As plantas são a base da maior parte da vida na Terra, mas as Alterações Climáticas e a Crise Ecológica estão a remodelar rapidamente os seus habitats e a aumentar o risco de extinção de formas inesperadas.
Dois estudos recentes, publicados na revista Science no dia 7 de maio de 2026, utilizam modelação evolutiva de larga escala e projeções climáticas de alta resolução para preencher lacunas críticas no nosso conhecimento sobre como a flora global reagirá ao aquecimento do planeta.
O primeiro estudo, de Wang et al., revela um paradoxo preocupante: embora as migrações induzidas pelo clima possam aumentar a riqueza de espécies a nível local (em cerca de 28% da superfície terrestre), este "baralhamento" geográfico não reduz o risco global de extinção. A investigação estima que entre 7% e 16% das mais de 67 mil espécies analisadas correm alto risco até 2100. O dado mais alarmante é que cerca de 80% destas extinções serão causadas pelo desaparecimento absoluto de habitats adequados, e não apenas pela incapacidade das plantas em migrarem. Ou seja, mesmo que as espécies consigam acompanhar a velocidade das alterações climáticas, muitas deixarão de ter um local viável para viver.
Complementando esta visão, o estudo de Forest et al. foca-se na integridade evolutiva, analisando a "árvore da vida" de mais de 335 mil espécies de plantas com flor. Os investigadores concluíram que aproximadamente 21,2% da história evolutiva destas plantas está ameaçada — o que equivale à perda potencial de 307 mil milhões de anos de progressos biológicos únicos. O estudo identifica quase 10 mil espécies prioritárias (conhecidas como espécies EDGE), que são evolutivamente distintas e estão globalmente em perigo. A perda destas linhagens seria catastrófica, pois representam "ramos" únicos da árvore genética que não têm parentes próximos, eliminando potenciais recursos medicinais e características de resiliência que levaram milhões de anos a desenvolver.
Em conjunto, estas investigações demonstram que as estratégias de conservação atuais são insuficientes. Os autores defendem uma mudança de paradigma: não basta proteger áreas aleatórias; é urgente focar os esforços na identificação de refúgios climáticos estáveis e na preservação de linhagens evolutivas insubstituíveis, recorrendo também à expansão de bancos de sementes e, em certos casos, à migração assistida para evitar uma simplificação irreversível da biodiversidade terrestre.
Uma carta aberta subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente contesta a proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba, acusando o documento de se basear na conservação da espécie Linaria ricardoi apesar de não existirem registos recentes da sua presença confirmada na área, segundo dados de prospeções realizadas entre 2019 e 2025.
Segundo a mesma fonte, a credibilidade da Rede Natura 2000 “assenta na eficácia em conservar valores naturais que ocorrem nas áreas classificadas para esse propósito, de forma significativa e comprovada. É por isso que constitui um dos pilares centrais da política europeia de conservação da biodiversidade”.
A proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba (PTCON0035), elaborada pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que esteve em consulta pública entre os dias 2 e 30 de abril, foi criada com o objetivo exclusivo de conservação da planta endémica e prioritária Linaria ricardoi, espécie que consta do Anexo II da Diretiva Habitats da União Europeia. Contudo, “já não existe qualquer população confirmada de Linaria ricardoi dentro dos atuais limites da ZEC Alvito/Cuba, de acordo com os resultados das prospeções realizadas entre 2019 e 2020 pelo próprio ICNF, nem nas de 2025 ao encargo da SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica”, alerta a nota.
A carta explica que o objetivo de conservação desta espécie, que se restringe ao Baixo Alentejo, deu origem ao Sítio Alvito/Cuba, incluído na Lista Nacional de Sítios, em 2000, tendo passado mais de duas décadas desde a classificação. Desde que passou de Sítio a Zona Especial de Conservação, esteve mais seis anos sem qualquer plano de gestão. O resultado é claro: “a extinção da espécie está em processo, o seu estatuto de ameaça tem-se elevado e a estratégia seguida falhou em travar essa tendência”.
No entanto, lê-se ainda, os próprios documentos oficiais do Estado português – incluindo o Relatório para a Conclusão do Processo de Designação da ZEC e o Plano de Gestão agora proposto – apresentam medidas “claramente incoerentes e desfasadas da realidade”:
O Plano de Gestão proposto insiste em propor metas como “aumentar o número de quadrículas ocupadas” ou “aumentar a densidade populacional” em ambas as parcelas classificadas como ZEC, aplicadas a um território onde a planta simplesmente não ocorre.
Uma ZEC que falha os critérios da Diretiva Habitats
De acordo com a Diretiva 92/43/CEE, a designação de Zonas Especiais de Conservação deve basear‑se, entre outros critérios, na existência real de populações das espécies que se pretendem conservar e na adequação ecológica do sítio para assegurar a sua sobrevivência a longo prazo.
Manter uma ZEC delimitada numa área onde:
A espécie já não ocorre;
Os solos não correspondem aos seus requisitos ecológicos;
E as práticas agrícolas intensivas e super-intensivas dominantes são incompatíveis com o seu ciclo de vida, “representa um desvio claro dos objetivos da Diretiva Habitats e enfraquece a coerência da Rede Natura 2000”.
Atualmente, o Plano de Gestão em causa propõe manter os limites atuais da área e estender esta estratégia com vigência de dez anos, com base na escassa “possibilidade de persistência de um banco de sementes no solo”, enquanto há evidência científica de que a manutenção de um banco de sementes em olivais intensivos é improvável devido à modificação das condições ecológicas. Existem áreas alternativas, bem documentadas, onde a espécie ocorre com sucesso reprodutivo em vários municípios.
“Conservar mal é também perder tempo e colocar em causa a efetiva proteção da espécie”, sublinham as organizações.
E acrescentam: “persistir na implementação de um plano de gestão desajustado significa, na prática:
1 – Desviar recursos públicos para um território que não responde às necessidades da espécie;
2 – Impor condicionamentos territoriais a populações locais sem benefício ecológico comprovado;
3 – Adiar, mais uma vez, a proteção efetiva dos núcleos populacionais que garantem a sobrevivência de Linaria ricardoi”.
Um apelo à coerência, à ciência e à coragem institucional
A conservação da natureza “exige decisões difíceis, mas baseadas na evidência. Hoje, a própria documentação oficial reconhece que existe um desajuste entre a Rede Natura 2000 e as áreas de maior abundância de Linaria ricardoi”, alertam.
Perante este reconhecimento, “é incompreensível insistir na aprovação de um Plano de Gestão que perpetua esse erro”.
Defendem, por isso, que:
A atual proposta de Plano de Gestão da ZEC Alvito/Cuba não deve ser aprovada nos termos em que se encontra elaborada;
O processo deve ser reformulado com base na redefinição dos limites da ZEC para áreas onde a espécie efetivamente ocorre e onde existem núcleos populacionais que asseguram a diversidade genética nacional;
As entidades associadas e responsáveis pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, como a EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A., melhorem os efeitos das medidas estipuladas nas Declarações de Impacte Ambiental e nos Relatórios de Conformidade Ambiental (uma vez que falharam em impedir a extinção ou o processo de extinção em cerca de 87 núcleos de L. ricardoi, por destruição direta do seu habitat, num período de 20 anos).
“Proteger uma espécie ameaçada faz‑se onde ela existe, onde pode sobreviver e onde as medidas de conservação fazem sentido, em estreita colaboração com a população”, sublinham.
E concluem: “conservar a natureza exige rigor, mas também humildade para corrigir decisões passadas e atualmente erradas. Neste caso, essa correção é não apenas possível, mas urgente”.
Esta carta aberta é subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, a maior organização ambientalista do país, integrando cerca de 100 associações de defesa do ambiente ou organizações não governamentais de ambiente, de âmbitos nacional, regional e local, quer no Continente, quer nas Regiões Autónomas.
A UE está prestes a realizar a votação final sobre novas regras que desregulamentariam a maioria das culturas geneticamente modificadas desenvolvidas através de Novas Técnicas Genómicas (NGTs), prevista para 19 de maio. A proposta eliminaria a rotulagem, a rastreabilidade e a avaliação de riscos para a maioria destes produtos, levantando preocupações quanto à transparência, aos polinizadores e aos agricultores. O cenário atual confirma as minhas preocupações: o acordo provisório alcançado entre o Conselho e o Parlamento não inclui a proibição de patentes que o Parlamento tinha inicialmente exigido. Em vez disso, propõe apenas medidas de "transparência", o que na prática permite que grandes multinacionais continuem a patentear características genéticas de plantas, ameaçando a autonomia dos agricultores e a biodiversidade.
Portanto e por tudo isto e pela salvaguarda da nossa soberania alimentar e em defesa da agricultura biológica nacional - pondo em causa a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica (ENAB 2027) - temos que agir!
Não brinquemos com a nossa alimentação nem mantenhamos os consumidores na ignorância – a rotulagem nas embalagens deve ser garantida ao longo de toda a cadeia de valor. Se estes novos produtos geneticamente modificados são tão promissores como a indústria de sementes afirma, então por que razão não devem ser rotulados em conformidade?
A desregulamentação das NGTs irá comprometer as normas de segurança alimentar e o direito de escolha dos consumidores, sendo também provável que conduza a uma maior concentração no setor das sementes através do patenteamento de culturas alimentares.
Um artigo do Corporate Europe Observatory e da GMWatch mostra que os grupos de pressão da indústria tentam acalmar as preocupações sobre o impacto das culturas patenteadas com argumentos superficiais e enganosos. Uma sondagem recente revela que a maioria dos cidadãos da UE se opõe às patentes sobre plantas e animais.
Documentos de lóbi obtidos junto da Comissão Europeia revelam que:
(1) os grupos de pressão da indústria Euroseeds e CropLife Europe, que representam multinacionais biotecnológicas como a Bayer e a Syngenta, minimizam os problemas associados às patentes e propõem «soluções» inadequadas, e
(2) o grupo de pressão agrícola Copa-Cogeca emitiu um forte aviso contra as patentes, mas posteriormente silenciou-se sobre o assunto. Outros grupos agrícolas, como a Deutsche Bauern Verband e a ECVC, continuam a manifestar abertamente as suas objeções às patentes.
O Conselho Europeu alcançou hoje um acordo provisório com o Parlamento Europeu para a criação de um novo quadro legal para as novas técnicas genómicas (NGTs), um passo considerado decisivo para reforçar a competitividade do setor agroalimentar europeu, aumentar a segurança alimentar e reduzir dependências externas.
De acordo com a comunicação, as NGTs abrangem um conjunto de técnicas capazes de adaptar sementes de formas que também poderiam ocorrer na natureza ou através de melhoramento convencional. Estas tecnologias permitem desenvolver variedades vegetais mais rapidamente e com características específicas, incluindo maior resistência à seca e às cheias, e menor necessidade de fertilizantes e pesticidas, respostas consideradas essenciais face aos desafios climáticos e produtivos que o setor enfrenta.
O acordo mantém a proposta da Comissão Europeia de dividir as plantas obtidas por NGTs em duas categorias:
Categoria 1 – Plantas equivalentes às convencionais
As plantas classificadas como NGT-1 são consideradas equivalentes às obtidas por métodos tradicionais. As autoridades nacionais deverão verificar a sua conformidade, mas a descendência destas plantas não terá de ser novamente avaliada.
Os produtos derivados de NGT-1 não serão rotulados como tal, preservando o princípio da equivalência. Contudo, as sementes e materiais de reprodução vegetal terão de ser claramente identificados, permitindo que os operadores mantenham cadeias de produção livres de NGTs, caso o pretendam.
O Parlamento e o Conselho concordaram ainda numa lista de traços excluídos, impedindo que variedades com tolerância a herbicidas ou capazes de produzir substâncias inseticidas sejam classificadas como NGT-1. Estas passarão automaticamente para Categoria 2.
Categoria 2 – Modificações mais complexas
As plantas cujas alterações genómicas sejam menos comparáveis às que ocorrem na natureza serão enquadradas como NGT-2 e continuarão sujeitas às regras da legislação de OGM atualmente em vigor, incluindo obrigação de rotulagem, rastreabilidade e monitorização.
Os Estados-membros poderão proibir o cultivo destas plantas no seu território e implementar medidas de coexistência para evitar a presença não intencional de NGT-2 noutras culturas.
O acordo aborda ainda preocupações de agricultores e técnicos sobre patentes associadas às novas técnicas. Para registar plantas NGT-1, as empresas terão de declarar as patentes existentes ou pendentes, que ficarão acessíveis numa base de dados pública. A divulgação voluntária de condições de licenciamento também será possível.
A comunicação também refere que será criado um grupo de peritos em patentes, com representantes dos Estados-membros, do Instituto Europeu de Patentes e do Gabinete Comunitário das Variedades Vegetais.
Além disso, um ano após a entrada em vigor do regulamento, a Comissão publicará um estudo sobre o impacto das patentes na inovação, no acesso a sementes e na competitividade do setor europeu de melhoramento vegetal.
O acordo provisório terá agora de ser formalmente validado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho antes de poder ser adotado.
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Grande parte das árvores da Amazónia (90%), da Mata Atlântica (90%) e do Cerrado (60%) depende dos animais para espalhar as suas sementes, garantir a sua reprodução e manter a floresta em pé. São aves, mamíferos, peixes e até uma espécie de anfíbio que desempenham um papel crucial para a diversidade das florestas em todo o mundo. No entanto, esse processo tem se desintegrado à medida que populações de animais dispersores de sementes vêm diminuindo drasticamente.
A perda de animais frugívoros (cuja dieta alimentar é composta principalmente de frutos) provoca outro efeito: altera a composição das florestas, enfraquecendo a sua capacidade de absorver dióxido de carbono e, assim, reduzindo o seu papel em mitigar as alterações climáticas.
Mas grandes esforços globais para proteger e recuperar ecossistemas continuam subestimando os animais dispersores de sementes nas estratégias de conservação da biodiversidade e recuperação florestal.
“Muito se comenta hoje sobre créditos de carbono e restauração da floresta, mas quem ‘planta’ o carbono? É o tucano, a cutia, a anta, a jacutinga. Para se ter uma copaíba, por exemplo, a floresta precisa ter tucanos e macacos para dispersarem suas sementes. Portanto, precisamos incluir os animais frugívoros na equação da restauração, pois já há ciência suficiente para se quantificar quanto do carbono florestal é plantado pelos animais”, diz Mauro Galetti, um dos diretores do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.
Galetti e pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça, Panamá, Alemanha, Espanha e Portugal publicaram um artigo na Nature Reviews Biodiversity alertando sobre as consequências da perda de dispersores de sementes nas mudanças no clima. O papel dos animais frugívoros é tão central na manutenção da biodiversidade das plantas que, segundo os pesquisadores, os esforços de restauração e proteção de ecossistemas correm o risco de não atingir as metas se o declínio dos dispersores de sementes não for mitigado.
Um estudo recente, publicado na revista Science por alguns dos pesquisadores que assinam o alerta, mostrou que a perda de aves e mamíferos em todo o mundo resulta na redução de 60% da propagação de sementes. “Avançamos muito para resolver esses problemas da perda de dispersores de sementes e, apesar de o Brasil ser o país com mais estudos científicos sobre dispersão de sementes, é preciso se aprofundar no problema e entender, por exemplo, que plantas e ecossistemas estão mais vulneráveis a essa perda. Além disso, é claro, precisamos identificar quais estratégias restauram melhor a dispersão de sementes", diz o pesquisador.
Heróis desconhecidos
Ao comer um fruto, o animal dispersor é “contaminado” pela semente que passa pelo tubo digestivo e recebe um tratamento químico (por ação do suco gástrico) ou mecânico – no caso das aves, por exemplo, a moela amassa a semente –, o que permite a entrada de água na semente e a deixa pronta para germinar onde quer que o animal a deposite posteriormente, ao defecar.
“Portanto as sementes consumidas por animais vão germinar mais, mais rápido e vão se estabelecer em lugares mais seguros para crescer. E se não tiver um animal para ‘machucar’ a semente e levá-la para longe da planta-mãe, ela não vai germinar e, mesmo que germine perto da planta-mãe, provavelmente vai morrer porque haverá competição entre elas", conta Galetti.
Mas é importante ressaltar que não há um padrão: em cada lugar do mundo, em cada espécie de árvore e de animal vertebrado essa interação é diferente. “A castanha-do-pará, por exemplo, só tem um dispersor: a cutia. Se a cutia for extinta localmente, o serviço de dispersão de sementes da castanha-do-pará sucumbe. Dependemos então de um serviço ecológico fundamental da cutia", afirma Galetti.
Enquanto na Mata Atlântica aves, morcegos, macacos e antas são os principais dispersores de sementes, na Amazónia e no Pantanal os peixes desempenham um papel crucial. “Os pacus e tambaquis, por exemplo, percorrem grandes distâncias e comem grandes quantidades de frutos, o que os torna superdispersores de diferentes espécies nas matas ciliares", conta o pesquisador.
Serviços ecossistémicos
Assim como abelhas e outros polinizadores, o papel dos animais frugívoros é essencial para a reprodução de plantas. Mas, embora ambos os serviços estejam ameaçados por fatores como mudanças no uso da terra e exploração direta, cada grupo responde de maneira diferente aos impactos. Enquanto os polinizadores sofrem mais com pesticidas, os dispersores de sementes são mais afetados pela perda de hábitats e pela caça.
Outra diferença é que o declínio dos polinizadores tem recebido mais atenção pública e política, já que a sua ausência afeta diretamente a produção de alimentos. Já os impactos da perda de dispersores de sementes são mais difíceis de medir, influenciando a biodiversidade e o armazenamento de carbono ao longo do tempo.
“Ambos são importantes e devem ser levados em conta nos projetos de restauração e conservação. Porém, o declínio dos polinizadores é mais facilmente medido no curto prazo, ele gera impactos económicos imediatos como a perda de produtividade das lavouras, enquanto os efeitos da perda de dispersores de sementes ocorrem de forma lenta e ampla, comprometendo a funcionalidade e a resiliência dos ecossistemas", explica Galetti à Agência FAPESP.
O cientista afirma que os custos económicos do declínio dos dispersores de sementes – como perda de armazenamento de carbono, redução do fornecimento de produtos florestais e declínio da resiliência natural a eventos ambientais extremos – ainda não foram quantificados globalmente. “A restauração não consiste em apenas plantar árvores, é preciso considerar quem vai manter o futuro dessa floresta, que são os animais dispersores. Há alguns anos acreditava-se que ao plantar a floresta esses animais iriam até ela. Mas não é assim que acontece. É muito mais complexo ter uma floresta restaurada funcionando", conta.
No artigo, os pesquisadores destacam que novas sínteses e modelos de dados estão captando mudanças funcionais em grande escala e ajudando a revelar impactos de longo prazo, como a recuperação prejudicada de incêndios florestais e a degradação de hábitats para animais. “Enfrentar o declínio dos dispersores de sementes é fundamental para preservar a biodiversidade animal, garantir a conectividade das florestas e o equilíbrio das comunidades vegetais”, afirma Galetti.
A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.
As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações.
Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração".
Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas.
Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.
Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo.
A dispersão de sementes é crucial para a persistência dos ecossistemas, mas as ameaças de extinção e alterações populacionais entre os animais que a realizam poderão impedir a recuperação das populações de plantas em declínio no continente europeu.
Um estudo da Universidade de Coimbra publicado na revista Science indica que 30% das espécies de plantas têm a maioria dos seus dispersores na categoria de elevada preocupação, noticiou na quinta-feira a agência Efe.
Os investigadores focaram-se na forma como a perda de espécies animais na região poderá afetar o processo de dispersão das sementes, uma vez que pouco se sabe sobre a forma como estas duplas dispersores-plantas são interrompidas pela perda de espécies.
A equipa, liderada pela investigadora Sara Beatriz Mendes, reviu a literatura sobre duplas de dispersão entre animais e plantas para reconstruir a primeira rede europeia de dispersão de sementes.
Um terço destas interações cruciais são altamente preocupantes, o que significa que as espécies nelas envolvidas estão listadas como quase ameaçadas, em perigo ou com populações em declínio, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Os dados indicam que cada espécie animal dispersou em média 13 espécies de plantas, enquanto cada espécie de planta teve em média nove dispersores, resume a revista.
O estudo "revela uma crise de dispersão de sementes em desenvolvimento na Europa" e destaca grandes lacunas de conhecimento em relação aos dispersores e ao estado de conservação das plantas cujas sementes são dispersas por animais, "o que exige um maior escrutínio e ação para conservar o serviço de dispersão de sementes", referiu a equipa.
Os investigadores reconhecem que existem lacunas significativas nos dados sobre as relações de dispersão, mas acreditam que as suas descobertas podem ser utilizadas para orientar os esforços de conservação para preservar as relações de dispersores de grande preocupação.
Este é o primeiro estudo abrangente sobre a vulnerabilidade das espécies dispersoras de sementes, realçou o investigador Daniel Montoya, do Centro Basco para as Alterações Climáticas (BC3), citado pelo Science Media Centre, uma plataforma de recursos científicos para jornalistas.
Os autores compilaram uma extensa base de dados de 11.414 interações entre 1.902 espécies de plantas e 455 espécies de animais dispersores de sementes, incluindo 283 aves, 85 artrópodes, 69 mamíferos, 11 répteis, 4 moluscos, 2 peixes e um verme anelídeo.
A perda da função de dispersão "reduz a capacidade de recuperação dos ecossistemas, um fator chave face à recente aprovação da Lei Europeia de Restauração", acrescentou Montoya.
O investigador salientou que os resultados do estudo podem subestimar a vulnerabilidade de algumas espécies dispersoras, para as quais não existe informação sobre as suas tendências populacionais e vulnerabilidade.
Entretanto, tanto o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, como o seu conselheiro, Mykahailo Podolyak, afirmaram que se tratou de um "ataque deliberado" à infraestrutura.
O ministro da agricultura ucraniano, Mykola Solsky, afirmou esta quarta-feira que uma quantidade "considerável" de infraestrutura de exportação de cereais no porto de Chornomorsk, na região de Odessa , ficou danificada na sequência de um ataque russo, reporta a agência Reuters.
O ataque destruiu 60.000 toneladas de cereais no porto, que deveriam ter sido carregadas e embarcadas pela Black Sea Grain Initiative há 60 dias.
"O ataque noturno colocou uma parte considerável da infraestrutura de exportação de cereais no porto de Chornomorsk fora de operação", referiu Solsky numa publicação no Telegram.
De recordar que mísseis russos lançados na noite de terça-feira contra o porto de Odessa atingiram um terminal de cereais, um terminal de petróleo e outras infraestruturas, revelou a administração militar de região de Odessa.
O ataque também provocou um incêndio na zona portuária, acrescentou a fonte.
Vários edifícios ficaram também danificados em outra área de Odessa quando os destroços de um míssil intercetado caíram, provocando ferimentos em três civis.
Os nossos solos sustentam 95% de toda a produção de alimentos e, até 2060, os nossos solos serão solicitados a nos fornecer a mesma quantidade de comida que consumimos nos últimos 500 anos. Eles filtram a nossa água. Eles são um dos nossos reservatórios mais económicos para sequestrar carbono. Eles são a nossa base para a biodiversidade. E eles estão vibrantemente vivos, repletos de 4.5 toneladas de vida biológica em cada 4.046 m2. No entanto, nos últimos 150 anos, perdemos metade do alicerce básico que torna o solo produtivo. Estima-se que os custos sociais e ambientais da perda e degradação do solo apenas nos Estados Unidos cheguem a US$ 85 biliões a cada ano (valores de 2018). Como qualquer relacionamento, o nosso solo vivo precisa da nossa ternura. É hora de mudarmos tudo o que pensávamos que sabíamos sobre o solo. Vamos fazer deste o século do solo vivo.
Este documentário de 60 minutos apresenta agricultores inovadores e especialistas em saúde do solo de todos os EUA. Planos de aula de acompanhamento para estudantes universitários e do ensino médio também podem ser encontrados neste site. "Living Soil" foi dirigido por Chelsea Myers e Tiny Attic Productions com sede em Columbia, Missouri, e produzido pelo Soil Health Institute através do generoso apoio da The Samuel Roberts Noble Foundation.
“Hoje em dia, o ser humano apenas tem ante si três grandes problemas que foram ironicamente provocados por ele próprio: a super povoação, o desaparecimento dos recursos naturais e a destruição do meio ambiente. Triunfar sobre estes problemas, vistos sermos nós a sua causa, deveria ser a nossa mais profunda motivação.” Jacques Yves Cousteau (1910 – 1997)
A preservação de populações de elefantes florestais em perigo crítico é crucial não só para os próprios animais, mas também para proteger as capacidades de sugar carbono dos ambientes em que vivem, revela um novo estudo.
A floresta tropical da África Central e Ocidental, que é a segunda maior da Terra, poderia perder 6 a 9% da sua capacidade de captura de carbono atmosférico se as comunidades de elefantes fossem dizimadas – acelerando ainda mais o aquecimento do planeta.
Os elefantes florestais desempenham um papel crucial no ciclo do carbono, ‘desbastando’ o dossel da floresta tropical comendo árvores mais altas de crescimento rápido que capturam menos carbono. Isto cria mais espaço e luz solar para as árvores de crescimento mais lento por baixo das quais capturam mais carbono do ambiente.
“Se perdermos elefantes florestais, estaremos a prestar um mau serviço global à mitigação das alterações climáticas”, diz o biólogo Stephen Blake da Universidade de Saint Louis, no Missouri.
“A importância dos elefantes florestais para a mitigação das alterações climáticas deve ser levada a sério pelos decisores políticos para gerar o apoio necessário para a conservação dos elefantes. O papel dos elefantes florestais no nosso ambiente global é demasiado importante para ser ignorado”.
Utilizando dados de estudos anteriores e novas informações recolhidas no terreno, a equipa analisou cerca de 200.000 registos de padrões de alimentação de elefantes florestais em África, abrangendo mais de 800 espécies de plantas individuais.
A preferência que os elefantes têm pelas árvores de menor densidade de carbono parece dever-se ao valor nutricional que obtêm deles em vez de terem disponibilidade: são mais palatáveis para os animais e mais fáceis de digerir.
No entanto, em termos de frutos, os elefantes preferem árvores com maior densidade de carbono, que têm frutos maiores e mais doces. Isto significa que os elefantes também ajudam a distribuir sementes para estas árvores com maior densidade de carbono em redor da floresta. Algumas espécies arbóreas não conseguem sequer sobreviver sem a ajuda destes animais.
“Os elefantes comem muitas folhas de muitas árvores, e fazem muitos danos quando comem”, diz Blake.
“Eles tiram as folhas das árvores, arrancam um ramo inteiro ou desenraízam um rebento quando comem, e os nossos dados mostram que a maior parte destes danos ocorre em árvores de baixa densidade de carbono”, explicou.
Pensa-se que existem agora menos de 500.000 elefantes africanos em estado selvagem, contra os 3-5 milhões durante o século passado. A caça ao marfim é responsável por esta drástica redução, com 80% das manadas perdidas em algumas áreas. A perda de habitat e os conflitos entre humanos e elefantes estão a reduzir ainda mais o número de populações.
Este novo estudo enfatiza a importância de proteger estes elefantes africanos, os maiores animais que caminham na Terra. Eles são uma das 9 espécies de mega herbívoros – comedores de plantas terrestres com uma massa corporal superior a 1.000 quilos ou 2.200 libras.
Existem agora muito menos mega herbívoros do que antigamente, e as florestas tropicais estão a sofrer em resultado disso, dizem os investigadores. Estão agora planeados estudos futuros, olhando para outras regiões e outras espécies, para ver como outros grandes herbívoros, tais como o elefante asiático e primatas, poderiam afetar a saúde das florestas tropicais.
“Os elefantes são os jardineiros da floresta”, diz Blake.
“Eles plantam a floresta com árvores de alta densidade de carbono e livram-se das ervas daninhas que são as árvores de baixa densidade de carbono”. Eles fazem um trabalho tremendo mantendo a diversidade da floresta”.
As preocupações com as mudanças climáticas e as transformações sustentáveis da agricultura e dos sistemas alimentares levam a que a pequena agricultura e os meios de vida rurais sejam vistos como ativos ecológicos globais. Ainda assim, as pessoas que vivem nas áreas rurais são algumas das mais marginalizadas e empobrecidas, afetadas por secas, inundações e incêndios. Enquanto a biodiversidade de sementes é crucial para a sustentabilidade dos sistemas alimentares futuros e para a adaptação às mudanças climáticas, acontece, por exemplo, que a antiga prática de reutilizar sementes está cada vez mais condenada. O trabalho e o conhecimento dos camponeses permanecem sem reconhecimento, enquanto os seus esforços para produzir grãos e sementes são considerados fracos ou ineficientes.
Há ativistas académicos crescentemente preocupados com os trabalhadores rurais e os camponeses do mundo, dada a sua condição precária. Os movimentos que defendem a soberania alimentar defendem também o seu autogoverno para se protegerem tanto das políticas neoliberais quanto do agronegócio.
A recente Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e Outras Pessoas que Trabalham em Áreas Rurais (UNDROP 2018) representa um sucesso importante dos movimentos agroalimentares e dos seus esforços para institucionalizar novos direitos rurais, de acordo com o paradigma “subversivo” da “forma camponesa” e reconhece aos camponeses direitos coletivos à terra, à alimentação, às sementes e a outros recursos naturais. Tais inovações alteraram a arquitetura internacional de direitos humanos ao transformar e alargar o enquadramento convencional dos mesmos, criando novos direitos para os camponeses, os trabalhadores rurais e a natureza e descrevendo na literatura a soberania alimentar como uma maneira de descolonizar o sistema de direitos humanos.
Reivindicar a soberania sobre os alimentos, as sementes ou a terra é um movimento político-democrático, no qual os camponeses são tidos em conta pelo papel que exercem no processo de esfriamento do planeta, na reversão do desemprego urbano, na migração ou na luta contra a fome, levando a uma reavaliação do campo na construção da resiliência do ecossistema. Nesse paradigma, os agricultores já não são vistos como historicamente anacrónicos, mas como um novo fundamento contemporâneo da civilização. Ao mesmo tempo que a “forma camponesa” tem estado sob escrutínio crítico – dada a crescente mercantilização dos alimentos – há um reconhecimento cada vez maior do valor da soberania alimentar no processo de transformação do movimento social contemporâneo, o que coloca os camponeses no centro da política agroalimentar como potencial alternativa ontológica ao regime alimentar capitalista. Evitar o drama do otimismo e do desapontamento na busca pela justiça também é uma forma de trabalhar com os limites e fragilidades das novas subjetividades em formação e as inevitáveis tensões e contradições entre as suas linhas divisórias.
Lobistas, filantropos e empresários defendem o uso da engenharia genética em África. Eles garantem que é a solução no combate à fome e à malária, duas das maiores pragas do continente.
Entre os seus apoiantes está Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo e criador da mais influente fundação de caridade da história. O documentário mostra como a "Fundação Bill & Melinda Gates" se tornou uma das mais importantes financiadoras de experiências de engenharia genética em África. Com discrição e imunes a vozes críticas, os pesquisadores trabalham na modificação genética de plantas de mandioca ou mosquitos para solucionar o problema da malária O papel da União Europeia é ambíguo: a comunidade internacional era cética em relação à engenharia genética devido aos riscos potenciais para a saúde e o meio ambiente, mas agora realiza experiências com a Fundação Gates que seriam proibidos na Europa.
A aplicação da engenharia genética em África é uma questão de poder, mas também de dinheiro. E é por isso que a Fundação Gates é criticada: ao financiar a engenharia genética na África, ela está a praticar o jogo do grande agronegócio ocidental.
Este documentário abre as portas para o mundo feliz do filantrocapitalismo, em que caridade e especulação não são mais conceitos opostos, a engenharia genética se disfarça de mitigação da fome e o investimento público está a serviço de interesses privados.
MANAUS – O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou recente estudo sobre as produções agropecuárias e extrativistas, segundo os grupos de cor ou raça de seus produtores.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou recente estudo sobre as produções agropecuárias e extrativistas, segundo os grupos de cor ou raça de seus produtores. O Censo Agro 2017 fez um recorte sobre as populações indígenas e apontou que os maiores percentuais de produtores indígenas estão nas regiões Norte (5,0%) e Centro-Oeste (1,29%). Roraima (33,63%), Amazonas (20,43%), Amapá (10,96%), Acre (6,09%) e Mato Grosso do Sul (4,52%) detém os maiores números de produtores indígenas.
As lavouras indígenas são voltadas em quase sua totalidade para o consumo do produtor e sua família
O censo apontou recortes territoriais específicos sobre as terras indígenas distribuídas pelo País afora e para Unidades de Conservação – Reservas Extrativistas (Resex), Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e as Florestas Nacionais, Estaduais e Municipais. Para Marta Antunes, do Censo de Povos e Comunidades Tradicionais, o estudo aponta a família como elo produtivo. “Isso se dá, principalmente, nos estabelecimentos dedicados ao autoconsumo. Nos estabelecimentos dirigidos por indígenas também encontramos maior diversidade de produtos, que ocasiona mais segurança alimentar para essas famílias”, explicou.
O levantamento do IBGE também demonstra que as atividades ligadas ao plantio e cultivo por parte das comunidades e famílias indígenas têm finalidades estabelecidas na necessidade do consumo. Em 67,08% dos estabelecimentos agropecuários, em terras indígenas, a finalidade principal da produção de horticultura é o consumo do produtor e seus familiares. Entre o total de estabelecimentos encontrados pelo Censo Agro 2017, esse percentual é menor (43,54%).
Saudável e diverso
Além de familiar, as culturas praticadas pelas comunidades indígenas são diversas e com maior grau de saudabilidade. Entre as populações pesquisadas, 88,01% dos estabelecimentos dirigidos por indígenas não utilizaram agrotóxicos. O percentual cai se observados nas demais populações. Os pretos (76,86%), pardos (74,73%), amarelos (59,56%) e brancos (55,88%). Os indígenas têm produção mais diversificada (43,24%), classificados como diversificados e muito diversificados, de acordo com a classificação de grau de especialização da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Conforme o técnico em agropecuária e antropólogo Alvatir Carolino, é interessante observar a pesquisa. “Interessante notar que o resultado aponta para o Norte porque, realmente, é no Norte do País que estão concentradas a maioria das populações indígenas“, detalhou. Alvatir também destaca que a complexidade da Amazônia impõe condições às populações indígenas. “É preciso entender a pesquisa sob as realidades impostas pela Amazônia e pela própria cultura desses povos. Existem povos que não veem a agricultura como nós vemos. Os Tariano tem suas roças, já os Gau preferem não ter“, observou.
“São complexidades, diversidades e sistemas, desses povos, que nem a estatística geográfica dará conta de contabilizar a produção. Os Gau, os Makú, preferem não ter roças próprias, e o sistema agrícola é completamente diferente porque são povos que circulam em várias regiões do alto Rio Negro”, analisou. “Já os Mura, da aldeia Muraí, na área de Autazes, deixaram de criar bubalinos depois da demarcação de sua terra. E, agora, estão se voltando para o extrativismo florestal, a castanha e o babaçu”, contou Alvatir.
Ancestralidade
O técnico explica que mesmo com a abundância do babaçu na região dos Mura, os próprios Mura não sabiam, exatamente, como explorar o fruto. “Eles ouviram falar que os antigos ouviram falar que os antigos trabalhavam o babaçu de tal forma, ou seja, foi preciso desenvolver pesquisa para encontrar as formas de aproveitamento do babaçu pelos Mura. Como eles estão, agora, na teia do mercado de consumo, o Ifam está desenvolvendo técnicas para estabelecer produtos agroindustriais do babaçu, e assim torna os Mura autossustentáveis no extrativismo“, adiantou.
Quanto a questão do uso de defensivos, Alvatir Carolino explica: “Como técnico e antropólogo, temos dialogado com muitos povos sobre produção agrícola. Temos, via Ifam, o curso de agroecologia, que orienta os povos indígenas que já vivem os fundamentos de uma sociedade de mercado para manter distância da chamada agricultura convencional que usa adubação sintética e o uso de biocidas, pois assim há possibilidade de aumentar a produção com produtos orgânicos“, afirmou.
“Está provado que os produtos orgânicos detêm um poder de mercado enorme no Brasil, ainda mais quando trazem selos de segurança alimentar. Com essa perspectiva é possível aumentar, em muito, a produção. Para se ter uma ideia, os produtos orgânicos na cidade de Manaus chegam a ser 300% mais caros que os convencionais. Trazendo selo de certificação com dois valores agregados, que são o fato de ser orgânico e de vir de uma terra indígena, esses produtos ganham ainda mais um enorme valor de mercado”, salientou Alvatir.
Produção
A pesquisa do IBGE trouxe, ainda, dados sobre a produção e as culturas mais praticadas entre as populações originárias. Entre os produtos mais cultivados pelos indígenas, de acordo com o Censo Agro 2017, estão a pimenta, o cará e a batata-doce. Na lavoura temporária, os produtos mais presentes nos estabelecimentos dirigidos pelos indígenas são, em ordem decrescente, a mandioca, o milho em grão, o abacaxi e o feijão fradinho.
"Árvore de dezembro - uma árvore que se desnuda para nós
Eu acho que nunca vou ver um poema tão adorável como uma árvore, que vive intimamente com o solo, a chuva, a neve, o sol, um ninho de pisco nos seus cabelos"- poema e foto de João Soares, 6.12.2017
"December tree— a tree who bare itself for us
I think I shall never see a lovely poem as a tree, who intimate lives with soil, rain, snow, sun, a nest of robins in her hair."- poem and photo by João Soares, 6.12.2017
Is the ‘old’ Monsanto, the one responsible for producing Agent Orange, PCB’s and DDT and a terrible record at covering up and denying the tragedies that have resulted from their use, the same as the ‘new’ Monsanto, the one at the forefront of research in plant gene technology? We argue their scientific and ethical track record is entirely relevant to what they do today.
Poucas empresas têm o controle de quase metade das sementes vendidas comercialmente no mundo. Elas conseguem ditar como agricultores cultivam e quais alimentos vão parar no nosso prato. Mas como chegamos a esse ponto? E dá para reverter essa situação?
A agricultura há anos vem se mostrando dependente de pesticidas para garantir a oferta abundante e diversificada de comida. São substâncias químicas que podem causar problemas em toda cadeia de produção, inclusive para o consumidor. Não existiria uma forma de manter a rentabilidade agrícola a um menor custo ambiental – e humano?
- O quão perigoso é o glifosato? O glifosato é um herbicida usado em todo o mundo, no entanto pesquisas mostram algumas desvantagens do uso da substância. Estudos concluíram que o agrotóxico é prejudicial para microrganismos e pode causar cancro.
Evitaríamos muito da crise que estamos a viver.E tem razão quando fala de matriarcado. As mulheres na Índia mais antiga eram verdadeiras guardiãs da biodiversidade e das árvores.
A Dra. Vandana Shiva, partindo do amor à vida e à liberdade, propõe o ecofeminismo como uma resposta ao capitalismo patriarcal que, depois de haver colonizado a natureza, as mulheres e o futuro, está nos levando a destruição e morte. Ela também indica aproveitar a janela de dez anos que ainda temos para salvar o planeta e, com isso, a humanidade e a vida.
Obras destacadas "Staying Alive: Women, Ecology, and Development", "The Violence of the Green Revolution: Third World Agriculture, Ecology, and Politics" e "Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace"
O retrato estarrecedor que Pablo Piovano fez dos efeitos do agrotóxico glifosato em habitantes da zona rural na Argentina, não é recente, mas continua atual e necessário. Durante dois anos, ele fotografou adultos e crianças muito doentes e deformados- alguns em estado terminal -, que vivem (ou viviam) nas províncias de Missiones, Córdoba, Entre Rios e Chaco, mas tomei conhecimento desse trabalho somente na semana passada, num post do engajado e sempre atento Caetano Scannavino (ONG Saúde e Alegria), no Facebook.
(Como já contei, aqui, no Conexão Planeta, o glifosato é o mesmo veneno que provocou câncer em XXXX DeWayne Johnson, jardineiro californiano em estado terminal, que está processando a Monsanto, a gigante dos agroquímicos, recentemente comprada pela Bayer, que também produz sementes e alimentos transgénicos. Se ganhar, ele entrará para a história e ajudará a transforma-la)
Fiquei atónita com o que vi e li sobre Pablo e esse trabalho documental e, ao mesmo tempo, apaixonada por seu ativismo. Quem, aqui no Brasil, se prontificaria a fazer o mesmo que ele? Não importa o lugar no mundo, a história é sempre a mesma. Lembram de Erin Brokovich, a ativista brilhantemente interpretada por Julia Roberts no cinema? No final deste post, incluí o trailler que já revela a coragem dessa personagem da vida real (além de seu profundo respeito pelas mulheres, com seu feminismo natural). É por causa de gente como ela e Pablo que eu acredito que essas grandes corporações do veneno – e todos seus aliados – hão de acabar.
O fotojornalista argentino tem 37 anos e trabalha no jornal Página/12 desde os 18. Só pra ilustrar: essa publicação, com sede em Buenos Aires, pertence a uma empresa de mídia gerida pela Fundação dos Trabalhadores da Construção e seu diretor é sindicalista.
Pablo tem interesse especial por narrativas que revelam nossa complicada relação com a natureza, como é o caso desse trabalho de denúncia, que chamou de O Custo Humano dos Agrotóxicos.
Muito atento, ele identificou que os efeitos dos agrotóxicos não eram cobertos pela mídia tradicional, mas, na sua opinião, mereciam espaço. E grande. Foi então que, em 2014, a Fumigated Peoples Doctors Network divulgou dados alarmantes, como, por exemplo, “por ano, 370 milhões de litros de agroquímicos são despejados em 60% das terras cultivadas na Argentina”. Isso significava que o país tinha uma das maiores taxas de glicofosato/pessoa no planeta: 7,6 litros. Pasme! E, aí, Pablo resolveu se engajar, com sua expertise, na luta contra essa indústria assassina.
Em entrevista para o site Telam, em 2016, ele contou sobre a primeira foto que fez. Foi em Basavilbaso, na província de Entre Rios: “Fotografei Fabián Tomasi (foto abaixo) que, de alguma forma, é a voz desta causa e quem me guiou. Foi o primeiro, mas também o último que fotografei. Seu corpo está muito dilacerado, deram-lhe alguns meses de vida. É um homem de 50 anos, que trabalhou no carregamento e descarregamento de agroquímicos e sofreu politraumatéria tóxica grave”.
O registro minucioso do impacto devastador provocado pelo uso indiscriminado de agroquímicos, no nordeste rural da Argentina, rendeu livro (publicado em 2017 pela Kehrer Verlag, na Alemanha), documentário (link no final deste post), prêmios, uma bolsa de estudos e uma exposição que percorreu algumas cidades da Europa e da América Latina: México, Italia, França, Espanha, Finlândia, e ainda promete um tour pela Argentina.
Enquanto ainda viajava produzindo mais material, Pablo teve esse trabalho reconhecido pela Phillip Jones Griffiths Foundation. Ganhou o primeiro lugar no prémio da instituição pelo “trabalho bonito e importante sobre o uso e efeitos dos pesticidas na produção de alimentos na Argentina”. Esse reconhecimento coincidiu com o primeiro julgamento de assassinato por agroquímicos (uma criança de quatro anos morreu em Lavalle, Corrientes, só por respirar o veneno) realizado no país. Isso aconteceu um ano e meio depois que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu que o glifosato pode causar cancro.
Pablo também apresentou O Custo Humano no Tribunal Internacional Monsanto, que aconteceu entre 2015 e 2016, em Haia, Holanda. Afinal, o glifosato é produzido por ela.
Enquanto existirem indústrias produzindo veneno pra ser pulverizado na comida – como Monsanto/Bayer, Bunge, Cargill, Syngentha, entre outras -, que se escoram em seu poder financeiro e no lobby que promovem com políticos para espalhar mentiras e morte, sem punição, trabalhos como o de Pablo Piovano são necessários e devem ser sempre lembrados.
No Brasil, lutamos contra a aprovação de um projeto de lei – o PL do Veneno: 6299/2002 – criado para liberar a venda de agrotóxicos (proibidos em outros países), sem qualquer restrição e responsabilidade pelos efeitos. Só pra destacar um de seus pontos mais revoltantes, o PL isenta os fabricantes de alertar os usuários para o perigo de seu manuseio.
Então, olhem bem para as imagens capturadas por Pablo e apresentadas com legendas detalhadas em seu site. Aqui, reproduzo apenas algumas para ilustrar este post.
Os seres humanos que nelas aparecem, tiveram sua saúde e seu futuro ceifados. É desesperador ver, no documentário, o trecho em que um menino muito pequeno se incomoda com sua pele tão castigada e envelhecida pelo veneno (ele está na primeira e na segunda fotos, abaixo, também). Ou os rostos deformados de um homem e de uma criança. Ou ainda o corpo atrofiado de uma jovem, ou muito curvado e magro, de Fabián. E isso não acontece somente no nordeste rural da Argentina. Aqui, no Brasil, também.