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quinta-feira, 12 de março de 2026

Viktor Orri Árnason - Hino da Terra


Snæfellsnes é uma península no oeste da Islândia, conhecida pelas suas paisagens dramáticas e pelo glaciar Snæfellsjökull.
No âmbito do projeto “Our Common Nature” de Yo-Yo Ma, Viktor Orri Árnason compôs “Earth Hymn”. Filmado ao vivo à sombra do glaciar Snæfellsnes, com Yo-Yo Ma e um pequeno coro a cantar palavras retiradas da antiga poesia islandesa - este é um apelo ao mundo desde a orla de um planeta em mudança.
Esta é uma peça profundamente evocativa, inspirada na mitologia nórdica e na urgência climática atual. O texto original em nórdico antigo provém do Völuspá (A Profecia da Vidente), um dos poemas mais importantes da Edda em Verso.

I. O Renascimento
Sér hún upp koma
öðru sinni
jörð úr ægi
iðjagræna.
Falla fossar,
flýgur örn yfir,
sá er á fjalli
fiska veiðir.

Vê ela erguer-se, uma segunda vez,
a terra do oceano, de um verde exuberante;
caem as cascatas; sobrevoa a águia,
aquela que, no monte, captura o peixe.

II. A Morada de Ouro
Sal sér hún standa
sólu fegra,
gulli þaktan
á Gimlé.
Þar skulu dyggvar
dróttir byggja
og um aldurdaga
yndis njóta.

Vê ela um salão erguido,
mais brilhante que o sol,
coberto de ouro, em Gimlé:
ali habitarão as gentes honradas,
e para todo o sempre desfrutarão da alegria.

Notas Curiosas para Contexto
  1. Gimlé: na mitologia nórdica, é o lugar mais alto e belo, destinado a sobreviver ao Ragnarök (o fim do mundo). É o refúgio da luz.
  2. "Gentes honradas" (Dyggvar dróttir): a tradução de righteous people em Portugal ganha um peso ético e comunitário, remetendo para aqueles que vivem com integridade.
  3. O simbolismo: a imagem da águia a pescar no monte simboliza uma natureza que recuperou o seu vigor e abundância originais.
Créditos:
Viktor Orri Árnason, maestro e compositor
Yo-Yo Ma, violoncelo
Maria Konráðsdóttir - soprano, Hildigunnur Einarsdóttir - mezzo-soprano, Eyjólfur Eyjólfsson - tenor, Fjölnir Ólafsson - barítono, Philip Barkhudarov - baixo

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O ano em revista: as espécies que deram sinais de esperança em 2025


Fique a conhecer os animais e plantas eleitos neste ano que está a terminar, por investigadores e conservacionistas que trabalham com a biodiversidade em Portugal.

1. Abutre-preto (Aegypius monachus)


Com uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros, este que é o maior abutre da Europa deu este ano sinais de expansão e de consolidação das colónias existentes em Portugal, refere Samuel Infante, membro da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional. De facto, nas contas do projeto LIFE Aegypius Return, que trabalha para a conservação desta espécie, em 2025 contaram-se 119 a 126 casais em território português, um forte contraste com os 40 pares contabilizados em 2022.

Hoje conhecem-se cinco núcleos reprodutores: no Tejo Internacional, “que continua a ser a área de maior concentração da população da espécie”, no Baixo Alentejo (Herdade da Contenda), na Reserva Natural da Malcata, no Douro Internacional e ainda na Vidigueira/Portel (Alentejo). A descoberta desta última colónia, em julho de 2024, “veio dar esperança de que a espécie possa recuperar em pleno”, acrescenta Samuel Infante. Ainda assim, o futuro é ainda frágil: apenas metade dos casais com ovos no ninho conseguiram assegurar descendência, este ano, afetados entre outras ameaças pelos fogos do último verão.

2. Cagarra (Calonectris borealis)

Apesar das pressões que se fazem sentir sobre estas e outras aves marinhas, como é o caso das capturas acidentais em artes de pesca, a maior colónia mundial de cagarras, na Selvagem Grande, arquipélago da Madeira, continua a crescer, nota Joana Andrade. A coordenadora de conservação marinha da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves chama a atenção para um estudo científico publicado em janeiro passado, que analisou os resultados de contagens feitas entre 2009 e 2023 naquela ilha, e concluiu que ali nidificam atualmente cerca de 38.830 casais – um número que surpreendeu a equipa de investigadores.

Para o crescimento desta colónia contribuem várias medidas, como a aplicação de um regime de proteção estrita na Reserva Natural das Ilhas Selvagens (que inclui ainda a Selvagem Pequena, o Ilhéu de Fora e outros ilhéus adjacentes) e a erradicação total de coelhos e murganhos na Selvagem Grande.

3. Gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii)


A gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii) é outra das espécies que transmitiu um sinal de esperança ao longo de 2025, notam Joana Andrade, da SPEA, e Gonçalo Elias, ornitólogo e coordenador do portal Aves de Portugal. Esta ave marinha começou a nidificar em território nacional apenas no início do século XXI mas teve um crescimento surpreendente, empurrada por alterações que afetaram estas gaivotas junto ao Mediterrâneo.

Hoje, conta com uma população reprodutora de cerca de 7000 casais no Algarve, incluindo a maior colónia mundial da espécie, na ilha da Barreta, e uma colónia mais recente na ilha da Culatra, ambas na Ria Formosa. Gonçalo Elias considera que o projecto LIFE Ilhas Barreira (2019-2024) deu “um importante contributo para melhorar as condições de reprodução da gaivota-de-audouin no nosso país”. “Embora esteja classificada como Vulnerável a nível mundial, o recente aumento populacional permite ter esperança de que possa deixar de ser considerada ameaçada num futuro próximo”, conclui.

4. Insectos polinizadores


“O ano de 2025 foi um ano muito especial para o futuro da conservação dos insetos polinizadores em Portugal e deu-me um grande entusiasmo pelo que virá nos próximos anos”, afirma Hugo Gaspar, que se dedica à investigação nesta área. Em causa está um grupo grande com mais de 1000 espécies em Portugal, a maioria das quais abelhas selvagens, moscas-das-flores e borboletas diurnas, descreve. O investigador no FLOWer lab, grupo de investigação ligado à Universidade de Coimbra, lembra que se deram “passos importantes” neste último ano “para que possamos ter mais certezas e resultados” no que respeita à conservação destes insetos.

Em primeiro lugar, a publicação do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, com um conjunto de medidas para melhorar o estado de conservação deste grupo em Portugal. Em segundo, foi também em 2025 que a União Europeia formalizou o compromisso de implementação do esquema de monitorização dos polinizadores, em linha com o Plano de Ação. Por fim, concluiu-se o projeto ARCADE, que melhorou o conhecimento e o estado das coleções de referência para o estudo dos polinizadores em Portugal. “Em conjunto, estas e outras ações trouxeram este ano muita esperança para este grupo de organismos, e os próximos anos assim o vão confirmar”, acredita Hugo Gaspar.

5. Lince-ibérico (Lynx pardinus)

O lince-ibérico, que nos últimos anos tem sido alvo de vários projetos de conservação que juntam Portugal e Espanha, é outra espécie que deu provas de esperança no ano que termina agora, apontam Samuel Infante, da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional, e Francisco Álvares, cientista do CIBIO (Universidade do Porto), especializado em mamíferos.

O esforço de conservação desta espécie outrora à beira da extinção conseguiu o número de linces na Península Ibérica aumentasse para 2401 animais, foi anunciado em maio. Em novembro, foi anunciado um recorde de nascimentos nos centros de reprodução de Portugal e Espanha.

“É uma espécie icónica que foi considerada extinta em Portugal há pouco mais de duas décadas e actualmente apresenta uma população de mais de 300 indivíduos”, nota Francisco Álvares, lembrando que todavia este felino enfrenta ainda várias “ameaças sérias”. Desde logo, exemplifica, uma reduzida diversidade genética (com consequências na resistência a patologias), limitada disponibilidade de alimento (face à raridade do coelho-bravo) e mortalidade por causas humanas (por exemplo, atropelamentos e perseguição directa).

O investigador do CIBIO refere ainda outras espécies que também recuperaram em Portugal, “de forma extraordinária”, as suas populações nestes últimos anos. Exemplos? O corço, a cabra-montês, a águia-imperial e o abutre-preto. “Mas também estas espécies, enfrentam várias ameaças, muitas delas semelhantes às do lince-ibérico, por isso estes ‘sinais de esperança’ poderão ser atenuados se não houver esforços para a sua conservação efectiva”, alerta.

6. Saramugo (Anaecypris hispanica)


Este pequeno peixe de rios portugueses, em risco de extinção, surpreendeu recentemente os investigadores, lembra Filipe Ribeiro, cientista do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 2025, um novo estudo conseguiu obter um conhecimento mais exato sobre a distribuição do saramugo. “Durante quase duas décadas, pensou-se que em cinco das 10 populações existentes em Portugal a espécie estaria localmente extinta, uma vez que ao longo deste tempo nunca foram capturados exemplares de saramugo”, explica Filipe Ribeiro. “Porém, através de um estudo baseado em DNA ambiental, realizado em 2023 e publicado em 2025, conseguimos detectar este peixe em todas as 10 populações portuguesas.”

Ainda assim, esses resultados não querem dizer que a situação do saramugo esteja melhor, ressalva o investigador, mas sim que “poderemos alocar esforços de monitorização, que entretanto tinha sido abandonada, e medidas de conservação, às populações que anteriormente tinham sido consideradas como perdidas”.

Para já, explica, são necessárias novas medidas para garantir um futuro ao saramugo, a longo prazo. “Deu-nos algum alento saber que a espécie ainda está nestes locais, porém é necessária uma monitorização dedicada e mais intensiva nestas populações, bem como medidas de melhoria de habitat e remoção de invasoras para a preservação desta espécie endémica da Península Ibérica.”

7. Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)


“O aumento registado este ano no sucesso reprodutor do tartaranhão-caçador é bastante positivo, tendo em conta que, segundo os dados do primeiro censo da espécie realizado em Portugal em 2022-2023, esta ave se encontrava no limiar da extinção e, em Espanha, a situação também é bastante crítica”, refere Joaquim Teodósio, da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus. Este ano, dos 251 ninhos desta espécie migradora que foram alvo de medidas de proteção, na Península Ibérica, 77% conseguiram assegurar pelo menos um juvenil voador. Ao mesmo tempo, atingiram-se 1,98 juvenis por casal nidificante, acima do limiar de viabilidade desta espécie.

8. Planta carnívora Utricularia subulata


A redescoberta da Utricularia subulata, uma planta carnívora que não era observada em Portugal desde 1967, é uma notícia esperançosa deste ano que passou, sublinha Sergio Chozas, ligado à Sociedade Portuguesa de Botânica. “De facto esta notícia dá nos esperanças de que algumas das espécies que foram dadas como extintas podem, de facto, andar ainda por aí, e também nos fazem lembrar da importância de continuarmos a fazer estudos e levantamentos da nossa flora”, sublinha este botânico, que é também investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Adeus às embalagens de plástico? Jovens portugueses criam cápsula de algas com gel de banho que se dissolve na água



Todos os anos, 120 mil milhões de embalagens de plástico são descartadas. Os produtos de higiene, por exemplo, são usados durante semanas, mas as embalagens têm vida longa e acabam muitas vezes nos oceanos ou em aterros.

Para reduzir a quantidade de plástico que é desperdiçada, quatro jovens da Maia criaram uma alternativa biodegradável que cabe na palma da mão: a Clea é uma cápsula com gel que se desfaz durante o banho.

Este novo tipo de embalagem para produtos de higiene, tem gel de banho no interior, mas poderá ter também champô ou amaciador. A cápsula é compatível com a pele e sustentável já que é feita a partir de uma substância extraída das algas.

Foi no ano passado, na Escola Secundária da Maia, que tudo começou. Numa disciplina de opção do 12º ano, os alunos foram desafiados a desenvolver um projeto inovador sobre sustentabilidade. Para isso, a secundária da Maia tem protocolos com vários parceiros científicos, como a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde os alunos têm oportunidade de desenvolver produtos, testar soluções e criar protótipos.[vídeo]

O produto já foi até distinguido com vários prémios, incluindo uma bolsa da National Geographic Society. Mais difícil tem sido convencer as marcas a apostarem nesta inovação.

Isabel Oliveira, Nuno Aroso, Maria Toga e Vasco Cardoso sonharam, a escola secundária deu-lhes asas e a ideia ganhou forma nos laboratórios da FEUP. Agora, só o mercado pode fazer a diferença.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Why Not Scotland?


Junte-se a Flo, uma jovem escocesa de Glasgow, numa viagem intensamente pessoal, enquanto procura exemplos de recuperação da natureza pela Europa.
Tal como muitos da sua geração, Flo está preocupada com o estado da natureza e tem medo de um futuro incerto. Mas durante as suas viagens, ela descobre lugares onde a natureza está a regressar de forma espetacular, dando novamente vida à paisagem e revitalizando as comunidades humanas. Encorajada por estas histórias de esperança e renovação, é levada a perguntar-se: Porque não a Escócia?
Em Portugal temos o projecto Rewilding Portugal ; Associação Bioliving e Cavalum

quinta-feira, 4 de julho de 2024

ICNF identifica nova colónia de abutre-preto nidificante no Alentejo


Uma nova colónia de abutres-pretos (Aegypius monachus), constituída por dez indivíduos adultos, foi identificada na Herdade do Monte da Ribeira, no concelho da Vidigueira (no Alentejo), no âmbito das ações de monitorização realizadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), revelou este instituto em comunicado.

A mesma fonte estima que esta colónia seja constituída por quatro ou cinco casais reprodutores, embora só tenham sido observados quatro ninhos. A colónia foi identificada em plena época de reprodução, período especialmente sensível para esta espécie, existindo reprodução comprovada em, pelo menos, um dos ninhos, no qual foi possível observar um indivíduo juvenil já emplumado.

A Direção Regional de Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo encetou os procedimentos necessários para monitorizar e salvaguardar esta colónia, em colaboração com os proprietários da Herdade do Monte da Ribeira.

O abutre-preto é uma ave necrófaga com o estatuto “Criticamente em Perigo” em Portugal, sendo, igualmente, considerada de interesse comunitário e prioritária no contexto da Diretiva Aves. É a maior ave de rapina da Europa, podendo atingir os três metros de envergadura de asa.

A época de reprodução ocorre entre fevereiro e agosto e cada casal produz um ovo por ano.

Após mais de meio século de declínio demográfico e ausência como nidificante no país, o abutre-preto restabeleceu a condição de nidificante em Portugal em 2010 com várias pequenas colónias, a maioria em áreas protegidas, como o Parque Natural do Tejo Internacional, a Serra da Malcata e o Parque Natural do Douro Internacional. Mais recentemente, em 2019, surgiu uma nova colónia na Herdade da Contenda, em Moura, que conta, atualmente, com 11 casais.

Com esta descoberta passa para cinco o número de colónias conhecidas de abutre-preto no país.

O ICNF tem vindo a apoiar a conservação da população nacional de abutre-preto em Portugal. De 2022 a 2027, o projeto “Aegypius return – Consolidação e expansão da população de abutre-negro em Portugal e no oeste de Espanha”, que tem a colaboração do ICNF, conta com o cofinanciamento do instrumento financeiro europeu LIFE, com vista a melhorar e acelerar a recolonização natural em curso da espécie.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Nova árvore da vida das Aves


Um novo estudo genético dá agora uma ideia mais clara sobre a árvore genealógica das aves. Todas têm um ancestral comum, que viveu há cerca de 90 milhões de anos, que se dividiu em 3 grupos: o das aves que nas voam, como a ema, o kiwi e a avestruz, o dos patos, galinhas de água e afins, e o das Neoaves, que inclui mais de 95% das aves actuais. Mas só há cerca de 61 milhões de anos, após a extinção dos dinossaurios seus parentes 5 milhões de anos antes, é que as aves se diversificaram. O mesmo aconteceu com os mamíferos, cujas linhagens ancestrais remontam ao Jurássico, mas que que se mantiveram na sombra até à extinção dos dinossaurios.

Uma ave, o hoatzin da América do Sul, não se parece com nada e é a única representante da sua linhagem, mantendo-se a sua origem um mistério. Curiosa é a associação dos falcões com os papagaios. Já os passeriformes, que representam mais de 50% de todas as aves, terão surgido na Austrália e daí se expandido para todo o mundo. São o grupo mais recente e diverso do planeta.

O estudo do genoma é o produto de quase uma década de pesquisa, conduzida como parte do Projeto Bird 10.000 Genomes. O objetivo final deste projeto é sequenciar os genomas de todas as 10.000 espécies de aves vivas.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

LIFE Lupi Lynx vai trabalhar para o regresso de lobos e linces à Beira Interior


Projecto luso-espanhol quer criar condições que contribuam para a recuperação das duas espécies nos distritos da Guarda e de Castelo Branco, do lado português, e na província de Cáceres, do lado espanhol.

O lançamento do LIFE Lupi Lynx, agora em Janeiro, foi anunciado esta quinta-feira pela equipa do novo projecto. O objectivo é criar condições para o regresso do lobo-ibérico e do lince-ibérico ao sul do rio Douro, em “áreas onde as duas espécies começam a surgir ou têm ainda uma presença irregular”.

“Pretende-se com este projeto promover uma melhor coexistência entre os referidos predadores e o homem, garantindo as condições de habitat e de convivência com as actividades humanas”, indicam em comunicado as nove entidades envolvidas no LIFE Lupi Lynx, que uma duração prevista de cinco anos e um orçamento de 3,5 milhões de euros.

Coordenado pela Rewilding Portugal, conta ainda com seis entidades portuguesas: a BIOPOLIS/CIBIO, o Grupo Lobo, a Plataforma de Ciência Aberta do Município de Figueira de Castelo Rodrigo e a Universidade de Aveiro. Do lado espanhol estão envolvidas ainda duas entidades, a AMUS – Asociación de Accion por el Mundo Salvaje e a Junta de Extremadura.

Em Portugal, tanto o lobo-ibérico como o lince estão hoje classificados como Em Perigo de extinção e habitam apenas nalgumas partes do território, indica o Livro Vermelho dos Mamíferos, publicado em 2023.

O lobo-ibérico está presente principalmente a norte do Douro, com a existência de algumas alcateias também a sul desse rio, no distrito da Guarda e também nos distritos de Viseu e Aveiro (Serras da Freita e da Arada). Nestes últimos anos, deram-se também vários avistamentos na região de Castelo Branco.

Da mesma forma, o lince-ibérico tem sido observado na região de Castelo Branco, embora a área de distribuição hoje confirmada para este mamífero esteja mais a sul – em especial no Vale do Guadiana, onde teve início a reintrodução da espécie, e mais recentemente no Interior algarvio, na região de Tavira. Depois de um censo realizado em 2002 e 2003 ter confirmado a extinção da espécie em terras portuguesas, este felino de barbas regressou ao território nacional apenas em Dezembro de 2014, com as primeiras reintroduções realizadas na zona de Mértola. Graças a vários medidas destinadas à recuperação e conservação da espécie, que continuam, em 2015 o lince-ibérico deixou de estar classificado como Criticamente em Perigo, a nível global.

Melhorar as condições ecológicas e sociais
Tanto nos distritos da Guarda e de Castelo Branco como na província espanhola de Cáceres (Extremadura), o novo projecto vai procurar melhorar as condições ecológicas e sociais para estas duas espécies-chave, indica a equipa em comunicado. Em causa está um território com um total de 17.000 hectares, onde “o trabalho à escala transfronteiriça permitirá conseguir melhores resultados, mais abrangentes e com maior impacto no futuro do lobo e do lince ibéricos.”

Entre as condições ecológicas nas quais se vão centrar os trabalhos estão “o aumento da abundância de presas silvestres e o restauro do habitat“, enquanto que a nível social, o objectivo é “promover uma coexistência pacífica com as comunidades humanas locais, aumentando as ferramentas de prevenção dos ataques ao gado para evitar potenciais conflitos”.

Apostar em “actividades económicas sustentadas na natureza” e que “promovam o respeito pela paisagem e pela biodiversidade”, contribuindo dessa forma para o desenvolvimento socio-económico dessas regiões, é outro dos objectivos do projecto, tal como “aumentar a troca de conhecimentos e a capacidade dos actores locais na prevenção de danos ao gado e na detecção de crimes ambientais“.

Entre os resultados que se pretendem alcançar, apontados pela equipa, estão “a melhoria do quadro legal relativo à utilização de cães de proteção de gado; a melhoria do habitat e o aumento da disponibilidade de presas quer para o lobo, quer para o lince; a utilização de boas práticas em mais de uma dezena de propriedades privadas e o aumento da utilização de medidas de prevenção de danos no gado, nomeadamente de cães de proteção de gado e de vedações”.

Os resultados pretendidos para os próximos cinco anos incluem ainda “o trabalho em conjunto com as autoridades de ambos os países para identificar e prevenir crimes ambientais; o estabelecimento de parcerias com centros de recuperação de fauna silvestre e laboratórios de análises toxicológicas; o apoio e promoção do turismo de natureza sustentável em terras de lobo e de lince; a realização de sessões participativas com actores-chave do território para encontrar soluções positivas que compatibilizem as atividades humanas com a presença destes predadores e a realização de programas de educação ambiental destinados a crianças e jovens”.

O novo projecto vai dar ainda continuidade e expandir o trabalho desenvolvido no âmbito do LIFE WolFlux, também coordenado pela Rewilding Portugal, que será concluído em 2024.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico


O conhecimento agroecológico existe e está presente em todo o mundo – desde os agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção, até aos consumidores que optam por uma alimentação baseada em produtos provenientes dos agricultores que aplicam princípios ecológicos na sua produção. É muito importante fazer a recolha destas práticas, desde a produção ao consumo, antes que desapareçam. É igualmente importante publicá-las através de meios acessíveis, de modo a transferir estes conhecimentos para as gerações futuras e a popularizá-los. Cientes desta necessidade, a equipa da MedCaravan criou o Guia de Boas Práticas para a Recolha de Conhecimento Agroecológico, que visa ajudar a uma recolha e registo de conhecimentos em agroecologia de uma forma adequada. Com este Guia a equipa do Medcaravan tem a esperança de que as práticas agroecológicas, que fornecem soluções em muitas áreas – da agricultura à arte, dos sistemas de abastecimento à solidariedade nas comunidades – sejam difundidas como uma ferramenta útil para a regeneração dos agroecossistemas.
Contamos convosco para ajudar na disseminação e utilização deste Guia.
Façam o download do documento, utilizem-no e partilhem-no.


Site a consultar:
Urgenci

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Música do BioTerra: Europe- The Final Countdown tocado por 200 músicos


Quando os humanos usam voz, guitarras, baterias, baixos, saxs ao invés de metralhadoras, tanques, rifles, bombas a vida tem mais sentido. Isso traz alegria e felicidade ao nosso planeta.

We're leaving together
But still it's farewell
And maybe we'll come back
To earth, who can tell?
I guess there is no one to blame
We're leaving ground (leaving ground)
Will things ever be the same again?

It's the final countdown

The final countdown
Oh-oh
We're heading for Venus and still we stand tall
'Cause maybe they've seen us and welcome us all, yeah
With so many light years to go and things to be found (to be found)
I'm sure that we'll all miss her so

It's the final countdown

The final countdown

The final countdown (the final countdown)
(Oh) oh-oh-oh

The final countdown, oh-oh
It's the final countdown

The final countdown

The final countdown (the final countdown)

Oh
It's the final countdown!
We're leaving together
The final countdown
We'll all miss her so
It's the final countdown (the final countdown)
(Oh) it's the final countdown

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

O Manicómio é insanidade e liberdade


Somos um espaço de criação artística e de inovação no Beato, em Lisboa. Com múltiplos projetos que cruzam a arte, a criatividade, a transformação social e a saúde mental, no centro do projeto estão artistas contemporâneos e criativos com doença mental que são excluídos devido ao estigma da nossa sociedade em relação à loucura.
Nascemos da experiência de mais de vinte anos em hospitais psiquiátricos e no mundo da arte e da cultura, onde fomos encontrando artistas e obras maravilhosas, mas que no entanto eram excluídos dos circuitos comerciais de arte em Portugal simplesmente pelo estigma da sua doença mental. Isto levou-nos a organizar as primeiras exposições artísticas no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos – agora conhecido como Hospital Psiquiátrico de Lisboa-, onde criámos e inaugurámos o ciclo de arte contemporânea deste hospital lisboeta, cruzando e misturando artistas contemporâneos portugueses e estrangeiros já conceituados com artistas do hospital, mantendo o anonimato da obra e derrubando a barreira do estigma que atua não pelo valor da arte, mas sim pela doença.
Em 2018 lançámos o Manicómio, localizado num espaço de cowork com outros profissionais, criativos e empresas, porque sabemos que o futuro passa pela mistura, valorização, normalização e aceitação da loucura.
O Manicómio tornou-se num centro artístico e criativo com:
• O primeiro estúdio e galeria de arte bruta e contemporânea em Portugal, com 14 artistas residentes, onde oferecemos liberdade e representação e agenciamento artístico em vendas, exposições e colaborações;
• A primeira agência criativa de design e comunicação no mundo com criativos com doença mental;
• Atividades de consultoria e advocacia em arte, saúde mental, direitos humanos e trabalho;
Com uma abordagem focada na disrupção, equidade e direitos humanos, o Manicómio atua junto da comunidade artística, sociedade civil, empresas e instituições para transformar o status quo e gerar novos paradigmas de valor.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Universidade de Coimbra coordena projeto que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas

Fonte: Arc 2020

A Universidade de Coimbra (UC) está a coordenar um projeto internacional que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas, e que foi contemplado com um financiamento de cinco milhões de euros para os próximos quatro anos.

O projeto internacional GOOD – coordenado pela professora catedrática do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) Helena Freitas – envolve mais de uma dezena de países europeus, tendo como principal ambição promover a transição agroecológica para a gestão de infestantes e pragas em toda a Europa.

“Ao implementar uma abordagem multidisciplinar, o ‘Agroecology for Weeds – GOOD’ pretende criar, implementar e avaliar práticas, sistemas e protocolos de Gestão Agroecológica de infestantes e demonstrar, em condições reais, como a adoção desta gestão pode reduzir fortemente o uso de herbicidas sintéticos, aumentar a sustentabilidade, produtividade e resiliência dos sistemas agrícolas, explicou a coordenadora do projeto.

Em comunicado, a UC vincou que os sistemas agrícolas da União Europeia (UE) enfrentam desafios crescentes de sustentabilidade e produtividade, devido ao impacto das alterações climáticas em toda a cadeia de valor agroalimentar, agravado pelos efeitos negativos da pandemia causada pela covid-19 e, mais recentemente, pelas instabilidades geopolíticas.

“Estes são dois fatores que ameaçam a estabilidade do setor agrícola e enfatizam a necessidade de mudança na perspetiva/agenda agrícola europeia”, apontou Helena Freitas.

Segundo a UC, as infestantes são um dos fatores mais importantes para determinar a produtividade, rendimento e sustentabilidade da produção agrícolas, o que faz com que “os agricultores dependam fortemente de herbicidas devido à sua alta eficácia contra estas ervas nocivas, e constituem a segunda categoria de pesticidas mais vendida na UE-27, representando, de acordo com o EUROSTAT, 35% de todas as vendas de pesticidas em 2020”.

Perante esta realidade e reconhecendo a necessidade de acelerar a transição para sistemas alimentares sustentáveis, seguros e saudáveis, bem como para enfrentar a ameaça da crise da biodiversidade, várias iniciativas políticas da UE, incluindo o EU Green Deal e sua Farm to Fork (F2F) e Estratégias de Biodiversidade, definiram como meta reduzir em 50% o uso de pesticidas sintéticos até 2030.

Estas iniciativas serão transpostas para os Planos Estratégicos dos Estados-Membros da Política Agrícola Comum (PAC) através dos eco-esquemas.

De acordo com a coordenadora do projeto, a nova proposta sobre o uso sustentável de pesticidas pretende que o foco seja direcionado “para a promoção de adoção de métodos alternativos de controle de infestantes”.

“Ao fazê-lo, está a estabelecer-se, pela primeira vez, uma forte iniciativa para atingir os ambiciosos objetivos da Comissão Europeia com metas juridicamente vinculativas para a redução de pesticidas na EU”, acrescentou.

Helena Freitas defendeu ainda que os aspetos socioeconómicos que envolvem a gestão de ervas daninhas – simultaneamente com o papel dos agricultores na tomada de decisão, a preocupação pública com o uso e a resistência a pesticidas, a segurança alimentar, as questões gerais de saúde humana e as regulamentações governamentais resultantes – “exigem a redução da dependência excessiva de herbicidas”.

Para tal, é necessário o desenvolvimento de “abordagens de sistemas alternativos usando estratégias preventivas, mecânicas, culturais e biológicas, combinadas com ferramentas de agricultura de precisão num contexto de gestão agroecológica de infestantes”.

O projeto internacional GOOD vai desenvolver uma Rede Agroecológica, que engloba um ecossistema de 16 Living Labs (LLs), com a intenção de melhorar a cocriação de conhecimento, a decisão dos agricultores – criação e aceitação do utilizador final de abordagens.

“Esta rede de gestão será tanto uma rede física de LLs, permitindo aos utilizadores e parceiros a partilha de conhecimentos e experiências, como uma rede digital de todos os atores relevantes em toda a cadeia de valor agroalimentar, criando ligações com outros projetos e redes que operam no campo da agroecologia e gestão de pragas”, informou.

Para a concretização deste objetivo final, o projeto propõe diversas soluções focadas no “uso de plantas de cobertura em todos os laboratórios e o aumento de sua capacidade competitiva contra infestantes por meio de inoculação com microrganismos benéficos, a combinação de plantas de cobertura com outros métodos de Gestão agroecológica e soluções digitais num esquema integrado para a redução da pressão de pragas e uso de herbicidas nos 16 LLs”.

Coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional da FCTUC, o GOOD é um projeto Horizonte Europa e envolve, além de Portugal, países como França, Espanha, Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, Letónia, Países Baixos, Sérvia e Chipre.

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sábado, 10 de dezembro de 2022

Para a transição ecológica todas as vozes contam!


No momento presente, estejamos no Norte ou no Sul, no Este ou no Oeste, não podemos mais continuar a ignorar a necessidade de mudança transformadora das nossas formas de organização social face à crise global que vivemos, onde as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, as guerras e as migrações em massa são cada vez mais banais e tendem a ser invisibilizadas ao ponto de só quem as vive parecer ser afetado por estes fenómenos. A todos os outros apresenta-se como algo distante que parece não os afetar.

Reconhecendo essa situação e sendo pressionada a fazer algo, a União Europeia lança um novo pacto para facilitar e promover as mudanças necessárias. O Pacto Ecológico Europeu, conhecido por Green Deal, apresenta-se como uma estratégia que procura implementar a transição ecológica para uma Europa mais sustentável, mais verde e que proporcione e assegure futuros às gerações vindouras. Ou seja, pressupõe a transformação dos modos de vida que nos conduziram a esta insustentabilidade da vida humana na terra. Mas ao mesmo tempo e aparentemente em contradição, centra-se na missão de salvar as instituições que nos guiaram até aqui, salvar o capitalismo de uma morte anunciada, ao mesmo tempo que procura combater as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, as extinções em massa. Será possível articular movimentos em direções opostas? Como compatibilizar diferentes posições, diferentes interesses, diferentes atores?

Um dos grandes desafios é, simultaneamente, encontrar respostas e soluções para os problemas e as crises contemporâneas que, mais do que meramente ecológicas, são sociais no sentido amplo e até civilizacionais. Respostas essas que permitam articular o que está desarticulado e nos permitam desenvolver estratégias de reconciliação das sociedades com a natureza ou as naturezas expressas nos diversos territórios e geografias, com as suas diversidades biofísicas e culturais, as suas desigualdades, que nos exigem repensar os modelos sociais em que vivemos, numa forma interligada, interdependente e articulada. Não deixar ninguém para trás é o desafio.

Assumir esta responsabilidade maior de dar voz aos diversos atores onde se incluem os elementos da natureza. Fazê-los ouvir ou fazê-los presentes, colocá-los ao mesmo nível ou até acima dos humanos, lança-nos perante o desafio maior de todos: refundar as relações sociedades/naturezas e ressignificar os seus laços. Esta poderá ser a esperança que precisamos para nos lançar na utopia de sistemas de organização socio-ecológica verdadeiramente sustentáveis.

Estes e outros desafios socio-ecológicos contemporâneos só podem ser enfrentados por meio de novas formas de organização e participação social, o que alguns projetos já estão a desenvolver. Um desses projetos é o Phoenix que procura promover a análise aprofundada de diferentes tipologias de inovação democrática em 11 pilotos distribuídos por 7 países (Portugal, Espanha, França, Islândia, Itália, Hungria, Estónia).

Com o PHOENIX, a maior expectativa reside na possibilidade de mudar os moldes tradicionais de participação cidadã rumo à transição ecológica, implementando uma política transformadora baseada no conhecimento aprofundado das características biofísicas e sócio-economico-culturais dos territórios que articule/integre a pluralidade de saberes, poderes e posições locais. Só através desta combinação, com a participação plena e efetiva das populações e das suas diversidades, é que é possível assegurar uma transição justa e equitativa tendo em vista um planeta sustentável para todos os elementos que habitam a “casa comum”.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Prado de Sequeiro, em Lisboa


Uma cidade verdejante, repleta de relvados, bem regados e com o corte em dia – a imagem que aprendemos a associar à qualidade da estrutura verde da cidade pode estar errada. Prezam-se os relvados, mas, para existirem, paga-se um preço alto. A sua manutenção faz-se através do uso intensivo da água, recurso escasso e cuja boa gestão é particularmente importante em meses secos.

Em Lisboa, a noção da cidade verde está a ser desafiada, assim como a própria perceção da cor. Relvados são substituídos por prados. Será o verde, na cidade, mesmo verde? Talvez seja preciso voltar a treinar o olho. Reformular: talvez o verde não seja o expoente maior da sustentabilidade.

Na ação climática urbana, a cor que dá pelo mesmo nome nem sempre é a resposta. A obsessão pelo relvado, perfeitamente aparado, pode não ser uma expectativa saudável para uma cidade que se quer sustentável no presente e preparada para um futuro marcado pelas alterações climáticas.
No Parque da Bela Vista, onde antes havia relva, existem agora prados. 

No Parque da Bela Vista, os relvados estão a ceder. É verão, os termómetros marcam mais de 30 graus e, onde antes havia relva, estão hoje dois talhões de prado de sequeiro biodiverso. O calor e a secura levam o amarelo a dominar.

No outono e inverno é o verde e, na primavera, todas as cores. A explicação é dada por um sinal vertical, não vá o mais incauto dos transeuntes pensar que o que ali se vê é a incúria na gestão do espaço. Não é. É um prado de sequeiro biodiverso – um espaço renaturalizado, marcado pela presença de “espécies autóctones, da nossa flora, adaptadas ao nosso clima e que têm um período de vida natural”, diz Rui Simão, chefe de divisão de Manutenção e Requalificação da Estrutura Verde da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Não precisam de rega, contribuem para a retenção de água no solo e atraem insetos que promovem o controlo de pragas. Nasceram em 2020, ano em que Lisboa hasteava a bandeira de Capital Verde Europeia, mas as primeiras experiências com estas estruturas naturais aconteceram em 2012, no Corredor Verde de Monsanto, nas traseiras do Palácio da Justiça.

Uma estratégia de todas as cores

“A estratégia não é só verde. É castanha, também”, diz Rui Simão. O ciclo biológico dos prados de sequeiro segue o calendário das estações. “Têm a produção, de sementes durante o verão, a semente cai para o solo, começa a aumentar o seu tamanho e germina, depois, na primavera”. As novas plantas, verdes, “fazem a floração e voltam a produzir a semente”. Assim se fecha o ciclo, explica o responsável.

Só aqui foram substituídos 20 mil metros quadrados – ou dois hectares – de espaço de rega por prados de sequeiro biodiverso. A eliminação da rega traduz-se numa poupança anual de 6 mil metros cúbicos de água – o mesmo que dizer seis milhões de litros, ou, de acordo com a Federação Internacional de Natação (FINA), o suficiente para encher duas piscinas olímpicas e ainda sobrar um milhão de litros.

A iniciativa faz parte do Life Lungs, um projeto de adaptação às alterações climáticas com financiamento europeu e liderado por Lisboa, em parceria com a cidade espanhola de Málaga.

“Temos de nos mentalizar que, com toda a conversa à volta das alterações climáticas, estamos a viver isso na pele e temos de tomar medidas para mudar a forma como interpretamos os nossos espaços verdes, especialmente na zona mediterrânica. Estamos numa área que tem vindo a evoluir para um clima semi desértico, infelizmente. E temos de nos adaptar”.

De acordo com o Plano de Ação Climática, Lisboa traçou, para 2030, uma meta que implica a redução em 70% das emissões de gases com efeito de estufa, relativamente a valores de 2002. Até 2018, a redução terá sido já de 40%, mas até 2040 a cidade pretende alcançar a neutralidade carbónica, dez anos antes da meta traçada pelo continente europeu.

Na estrutura verde urbana, são várias as mudanças que podem ajudar a colocar a cidade no caminho certo. Os prados são apenas uma face de um plano de adaptação e mitigação das alterações climáticas, que compreende ações como o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, com um orçamento de 180 milhões de euros e o objetivo de ajudar a cidade a enfrentar inundações, ou a implementação de uma Zona de Emissões Reduzidas (ZER) no centro histórico da cidade, que prevê uma redução da circulação automóvel estimada em 40 mil veículos por dia.

A medida, que prevê restrições à circulação automóvel e uma redução nas emissões de 60 mil toneladas de gases com efeito de estufa por ano, chegou a estar prevista para o verão de 2020, encontrando-se a sua implementação, no entanto, suspensa.

domingo, 13 de março de 2022

Projeto do CEF vai pela primeira vez quantificar impacto das barragens europeias na conectividade fluvial


O projeto Dammed Fish (Impacto da perda de conectividade estrutural e funcional de redes hidrográficas na biodiversidade piscícola – otimizando soluções de gestão) vai, pela primeira vez, quantificar o impacto de todas as barragens da Europa na conectividade fluvial Europeia.

Liderado pelo Centro de Estudos Florestais (CEF) do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em conjunto com parceiros internacionais, o projeto vai produzir “ferramentas gratuitas” para que os gestores possam identificar qual o “melhor cenário de restauro, em cada bacia hidrográfica, de modo a maximizar a conectividade para as várias espécies de peixes”, reduzindo os “custos de intervenção” e a “perda de serviços de ecossistema resultante das barreiras”, explica o Centro, num comunicado.

O Dammed Fish é um projeto que se alinha com várias estratégias e diretivas Europeias, pelo que a equipa espera poder contribuir decisivamente para uma “melhor gestão das bacias hidrográficas e influenciar as futuras políticas da Europa sobre conectividade fluvial e conservação da biodiversidade piscícola”, lê-se no mesmo comunicado.

De acordo com o CEF, os rios ocupam menos de 1% da superfície terrestre e contêm apenas 0,01% de todo o volume de água presente no planeta. No entanto suportam cerca de 9,5% de todas as espécies animais conhecidas e quase 50% de todos os peixes, tendo, por isso, uma importância desproporcional para a manutenção da biodiversidade global.

O desenvolvimento das sociedades humanas teve sempre uma ligação estreita aos sistemas de habitas com água doce, que foram ficando cada vez mais impactados por pressões de origem antropogénica.

De todas estas pressões, a “construção de barragens e açudes”, que fragmentam os rios, é considerada a pressão que “afeta mais espécies de peixes a nível europeu”, influenciando “75% de todas as espécies de peixes ameaçadas” na Europa, refere o centro, acrescentando que, estas barreiras, além de muitos outros efeitos, “não permitem que os peixes se desloquem ao longo do rio, impedido a reprodução com sucesso de muitas espécies”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Universidade de Coimbra desafia estudantes a darem resposta aos desafios da sustentabilidade


A Universidade de Coimbra (UC) está a desafiar os seus estudantes e os do ensino secundário de Portugal e do Brasil, a desenvolver projetos concretos e viáveis que respondam aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Através da UC Challenges for Global Sustainability serão escolhidos projetos com potencial de transformação e replicação, e com capacidade de contribuírem para um mundo melhor seguindo estes temas prioritários da Agenda 2030. A ideia é que estes sejam desenvolvidos posteriormente com o apoio da Universidade.

No caso dos alunos do secundário, é pedido que apresentem um projeto para responder aos desafios globais relacionados com pelo menos um dos ODS. No que diz respeito aos estudantes universitários, devem apresentar um projeto que responda a um de cinco desafios relacionados com “Alimentação e Desperdício”, “Alterações Climáticas e Água Acessível”, “Desigualdades Sociais e Económicas”, “Saúde e Qualidade” ou “Smart Cities Sustentáveis”. Após submeterem as propostas, os participantes terão a oportunidade de frequentar a UC Global Sustainability Academy, que dá acesso a formações online com intervenções inspiradoras de especialistas na área da sustentabilidade e onde poderão aprofundar os conhecimentos e desenvolver o projeto. Os candidatos selecionados para a segunda fase serão apoiados no desenvolvimento do projeto por mentores e participarão num bootcamp na Universidade de Coimbra, que inclui formação, conversas inspiradoras e motivacionais e reuniões com especialistas. A realização, acompanhamento e mentoria dos projetos são apoiados pela Portugal Inovação Social, através de Fundos da União Europeia. No final, serão premiadas três equipas no escalão do ensino secundário e uma equipa no escalão dos estudantes universitários. As equipas vencedoras poderão implementar os seus projetos com o apoio da Universidade de Coimbra e ganham um certificado de formação e prémios.

A iniciativa está alinhada com o compromisso da UC, que tem a ambição de ser a primeira a nível nacional a atingir a neutralidade carbónica até 2030, com o desenvolvimento de uma política de sustentabilidade ambiental e da consciencialização da comunidade. De recordar que esta ficou classificada, em 2021, no top-25 mundial (e 1.ª a nível nacional) no Times Higher Education Impact Ranking, o barómetro global que avalia o desempenho das instituições de ensino superior no cumprimento dos ODS da ONU.

“A Universidade de Coimbra tem vindo a desenvolver um trabalho de grande importância na sensibilização dos seus alunos, colaboradores e comunidade em geral para os desafios da sustentabilidade nas suas várias dimensões”, afirma a Vice-Reitora Cristina Albuquerque. “A iniciativa UC Challenges for Global Sustainability enquadra-se nessa visão e visa educar e sensibilizar os estudantes para a importância dos ODS, criando também uma oportunidade de aprendizagem prática e promovendo a compreensão do papel que podem desempenhar na construção de um futuro mais sustentável”.

As inscrições estão abertas até 25 de fevereiro, no site.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

A última fronteira privada da Europa está a sufocar uma região da Extremadura


A última fronteira privada da Europa lembra visualmente uma cena da Guerra Fria. No fundo de uma cordilheira de colinas verdes, onde se cruzam os rios Tejo e Sever, rebenta-se uma massa de betão que funciona como amortecedor entre Espanha e Portugal. É o reservatório de Cedillo, propriedade do Estado espanhol e administrado pela Iberdrola. A empresa se recusa a permitir que alguém de fora da instalação percorra os 300 metros de trilho que atravessa a hidrelétrica e liga os dois lados da fronteira.

É assim desde 1995. No momento em que entrou em vigor o Acordo de Schengen, que permite a livre circulação de pessoas e bens na União Europeia, a Iberdrola decidiu que ninguém iria utilizar a barragem para se deslocar entre Portugal e Espanha. , nem mesmo caminhando, o que permitia até hoje. Duas regiões irmãs, com enormes laços familiares, comerciais e culturais, foram assim isoladas por decisão do comitê de direção de uma multinacional. Passados ​​23 anos, a região está morrendo devido ao despovoamento e à falta de oportunidades. Em cada lado da fronteira, todos apontam para a presa. Seu fechamento é culpado, garantem, de tê-los transformado num beco geográfico e económico.

A albufeira localiza-se no ponto mais ocidental da Estremadura, no cume do triângulo formado pelos rios Tejo e Sever, fronteira natural entre Portugal e Espanha. Um território de extensas pastagens e nove habitantes por km². De um lado desse pico fica a cidade de Cedillo (Cáceres). Para o outro, Montalvão. Oito quilômetros em linha reta separam as duas cidades. Seus laços são muito próximos. Uma multidão de famílias hispano-portuguesas foram formadas ao longo dos séculos nestas colinas. Jesús Martínez ainda se lembra das duas horas de caminhada que fez em sua juventude de Cedillo a Montalvão para visitar sua esposa hoje. Nunca houve uma ponte, mas então, antes da barragem, pelo menos o rio Sever era viável. Bastava arregaçar as calças para chegar a Portugal e vice-versa.

“Se alguém de Cedillo ou das cidades vizinhas quer ir a Montalvão para ver um amigo, ou comer, ou simplesmente viajar para Portugal por qualquer motivo, tem que fazer um desvio de 100 quilómetros, cerca de duas horas de carro através do fronteira por Valência de Alcántara, quando poderia simplesmente atravessar a barragem e chegar a Portugal em cinco minutos. É ridículo ”, bufa Martínez, um dos residentes que pressiona os políticos locais e regionais para resolver de uma vez por todas esta anomalia. A Iberdrola mantém a mesma posição de há 44 anos: “É uma estrada privada que faz parte da hidroelétrica e, portanto, não foi projetada como uma via pública. A Iberdrola não pode permitir o livre trânsito de veículos ou pessoas por causa das medidas de segurança ", confirma a este jornal. E lembre-se: 

Com efeito, aos sábados e domingos, das 10h00 às 22h00, um segurança contratado pela Câmara Municipal de Cedillo abre as portas e permite a passagem de veículos. Ele caminha de um lado a outro controlando as instalações, cumprimentando os passageiros em seus carros, entre 50 e 60 veículos em média por dia. A abertura é um alívio para os vizinhos, sem dúvida, mas não resolve a raiz do problema: é impossível promover o desenvolvimento dos transportes e de setores como o turismo se os portões ficarem fechados de segunda a sexta-feira.

Um limbo na Europa
“Deste lado estás na Europa, no reservatório de repente deixas a Europa e do outro já voltaste a entrar na Europa”, resume Marco António, um activista português da ligação permanente entre Cedillo e o distrito de Portalegre, mais economicamente deprimido e demograficamente de Portugal. “Há um Acordo de Schengen e este é o único local onde ele não se aplica. Uma empresa privada que administra uma infraestrutura pública comanda mais que o Estado. É uma piada ”, diz indignado.“ Todos nós ganharíamos com a ligação entre estas regiões deprimidas de Espanha e Portugal. Seria uma grande entrada de Espanha para conhecer o interior de Portugal e vice-versa. Não tenho dúvidas de que o turismo dispararia. Eles abririam hotéis, casas rurais, restaurantes. Aqui a gastronomia é fabulosa. O que mais, É uma rota direta entre Madrid e Lisboa para o transporte de mercadorias. Tudo isso daria emprego e fixaria a população. Existem muitos fundos europeus para o desenvolvimento rural e a integração entre países. É tão complicado? "

Na verdade, houve um tempo em que o problema parecia resolvido. Era 2008. A Diputación de Cáceres (PSOE) tinha solicitado fundos europeus através do programa de cooperação Interreg Espanha-Portugal no período 2008-2014 e estes foram concedidos. No total, quatro milhões para construir uma ponte orçados entre seis e oito milhões, dependendo de sua localização exata. A Câmara Municipal de Nisa, concelho a que pertence Montalvão, prometeu 1,5 milhões para a ponte. O conselho também se inclinou para completar aqueles 25% não financiados pela Europa. Tudo se encaixou, até o Governo de Portugal havia construído uma estrada para a mesma represa com outro partido de fundos europeus. Mas em 2011, o Partido Popular tomou as rédeas da deputação e considerou que esta ponte não era uma prioridade. Ele devolveu os quatro milhões para a Europa e o castelo das ilusões ruiu. Ainda dá para ver a estrada para lado nenhum na costa portuguesa.

“Nos grupos da deputação do PP diziam: 'essa é a ponte de Morales e não vamos fazer isso', lembra Antonio González, prefeito de Cedillo pelo PSOE desde 1987. Esse Morales é Miguel Ángel Morales, vice-presidente de Deputado de Cáceres entre 2003 e 2011 e natural de Cedillo. Ele próprio recorda a história: “Refugiaram-se no facto de o montante subsidiado não ser suficiente, mas sabiam bem que o Governo português e mesmo as empresas se dispunham a cobrir todo o orçamento. Alguns engenheiros tentaram convencer o PP de que a ponte era viável, mas não havia como. " A notícia nocauteou Cedillo, Herrera de Alcántara, Carbajo e todo o triângulo da Sierra de San Pedro de Cáceres por vários anos. "Infelizmente, não somos a Catalunha, nem Madrid, nem o País Basco,

Foi também um duro golpe para Montalvão e para o norte de Portalegre, uma região se possível mais deprimida do que a sua irmã de Cáceres. Ainda hoje muitos não se recuperaram. Em 2015, o PSOE voltou ao conselho e voltou a solicitar o mesmo subsídio para o período 2014-2020. “Na Europa disseram que desta vez não, que se tivéssemos ficado estúpidos pedindo o dinheiro que eles já haviam nos dado e tivéssemos devolvido dois anos antes. A rota europeia está paralisada por enquanto”, diz o prefeito.

Enquanto isso, o relógio continua a filtrar areia e sobra muito pouca. Na escola de Cedillo, há 22 alunos com idades entre três e 11 anos, e eles ainda têm sorte, pois é a cidade com mais crianças em todo o triângulo fronteiriço. Graças em parte ao reservatório da discórdia, cuja hidrelétrica emprega uma dezena de pessoas que se instalaram em Cedillo e obriga a Iberdrola a pagar um grande cânone à prefeitura, dinheiro que lhe permite contratar mão de obra e manter todos os equipamentos em perfeito estado . Mas, além de três bares e uma padaria, há pouco tecido econômico neste canto esquecido da Espanha vazia. Não há nem agricultura, já que a região é baseada em uma terra de latifúndios grandes e improdutivos. O sobreiro e o porco ibérico são as únicas fontes de riqueza deste lado da fronteira.

Roberto Ramallete é transportador e decidiu ficar em Cedillo apesar das dificuldades. Se existisse uma ligação a Portugal, poderia multiplicar o seu volume de negócios. “Podia transportar azinheiras ou eucaliptos para os caixotes de lixo em Vila Velha de Ródão. Ou transladar porcos e presuntos para esta zona de Portugal. Agora sou forçado a fazer um grande desvio para chegar ao outro lado”, diz enquanto descarregar um trailer de madeira. Ramallete é um dos que pensam que a Iberdrola deveria ser obrigada a abrir as comportas do reservatório ou cancelar a concessão. E é uma voz autoritária. Além de transportador, é capitão do navio Balcón del Tajo, que oferece aos turistas cruzeiros pelo Parque Natural Internacional do Tejo, reserva da biosfera da Unesco desde maio de 2016. São 25. 088 hectares albergam espécies ameaçadas de extinção, como a cegonha-preta, a águia imperial ibérica e o lagostim autóctone. “O autocarro deixa os turistas no cais e faz um desvio de 100 quilómetros para viajar para o outro lado do Tejo”, diz Ramallete com certa ironia. "Também não é incomum encontrar viajantes que chegam de carro até o portão e precisam dar meia-volta porque não conseguem passar."

Apenas 120 quilómetros separam este canto da Extremadura do Oceano Atlântico. “Vens de Madrid, faz uma paragem em Cedillo, visita o parque natural e segue em direcção a Lisboa, que daria apenas duas horas”, sonha o autarca, que confessa: “Tenho um empresário que me fala há 10 anos que assim que dão um passo Portugal abre um posto de gasolina na cidade. “Hoje, para reabastecer tens de viajar 50 quilómetros até Valência de Alcántara. Os vizinhos concordam: gostariam de uma passagem permanente para Portugal, mas muitos já se conformaram em viver na 'bunda'.

“Há 10 anos um empresário me diz que assim que abrirem passagem para Portugal vai abrir um posto de gasolina na cidade”, afirma o autarca de Cedillo

Ainda assim, algumas boas notícias estão surgindo. Como a resposta do ombudsman Francisco Fernández Marugán a uma carta de Armando Nevado na qual implorava ajuda devido ao "inaceitável estrangulamento sentimental e trabalhista", uma "situação injusta, deplorável e inadmissível" Fernández Marugán admitiu a denúncia a. ser processado e indicado que por ser o reservatório de Cedillo propriedade pública, o argumento apresentado pelo Ministério de Obras Públicas com o qual lava as mãos, dizendo que "a abertura da instalação da Barragem de Cedillo (...) é da competência da própria empresa. "Sem dúvida, um halo de esperança após a resposta que o ministério deu a Nevado, promotor de uma coleta de assinaturas a favor da abertura da barragem, quando levantou o assunto em outubro de 2017:"
O atual presidente do Conselho Provincial de Cáceres, Rocío Cordero, não pede desculpas por obrigar a Iberdrola a realizar todas as melhorias de segurança necessárias para permitir a passagem permanente pela barragem, ou pelo menos permitir que os engenheiros do Ministério do Desenvolvimento acessem a instalação para avaliar se o tráfego diário de veículos pesados ​​é possível. “Não está muito claro que uma empresa com concessão nos diga o que fazer”, protesta. "Fortalecer a ponte sempre será mais barato do que construir uma ponte nova. Mas se for construída, o conselho está disposto a financiar parte da obra."

Uma represa única
Um dos argumentos que permitem o roque de Iberdrola é a peculiar construção da barragem, que tem todo o seu maquinário em cima em vez de abrigado ao pé da água. O prefeito de Cedillo oferece uma explicação interessante: “A usina foi feita quando as políticas do 'virado de costas' [política de virar as costas] de Franco e [o ditador português] Salazar. É a única usina que tem o geradores para cima, fora, quando todos estão com eles dentro. Fizeram assim justamente para poder reclamar motivos de segurança e que ninguém nunca passou ”. “Por isso”, continua, “a solução definitiva é a construção de uma ponte independente. Há muitos anos que lutamos com a Iberdrola e nada conseguimos. Eles não querem ser responsabilizados por nenhum acidente no barragem."

O PSOE está há três anos no comando da Junta de Extremadura e do Conselho Provincial de Cáceres. O Partido Socialista também está no comando em Portugal e há seis meses Pedro Sánchez reside em La Moncloa. Mas nada foi avançado. “Este é o momento perfeito para encontrar uma solução”, insiste Marco António, que há vários meses faz lobby através de várias plataformas de redes sociais. “As relações entre governos agora estão ótimas e a empresa deve ser levada a entender que com sua atitude está afogando toda essa região. É preciso apelar ao coração, à vontade de dois povos que querem se unir. São famílias, filhos, netos, pessoas. que se ama, que vai a festas de um lado e do outro, que organiza passeios para um lado e para o outro. O interesse geral deve sempre prevalecer ”.

Ao descarregar seu caminhão, Ramallete se recusa a renunciar. “Faz 40 anos que passava gente por aqui, tinha uma relação cultural e agora não temos nada. Os meninos iam e vinham para jogar futebol ou dançar. Eles nos pegavam de trator no pé do rio e levavam nós de e para Portugal. Com a barragem, acabou. ” Martínez, cuja casa de família fica em Montalvao, denuncia "o dano social" de uma instalação cuja propaganda nas décadas de 1960 e 1970 prometia o contrário. “Em troca de meia dúzia de empregos e impostos para a prefeitura estamos sofrendo o isolamento dos povos desta área, o que nos leva ao despovoamento brutal dela. É um estrangulamento não só geográfico mas social, laboral, empresarial, educacional, saúde e sentimental ”.

“Espero não morrer sem ver uma ligação permanente entre Espanha e Portugal”, suspira o autarca de Cedillo. A vontade dos políticos e de seis milhões de euros vão decidir se o seu desejo será realizado ou não.

21 de dezembro de 2018

sábado, 30 de outubro de 2021

Projeto Life Maronesa Quer Combater as Alterações Climáticas e Prevenir Fogos



Um projeto-piloto implementado numa exploração de vacas maronesas, em Vila Pouca de Aguiar, quer ajudar a combater as alterações climáticas, reduzir o risco de incêndio, quantificar a produção de biomassa nas pastagens e os efeitos do pastoreio.

O projeto Life Maronesa tem um financiamento de cerca de dois milhões de euros, comparticipado em 55% pela União Europeia, e estende-se até 2025.

“Aqui, na área do Casal da Bouça, nós adquirimos experiência com estas práticas mais sustentáveis e que estão, de forma natural, mais adaptadas ao impacto das alterações climáticas”, afirmou à agência Lusa Juliana Salvação, da associação florestal Aguiarfloresta, coordenadora do projeto.

A gestora do projeto destacou ainda o contributo do pastoreio para a redução do risco de incêndio florestal e a importância de replicar as “boas práticas” em outros baldios que fazem parte do Life, em Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Vila Real, concelhos que são “solar” da raça autóctone maronesa.

No Casal da Bouça, na aldeia de Souto, em Vila Pouca de Aguiar, o produtor António Moutinho tem 130 vacas e novilhas em regime extensivo, ou seja, os animais andam a maior parte do tempo ao ar livre entre a serra do Alvão e os lameiros.

Esta exploração transformou-se numa “área de demonstração”. Ali foi construída, há já uma década, uma manga de maneio dos animais que é considerada única na região e “anti-stress” para as vacas e, nos lameiros e na montanha, foram colocados cercados e gaiolas de exclusão (de monitorização da herbivoria).

Também ali está a ser quantificada, pela primeira vez, a biomassa consumida pelas vacas, por dia, o que permitirá, também, apurar o rendimento do animal, por dia, em serviços de ecossistema, ou seja, os benefícios desta raça para o ambiente.

Trata-se, segundo o investigador Carlos Aguiar, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), de “um ensaio fatorial” onde foram introduzidas variáveis: num cercado não há pastoreio, em outro corta-se o feno e num outro corta-se o feno e há pastoreio.

“E nós vamos ver o que acontece à flora e à produtividade”, referiu.

Com este estudo pretende-se recolher dados científicos e números que, segundo o responsável, “nunca foram quantificados”.

“No final vamos ficar a saber quantos quilos de biomassa produz um lameiro, mas também quantos quilos consome uma vaca”, salientou.

Carlos Aguiar explicou que o Life Maronesa “tem várias frentes”, desde a recuperação da fertilidade das terras nos lameiros, através da aplicação de calcário magnesiano, medida que classificou como importante porque a “produção de feno e de pasto condiciona o número e animais” que os criadores podem ter.

Outra frente é a recuperação dos solos nas montanhas, devastadas pelos incêndios de grande severidade, apostando nos fogos controlados, de baixa densidade, associados à herbivoria, ou seja, à ingestão das plantas por parte dos animais.

Carlos Aguiar referiu que “as vacas podem trazer atrás de si mais animais e mais plantas”.

“O discurso que liga a criação de gado à libertação de metano e a carbono na atmosfera, ao aquecimento global, aqui não, é ao contrário”, salientou.

Por sua vez, o produtor António Moutinho explicou a manga de maneio, construída pelo próprio, que foi inspirada num modelo americano e que visa o bem-estar dos animais.

Ao longo de um cercado com três círculos os animais são conduzidos para uma espécie de tronco, onde entram individualmente e são manuseados “sem entrarem em stress”, o que facilita as intervenções veterinárias, de sanidade e o seu transporte.

“O projeto tenta replicar o que estamos a fazer nesta exploração para outros criadores no sentido de introduzir alguma inovação para tornar as explorações mais sustentáveis ambiental, económica e socialmente”, salientou António Moutinho.

Para levar visitantes ou técnicos ao terreno foi criado o percurso do Pastoreio Sustentável e da Gestão da Paisagem Clima +, onde ao longo de 13 quilómetros foram espalhados 32 painéis, entre o Casal da Bouça até à Serra do Alvão, que descrevem as várias etapas e iniciativas do projeto.

Os mentores do projeto acreditam que o incremento do consumo e do preço da carne de raças autóctones de montanha, criadas em extensivo, traduz-se em fogos de menor intensidade, mais carbono sequestrado no solo, maior diversidade de espécies e ecossistemas, ganhos de bem-estar animal e em rendimentos acrescidos dos criadores de gado.

“O número de animais e de produtores tem vindo a diminuir e é importante valorizar estas atividade enquanto motor de desenvolvimento rural e social e cativar novos pastores e produtores e gado para a região”, afirmou Juliana Salvação.