com fome e, segundo dados da ONU, desperdiçamos 30% dos alimentos produzidos. Se a esta altura já está a recordar o silogismo popular que diz às crianças para comerem tudo porque há pessoas a morrer de fome em África, se calhar a discussão da segurança alimentar vai fazer com que faça sentido: se os preços dos alimentos aumentarem “moderadamente”, sugeriu o convidado de honra da primeira conferência, o professor de Oxford Charles Godfray, talvez haja menos desperdícios, menos fome, além de outras consequências benéficas como aumentar a investigação nesta área e os agricultores terem mais retorno por produzirem mais e melhor. 
O objectivo do ciclo da Gulbenkian é pôr as cartas em cima da mesa e antecipar soluções para um problema iminente. São muitas e todas interligadas: das alterações dos padrões de consumo a limitações incontornáveis, como 70% da água disponível já ser canalizada para a agricultura e 30% das emissões de gases com efeito de estufa virem da produção agro-alimentar. 
Posto isto, mais as alterações climáticas, Godfray, director do programa Oxford Martin para o Futuro da Alimentação, diz que não há uma solução milagrosa e aumentar o preço seria um bom compromisso para garantir melhores resultados. “Nos países ricos a comida é muito barata, nunca nenhuma civilização gastou tão pouco em alimentos como a nossa”, diz, acrescentando que esse ajuste teria sempre de se fazer com medidas de apoio aos pobres para evitar convulsões sociais. Já que tipo de aumento seria benéfico, é uma questão em aberto, responde ao i. Mesmo tendo coordenado um estudo para o governo britânico sobre o futuro da agricultura e alimentação (“The Future of Food and Farming”, 2011). 
Certo é que, pelas próprias pressões populacionais e alterações climáticas, em 40 anos o preço do milho pode duplicar, refere, citando um modelo elaborado para o relatório. Sem alternativas, com um puzzle enorme por montar e sem recorrer às soluções do passado, por onde se começa? Godfray refere os impostos sobre alimentos calóricos e bebidas açucaradas como um bom ponto de partida mas alerta que é preciso um consenso público sobre os riscos da insegurança alimentar semelhante ao que legitimou os governos a restringir o tabaco ou a combater a pobreza. Para Godfray, a solução última chama-se “intensificação sustentável” da agricultura: “A resposta há 15 anos seria que temos de aumentar a área de cultivo. 
Hoje, sabemos que isso tem enormes custos ambientais. Temos de encontrar uma solução para produzir mais comida na mesma porção de terra, com menos efeitos ambientais.” E mesmo sendo biólogo de formação, não descarta os transgénicos. “É errado excluí-los. Não vão alimentar África mas podem ajudar.” E haverá forma de atrair financiamento para investigação quando há alimentos mais baratos a entrar no mercado e uma lei da oferta e procura global? Aqui a solução torna-se mais demorada: entronca nas discussões do futuro da política europeia comum – que terá uma nova fase a partir de 2014 – e numa eventual alteração do acordo geral de tarifas e comércio da Organização Mundial do Comércio, em negociação há dez anos. Nesta primeira conferência, Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura e do Ambiente resumiu a evolução da PAC desde 1962 para concluir que está na altura de abrandar: “Temos optado por um modelo de globalização que não serve todas as partes. 
Era necessário permitir que os países mais pobres pudessem proteger mais os seus mercados e, por outro lado, em relação a países mais desenvolvidos como a Europa – que têm políticas agro-ambientais robustas e que implicam custos de produção mais elevados – permitir-lhes alguma protecção.” Já no espaço de debate, com auditório cheio e participações reactivas, Arlindo Cunha admite que é preciso aumentar a transparência dos mecanismos destinados a apoiar países mais pobres, como a iniciativa “Tudo Menos Armas”, que favorece a importação de países em desenvolvimento mas é criticada pelo uso indevido de exportadores ricos e emergentes. Mas também aponta o dedo às grandes superfícies na equação da insegurança alimentar: “Os poderes públicos têm andado de cócoras sob o poder das grandes superfícies. Precisamos de políticas que reforcem os mercados locais e regionais. Os países têm de ter direito a uma certa margem de auto-suficiência.” 
 Também Godfray acredita que a Europa pode fazer mais pela agricultura, mesmo sem gastar mais. Hoje, dos 55 mil milhões de euros de despesa da PAC 40% vão para ajudas directas que não implicam produção de facto. “É um momento único na História. Há 25 anos não conseguíamos justificar racionalmente que iria haver um pico de procura, ainda estávamos convencidos que Malthus estava errado. Hoje sabemos que se falhamos em comida, falhamos em tudo.” Convém lembrar que Thomas Malthus lançou o debate sobre a fome mundial há mais de 150 anos. “O poder da população é infinitamente maior que o poder da terra para produzir a subsistência do homem”, escreveu.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Novo Relatório PNUMA - "Rumo a uma Economia Verde" comprova que a economia verde cria emprego e protege o ambiente

UM MARCO HISTÓRICO


Foi publicado ontem, 16 de Novembro, o relatório PNUMA (UNEP) criador de esperança, de planos de investimento já existentes em todo o mundo e nas diversas actividades humanas, em que se privilegiou a economia verde. O Relatório comprova que houve progresso significativo nas populações, com criação de postos de trabalho e maior protecção ambiental. No meu blogue deixo o resumo técnico em Português e o Prefácio. Para leitura completa (e em inglês) a UNEP disponibiliza em linha, que podes lê-lo aqui ou em pdf, que podes descarregar também aqui.

PNUMA_Rumo À Economia Verde_Síntese_PT

Vinte anos após a Cúpula da Terra, as nações se encontram novamente a caminho do Rio, mas num mundo diferente, que mudou muito desde 1992. Naquela época estávamos apenas vislumbrando os desafios emergentes em todo o mundo desde a mudança climática até a perda de espécies devido à desertificação e à degradação da terra. Hoje, muitas dessas preocupações, aparentemente distantes, estão se tornando realidade com implicações sóbrias não somente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas, mas também estão pondo em risco a oportunidade de quase 7 biliões de pessoas – 9 biliões até 2050 – de sobreviver, quem dirá de prosperar. A Rio 92 não foi um fracasso mundial – longe disso. Ela forneceu a visão e as peças fundamentais de um mecanismo multilateral para se alcançar um futuro sustentável. Mas isso só será possível se os pilares ambientais e sociais do desenvolvimento sustentável tiverem um mesmo tratamento econômico: onde a frequentemente esquecida força motora da sustentabilidade, desde as florestas até a água doce, também receba tratamento de mesmo peso, ou maior, num planejamento econômico e de desenvolvimento. 

Rumo a uma Economia Verde está entre as contribuições-chave do PNUMA ao processo Rio+20 e ao objetivo geral de luta contra a pobreza e promoção de um século XXI sustentável.O relatório apresenta argumentos económicos e sociais convincentes para o investimento de 2% do PIB mundial para tornar verde os 10 setores estratégicos da economia, de forma a redirecionar o desenvolvimento e desencadear um fluxo público e privado rumo à baixa emissão de carbono e a um caminho de uso eficiente de recursos. Tal transição pode catalisar uma atividade econômica de tamanho comparável pelo menos às práticas atuais, mas com um risco reduzido de crises e choques cada vez mais inerentes ao modelo existente. Novas ideias são assustadoras por sua própria natureza, mas muito menos assustadoras do que um mundo onde a água potável e a terra produtiva estão se acabando, devido ao cenário de mudanças climáticas, eventos de condições 
climáticas extremas e aumento da escassez de recursos naturais.

Uma economia verde não favorece uma ou outra perspectiva política. Ela é relevante a todas as economias, sejam elas controladas pelo estado ou pelo mercado. Também não é uma substituição de um desenvolvimento sustentável. Ao contrário, ela é uma forma de se alcançar desenvolvimento nos níveis regional, nacional e global, ressoando e ampliando a implementação da Agenda 21.A transição à economia verde já está a caminho – como está destacado neste relatório e nos estudos complementares elaborados por organizações internacionais, países, corporações e organizações representantes da sociedade civil. No entanto, o desafio, claramente, é como aproveitar ao máximo este impulso. A Rio+20 oferece uma oportunidade real para se ampliar e fortalecer esses “brotos verdes”. Ao fazer isso, este relatório oferece não somente uma rota para o Rio, mas vai além de 2012, onde um gerenciamento mais inteligente de capital natural e humano guia a criação de riquezas e a direção deste mundo. 
Achim Steiner
Diretor Executivo do PNUMA
Subsecretário Geral da ONU

domingo, 25 de abril de 2010

São trabalhadores precários que fazem o trabalho sujo e mais perigoso nas centrais nucleares


As centrais atómicas francesas recorrem a trabalhadores precários, frequentemente sem residência fixa, empregados nas tarefas mais arriscadas e mais expostas às radiações.

Chamam-lhes 'jumpers', os que mergulham para dentro do reactor. Ou nómadas do nuclear",
lê-se no Alias, o suplemento semanal do diário italiano Il Manifesto.

Empregados por subcontratantes da EDF, GDF-Suez ou Areva, as empresas que gerem as centrais, "incorporam 80% das doses colectivas anuais de radiações ionizantes produzidas pelo parque nuclear francês".

A revista explica que a doutrina do “risco zero” em matéria de protecção das radiações foi progressivamente abandonada, trocada pela muito mais leve ALARA (As Low As Reasonably Acceptable, o mais baixo razoavelmente aceitável).

Vários destes "nómadas nucleares" apresentaram queixa contra os seus empregadores devido às consequências da sua exposição às radiações; mas não tiveram seguimento, porque a prescrição para os acidentes do trabalho no domínio nuclear é de dez anos, "o tempo de incubar a doença e de ocultar as causas que a provocaram", sublinha o Alias.

Entretanto descobri uma entrevista,  da Global Subsidies Initiative (GSI) a Doug Koplow, fundador do Earth Track  (obrigatório ler).

Nela refere que a indústria nuclear é altamente subsidiada, e que mesmo se esta indústria reduz as emissões de CO2, trata-se de uma falácia, pois os custos são muito elevados.Refere o exemplo do fiasco da mais moderna central nuclear na Finlândia [
ler aqui notícia mais detalhada].

O especialista denuncia também a ligação entre o nuclear civil e a proliferação de armamento nuclear.

Ainda de acordo com Doug Koplow a direcção correcta a dar aos mercados é investir em várias outras fontes alternativas de energia e melhorar a eficiência energética.

terça-feira, 30 de junho de 2009

O tema do Dia Mundial da Paz este ano é o desarmamento nuclear



Síntese dos 11 Pontos por um Mundo Livre do Nuclear,após Conferência no Japão, 27 de Abril 2009: tradução [fonte de imagem e informação]

1. liderança de e coordenação entre os Estados Unidos e Rússia avançando desarmamento nuclear global.

2. desarmamento nuclear, inclusive redução de armas nucleares, pela China e outros estados com armamento nuclear.

3. transparência de informação por todos os países nucleares.

4. desarmamento nuclear irreversível por todos os países que possuem armas nucleares.

5. estudos que façam a verificação futura de desmantelamento de arma nuclear.
6. proibição de testes nucleares e ratificação pelos Estados Unidos do Tratado de Proibição de Testes Nucleares.

7. proibição de produção de materiais nucleares para armas.

8. imposição de restrições globais efectivas no desenvolvimento do míssil balístico da Coreia do Norte.

9. cooperação internacional em promover energia nuclear civil com três princípios de assegurar não-proliferação, segurança e segurança nuclear.

10. medidas de protecção pela Agência Internacional de Energia Atómica para todos os países que procuram uso pacífico do poder nuclear.

11. prevenção de terrorismo nuclear fortalecendo controle de todo os material nuclear e materiais de radiação.




segunda-feira, 21 de junho de 2004

Tragédia de 2003 - NUNCA MAIS!



Fogos combatidos por dezenas de bombeiros
Incêndios activos em Serpa, Tomar e Viana do Castelo (Publico, 20/06)

Três incêndios deflagraram ao início da tarde nos concelhos de Serpa, Tomar e Viana do Castelo e estão a ser combatidos por dezenas de bombeiros locais, disse fonte dos bombeiros.

Em Santa Iria, Serpa, nove veículos com 30 bombeiros estão a combater um fogo numa zona de mato.

No concelho de Tomar, junto à Estrada Nacional 113, está lavrar um incêndio, numa zona de pinhal e eucaliptos, que está a ser combatido por 59 bombeiros, apoiados por 15 veículos.

Em Balinhas, Viana do Castelo, 22 bombeiros combatem um fogo que está a destruir mato e pinhal.

A informação sobre os fogos a nível nacional foi dada por fonte do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil.

Fotos de satélite mostrando a dimensão trágica dos incêndios ano 2003- Earth Observatory NASA

Fotos de satélite mostrando o cenário dantesco do ano 2003-Geometral.Pt