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sábado, 25 de julho de 2026

Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta

Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.

Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de 41% de todas as espécies a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.

Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.

Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.

Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.

Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.

Mudar hábitos alimentares
Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.

Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (Bufo spinosus) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.

Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.

Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.

À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.

“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.

E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.

Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física
A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.

“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”

Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.

Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.

Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.

Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.

Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.

É preciso saber mais para se poder proteger
O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico Bufo bufo.

No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.

Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.

Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.

“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.

Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.

“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.

E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.

Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.

Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.

Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aves migradoras estão a conseguir adaptar-se a um Ártico mais quente. Mas não será para sempre.


As aves aquáticas migradoras que viajam para o Ártico para se reproduzirem têm alguma capacidade para anteciparem as suas longas jornadas para coincidirem com a chegada cada vez mais precoce da primavera ao pólo norte da Terra. Contudo, há limites.

Num artigo publicado na revista ‘Nature Climate Change’, mais de duas dezenas de cientistas acompanharam, via GPS, as migrações de cinco espécies: o ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla bernicla), o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o ganso-grande-de-testa-branca (Anser albifrons), o ganso-de-bico-curto (Anser brachyrhynchus) e o cisne-de-bewick (Cygnus columbianus bewickii).

A equipa percebeu que estas aves são capazes de reduzir o tempo que passam a alimentar-se, e a abastecerem as suas reservas de energia e gordura, em preparação para a migração, e, dessa forma, lançarem-se aos céus mais cedo para chegarem ao Ártico quando a primavera precoce começa a brotar.

“Os nossos resultados são tanto encorajadores como preocupantes”, admite, citado em comunicado, Hans Linssen, da Universidade de Amesterdão e primeiro autor do estudo.

“Mostramos que estas aves podem migrar mais rapidamente ajustando as paragens que fazem e os tempos de alimentação”, explica o investigador, mas avisa que esta flexibilidade só será vantajosa “durante mais umas décadas”, entre 18 e 28 anos, mais precisamente. Depois disso, adiantar as migrações, por si só, não será suficiente.

Isto, porque as aves precisam de estar bem alimentadas antes de percorrerem milhares de quilómetros até ao Ártico, e isso exige paragens ao longo do caminho para descansarem e recuperarem energias. Além disso, para partirem mais cedo e poderem coincidir a sua chegada com a de primaveras cada vez mais antecipadas, fruto das alterações climáticas, as aves precisam de alimentos de alta qualidade e condições favoráveis, o que nem sempre acontece.

Por isso, é possível que muitas aves acabem por chegar ao Ártico em más condições de saúde, o que poderá afetar a sua reprodução e, em última análise, o futuro das suas populações.

“Estas aves estão a mostrar uma adaptabilidade incrível”, refere Linssen. “Mas, em meados do século, elas precisarão de outras estratégias, como mudarem os seus locais de invernada ou alterarem completamente as rotas de migração, para conseguirem estar sincronizadas com a primavera ártica.”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

64% das raças de cães ainda carregam genes dos lobos (até os chihuahuas)



Um novo estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que a maioria dos cães carrega, literalmente, um pedaço de lobo dentro de si.

Pesquisadores analisaram 2.693 genomas de cães e lobos e descobriram que 64% das raças actuais possuem pequenas quantidades de DNA de lobo — vestígios que teriam sido incorporados após a domesticação e que podem ter ajudado os cães a se adaptar a uma ampla variedade de ambientes humanos.

De acordo com a autora principal, Audrey Lin, baixos níveis de fluxo génico entre as duas espécies tiveram papel importante na formação dos cães como os conhecemos hoje.

A equipa lembra que, apesar de lobos e cães poderem cruzar, a troca genética entre eles é considerada rara desde a separação, que ocorreu no Pleistoceno Superior (120-10 mil anos atrás). Mesmo assim, todos os cães de rua analisados apresentaram algum DNA de lobo, indicando que a mistura persiste onde cães vivem soltos.

Raças com mais e menos influência dos lobos.
Entre as raças modernas, o Grande Cão Anglo-Francês Tricolor e o Pastor de Shiloh exibiram os maiores índices de ancestralidade lupina não intencional, com cerca de 5,7% e 2,7%.
Cães-lobo criados deliberadamente — como o cão-lobo checoslovaco e o cão-lobo de Saarloos — apresentaram níveis ainda mais altos, entre 23% e 40%.
Em contrapartida, grandes cães de guarda, como Mastim Napolitano, Bullmastiff e São Bernardo, não mostraram qualquer traço detectável de DNA de lobo.
Já algumas raças pequenas, incluindo o chihuahua, surpreenderam ao exibir pequenas frações desse material genético.

Padrões identificados
Ao cruzar dados genéticos com padrões de comportamento descritos nos registos de raça, os pesquisadores observaram correlações curiosas: raças com mais genes de lobo tendem a ser descritas como “independentes”, “territoriais” e “desconfiadas de estranhos”, enquanto aquelas com menor influência lupina são apontadas como “amigáveis”, “afetuosas” e “cheias de energia”.

Lin reforça que os resultados não provam causalidade — apenas sugerem padrões que exigem investigação mais profunda.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

NDC 3.0: planos pouco ambiciosos e ausência de grandes emissores deixam o mundo longe da meta climática


Um novo relatório faz uma avaliação integral da terceira rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são fundamentais para a implementação do Acordo de Paris. Aqui, analisamos quatro dos eixos que serão discutidos na COP30.

“Dez anos após sua adoção, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o Acordo de Paris está dando resultados reais. Mas ele precisa funcionar de forma muito mais rápida e justa, e essa aceleração deve começar imediatamente.” A declaração é de Simon Stiell, Secretário Executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), após a apresentação, nesta terça-feira (28), do Synthesis Report, relatório sobre a nova rodada dos planos climáticos que os governos devem apresentar para avançar na implementação do Acordo de Paris.

Esses planos são conhecidos tecnicamente como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Neles, a cada cinco anos e de forma cada vez mais ambiciosa, os países devem compartilhar seus compromissos e ações de mitigação e adaptação. A soma de cada compromisso de redução de emissões deve contribuir para limitar o aquecimento global a menos de 1,5 °C, principal meta do acordo firmado em 2015.

O dia 10 de fevereiro de 2025 era a data final para os países apresentarem essa terceira edição das NDCs, mas poucos cumpriram o prazo. Em diversas ocasiões ao longo do ano, a ONU e a presidência brasileira da COP30 convocaram as Partes a fazer suas respectivas apresentações.

O relatório apresentado hoje pela Convenção inclui as 64 novas NDCs que 64 Partes apresentaram formalmente entre 1º de janeiro de 2024 e 30 de setembro de 2025. Estão incluídos os compromissos anunciados pela China e pela União Europeia na Assembleia Geral em Nova York, em setembro? Não na análise geral, porque foram apenas discursos anunciando metas que, naquele momento, não vieram acompanhados da publicação formal dos documentos de NDC completos e detalhados, mas foram incluídos em algumas estimativas específicas.

Também estamos cientes de que os dados contidos no relatório oferecem uma visão bastante limitada, uma vez que o total das NDCs que ele resume representa cerca de um terço das emissões globais.Simon Stiell, Secretário Executivo da UNFCCC

O que o relatório revela sobre esta terceira rodada de NDCs? A seguir, aprofundamos cinco das conclusões da análise que estão vinculadas aos principais temas a ser discutidos na COP30 em Belém.

1- Uma tendência à redução de emissões, ainda sem os maiores emissores
Todos os anos, a principal expectativa em relação ao relatório é qual será a soma total dos compromissos de redução de emissões dos países. Em outras palavras: o quanto estamos perto ou longe de limitar o aquecimento a menos de 1,5°C? Esta edição parte de uma realidade específica: os maiores países emissores ainda não apresentaram seus planos climáticos.

“Este relatório apresenta apenas uma visão parcial. Os principais emissores, como China, União Europeia e Índia, ainda não apresentaram formalmente suas NDCs atualizadas, enquanto vários países em desenvolvimento estão demonstrando como a ação climática pode ser integrada às oportunidades de desenvolvimento”, disse Kaysie Brown, diretora associada de Diplomacia Climática e Geopolítica da E3G.

As 64 NDCs analisadas só cobriram cerca de 30% do total das emissões globais em 2019. O cumprimento dos compromissos de mitigação permitiria uma redução de 17% nas emissões em relação aos níveis de 2019. “De acordo com suas NDCs, as partes estão reduzindo ainda mais as suas curvas de emissões, mas ainda a uma velocidade insuficiente”, afirma o relatório.

“Celebrar uma redução de 17% nas emissões até 2035, quando o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) nos diz que precisamos de 60%, é profundamente enganoso. É uma ilusão de avanço”, disse à InfoAmazonia Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, e acrescentou: “Sim, há avanços na economia real. Mas não se vê um resultado correspondente na política. A pior coisa que pode acontecer agora é a negação na COP30. Os líderes devem transformar o mal-estar político em uma resposta coletiva em Belém.”

As ações com maior potencial para atingir esses objetivos seriam florestamento e reflorestamento, energia solar, eletrificação de veículos e redução de emissões da agricultura.

Em relação a um dos temas que já gera debates no período que antecede a COP30 – a transição que deixe para trás os combustíveis fósseis – quase metade das NDCs analisadas apresentou objetivos quantitativos para reduzir uma proporção de combustíveis fósseis em sua geração de eletricidade até 2030.

A esse respeito, Camila Mercure, coordenadora de Políticas Climáticas da Fundación Ambiente y Recursos Naturales, avalia: “No setor energético, e de acordo com o apelo do Balanço Mundial a uma transição que abandone os combustíveis fósseis, é essencial que as NDCs estabeleçam roteiros claros e progressivos para descarbonizar as matrizes, garantindo que a transição busque a suficiência energética e o acesso universal, acessível e contínuo à energia para pessoas e territórios.”

2- Mais foco na adaptação
Setenta e três por cento das 64 NDCs apresentadas incluíram um componente de adaptação, ou seja, como se preparar melhor diante dos impactos atuais e futuros das mudanças climáticas.

As principais áreas em que esses países estão concentrando suas políticas de adaptação são segurança alimentar e nutrição, recursos hídricos, saúde, ecossistemas terrestres e setores econômicos estratégicos.

As secas apareceram como o fator climático de maior impacto sobre os países que apresentaram planos, com consequências sobre recursos hídricos, ecossistemas terrestres, pobreza e meios de subsistência. As inundações afetam principalmente áreas urbanas e rurais, transporte, infraestrutura e saúde. E o aumento do nível do mar ameaça áreas costeiras, ecossistemas oceânicos, património cultural e turismo.

Em comparação com os planos anteriores dessas 64 partes, observou-se um aumento no número de países que descreveram o estado de seus Planos Nacionais de Adaptação e identificaram sinergias e cobenefícios entre medidas de adaptação e mitigação.

Dos planos que incluíram políticas de adaptação, 94% se referiram a perdas e danos causados pelos impactos das mudanças climáticas. Isso demonstra um aumento no interesse pelo tema, em comparação com os 68% dos países analisados ​​que os haviam mencionado em planos anteriores.

O dado importante: os países apontaram a necessidade de financiamento e capacitação para lidar com perdas e danos. O Fundo de Perdas e Danos, estabelecido na COP27 em 2022, ainda está em fase de detalhamento para começar a funcionar, e ainda não tem recursos financeiros suficientes.

3- O financiamento necessário e transversal
Dos 64 novos planos apresentados, 56 apresentaram informações sobre financiamento. Mais especificamente, a maioria se referiu ao que é necessário para implementar suas políticas climáticas.

Os governos aguardam que Azerbaijão e Brasil, que ocuparam as presidências da COP29 e da COP30, divulguem o relatório do Roteiro de Baku a Belém, sobre como aumentar o financiamento de 300 biliões de dólares para 1,3 trilião. Enquanto isso, 33 partes divulgaram cifras orçamentárias concretas sobre o apoio de que necessitam: cerca de 1,97 bilhão de dólares, em conjunto.

Em que atividades esse dinheiro seria usado? Em políticas de redução de emissões nos setores de energia, agricultura e gestão de resíduos, e em políticas de adaptação em agricultura e segurança alimentar, recursos hídricos, saúde e água.

“A maioria dos países em desenvolvimento condicionou grande parte de suas NDCs ao acesso a financiamento internacional, transferência de tecnologia e apoio à capacitação, ressaltando que fechar a lacuna do financiamento climático é essencial para fechar a lacuna de ambição”, disse à InfoAmazonia Rebecca Thissen, coordenadora de global de incidência da Climate Action Network (CAN). E acrescentou: “Os países em desenvolvimento deixaram claro que sua ambição não é limitada pela visão, e sim pelos recursos.”

Além do valor em dinheiro em si, os países divulgaram desafios e limitações financeiras enfrentados na implementação de seus planos climáticos. Isso inclui acesso limitado e tardio ao financiamento devido a processos burocráticos longos e complexos, e dificuldades na mobilização de financiamento privado devido à baixa rentabilidade em setores vulneráveis, à percepção de altos riscos, ou mesmo ao escasso interesse dos investidores em medidas de adaptação.

“O relatório destaca que o apoio internacional previsível, acessível e ampliado não é esmola, e sim a condição para se implementar a ambição já incorporada às NDCs dos países em desenvolvimento. Isso deve ser acompanhado por uma reforma ambiciosa dos sistemas financeiros atuais, criando o espaço fiscal e político de que os países em desenvolvimento precisam para acelerar sua transição justa”, comenta Thissen.

Considerando que 69% do financiamento climático mobilizado em 2022 se deu na forma de empréstimos, não surpreende que uma barreira a mais seja o peso da dívida e as restrições fiscais geradas pelas modalidades de financiamento baseadas em mais endividamento em nome da ação climática. Esse foi um elemento qualitativo não resolvido pela nova meta de financiamento climático – a NCQG – decidida na COP29 anterior.

“As NDCs não são apenas compromissos climáticos, mas também o prospecto de investimento de um país, ou seja, o sinal mais claro para os mercados globais sobre onde se alinharão as políticas e oportunidades”, comentou María Mendiluce, diretora executiva da We Mean Business Coalition, e acrescentou: “Governos e empresas devem trabalhar juntos para criar as condições fiscais e financeiras que façam com que a energia renovável, a eficiência e a resiliência sejam os investimentos mais atrativos em todos os setores.”

4- Um interesse cada vez maior nos mercados de carbono
Na rodada anterior, 64% das Partes que apresentaram novas NDCs haviam manifestado interesse em participar dos mecanismos de mercado de carbono previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris (que os regula), como forma de atingir seus objetivos climáticos. Agora, esse número subiu para 89%, incluindo países como Brasil e Indonésia, o que demonstra um crescimento considerável do interesse pelo tema.

O relatório também tem uma motivação a mais: finalizar os detalhes de implementação do Artigo 6 na COP29 abre caminho para que mais países comecem a pensar em seus marcos regulatórios, jurídicos e institucionais para se envolver nos mercados de carbono e se beneficiar deles. Na verdade, os que os países têm mais intenção ou possibilidades de usar são o Artigo 6.2, sobre o comércio de redução de emissões entre países, e o Artigo 6.4, que trata do novo mercado internacional de carbono, sobre os quais houve decisões em Baku.

Maximiliano Manzoni, diretor da Consenso e jornalista especializado em mercados de carbono, disse à InfoAmazonia que identifica diversos problemas com a intenção de muitos países desenvolvidos de cumprir seus compromissos climáticos usando os mercados de carbono de acordo com o Artigo 6.

“Um problema essencial é que os países do Sul Global acabarão subsidiando, com suas florestas, os custos de mitigação dos países do Norte Global, transferindo esse carbono, ao mesmo tempo em que os do Norte podem alegar estar apoiando com financiamento climático”, diz Manzoni.

E mais: “Outro problema é que, sem normas firmes, essas transferências de carbono capturado pelos países do Sul Global para as NDCs do Norte aumentarão os custos de mitigação dos países em desenvolvimento e, em casos mais extremos, os colocarão na difícil situação de aceitar acordos desiguais como única forma de ter acesso a dinheiro para suas próprias necessidades de mitigação e adaptação.”

domingo, 19 de outubro de 2025

Inside the planet’s race to adapt - Por dentro da corrida do planeta para se adaptar


Esta década decisiva exige ações sem precedentes para enfrentar o maior desafio da humanidade. Com acesso global, esta série em três partes examina as consequências reais das alterações climáticas para a nossa civilização, ao longo do século XXI e mais além.

O jornalista irlandês Philip Boucher-Hayes visita pontos críticos do clima, desde o degelo dos glaciares da Gronelândia até aos extremos climáticos da África Subsariana, desde a inundação de terras agrícolas no Bangladesh até ao degelo do permafrost siberiano. Encontra-se com especialistas e testemunhas que explicam a interconectividade da frágil ecologia mundial, à medida que atingimos pontos de inflexão dos quais pode não haver retorno.

A série analisa a nova ciência climática e enfrenta as duras realidades de um mundo em mudança – ecossistemas em colapso, mortandade marinha e fenómenos climáticos extremos crescentes. Mas também explora uma visão positiva para reimaginar economias, paisagens e infraestruturas – e soluções práticas, formas de mobilizar a determinação colectiva e desafiar a humanidade a tornar-se uma força transformadora, aproveitando a inovação para salvaguardar o futuro da civilização.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Aves migradoras estão a conseguir adaptar-se a um Ártico mais quente. Mas não será para sempre


As aves aquáticas migradoras que viajam para o Ártico para se reproduzirem têm alguma capacidade para anteciparem as suas longas jornadas para coincidirem com a chegada cada vez mais precoce da primavera ao pólo norte da Terra. Contudo, há limites.

Num artigo publicado recentemente na revista ‘Nature Climate Change’, mais de duas dezenas de cientistas acompanharam, via GPS, as migrações de cinco espécies: o ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla bernicla), o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o ganso-grande-de-testa-branca (Anser albifrons), o ganso-de-bico-curto (Anser brachyrhynchus) e o cisne-de-bewick (Cygnus columbianus bewickii).

A equipa percebeu que estas aves são capazes de reduzir o tempo que passam a alimentar-se, e a abastecerem as suas reservas de energia e gordura, em preparação para a migração, e, dessa forma, lançarem-se aos céus mais cedo para chegarem ao Ártico quando a primavera precoce começa a brotar.

“Os nossos resultados são tanto encorajadores como preocupantes”, admite, citado em comunicado, Hans Linssen, da Universidade de Amesterdão e primeiro autor do estudo.

“Mostramos que estas aves podem migrar mais rapidamente ajustando as paragens que fazem e os tempos de alimentação”, explica o investigador, mas avisa que esta flexibilidade só será vantajosa “durante mais umas décadas”, entre 18 e 28 anos, mais precisamente. Depois disso, adiantar as migrações, por si só, não será suficiente.

Isto, porque as aves precisam de estar bem alimentadas antes de percorrerem milhares de quilómetros até ao Ártico, e isso exige paragens ao longo do caminho para descansarem e recuperarem energias. Além disso, para partirem mais cedo e poderem coincidir a sua chegada com a de primaveras cada vez mais antecipadas, fruto das alterações climáticas, as aves precisam de alimentos de alta qualidade e condições favoráveis, o que nem sempre acontece.

Por isso, é possível que muitas aves acabem por chegar ao Ártico em más condições de saúde, o que poderá afetar a sua reprodução e, em última análise, o futuro das suas populações.

“Estas aves estão a mostrar uma adaptabilidade incrível”, refere Linssen. “Mas, em meados do século, elas precisarão de outras estratégias, como mudarem os seus locais de invernada ou alterarem completamente as rotas de migração, para conseguirem estar sincronizadas com a primavera ártica.”

quarta-feira, 16 de julho de 2025

SOS: Refúgios contra o calor extremo nas cidades


Durante séculos, as cidades encontraram formas inteligentes de combater o calor. Em alguns casos, plantavam árvores ou construíam fontes públicas; noutros, usavam as igrejas como espaços de acolhimento ou aproveitavam a soleira das portas. A imaginação levou algumas comunidades a idealizar práticas simples, como o uchimizu, no Japão, o acto de lançar água ao chão para arrefecer o ar por evaporação.

Hoje, as consequências das temperaturas extremas são cada vez mais visíveis e dramáticas. Segundo um estudo publicado na revista PLOS Medicine, 4,6 milhões de pessoas morreram devido a ondas de calor nas últimas três décadas. Só em 2023, estima-se que mais de 47 mil pessoas tenham morrido na Europa por causas relacionadas com o calor, 1.432 delas em Portugal, de acordo com investigação do ISGlobal publicada na Nature Medicine. Os idosos, as crianças, as pessoas em situação de vulnerabilidade social e os que vivem em zonas densamente urbanizadas são os mais afetados. Portugal surge mesmo entre os 20 países mais atingidos por ondas de calor nos últimos 30 anos. Há dias, o Público falava de stress térmico extremo.

Perante esta ameaça crescente, várias cidades estão a implementar soluções práticas e urgentes. Estações de arrefecimento (cooling stations) e hidratação, espaços temporários ou permanentes onde as pessoas podem descansar, encontrar sombra, aceder a água fresca ou mesmo a ar condicionado, estão a multiplicar-se em locais como Paris, Chicago, Nova Iorque, Tóquio, Tirana e Miami.

Nova Iorque, por exemplo, abre centenas de centros de arrefecimento durante as vagas de calor, identificáveis num mapa online.

Em Paris ou Tirana, surgem estruturas móveis com nebulizadores ou bebedouros, que se tornam pontos vitais para proteger a saúde pública.

Os fenómenos de calor excessivo vão repetir-se e intensificar-se. Os governos, as autarquias e as instituições locais têm de assumir a liderança desta adaptação, pois, lamentavelmente, não parece haver condições para mitigar o problema. É urgente criar planos de contingência para o calor extremo nas cidades portuguesas

segunda-feira, 20 de maio de 2024

O verdadeiro custo da reprodução no reino animal

Verdilhão (Chloris chloris)

Um novo estudo publicado na revista Science e liderado por biólogos da Universidade Monash revela que o custo energético da reprodução é muito maior do que se pensava anteriormente.

A investigação, liderada por Samuel C Ginther, da Escola de Ciências Biológicas, desafia os pressupostos há muito defendidos sobre a dinâmica energética da reprodução e as suas implicações para a evolução da história de vida.

O estudo concluiu que a energia investida pelos progenitores na reprodução inclui não só a contida nos próprios descendentes (custos diretos), mas também a energia gasta para os produzir e transportar (custos indiretos). Na maioria das espécies, os custos indiretos, como a carga metabólica da gravidez, excedem os custos diretos.

A equipa de investigação analisou dados de 81 metazoários, desde rotíferos a seres humanos, para estimar os custos energéticos totais da reprodução e dos seus componentes. Esta abordagem global fornece um novo quadro para a compreensão da dinâmica energética da reprodução numa vasta gama de animais.

Embora os cientistas tenham compreendido os custos energéticos diretos associados à descendência (como a energia utilizada para a criar e alimentar), os custos indiretos – a carga metabólica da gravidez e dos cuidados parentais – têm sido largamente ignorados. Esta nova investigação revela que estes custos indiretos podem ser imensos.

Por exemplo, nos mamíferos, apenas cerca de 10% da energia utilizada na reprodução é canalizada para os próprios descendentes. No entanto, 90% é gasta no processo de gestação, que exige muito metabolismo. Os seres humanos, com as suas gravidezes prolongadas, têm alguns dos custos indiretos mais elevados, atingindo cerca de 96%.

Descobertas importantes para perceber como é que os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes

“Os resultados foram surpreendentes”, afirmo Ginther, revelando que descobriram que, para muitos animais, a energia gasta simplesmente no transporte e nos cuidados com a prole antes do nascimento “ultrapassa de longe a energia investida na própria prole”.

“Estas descobertas têm implicações significativas para a compreensão da forma como os animais evoluem e se adaptam aos seus ambientes. Também levantam preocupações sobre o potencial impacto das alterações climáticas no sucesso reprodutivo das espécies, uma vez que o estudo concluiu que os custos indiretos são particularmente sensíveis às flutuações de temperatura”, acrescenta.

O estudo concluiu que os mamíferos despendem mais energia na reprodução do que os ectotérmicos (anfíbios, répteis, peixes, etc.), representando os custos indirectos cerca de 90% do total das suas despesas de energia reprodutiva, enquanto os ectotérmicos que vivem têm custos indirectos mais elevados do que as espécies que põem ovos.

“O estudo altera fundamentalmente a nossa compreensão da dinâmica energética da reprodução e do seu profundo impacto nos fluxos de energia de um organismo”, afirma o coautor do estudo, o Professor Dustin Marshall, também da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Monash.

“O estudo também destaca a sensibilidade dos custos da energia reprodutiva ao aquecimento global, particularmente nos ectotérmicos”, adianta.

Dustin Marshall explica ainda que “as temperaturas mais quentes podem aumentar as taxas metabólicas, aumentando potencialmente os custos indiretos da reprodução”.

“Isso pode levar a descendentes menores e ter implicações para a reposição da população num mundo em aquecimento”, conclui.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Sobre os cépticos e as alterações climáticas


Vamos lá ver se nos entendemos em relação às alterações climáticas. Há dois tipos de alterações climáticas: as geológicas e as antropogénicas. Quando nada se referir quando falamos de alterações climáticas são as provocadas pelo Homem. A realidade está aí: eventos climáticos extremos, degelo das calotes, ondas de calor em países habitualmente frios (Suíça, p. ex.). São causadas sobretudo pelo uso e abuso de petróleo, gás, carvão e biomassa. Os jactos privados e os cruzeiros contribuem em GT de CO2, aumentando a temperatura global. 1ºC a mais trará consequências desastrosas: secas prolongadas, aumento do nível do mar, etc. 
Os GEE principais são o CO2 e o metano. Entre os GEE, incluir óxidos nitrosos e o insuspeito vapor de água que tem um poder de EE superior aos outros (e que não se pode controlar quando a temperatura atmosférica subir).
Quanto às alterações climáticas geológicas existiram no passado e continuarão a existir, nomeadamente a tectónica de placas e o vulcanismo.
O nosso clima está a mudar e nós somos a causa principal através das nossas emissões de GEE. Os factos sobre as alterações climáticas são essenciais para se compreender o mundo à nossa volta, e para tomarmos decisões informadas sobre o futuro.

Saber mais:
2. Climate Emergency Forum: Adaptação e Mitigação


3. Estudo independente ataca cépticos e confirma que a Terra está mesmo mais quente

Acção Climática Já: mitigação e adptação


A mitigação refere-se aos esforços para reduzir ou prevenir a emissão de gases de efeito estufa. Adaptação é o processo de ajuste aos impactos atuais ou esperados das alterações climáticas. A necessidade de adaptação varia de um local para outro, dependendo do risco para os sistemas humanos ou ecológicos.

Mitigation refers to efforts to reduce or prevent emission of greenhouse gases. Adaptation is the process of adjusting to current or expected impacts of climate change. The need for adaptation varies from one location to another, depending on the risk to human or ecological systems.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Parque Urbano da Várzea, Setúbal

Enquanto ainda se fazem contas ao prejuízo causado pelas duas vagas de cheias que afetaram várias zonas do país, com a Área Metropolitana de Lisboa à cabeça, há uma certeza de que ninguém duvida: o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "Estamos num processo de perdas pós-enchentes, somos reativos. Há uma crise e reagimos, não fazemos planeamento", lamenta José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

Responsável pela coordenação dos temas relacionados com a água na Associação Natureza Portugal (ANP/WWF), Ruben Rocha concorda com a ideia de que, ao nível da sociedade e dos decisores políticos, falta "capacidade de resposta a longo prazo", o que alimenta a continuação de um ciclo de eventos climáticos extremos, como os incêndios, a seca ou as chuvas intensas. "Falaremos novamente de seca quando começarmos a chegar a níveis muito baixos de água nas barragens", critica, enquanto pede uma mudança de paradigma no que à prevenção diz respeito.

Situações de inundações como as vividas nas últimas duas semanas "não são completamente novas", diz Pedro Nunes, que defende que "não podemos justificar tudo com base nas alterações climáticas". O ambientalista da Associação ZERO fala na necessidade de adotar uma visão holística dos desafios climáticos, que obrigam à implementação de políticas públicas desde o ordenamento do território à adaptação das infraestruturas urbanas para que se tornem mais resilientes.

Um dos fatores a considerar passa por incentivar uma ocupação mais equilibrada do país, revertendo os números anunciados pelo Censos 2021. De acordo com os dados definitivos divulgados em novembro, 20% da população portuguesa concentra-se em apenas 1,1% do território, sobretudo na zona litoral. "Isso acaba por ser um fator que contribui para que estas situações sejam mais graves, porque são, normalmente, zonas urbanas mais impermeabilizadas", justifica Pedro Nunes.

Os efeitos das alterações climáticas, que vêm agravar a intensidade e frequência de eventos extremos, não são facilmente reversíveis. Esses impactos podem ser mitigados através da descarbonização, mas os resultados só serão visíveis a longo prazo. "Mesmo que transformássemos a nossa vida de um dia para o outro, os efeitos continuariam cá. Mais do que mitigar, é preciso adaptar. Porque ou nos adaptamos ou sofremos", reforça João Carlos Ferreira.

O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Nova acredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Temos uma ideia (errada) sobre as aves de rapina


Temos uma ideia (errada) sobre as aves de rapina: solitárias, indomáveis, com voos rápidos e raramente descansam. Isso é apenas uma fase da vida delas. Na procriação, são pais cuidadosos e zelosos na alimentação dos filhotes. Após a eclosão dos ovos, as crias, que são nidícolas, apresentam os olhos e os ouvidos fechados e são incapazes de regularem a sua temperatura corporal, dependendo totalmente dos adultos. O macho pode chegar a levar comida para o ninho até 10 vezes por dia. As presas de maiores dimensões são desfeitas em pequenos pedaços e, assim, dadas às crias pelos adultos (ambos cuidam das crias). Presas mais pequenas, à medida que as crias se tornam mais velhas, são ingeridas inteiras. Neste período há diversos chamamentos e sons entre ambos, consolidando a relação. Vejam este pequeno documentário do zoólogo Russo, Vasiliy Baranyuk, em que vemos a coruja das neves do Árctico alimentando as suas crias.

Arctic Birds

sábado, 23 de julho de 2022

Corinne Le Quéré: ‘Could we just adapt to climate change? The answer is no’



There was a time in Britain when summer temperatures, like house prices, could not rise fast enough. Not anymore. The UK may be on the brink of recording its highest-ever temperature, exceeding the record of 38.7C set only in 2019. The heatwave is likely to kill hundreds. Its impact on productivity may show up in growth data. Continental Europe, meanwhile, fights droughts and wildfires. 

Yet for Corinne Le Quéré, one of the world’s experts on global emissions, there is no great revelation in the records. “It is so predictable how climate change is unfolding,” she says, in her office at the University of East Anglia, in Norwich, eastern England, overlooking parched lawns. “It’s like a train moving forward.” There are oddities, like when Le Quéré’s native Canada last year experienced record heat of 49.6C, “followed up with wildfires and the annihilation of a small city”. If the UK hits 40C this summer, she will “be surprised that we’re already there. But that we beat these records — this is expected, this is what a changing climate looks like.” 

Climate models can now estimate how much likelier extreme weather is due to humans’ emissions: the 2019 heat in the UK and Germany was, for example, about 10 times more likely. But the answers are almost too obvious. “If you have a heatwave and you beat a heat record, do not ask many questions. This is climate change for sure.” In the 2000s, Le Quéré was a lead author of the reports of the Intergovernmental Panel on Climate Change, which won a Nobel Peace Prize. Today she bridges science and policy, sitting on the UK’s government advisory group, the Climate Change Committee, and chairing France’s equivalent, the High Council on Climate. Shortly after coronavirus hit, she led a study that estimated global emissions had fallen 7 per cent in 2020. The message was: “You don’t tackle climate change like this — but look at the size of the actions we’re putting in place [against coronavirus], you need to respond to climate change at that size.” It went largely unheeded. The Glasgow climate summit — just eight months ago — has given way to Russia’s invasion of Ukraine and its economic aftershocks. Boris Johnson, who as UK prime minister helped to energise climate talks, will soon be out of office. The candidates to replace him all seem less attached to green issues. 

Le Quéré, who briefed David Cameron after he became Tory leader in 2005, with the help of a block of Antarctic ice, shakes her head. “You can never forget about climate change. You should align all your crisis responses as much as possible to climate action.” Le Quéré’s impression is that “most politicians get it. They would like to do things. But it’s always too difficult. There’s always a specific reason why they can’t do what they would like to do or they think they should do. It’s too difficult, it costs too much money, there’s no availability of something — public transport is a typical one. There’s always an excuse... The other obstacle is looking at what others are doing. This is paralysing. Everybody looks at what everybody else does, so action slows down.” Political will wilts like a pot plant in afternoon sun. Does she get frustrated? “I don’t get frustrated. If you work in this field, you have to have infinite patience . . . You have to help politicians realise their role.”

Le Quéré, 56, began her research as an oceanographer. She found that the Southern Ocean’s ability to absorb carbon dioxide was not fixed: as the ocean became warmer, and more acidic, it took up less carbon. The Earth’s carbon sinks are projected to weaken as the climate warms. She faced obstacles in a male-dominated field: “I was a single parent for ten years . . . By the time I made it to a conference it already felt like an accomplishment.” Undeterred, she went on to look for ways to effect change. She set up the Global Carbon Budget, a yearly estimate of carbon in the atmosphere. The latest edition judges that humans emitted 36 gigatonnes of carbon dioxide in 2021. For a 50 per cent chance of limiting warming to 1.5C, the remaining budget is just 420 gigatonnes — 12 years of current behaviour. As an adviser to the UK and France, which does she think is doing better? “Both have their strengths and weaknesses. The UK has a superb strategy that gets you to net zero [carbon emissions by 2050]. It’s struggling in the implementation. There’s a lot of incoherence. One example: we’re still building houses that are operating their heat system on gas and are not prepared for adaptation to climate change. New houses! “In France, the plan is less centralised, but there’s a lot of thinking about preparing society for climate action — in part because they had the yellow jackets [gilets jaunes protests].” Le Quéré insists that infrastructure investments can only take humans so far. The UK places too little emphasis on reducing waste, through building efficiency, smaller cars and less food waste. Future technology won’t save us; much of it already exists. “What we need mostly is to use the technology.” Battery-electric cars represent 12 per cent of UK new car sales, but are too expensive and have too few charging points. “These are two things that the government can act on.” 

On the spot How do you spend a heatwave? Swim in a river at the end of the day. Do universities have a free speech problem? I haven’t felt that. How to forget about climate anxiety? On a day-to-day basis, it’s just having a family. Bicycle or electric car? Both, with solar panels on both sides of the roof to charge the car. Similarly, heat pumps “are just too expensive. There’s no reason why they should be too expensive. They’re all over Sweden and Canada. They’re not expensive there. [In the UK] we don’t have a supply chain, we don’t have a market, it’s not organised, they’re not compulsory in new houses.” A big unknown is what impact Russia’s invasion will have on global emissions. “There are so many risks.” Coal power stations have been reopened, renewable projects have been accelerated, but the effect goes wider. “One of the biggest threats to tackling climate change from this crisis is the international tensions. There’s the energy crisis, a food crisis, there’s exhaustion from Covid. And there’s tension from rich countries’ [unfulfilled] commitments to tackle climate change.” This year’s climate summit in Egypt in November “will probably be difficult . 

What we see now globally — 1.5C, forget it.” Stuart Kirk, HSBC’s head of responsible investment, recently argued that humans should focus on adaptation: “Who cares if Miami is six metres underwater in 100 years? Amsterdam has been [two] metres underwater for ages.” HSBC disowned his view, and Kirk has now left the bank. “It’s a legitimate question, could we just adapt to climate change?” says Le Quéré. “And the answer is no. Because the warming continues. You cannot just adapt because the target keeps moving.” (Unlike Amsterdam, Miami can’t protect itself via sea walls, because water bubbles up through the porous limestone on which it’s built.) Recommended Pilita Clark HSBC saga reveals how much climate and financial risk are misunderstood Le Quéré is not an alarmist, not a zealot. “A perfect person could cut their own emissions by perhaps 25 per cent.” Emissions are embedded in the infrastructure that we use, the society in which we live. “It really needs to be a society-wide movement.” 

In a TEDx Talk in 2018, she said that she believed that environmental destruction would end in her lifetime. “Before I die, we will recycle everything . . . we will no longer eat animals . . . we will breathe pure air in the heart of our cities.” Alongside her optimism sits a worry that the climate system could be less stable than forecast: there may be tipping points, like those in the Earth’s geological past. “We think at the moment that at least this century there aren’t going to be big, rapid changes, but for this I would not be completely confident that we know all the aspects of the carbon cycle. It feels now that we’re in a system that is out of equilibrium, but it’s still reasonably stable. What worries me scientifically is: do we have this right?”

She is building a model of the marine food web, incorporating the effect of marine viruses and microplastics. It involves field experiments, lab experiments, and millions of pictures of the oceans, verified with satellite data on ocean colour. But it could take “easily 20 years, maybe 30” before an IPCC-style consensus is reached. Research is “fun” and “calming”, compared with the stress of policy. I realised somewhere along my career that I’m going to do what I can and the rest is out of my hands Corinne Le Quéré Does she wonder if climate scientists were too timid in raising the alarm? “I really struggle to think about what we could have done differently.” Could she have spoken out more? “This is the one thing that I can say for sure: I do everything I can, I don’t think I can do more . . . I realised somewhere along my career that I’m going to do what I can and the rest is out of my hands. Some of the younger scientists can be really quite depressed. But I think it’s not productive to let it depress you. 

If you’re a climate scientist you have a really important job to do.” When we meet, British newspapers are preparing for the heatwave with photos of people relaxing with ice cream. “If you’re able to take time off work, that’s all fine,” says Le Quéré. “[But] if you’re a construction worker, if you’re working in agriculture, physiologically your body has temperature limits that can easily reach heat exhaustion on a hot day.” 

For years, she has wanted the public to see climate change for themselves. As the reality of high temperatures sets in, should people be afraid? Anxious? “I don’t think fear and anxiety are very positive as emotions. Now is not the time to be fearful, now is the time to be forceful and say: we know what to do. Let’s get rid of all that anxiety and all those doubts, and say big problem, what do we do about it? We have loads of solutions.”

quarta-feira, 8 de junho de 2022

How treaties protecting fossil fuel investors could jeopardize global efforts to save the climate – and cost countries billions

K. Franklin/Science based on K. Tienhaara et al.


Fossil fuel companies have access to an obscure legal tool that could jeopardize worldwide efforts to protect the climate, and they’re starting to use it. The result could cost countries that press ahead with those efforts billions of dollars.

Over the past 50 years, countries have signed thousands of treaties that protect foreign investors from government actions. These treaties are like contracts between national governments, meant to entice investors to bring in projects with the promise of local jobs and access to new technologies.

But now, as countries try to phase out fossil fuels to slow climate change, these agreements could leave the public facing overwhelming legal and financial risks.

The treaties allow investors to sue governments for compensation in a process called investor-state dispute settlement, or ISDS. In short, investors could use ISDS clauses to demand compensation in response to government actions to limit fossil fuels, such as canceling pipelines and denying drilling permits. For example, TC Energy, a Canadian company, is currently seeking more than US$15 billion over U.S. President Joe Biden’s cancellation of the Keystone XL Pipeline.

In a study published May 5, 2022, in the journal Science, we estimate that countries would face up to $340 billion in legal and financial risks for canceling fossil fuel projects that are subject to treaties with ISDS clauses.

That’s more than countries worldwide put into climate adaptation and mitigation measures combined in fiscal year 2019, and it doesn’t include the risks of phasing out coal investments or canceling fossil fuel infrastructure projects, like pipelines and liquefied natural gas terminals. It means that money countries might otherwise spend to build a low-carbon future could instead go to the very industries that have knowingly been fueling climate change, severely jeopardizing countries’ capacity to propel the green energy transition forward.

Massive potential payouts

Of the world’s 55,206 upstream oil and gas projects that are in the early stages of development, we identified 10,506 projects – 19% of the total – that were protected by 334 treaties providing access to ISDS.

That number could be much higher. We could only identify the headquarters of project owners, not the overall corporate structures of the investments, due to limited data. We also know that law firms are advising clients in the industry to structure investments to ensure access to ISDS, through processes such as using subsidiaries in countries with treaty protections.

Depending upon future oil and gas prices, we found that the total net present value of those projects is expected to reach $60 billion to $234 billion. If countries cancel these protected projects, foreign investors could sue for financial compensation in line with these valuations.

Doing so would put several low- and middle-income countries at severe risk. Mozambique, Guyana and Venezuela could each face over $20 billion in potential losses from ISDS claims.

If countries also cancel oil and gas projects that are further along in development but are not yet producing, they face more risk. We found that 12% of those projects worldwide are protected by investment treaties, and their investors could sue for $32 billion to $106 billion.

Canceling approved projects could prove exceptionally risky for countries like Kazakhstan, which could lose $6 billion to $18 billion, and Indonesia, with $3 billion to $4 billion at risk.

Canceling coal investments or fossil fuel infrastructure projects, like pipelines and liquefied natural gas terminals, could lead to even more claims.

Countries already feel regulatory chill

There have been at least 231 ISDS cases involving fossil fuels so far. Just the threat of massive payouts to investors could cause many countries to delay climate mitigation policies, causing a so-called “regulatory chill.”

Both Denmark and New Zealand, for example, seem to have designed their fossil fuel phaseout plans specifically to minimize their exposure to ISDS. Some climate policy experts have suggested that Denmark may have chosen 2050 as the end date for oil and gas extraction to avoid disputes with existing exploration license holders.

New Zealand banned all new offshore oil exploration in 2018 but did not cancel any existing contracts. The climate minister acknowledged that a more aggressive plan “would have run afoul of investor-state settlements.” France revised a draft law banning fossil fuel extraction by 2040 and allowing the renewal of oil exploitation permits after the Canadian company Vermilion threatened to launch an ISDS case.

Securing the green energy transition

While these findings are alarming, countries have options to avoid onerous legal and financial risks.

The Organization for Economic Cooperation and Development is currently discussing proposals on the future of investment treaties.

A straightforward approach would be for countries to terminate or withdraw from these treaties. Some officials have expressed concern about unforeseen impacts of unilaterally terminating investment treaties, but other countries have already done so, with few or no real economic consequences.

For more complex trade agreements, countries can negotiate to remove ISDS provisions, as the United States and Canada did when they replaced the North American Free Trade Agreement with the United States-Mexico-Canada Agreement.

Additional challenges stem from “sunset clauses” that bind countries for a decade or more after they have withdrawn from some treaties. Such is the case for Italy, which withdrew from the Energy Charter Treaty in 2016. It is currently stuck in an ongoing ISDS case initiated by the U.K. company Rockhopper over a ban on coastal oil drilling.

The Energy Charter Treaty, a special investment agreement covering the energy sector, emerged as the greatest single contributor to global ISDS risks in our dataset. Many European countries are currently considering whether to leave the treaty and how to avoid the same fate as Italy. If all country parties to a treaty can agree together to withdraw, they could collectively sidestep the sunset clause through mutual agreement.

The global transition

Combating climate change is not cheap. Actions by governments and the private sector are both needed to slow global warming and keep it from fueling increasingly devastating disasters.

In the end, the question is who will pay – and be paid – in the global energy transition. We believe that, at the very least, it would be counterproductive to divert critical public finance from essential mitigation and adaptation efforts to the pockets of fossil fuel industry investors whose products caused the problem in the first place.

Learn more about ISDS