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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Caso Maricarmen e fundos abutre: como a especulação criou a crise global da habitação


Foi assim que decorreu o despejo de Maricarmen, em 23.09.2026, de 87 anos, após 70 anos na sua casa

A habitação passou de um bem social a um ativo financeiro gerido por algoritmos e metas de rentabilidade corporativa. Quando edifícios inteiros são comprados por fundos, a relação pessoal entre senhorio e inquilino desaparece, sendo substituída por estratégias de pressão contratual e litígio judicial para libertar os imóveis e colocá-los no mercado de luxo ou de alojamento local.
Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada do seu apartamento no bairro do Retiro, em Madrid, enfrentou anos desgastantes de batalha legal para defender o teto onde viveu durante quase sete décadas. O choque emocional e físico de ter sido retirada de casa numa maca por forças policiais e trasladada diretamente para o hospital culminou na sua morte poucas semanas depois, reacendendo uma onda de protestos massivos por toda a Espanha.

Esta violência institucional e imobiliária não pode mais acontecer. Não é só Espanha que está de luto e a viver uma crise política. É toda uma geração que percebeu que, sem travões à especulação, o próximo teto a cair pode ser o seu. A situação é abertamente transnacional: exige-se a defesa intransigente da dignidade humana perante a lógica predatória dos fundos de investimento.

O ponto de viragem: quando e como tudo começou
  1. A transformação estrutural da habitação num produto de especulação financeira intensificou-se no seguimento do colapso bancário global de 2008 e da crise da dívida na Zona Euro.
  2. A absorção do crédito malparado: para salvar o sistema financeiro do colapso, foram criados "bancos maus" estatais - como a Sareb em Espanha ou a Parvalorem em Portugal - que absorveram edifícios inteiros e milhares de hipotecas em incumprimento.
  3. A venda em bloco a preços de saldo: pressionados pelas exigências de consolidação fiscal impostas pela Comissão Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, os governos alienaram estas carteiras imobiliárias públicas a fundos internacionais de private equity, como a Blackstone e a Cerberus Capital Management.
  4. A rutura dos regimes de renda antiga: os imóveis adquiridos continham contratos protegidos ou de longa duração. Com a alteração do enquadramento legal e a introdução de modelos de gestão automatizada por algoritmo, os novos proprietários corporativos passaram a utilizar litígios agressivos e aumentos abruptos de valor (como a exigência de subidas de 500 para 1.650 euros mensais enfrentada por Maricarmen) para forçar a saída dos residentes e reabilitar os imóveis.
O enquadramento europeu: Alemanha, França, Países Baixos e Outras Respostas
A escalada especulativa alastrou-se a quase todos os países da União Europeia, forçando diferentes governos a desenhar respostas legislativas para tentar conter o mercado:

1. Alemanha: travar os Aumentos e Contestar os Gigantes Imobiliários
  1. O Teto das rendas (Mietpreisbremse): na Alemanha, onde mais de metade da população vive em imóveis arrendados, a lei impede que na celebração de novos contratos a renda ultrapasse mais de 10% do valor do índice de referência local (Mietspiegel). As restrições ao aumento de rendas existentes estendem-se com limites fixados por lei através de disposições do Código Civil Alemão (BGB - § 574).
  2. Referendo de expropriação em Berlim: em resposta à compra massiva de bairros por conglomerados como a Vonovia, a campanha cívica Deutsche Wohnen & Co. enteignen venceu um referendo local para socializar edifícios na posse de grandes fundos, embora o processo enfrente diferendos jurídicos e constitucionais.
2. França: regulação de rendas e combate às habitações devolutas
  1. O Mecanismo de Controlo (Encadrement des Loyers): aplicado em metrópoles como Paris, Lyon e Bordéus ao abrigo da Loi ÉLAN - Ministère de la Transition Écologique, este modelo fixa uma renda de referência por metro quadrado. Se um proprietário tentar cobrar acima do limite superior sem justificação de luxo excecional, arrisca coimas severas e a obrigação de devolver a diferença ao inquilino.
  2. Agravamento fiscal sobre imóveis vagos: França aplica taxas substanciais sobre habitações mantidas vazias em zonas urbanas tensionadas (Taxe sur les Logements Vacants) para desencorajar a retenção especulativa de imóveis.
3. Países Baixos: a Lei do arrendamento acessível (Betaalbare Huurwet)
  1. Extensão do controlo de preços ao mercado médio: Em resposta a uma das crises habitacionais mais severas da Europa, o governo holandês aprovou a Lei do Arrendamento Acessível (Betaalbare Huurwet), que alargou o sistema de pontos regulado a 90% do mercado de arrendamento. As habitações são pontuadas com base em critérios de eficiência energética, área e qualidade, sendo proibido por lei cobrar rendas acima do valor fixado pela pontuação do imóvel.
  2. Proibição de compra para arrendar (Opkoopbescherming): Vários municípios holandeses (incluindo Amsterdão e Roterdão) proibiram investidores de comprar casas de gama média para depois as colocarem no mercado de arrendamento a preços especulativos.
4. Outros Exemplos Europeus
  1. Áustria (Viena): considerada o modelo de referência internacional, Viena manteve mais de 60% da sua população a viver em habitação pública ou cooperativa gerida pelo município através do programa Wiener Wohnen, isolando a cidade dos choques especulativos do mercado privado.
  2. Dinamarca: a legislação dinamarquesa limita a capacidade de os fundos aumentarem as rendas imediatamente após a compra de um imóvel, impondo períodos de carência e a obrigatoriedade de investimento em eficiência energética antes de poder subir o valor contratual.
O Foço da Desigualdade Social e a Ineficácia Europeia
A transferência massiça de património residencial para carteiras de investimento aprofundou a clivagem económica entre os detentores de capital e a população assalariada.
  1. Erosão do rendimento familiar: A taxa de esforço associada à habitação ultrapassa frequentemente os 50% dos rendimentos mensais nas áreas metropolitanas, sufocando a capacidade de poupança e consumo das famílias.
  2. Denúncias de violação dos Direitos Humanos: os relatórios elaborados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) denunciam que a financeirização trata a habitação como um mero instrumento de acumulação de capital, desprovendo-a da sua função social básica.
  3. Impossibilidade regulatória na União Europeia: nos termos do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (Artigo 153.º), a competência sobre as políticas de habitação e apoio social pertence aos Estados-Membros. Em simultâneo, as normas comunitárias que garantem a livre circulação de capitais impedem os países de impor restrições transversais à aquisição de imóveis por investidores estrangeiros, embora a pressão cívica tenha forçado o Conselho da União Europeia a criar um plano de ação e financiamento dedicado à habitação acessível.
Soluções Emergenciais e de Curto Prazo
Movimentos de cidadãos como o Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid e plataformas europeias de defesa do direito à habitação defendem a aplicação imediata destas medidas de emergência:
  1. Suspensão imediata de despejos sem alternativa habitacional: proibição legal da execução de ordens de desocupação para idosos, pessoas com incapacidade ou famílias vulneráveis sem garantia prévia de reencaminhamento para habitação pública digna.
  2. Limitação rígida dos preços de arrendamento: aplicação de limites ao aumento das rendas na renovação de contratos, indexando os valores à taxa de esforço média local e à variação real dos rendimentos
  3. Cancelamento e restrição de Licenças Turísticas: moratória sobre o licenciamento de alojamentos locais e arrendamentos sazonais de curta duração nas zonas urbanas sob forte pressão imobiliária.
  4. Agravamento Fiscal sobre a compra de edifícios por fundos: criação de taxas desincentivadoras (como a majoração extraordinária do IMT/IMI ou impostos equivalentes) na aquisição em bloco de edifícios residenciais por veículos de investimento não residentes.
  5. Mobilização do património imobiliário devoluto: transferência obrigatória dos imóveis vagos pertencentes a fundos, bancas resgatadas ou entidades públicas para bolsas municipais de arrendamento acessível.

sábado, 12 de setembro de 2026

O fenómeno do homonacionalismo: como a AfD e Alice Weidel reconfiguraram o voto LGBTIA+ na Alemanha

«Não sou queer, sou apenas casada com uma mulher que conheço há 20 anos».

Apesar do discurso tradicionalmente conservador e da defesa do modelo familiar clássico, o partido de extrema-direita alemão Alternative für Deutschland (AfD) conseguiu captar um volume significativo e surpreendente de votos junto de setores da comunidade LGBTI+, particularmente entre homens homossexuais e bissexuais. Este fenómeno, frequentemente analisado através do conceito de "homonacionalismo", ficou evidente em várias sondagens realizadas no país. Numa pesquisa efetuada pela popular plataforma de encontros para homens gay Romeo, por exemplo, a AfD chegou a liderar as intenções de voto entre os utilizadores na Alemanha, ultrapassando partidos historicamente associados à defesa dos direitos das minorias sexuais, como Os Verdes e o Partido Social-Democrata (SPD).

O principal motor para esta adesão eleitoral reside na forte agenda anti-imigração do partido. Uma parcela substancial dos eleitores LGBTI+ que vota na AfD justifica a sua escolha com o medo do aumento do antissemitismo e da homofobia na esfera pública, associando estes problemas ao crescimento da imigração proveniente de países de maioria muçulmana ou de sociedades culturalmente muito conservadoras. Para estes eleitores, as propostas de restrição de fronteiras da extrema-direita são percpcionadas como uma salvaguarda para o seu estilo de vida e segurança individual. Além disso, a figura de Alice Weidel, co-líder nacional da AfD - que é abertamente homossexual, vive numa união do mesmo sexo e tem dois filhos com a sua companheira -, serve como um elemento de validação para este eleitorado, reduzindo a perceção de que o partido seja intrinsecamente homofóbico. Existe também uma rejeição, por parte de setores mais assimilados da comunidade, em relação ao ativismo LGBTQIA+ contemporâneo e às pautas de identidade de género.

No entanto, este apoio eleitoral convive com profundas contradições em relação ao programa oficial da AfD. O partido opõe-se abertamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, defende ativamente a família tradicional como único pilar da sociedade, combate a introdução de conteúdos sobre diversidade sexual nas escolas e rejeita a Lei de Autodeterminação de Género, promovendo iniciativas para banir símbolos como a bandeira arco-íris de edifícios públicos. Esta dualidade faz com que a relação entre a extrema-direita alemã e a comunidade LGBTI+ continue a ser um dos temas mais controversos e fracturantes do debate político na Alemanha- num cenário onde, para muitos analistas, impera a lógica de que vale tudo para atingir o poder.

A contradição entre a agenda da AfD e o apoio de parte do eleitorado LGBTI+ é um dos fenómenos sociopolíticos mais estudados na Alemanha contemporânea. A leitura de que impera a lógica do "vale tudo para atingir o poder" é fundamentada por diversos académicos, jornalistas e politólogos que analisam as táticas de comunicação do partido e a psicologia do seu eleitorado. A teórica cultural Jasbir Puar formulou o conceito de homonacionalismo para descrever como certos setores de minorias sexuais acolhem ideologias nacionalistas e xenófobas, projetando a homofobia exclusivamente no "outro" - neste caso, nos imigrantes de países de maioria muçulmana. Em paralelo, a psicóloga social Beate Küpper demonstra que a AfD oferece a estes eleitores uma "identidade social de pertença", permitindo que o eleitor gay alemão se sinta parte do grupo dominante nacional em oposição ao imigrante muçulmano. Por sua vez, o cientista político Constantin Wurthmann aponta a figura de Alice Weidel como uma estratégia calculada de "folha de figueira" (fig leaf) para suavizar a imagem do partido e desarmar acusações de homofobia, permitindo ao eleitorado alinhar-se com a extrema-direita sem culpa ideológica. Já o ativista Volker Beck e o jornalista e analista político Enrique Anarte enquadram esta dinâmica no conceito de pinkwashing eleitoral, denunciando o uso da diversidade de uma figura de topo para ocultar uma plataforma abertamente hostil aos direitos LGBTI+.

Esta complexa teia explicativa reflete a razão pela qual a sociedade alemã vive hoje um tempo nem branco nem negro, mas marcado por profundas zonas cinzentas e contradições éticas. A população enfrenta uma forte polarização onde a perceção de insegurança individual e o medo do radicalismo religioso superam a adesão estrita aos princípios liberais e aos direitos sociais abrangentes. Adicionalmente, regista-se a normalização do que antes era inaceitável: o cordão sanitário político (Brandmauer) que afastava a extrema-direita está a esboroar-se, e o eleitorado habituou-se ao discurso da AfD, deixando de o ver sob uma ótica maniqueísta de "bem contra o mal" para o encarar como uma opção viável de protesto. O próprio movimento LGBTI+ vive uma fratura interna, deixando de ser um bloco monolítico e dividindo-se entre um eleitorado mais "assimilado ou conservador" e as pautas identitárias e trans mais recentes. Por fim, vigora uma hipocrisia institucionalizada em que o eleitorado aceita votar num partido cuja co-líder, Alice Weidel, beneficia pessoalmente de direitos - como a união de pessoas do mesmo sexo e a parentalidade - que a própria plataforma do seu partido procura limitar ou revogar para o resto da sociedade.

Este vídeo Breaking down Far Right AfD Party’s anti LGBTQ+ platform in Germany analisa detalhadamente o paradoxo da AfD na Alemanha, explicando como o partido utiliza táticas políticas complexas enquanto mantém uma plataforma que afeta os direitos da comunidade LGBTI+.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O caso Solara4: Como a maior central solar sem subsídios acabou em insolvência e a pedir fundos públicos

Há empresas que entram em dificuldades porque lhes falta matéria-prima, outras porque perdem clientes e outras ainda porque os custos disparam. A Welink conseguiu uma variante mais sofisticada: entrou em apuros porque a electricidade que produz passou a valer pouco no mercado grossista, embora o consumidor português continue a pagar pela electricidade um preço suficientemente elevado para não suspeitar que, algures entre a central e a factura, ela chegou a ser quase oferecida. É uma das pequenas maravilhas do mercado eléctrico: o produtor lamenta que a energia esteja barata, o consumidor lamenta que esteja cara e, entre ambos, o sistema consegue preservar a infelicidade geral com uma eficiência que a produção de electricidade raramente alcança. 
A história começa em Alcoutim, onde a Solara4 entrou em funcionamento em 2021 com cerca de 221 MW de potência e mais de 650 mil painéis solares. A central foi apresentada como um exemplo particularmente feliz da maturidade das renováveis porque tinha sido construída sem subsídios públicos à produção. A própria Welink continuou a destacar essa característica durante anos e ainda em 2025 recordava que o projecto demonstrava a viabilidade da produção solar industrial em grande escala sem apoio governamental. Era uma história excelente: o investimento era privado, o mercado remunerava-o, o sol fazia a sua parte gratuitamente e o Estado podia finalmente afastar-se sem que ninguém desse pela falta dele. 
Cinco anos depois, a Welink Energy Portugal 2 (UK) Limited, sociedade que controla a central, entrou em administração judicial no Reino Unido. A explicação não passa por uma inesperada escassez de sol no Algarve, mas por uma combinação bastante mais terrena de produção abaixo do previsto, problemas técnicos, avarias, incêndios e preços grossistas inferiores aos que sustentavam as contas do projecto. 
A expansão da energia solar na Península Ibérica contribuiu para empurrar os preços para valores muito baixos em determinadas horas, chegando por vezes a zero ou mesmo a território negativo, fenómeno que tem uma curiosa particularidade: é apresentado como uma vitória para o sistema eléctrico até ao momento em que quem produz a electricidade começa a perder dinheiro com ela. O consumidor, entretanto, não foi incomodado por essa abundância de electricidade quase gratuita. A descida no mercado grossista não se transporta mecanicamente para a factura, onde continuam a viver redes, tarifas, impostos, contratos, margens e todas as restantes parcelas que fazem com que uma mercadoria possa valer zero durante algumas horas num mercado e continuar a custar dinheiro sério a quem acende o forno. 
Conseguimos, portanto, chegar a uma situação económica de rara elegância: a electricidade é simultaneamente demasiado barata para quem a vende e suficientemente cara para quem a compra. Não é fácil desagradar a duas pontas da mesma transacção, mas também não foi para coisas fáceis que se inventaram mercados energéticos europeus. No caso da Solara4, a dificuldade não ficou pelo preço. Os bancos Investec e Kommunalkredit terão cerca de 64 milhões de euros por recuperar, enquanto a China Triumph International Engineering Company, pertencente ao grupo estatal chinês CNBM e responsável pela construção da central, reclama aproximadamente 143 milhões num processo de arbitragem. Pelo meio houve incêndios, equipamentos avariados e períodos de indisponibilidade, tendo cerca de 10% da central estado fora de serviço em Maio, incluindo áreas afectadas por vegetação seca por limpar. 
Uma instalação de centenas de milhões de euros, financiada por bancos internacionais, construída por um gigante industrial chinês e equipada com tecnologia capaz de converter radiação solar em electricidade acabou por descobrir que há problemas que não exigem inteligência artificial, semicondutores ou engenharia avançada. Às vezes basta mato. 
A gestão da central foi entretanto retirada à Welink Investments e entregue à Exus, que, juntamente com a Enertis, deverá agora avaliar quanto é necessário investir para melhorar o desempenho do activo. Ao mesmo tempo, admite-se uma eventual venda. O próprio director da Welink para a Península Ibérica reconheceu que uma central exclusivamente solar já não seria, nas actuais condições, economicamente sustentável por si só, o que é uma conclusão particularmente interessante quando aplicada a uma central que foi apresentada durante anos como demonstração precisamente da sustentabilidade económica de uma grande instalação solar sem apoio público. 
A solução passa agora por transformar Alcoutim numa instalação híbrida, acrescentando mais produção solar, energia eólica e armazenamento. E é neste ponto que a história deixa de ser apenas mais uma insolvência empresarial e começa a adquirir algum interesse filosófico, porque o projecto que ajudou a demonstrar que as grandes centrais solares já não precisavam de subsídios descobriu entretanto que precisava de baterias, e as baterias descobriram que precisavam de 16.445.234,15 euros de financiamento público. O beneficiário chama-se Solara4 Phase4, S.A., tem sede em Alcoutim e obteve através do PRR apoio para um “Sistema de Armazenamento em Baterias na Central Fotovoltaica de Alcoutim com potência nominal 100MW”. Foram-lhe atribuídos cerca de 16,45 milhões de euros, dos quais 3,78 milhões já tinham sido pagos, correspondendo a aproximadamente 23% do montante aprovado. Não estamos sequer perante uma verba lateral de algumas centenas de milhares de euros encontrada num programa obscuro: a Solara4 Phase4 recebeu o maior apoio individual atribuído naquele concurso do Fundo Ambiental para armazenamento de energia. 
Convém distinguir as sociedades, não porque a distinção torne a história menos interessante, mas porque permite contá-la sem oferecer uma escapatória factual a quem prefira discutir o detalhe em vez do essencial. A Solara4 Phase4 não é juridicamente a mesma empresa britânica que entrou em administração judicial e os 16,45 milhões são fundos públicos europeus do PRR, geridos através das estruturas portuguesas, não uma transferência directa do Orçamento do Estado. Mas também não estamos perante duas empresas que, por uma dessas coincidências que animam a vida empresarial, resolveram chamar-se Solara4, instalar-se em Alcoutim e trabalhar na mesma central sem terem nada uma com a outra. A própria Welink apresenta a bateria de 100 MW como parte da expansão do projecto Solara4. A diferença societária existe. A separação económica é que exige mais imaginação. E é aqui que a história se torna particularmente reveladora. Durante anos, a ausência de subsídios foi utilizada como prova de que o investimento privado e o mercado já conseguiam sustentar grandes projectos solares sem recorrer ao contribuinte. 
Não era uma nota técnica escondida numa apresentação para investidores; fazia parte da narrativa pública do projecto. A Solara4 mostrava que as renováveis tinham chegado à idade adulta e deixado para trás a fase desagradável em que precisavam de tarifas garantidas, apoios e dinheiro público. Depois a produção solar aumentou, os preços grossistas caíram, a central produziu abaixo do esperado e aquilo que era economicamente sustentável deixou de o ser nos mesmos termos. A resposta passou por adicionar armazenamento e adaptar o projecto, operação para a qual surgiu, providencialmente, financiamento público. 
Não há necessidade de imaginar qualquer ilegalidade. O programa de apoio ao armazenamento existe, a empresa candidatou-se e recebeu o financiamento que lhe foi aprovado. O problema não é criminal, é muito mais banal e, por isso, bastante mais interessante: quando o projecto funcionava sem apoio público, esse facto servia para demonstrar a superioridade e autonomia do mercado; quando as condições de mercado deixaram de assegurar a rentabilidade desejada, o dinheiro público regressou, desta vez não sob o nome pouco elegante de subsídio, mas vestido de armazenamento, flexibilidade de rede, transição energética e resiliência. As palavras melhoraram consideravelmente. O dinheiro continua a ter de sair de algum lado. 
Há ainda uma ironia adicional. Um dos problemas da Solara4 resulta precisamente do sucesso da energia solar. Quanto mais capacidade fotovoltaica entra no sistema, maior é a produção nas mesmas horas e mais pressão existe sobre os preços grossistas, chegando ao ponto em que algumas centrais começam a destruir a rentabilidade umas das outras. 
Durante anos, o aumento da produção renovável foi apresentado como sinal de sucesso do mercado e da política energética. Quando esse sucesso começa a reduzir as receitas dos produtores, transforma-se subitamente num problema que exige armazenamento subsidiado. O mercado produziu o excesso, o excesso reduziu o preço e o financiamento público ajuda agora a pagar a tecnologia necessária para devolver valor económico à energia cujo preço o próprio mercado fez cair. 
A situação torna-se ainda mais curiosa porque nada disto significa que a afirmação original fosse falsa. A central de 2021 foi efectivamente construída sem subsídio à produção. O problema está em continuar a apresentar essa condição como prova suficiente da viabilidade estrutural do modelo quando, poucos anos depois, a sociedade que controla o activo está em insolvência, os bancos têm cerca de 64 milhões de euros por recuperar, o empreiteiro estatal chinês reclama 143 milhões, a gestão teve de ser entregue a terceiros, a venda está em cima da mesa e uma sociedade ligada à expansão do projecto recebeu autorização para beneficiar de mais de 16 milhões de euros de financiamento público. Talvez seja esta a contribuição mais interessante da Solara4 para o debate económico. 
Durante décadas discutiu-se se determinados sectores deviam ser públicos ou privados, se o Estado devia intervir ou afastar-se e se o mercado conseguia resolver sozinho os problemas de investimento e eficiência. 
A prática moderna conseguiu ultrapassar essa discussão com uma solução bastante mais confortável: quando o investimento corre bem, serve de demonstração de que o sector privado não precisa do Estado; quando corre mal, torna-se estratégico demais para prescindir dele.
O contribuinte europeu não fica com a central, não participa nos lucros que ela eventualmente volte a gerar e não entra para o conselho de administração. Fica apenas com uma parte da conta das baterias, o que talvez seja a forma contemporânea mais aperfeiçoada de parceria público-privada: o privado conserva a propriedade e o público participa na necessidade. A Solara4 começou, portanto, como uma demonstração de que o mercado já conseguia fazer energia solar sem subsídios e chegou a 2026 com a sociedade proprietária em insolvência e uma expansão apoiada por 16,45 milhões de euros de dinheiro público. Não prova que a energia solar não funciona, nem que o investimento privado seja inútil. 
Prova apenas uma coisa bastante mais antiga e menos tecnológica: há uma extraordinária quantidade de empresas que conseguem viver sem o Estado até ao exacto momento em que precisam dele. O sol, esse, continua gratuito. Foi a única parte do projecto que ainda não apresentou a factura.

A Lição de Alcoutim para o PSZAER
A relação entre o caso da central Solara4 e o Plano Setorial para as Zonas de Aceleração de Energias Renováveis é marcada por sérios alertas sobre a sustentabilidade do modelo de licenciamento rápido. Por um lado, se o plano for utilizado apenas para multiplicar a capacidade fotovoltaica sem acautelar a infraestrutura envolvente, o risco de fracasso financeiro aumenta substancialmente. Ao simplificar os processos burocráticos para instalar mais megawatts de energia solar pura nas mesmas horas de ponta, o sistema agrava a sobreoferta no mercado grossista. Esta abundância empurra os preços para zero ou para valores negativos durante os períodos de maior radiação solar, destruindo a rentabilidade económica dos próprios projetos que se pretendem incentivar e aumentando o risco para os bancos e fundos que os financiam. Além disso, o colapso financeiro da gestora de Alcoutim e a subsequente atribuição de milhões de euros em fundos públicos do PRR para a instalação de baterias minam a confiança política e social. Fica exposta a fragilidade da premissa de que as renováveis de grande escala conseguem operar com total autonomia em relação ao Estado, o que pode originar uma maior contestação pública e um escrutínio acrescido sobre as facilidades e isenções concedidas às zonas de aceleração.

Por outro lado, o episódio da Solara4 oferece uma oportunidade clara de redesenho para a execução deste enquadramento legal. O plano só evitará a proliferação de ativos insolventes se deixar de funcionar como um mero acelerador de licenças para painéis e passar a exigir requisitos de maturidade técnica e económica mais elevados. Para que as zonas de aceleração cumpram o seu propósito sem sobrecarregar o sistema financeiro ou os contribuintes, o licenciamento célere deve ser condicionado à integração obrigatória de hibridização, combinando a fonte solar com a eólica, e à incorporação de sistemas de armazenamento em baterias (BESS). Desta forma, garante-se que a energia produzida pode ser guardada e injetada na rede nos momentos em que o mercado a consegue remunerar. A experiência de Alcoutim demonstra que acelerar a produção de eletricidade que a rede não consegue absorver nem o mercado remunerar não constitui um avanço na transição energética, resultando apenas na criação acelerada de futuras falências empresariais.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Investigação: como o algoritmo opera na mente de extremistas


O documentário produzido pelo portal Metrópoles aborda o avanço do extremismo violento e da radicalização no Brasil, destacando o papel central desempenhado pela internet, pelas redes sociais e pelos algoritmos das grandes empresas de tecnologia nesse processo. A produção utiliza acontecimentos reais do cenário nacional para demonstrar como cidadãos comuns passam por um processo gradual de doutrinação ideológica online. Entre os casos citados estão a ação de Francisco Vanderlei Luiz, conhecido como "Tio França", autor do ataque com explosivos na Praça dos Três Poderes em novembro de 2024, a Operação Hashtag da Polícia Federal em 2016, que prendeu apoiantes do Estado Islâmico no país, e a Operação Trapiche em 2023, voltada à investigação de brasileiros recrutados pelo grupo Hezbollah.

O enredo explica que o fenómeno da radicalização não ocorre do dia para a noite, mas sim por meio de uma escalada contínua dentro do ambiente digital. O documentário detalha como os algoritmos das plataformas, desenhados para maximizar o tempo de retenção do usuário e gerar engajamento para dar lucro às empresas, acabam promovendo conteúdos polarizadores, chocantes e de ódio. Os grupos extremistas, em particular neonazismo, eugenia e da machosfera aproveitam-se desse mecanismo usando estratégias como a disseminação de memes aparentando inocência, elementos de cultura pop e jogos electrónicos para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecendo-lhes um falso sentimento de pertencimento e propósito. Com o tempo, esses indivíduos são direcionados para canais fechados e aplicativos de mensagem criptografados, onde a visão de mundo se torna totalmente distorcida.

Para analisar esse cenário complexo, a reportagem conta com o depoimento de diversos especialistas, autoridades e representantes da sociedade. Agentes da Divisão Antiterrorismo e da Coordenação de Inteligência da Polícia Federal relatam as barreiras técnicas e burocráticas no combate aos crimes virtuais, como a falta de cooperação ágil das Big Techs na entrega de dados e o desafio de identificar potenciais atritos sem violar a liberdade de expressão ou monitorizar indevidamente o cidadão. Pesquisadores de tecnologia e comunicação examinam o funcionamento secreto dos softwares de recomendação e as dinâmicas sociais da polarização política. Representantes da comunidade islâmica no Brasil também são entrevistados e enfatizam de forma categórica que actos violentos e de terror não possuem relação com os ensinamentos do Islamismo. Por fim, depoimentos de familiares de investigados ilustram o impacto devastador que a transformação de um parente radicalizado provoca no núcleo familiar.

terça-feira, 24 de março de 2026

Tribunal de New Mexico - Meta ordered to pay $375m after being found liable in child exploitation case

Ver reportagem - Big tech reckoning: Meta fined $375m in landmark case – The Latest

A New Mexico jury on Tuesday ordered Meta to pay $375m in civil penalties after it found the company misled consumers about the safety of its platforms and enabled harm, including child sexual exploitation, against its users.

The lawsuit – the first jury trial to find Meta liable for acts committed on its platform – was brought by the state’s attorney general office in December 2023.

It followed a two-year Guardian investigation published in April of that year revealing how Facebook and Instagram had become marketplaces for child sex trafficking. That investigation was cited several times in the complaint.

“The jury’s verdict is a historic victory for every child and family who has paid the price for Meta’s choice to put profits over kids’ safety,” said New Mexico’s attorney general, Raúl Torrez.

“Meta executives knew their products harmed children, disregarded warnings from their own employees, and lied to the public about what they knew. Today the jury joined families, educators, and child safety experts in saying enough is enough.”

The jury ordered Meta to pay the maximum penalty under the law of $5,000 per violation, totaling $375m in civil penalties for violating New Mexico’s consumer protection laws. The jury found Meta liable for both claims brought by the state of New Mexico under the Unfair Practices Act.

Meta has said it will appeal the ruling, and accused Torrez of making “sensationalist, irrelevant arguments by cherrypicking select documents”.

“We respectfully disagree with the verdict and will appeal. We work hard to keep people safe on our platforms and are clear about the challenges of identifying and removing bad actors or harmful content,” said a Meta spokesperson. “We will continue to defend ourselves vigorously, and we remain confident in our record of protecting teens online.”

Internal Meta documents and testimony obtained by the New Mexico department of justice during the litigation revealed that both company employees and external child safety experts repeatedly warned about risks and harmful conditions on Meta’s platforms.

Evidence presented to the jury included details of the 2024 arrest of three men charged with sexually preying on children through Meta’s platforms, and attempting to meet up with them. This was part of a sting investigation operated by undercover agents and dubbed “Operation MetaPhile” by the attorney general’s office.

The New Mexico court heard how Meta’s 2023 decision to encrypt Facebook Messenger – its direct messaging platform, which predators have used as a tool to groom minors and exchange child abuse imagery – blocked access to crucial evidence of these crimes.

Witnesses from law enforcement and the National Center for Missing and Exploited Children (NCMEC) testified about deficiencies in Meta’s reporting of crimes taking place on its platforms, including the exchange of child sexual abuse material (CSAM). Meta has generated high volumes of “junk” reports by overly relying on AI to moderate its platforms, investigators said. These reports were useless to law enforcement, and meant crimes could not be investigated, they said.

In the next phase of the legal proceedings, due to begin on 4 May, the attorney general’s office will seek additional financial penalties and court-mandated changes to Meta’s platforms that “offer stronger protections for children”, said Torrez.

The design feature changes the state is seeking include “enacting effective age verification, removing predators from the platform, and protecting minors from encrypted communications that shield bad actors”.

In taped depositions played at the trial, the Meta chief Mark Zuckerberg and Instagram leader Adam Mosseri said harms to children, such as sexual exploitation and detriments to mental health, were inevitable on the company’s platforms due to their vast user bases. Company executives also testified the company had invested billions in technology updates to keep children safe on their platforms. They include Instagram Teen Accounts, which debuted in 2024 and sets default protections for users aged between 13 and 17.

Social media companies have long maintained they are not responsible for crimes committed via their networks because of a US federal law that generally protects platforms from legal liability for content created by their users: section 230 of the Communications Decency Act. Meta’s attempts to invoke section 230 and the first amendment to get the case dismissed were denied in a judge’s ruling in June 2024, due to the lawsuit’s focus on Meta’s platform product design and other non-speech issues, such as internal decisions about content and curation.

 
Give me shelter: protecting trafficked children in the US - documentary

The trial lasted almost seven weeks, with both the company and the state calling witnesses that ranged from child safety experts to current and former employees of the company. The jury deliberated its verdict for about one day.

“It’s a huge win for the New Mexico attorney general. His jury didn’t even deliberate very long,” the former New Mexico deputy district attorney and current criminal defense lawyer John W Day told the Guardian.

“This wasn’t surprising, as there’s an undercurrent of resentment and fear and concern among not just families but the community in general, about the invasiveness of social media, and this one certainly opens the floodgates to lots of other litigation and reforms and regulation.”

Meta is also the subject of a separate lawsuit in Los Angeles, as hundreds of families and school districts accuse several big tech platforms of harming children. Plaintiffs in this case allege that Meta, along with Snap, TikTok and YouTube, knowingly designed their platforms to be addictive for young users, contributing to issues such as depression, eating disorders, self-harm and other mental health challenges.

Snap and TikTok have reached settlements, while Meta and YouTube continue to contest the claims in court. All companies deny wrongdoing. The jury is currently deliberating a verdict.

This article was amended on 25 March 2026. The New Mexico case was the first jury trial to find Meta liable for acts committed on its platform, not the “first bench [juryless] trial” to do so, as an earlier version said

sábado, 7 de março de 2026

Forest restoration would reduce the risk of forest fires. Countries like Portugal stand to benefit greatly


Fern Forest campaigner Siim Kuresoo shares insights from a recent field-trip to meet with foresters, local leaders and community members in Portugal – a country that has increasingly experienced severe forest fires.

As European summers get hotter and drier, devastating forest fires are becoming the Portuguese norm, along with dramatic images of fast-moving flames, airplanes trying to quell them, and people fleeing for their lives.

The overriding impression is that this is what we need to expect in the era of climate change. But is there more to this story?

To find out, Anna Muizniece (she/her) and I spent a few days in northern Portugal meeting with experts to find out what’s happening: João Paulo Fidalgo Carvalho (forestry academic and head of Pro Silva Portugal); Miguel Ribeiro (a forestry and restoration officer at NGO Quercus); and Fernando Antunes Amaral (forest fire survivor and activist). We visited impacted areas and talked with people eager to prioritise community safety and resilience.

They taught us much about the history of the problem, including that this is not a naturally occurring problem. The fires are heightened by the eucalyptus plantations that have been expanding for more than half a century, taking over land as rural abandonment grows and agricultural patterns change. Such plantations provide raw material for the mighty pulp and paper industry, and money for landowners struggling to find a purpose for their land.

But the social and environmental costs are enormous
Portugal’s natural tree species form less flammable, more biodiverse and carbon-rich ecosystems able to provide higher long-term economic returns for the landowner, but shifting to continuous cover forestry takes work, and the financial rewards aren’t immediate.

Nonetheless, some municipalities and communities are taking on the hard work and financial burden, despite receiving little of the external support they need, like funding and technical advice. And while the EU is helping by coordinating emergency help to put out fires, it would be cheaper in the long run for EU funds to help prevent the fires from happening in the first place. The Nature Restoration Regulation (NRR) explicitly requires Portugal to support the transition away from eucalyptus and EU funds could initiate a systemic change in land use.

But change will not happen while the pulp industry dominates policy and resource allocation. Funds from the Common Agricultural Policy must not be used to subsidise an industry determined to put production of short-lived products above people's safety.

EU funds must prioritise ambitious National Restoration Plans.
Doing so would support the inspiring people we met on our journey such as José and Joaquim, the former and current mayor of the local municipality of Bragança. Despite being fierce political opponents, they both take huge pride in the region’s forest restoration and share smiles when discussing turning a eucalyptus plantation into an oak forest. O Sr. Sergio, from Talhadas village, who responded to a big fire in 2024 by organising the community to restore natural forests. He doesn’t mind long working days but is increasingly worried about being seen as an enemy by the pulp industry and its powerful friends, and what this means in terms of obstacles to his mission.

So there is more to the story of Portugal’s fires. The very landscape has become a danger to its inhabitants because of one powerful industry, and because of the perverse use of funds to support this harmful type of forestry. But sadly, this is not just the case in Portugal. Similar stories are occurring across the EU, as revealed by Metodi Sotirov’s recent study Funding resilient forests: Rethinking EU and State subsidies. We still have time to implement the changes he recommends, but do we have the political will?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria Sibylla Merian (1647-1717) - uma das pioneiras em Ecologia

Ilustração: ‘Dissertação sobre a geração e metamorfoses de insetos surinameses’, (1719)



Anna Maria Sibylla Merian foi uma naturalista e pintora. Ela utilizou o seu talento para o desenho, adquirido numa família de editores e ilustradores de renome, para complementar as suas observações naturalistas altamente detalhadas, particularmente sobre a metamorfose das borboletas.

Ela revolucionou a história da ciência com o seu trabalho sobre a transformação dos insetos.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

WhiteDate. 32 homens em Portugal tinham perfis no "Tinder Nazi"



Mais de 30 homens residentes em Portugal tinham contas na plataforma de encontros WhiteDate, conhecida como o "Tinder Nazi", um site que promovia encontros entre pessoas de ascendência europeia com valores "tradicionais".
 
O WhiteDate (que na tradução livre significa literalmente "Encontro Branco", referindo-se à etnia caucasiana) apresentava-se como um local para pessoas de valores "tradicionais" e de "ascendência europeia", que pretendiam contribuir para "criar uma sociedade racialmente pura".

O site foi, entretanto, apagado, mas graças ao trabalho de Martha Root (pseudónimo) - uma hacker alemã que levou a cabo a divulgação dos perfis e dados de quem tinha uma conta - é possível ainda consultar esta informação.

No site, criado pela própria, os utilizadores podem consultar um mapa mundo, onde são assinalados os perfis de quem tinha uma conta no WhiteDate. Para aprofundar a informação, pode-se ainda visitar estes perfis um a um e ler o que tinham na plataforma.


"Nascido em Portugal, mas a viver na Noruega, consciente do que significa ser europeu, procuro encontrar uma parceira de ascendência europeia para criar e cuidar de uma família", lê-se no perfil de um homem de 31 anos. 

Mais abaixo, nas orientações políticas, este utilizador admite ser de extrema-direita e até mesmo fascista.

"Estou farto de toda a degeneração que tem corroído a civilização ocidental, sobretudo nas relações entre homens e mulheres", lê-se numa outra biografia. "A necessidade de encontrar uma parceira a quem eu possa dedicar todo o meu coração na sociedade atual parece valer a pena apenas com a ajuda de iniciativas como esta comunidade romântica online para pessoas brancas", acrescenta.

E num outro perfil, este de um homem de 23 anos: "Acho que é importante para nós, brancos, termos os nossos próprios espaços, especialmente no que diz respeito às relações sexuais".

Nas dezenas de perfis, a grande maioria apresenta-se como "pro-white" ou "pró-branco", em português, com muitos a dizerem-se também anti-vacinas e a admitirem não terem sido vacinados contra a Covid-19.

As idades variam entre os 20 e os 50 anos.

Mas há um outro dado que se faz notar: em Portugal, não há um único perfil de uma mulher, apesar de todos estes homens estarem à procura de uma parceira.

De facto, no total dos oito mil perfis divulgados, com mais de 6.500 ativos na altura da exposição, cerca de 86% pertencia a homens. Apenas 14% dos utilizadores da plataforma eram mulheres.

Perante a disparidade, Martha Root chegou mesmo a ironizar, dizendo que a plataforma "faz com que a aldeia dos Smurf parecia uma utopia feminista".

A hacker alemã infiltrou-se na plataforma durante uma conferência tecnológica realizada em Hamburgo, na Alemanha, em dezembro de 2025, (onde apareceu mascarada de Power Ranger rosa para proteger a sua identidade) mas a ação resultou de um trabalho de vários meses.

Ao longo desse tempo, Root disse ter descoberto que a cibersegurança da plataforma era tão má que "faria a conta de AOL da tua avó corar".

"Imagina dizeres que fazes parte da ‘raça superior’ e esqueceres-te de proteger o teu próprio site - talvez seja melhor dominar o WordPress [plataforma de criação de sites] antes de dominar o mundo", atirou.

O WhiteDate era gerido, alegadamente, por uma mulher de extrema-direita a partir da Alemanha.

Dos cerca de 6.500 perfis ativos, cerca de metade eram dos Estados Unidos com 3.411 utilizadores. Seguia-se o Reino Unido, com 399 perfis, França, com 380, e o Canadá, com 357. A vizinha Espanha tinha 46 utilizadores. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Este é o sistema hidroelétrico mais potente do mundo. Projeto secreto de Pequim pode dar início a conflito entre duas potências nucleares


Megabarragem está a ser edificada no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete. Este projeto no remoto rio dos Himalaias exigirá o realojamento de aldeias onde vivem grupos indígenas que dependem da agricultura para a sua subsistência. Na Índia, já a imprensa apelida a construção megalómana chinesa como a "bomba de água"

A centenas de quilómetros da populosa linha costeira da China, uma curva acentuada num remoto rio dos Himalaias está prestes a tornar-se a peça central de um dos mais ambiciosos - e controversos - projetos de infraestruturas do país até à data.

Ali, espera-se que um sistema hidroelétrico de 168 mil milhões de dólares (cerca de 143 milhões de euros) produza mais eletricidade do que qualquer outro no mundo - um grande benefício para a China, à medida que se aproxima de um futuro em que os veículos elétricos dominam as suas estradas e os modelos de IA, ávidos de energia, correm para superar os rivais internacionais.

O líder chinês, Xi Jinping, apelou a que o projeto “avançasse de forma enérgica, sistemática e eficaz” durante uma rara visita no início do ano ao Tibete, uma região onde Pequim continua a apertar o cerco em nome do crescimento económico e da estabilidade.

Segundo os especialistas, o sistema hidroelétrico, construído no curso inferior do rio Yarlung Tsangpo, no Tibete, será um feito de engenharia sem igual. Aproveitando uma queda de 2 mil metros de altitude, através da abertura de túneis numa montanha, permitirá à China aproveitar um rio importante numa região conhecida como a torre de água da Ásia e numa altura em que os governos estão a concentrar-se mais na segurança da água.

O projeto poderá contribuir para os esforços globais no sentido de abrandar as alterações climáticas e ajudar a China - atualmente o maior emissor de carbono do mundo - a abandonar a energia produzida a partir do carvão. Mas a sua construção poderá também perturbar um ecossistema raro e imaculado e as casas ancestrais dos habitantes indígenas.

Dezenas de milhões de pessoas também dependem do rio a jusante, na Índia e no Bangladesh, onde os especialistas dizem que o potencial impacto no ecossistema, incluindo na pesca e na agricultura, continua a ser pouco estudado.

As manchetes na Índia já apelidaram o projeto de uma potencial “bomba de água” - e a sua proximidade da fronteira disputada entre a China e a Índia coloca-o em risco de se tornar um ponto de inflamação numa disputa territorial há muito acesa entre as duas potências com armas nucleares.

Apesar destes riscos, o projeto continua envolto em secretismo, aprofundando as questões sobre um plano que mostra as imensas capacidades técnicas da China e a sua vontade de obter energia limpa, mas também a sua falta de transparência, mesmo quando se trata de um empreendimento com consequências potencialmente de grande alcance.

Pistas sobre a conceção do projeto - tanto referenciadas em relatórios oficiais ou científicos como em informações de fonte aberta compiladas pela CNN - sugerem um sistema complexo que poderá incluir barragens e reservatórios ao longo do rio Yarlung Tsangpo, bem como uma série de estações hidroelétricas subterrâneas ligadas por túneis, aproveitando a energia à medida que uma parte desviada do rio faz um declínio acentuado da elevação.

“Este é o sistema de barragens mais sofisticado e inovador que o planeta já viu”, disse Brian Eyler, diretor do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, em Washington. “É também o mais arriscado e potencialmente o mais perigoso”.

A China discorda. Num comunicado enviado à CNN, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que o projeto “passou por décadas de investigação aprofundada” e “implementou medidas rigorosas de segurança de engenharia e proteção ecológica para garantir que não afetará negativamente as áreas a jusante”.

“Desde a preparação inicial e o início oficial do projeto, a parte chinesa sempre manteve a transparência em relação às informações pertinentes e manteve linhas abertas de comunicação com os países a jusante”, disse o ministério, acrescentando que “à medida que o projeto avança” Pequim “partilhará as informações necessárias com a comunidade internacional” e “reforçará a comunicação e a cooperação com os países a jusante”.

O projeto, explicou, “visa acelerar o desenvolvimento de energia limpa, melhorar os meios de subsistência locais e abordar ativamente as alterações climáticas”.

Mas Pequim pode também ter outras prioridades em mente. A ambiciosa iniciativa em matéria de infraestruturas surge numa altura em que Xi se esforça por reforçar a segurança nacional, não só assegurando o fornecimento de energia à China, mas também reforçando o controlo ao longo das fronteiras disputadas e das regiões onde vivem as minorias étnicas.

“Se ligarmos os pontos do desenvolvimento das infraestruturas chinesas nos Himalaias, especialmente nas áreas onde a China faz fronteira com a Índia ao longo do Tibete, elas estão estrategicamente colocadas”, aponta Rishi Gupta, diretor adjunto do Asia Society Policy Institute em Nova Deli.

“O projeto alinha-se com o objetivo mais amplo da China de aproveitar os seus recursos naturais para consolidar o controlo sobre regiões críticas como o Tibete e as suas fronteiras.”

Informações de fonte aberta dão pistas sobre o que poderá ser o projeto de barragem maciça da China
A CNN e especialistas do Centro de Estudos Stimson criaram esta simulação de um possível projeto utilizando informações de fonte aberta e avaliações técnicas. Prevê-se que o projeto inclua cinco estações hidroelétricas em cascata e um sistema de túneis que desvie uma parte do rio, permitindo-lhe perder cerca de 2.000 metros de elevação ao longo de 50 quilómetros e gerar energia através desta rápida queda de elevação.

Jogo de poder nos Himalaias
Conhecido como o maior rio do mundo, o Yarlung Tsangpo serpenteia a partir de um glaciar nos Himalaias, atravessando o planalto que abrigou o budismo tibetano, em direção ao extremo sul do país.

Um dos troços do rio, junto à fronteira de facto do Tibete com um estado indiano cujas terras a China reivindica, há muito que chama a atenção pelo seu potencial de produção de energia.

Aí, a via fluvial faz uma dramática curva em ferradura ao contornar uma massa de montanhas no que é conhecido como a Grande Curva - uma trajetória que faz com que o rio perca cerca de 2 mil metros de altitude em aproximadamente 50 quilómetros.

Estima-se que essa descida tenha potencial para gerar cerca de 300 mil milhões de quilowatts-hora de eletricidade por ano - aproximadamente o triplo da produção da barragem chinesa das Três Gargantas, atualmente a mais potente do mundo.

O desenvolvimento hidroelétrico no curso inferior do Yarlung Tsangpo “não é apenas uma iniciativa hidroelétrica”, é também um projeto de segurança nacional, que engloba a segurança dos recursos hídricos, a segurança territorial e muito mais, afirmou Yan Zhiyong, então presidente da Power Construction Corporation of China (PowerChina), num discurso proferido em 2020, de acordo com a publicação da imprensa estatal chinesa.

Há décadas que se fala de um projeto deste tipo ao longo do curso inferior do rio, mas nunca foi tentado - há muito que é visto como um desafio notório numa zona remota e traiçoeira, difícil mesmo para um país que lidera a construção de megabarragens a nível mundial.

Agora, imagens de satélite, documentos empresariais disponíveis ao público e publicações nas redes sociais da zona analisadas pela CNN mostram que estão em curso obras de construção e alargamento de estradas, construção de pontes, construção de instalações de armazenamento de explosivos, expansão do serviço de telemóvel e realojamento de aldeões - tudo esforços aparentes para abrir caminho à construção, que começou oficialmente em julho.

Os documentos oficiais referem-se frequentemente ao projeto utilizando as iniciais romanas “YX” para designar uma abreviatura do curso inferior do Yarlung Tsangpo, mas fornecem poucas informações sobre a sua conceção. Os meios de comunicação social estatais afirmam que o projeto emprega principalmente um método de “endireitar e desviar o rio” através de túneis e inclui cinco estações hidroelétricas em cascata.

A análise da CNN de informações de fonte aberta, incluindo trabalhos de investigação académica, concursos oficiais, patentes de projetos de centrais elétricas registadas por uma subsidiária da PowerChina, um documento de planeamento urbano local, bem como imagens de satélite e publicações nas redes sociais da zona, permitiram esclarecer melhor a forma como este projeto de grande envergadura pode estar a tomar forma.

Uma simulação baseada nesta informação e produzida em conjunto com especialistas do Programa de Energia, Água e Sustentabilidade do Centro Stimson, que forneceram análises técnicas e geográficas, sugere que o projeto poderá ser um sistema extenso de centrais hidroelétricas, túneis e reservatórios, que no seu conjunto poderão estender-se por cerca de 150 quilómetros em linha reta desde a primeira até à última central elétrica.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Francesca Albanese e o caminho solitário da rebeldia



Pode ver a minha entrevista com Francesca sobre a reportagem  aqui

(…) Francesca (…) é a bête noire de Israel e dos EUA. Foi colocada na lista do Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA — normalmente usada para sancionar os acusados de lavagem de dinheiro ou envolvimento com organizações terroristas — seis dias após a publicação do seu relatório, “Da economia da ocupação à economia do genocídio”.

A lista da OFAC — usada pela administração Trump para perseguir Francesca e em clara violação da imunidade diplomática concedida aos funcionários da ONU — proíbe qualquer instituição financeira de ter alguém da lista como cliente. Um banco que permita que alguém da lista da OFAC realize transações financeiras é proibido de operar em dólares, enfrenta multas multimilionárias e é bloqueado dos sistemas de pagamento internacionais.

No seu relatório, Francesca lista 48 empresas e instituições, incluindo a Palantir Technologies, a Lockheed Martin, a Alphabet Inc., a Amazon, a International Business Machines Corporation (IBM), a Caterpillar Inc., a Microsoft Corporation e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), juntamente com bancos e empresas financeiras como a BlackRock, seguradoras, imobiliárias e instituições de caridade, que, em violação do direito internacional, estão a ganhar milhares de milhões com a ocupação e o genocídio dos palestinianos.

O relatório, que inclui uma base de dados com mais de 1.000 entidades corporativas que colaboram com Israel, exige que essas empresas e instituições rompam os laços com Israel ou sejam responsabilizadas por cumplicidade em crimes de guerra. O relatório descreve a «ocupação eterna» de Israel como «o campo de testes ideal para fabricantes de armas e grandes empresas de tecnologia — proporcionando oferta e procura ilimitadas, pouca supervisão e zero responsabilização — enquanto investidores e instituições privadas e públicas lucram livremente».

Francesca, cujos relatórios anteriores, incluindo «Genocídio em Gaza: um crime coletivo» e «Genocídio como apagamento colonial», juntamente com as suas denúncias apaixonadas do massacre em massa de Israel em Gaza, tornaram-na um alvo fácil. Ela é criticada sempre que se desvia do guião aprovado, incluindo quando manifestantes pró-Palestina invadiram a sede do jornal diário italiano La Stampa enquanto estávamos em Itália.

Francesca condenou a invasão e a destruição de propriedade — os manifestantes espalharam jornais e pintaram slogans nas paredes, como «Palestina Livre» e «Jornais cúmplices de Israel» —, mas acrescentou que isso deveria servir como um «aviso à imprensa» para que fizesse o seu trabalho. Essa qualificação expressou a sua frustração com o descrédito dos media em relação às reportagens dos jornalistas palestinianos — mais de 278 jornalistas e profissionais dos media foram mortos por Israel desde 7 de outubro, juntamente com mais de 700 membros de suas famílias — e a amplificação acrítica da propaganda israelita. Mas isso foi aproveitado pelos seus críticos, incluindo a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, para linchá-la.

O secretário de Estado Marco Rubio impôs sanções a Francesca em julho.
«Os EUA condenaram e opuseram-se repetidamente às atividades tendenciosas e maliciosas de Albanese, que há muito a tornam inadequada para o cargo de Relatora Especial», dizia o comunicado de imprensa do Departamento de Estado. «Albanese tem espalhado antissemitismo descarado, expressado apoio ao terrorismo e desprezo aberto pelos EUA, Israel e o Ocidente. Esse preconceito tem sido evidente ao longo de toda a sua carreira, incluindo a recomendação de que o TPI, sem base legítima, emitisse mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant.»

«Recentemente, ela intensificou esses esforços escrevendo cartas ameaçadoras a dezenas de entidades em todo o mundo, incluindo grandes empresas norte-americanas dos setores financeiro, tecnológico, de defesa, energético e hoteleiro, fazendo acusações extremas e infundadas e recomendando que o Tribunal Penal Internacional investigasse e processasse essas empresas e os seus executivos», continuou. «Não toleraremos essas campanhas de guerra política e económica, que ameaçam os nossos interesses nacionais e a nossa soberania.»

domingo, 28 de dezembro de 2025

A grinding, pivotal year ahead

Fonte


I’ve been thinking a lot about this over the past few days in part because the Trump administration did yet another indefensible thing—they shut down all work on five offshore wind farms off the eastern seaboard. As the Times put it, the move


essentially gutted the country’s nascent offshore wind industry in a sharp escalation of President Trump’s crusade against the renewable energy source.

The decision injected uncertainty into $25 billion worth of projects that were expected to power more than 2.5 million homes and businesses across the Eastern United States, according to Turn Forward, an offshore wind advocacy group. The five wind farms were projected together to create together about 10,000 jobs.

The administration said there were “national security” reasons for the shutdown that they couldn’t explain but that had something to do with radar. You are forgiven your skepticism about this rationale. Retired naval commander Kirk Lippold said the Department of Defense had fully vetted the projects, and added “ironically, these projects will actually benefit our national security by diversifying America’s energy supplies, providing much-needed reliable power for the grid and helping our economy.” If you want more on this aspect, check out Peter Gleick’s fine essay. Or maybe just look at a map of Asian wind installations, offshore and on; the Chinese coast, by Trumpian logic, is apparently the most vulnerable place on planet earth.



No, everyone knows that this decision, like so many in 2025, results from a combination of two obvious things. One is the president’s detestation of windpower, because you can see turbines from the 18th hole of his Turnberry golf course in Scotland, a sight he has described as “disgusting.” (By the way, it’s a prejudice he shares with his sidekick Bobby “Measles” Kennedy—here’s the letter some of us wrote to him 20 years ago next week pointing out that he was being an ass for trying to protect the view from his Cape Cod compound). The second thing, of course, is Trump’s efforts to pay off his fossil fuel donors—they gave him half a billion in campaign help, and they are now reaping the largest return on investment in recorded history.

But there’s a third reason too, I think, and one that reminds us of the politics inherent in all of this. For New England, New York, and Virginia those now-halted windfarms offer something like a first stab at energy independence. And that’s anathema to the fascist mind, which values centralization and control above all. California has already begun to escape that control—it has so much solar and wind energy that it could, if it had to, increasingly make do on its own (and the hydro-charged northwest as well). But the northeast is the other center of resistance to Trump’s ugly project; it’s currently tied to the end of the gas pipelines stretching back to the Gulf, and Trump et al are determined to keep it that way.

And for now there’s nothing we can do about it (except go to court, which actually worked when Trump tried to shut down one wind farm in the fall). Without control of either the House or Senate, Democrats have no way to stand up to even something as egregiously stupid as this windpower ban. Getting a majority in either chamber would not rein in the MAGA project, but it would allow questions to be publicly asked, and it would allow at least a budget fight about such venality. It’s nowhere near what we need, but it’s not nothing. And nothing is what we have right now, which is why the last year has been so hard—those of us who care about, say, science and economics (or justice) have had to stand there and take it, our hands essentially tied behind our backs.

We’ve done our best in the circumstances—the No Kings Day protests, for instance, have been crucial in sapping support for what seemed at first like a juggernaut. But the reason to drive down Trump’s popularity is to make it harder for him to win elections (and harder to rig elections—the refusal of the Indiana GOP to go along with the president’s redistricting plan this month was a good reminder that Trump at 38 percent approval is less effective than Trump at 55 percent).

The elections will, of course, be a hard fight. Hard because MAGA has all the advantages of incumbency (including an ever-more-compliant media—the fact that the White House now controls CBS is a particular blow to those of us old enough to remember Murrow and Cronkite). And hard because in many places the Democrats we will need to support won’t be precisely the champions we’d most like. Prepare for a lot of tap-dancing around “climate,” for instance—what we need to hope for is that these candidates are sensible enough at least to seize on the popularity of solar and windpower and make a decent argument for energy both cheap and clean. Some Mamdanis will emerge, and we’ll treasure them, but the basic job is straightforward: beat MAGA everywhere we can, hopefully with margins sufficient to start reorienting our hideous politics.

I’ll obviously keep covering the energy marvels appearing in the rest of the world—reporting on the ongoing sunpower revolution keeps me optimistic enough to stagger on. But I think my main job over the next ten months is to do all I can to help the elections on Nov. 3 come out the right way; I’ll be writing, and through Third Act I’ll be organizing (look for the next rounds of the Silver Wave tour). Those hoped-for victories are the necessary first step to preserving both some of our democracy and some of our climate system. And remember how good it felt to take home some preliminary wins last month in New York, New Jersey, Virginia. Wiping more of the smirk off the presidential mug is our potential reward—that and a future.

In other energy and climate news:

+As they shut down wind farms, America’s energy czars are pledging billions on a particularly absurd scheme: big gas pipelines in Alaska designed for an export LNG market that almost certainly won’t exist by the time they’re built. Lois Parshley has some fine reporting in Grist


The cost is staggering: Official estimates put it at $44 billion, though independent analysts suggest it could top $70 billion. Experts say it has required substantial government support to develop and will require “a mix of public and private capital to move forward.”

The pipeline’s backers are already eyeing additional federal support, including $30 billion in loan guarantees. That backstop would leave the public on the hook if the endeavor falters, an outcome that has plagued previous state megaprojects. “Every taxpayer should be furious that the federal government is chasing this project,” said Cooper Freeman, the state director for The Center for Biological Diversity, which is suing the federal government over the proposed pipeline’s threat to endangered species.

Meanwhile, a wave of liquified natural gas development is expected to flood global supply by 2030, including from export projects in British Columbia that are closer to completion and share Alaska’s proximity to Asian markets. In a blunt assessment, independent energy market firm Rapidan Energy Group warned that investors “could incur substantial financial losses” and said the Alaska project is what happens when “politics overrides commercial logic.”

Prediction: the federal government won’t be able to find private parties to put up serious money for this project. It will be a taxpayer-financed boondoggle if it happens at all—which is the same dynamic affecting plans for Canadian tarsands pipelines. Perhaps Trump has the political muscle to make all of us pay for this folly; or perhaps the upcoming elections will provide a stumbling block (see above). By the way, a widely predicted the EU seems not to be living up to its pledges to buy more LNG in return for reducing its tariffs.

+Don’t miss David Roberts’ Volts interview with Saul Griffith from earlier today. Readers of this newsletter will be long acquainted with his basic arguments about how to make solar cheaper, but his comparison of putting solar on the roof of his home in Sydney and his office in San Francisco is truly breathtaking. (Spoiler: five times cheaper down under). Here’s how he describes the Aussie process:

You have to remember, this is a first world country where 40% of people have rooftop solar. At 40% of households having it, it’s pretty hard to commute home from work without seeing a truck that says on the side of it, “Hot Electric” or “Solar Hub Electric” or “Joe’s Mom and Her Dog’s Electric Solar and Water Heater Service.” You can probably call one of those on your commute. They will probably show up the next morning before 7 am and have a look at your roof. Depending upon their backlog, they’ll be on your roof within 48 hours. Or maybe it’ll be a week

+Robert Rosner has a comprehensive rundown on the prospects for nuclear power in the decades ahead from the Bulletin of the Atomic Scientists. Though I’m going to put in bold the question I think may actually turn out to be most decisive.

Whether a nuclear renaissance actually occurs in the coming decade or two will depend, to a significant degree, on the answers to three fundamental questions: Are these new designs safer than their predecessors? Do the new designs lead to changes in how one will have to deal with the inevitable waste products (including the “spent” fuel)? And do thee new designs raise additional (or new) questions regarding nuclear weapons proliferation? In posing these questions, I am willfully excluding from my analysis additional key questions that actually determine whether a true “nuclear renaissance” is now likely to arrive in the United States: Will the strong increase in assured 24/7-always available electricity demand continue? Will the cost of electricity from the new generation of nuclear reactors be competitive with that obtained from alternate electricity-generation technologies? And will we finally succeed in dealing responsibly with our high-level nuclear waste and move this material into permanent repositories?

+Kentucky is the absolute heart of coal country, of course—but a new study finds that if you started retiring aging coal-fired power plants and replacing them with renewable energy, Kentuckians would save immense amounts of money. As Liam Niemeyer explains,

“Here in Kentucky, coal was the least-cost way to produce electricity, but as our coal plants age and as the cost of renewable energy continues to fall, that’s simply no longer the case,” the head of the group that commissioned the report, said. “Continuing to rely on aging, uneconomic power plants simply leads us to less stable, less dependable and higher-cost electricity when compared to the other pathways that are modeled in our report.”

Using an open source electricity planning model, the report analyzes four pathways that Kentucky utilities could take. The analysis considered pending proposals to build new power plants and other planning documents filed by utilities. It found the least-cost pathway creates up to $2.6 billion in savings for ratepayers through 2050 by replacing coal-fired power with “clean energy resources,” primarily solar power paired with batteries to store the power.

+Americans have some company in our political misery. Czechia has a new environment minister, from the rightwing Motorists for Themselves party (admittedly, a great name that pretty much sums up all the forces wrecking the earth), and he is vowing that “green blood will run” as he makes policy changes. On assuming office, the new guy announced "the climate crisis is over today."

+Sadly, “enhanced rock weathering” does not seem to be as useful a carbon removal technology as some had hoped, a new study finds. “Integrating the pore water results with model analyses, we estimated that the average CO2 removal rate was 100 ± 30 kg CO2 ha–1 yr–1, which is 10 to 30 times lower than the upper rates reported in some previous modeling and experimental studies.”

+In much better news, check out these numbers: E-bike (and trike and rickshaw) sales are soaring across the planet, and doing far more than EVs to drive down oil demand. From Muhammad Rizwan Azhar and Waqas Uzair:

On the world’s roads last year, there were over 20 million electric vehicles and 1.3 million commercial EVs such as buses, delivery vans, and trucks.

But these numbers of four or more wheel vehicles are wholly eclipsed by two- and three-wheelers. There were over 280 million electric mopeds, scooters, motorcycles, and three-wheelers on the road last year. Their sheer popularity is already cutting demand for oil by a million barrels of oil a day—about 1 percent of the world’s total oil demand, according to estimates by Bloomberg New Energy Finance.

As they point out, it comes down to money: far more humans can afford to buy these vehicles. And to operate them.

If you commute on an e-bike 20 km a day, five days a week, your charging cost would be about $20—annually.

+And one other delightful note on which to end the year. A new study is showing that growing crops in solar farms is not just good for the crops, it’s good for the farmworkers.

Agrivoltaics creates coveted shaded areas for farmworkers. That’s critical when you consider they are 35 times more likely to suffer fatal heat-related illnesses than nonagricultural workers.

Scientific data backed the workers’ instincts on the shade. Solar panels reduced the wet bulb globe temperature, a heat-measuring system, by up to 10 degrees.

Here’s an image from Shandong province, China.


The researcher, Talitha Neesham-McTiernan at the University of Arizona, interviewed lots of farmworkers. One of them confessed they found it hard to imagine ever going back to work on traditional full-sun farms — where, they added, their favorite crops had always been tomatoes, because of the shade the tall plants offered.

“By 9 a.m., in the summer, you’re just cooking,” Neesham-McTiernan said. “Being able to take that direct heat load off makes such a difference.”

Shade keeps drinking water cool too, the workers noted — a crucial benefit, given water’s role in mitigating heat stress. “They can pop their bottles under the panels and they stay cool all day,” Neesham-McTiernan said, “rather than it being, as one of the farmworkers described it, like drinking tea.”

Another worker said these benefits helped them feel less exhausted by day’s end, leaving more energy for social life and allowing a faster recovery for the next day’s work. Others said simply knowing shade was nearby reduced their mental stress.

On that note, I wish you too a week with reduced mental stress, the better to prepare for the important work ahead. See you in 2026!