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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Despejo dos hortelões no Porto - "Misericórdia" só de nome


O caso do despejo dos utentes da Horta Comunitária do Porto deixa-me triste e indignado. Contrariamente ao último relatório da SCMP (2025), que é totalmente positivo - destacando inclusive a atribuição de 62 novos talhões, em 2025, no âmbito do projeto Horta à Porta -, a realidade atual demonstra o oposto.

Uma instituição cujo foco histórico é a "Misericórdia" e o apoio social não pode extinguir um projeto com tanto impacto positivo na comunidade e na sustentabilidade urbana. Com esta decisão, a SCMP comporta-se como uma empresa privada de saúde mental, descurando o facto de que o contacto com o meio ambiente é parte fundamental da terapia e da recuperação dos utentes. Inúmeros estudos clínicos comprovam que tratar a saúde mental ignorando o meio ambiente e a natureza é uma abordagem clinicamente ineficaz. 

Isto traduz-se em pura lavagem verde (greenwashing), fazendo desaparecer, em pouco mais de três meses, uma das maiores hortas urbanas da Europa.

A polémica em torno do fim das hortas públicas da LIPOR no Porto (o programa "Horta à Porta") e o consequente despejo dos hortelãos é o reflexo perfeito de um trade-off político e social - aquele cenário clássico em que, para se ganhar de um lado, tem de se sacrificar o outro, sem que exista uma solução que agrade a todos. No centro da discussão, a postura do executivo liderado por Pedro Duarte ilustra bem esta balança de prioridades.

De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.

Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais. 

Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mild Orange - This Kinda Day

Keep moving
To the out-lies
Of your head

Like an ocean
So often
In change

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
Usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all make sense someday

Keep your eye on
The horizon
Always

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Yeah it's this kinda day
For a long kinda night
Yeah it's this kinda day
For a long kinda night

Let it getaway
Let's get away

'Cause I can tell there's something wrong
And usually it's not like this
All these things inside of our heads
Are okay - this moment too
Will all pass someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday
It's not like you're always like this
Remember how it felt moving forward
But for now - this moment too
Will all make sense someday

Significado
Com uma letra minimalista e repetitiva, a canção aborda a importância da pausa, da autorreflexão e da gratidão. O eu lírico descreve o ato de deitar-se ao sol e refletir sobre as próprias ações passadas, concluindo que a paz daquele dia específico desperta uma vontade incontrolável de dizer "eu te amo". Longe de ser apenas uma declaração romântica tradicional, o refrão funciona como uma expressão de amor à vida, ao momento presente e à sensação de contentamento puro.

O videoclipe da música, dirigido por Simon Oliver e pelo vocalista Josh Mehrtens, aprofunda esse conceito ao explorar visualmente o contraste entre a monotonia do isolamento urbano e a libertação proporcionada pela natureza e pelos laços comunitários. Filmado com uma estética analógica e vintage que evoca nostalgia, o vídeo acompanha jovens que deixam suas rotinas solitárias e fechadas para se moverem em direção às paisagens naturais da Nova Zelândia, como praias e colinas verdes. O foco em elementos sensoriais, como a luz do sol e o vento, culmina na reunião desse grupo de amigos na praia. Assim, o videoclipe transforma a faixa num manifesto sobre saúde mental e desaceleração, sugerindo que a cura para os dias pesados está na reconexão com o mundo natural e na celebração das conexões humanas simples e genuínas.


"Estivemos recentemente em confinamento na Nova Zelândia e o tempo estava deslumbrante, por isso montámos o nosso estúdio no jardim e gravámos esta pequena sessão ao vivo enquanto convivíamos com os pássaros, as borboletas e... os dinossauros. A vida selvagem na Nova Zelândia é simplesmente excecional. Aproveitem"

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)


To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.

An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.

The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.

An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.

To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.


Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.

Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.

Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Documentário - Leo from Chicago


1. Documentário do Vaticano
O documentário "Leo from Chicago", realizado pelo cineasta James Keach, é um retrato profundamente humanista e comovente que narra a extraordinária trajetória de Leo, um homem que viveu durante décadas nas ruas de Chicago. Longe de ser uma abordagem assistencialista, Keach utiliza a sua lente para capturar a essência de um indivíduo que, apesar de mergulhado na pobreza extrema e na invisibilidade social, nunca abandonou a sua dignidade ou a sua fé inabalável. Em Chicago, Leo era conhecido não apenas pela sua condição de sem-abrigo, mas pela sua inteligência, pela doçura do seu trato e por uma resiliência silenciosa que o tornava uma figura respeitada na sua comunidade urbana.

A narrativa ganha uma dimensão quase transcendente quando descreve como Leo chegou ao Vaticano. Através de uma rede de amizades e do apoio de pessoas que reconheceram nele uma luz espiritual invulgar, Leo foi convidado a viajar até Roma. Este percurso simboliza um contraste visual e emocional poderoso: a transição das calçadas frias e hostis do Midwest americano para a grandiosidade secular e o mármore dos palácios pontifícios. O documentário culmina no encontro simbólico entre Leo e a cúpula da Igreja Católica, personificando a visão de uma "Igreja para os pobres" e demonstrando que a verdadeira riqueza não se encontra na opulência dos edifícios, mas na pureza de coração de quem nada possui. É uma obra elegante que nos recorda que, independentemente das circunstâncias materiais, a essência humana permanece sagrada.

2. Outro Documentário: Robert Prevost - De Chicago ao Papa Leão XIV
Um Papa diferente de todos os outros. Na primavera de 2025, o mundo assistiu ao fumo branco a subir sobre a Basílica de São Pedro, assinalando um novo capítulo na história católica. O homem escolhido: Robert Prevost — um antigo coroinha de Chicago, missionário no Peru e humilde frade agostiniano. Agora, é o Papa Leão XIV, o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica global.

Neste documentário aprofundado traça a vida extraordinária do Papa Leão XIV, desde a sua infância cheia de fé no coração da América até aos bairros poeirentos do Peru, aos corredores do Vaticano e, finalmente, à varanda papal. Testemunhe como um construtor de pontes moldado pela compaixão, justiça e humildade ascendeu para pastorear 1,4 mil milhões de almas.

Através de uma narrativa cinematográfica e de uma rica perceção histórica, exploramos o homem, a missão e a mensagem por detrás de Leão XIV — um Papa que convoca o mundo para a unidade, a paz e a renovação missionária.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Viktor Orri Árnason - Hino da Terra


Snæfellsnes é uma península no oeste da Islândia, conhecida pelas suas paisagens dramáticas e pelo glaciar Snæfellsjökull.
No âmbito do projeto “Our Common Nature” de Yo-Yo Ma, Viktor Orri Árnason compôs “Earth Hymn”. Filmado ao vivo à sombra do glaciar Snæfellsnes, com Yo-Yo Ma e um pequeno coro a cantar palavras retiradas da antiga poesia islandesa - este é um apelo ao mundo desde a orla de um planeta em mudança.
Esta é uma peça profundamente evocativa, inspirada na mitologia nórdica e na urgência climática atual. O texto original em nórdico antigo provém do Völuspá (A Profecia da Vidente), um dos poemas mais importantes da Edda em Verso.

I. O Renascimento
Sér hún upp koma
öðru sinni
jörð úr ægi
iðjagræna.
Falla fossar,
flýgur örn yfir,
sá er á fjalli
fiska veiðir.

Vê ela erguer-se, uma segunda vez,
a terra do oceano, de um verde exuberante;
caem as cascatas; sobrevoa a águia,
aquela que, no monte, captura o peixe.

II. A Morada de Ouro
Sal sér hún standa
sólu fegra,
gulli þaktan
á Gimlé.
Þar skulu dyggvar
dróttir byggja
og um aldurdaga
yndis njóta.

Vê ela um salão erguido,
mais brilhante que o sol,
coberto de ouro, em Gimlé:
ali habitarão as gentes honradas,
e para todo o sempre desfrutarão da alegria.

Notas Curiosas para Contexto
  1. Gimlé: na mitologia nórdica, é o lugar mais alto e belo, destinado a sobreviver ao Ragnarök (o fim do mundo). É o refúgio da luz.
  2. "Gentes honradas" (Dyggvar dróttir): a tradução de righteous people em Portugal ganha um peso ético e comunitário, remetendo para aqueles que vivem com integridade.
  3. O simbolismo: a imagem da águia a pescar no monte simboliza uma natureza que recuperou o seu vigor e abundância originais.
Créditos:
Viktor Orri Árnason, maestro e compositor
Yo-Yo Ma, violoncelo
Maria Konráðsdóttir - soprano, Hildigunnur Einarsdóttir - mezzo-soprano, Eyjólfur Eyjólfsson - tenor, Fjölnir Ólafsson - barítono, Philip Barkhudarov - baixo

terça-feira, 3 de março de 2026

The First Morning

The First Morning
"The world is old and breathing here,
In mossy lungs and silvered river.
No clock has dared to etch a line
Upon this cathedral of leaves and water.

To stand amidst this hallowed wild
Is to feel the earth find her stolen child;
The noise of the age begins to cease
In the ancient ache of a perfect peace. "

João Soares - 03.03.2026

Shifting baseline syndrome key to growing nature disconnect


Not long ago, summer in the Pacific Northwest felt seasonal. Campfires were the norm, free from bans and fears of sparking catastrophic blazes. Windshield fluid had to be replenished after a long road trip — especially on rural highways or backcountry roads. We were lucky to get a week or two of hot weather.

Now, with drought alerts, heat and fire warnings and eerily fewer insects buzzing around the road, summer feels terminal. Many of us are old enough to be amazed at how quickly “normal” environmental conditions can change. Many of us are young enough to have never known anything different.

This latter inability to recognize the true scope of environmental change is a widespread phenomenon, called “shifting baseline syndrome.” Shifting baseline syndrome is “a socio-psychological phenomenon in which historical environmental information is lost over time and people do not notice changes in biological systems.” This concept was first coined by Daniel Pauly, a marine biologist at the University of British Columbia. In 1995, he observed that fisheries scientists evaluated changes in fish stock size and composition using the quantities at the beginning of their careers as a reference. With the next generation of fishers, fish stocks typically declined. However, each generation of scientists saw this degraded state as the new baseline, as there was, and still is, a lack of knowledge transfer between fishers. Without the passage of knowledge of environmental conditions, understanding of the magnitude of environmental change is lost. This ultimately shifts the condition’s “baseline,” which continues with each generation.

Shifting baseline syndrome is mainly linked to a lack of experience, memory and knowledge of historic conditions, typically caused by a lack of intergenerational communication about past environmental conditions and historical information. Studies have shown that older generations more readily recall accurate past environmental conditions compared to younger generations, indicating a “generational amnesia.” This gap between generations is happening through three avenues: lack of awareness or difficulties in accessing historical environmental data, lack of familiarity and knowledge of natural history and declining interactions between people and the environment. This last avenue is partly caused by increased urbanization, with fewer opportunities to interact with the environment, and partly because people are more inclined to go on social media or the internet instead of spending time in nature.

Why does it matter? 
Shifting baseline syndrome is increasingly recognized as a significant barrier to implementing policies and actions that could address some of today’s environmental challenges, because we misinterpret the scale and impact of change over time. When more experienced, older fishers fail to share their expertise and stories, newer fishers often accept the present ecosystem state without question. This can lead to less-effective measures being taken to address collapsing fish stocks because the resource decline was not recognized. This tolerance of degraded environments is one of many consequences of shifting baseline syndrome. When society gets used to a degraded environment as the baseline, further degradation will not be seen as something to be concerned about. With this generational amnesia and society’s decreasing contact with nature, we may see inappropriate conservation, restoration and management targets by policy-makers and stakeholders, and pushback against necessary conservation and restoration efforts. Even more concerning is the loss of public support for conservation measures such as the establishment of terrestrial and marine protected areas, which would go some way to halting environmental loss.

Shifting baseline syndrome is difficult to combat because it acts as an accelerating feedback loop. Trying to reduce its effects would take four strategies, suggested by researchers. The most direct action would be environmental restoration, specifically through rewilding efforts. As environmental degradation accelerates, this is of utmost importance to protect biodiversity. Second is to gather more high quality and consistent environmental data. This gives future researchers and scientists an actual, holistic baseline and makes them more informed regarding environmental conservation efforts they partake in. Furthermore, the broader public should be encouraged to increase interactions with nature to gain a better understanding and relationship with the environment. Finally, through public education, we can increase people’s familiarity with nature while also providing more accurate information on historic and current environmental conditions. Indigenous knowledge is crucial to limiting the syndrome’s effects, as it pushes forward the lived experiences of communities that recognize historic baseline conditions. In this way, sharing Indigenous knowledge is a remedy against generational amnesia.

Shifting baseline syndrome has been fuelled by the lack of connection that people have with one another and between people and the environment. In the article “Integrating historical sources for long-term ecological knowledge and biodiversity conservation,” the researchers highlight the value of historical data sources for providing a baseline for species and ecosystem change over time. Since beginning this initiative, we have pored over historical images and maps and read accounts of voyages from the 1800s describing vast schools of dolphins and porpoises playing about ships and a sea that abounds with fish. How much we have lost! Over the month of March, we will compare historical records with present-day imagery and historical storytelling to represent generational change. We hope that through our exploration of shifting baseline syndrome, we can encourage communities to reflect on changes they’ve observed and encourage action and advocacy for increased environmental protection, so that we can begin to halt biodiversity decline.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Música do BioTerra: The Paper Kites - Walk Above The City (feat. MARO)


O título "Walk Above The City" (Caminhar sobre a cidade) funciona como uma metáfora. Não se trata de uma caminhada física literal, mas de encontrar um estado mental de serenidade ou um lugar (talvez um telhado ou uma colina) onde o barulho lá embaixo já não importa.

A presença de outra pessoa (representada no dueto) é o que permite esse "vôo". A canção sugere que, quando estamos com alguém que nos entende, conseguimos nos desligar do resto do mundo e observar a vida de uma perspectiva superior e mais calma.
A sonoridade suave, quase como uma canção de ninar, evoca a imagem de luzes da cidade à noite vistas de longe — bonitas, mas distantes. 
Melhor som aqui

A canção consta do álbum 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pia Erlandsson - uma pintora singular

Under Trädet - Debaixo da Árvore (2013)

Pia Erlandsson (pintora Sueca, nascida em 1961)

Estilo e Temas
O trabalho de Erlandsson é frequentemente descrito como etéreo e focado na figura humana.

Temas:  as suas obras retratam principalmente pessoas, buscando transmitir emoções universais e diferentes estados da mente humana.

Estilo: ela explora a tensão e a harmonia entre cores, formas, luz e sombra. Os seus fundos são muitas vezes abstratos, permitindo que o espectador crie seu próprio espaço interpretativo. Para a artista, a pintura é uma narrativa onde cores e formas funcionam como "palavras". 

A indefinição dos rostos é a "assinatura" emocional de Pia Erlandsson. Essa técnica confere um aspecto onírico (parecido com um sonho) às obras. Em nossos sonhos e memórias, raramente lembramos de rostos com nitidez fotográfica; lembramos da "sensação" da presença da pessoa. A figura deixa de ser "uma pessoa específica" e passa a ser um "sentimento humano". Ou seja, com o rosto esfumado ou inacabado, o foco muda para a postura, a luz e a cor, que comunicam o estado emocional — como a introspecção, a alegria, conexão humana, conexão ecológica, a dúvida ou a solidão. 

Técnicas:
Pia Erlandsson é amplamente reconhecida pelo seu trabalho com aquarela, mas diversificou sua produção nos últimos anos:
Aquarela: é sua técnica principal, onde ela aproveita a imprevisibilidade do pigmento e da água no papel.
Acrílica e óleo: começou a trabalhar com estas técnicas mais recentemente, aplicando-as em telas (muitas vezes de grandes dimensões).


Esta obra de Pia Erlandsson é intitulada "Beslut"- 2014 (que em sueco significa "Decisão").

O que a obra transmite?
Pia Erlandsson é mestre em capturar o que ela chama de "estados da mente", e "Beslut" é um exemplo perfeito disso:

Dilema interno: a presença de múltiplas figuras (ou versões da mesma figura) sugere o processo mental de uma tomada de decisão. As diferentes direções dos olhares e as inclinações das cabeças representam a dúvida, a hesitação e a ponderação.
Melancolia e introspecção: o uso de contornos difusos e cores que "sangram" umas nas outras cria uma atmosfera onírica, quase fantasmagórica, sugerindo que estamos vendo um sentimento em vez de uma cena física real.
Conflito silencioso: Há um contraste entre a leveza da aquarela e o peso emocional nos rostos. A figura à direita, olhando para fora do grupo, parece representar o momento em que se escolhe um caminho diferente dos outros.
Fraturnidade ou solidão coletiva: As figuras estão próximas, mas não interagem entre si, transmitindo uma sensação de isolamento, mesmo quando acompanhadas.
É uma pintura que ressoa com quem já se sentiu "dividido" diante de uma escolha importante.

"Tre kvinnor" (Três Mulheres) 2016

Ao contrário das aquarelas anteriores, esta peça demonstra a transição da artista para o uso de acrílico sobre tela, o que resulta em texturas mais marcadas e cores mais saturadas.

O que a obra transmite?
Esta pintura explora a dinâmica das relações interpessoais e a individualidade dentro de um grupo:

Comunicação silenciosa: as três figuras femininas estão próximas, mas não há um contato visual direto óbvio entre todas. Isso evoca uma sensação de conversa interna ou de uma conexão que não precisa de palavras.
Contraste de personalidades: O uso das cores nas vestimentas (o vermelho vibrante, o branco puro e os tons mais escuros) pode ser interpretado como diferentes facetas de uma mesma psique ou temperamentos distintos que coexistem num mesmo espaço.
Presença e ausência: enquanto as figuras centrais e da esquerda parecem mais integradas, a figura à direita possui uma postura mais altiva e um olhar direcionado para cima, sugerindo aspiração, distanciamento ou uma busca por algo além do círculo imediato.
Luz e sombra: a iluminação dramática, vinda da esquerda, cria um jogo de sombras que dá profundidade e um ar de mistério à cena, característica marcante do trabalho de Erlandsson em óleo e acrílica.
É uma obra que transmite força feminina e uma certa solenidade, típica da forma como Pia retrata a figura humana como algo sagrado e introspectivo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

She Keeps Bees - Radiance


Eternal bloom of the dawn
Spirals from the earth to the heart
Spirals from the earth you stand on
It can never break never be lost
Radiance
Sacred wreath of two hearts
Radiance
Great oceans swell guided by sun given rays
Moon rhythmic winds
It can never break never be lost
Radiance
Sacred wreath of two hearts
Radiance
Circle love into you hold within

"Radiance" é uma faixa de destaque dos She Keeps Bees, o duo de Brooklyn formado por Jessica Larrabee e Andy LaPlant. A música está presente no seu álbum de 2014, Eight Houses. É amplamente considerado um dos momentos mais comoventes do álbum, afastando-se do seu habitual estilo blues-rock visceral em direção a algo mais etéreo e guiado pelo piano. 
Significado e História: Jessica Larrabee partilhou que a música nasceu de um lugar profundamente pessoal: 
A Inspiração: Escreveu-a para amigos que estavam a passar por uma perda profunda. 
O Tema: Explora a ideia de interligação — como um vínculo com alguém pode permanecer vibrante e "radiante" mesmo após a sua morte. 
A Composição: Curiosamente, a faixa foi composta num piano com 120 anos, o que provavelmente contribui para a sua ressonância assombrosa e antiga. Meditativo, profundo e minimalista Instrumentação: Principalmente piano e os vocais roucos e emotivos de Larrabee 
Vídeo: Apresenta Larrabee num campo de colza francês, simbolizando a sua ligação com a energia da Terra.

sábado, 15 de novembro de 2025

Foto e poema sobre as Árvores

Árvore
"Ficas ali, inteira,
como se soubesses algo que nós esquecemos.
O vento passa por ti
e tu respondes sem pressa,
um aceno leve, um sussurro de folhas
que não precisa traduzir-se.
A luz pousa nos teus ramos
como quem encontra casa.
Os pássaros chegam, partem,
e tu permaneces —
um gesto de permanência
num mundo que corre demasiado depressa.
Às vezes abraço-me ao teu tronco
e sinto qualquer coisa antiga,
quase uma respiração,
como se a tua vida entrasse um pouco na minha.
E penso:
talvez crescer seja isto —
abrir espaço no peito
para o que chega
sem medo do que fica."
Joao Soares, 15.11.2025

terça-feira, 12 de agosto de 2025

A Conexão Humana com a Natureza Está a Diminuir Drasticamente — O Que Isso Significa?


Um estudo recente liderado pelo professor Miles Richardson, da Universidade de Derby, revela que a ligação das pessoas à natureza diminuiu mais de 60% desde 1800. Esta queda dramática reflete-se, por exemplo, na forma como palavras como “rio”, “musgo” e “flor” praticamente desapareceram dos livros ao longo dos últimos 200 anos.
O estudo, publicado na revista científica Earth, utilizou um modelo computacional para analisar dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e a falta de transmissão intergeracional do contacto com a natureza.
Nos últimos dois séculos, o mundo mudou profundamente. A industrialização, o crescimento das cidades, a digitalização e o ritmo acelerado da vida moderna têm afastado cada vez mais as pessoas da natureza. Menos tempo passado ao ar livre e um quotidiano dominado por ecrãs levam a que as novas gerações cresçam com menos contacto com ambientes naturais.
Esta desconexão tem consequências importantes para a saúde física e mental, para o nosso bem-estar e para a forma como encaramos a proteção ambiental. Estudos mostram que passar tempo na natureza ajuda a reduzir o stress, melhora a concentração e fortalece o sistema imunitário. Além disso, quem conhece e valoriza a natureza está mais propenso a agir para a preservar.
O declínio no uso de palavras ligadas à natureza em livros não é apenas uma curiosidade linguística — é um sinal cultural de que a nossa relação com o mundo natural está a enfraquecer. Se não formos capazes de recuperar este contacto, corremos o risco de perder a empatia e o cuidado necessários para proteger o ambiente que sustenta a vida.
Para reverter esta tendência, é essencial que políticas públicas e iniciativas educativas incentivem a aproximação das pessoas à natureza, valorizando o património natural e promovendo experiências ao ar livre. O estudo de Richardson sugere que intervenções eficazes incluem a introdução das crianças à natureza desde cedo, como em escolas do bosque, e a expansão significativa dos espaços verdes urbanos — até 1.000% em algumas áreas. Estas mudanças podem ajudar a restaurar a ligação das pessoas à natureza e promover um futuro mais sustentável.

terça-feira, 17 de junho de 2025

O avanço da Intorelância e o Silêncio da Empatia



São cada vez mais evidentes os sinais de uma escalada de intolerância e violência em Portugal, num registo que historicamente não nos era habitual. Os episódios multiplicam-se nas ruas, nas escolas, nas redes sociais, nos discursos públicos,  com uma frequência que percebemos crescente. Por vezes são subtis, outras vezes explícitos, mas todos têm em comum perceção de que algo se está a deteriorar no nosso tecido social. 
Vivemos tempos de frustração acumulada, de insegurança difusa, de um mal-estar que se infiltra lentamente na vida quotidiana. A imprensa nacional destacou recentemente o brutal ataque a um ator à saída do teatro, a agressão de duas voluntárias que levavam ajuda a pessoas sem-abrigo, ou mesmo ameaças e intimidações contra professores que defendem a inclusão nas escolas. Quando esta tensão se transforma em violência contra quem representa a cultura, a solidariedade ou o cuidado, ultrapassamos um limiar perigoso: o da desumanização do outro.
A polarização cresce quando deixamos de reconhecer a dignidade e a legitimidade de quem pensa, vive ou age de forma diferente. Quando o discurso público se transforma numa trincheira onde se dispara em vez de dialogar, quando se normaliza - direta ou indiretamente - a hostilidade como reação aceitável, e quando a raiva passa a ter mais protagonismo do que o respeito, é aí que o tecido social começa a rasgar. A convivência democrática exige mais do que regras institucionais; exige uma ética da relação, sobretudo na diferença e no desacordo.
Portugal tem uma tradição de convivência pacífica e de solidariedade discreta, mas eficaz. São traços que marcaram o nosso percurso coletivo, mesmo em tempos difíceis. Não podemos permitir que essa herança se dilua na banalização do ódio ou na indiferença face à degradação do espaço público. 
Quando quem cuida, quem acolhe, quem ensina, quem cria - em suma, quem constrói comunidade - começa a ser alvo de desconfiança ou hostilidade, estamos a destruir as bases da nossa democracia. Essa erosão abre caminho para o fortalecimento de discursos simplistas e excludentes que, lamentavelmente, têm vindo a ganhar cada vez mais espaço para se afirmar.
A raiz desta tensão é complexa. As crises sucessivas - económica, pandémica, habitacional, ambiental - têm gerado um sentimento de desorientação, de perda de controlo, de uma inquietante ausência de futuro. E onde falta horizonte, facilmente emerge o ressentimento. A indignação pode ser justa, mas quando não é acompanhada de lucidez e de responsabilidade, transforma-se em cinismo ou fúria. 
É muito importante restaurar a confiança mútua. Reabilitar o espaço público como lugar de encontro e não de ameaça. Valorizar a empatia como prática política e cívica; não como ingenuidade, mas como condição fundamental de humanidade. Porque resistir à violência simbólica ou física começa na forma como olhamos, ouvimos e falamos uns com os outros. Porque a democracia, afinal, é também a forma como nos tratamos todos os dias.

Saber mais sobre o Livro "O Poder da Empatia" 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Filme: Dreams, de Akira Kurosawa


Desdobrando-se numa série de oito vinhetas míticas, esta última obra de Akira Kurosawa foi inspirada nas próprias visões nocturnas do acarinhado realizador, juntamente com histórias do folclore japonês. 

Lançado em 1990, o filme "Sonhos" ("Yume", em japonês) e dirigido por Akira Kurosawa [1910-1998] reúne um conjunto de oito curtas-metragens, ou histórias, na seguinte ordem: 

1. Raios de Sol Através da Chuva;
2. O Pomar de Pêssego;
3. A Nevasca;
4. O Túnel;
5. Corvos;
6. Monte Fuji em Vermelho;
7. O Demónio Chorão; e
8. A Vila dos Moinhos de Água.

Numa viagem visualmente sumptuosa pela imaginação do mestre, histórias de maravilhas infantis dão lugar a aparições apocalípticas: um jovem rapaz tropeça num casamento de raposa numa floresta; um soldado confronta os fantasmas dos mortos na guerra; o colapso de uma central sufoca uma paisagem costeira com fumo radioativo. Intercalado com reflexões sobre o poder redentor da criação, incluindo um tributo ricamente texturado a Vincent van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), Sonhos de Akira Kurosawa é ao mesmo tempo uma montra para o talento artístico do seu criador na sua forma mais desenfreada e um lamento profundamente pessoal por um mundo à mercê da ignorância humana.
"People have forgotten they're a part of nature too." (a partir de 1h:43 minutos, um diálogo deveras importante)

É provável que cada uma das histórias – os sonhos – constituam os desejos, frustações  e reflexões vividos por Kurosawa no transcurso de sua vida, que no ano de lançamento deste filme (1990) era já um octogenário. 

Se sabedoria não lhe faltou em todo o transcurso de sua vida, o que está refletido em sua vasta obra cinematográfica, em "Sonhos" Kurosawa parece que a extrapola, deixando a todos que vêm os seus "Sonhos" a oportunidade de uma profunda reflexão sobre si, suas vidas e hábitos. E, além disso, Kurosawa avança no essencial de "nossas questões", que passam pela ainda não resolvida relação harmoniosa dos Homens para com a Natureza e, além mais, pela própria relação distante de ser harmoniosa entre os Homens e suas Nações.

Assistindo para pensar. Mas, também, para se apreciar esta magnífica obra de arte com que Akira Kurosawa nos brindou.

sábado, 20 de agosto de 2022

Curta-Metragem: Beauty, de Rino Stefano Tagliafierro



BEAUTY é uma pequena história das emoções mais importantes da vida, desde o nascimento até a morte, o amor e a sexualidade através da dor e do medo. É uma homenagem à arte, à vida e à sua beleza desarmante. Pinturas do Museu do Prado - Espanha

BEAUTY is a short story of the most important emotions of life, from birth to death,love and sexuality through pain and fear. It is a tribute to art, to life and their disarming beauty. Paintings from Museu do Prado - Spain

Transforming powerful paintings by artists such as William-Adolphe Bouguereau, Ivan Shishkin, Luis Ricardo Falero, Caravaggio, and more, into truly touching and literal moving works of arts, Italian director Rino Stefano Tagliafierro’s short film “Beauty” is a stunning, captivating, breathtaking, and haunting depiction of the beautiful and horrid through pieces captured during the age of romanticism and realism of the early 1800s.

O que conhecemos como "Beauty" é um curta-metragem experimental de 2014 que se tornou viral, onde ele utiliza a técnica de 2.5D animation para dar movimento a pinturas clássicas famosas (do Renascimento ao Romantismo). A música que ouvimos em Beauty foi composta pelo músico italiano Enrico Ascoli.

Entrevista a Rino Stefano Tagliafierro

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Dia Mundial da Caminhada Nua (World Naked Hiking Day)

O Dia Mundial da Caminhada Nua (World Naked Hiking Day) é uma daquelas celebrações invulgares que misturam liberdade, bom humor e uma profunda ligação com o meio ambiente. Celebrado anualmente no Solstício de Verão (geralmente no dia 21 de junho), o evento convida entusiastas do montanhismo e do naturismo a deixarem as roupas em casa e a percorrerem os trilhos exatamente como vieram ao mundo.

Embora pareça apenas uma brincadeira excêntrica, a data carrega uma filosofia interessante e exige alguns cuidados práticos bastante específicos.

A Origem: dos Grandes Trilhos para o mundo
A tradição nasceu de forma espontânea nos Estados Unidos da América, ligada fortemente à cultura dos thru-hikers — pessoas que cruzam trilhos de milhares de quilómetros de extensão, como a famosa Appalachian Trail e a Pacific Crest Trail.

Para quem passa meses a carregar mochilas pesadas e a vestir as mesmas roupas técnicas, o solstício de verão (o dia mais longo do ano) tornou-se a oportunidade perfeita para celebrar o calor e desfrutar de uma sensação absoluta de desapego. Com o tempo, a internet espalhou o costume, transformando-o num fenómeno global praticado por naturistas e caminhantes em vários continentes.

Porquê caminhar sem roupa?
Para os participantes, a caminhada nua vai muito além do exibicionismo (que, inclusive, é desincentivado). Os principais motivos apontados são:
  1. Ligação pura com a Natureza: sentir o vento, o sol e o ar da montanha diretamente na pele traz uma perceção sensorial completamente diferente do ambiente.
  2. Libertação corporal: é um manifesto de aceitação do corpo humano em todas as suas formas, livre de julgamentos estéticos ou das amarras sociais do vestuário.
  3. Minimalismo: a experiência de depender apenas do próprio corpo e do essencial absoluto dentro da mochila.
Manual de Sobrevivência (Dicas Práticas)
Se a ideia parece tentadora, a realidade prática exige muito mais do que simplesmente tirar as calças. O ambiente selvagem não perdoa a pele desprotegida. Quem se aventura costuma seguir regras rígidas de segurança:
ItemCuidados Necessários
Protetor SolarEssencial. Áreas do corpo que nunca viram a luz do sol ficam vulneráveis a queimaduras graves em poucos minutos.
Calçado e meiasItens inegociáveis. Botas de caminhada de boa qualidade e meias adequadas continuam a ser obrigatórias para evitar quedas e bolhas.
Atenção ao TrilhoEvitam-se caminhos com vegetação espinhosa, urtigas ou rochas muito cortantes. Um arranhão em certas zonas pode estragar o passeio.
Cuidado com a mochilaO atrito direto das alças da mochila na pele nua causa ferimentos rapidamente. Muitos usam cremes antiatrito ou mantêm uma toalha/t-shirt sob as alças.
A regra de ouro: respeito à Lei e ao próximo
Os praticantes do movimento recomendam escolher trilhos isolados e de pouco movimento. O objetivo é a integração com a natureza, não chocar ou constranger outras famílias ou caminhantes vestidos. Além disso, a legalidade da nudez pública varia drasticamente entre países, distritos e parques naturais - por isso, verificar as regras locais antes de tirar a roupa é fundamental para evitar multas ou problemas legais.

No fundo, o Dia Mundial da Caminhada Nua recorda-nos que, por baixo de todas as camadas de marcas e tecidos tecnológicos, fazemos todos parte do mesmo ecossistema selvagem.

Livros:
Looking back: Naturism