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quarta-feira, 15 de julho de 2026

O 'bicho-de-sete-cabeças' que não é: como uma loja online unificada salvaria os museus públicos

Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.

Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.

O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.

Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.

Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa 
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias) 

Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.

Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.

De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.

Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.

Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.

A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas. 

Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

sábado, 27 de junho de 2026

Atriz Cate Blanchett lança registo de consentimento humano contra uso abusivo de IA

A atriz Cate Blanchett lançou no dia 24 de junho o registo de consentimento humano da RSL Media, um "site" gratuito criado para permitir a qualquer pessoa proteger o seu nome, rosto ou voz contra uso não autorizado por serviços de inteligência artificial.

"Na era da Inteligência Artificial [IA], a sua identidade é a sua propriedade intelectual e todos têm o direito de decidir como a IA pode ou não utilizá-la", disse a atriz, produtora e cofundadora da RSL Media, na sessão de apresentação realizada no Parlamento Europeu, em Bruxelas, acompanhada pela diretora executiva da empresa, Nikki Hexum, e pela eurodeputada Eva Maydell.

O Human Consent Register, na designação original, está acessível em RSL Media.

De acordo com a atriz, "o registo de consentimento humano gratuito da RSL Media dá a todos uma voz e uma forma de agir em relação às permissões de IA, ajudando a preservar e proteger a confiança em todo o panorama de IA em constante evolução".

Este registo permite a qualquer indivíduo registar os elementos que constituem a sua identidade e autorizar ou negar a sua utilização por sistemas de IA, incluindo o seu nome, imagem ou voz.

Numa segunda fase, o "site" permitirá também aos utilizadores proteger as suas criações e marcas registadas.


A diretora executiva e cofundadora da RSL Media, Nikki Hexum, sublinhou na sessão que "o consentimento é um direito humano". "Uma pessoa deve poder dizer: `Este sou eu, isto é o que permito, isto é o que não permito e esta é a forma segura de me contactar, caso precise de me contactar`".

"O registo público é uma ferramenta prática que oferece às pessoas um espaço para tornar as suas escolhas claras", disse Hexum. "Temos orgulho em lançá-lo hoje no Parlamento Europeu, que está a liderar o caminho nos direitos digitais e na utilização responsável da IA".

A eurodeputada Eva Maydell (PPE) considerou o registo "uma ferramenta que torna os direitos transparentes, reforça a confiança e coloca a criatividade humana no centro do progresso tecnológico".

O cofundador da Flawless Scott Mann, e um dos diretores executivos da empresa que desenvolve ferramentas de IA para produção audiovisual, também presente na sessão, lembrou que "as ferramentas de IA devem aumentar a criatividade humana, não substituí-la, mas, para que isso aconteça, o consentimento precisa de ser claro, acessível e acionável", o que reconhece na aplicação da RSL Media.

Esta empresa tem por objetivo estar disponível para particulares, mas também para intermediários, como agentes ou gestores de artistas.

O sistema, que tem apoio da Creative Artists Agency, permite escolher três níveis de consentimento para cada item gravado: verde (permissão irrestrita), amarelo (utilização condicional) e vermelho (proibição).

Perante estas definições, cabe às plataformas de IA verificar se o conteúdo que pretendem utilizar está protegido ou não, o que, em princípio, não constitui uma obrigação legal sistemática na maioria das jurisdições.

O registo público da RSL Media é o primeiro concebido para tornar o consentimento detetável e acionável.

O seu lançamento oficial, em que também esteve o realizador Steven Soderbergh, reuniu líderes empresariais e políticos dos setores da tecnologia, música e entretenimento.


Todo o histórico aqui

domingo, 31 de maio de 2026

A nobreza estratégica do esquecimento na era da inteligência artificial



Lembra-se de tudo o que fez na semana passada? Provavelmente não. E quer saber uma coisa? Isso é ótimo. A verdade é que está a esquecer-se das coisas, e isso pode ser a salvação da sua capacidade de pensar. Durante anos, o mundo da tecnologia vendeu-nos uma promessa tentadora: a memória digital total.

Arquivos infinitos, históricos guardados, conversas gravadas, assistentes de IA que se lembram de cada clique que deu desde os primórdios da sua vida digital. Parecia o paraíso da produtividade, mas a fatura chegou, e os juros são cobrados diretamente na nossa saúde mental.

Recentemente, os investigadores começaram a notar um fenómeno apelidado de "AI brain fry", a fritura cerebral por IA. Os profissionais que usam a inteligência artificial intensamente no trabalho estão a relatar exaustão mental, sobrecarga de decisões e, ironicamente, mais erros.

A tecnologia que nasceu para aliviar o nosso dia a dia acabou por criar uma camada de vigilância sobre a nossa própria cabeça.

Por décadas, a ciência e os entusiastas da tecnologia trataram a memória humana como uma máquina defeituosa. Afinal, nós esquecemo-nos de onde deixámos as chaves, confundimos datas e perdemos detalhes. Mas essa crítica é injusta.

O cérebro esquece por um motivo simples: porque precisa de continuar vivo. Para não enlouquecer, a nossa mente comprime dados, elimina o que é inútil, reorganiza as memórias e guarda apenas o que tem valor real, seja prático ou emocional.

Esquecer não é um defeito; é uma forma de inteligência. Já um arquivo perfeito, onde tudo tem o mesmo peso e nada é eliminado, não serve para julgar ou criar. Serve apenas para auditar e vigiar. O grande risco de usarmos a IA como a nossa "memória externa" o tempo todo é a atrofia dos próprios neurónios.

Quando consulta a máquina antes sequer de tentar elaborar uma ideia, subcontrata o esforço que transforma a informação em conhecimento real. Passa a ser um mero revisor que apaga ou corrige um texto gerado por terceiros.

Existe também um lado mais invisível e perigoso nesta história, que é a assimetria de poder. Pense bem. O utilizador conversa com um sistema de IA que se lembra de absolutamente tudo o que já lhe disse. Sendo humano, guarda apenas fragmentos. Quando a máquina recorda tudo e o utilizador só tem pedaços, a relação perde o equilíbrio.

A memória deixa de ser uma base de dados e passa a ser uma ferramenta de influência sobre si. No mundo corporativo, esta idolatria pelo "registo total" tornou-se uma obsessão. Reuniões gravadas e transcritas, cliques monitorizados, relatórios de acessos...Ufa! Virámo-nos para um grande depósito de contexto. Só que o contexto em excesso paralisa.

Os executivos cercados por painéis em tempo real e assistentes que recuperam anos de histórico podem até sentir-se superinformados, mas isso raramente se traduz em decidir melhor.

Estudos recentes mostram que a IA melhora o desempenho imediato, mas destrói a nossa autonomia a longo prazo. Quando voltamos a trabalhar sozinhos, o tédio aumenta e a motivação desaba. O cérebro aceita a facilidade da IA de braços abertos, mas cobra o preço mais tarde.

Quanto mais confiamos cegamente na máquina, menos usamos o nosso pensamento crítico. A solução para o futuro, portanto, não é acumular mais dados. É exatamente o oposto. Precisamos de desenhar uma inteligência artificial que tenha a capacidade de esquecer.

Os sistemas inteligentes de verdade deveriam saber o que guardar de estratégico, mas também o que apagar de banal, o que proteger de confidencial e o que descartar por ser repetitivo. Guardar tudo não é uma governação eficiente; é preguiça disfarçada de organização. Preservar com critério, sim, é estratégia.

A IA que merecerá a nossa confiança no futuro será aquela que reconhecer que nem todos os dados devem transformar-se em lembranças. O segredo da produtividade não está em assistentes que sabem tudo, mas sim em filtros implacáveis que deitam o irrelevante para o lixo.

Num século em que absolutamente tudo pode ser registado, lembrar-se seletivamente voltou a ser o maior ato de inteligência.

A inteligência artificial só será útil de verdade quando devolver ao ser humano a liberdade de pensar de forma leve, sem carregar o peso de cada resto do caminho. O maior avanço da tecnologia para a mente humana será, definitivamente, abandonar a vaidade do registo perfeito e aprender a nobreza do esquecimento seletivo.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O erro mais caro da próxima década é tratar a IA como uma ferramenta estática


A inteligência artificial não é um software que se compra, instala e resolve. O erro estratégico mais caro dos próximos anos será tratar a IA como um produto acabado, e não como um sistema em constante mutação.

Prever com inteligência artificial já é o básico; a verdadeira vantagem competitiva reside agora em entender como essa capacidade será redesenhada por agentes autónomos e modelos multimodais que se otimizam a si mesmos em tempo real.

O futuro deixou de ser apenas objeto de análise para se tornar parte integrante da ferramenta que analisa.

O deslocamento na adoção corporativa
A adoção corporativa confirma esta mudança. Dados recentes indicam que 88% das organizações já utilizam IA em pelo menos uma função de negócio. Mais relevante do que o volume é a complexidade: 39% das empresas já experimentam agentes autónomos.

Isto sinaliza que a inteligência artificial saiu definitivamente dos laboratórios de inovação para se tornar infraestrutura de decisão. Está no orçamento, na engenharia, na análise de risco e, principalmente, na ordem do dia dos conselhos de administração. A transição é clara: saímos da análise retrospetiva ("o que aconteceu?") para a antecipação preditiva ("o que tende a ocorrer e sob que sinais de alerta?").

Na prática, essa força preditiva altera a gestão de ponta a ponta. No retalho, antecipa a procura com uma granularidade inédita, combatendo a rutura de stock. Na indústria, identifica desvios operacionais antes que se tornem perdas em série. Nas finanças, cruza padrões comportamentais para mitigar fraudes em milissegundos.

O valor aqui não está na sofisticação tecnológica por si só, mas na disciplina de transformar a previsão em ação. As empresas maduras criam rotinas para decidir antes que o atraso se transforme em custo. As imaturas limitam-se a colecionar painéis bonitos enquanto permanecem reféns do improviso.

O risco subtil da precisão
A precisão da máquina traz consigo um risco subtil: a erosão do pensamento crítico. Um estudo da Harvard Business Review com gestores mostrou que o uso de IA generativa para previsões financeiras aumentou o otimismo e a confiança dos utilizadores, mas resultou em previsões piores do que as feitas por equipas que debateram entre pares.

A fluência verbal da inteligência artificial pode anestesiar a dúvida. E, em estratégia, a dúvida é um ativo valioso. Delegar a estratégia inteiramente à máquina é trocar responsabilidade por conveniência. Uma empresa resiliente usa a IA para ampliar a visão, mas jamais para terceirizar a coragem de decidir.

Há também um limite confortável na previsão algorítmica: ela depende de padrões observáveis. Ruturas geopolíticas e crises sanitárias operam fora da média. Além disso, o European Systemic Risk Board alerta para a concentração de modelos. Se todo o mercado utiliza os mesmos fornecedores e lógicas, a diversidade decisória diminui.

A automação pode criar eficiência, mas também pode sincronizar erros em escala. A IA que prevê o futuro está em mutação interna. Estima-se que 40% das aplicações empresariais sejam baseadas em agentes específicos até ao fim de 2026. Para as lideranças C-Level, a janela para definir a estratégia de IA agêntica é de três a seis meses. No calendário corporativo, isso é um trimestre; na evolução da tecnologia, é uma era inteira.

A reconfiguração dos processos e do balanço
Os agentes mudam o desenho dos processos. O valor migra do uso individual para a arquitetura organizacional. A liderança deve agora responder a que processos aceitam autonomia parcial, questionar quais exigem validação humana obrigatória e definir que decisões devem permanecer sob responsabilidade direta dos líderes.

A disputa já chegou à última linha do balanço. Os setores expostos à IA viram o crescimento da receita por colaborador dar um salto para os 27%, contra 9% nos menos expostos. Os profissionais com competências em IA já exigem prémios salariais de até 56%. Para os executivos, o recado é direto: ela já está a impactar a remuneração de talentos e a capacidade de escalar receitas com a mesma base humana.

Talvez o ponto mais crítico seja o que o Google DeepMind chama de agentes evolutivos (como o AlphaEvolve). A IA começou a participar no aperfeiçoamento da sua própria infraestrutura, gerando ganhos de eficiência computacional que escalam globalmente.

Daí surge o paradoxo central: a empresa usa a IA para ver o futuro, mas precisa de vislumbrar o seu próprio futuro para sobreviver. Os comités que tratam a tecnologia como uma mera compra de licenças são anacronismos. A liderança moderna deve monitorizar modelos, governação e custos computacionais com a mesma seriedade que dedica aos juros e à regulação.

Conclusão: um sistema vivo
A conclusão é clara. Prever é poder, transformar-se é sobrevivência.

Para quem consome tecnologia, a omnipresença da IA em dispositivos e serviços financeiros trará conveniência, mas exigirá transparência. Inovação sem explicabilidade é apenas assimetria de poder.

A próxima vantagem competitiva não virá de quem "comprou" a melhor IA, mas de quem a trata como um sistema vivo. As organizações que procuram um produto acabado serão surpreendidas pela própria tecnologia que acreditavam dominar.

As vencedoras usarão a inteligência artificial para antecipar o mundo e, simultaneamente, vigiar a transformação da lente com que observam esse mundo. O futuro já fala através de máquinas. A liderança que apenas escuta, obedece. A que compreende, decide.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Da censura editorial à algorítmica: o legado de "A Manipulação do Público"


A obra "A Manipulação do Público" estabeleceu que a comunicação de massa não serve apenas para informar, mas para moldar o pensamento de acordo com os interesses das elites. Na era das redes sociais, os cinco filtros de Chomsky e Herman não desapareceram; tornaram-se mais rápidos, granulares e, acima de tudo, personalizados.

1. O Algoritmo como gestor de atenção
No modelo original de "A Manipulação do Público", a curadoria do que era "noticiável" residia nas mãos de editores humanos, cujas decisões eram balizadas por linhas editoriais e interesses corporativos claros. Hoje, esse papel de porteiro da realidade foi delegado ao código. O filtro algorítmico não opera com base em critérios de verdade ou interesse público, mas sim na metrificação da atenção.

Como o modelo de negócio das grandes plataformas depende do tempo de permanência do utilizador, o algoritmo privilegia conteúdos que geram conflito e indignação. Estas emoções, por serem neuroquimicamente mais viciantes, garantem que o utilizador se mantenha ligado à plataforma por mais tempo. O efeito secundário desta lógica é a criação de "bolhas" informativas: o sistema entrega a cada indivíduo uma versão da realidade que confirma os seus preconceitos, eliminando o contraditório e tornando o diálogo impossível.

O resultado é uma fragmentação social sem precedentes. A visão sistémica do poder -  necessária para compreender como as instituições funcionam e como podem ser questionadas - é substituída por narrativas polarizadas e personalizadas. Ao vivermos em realidades paralelas, perdemos a capacidade de alcançar um consenso social alargado sobre factos básicos, o que imobiliza qualquer tentativa de resistência coletiva. A "manipulação" moderna não consiste em dizer ao público o que pensar, mas em garantir que os diferentes segmentos do público nunca consigam pensar juntos.

2. A Publicidade de Precisão (Microtargeting): a engenharia das vulnerabilidades
A dependência da publicidade, que Chomsky e Herman identificaram como um filtro vital para a sobrevivência dos meios de comunicação tradicionais, atingiu um novo e inquietante patamar com o advento do Big Data. No modelo do século XX, a publicidade era uma "bomba de fragmentação": uma mensagem única lançada para uma massa uniforme, na esperança de capturar a atenção de uma percentagem do público. Hoje, a manipulação é cirúrgica e individualizada.

Através da recolha massiva de dados — que inclui desde o histórico de compras até padrões de sono e localização — o sistema já não comunica com um "público", mas com perfis psicológicos granulares. O consentimento é agora fabricado através de campanhas invisíveis de microtargeting. Isto significa que duas pessoas sentadas no mesmo sofá podem receber narrativas políticas ou corporativas opostas sobre o mesmo tema, cada uma desenhada para explorar as suas vulnerabilidades, medos ou desejos específicos.

Esta evolução altera a natureza da propaganda. Se antes a manipulação era visível e passível de ser debatida no espaço público, agora ela ocorre na esfera privada do ecrã individual. O perigo reside no facto de estas perceções serem moldadas de forma subliminar; o alvo raramente percebe que a informação que está a consumir foi otimizada para contornar as suas defesas racionais. Ao transformar o cidadão num conjunto de pontos de dados, o filtro da publicidade moderna consegue fabricar um consentimento que não nasce da argumentação, mas da estimulação psicológica pré-consciente, tornando a resistência intelectual muito mais difícil de exercer.

3. O Novo "Flak": o disciplinamento digital e o silenciamento invisível
No modelo original de "A Manipulação do Público", o Flak manifestava-se como uma resposta barulhenta e institucional: processos judiciais, cartas de protesto ou editoriais de ataque agressivo. Na era digital, este filtro tornou-se descentralizado e muito mais sofisticado. Hoje, o Flak opera em duas frentes complementares: o ataque público coordenado e o silenciamento algorítmico invisível.

A primeira frente é a da retaliação instantânea. O filtro da pressão deixou de ser exclusivo das elites para se tornar uma ferramenta de massa através do "cancelamento", de campanhas de difamação e do uso de exércitos de bots. Jornalistas ou figuras públicas que ousem desafiar as narrativas hegemónicas enfrentam uma avalanche de ataques que funciona como uma ferramenta de disciplina social, gerando um clima de autocensura digital permanente.

Contudo, é no mundo dos algoritmos que o Flak assume a sua forma mais insidiosa através do Shadowbanning. Esta ferramenta permite que o sistema discipline vozes dissidentes sem necessidade de as banir formalmente. O utilizador continua a publicar, mas o seu alcance é artificialmente reduzido ou limitado apenas aos seus seguidores mais próximos. É a forma definitiva de censura na era da abundância: não se apaga a mensagem, mas garante-se que ela se perde na imensidão do ruído.

A grande eficácia desta mutação reside na sua invisibilidade. Enquanto o banimento direto gera revolta e cria "mártires" da liberdade de expressão, o shadowbanning neutraliza a influência do indivíduo de forma silenciosa. Ao não receber o retorno habitual, o produtor de conteúdos é levado a acreditar que o seu discurso perdeu interesse ou relevância, minando a sua vontade de persistir. Assim, o sistema não só pune a dissidência, como a torna irrelevante sem nunca ter de assumir o papel de censor.

4. A barreira do custo e as fontes
A observação de que a média depende de fontes oficiais por serem "baratas" ganhou um contorno irónico na Internet. Atualmente, a informação de qualidade está frequentemente protegida por paywalls (muros de pagamento), enquanto a desinformação e a propaganda estatal ou corporativa são gratuitas e de fácil acesso. Isto cria uma desigualdade informacional profunda: quem não pode pagar pelo jornalismo independente acaba por ser o alvo mais fácil para a manipulação através de conteúdos gratuitos de baixa qualidade.

Filtro de "A Manipulação do Público"Adaptação para a Era Digital
PropriedadeConcentração de poder nas Big Techs (Google, Meta, etc.).
PublicidadeEconomia da atenção e exploração de dados individuais.
FontesInfluenciadores, grupos de fachada e Astroturfing.
FlakLinchamento virtual, censura algorítmica e ataques de bots.
IdeologiaPolarização extrema e o "Nós contra Eles" das guerras culturais.
A grande ironia contemporânea reside no facto de termos a ilusão de uma escolha infinita quando, na verdade, os filtros digitais tornaram o comportamento humano mais previsível e manejável do que nunca. O "consentimento" de hoje não é imposto; é extraído através do nosso próprio envolvimento digital.

Esta evolução do modelo de "A Manipulação do Público" revela que a arquitetura do controlo social sofreu uma mutação: passámos de um sistema de exclusão para um de saturação. No paradigma de 1988, o poder exercia-se pela escassez; como o espaço nas colunas dos jornais e o tempo de antena televisivo eram recursos finitos, os filtros operavam decidindo o que era silenciado. No entanto, na era digital, o controlo é exercido pela abundância. O algoritmo raramente se dá ao trabalho de esconder a informação dissidente; em vez disso, soterra-a sob uma avalanche de entretenimento efémero, notícias irrelevantes e ruído constante. O consentimento já não nasce do silêncio imposto, mas de uma distração perpétua que impede a reflexão profunda.

Paralelamente, a dependência de fontes oficiais, que Chomsky identificou como um filtro vital, deu lugar ao fenómeno do Astroturfing. Esta é a versão digital da manipulação de base: criam-se movimentos que aparentam ser espontâneos e populares (grassroots), mas que são, na realidade, orquestrados e financiados por grandes corporações ou interesses políticos. Através de exércitos de perfis falsos e influenciadores contratados, gera-se a ilusão de um consenso esmagador. O efeito psicológico no indivíduo é devastador: ao sentir-se isolado na sua opinião, o cidadão tende a ceder à pressão da "maioria" artificial, um fenómeno conhecido como a espiral do silêncio, agora potenciado por algoritmos.

A mudança mais radical, contudo, reside na transição de um sistema reativo para um sistema preditivo baseado na psicometria. Se a propaganda tradicional tentava convencer o público após o facto, o modelo atual antecipa-se. Através da análise minuciosa de cada like, do tempo de visualização e até da velocidade com que percorremos o ecrã (scroll), as plataformas constroem perfis psicológicos que nos conhecem melhor do que nós próprios. Este filtro invisível consegue prever quais as narrativas que nos farão mudar de opinião ou que gatilhos emocionais despertarão a nossa indignação. Assim, o consentimento é "fabricado" de forma preventiva, moldando a nossa perceção antes mesmo de termos consciência de que estamos a formar uma ideia sobre o assunto. No fim, a liberdade de escolha torna-se uma miragem dentro de um sistema que já calculou todas as nossas reações possíveis.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Ensaio - O mundo com IA e As Mãos


"Ouvi umas quantas conferências do Y. Harari e, pese embora o brilho, comecei a vê-lo como um comerciante de ideias, como alguns dos seus antepassados terão sido de peles, de dinheiro ou de prata. A obsessão com a Inteligência Artificial parecia-me mais uma oportunidade de negócio no grande mercado da fitness do intelecto do que uma preocupação genuína de um académico.
Mudei de opinião.
A penetração da IA é cada vez mais profunda e omnipresente; vejo-a por todo o lado. Não me sinto competente para analisar e antecipar, ao detalhe, o impacto deste tandem “IA + dependência de dopamina via redes sociais” no funcionamento das sociedades atuais. Porém, uma conversa noturna, ontem, deixou-me a pensar. Dizia-me a minha interlocutora que, na empresa X, os informáticos já não escrevem código; esse trabalho ficou para o Claude.
Posso estar errado, mas suspeito que estes senhores que agora observo pela janela da pastelaria, de aparafusadora em punho, têm mais futuro nas sociedades pós-IA do que os jovens que penam nos gabinetes de contabilidade, no largo mais adiante.
Identifico uma gigantesca dissonância entre aquilo que o sistema de ensino ensina e aquilo de que esta sociedade estruturalmente complexa e em radical mudança necessita: manutenção permanente (porque a 2.ª lei não perdoa). As famílias, com o beneplácito dos governos e da classe dos professores, apostam em formações liberais e de colarinho branco, no papel e no lápis, hoje evoluídos para Word, Excel e Photoshop, áreas que serão em breve devastadas pela IA.
Assim como um pianista com futuro tem de exercitar, desde tenra idade, a conexão mão-cérebro — esse poderoso instrumento de ação sobre a matéria herdado dos ancestrais caçadores-recolectores —, o mesmo exigem os trabalhos com futuro. As sociedades vão remanualizar-se e ninguém, nem pessoas nem instituições, está preparado para isso.
Em resumo: prometeram-nos que as máquinas fariam o trabalho sujo para para nos dedicarmos ao lazer. Ironicamente, o Claude e o ChatGPT escrevem música, poesia e o código informático, desenham a publicidade e as artes gráficas, e, no final, fazem a contabilidade e responsabilizam-se pelas interações com a máquina do estado —, mas continuamos a precisar desesperadamente de quem nos desentupa os canos, conserte a máquina de lavar e cuide dos mais velhos.
Talvez as escolas do futuro devessem trocar metade das aulas de literacia digital e mais teorias por oficinas de carpintaria, mecânica, eletricidade e agricultura. Ensinar as nossas crianças a reaprender o peso e a textura da matéria, o desconforto e a cor do sangue, antes que se tornem obsoletas num mundo de ecrãs e memórias virtuais.
P.S. Fosse eu novo e com jeito para o negócio e investiria numa empresa de tempos livres que se poderia chamar, sei lá, “Academia do Eletricista e do Canalizador”, ou algo do género. Mais proveitoso do que o futebol, a natação, o ballet, o teatro …, parece-me." - Carlos Aguiar

Nota Pessoal
Paul Krugman no início dos anos 90 escreveu por diversão uma especulação sobre o que seria a economia daí a 100 anos. A IA ainda não era a palavra de ordem, mas a automação em geral já constava das suas projeções. Ele afirmava que tal como a era industrial tinha tornado menos valiosos os produtos da indústria, a era da informação que se desenhava iria tornar menos valioso tudo o que tivesse que ver com informação, desde jornalismo a ciência, ou a informática. Assim, no futuro deste modo projetado as fontes de riqueza seriam a posse de recursos naturais, para as nações, e a capacidade de trabalhar com as mãos, para as pessoas.
Embora não seja líquido que tudo isto esteja a salvo da IA, coisas como cuidar de idosos, fabricar móveis em madeira, ou instalar/reparar canalizações seriam o tipo de atividades ainda valorizadas depois de automatizarmos tudo o que pode ser automatizado.
O problema é que hoje em dia há pessoas em posição de ditar o que deve ser automatizado, mesmo que com prejuízo para a humanidade em geral. A IA está a transformar-se rapidamente num sistema endogâmico, em que se alimenta de si mesma, já que uma cada vez maior proporção da informação disponível é gerada por IA.

Por outro lado nunca antes o biorregionalismo está ser posto em causa como agora, bem como aceleramos cegamente no Business to Business em que há muitas reticências, como bem referes Back to Basics. O impacto ambiental da IA é, atualmente, muito superior e mais preocupante do que o das práticas artesanais e biológicas. O Back to Basics não é apenas uma escolha estética; é, talvez, a única estratégia de sobrevivência ecológica a longo prazo.

A questão agora é: a sociedade estará disposta a "pagar o preço" (em tempo e esforço) para manter essas práticas manuais vivas, ou a conveniência da IA acabará por atropelar até mesmo esses redutos artesanais?

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Laibach - Musick (feat. Wiyaala)


Musick
(feat. Wiyaala)

(Intro: Wiyaala)
Aha, yeah!
We’re gonna play some musick!

(Verso 1: Wiyaala)
You wake up and it’s there
In the water, in the air
Streaming through your very veins
Dulling all your daily pains
It’s a virus, it’s a cure
It’s the only thing that’s pure
From the cradle to the grave
Everyone is just a slave

(Refrão: Wiyaala & Milan Fras)
Musick!
It’s the rhythm of the heart
Musick!
Tearing everything apart
Musick!
The obsession, the disease
Musick!
Get down on your knees!

(Verso 2: Milan Fras)
Logic is a failing sound
Silence nowhere to be found
Synthesized and digitized
The human soul is advertised
Feed the rhythm, feed the greed
Everything is what you need
The algorithm knows your name
In the hall of sonic shame

(Ponte: Wiyaala)
(Canto em Sissala/Waala)
We dance to the beat of the machine
The loudest sound you’ve ever seen
Can you feel it?
Can you hear it?
It’s taking over your spirit!

(Outro)
Musick...
Musick...
The beat goes on and on and on...
Aha!

A canção "Musick", uma colaboração entre o coletivo esloveno Laibach e a artista ganesa Wiyaala, apresenta-se como uma fusão audaciosa de Eurodance, Industrial e Afropop. Lançada num contexto de exploração da cultura pop globalizada, a faixa marca uma viragem sonora para o grupo, que adota uma estética eletrónica mais vibrante e rítmica, embora mantenha a sua assinatura ideológica sombria e provocadora. Musicalmente, o tema assenta em batidas mecânicas e sintetizadores acelerados, típicos das pistas de dança europeias, que contrastam de forma fascinante com a energia orgânica, os ritmos tribais e o alcance vocal potente de Wiyaala.

No que toca ao significado, a obra funciona como uma crítica mordaz à omnipresença da música na era digital e ao domínio dos algoritmos. O Laibach utiliza a letra para descrever a música não como uma forma de arte sublime, mas como uma patologia, um vício ou um vírus que infeta a sociedade contemporânea. Não temos mais silêncio; a música nos persegue no supermercado, nos fones de ouvido e nas redes sociais. Através do contraste entre a voz profunda e autoritária de Milan Fras e o entusiasmo visceral de Wiyaala, a canção sugere que o ser humano se tornou um "escravo do ritmo", onde a música é utilizada pela indústria para preencher o silêncio e comercializar a alma humana. Em suma, acanção aponta que a música se tornou um produto de consumo rápido ("The human soul is advertised"), perdendo seu caráter sagrado para se tornar uma "doença" da qual não queremos ser curados.