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sábado, 13 de junho de 2026

Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia

Já tinha lido algumas obras de Byung-Chul Han aqui e aqui
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.

Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.

Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.

Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.

2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
  • As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
  • O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
  • A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.

4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.

O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.

terça-feira, 17 de março de 2026

Rede social X, de Elon Musk, é o principal canal de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo


A rede social X é o principal canal utilizado para atividades de desinformação contra a União Europeia e os políticos são o principal alvo, refere um relatório hoje divulgado pelo serviço diplomático europeu.

Num relatório intitulado “Ameaças de ingerência externa e de manipulação de informação”, o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) indica que, dos cerca de 43 mil conteúdos relacionados com desinformação que analisou em 2025, 88% passaram pela rede social X, detida pelo magnata norte-americano Elon Musk, muito acima da aplicação de mensagens Telegram (3%) ou do Facebook (2%).

“A presença de redes de comportamento inautêntico coordenado, a facilidade de criação de contas falsas, mas também o acesso mais fácil a dados explica esta concentração. A maioria das grandes plataformas de redes sociais restringe o acesso a dados que permitiriam avaliar a dimensão da manipulação de informação”, explica o SEAE.

Apesar da preponderância do X, o relatório refere que, na maioria das campanhas de desinformação, os protagonistas tendem a procurar operar ao mesmo tempo em várias plataformas, com diferentes contas, combinando publicações nas redes sociais e mensagens em aplicações como o WhatsApp ou Telegram.

“O objetivo é infiltrar-se no espaço de informação para aumentar a visibilidade e credibilidade do conteúdo, ao mesmo tempo que se visam públicos específicos com base em fatores sociodemográficos e geográficos”, refere-se.

De acordo com o relatório, o recurso à inteligência artificial (IA) está a tornar-se cada vez mais premente nas campanhas de desinformação dirigidas contra a UE, verificando-se um aumento de 259% quando comparado com 2024.

“Os atores russos e chineses implementaram totalmente ferramentas de IA para acelerar a produção de conteúdos e aumentar as atividades de ingerência com menos recursos”, lê-se no relatório, em linha com a análise de um responsável europeu que indicou que a IA está a tornar estas operações muito mais baratas.

Na análise que fez a estas campanhas, o SEAE que a maioria dos ataques (66%) é dirigido contra políticos, com destaque particular para os presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e de França, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, ou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O SEAE aponta que, na maioria dos casos, as campanhas contra estas personalidades são sobretudo “ataques àquilo que um indivíduo representa (como valores democráticos ou princípios)” e uma tentativa de “instrumentalizar a plataforma que têm para alcançar públicos específicos”.

A nível de organizações visadas por estas campanhas, as entidades políticas voltam a estar em primeira linha, com 36% dos ataques, seguidas pelos órgãos de comunicação social (23%) e organizações militares ou de segurança (22%).

“Os setores políticos e de segurança foram especialmente visados, com o objetivo de minar a confiança nas capacidades de Defesa. Da mesma maneira, os protagonistas destas ameaças identificaram o setor dos media como sendo crucial para a democracia e, por isso, dirigiram-lhe narrativas depreciativas, tentativas de personificação e campanhas diretas de difamação”, explica-se no relatório.

Os períodos eleitorais são os contextos mais utilizados para campanhas de desinformação, assim como manifestações populares ou distúrbios, que são explorados para “alimentar perceções de caos, medo e desordem, geralmente contra administrações locais”.

“Momentos de elevada tensão e carga emocional são vistos pelos atores destas ameaças como vulnerabilidades que lhes permitem atingir os seus públicos-alvo, influenciar o seu raciocínio e amplificar preconceitos cognitivos existentes”, refere-se.

O SEAE ressalva que o relatório não deve ser “interpretado como exaustivo” em termos de ameaças de desinformação, uma vez que deriva de uma monitorização que não cobre “todas as regiões e línguas” e “só representa uma porção pequena das atividades destes atores”.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Where Are the People?


On October 23, 2025, Donald Trump pardoned Changpeng Zhao — better known as CZ — the billionaire founder of Binance, the world’s largest cryptocurrency exchange. The move barely registered as a blip in most mainstream coverage. After all, Zhao had already served his four-month federal sentence in 2024 for violating U.S. anti–money laundering laws. The crime had been acknowledged. The punishment, while minimal, had been carried out. Case closed.

Except it wasn’t.
Because this was no random act of mercy. It was a strategic cleansing of a criminal record for a man whose company had reportedly helped facilitate one of the Trump family’s most lucrative ventures: World Liberty Financial, the crypto project that launched Trump 2.0 into the digital finance stratosphere.

The pardon wasn’t just leniency. It was erasure, a clearing of the books for someone whose proximity to Trump’s personal wealth couldn’t be ignored.

This wasn’t justice. It was consolidation. And it was just one chapter in a larger story of how American democracy is being quietly rewritten — not by legislation or voters, but by tech magnates and their political patrons.

The president’s crypto empire
By mid-2025, Trump’s family-linked crypto venture had reportedly generated over $800 million in revenue, primarily from token sales and international transactions. World Liberty Financial didn’t just launch a coin. It launched an infrastructure —wallets, stablecoins, partnerships, and exchange relationships — that made it a central player in the new digital financial order the Trump administration is actively championing.

Binance, the company CZ founded, played a key role in powering parts of that infrastructure, including early liquidity and backend support.

So when Trump wiped Zhao’s record clean, more than a year after his sentence had ended, it didn’t look like forgiveness. It looked like gratitude, or worse, repayment.

And if that’s the case, then this wasn’t just a pardon. It was a payoff.

Where are the people?
This democracy was designed — at least in theory — to be governed by the people, for the people. But in this new era of tech-driven, personality-fueled policymaking, one has to ask: where are the people now?

They’re not present when billionaires are pardoned by the very politicians whose platforms they help enrich. They’re not consulted when experimental economic systems are fused with national policy. They’re certainly not included when those same systems are promoted by unelected private actors whose incentives are profit, not public service.

Crypto is being positioned as an essential pillar of the U.S. economy. AI is being integrated into federal workflows, hiring, benefits administration, and even defense. Both are actively being deregulated. But who asked for this? Who consented?

There was no referendum, no public debate, and no national reckoning.

There was only the quiet shifting of power and the vanishing of the public from the equation.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Sampaio da Nóvoa: "Os partidos preferem salvar a pele a salvar o país"


Como é que o PS pode sair da crise em que mergulhou?
Não vou dar conselhos a partidos, sobretudo a partidos nos quais nunca estive integrado. Agora, há um problema de fundo com os partidos em Portugal, viraram-se muito para dentro deles próprios.

O PS deve ser o parceiro do Governo para aprovar o Orçamento, ainda que Luís Montenegro possa não excluir o Chega das conversações?
Não diria a mesma coisa há dez anos, mas a cada momento temos de perceber onde é que está o problema principal, qual é a ameaça. Hoje a ameaça principal está claramente definida e portanto, sim, devemos fazer tudo para assegurar estabilidade. Não quer dizer que concordemos com tudo. É bom que haja uma crítica, porque isso faz parte da democracia. A democracia é a promessa de uma liberdade total, mas deve ser feito tudo para assegurar a continuidade deste Governo até ao final da legislatura.

Não há o risco de deixar o Chega liberto de responsabilidades, com mais espaço para ser oposição e crescer?
Não acredito nisso. Eu acho que o problema de Portugal está na instabilidade que foi criada nestes últimos anos.

O resultado nas autárquicas deve ser tido em conta na avaliação que os candidatos presidenciais fazem dos jogos de forças?
Quaisquer eleições têm uma leitura política. Claro que os candidatos que estão no terreno, as pessoas, os partidos, os movimentos, os cidadãos, devem fazer uma leitura disso. Até antes desse dia, a conversa já é necessária agora. É necessário que falem.

Acredita que haja ainda uma desistência por parte de alguns dos candidatos?
Não sei. Não estou na cabeça deles nem dentro dos partidos. O que me custa muito é que os partidos, na sua lógica interna, fecham-se na sua concha e às vezes preferem salvar a pele a salvar o país. De repente um partido que tem 3% conseguiu um candidato que teve 3,5% e é uma vitória extraordinária, o país pouco importa.

Esse recado encaixa-se por exemplo no PCP e na forma como recusou coligações?
Encaixa-se de um modo geral em todos os partidos. A maneira como não se renovaram, não construíram novas gerações de quadros, não se abriram à sociedade, não conseguiram construir outras dinâmicas, é um dos fatores que nos trouxe aqui. Mas chegados aqui, a prioridade das prioridades é combater esta espécie de fatalidade, de inevitabilidade que o André Ventura muito inteligentemente tem deixado passar junto de toda a gente. Precisamos de corrigir as imperfeições, já disse no discurso do Dia de Portugal em 2012, já lá vão 13 anos, quando utilizei a imagem de que há muitos Portugais dentro de Portugal. E se em 2012 havia muitos, em 2025 ainda há mais Portugais de desigualdades, de pobreza.

Quais são as nossas maiores assimetrias? Sociais ou territoriais?
São sociais. Há hoje um nível de vida médio aceitável em Portugal. Não é bom, mas é aceitável. Mas há bolsas de pobreza e de miséria absolutamente inaceitáveis. E também de pobreza e de miséria nos imigrantes, naqueles que acolhemos, o que é igualmente inaceitável. Há uma fratura social muito forte e há também as grandes desigualdades territoriais. Eu que nasci em Valença, que vivi no Minho, no Porto, em Coimbra, em Aveiro, em Lisboa e em Oeiras, que fiz várias voltas ao país ao longo da minha vida, às vezes estou em Arouca e dizem-me que é o interior dos interiores. Arouca em linha reta deve estar a 35 km do mar.

Essa desigualdade é a causa maior do ressentimento que tem dado espaço ao Chega.
A desigualdade é uma das causas maiores, aquela sensação de que não podemos conduzir a nossa vida, que não temos os instrumentos, os lugares para habitar, os lugares para trabalhar, etc., junto com a ideia de abandono. A ideia de que elegemos certas pessoas para cuidarem de nós, porque é esse o princípio da democracia, e sentimo-nos abandonados.

As redes sociais e o contexto internacional são fatores a ter igualmente em conta. Ou seja, Portugal não está sozinho relativamente aos extremismos e à polarização.
O último relatório feito em França, pela Assembleia Nacional Francesa, sobre o TikTok é absolutamente assustador. Nós não sabemos lidar com o digital, que é uma espécie de máquina extraordinária que puseram nas nossas mãos em muito pouco tempo e não sabemos o que fazer com isto. Receio que o mundo digital seja um mundo contrário ao da democracia. Por duas razões principais. Porque a democracia é um exercício de tempo, de maturidade, de diálogo.

E o digital é um espaço de velocidade.
O digital é o contrário disso. E a democracia precisa de uma segunda coisa que é essencial, que são as mediações institucionais. O digital é o contrário disso tudo, é o instantâneo e é o direto. Eu receio que a democracia tal como a conhecemos esteja em sérios riscos face ao mundo digital, se não aprendermos muito rapidamente a lidar com ele. E depois, claro, os fenómenos internacionais. Julgo que estamos a assistir, com grande pena minha, a uma espécie de fim de uma época, que tem três datas. 1945, Nações Unidas, cooperação, multilateralismo. 1948, direitos humanos. 2015, agenda 2030 da sustentabilidade. Julgo que estamos a assistir ao fim de uma época destas três datas.

Quando anunciou que não seria candidato, disse que nunca virará a costas nem falhará ao seu país e que a cidadania exige coragem. Não lhe faltou coragem no momento de avançar?
A coragem está cá e estará sempre. Eu não tenho medo. Ao dar esta entrevista, estou a fazer uma intervenção pública cidadã, a pedir a convergência, a apelar aos candidatos das autárquicas, que são de uma importância extrema para os próximos anos, e aos candidatos presidenciais, estou a fazer o papel que julgo que me compete. Não tenho nenhum plano. Se for preciso travar combates, estarei para os combates que for preciso travar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Alteração Primata

Livro científico de Vybarr Cregan-Reid, incide primacialmente nos últimos 200 anos da nossa história, história recente que teve um enorme impacto para os seres humanos, que também protagonizaram grandes mudanças – em si mesmos e no mundo que os rodeia. A actual época geológica, designada por Antropoceno (ou a Era do Homem), revela assim um novo corpo adaptado a novos hábitos e a novas alimentações, que transformaram decisivamente o nosso próprio ADN. Esta alteração do corpo humano no tempo é o cerne deste livro.

Desde a Revolução Agrícola, em que o homem se sedentarizou e produziu alimentos (cereais) para conseguir armazenar, tudo mudou. Natureza e criação passaram a combinar-se com um resultado fascinante. A revolução Industrial – e agora a revolução digital – impôs uma mudança radical no mundo, que o ser humano protagonizou e, ao alterar o mundo, estruturou-se de uma outra forma, com novos hábitos de sedentarização e novos comportamentos, com importantes consequências no corpo, músculos e estrutura facial, sobretudo pela alteração dentária. Baseado em estudos científicos em várias áreas, “Alteração Primata” faz uma excelente abordagem a algumas das actuais fraquezas do corpo humano, apresentando uma análise profunda, rigorosa e abrangente sobre “como o mundo que criámos nos tem modificado“.

O livro propõe, igualmente, uma reflexão sobre as consequências da nossa transformação do mundo, a pensar em como o usamos e a reavaliar o que esperamos dele – e em como nos deveremos portar perante ele. Reflexão que se alarga, também, às transformações do corpo – a nossa aparência e a forma como nos movemos, descansamos, dormimos, pensamos, comemos e comunicamos mudaram drasticamente desde que o Homo sapiens iniciou a sua marcha plantar pelo Planeta, há mais de 300.000 anos.

Vybarr Cregan-Reid nasceu em 1969 e cresceu em Manchester. É um investigador académico, actualmente Leitor em Inglês e Humanidades Ambientais na Universidade de Kent. Ao longo da carreira tem escrito sobre temas nas áreas da literatura, saúde e ambiente

domingo, 1 de junho de 2025

Manual de Métodos para Pesquisa Digital



O novo livro da equipa do MediaLab para download livre para utilização em investigação de base digital, nas redes sociais e fora delas, está disponível para download, partilha e utilização por todos os que nas áreas das ciências sociais, humanidades e business estudam a sociedade,
economia e cultura. 
Este manual reúne um conjunto de propostas práticas sobre como realizar investigação no âmbito das plataformas de redes e media sociais digitais e na pesquisa digital.
Contempla também uma reflexão teórica sobre o que implica realizar investigação na qual o objeto de estudo são posts, vídeos, perfis ou hashtags em ambientes online variados e com características próprias.
Trata-se de um manual inovador pensado para investigadores, estudantes, docentes e todos os profissionais que, embora não pertencendo ao universo académico, desejam realizar análises no âmbito de plataformas digitais e/ou sobre as expressões de dimensão social, económica, financeira, cultural e política que com elas se relacionam.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Demography of Europe – 2025 edition

Discover interesting insights about how the population is developing, ageing and much more in this interactive publication.

The publication is divided into 4 sections: population structure, population change, population diversity and marital status.

Consulte o mapa interactivo aqui

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Smartphones na escola: entre o vício e a inteligência



Por José Afonso Baptista
Durante décadas, a escola foi vista como um espaço protegido — lugar de concentração, convivência e construção de conhecimento. Hoje, esse refúgio está ameaçado por um pequeno objeto que habita discretamente os bolsos dos alunos: o smartphone.
O documentário britânico Swiped: The School That Banned Smartphones retrata uma realidade inquietante: jovens que recebem milhares de notificações diárias, dormem mal, sentem ansiedade, isolam-se e perdem o foco. Quando afastados dos aparelhos por três semanas, melhoram o sono, comunicam mais e sentem-se emocionalmente mais estáveis. A escola transforma-se. E os alunos também.
Esta transformação evoca as grandes epidemias da história, da peste negra à toxicodependência. A dependência digital é a nova peste: invisível, socialmente aceite, mas profundamente desequilibrante. Como em La Peste, de Camus, há quem negue, relativize ou se conforme. Mas há também quem enfrente, não com o interdito, mas com inteligência.
A interdição total, agora proposta em vários países, é tentadora. Mas proibir não é educar. Impedir o uso de uma ferramenta não ensina a usá-la bem. A escola deve, sim, estabelecer regras, mas por via do diálogo, da negociação e da criação de contextos de uso responsável. Proibir é mais fácil do que educar — mas também é mais pobre.
Primeiro argumento: se proíbo, não ensino. A escola deve formar para o uso crítico e consciente da tecnologia, ensinar a resistir à dispersão e a valorizar o silêncio e a atenção.
Segundo: eliminar os telemóveis é afastar um recurso poderoso. São biblioteca, caderno, lupa, gravador e muito mais. Integrados de forma criativa e pedagógica, enriquecem a aprendizagem.
Terceiro: a proibição nega autonomia ao aluno. Educar é ajudar a escolher, não a fugir das escolhas. Literacia digital inclui saber usar, regular e avaliar criticamente os meios tecnológicos.
Quarto: proibir alimenta a desconfiança. Uma escola que regula tudo por decreto diz, sem dizer: “não confiamos em vós”. A boa educação exige confiança - nos alunos, nos professores e nas famílias.
A solução não está na fuga, mas na formação. Ambientes regulados, com momentos definidos para o uso e para a pausa, são essenciais. Projetos colaborativos, trabalho por problemas, uso de plataformas digitais para monitorizar a participação e promover a autonomia, tudo isto é mais eficaz do que o interdito.
O smartphone não é apenas um aparelho: é a porta de entrada para o mundo digital e o corpo que acolhe a alma da inteligência artificial. Retirá-lo sem mais é como ter uma fonte de água pura e não poder matar a sede. A escola do futuro não se faz contra a tecnologia, mas com ela, de forma crítica, ética e criativa. É esse o desafio. E é esse o nosso dever.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Boicote aos Produtos Americanos: Uma Resposta ao Impacto das Políticas de Trump (com lista de produtos e locais de compra)



Nos últimos tempos, a crescente onda de boicotes a produtos americanos tem ganhado força em várias partes do mundo, e Portugal não está imune a essa tendência. A razão? A resposta das políticas económicas de Donald Trump, que afectaram directamente países aliados, como a União Europeia, com a imposição de tarifas pesadas sobre o aço, alumínio e até produtos como o champanhe e o vinho, sectores vitais da economia portuguesa.

A situação é clara: produtos americanos, que antes eram consumidos com regularidade e até com uma certa adoração, passaram a ser vistos sob outra óptica. O boicote não é mais apenas uma opção de grupos políticos ou ativistas, mas uma resposta de cidadãos comuns, que, como protesto, estão a alterar hábitos de consumo e recusar apoiar marcas ou produtos relacionados com os EUA de Trump.

Em supermercados no Canadá, já se observa a iniciativa de marcar produtos com estrelas negras, uma forma simbólica de facilitar o boicote a produtos europeus com origem nos EUA. Produtos como o famoso Jack Daniel’s, as calças Levi’s ou até mesmo as séries da Netflix, associadas diretamente ao país, têm sido colocados de lado por muitos consumidores que não querem mais apoiar essas marcas enquanto as políticas de Trump persistirem.

Em Portugal, gestos semelhantes podem ocorrer, com mudanças simples de pasta de dentes, evitar as compras em grandes cadeias de distribuição americanas ou até mesmo desmarcar férias nos Estados Unidos. Tudo como forma de dizer “não” ao que consideram uma postura económica arrogante e agressiva por parte do governo americano.

Além disso, as recentes ameaças de Trump, como tarifas de até 200% sobre o champanhe, vinhos e outras bebidas alcoólicas da União Europeia, tem criado grande preocupação no sector vitivinícola português. Se implementadas, estas tarifas poderiam prejudicar gravemente as exportações de vinho, um dos principais produtos do país, especialmente para os Estados Unidos, que é o segundo maior mercado de exportação de vinho português.

Diante disso, é hora de reflectir sobre nossas escolhas como consumidores conscientes. O boicote aos produtos americanos, especialmente aqueles que estão ligados à indústria de luxo e entretenimento (HBO, Netflix, Disney, etc), pode ser uma resposta válida a estas políticas. Afinal de contas, as nossas decisões de compra não são apenas sobre o que consumimos, mas também sobre os valores que apoiamos.

Por isso, convidamos todos a reflectir sobre o impacto das suas escolhas de consumo e a considerar um boicote consciente aos produtos que, directa ou indiretamente, sustentam as políticas que prejudicam a economia e a imagem da União Europeia e, consequentemente, de Portugal. Vamos agir juntos e mostrar que o poder de compra pode ser uma poderosa ferramenta de protesto!



E será um dos subscritores da petição de protesto a enviar às empresas que, em Portugal, comercializam produtos dos EUA:

sábado, 28 de dezembro de 2024

MOOCs e Educação Ambiental: a ligação


Os MOOCs (Massive Open Online Courses) têm uma relação direta e estratégica com a Educação Ambiental, sobretudo porque ambos partilham o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento e promover mudanças de valores, atitudes e comportamentos face aos desafios ambientais contemporâneos. Num contexto marcado por crises globais como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas, torna-se essencial que a educação ambiental ultrapasse os limites da escola formal e alcance públicos mais amplos, algo que os MOOCs permitem de forma eficaz.

Ao serem cursos online, abertos e acessíveis a um número elevado de participantes, os MOOCs possibilitam a difusão de conteúdos científicos e educativos sobre sustentabilidade, conservação da natureza, ecologia e cidadania ambiental a pessoas de diferentes idades, formações e contextos socioculturais. Esta característica reforça o carácter inclusivo da Educação Ambiental e contribui para a construção de uma consciência ecológica global, ao mesmo tempo que valoriza experiências e realidades locais partilhadas entre participantes de diferentes regiões do mundo.

Os MOOCs assumem também um papel relevante na formação contínua de professores, educadores ambientais e técnicos da área do ambiente, permitindo atualização científica permanente e contacto com novas abordagens pedagógicas. Quando bem estruturados, podem integrar metodologias ativas, como estudos de caso, projetos comunitários, desafios práticos e fóruns de debate, favorecendo uma aprendizagem crítica e reflexiva, essencial para a Educação Ambiental transformadora.

Contudo, é importante reconhecer que os MOOCs apresentam limitações, como elevadas taxas de abandono, desigualdades no acesso à internet e a dificuldade em promover experiências diretas com a natureza. Por essa razão, devem ser encarados como ferramentas complementares, e não substitutas, das práticas educativas presenciais e das ações locais de educação ambiental.

Em síntese, os MOOCs constituem um importante instrumento de apoio à Educação Ambiental, ao ampliarem o alcance do conhecimento, fortalecerem redes de aprendizagem e contribuírem para a formação de cidadãos mais conscientes e participativos, desde que articulados com práticas pedagógicas críticas e orientadas para a ação sustentável.

Referências bibliográficas
  1. DOWNES, S. (2008). Places to go: Connectivism & connective knowledge. Innovate: Journal of Online Education, 5(1).
  2. FREIRE, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.
  3. HODGSON, V.; MCDONALD, J. (2019). Postdigital learning and the marginalisation of MOOCs. International Journal of Educational Technology in Higher Education, 16(1), 1–15.
  4. HOLLANDS, F. M.; TIRTHALI, D. (2014). MOOCs: Expectations and reality. New York: Center for Benefit-Cost Studies of Education, Teachers College, Columbia University.
  5. SIEMENS, G. (2005). Connectivism: A learning theory for the digital age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2(1).
  6. SIEMENS, G.; DOWNES, S. (2008). Connectivism and connective knowledge. National Research Council Canada.
  7. UNESCO (2017). Education for Sustainable Development Goals: Learning objectives. Paris: UNESCO.
  8. UNESCO (2020). Education for sustainable development: A roadmap. Paris: UNESCO.
  9. WALS, A. E. J. (2010). Mirroring, gestaltswitching and transformative social learning: Stepping stones for developing sustainability competence. International Journal of Sustainability in Higher Education, 11(4), 380–390.
  10. YUAN, L.; POWELL, S. (2013). MOOCs and open education: Implications for higher education. CETIS White Paper.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Mentor das cidades esponja critica o plano municipal de Lisboa


Kongjian Yu quer transformar as cidades em esponjas contra cheias e secas. Cidades devem absorver e libertar água para enfrentar alterações climáticas, defende arquiteto paisagista. Planos de drenagem como o de Lisboa vão falhar a longo prazo, diz. 

Quando a pergunta é sobre o plano de drenagem de Lisboa, que implica um investimento de 250 milhões de euros e, entre outros pontos, a abertura de dois grandes túneis, o arquiteto paisagista ri-se abertamente. “Esse é o modelo business as usual. Não vai resolver o problema”, diz. Além do gigante esforço financeiro, as grandes infra-estruturas — sejam túneis, diques ou outras soluções — são construídas em betão, material que tem um determinado tempo útil até que o desgaste provoque os seus danos. Depois disso, precisa de manutenção, o que implica novo e generoso investimento. Acresce que os episódios de cheia são cada vez mais extremos e, mesmo que os sistemas estejam dimensionados para volumes que consideramos hoje históricos, é uma questão de tempo até que estes sejam superados.

“Do ponto de vista económico, não é sustentável. É absurdo. A longo prazo, é estúpido pensar que a tecnologia vai resolver o problema”, entende. Reter a água na sua “esponja” significa que se pode fazer uso dela durante o outro extremo, nos períodos de seca, ajudando também a arrefecer a cidade em ondas de calor. “Se tiveres água, tens tudo. Se te livrares da água, terás problemas durante os períodos de seca. É uma oportunidade perdida”, nota. Público 10jun2024

Saber mais:

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Impeça a extrema direita de tomar o poder



Novas pesquisas assustadoras mostram que a extrema direita está a poucos dias de VENCER as eleições da UE em países de todo o bloco!

A vitória lhes dará um poder sem precedentes sobre nossas vidas. Os partidos europeus de extrema direita planeiam:
  1. Abolir as regras da UE sobre a proteção da natureza
  2. Privar as mulheres do direito ao aborto
  3. Fechar as fronteiras e deportar refugiados
  4. Acabar com as leis que protegem os direitos trabalhistas
Mas há um jeito de detê-los. O comparecimento às urnas é fundamental – se todos votarmos no domingo e partilharmos este alerta com pelo menos 3 outras pessoas, vamos conseguir alcançar milhões de eleitores antes das votações.

Clique aqui para assinar o apelo urgente para que as pessoas compareçam às urnas – juntos e juntas podemos salvar a Europa.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Petição: Mudar o nome do novo aeroporto para Salgueiro Maia


Exmos. Senhores e Senhoras Deputados da Assembleia da República,

Com a construção do novo aeroporto em Alcochete, surge uma oportunidade única de prestar uma justa homenagem a um dos principais heróis do 25 de Abril, o capitão Fernando Salgueiro Maia.

Embora Luís de Camões seja uma figura incontornável da nossa História, parece-nos uma escolha demasiado conservadora e sem o impacto desejado nas gerações mais recentes de portugueses.

Camões tem o seu lugar assegurado na nossa História, celebrado nomeadamente a 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A sua contribuição é inegável e amplamente reconhecida.

No entanto, acreditamos que Salgueiro Maia merece uma representação igualmente marcante. Que melhor forma de trazer o nome de Salgueiro Maia para o mundo do que nomear o novo aeroporto em sua honra? Esta seria uma forma significativa de reconhecer o seu papel crucial na conquista da liberdade e da democracia em Portugal.

Solicitamos, assim, a Vossas Excelências que considerem designar o novo aeroporto em Alcochete como Aeroporto Capitão Salgueiro Maia, em tributo a um dos maiores defensores da nossa liberdade.

Com os melhores cumprimentos,

quinta-feira, 25 de abril de 2024

25 de Abril - Uma revolução romântica


As fotos documentam uma revolução como não voltei a ver. Civis, mulheres, crianças, sem o menor receio de levar um tiro, apesar de estarem rodeados de armas por todos os lados. (Foto Alfredo Cunha)

domingo, 21 de abril de 2024

Petição - Lutar contra a corrupção com uma transparência pública mais eficaz

Vamos realmente lutar contra a corrupção e agir, em vez da conversa fiada?
O JN publicou esta semana uma notícia gravíssima: em Portugal, a lei dá aos cidadãos transparência plena no acesso aos documentos administrativos. 
Mas os poderes públicos não cumprem e, quando os cidadãos recorrem ao organismo que trata disso (a CADA - Comissão do Acesso aos Documentos Administrativos, que só pode fazer recomendações) continuam a não cumprir e nada acontece, porque só em tribunal acabam por poder ser penalizados.
Mudanças simples na Lei, que existem noutros países, acabavam com isso e era um grande ganho à transparência e luta contra a má gestão e governação.
A Petição está no site público mais conhecido para isso e estará também no site da Assembleia da República (onde assinar é mais difícil, mas as assinaturas valem logo para a contagem).
Esta ideia vem na sequência duma outra anterior, há uns tempos, que ajudou a vincar que os documentos da ADD dos professores, tinham de ser entregues a todos os candidatos sem limitações quando quisessem reclamar. 
Esse era um caso concreto mas, realmente, precisamos abordar e resolver o caso geral, em que estamos atrasados em relação a outros países, em que esta questão da transparência está muito melhor resolvida e sem as eternas discussões que acontecem em Portugal.

ASSINAR Petição

sábado, 20 de abril de 2024

Pacheco Pereira sobre Liberdade de Expressão

Pacheco Pereira a pôr os pontos nos iis , no Público. Sobre a Liberdade de Expressão. Não à cultura do cancelamento . Não à cultura do silenciamento e da omissão . Não à hipocrisia . Não ao encobrimento.


"A liberdade de expressão é a primeira fronteira da democracia. A única limitação à liberdade de expressão não é à própria liberdade de se dizer ou escrever o que se entende, por muito que me indigne o que lá está, mas sim saber se é crime ou não. Se for crime, de calúnia, difamação, invenção deliberada de mentiras para atacar alguém, ou qualquer outra forma de abuso legalmente tipificado, que os tribunais sejam chamados a punir os criminosos". Pacheco Pereira no Público.

domingo, 7 de abril de 2024

Petição - Contra a Reversão da Nova Identidade Visual do Governo de Portugal


Os autores da petição pública declaram-se “unidos além de fronteiras profissionais ou ideológicas” e criaram-na para “repudiar” a recente decisão do primeiro-ministro Luís Montenegro (uma das primeiras do novo executivo e que já gerou profunda discussão) de reverter aquela que consideravam ser “a inovadora identidade visual do Governo de Portugal”. O governo revelou desta forma, consideram, “uma perspectiva alarmantemente retrógrada”.

“Esta ação não apenas desconsidera a vitalidade e a relevância da comunidade artística, criativa e de design, mas também subestima a capacidade intelectual e crítica de toda a população portuguesa”, justificam os autores desta petição.

Considerado “um trabalho de renome mundial”, a petição considera que a anterior identidade visual do governo, entretanto revogada, foi totalmente “ignorada” e que se “regrediu a práticas obsoletas”. “Tal medida reflete uma desconexão profunda com valores contemporâneos essenciais para a evolução da sociedade portuguesa no palco global”, acusa-se.

Ainda segundo esta petição pública, que soma já algumas milhares de assinaturas, a identidade visual anterior [de 2011], mas que agora é a vigorante novamente, é “tecnicamente inadequada e visualmente obsoleta”, contrariando os “princípios básicos do design eficaz” e colocando Portugal “numa posição de desvantagem no diálogo internacional e na economia criativa mundial”.

Por forma a reverter o que é entendido como um “golpe contra a cultura de inovação”, os autores da petição exigem que esta decisão “seja imediatamente parada”. “Portugal merece uma identidade que espelhe o seu legado histórico e a sua dinâmica contemporânea, uma identidade que nos propulse para o futuro, não que nos arraste para o passado”, concluem.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Hoje é Dia Mundial da Rádio


Hoje é Dia Mundial da Rádio. Uma magia tecnológica, em que teve momentos críticos de audiência com o avanço das das plataformas digitais. Agora atingiu-se em pleno, em que até podemos ver os radialista em estúdio a fazer os seus simpáticos programas e cheios de curiosidades e que animam os ouvintes.

Eu próprio fiz rádio, nos anos 80, quando houve o boom de rádios clandestinas. Chamava-se Rádio Caos e fiz um programa intitulado "Terra-Mãe", de cariz ecologista, divulgando notícias sobre ambiente.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Vingança e veneno: artistas contra IA generativa



Quando o Dall·E foi introduzido, e logo depois, outros algoritmos generativos de processamento de imagens, como Midjourney ou Stable Diffusion, seus problemas rapidamente se tornaram aparentes : as empresas que os criaram acumularam enormes coleções de imagens marcadas com descrições e as usaram. para treiná-los.

Onde eles conseguiram essas enormes coleções de imagens? Fundamentalmente, raspar páginas da web que os continham, especialmente repositórios de imagens. A reclamação do repositório Getty Images contra o Stable Diffusion reflete claramente o problema: a coleta de suas imagens era tão evidente que em muitos casos as imagens geradas continham versões distorcidas de sua marca d'água, porque o algoritmo a interpretava como outra parte da imagem.

O problema jurídico era óbvio: passamos anos dizendo que se algo for público na web pode estar sujeito a raspagem . Existem precedentes legais de todos os tipos que afirmam o direito de alguém acessar um site aberto ao público e utilizar todo o seu conteúdo para os fins que achar conveniente. Pela sua complexidade, o caso em questão pode levar anos e acabar no Supremo Tribunal Federal e, enquanto isso, os artistas cujas imagens foram utilizadas para treinar algoritmos veem como suas criações podem ser facilmente imitadas, ou como alguém pode simular seu estilo para faça novas imagens.

Diante da dificuldade da ação judicial, alguns artistas iniciaram outro tipo de vingança : criar imagens tratadas com software que introduz nelas alterações invisíveis para confundir os algoritmos , da mesma forma que é utilizada, por exemplo, para "anonimizar" fotografias e evitar seu uso por algoritmos de reconhecimento facial

Batizado de Nightshade em homenagem à Atropa belladonna , planta que causa alucinações, o algoritmo permite a publicação de fotografias alteradas que geram no algoritmo descrições diferentes do seu conteúdo real, o que faz com que o algoritmo fique confuso em seus resultados e ofereça imagens que não o fazem. existem. Eles são o que o usuário solicitou.

O resultado equivale a envenenar os repositórios com imagens que continuam a cumprir a sua função – o utilizador normal pode vê-las e escolhê-las para ilustrar o que quiser, respeitando as condições estabelecidas pelos artistas – mas que, se ingeridas por um algoritmo, dão dar origem a "alucinações" que distorcem o seu funcionamento. Quanto mais “envenenadas” as imagens, mais imprevisível se torna o algoritmo, obrigando as empresas a estabelecer mecanismos de monitorização dos conteúdos que utilizam para formação, aumentando consideravelmente os seus custos.

Na prática, um alerta para quem cria este tipo de ferramentas, que está por trás de muitos dos problemas que notamos na sua utilização: se você alimentar o seu algoritmo com lixo, ele vai gerar lixo. Em muitos casos, estamos a falar de uma indústria que está a tentar ir demasiado rápido, que precisa de oferecer resultados muito rapidamente para se justificar perante os seus investidores, e isso significa que estes acabam por utilizar informações inadequadas que nunca deveriam servir de base a qualquer treinamento, o que torna seus algoritmos potencialmente menos confiáveis. Basicamente, “entra lixo, sai lixo ” . Nessas coisas, como no ensino de uma criança, a pressa não é o melhor conselheiro.

Na prática, nada pode impedir um artista de tratar suas criações como bem entender, da mesma forma que até agora se acreditava que nada poderia impedir uma empresa de raspar todo o conteúdo de um repositório e utilizá-lo para treinar um algoritmo. Mas sobre estas questões há poucas verdades absolutas, e quando surge um novo uso, é comum que aqueles conceitos que assim pareciam sejam revistos, como comprovam as intenções de alguns artistas – e sobretudo, daqueles que gerem os seus direitos de autor –. a serem compensados ​​​​quando suas imagens forem usadas para treino de algoritmos.

Veremos como isto termina.