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domingo, 26 de julho de 2026

Xénia - A regra de Zeus

Zeus Xenios-Philoxenon
A Odisseia de Christopher Nolan pode não ser totalmente fiel ao poema épico de Homero mas tem o dom de por toda a gente a falar desta obra fundamental que, com a Ilíada, fundou a chamada civilização ocidental. Interessa pouco a escolha dos intérpretes  de alguns personagens, pois no fundo todos eles são inadequados já que não há gregos entre o cast, o que até é bastante insultuoso para a Grécia. 

Adiante. O que mais importa na Odisseia é que se tornou numa obra universal e ainda hoje pode ser entendida por todos, desde japoneses a congoleses: é um épico de provação e superação das dificuldades que podia ocorrer em qualquer civilização. E está tão bem relatado, que se torna no primeiro livro de aventuras digno desse nome. E a regra de Zeus (xénia), da hospitalidade obrigatória aos que chegam, de dar comida, bebida e abrigo sem perguntar nada e a gratidão intrínseca que os migrantes devem ter aos seus hospitaleiros ainda hoje tem eco nos migrantes actuais. 

Essa regra foi quebrada por Ulisses e também por alguns dos hospitaleiros, como Polifemo, e isso levou às desgraças que cada um teve de sofrer. E esta regra de Zeus não podia ser mais actual, pois ainda hoje a quebramos constantemente com os emigrantes, sejam os desgraçados africanos que atravessam o Mediterrâneo, sejam os hindus que povoam Lisboa que são rejeitados pela extrema-direita, sejam os latinos expulsos pelo ICE nos EUA. 

Daí o termo xenófobo, que é o contrário de bem-receber e à regra de Zeus, que podia ser de Deus, o tal que unificou o Olimpo num só omnipotente ser divino, que com todos os seus poderes não consegue aplacar as atrocidades que se cometem todos os dias contra emigrantes e não só.

Ler mais:
Deconstruction in a nutshell : a conversation with Jacques Derrida

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Meta-análise global revela os países menos racistas do mundo em 2026


Analisar a informação aqui
O racismo é a crença de que uma determinada raça é inferior ou superior a outra e de que as características biológicas de uma pessoa predeterminam os seus traços morais ou sociais. Quem perfilha crenças racistas pode encarar outras raças como menos dignas e, em casos extremos, até como subumanas. O racismo pode assumir muitas formas diferentes e manifestar-se de variadas maneiras, sendo tipicamente influenciado por diversos fatores culturais, religiosos, económicos ou históricos.

Ao longo da história da humanidade, o racismo sempre esteve presente, tendo influenciado guerras, a escravatura, códigos jurídicos, a ascensão e queda de nações e, talvez mais importante, o quotidiano de milhões — ou possivelmente milhares de milhões — de pessoas. O racismo demonstrado pelas potências ocidentais face a populações não ocidentais no século XX teve um impacto particularmente profundo na história, de forma mais notória na escravatura forçada de milhões de africanos. Nos Estados Unidos, a escravatura foi a principal causa da Guerra Civil. Além disso, o racismo continua a ecoar nos EUA modernos em eventos como o crescimento do movimento Black Lives Matter e os protestos de 2020-21 na sequência dos homicídios de George Floyd e Breonna Taylor.

Medir a tolerância racial de um país com precisão é um verdadeiro desafio. O racismo não é um número simples, como a população ou o rendimento médio; reveste-se de muitas formas, sendo perfeitamente possível que uma pessoa, grupo social, cultura ou país conviva pacificamente com uma raça ou situação, mas seja completamente intolerante em relação a outra. Por exemplo, uma pessoa de etnia caucasiana que não tenha qualquer problema em viver ao lado de um vizinho asiático pode opor-se firmemente a que uma pessoa negra se junte à sua família pelo casamento. Do mesmo modo, como a maioria dos respondentes em inquéritos tem consciência de que o racismo não é propriamente visto com bons olhos na sociedade atual, a veracidade e a honestidade das respostas podem ser difíceis de verificar. Devido a estas complicações, os investigadores recorrem habitualmente a sondagens para recolher informação sobre a consciência pública, combinando depois múltiplas perguntas, inquéritos ou estudos para determinar o verdadeiro nível de tolerância racial de um país.

O World Values Survey (WVS) é um programa de investigação internacional que estuda os valores sociais, políticos, económicos, religiosos e culturais, incluindo a tolerância racial e o racismo. Este inquérito coloca dezenas de perguntas a respondentes de mais de 80 países, incluindo uma que solicita a identificação de tipos de pessoas que não desejariam ter como vizinhos. Quanto maior for o número de pessoas de um determinado país a responder que ficaria satisfeita por ter um vizinho de uma raça diferente, mais tolerante do ponto de vista racial é considerado esse país. Já o relatório anual Best Countries, um esforço conjunto da U.S. News and World Report, do BAV Group e da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, adicionou perguntas específicas sobre tolerância racial ao seu relatório de 2023 que, tal como o de 2024, inquiriu mais de 17.000 pessoas em 36 países.

De uma forma geral, os países mais tolerantes em ambos os estudos foram os países escandinavos, os países latinos, o Reino Unido e as suas antigas colónias (Austrália, Canadá e Nova Zelândia). Em contrapartida, os países menos tolerantes do ponto de vista racial (Catar, Sérvia, Arábia Saudita, Irão) tenderam a situar-se em África e na Ásia. Houve também exceções. Por exemplo, embora outras antigas colónias britânicas se tenham posicionado perto do topo da lista, os Estados Unidos ocuparam o 55.º lugar num total de 89 países em 2024, em grande parte devido àquilo que é frequentemente visto como racismo institucionalizado em áreas como o emprego, a educação e o sistema de justiça criminal. Por outro lado, o Paquistão apresenta vários fatores que costumam coincidir com a intolerância racial - tais como baixos índices económicos e humanos e uma violência sectária notória -, contudo, apenas 6,5% dos paquistaneses se opuseram a ter um vizinho de uma raça diferente.

Por fim, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD) é uma convenção das Nações Unidas comprometida com a erradicação da discriminação racial, exigindo que todas as partes signatárias proíbam o discurso de ódio e criminalizem a filiação em organizações racistas. 

Fontes

domingo, 5 de julho de 2026

Agora o partido Chega desmistifica o pós-verdade - normaliza a mentira que foi espalhada




Portugal é muito "suave" com estes cheganos. A filha do Jaime Nogueira Pinto consegue ser mais extrema-direita que o seu pai. E não sei o futuro, mas nada me parece ser optimista, para quem defende a esquerda e pensadores como Fourier, Owen e Saint Simon. Vejamos o caso da Alemanha. A Alemanha destaca-se internacionalmente por ter um dos ecossistemas de maior escrutínio, regulação e resistência institucional contra a desinformação, embora enfrente uma pressão sem precedentes de campanhas massivas da extrema-direita e de agentes externos, como redes de desinformação russas.
Esta forte resistência alemã baseia-se em três pilares principais. O primeiro é o rigor legislativo, onde o país foi pioneiro global com a lei NetzDG, que obriga as redes sociais a remover discursos de ódio e notícias falsas criminosas em até 24 horas sob pena de multas multimilionárias, servindo de base para a atual Lei dos Serviços Digitais da União Europeia. O segundo pilar é a comunicação social pública forte e confiável, mantendo um sistema de radiodifusão altamente robusto, financiado pelos cidadãos e protegido de interferências governamentais, o que garante níveis de confiança consistentemente elevados na população. O terceiro pilar assenta numa sociedade civil ativa e em consórcios de verificação de factos, com coletivos independentes como o Correctiv a gerar impactos históricos ao expor esquemas e reuniões secretas da extrema-direita, mobilizando milhões de cidadãos em protestos de rua em defesa da democracia.
Apesar deste forte escrutínio, a extrema-direita tem conseguido contornar os filtros tradicionais através de estratégias digitais altamente sofisticadas. O partido Alternative für Deutschland e os seus influenciadores dominam redes visuais como o TikTok, superando largamente os partidos tradicionais no alcance orgânico junto do eleitorado mais jovem através de vídeos curtos que misturam sátira, pânico moral e desinformação. A esta estratégia soma-se o uso intensivo de inteligência artificial para a criação de deepfakes e a estreita ligação com campanhas de influência russas, como a rede Doppelgänger, focadas em polarizar debates sobre imigração e geopolítica. Assim, embora o escrutínio e a reação da sociedade alemã sejam rigorosos, a velocidade e a sofisticação tecnológica destas ofensivas continuam a testar os limites das defesas democráticas do país.

O video foi extraído do Programa Ás Avessas de 30 de Maio. Ver aqui o debate completo.

sábado, 4 de julho de 2026

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.


Also recall the episode of a tweet by George Bush's brother in 2016. The tweet was published by Jeb Bush on February 16, 2016, during his campaign for the Republican Party presidential primaries. The post is extremely minimalist and consists of just one image: a photograph of a .45 caliber semiautomatic pistol (an FNX-45) with the inscription "Gov. Jeb Bush" engraved on the barrel. The caption simply read "America." The tweet immediately went viral and generated a massive wave of criticism, memes, and parodies on a global scale. Users from all over the world began responding with photos of typical objects from their own countries using the same monotonic caption. In 2020, Anja Thaler made a homonymous music video "America is a Gun", based on this story.

domingo, 7 de junho de 2026

Vergonha do Dia D! Pete, do Pentágono, envergonha os nossos heróis caídos da Segunda Guerra Mundial na cerimónia da Normandia ao comparar os barcos dos migrantes à invasão aliada contra os nazis!


O secretário para os Crimes de Guerra, Pete Hegseth, teve um comportamento extremamente desrespeitoso na comemoração do Dia D, hoje, na Normandia, aproveitando o evento solene para promover uma retórica anti-imigrante.

Enquanto se encontrava nas praias sagradas onde as forças aliadas lançaram a maior invasão da história para libertar a Europa da ocupação nazi, Hegseth afirmou:

«Hoje, diferentes praias europeias são invadidas por diferentes ideologias perigosas. Em Espanha, Itália, Grécia e Bulgária, chegam barcos e homens. Quando é que as capitais europeias farão algo em relação a essa invasão? Ou será que já é tarde demais?» [aqui]

Meu Deus. O Dia D foi o momento em que as tropas americanas, britânicas, canadianas e outras forças aliadas arriscaram tudo para invadir aquelas praias e derrotar o fascismo. Um dia em que parecia realmente que o futuro do mundo estava por um fio.

Desvalorizar a 82.ª comemoração desse dia com posturas políticas xenófobas e sem sentido sobre a migração é simplesmente inconcebível.

Em nome do punhado de jovens heróis que ainda estão entre nós com 100 anos ou mais, pedimos desculpa em nome do povo americano.

Num dos locais mais sagrados e históricos do mundo, o trumpista Hegseth nem sequer conseguiu mostrar algum respeito básico pelos que morreram, deixando a política de fora, por uma vez.

Que vergonha, Pete. Cala-te, porco.

Testemunho de Robert Reich
Toda Verdade aqui

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Noruega destaca-se como “o país europeu que mais portugueses expulsou” em 2025?


Não. Em 2023, o Polígrafo já tinha verificado um post onde era visível um artigo do “Público”, ilustrado com os retratos de oito indivíduos negros, que supostamente teriam sido expulsos da Noruega. A notícia, apesar de verdadeira, não tem qualquer relação com a imagem utilizada. Agora, repete-se a alegação, completamente desprovida de contexto.

O artigo foi publicado em 2022 e, consequentemente, diz respeito a 2021. Nesse ano, dos 370 portugueses deportados, 276 (74%) foram realmente expulsos de países europeus, sendo que, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2021, 95 desses foram obrigados a abandonar a Noruega, mais do que qualquer outro país. As autoridades norueguesas especificaram ainda que o número não só engloba expulsões, como também recusas de entrada e permanência.

A estatística, no entanto, volta a ser partilhada em 2026, referindo-se assim ao ano de 2025. Ora, o RASI de 2025 aponta para um total de 352 portugueses que receberam ordens de saída em todo o mundo, dos quais 219 foram afastados de países na Europa. Ao contrário do registado em anos anteriores, a Noruega não consta sequer dos países referidos neste contexto.

Tal como mencionado, as fotografias que acompanham o post não mostram portugueses afastados de qualquer país. Na realidade, são retratos de criminosos detidos em 2017 por tráfico de droga em Londres. De facto, alguns dos homens detidos têm nomes em língua portuguesa, como Bruno da Silva, Evanildo Gomes ou José Mário Sá. Porém, nenhuma das penas aplicadas consistiu na expulsão de qualquer um dos condenados, cujas penas variaram entre nove meses e quatro anos de prisão.

Em conclusão: os números indicados na publicação estão desatualizados e, no último ano (2025), a Noruega não foi o país europeu que mais portugueses deportou; as imagens não correspondem a indivíduos de nacionalidade portuguesa, nem a indivíduos deportados da Noruega. Duas falsidades numa mesma publicação.

domingo, 17 de maio de 2026

Estudo mostra que notícias falsas estão no DNA da extrema‑direita

Cimeira da extrema-direita europeia em Madrid (2025)

O estudo “Quando os partidos mentem? Desinformação e populismo da direita radical em 26 países”, publicado na revista científica The International Journal of Press/Politics, revela que extrema-direita é significativamente muito mais propensa a disseminar notícias falsas nas redes sociais do que qualquer outro campo político.

Os cientistas holandeses dedicaram-se ao estudo das publicações feitas entre 2017 e 2022 na rede social X por todos os parlamentares de 26 países. Nestes se incluem 17 membros da União Europeia, mas não Portugal, para além de países como os EUA, o Reino Unido e a Austrália. Um total de 8.198 deputados ou equivalentes e 32 milhões de publicações. As ligações a páginas partilhadas pelos deputados, cerca de 18 milhões, foram depois comparadas com as páginas utilizadas por serviços de “fact-checking”, a verificação de factos, e de monitorização de notícias falsas, analisando a fiabilidade das fontes. Os dados mostram que a extrema-direita é “o determinante mais forte para a propensão a espalhar desinformação”, sendo que deputados dos outros campos políticos, da direita até à esquerda mais radical “não estão ligados” a esta prática.

A conclusão, portanto, é que “a desinformação política deve ser entendida como parte integrante da atual onda de populismo radical de direita e da sua oposição à instituição democrática liberal”.

Afastada fica a teoria de que a desinformação era parte de uma prática política “anti-elitista” identificada como “populismo” já que partidos e parlamentares de esquerda que tinham sido como tal identificados não se dedicam à disseminação de mentiras.

Outra das ideias que se podem retirar da investigação é a “relação simbiótica” entre extrema-direita e uma constelação de meios de comunicação social ditos “alternativos” que têm servido precisamente para fortalecer este tipo de mensagens ideológicas baseadas na exclusão e na hostilidade para com as instituições democráticas.

Um dos co-autores do estudo, Petter Törnberg, da Universidade de Amesterdão, sintetiza que “os populistas da direita radical estão a utilizar a desinformação como ferramenta para desestabilizar as democracias e ganhar vantagem política”. Ele defende que é “urgente que decisores políticos, investigadores e público compreendam e lidam com as dinâmicas interligadas da desinformação e do populismo de direita radical”.

sábado, 25 de abril de 2026

De James Monroe a Donald Trump


Entre a escravatura silenciada e a “regeneração nacional” trumpista, o que une as mensagens presidenciais não é a grandeza imperial, mas a tentativa de conter, em cada época, as fissuras abertas pelos de baixo.

Mais ou menos eficazes, os discursos governamentais estão carregados de ideologias e as suas análises requerem, entre outros procedimentos, o exame das estruturas e práticas sociais no interior das quais foram produzidos. Isto pode evitar a disseminação de abordagens unilineares e teleológicas que considerem os processos históricos como resultantes, fundamentalmente, da inquestionável vontade dos dominantes. Esta temporalidade de uma nota só bloqueia a perceção de contradições complexas e facilita a perceção da história como um processo imune a múltiplas formas de resistência e mesmo a revoluções advindas, em grande parte, da iniciativa dos dominados e dominadas.

A 2 de dezembro de 1823, o presidente dos EUA, James Monroe, apresentou uma mensagem ao Legislativo dos EUA acerca da política do conjunto da sua gestão governamental. Um dos eixos do discurso era o complexo processo de territorialização do jovem país. Oito décadas mais tarde, em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt explicitou que, em relação ao novo contexto internacional, a mensagem que enviava ao Congresso atualizava as formulações de James Monroe.

Em novembro de 2025, Donald Trump, agora em cumprimento da Lei Goldwater-Nichols, enviou uma mensagem às duas Câmaras legislativas, na qual também afirmou que, no que toca à política internacional, especialmente com vista ao Hemisfério Ocidental, produziu o que ele próprio intitulou Corolário Trump.

A América para os americanos
Mesmo ausente do texto escrito, a famosa frase expressa, em termos muito gerais, a mensagem de 1823. Mas, de James Monroe ao MAGA, fica o problema: qual América?

Já no início, James Monroe justificou a sua mensagem com a referência à soberania do povo, pilar de um “sistema político” (expressão do próprio) que, fruto de “nossa revolução” (a independência dos EUA), é condição para que os seus cidadãos sejam os mais prósperos e felizes do mundo. Neste sentido, o presidente afirmou que a escolha de tal sistema pelos movimentos de independência fazia com que qualquer interferência das metrópoles fosse considerada uma agressão aos próprios EUA.

Em todo o texto, James Monroe (de onde veio o nome Monróvia, da atual Libéria) não se referiu aos escravos, cuja exploração era a base da economia do sul, inclusive da Virgínia, onde nasceram ele e mais três dos quatro primeiros presidentes dos EUA. Nem à Lei dos Três Quintos, que contabilizava 60% dos escravos em cada estado para fins de aumento da bancada dos sulistas na Câmara dos Representantes. Na única menção aos indígenas, James Monroe elogiou a repressão aos Arikaees, devidamente punidos pelo ataque para que o “espírito hostil” não se estendesse a outras tribos. Medidas “para conter o mal”, sentenciou (p. 6).

Nos idos de 1823, os EUA eram uma formação social com a forte presença de relações pré-capitalistas, uma classe dominante nacionalista, inclusive a fração esclavagista, sequiosa por ampliar a fronteira agrícola; um expansionismo que era conduzido em sentido mais estratégico pelos dirigentes da política estatal. A produção e exportação algodoeira para a indústria inglesa acelerava-se, mas com tecnologia ainda anterior à explosão dos anos 1830. Várias condições favoreciam uma agressiva política estatal de produção de uma territorialidade que articulasse a escravatura, no sul, e a dominação burguesa, a norte.

Esta relação de unidade e contradição entre o escravagismo e o capitalismo embrionário manifestava-se, inclusive, nas complexas negociações em torno dos impactos da incorporação de cada novo território, pois, ao implicar o acolhimento ou a rejeição do escravagismo, gerava efeitos sobre a correlação política interna do país. A questão da territorialidade também produzia tensões relativas às Caraíbas como rota comercial e/ou em termos militares.

A cada um, a sua revolução
James Monroe também silenciou sobre a única revolução de escravos vitoriosa da história, ocorrida no que é, desde então, o Haiti, com enorme repercussão nas três Américas e na Europa. A mensagem operou um corte entre relações de produção e sistema político, o que lhe permitiu legitimar, no plano discursivo, uma ordem escravagista. Não constituídos estruturalmente como sujeitos, os escravos não podem (?) fazer uma revolução.

Apropriações sociais de leitura: desde crianças, “sabemos” que James Monroe, uma espécie de Pai Natal, foi o primeiro governante a reconhecer a independência do Brasil, este país imperial escravagista. Pouco se ensina que, tal como os seus antecessores Jefferson e James Madison e todos os que o sucederam até à Guerra de Secessão, Monroe não reconheceu a independência do Haiti. Até propositadamente, a sua mensagem teve pequena repercussão imediata e só recebeu o nome de doutrina quando, cerca de duas décadas mais tarde, foi apropriada por patriotas preocupados em salvar a “América”, vista como nação branca ilhada pela decadência do escravagismo na Europa, em países independentes da América e mesmo em colónias francesas e britânicas.
Outras apropriações sociais vieram.

O populismo antissistema de Andrew Jackson
A ligação de Donald Trump a Andrew Jackson não é apenas uma preferência histórica passageira, mas sim uma escolha estratégica e pessoal que molda profundamente a sua identidade política. Para compreender esta admiração, é necessário olhar para Jackson como o grande divisor de águas da democracia americana no século XIX, uma vez que ele foi o primeiro presidente a não pertencer à elite aristocrática da Virgínia ou de Massachusetts. Sendo um militar de origem humilde, conhecido pelo seu temperamento explosivo e por uma lealdade feroz aos seus seguidores, Andrew Jackson serve de espelho para Trump, que se apresenta como uma figura externa ao sistema que chegou ao poder com a missão de o limpar e de devolver o governo aos cidadãos comuns.

O ponto central desta identificação reside no populismo antissistema, pois tal como Trump critica frequentemente a burocracia de Washington, também Jackson travou uma guerra aberta contra o Segundo Banco dos Estados Unidos, por o considerar uma ferramenta de corrupção das elites financeiras contra o trabalhador comum. Trump vê nesta postura de combatente o arquétipo do líder forte que não se verga às normas da etiqueta política sempre que estas interferem na sua agenda. Este simbolismo tornou-se evidente logo na tomada de posse de 2017, quando Trump escolheu o retrato de Jackson para decorar a parede da Sala Oval, enviando a mensagem clara de que não governaria como um republicano tradicional, mas como um herdeiro do Jacksonianismo, focado no nacionalismo económico e numa relação direta com a sua base eleitoral.

Além disso, Trump admira a resiliência física e política de Andrew Jackson, um homem que sobreviveu a duelos e enfrentou processos no Congresso sem nunca recuar. Para Trump, a política é vista como uma arena de força onde a vontade do povo, representada pelo líder, deve prevalecer sobre as instituições que tentam contê-la. Em suma, Jackson é o modelo ideal para Trump porque forneceu um precedente histórico para o seu estilo de liderança, sendo simultaneamente um herói para os seus apoiantes e uma figura profundamente disruptiva para os seus opositores.

Theodore Roosevelt e a aurora do imperialismo estado-unidense
Trinta anos após a Guerra de Secessão, os EUA não só se tornaram a primeira economia mundial como ingressaram no estágio imperialista do capitalismo. Ao lado de um extraordinário processo de acumulação e centralização de capital, deu-se uma intensa imigração – e, com ela, mais racismo – e o colonialismo de novo tipo. Houve um empobrecimento do campesinato e ampliação do número de trabalhadores urbanos, grande parte em situação de miséria nas grandes cidades industriais. Cresceram as mobilizações de massas e politizaram-se lutas, inclusive processos eleitorais.

Por intermédio da guerra com a Espanha, iniciou-se uma grande ofensiva sobre as Caraíbas, com o domínio de Cuba e Porto Rico, e, na bacia do Pacífico, a conquista do Havai, Ilhas de Guam e das Filipinas, onde haveria forte e heróica resistência popular. Enfim, a grande América em expansão marítima.

Tal como a mensagem de James Monroe, a de Th. Roosevelt era otimista. Ele afirmou que, numa sequência de bons governos, a prosperidade era notável e havia aprovação popular. Tudo isto dinamizado pelo industrialismo, a “nota dominante da sociedade moderna” e, com isso, a importância das relações capital-trabalho, “especialmente capital organizado e trabalho organizado” (p. 1). Ao contrário do silêncio de Monroe sobre os produtores diretos, Th. Roosevelt dedicou cerca de 11 das 33 páginas da sua mensagem a esta relação, referindo-se a políticas intervencionistas em múltiplas esferas da vida social: do direito dos trabalhadores se organizarem para se defenderem contra “abusos das grandes corporações” ao trabalho infantil e da mulher grávida, acrescentando que o maior dever da mulher é “ser mãe, dona de casa” (p. 10).

Mas, acima de tudo, defendia a responsabilidade e a tolerância entre capitalistas e assalariados. Ele próprio racista, declarou-se contra o preconceito em relação a migrantes e negou que houvesse riscos de chegarem em excesso, desde que fossem “do tipo certo”. No plano externo, expandiu a área de influência nas Caraíbas e na Bacia do Pacífico, onde forçou a política de portas abertas na China e arbitrou o conflito entre os impérios Japonês e Russo, o que lhe assegurou, em 1906, o Nobel da Paz.

James Monroe declarou opor-se à intervenção de potências europeias nos processos em curso pela independência na América porque estes adotavam um “sistema político” semelhante ao dos EUA e, portanto, superior ao delas. E, ao dirigir-se a elas, a sua posição era altiva, mas defensiva.

Já a mensagem de Th. Roosevelt era explicitamente agressiva. Alertava para os males que ocorreriam se, na ausência de “algum grau de controlo internacional sobre as nações infratoras”, as “potências mais civilizadas… de maior senso de obrigação internacional e com a mais aguda e generosa apreciação do certo e do errado, se desarmassem” (p. 29). Daí a importância de, sempre que necessário, elas, armadas, exercerem um poder de polícia internacional (id.).

A aparente mitigação do hobbesianismo primário ficava por conta da comunhão de interesses entre atacante e atacado. “Os nossos interesses e os dos nossos vizinhos do sul são… idênticos” (p. 30); ou as Filipinas não precisavam de “independência alguma…” (p. 36). E, num esforço de síntese transoceânica, afirmou que, “em relação a Cuba, Venezuela e Panamá, ao esforçarmo-nos para circunscrever o teatro de guerra no Extremo Oriente e para assegurar a abertura das portas na China, agimos no nosso próprio interesse, bem como no interesse da humanidade em geral” (p. 31).

domingo, 15 de março de 2026

ROME – Hate Us And See If We Mind


[Verse 1]
We could never have won this;
We were fighting blind
Now we've all but conquered fate
So hate us, and see if we mind
Washing off the dust
Like the first rains of the raining season
And encircling rage and reason, we postponed our grieving
But the rains, they never seem to come

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]
All over
All over

[Verse 2]
To this house of stone we flock
Hiding like the snails between the reeds and rocks
And they'll be searching the valleys in vain
As we'll be waiting for the rain
A nation reborn; a lame shepherd
One must wait and go for the throat when hunting leopard
Now, we're blinking back each tear
There's no changing the balance of fear
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One Fire
Rome
The River Eternal
Rome
A Country Denied
Rome
[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know It's all over

[Outro]
All over
All over
All over

"Hate Us And See If We Mind" (Odeie-nos e veja se nos importamos) é uma música de desafio e resiliência.
Estoicismo e isolamento: a letra fala sobre manter a própria posição e identidade, independentemente do julgamento externo ou do ódio alheio. É um hino àqueles que vivem à margem ou que escolheram um caminho difícil e impopular.
Identidade europeia: como é comum no ROME, há uma camada de melancolia sobre o destino do continente. A canção sugere um orgulho silencioso e uma resistência contra a homogeneização do pensamento moderno.
Referência histórica: o título ecoa o lema romano Oderint dum metuant ("Que odeiem, desde que temam"), mas Jerome Reuter o transforma em algo mais introspectivo: não se trata de causar medo, mas de uma indiferença soberana perante a hostilidade do mundo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O ódio, por Maya Angelou

Biografia

"Hate has caused a lot of problems in this world, but it has not solved one yet." - Maya Angelou
"O ódio causou muitos problemas no mundo, mas ainda não resolveu nenhum." - Maya Angelou

Esta citação de Maya Angelou é proveniente de uma entrevista concedida à apresentadora Oprah Winfrey, especificamente para o programa "SuperSoul Sunday" da rede OWN (Oprah Winfrey Network). Ao contrário de muitos de seus pensamentos mais famosos, esta frase não foi escrita originalmente num dos seus livros ou poemas, mas surgiu de forma espontânea durante uma conversa profunda sobre perdão, cura e a experiência da comunidade negra nos Estados Unidos.

Na ocasião, a Dra. Angelou explicava a diferença entre a "raiva", que ela considerava uma reação natural e até útil para sinalizar injustiças, e o "ódio", que ela descrevia como uma força puramente corrosiva e estéril. Para ela, o ódio consome o hospedeiro sem nunca entregar uma solução prática para os conflitos humanos. A frase se tornou um dos seus legados orais mais poderosos, sendo amplamente replicada em discursos de direitos civis e redes sociais por sintetizar sua visão pragmática sobre o amor e a resistência.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Os discurso desumano e tácito de André Ventura e o discurso empático e democrático de António José Seguro



Ontem, no discurso de André Ventura, mais uma vez o narcisismo, a auto proclamação e a falta de empatia. No registo oficial do seu discurso focou-se quase exclusivamente no posicionamento político e estratégico e o tom "humanitário" da semana anterior desapareceu no momento final. Nem uma palavra foi dirigida para as vítimas das intempéries que têm assolado Portugal. Alguém reparou nisso?
Durante toda a semana o homem esforçou-se perante as TV's, andou a carregar mantimentos e até chegou a soltar um "que se lixem as eleições".

No seu discurso, António José Seguro, aquele que não se expôs ao populismo hipócrita em tempo de campanha, começou o seu discurso de vitória dirigindo-se a todos aqueles que estão debaixo de calamidade pública. Começar um discurso de vitória endereçando uma calamidade pública não é apenas cortesia; é um reconhecimento da realidade do país acima do triunfo pessoal. Define o tom de quem entende que o cargo é um serviço, e não apenas um prémio.
E isso diz-me muito sobre o Homem que promete exigência e segurança institucional. A direita democrática  votou contra André Ventura!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

[Intro]
Here he comes now

[Verse 1]
Here he comes gliding down the street
Thousand dollar trainers on his feet
All the monkeys part to let him pass
Thinks he's Jesus riding on an ass

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king, dancing the tango
With opinions, roasted minions
Bow as they're kissing the ring

[Chorus]
Saviours are a dangerous thing
Saviours are a dangerous thing

[Verse 2]
Here he comes to sweep you off your feet
With his little orange parakeet
Bringing as he offers something sweet
Suck-suck-suck-suck-sucking on the teat

[Pre-Chorus]
Young Narcissus and his sisters swoon
In the madness they bring, dancing the fandango
Celebration population sings
Dancing the king

[Chorus]

[Bridge]
Far from you, I feel so very far from you
From everything you say and do, I feel so very far from you

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king

[Chorus]

[Outro]
I feel so very far from you
From everything you say and do
I feel so very far from you
From everything you think is true
Here he comes now, saviours are a dangerous thing

Significado da canção
A canção "Saviours Are A Dangerous Thing", lançada pelo The Chameleons em 2024 (do álbum Arctic Moon), é uma crítica contundente ao cenário político global e ao perigo de seguir cegamente figuras messiânicas ou autoritárias.

De acordo com o vocalista e compositor Mark Burgess, o significado central gira em torno de três eixos:

1. Crítica ao Populismo e Autocracia
Burgess afirmou em diversas entrevistas que a letra reflete como as pessoas tendem a buscar "salvadores" em tempos de crise. Ele mencionou especificamente o comportamento de oficiais do governo que "fazem fila para beijar o anel de palhaços" que se comportam mais como reis autoproclamados do que como funcionários eleitos. A música faz referências visuais e líricas (como o "pequeno periquito laranja") que muitos interpretam como uma crítica à figura de Donald Trump e outros líderes populistas similares.

2. Ecos da História (Anos 1930)
O compositor declarou ver muitos paralelos perigosos entre o clima político atual e a década de 1930 na Europa — o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e viu a ascensão do fascismo. A canção alerta que a propaganda sedutora muitas vezes usa a "máscara da esperança" para esconder ideologias perigosas.

3. A Sedução da Propaganda
A letra explora como a humanidade se rende facilmente a promessas vazias de salvação, apenas para acabar presa por "algemas invisíveis". Termos como "Super Nero" e referências a Narciso na letra reforçam a ideia de líderes egocêntricos que queimam o mundo enquanto sorriem, enquanto seus seguidores (os "minions") os adoram cegamente.

Resumo do Conceito
O título já resume a tese da banda: "Salvadores são uma coisa perigosa". A mensagem é um chamado à vigilância individual e ao ceticismo diante de quem promete soluções fáceis para problemas complexos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Há uma guerra aberta entre Elon Musk e o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez


Guerra aberta entre o homem mais rico do mundo e o primeiro-ministro de Espanha. E tudo através do X, a rede social que é propriedade de Elon Musk, e que certamente será uma das empresas afetadas pela mais recente decisão do governo de Pedro Sánchez.

Tudo começa com o governo espanhol a seguir os passos de países como a Dinamarca e a anunciar um limite mínimo de idade para se aceder às redes sociais. A partir de agora, um cidadão que viva em Espanha só poderá fazê-lo se tiver 16 ou mais anos, uma medida que o PSD até quer que seja discutida em Portugal.

Diretamente afectado pela medida, Elon Musk reagiu ao seu jeito, sem meias palavras e a céu aberto. Na conta pessoal da rede social que comprou há uns anos, o homem mais rico do mundo decidiu apelidar Pedro Sánchez de “tirano e traidor do povo de Espanha”.

Isto em resposta a uma publicação feita nas redes sociais em que se detalhava o pacote de cinco medidas com as quais o governo espanhol promete acabar com aquilo que entende ser a impunidade das redes sociais e as suas diretivas.

“Dirty Sánchez”, ou “Sánchez sujo” foi a forma com que Elon Musk se dirigiu ao primeiro-ministro espanhol, numa publicação que a acompanhar tinha um emoji pouco elogioso.

Para Pedro Sánchez, “as redes sociais converteram-se num Estado falido onde se ignoram as leis e se toleram os delitos”. É mesmo um “faroeste”, na visão do primeiro-ministro espanhol, que decidiu dar voz à muita discussão que se tem tido na Europa sobre o controlo destas plataformas.

O processo legislativo terá início na próxima semana. Outras medidas propostas incluem o desenvolvimento de uma "pegada de ódio e polarização", explicou Sánchez, um sistema para monitorizar e quantificar a forma como as plataformas digitais alimentam a divisão e amplificam o ódio.

De resto, e por publicações relacionadas com nudez, o X é mesmo uma empresa visada pela Comissão Europeia neste momento, nomeadamente por causa da sua ferramenta de Inteligência Artificial, o Grok. Ainda esta terça-feira foi confirmado que os escritórios daquela rede social em França foram alvo de uma operação da unidade de crimes cibernéticos do Ministério Público. Em causa está uma investigação sobre suspeitas de extração ilegal de dados e cumplicidade na posse de pornografia infantil.

Em dezembro, a Austrália tornou-se o primeiro país do mundo a implementar uma proibição das redes sociais para menores de 16 anos, impedindo o acesso a 10 plataformas, entre elas Facebook, TikTok, Instagram, Snapchat e X. O Reino Unido está a considerar uma medida semelhante, enquanto França e Dinamarca anunciaram recentemente planos para impedir o acesso às redes sociais a menores de 15 anos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou no mês passado que pretendia acelerar o processo legal para garantir que a proibição esteja em vigor antes do início do novo ano letivo, em setembro.

Outros países europeus estão também a adotar uma postura mais dura em relação às empresas de redes sociais. Sánchez disse que Espanha se juntou a outros cinco países europeus "empenhados em aplicar uma regulação das redes sociais mais rigorosa, rápida e eficaz". Não identificou os países, mas explicou que o grupo realizará a sua primeira reunião nos próximos dias, com o objetivo de coordenar a aplicação das regras além-fronteiras.

"Esta é uma batalha que ultrapassa largamente as fronteiras de qualquer país", concluiu.

Por esta e outras razões, Espanha decidiu agir. “Vamos mudar a legislação para que os diretores das plataformas sejam legalmente responsáveis das múltiplas violações que têm lugar nas suas plataformas”, afirmou Pedro Sánchez.

De resto, este é apenas mais um episódio que confirma que há mesmo uma contenda entre as duas figuras. Há uns dias, ainda em janeiro, o primeiro-ministro espanhol sugeriu que “Marte pode esperar, a Humanidade não”, numa clara referência às críticas de Elon Musk relativamente à regulação da imigração.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Agent Side Grinder - This is Us

Agent Side Grinder
I wanna sit with you
In a melting glow
And watch the fast few pieces fall to shreds
I wanna walk with you
Through a valium rain
And catch the new bright fires in the wind

If you run out of drugs
Run out of lives
Run out of hate
You turn to me
I'll turn to you
We're walking inside
Well, this is here
This is now
Yeah, this is us

I wanna speak with you
In a silent way
And watch the new two hours of the day
I wanna ride with you
In a final screen
And catch with your eyes only when it starts

When you run out of drugs
Run out of lives
Run out of hate
You turn to me
I'll turn to you
We're walking inside
Well, this is here
This is now
Yeah, this is us

As you run out of rage
Run out of life
Run out of hate
You turn to me
I'll turn to you
We're walking inside
Well, this is here
This is now [2X]

A canção expressa um laço profundo entre duas pessoas, compartilhando momentos de vulnerabilidade enquanto o mundo ao redor desmorona, como assistir peças rápidas se desfazerem em um brilho derretido. O vídeo oficial contrasta com o estilo industrial da banda, capturando melancolia num campo de futebol deserto numa noite de novembro, sugerindo solidão e reflexão emocional

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

FIFA’s Gianni Infantino faces ethics complaint over Trump peace prize


FIFA President Gianni Infantino’s effusive praise for Donald Trump and the decision by the world football governing body to award a peace prize to the US president have triggered a formal complaint over ethics violations and political neutrality.

Human rights group FairSquare said on Tuesday that it has filed a complaint with FIFA’s ethics committee, claiming the organisation’s behaviour was against the common interests of the global football community.

The complaint stems from Infantino awarding Trump FIFA’s inaugural peace prize during the December 6 draw for the 2026 World Cup to be played in the United States, Canada and Mexico in June and July.

“This complaint is about a lot more than Infantino’s support for President Donald Trump’s political agenda,” FairSquare’s programme director Nicholas McGeehan said.

“More broadly, this is about how FIFA’s absurd governance structure has allowed Gianni Infantino to openly flout the organisation’s rules and act in ways that are both dangerous and directly contrary to the interests of the world’s most popular sport,” said McGeehan, head of the London-based advocacy group.

According to the eight-page complaint from the rights group filed with FIFA on Monday, Infantino’s awarding of the peace prize “to a sitting political leader is in and of itself a clear breach of FIFA’s duty of neutrality”.

“If Mr. Infantino acted unilaterally and without any statutory authority this should be considered an egregious abuse of power,” the rights group said.


FairSquare also pointed to Infantino lobbying on social media earlier this year for Trump to receive the Nobel Peace Prize for his role in the Israel-Gaza conflict. Venezuela’s Maria Corina Machado ultimately received the prize.

FairSquare said it wants FIFA’s independent committee to review Infantino’s actions.

The New York-based Human Rights Watch also criticised FIFA’s awarding of the prize to Trump, saying his administration’s “appalling human rights record certainly does not display exceptional actions for peace and unity”.

Disciplinary action from the FIFA Ethics Committee can include a warning, a reprimand and even a fine. Compliance training can also be ordered, while a ban can be levied on participation in football-related activity. But it remains unclear if the ethics committee will take up the complaint.

Infantino has not immediately responded, and FIFA said it does not comment on potential cases.

Current FIFA-appointed ethics investigators and judges are seen by some observers to operate with less independence than their predecessors a decade ago, when FIFA’s then-president, Sepp Blatter, was removed from office.

Trump was on hand for the World Cup 2026 draw ceremony on Friday, along with Mexican President Claudia Sheinbaum and Canadian Prime Minister Mark Carney.

But it was Trump who received the most attention during the event at the Kennedy Centre in Washington, DC.

During the event, Infantino presented Trump with a gold trophy, a gold medal and a certificate.

“This is your prize; this is your peace prize,” Infantino told Trump.

FIFA also played a video that touched on some of Trump’s efforts towards so-called peace agreements.

Ler mais:

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Alerta: Não Amplifiquem a Propaganda Chegana

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4. Denunciem também na Internet Segura

Cada clique conta!
Não reforcem a máquina de propaganda do Chega! E de outros partidos racistas: ADN
Combatam-na com silêncio estratégico, factos e responsabilidade.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Jan-Werner Müller on Democracy, Populism, and the Perils of Copying the Far Right


Author of What Is Populism? — often described as a “bible” for students and scholars of political science — and of several acclaimed monographs on democracy, populism, and the relationship between leadership and the electorate, the German political philosopher Jan-Werner Müller is among the world’s most incisive and measured voices in the field of democratic theory and the study of populism.

In our conversation — conducted in the aftermath of the assassination of ultra-conservative activist Charlie Kirk — Müller stresses that political polarization in the United States, despite the peculiarities surrounding Donald Trump, is hardly a new phenomenon. At the same time, he dismisses the notion of an inevitable “populist wave,” insisting instead that today’s challenges can and must be met through coherent, programmatic politics.

For Müller, the imitation of far-right rhetoric and priorities represents a mortal danger for Europe’s institutional center-right. The growing strength of extremist forces, he argues, should not be treated as an unavoidable historical trend driven by external factors, but as the outcome of each country’s own political traditions — and of how effectively democratic actors manage to articulate a credible alternative.

Tovima: The assassination of Charlie Kirk comes with the fear that Trump and the Alt-Right will weaponize the incident to impose their agenda against the liberals and Left generally. You claim that populism is about excluding others. Do you fear that today, a line can be crossed in USA, when it comes to political tolerance?
 
JWM:It has been crossed in rhetoric for a long time to already.  In the 1990s, Newt Gingrich, then the speaker of the House and de facto the leader of the Republican Party, demonized his political adversaries as “traitors.”  What we see today was not inevitable, but we also should not pretend that, before Trump, everything had been normal. What is new today is the use of state power to intimidate and even outright suppress free speech at private institutions.
We see a prevalence of right-wing populism, following by the retreat of its left version. Is that related with the Trump phenomenon and what role the establishment conservative elites have played?
It is one of the few robust results of political science that, when center-right elites imitate the far right, the far right wins.  Their rhetoric is legitimated and citizens very often end up choosing the original, rather than the pale copy (plus many of these far right parties have never been in power, so appear as the best vehicle for expressing protest).  Yet the center-right keeps making the same mistake again and again – most recently Friedrich Merz in the run-up to the federal elections in Germany.
 
Tovima: We recently saw a big anti-migration rally in London rally in London. In Japan a far-right party made big election gains. Meloni is in power in Italy and on France National Rally is the biggest party by popular vote in France. The rise of popularity of alt-Right parties how can be stopped politically?

JWM: Everything you mention amounts to a serious challenge, but we should also not assume that somehow there is an inevitable “populist wave.”  Meloni won, but what happened to Salvini?  On the whole, the right-wing bloc in Italy is actually weaker than before.  But that’s just a pedantic point on the side.  The main point is that politicians opposing the far right have to talk with them, but not like them, that is to say: take on policy challenges, of course, but not uncritically adopt the framings of the far right.
 
Tovima: What are the deeper causes for the popularity of those parties? Some analysts tend to emphasize to the abandonment of the working class and their concerns from the Left, others tend to emphasize to the division the identity politics intensify. What’s your opinion on the issue? 

JWM: Very complex question.  Different national contexts matter; there is not one global cause necessarily.  I agree that many working-class voters have abandoned social democratic parties, but, contrary to what you hear very often, it is not the case that a large number of workers has moved over to the far right; rather, they stopped voting altogether.  But it’s not just structural: the far right has become very skillful at waging culture war, all the while making many citizens believe that it is the left who is sowing divisions.  Again: there are structural factors – such as globalization, obviously – but the tactical and strategic choices of elites also matter a great deal.

domingo, 20 de julho de 2025

Espanha. Grupo que apelou a "caçada" a imigrantes com ligações ao Chega


A organização Deport Them Now (DTN), que fez uso da rede social Telegram para apelar a "uma caçada" a imigrantes em Torre Pacheco, na Múrcia, tem uma densa rede de ligações a partidos europeus de extrema-direita, entre os quais o Chega.

De acordo com o El País, o grupo marcou presença na Cimeira da Remigração, evento que ocorreu em maio passado, em Gallarate, em Itália, e que reuniu cerca de 400 membros de organizações de extrema-direita a nível europeu, incluindo os partidos Alternativa para a Alemanha, Fórum da Democracia (Países Baixos), Partido Nacional (Irlanda), Reconquista (França), Liga (Itália) e Chega (Portugal).

Na edição do próximo ano, há já a intenção de incluir forças como o FPÖ (Áustria), Vlaams Belang (Bélgica), Democratas Suecos (Suécia) e Vox (Espanha).

Aliás, o diário espanhol detalhou que a plataforma de extrema-direita apoiou a manifestação "contra a islamização" convocada pelo partido de Santiago Abascal em Terrassa, Barcelona, a 22 de março. Depois, juntou-se ao Vox para conceber um cartaz que apelava a uma manifestação na Praça Kennedy, em Barcelona, no dia 28 de março, que visava exigir o encerramento do centro municipal de acolhimento de imigrantes em Sant Gervasi.

Aquele meio identificou a existência de 17 conversas por comunidade autónoma, com mais de 1.700 membros, sendo que a correspondente a Múrcia cresceu exponencialmente desde as agressões a um homem de 68 anos, em Torre Pacheco, por um trio de imigrantes.

Num comunicado em que justificava a “caça” aos imigrantes, o grupo acusou os “meios de comunicação social esquerdistas, comunistas e pró-imigração” de “proteger o criminoso magrebino”, em detrimento dos cidadãos espanhóis.

“A população espanhola não tem outra alternativa senão defender-se do criminoso invasor magrebino, que nos agride constantemente, viola as nossas mulheres e rouba e espanca os nossos idosos. […] Sabíeis perfeitamente que isto ia acontecer. Que o povo espanhol não iria tolerar mais agressões. Que o povo espanhol demonstraria a sua força, como temos demonstrado século após século. Não temos o direito de defender a Espanha? A nossa Constituição protege-nos: Artigo 30. Os espanhóis têm o direito e o dever de defender a Espanha”, lê-se.

A mesma nota reafirmava ainda “a convocação de patrulhas de bairro para perseguir os magrebinos delinquentes para os dias 15, 16 e 17 de julho”.

Saliente-se que foram detidas 14 pessoas desde sábado, entre elas os três suspeitos da agressão que serviu como rastilho ao clima de violência em Torre Pacheco, onde 30% da população de 40 mil pessoas é imigrante ou de origem estrangeira.

Outro dos detidos é o líder do DTN em Espanha, identificado como Christian Lupiañez, de 29 anos. O jovem ficou sujeito a prisão preventiva e é suspeito de crimes de incitação ao ódio, pertença a associação ilícita para cometer delitos discriminatórios e posse ilegal de armas, segundo um comunicado do Tribunal Superior de Justiça da Catalunha (TSJC), região onde reside e foi detido.

Na quinta-feira, o governo espanhol deu conta de que a localidade regressou, aparentemente, à normalidade, mas que as forças de segurança vão manter um dispositivo especial em Torre Pacheco.