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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Portugal deve rever Plano de Restauro da Natureza, pede associação de ambiente

A associação ambientalista Zero alertou hoje que Portugal deve rever o Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) antes de o enviar a Bruxelas, porque aprová-lo como está é “comprometê-lo à partida”.

Num comunicado a propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza, que se assinala na terça-feira, a associação deixa seis sugestões de mudança do Plano, não negando que este é um instrumento importante e “uma oportunidade histórica de transformar o restauro numa verdadeira política de Estado com força de lei”.

Entende a associação que o PNRN deve contemplar um relatório anual de execução, medidas localizadas e não vagas, haver uma entidade responsável pelo Plano e não “competências difusas”, haver uma autoridade de execução, e haver um compromisso orçamental plurianual do Estado e um inventário dos subsídios ambientalmente prejudiciais.

Um plano de restauro não se executa “com boas intenções, mas com datas, mapas, responsáveis e financiamento”, o que este PNRN não tem, diz a Zero.

Não se sabe se está a funcionar, porque o primeiro relatório de execução só está previsto dentro de seis anos, das 406 medidas 58% (237) são “nacionais” e sem localização definida, nenhuma das 406 medidas tem uma entidade responsável ou um custo estimado associado, a forma de governação está por definir, e dos 500 milhões de euros anuais anunciados há, segundo a Zero, apenas 168,7 milhões.

Ou seja, resume, o diagnóstico do PNRN está correto e Portugal sabe o que restaurar e porquê mas faltam as medidas concretas.

A propósito da efeméride de terça-feira a Zero recorda no comunicado que a 28 de julho de 1948 surgiu a associação de ambiente mais antiga da Península Ibérica, a Liga para a Proteção da Natureza, na altura criada pela defesa da Mata do Solitário, na Serra da Arrábida (o Parque foi criado em 1976).

E alerta que entre a classificação de uma área no papel e a sua gestão efetiva no terreno tem havido sempre “uma distância persistente”. É essa distância entre os plano e o resultado que a Zero teme ver repetida no PNRN.

A Zero recorda que os prazos para designar as Zonas Especiais de Conservação e publicar os respetivos planos de gestão terminaram em 2012 e não foram cumpridos, que em 2019, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou o país, e que a Comissão Europeia condenou Portugal a pagar uma multa que no verão passado já ia nos 100 milhões de euros.

O PNRN deve ser enviado por Portugal a Bruxelas em setembro próximo. Está em consulta pública no Portal Participa até 19 de agosto.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Parecer sobre o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis e a respetiva Avaliação Ambiental Estratégica

As Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) subscritoras - Almargem, FAPAS, GEOTA, LPN, SPEA, VCF, WWF Portugal e ZERO - propõem uma aprovação globalmente favorável, mas fortemente condicionada à proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER). 
Estas ONGA reconhecem que a aceleração da implantação de energias renováveis constitui uma condição indispensável para alcançar os objetivos climáticos nacionais e europeus, reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, reforçar a segurança energética e contribuir para a neutralidade climática. 
Contudo, a concretização destes objetivos não depende apenas da quantidade de capacidade renovável instalada, mas sobretudo da forma como essa capacidade é integrada no território, articulada com a proteção da biodiversidade, compatibilizada com os usos do solo, enquadrada por uma visão estratégica da economia nacional e legitimada pelas comunidades afetadas. 
Neste sentido, a criação das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (ZAER) apenas cumprirá os objetivos que justificaram a sua introdução pela Diretiva (UE) 2023/2413 (RED III) se representar uma verdadeira evolução do modelo de planeamento territorial da transição energética e não apenas um mecanismo adicional de simplificação administrativa.

O parecer na íntegra encontra-se disponível aqui

quarta-feira, 27 de maio de 2026

ONGA acusam Governo de se preparar para enfraquecer proteção do lobo-ibérico

Vinte e uma organizações não-governamentais de ambiente criticaram nesta terça-feira propostas de alteração ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), considerando que as mudanças põem em causa a proteção do lobo-ibérico em Portugal e contradizem compromissos anteriormente assumidos pelo Governo.

Num comunicado conjunto, entidades como a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Quercus, a Rewilding Portugal, a Palombar, a WWF Portugal e a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável apelam à ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, para que trave as alterações propostas pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura e Mar.

Segundo as ONGA, as alterações previstas permitiriam que beneficiários de apoios do PEPAC — nomeadamente agricultores e produtores pecuários — continuassem a receber financiamento destinado à manutenção de cães de proteção de gado, mesmo depois de condenações por crimes ambientais relacionados com o abate de lobos.

As organizações consideram que esta possibilidade cria uma contradição nas políticas públicas de conservação da natureza. “Se legalmente se penaliza, e bem, quem abate esta espécie protegida, não se pode manter apoios para proteção da espécie aos mesmos que as abatem”, defendem no comunicado.

As associações sustentam ainda que as alterações representam um sinal “profundamente negativo” para a sociedade e para o setor agropecuário, ao enfraquecerem a coerência entre os apoios públicos e os objetivos de conservação do lobo-ibérico.

O comunicado recorda declarações feitas por Maria da Graça Carvalho em setembro de 2024, após Portugal ter votado favoravelmente a proposta da Comissão Europeia para reduzir o estatuto de proteção do lobo na Europa. Na altura, a ministra garantiu que não haveria alterações na política nacional de proteção da espécie.

“As alterações agora propostas contrariam diretamente essa promessa”, salientam as ONGA.

As organizações alertam também para a necessidade de reforçar o combate ao crime ambiental, lembrando que o abate ilegal continua a ser uma das principais ameaças ao lobo-ibérico em Portugal. Nesse sentido, defendem que os instrumentos de apoio público devem promover comportamentos compatíveis com os objetivos de conservação e não beneficiar, “na prática”, infratores condenados por crimes ambientais.

As associações subscritoras sublinham que acreditam na compatibilização entre atividade agropecuária e conservação da natureza, desde que existam políticas públicas coerentes e práticas de gestão sustentáveis.

O PEPAC é o instrumento que enquadra a aplicação dos fundos europeus da Política Agrícola Comum em Portugal, financiando medidas ligadas à agricultura, floresta e pecuária, incluindo ações de conservação da biodiversidade e proteção de espécies ameaçadas.

Entre as 21 entidades que assinam o comunicado estão também a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema, o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) e a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA).

Recuperação do lobo em Portugal
A 5 de dezembro de 2025, o Governo aprovou o Programa Alcateia 2025-2035, documento através do qual o país quer conseguir um estado de conservação favorável do lobo-ibérico.

Até 2035, o Programa Alcateia quer reverter a diminuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável. 

Em Portugal, o lobo esteve presente em todo o território continental até ao início do século xx. Desde então, e à semelhança do registado no resto da Europa, verificou-se uma drástica redução da sua área de distribuição e do respetivo efetivo populacional. 

Com o desaparecimento progressivo do lobo, de sul para norte e do litoral para o interior, a área de presença ficou circunscrita a áreas do Norte e Centro do País correspondendo atualmente a cerca de 20 % da distribuição original.

Hoje existem quatro núcleos populacionais: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro, segundo o Censo do Lobo-Ibérico 2019/2021. Foram detetadas 58 alcateias (56 confirmadas, 2 prováveis). Estima-se que a população ronde os 300 animais, o que corresponde ao valor médio da estimativa de 190 a 390 lobos. A população portuguesa representa cerca de 15 % da população ibérica de lobo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Do mar à terra, passando pelos céus: como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Educação Ambiental em risco desde 1 de janeiro


A Direção-Geral da Administração Escolar determinou a cessação abrupta da mobilidade de professores colocados em ONGA, ao abrigo de protocolos com a APA, obrigando ao seu regresso imediato às escolas de origem - apesar de estas mobilidades estarem aprovadas até agosto de 2026.

A medida afeta diretamente três docentes (ASPEA, OIKOS e PATO), mas compromete uma rede nacional de Educação Ambiental, com projetos em curso, financiamentos aprovados, atividades já calendarizadas com escolas, municípios e parceiros europeus.

O impacto desta decisão na falta de professores nas escolas é insignificante, mas o prejuízo para a Educação Ambiental é enorme e imediato.

Perante a ausência de esclarecimentos e diálogo, as ONGA avançaram com uma providência cautelar para suspender os efeitos da decisão.

Exigimos transparência, razoabilidade e a regularização do processo! A Educação Ambiental não pode continuar a ser desprezada. Mais do que nunca, é essencial defendê-la como política pública estratégica e não como uma variável descartável.

Oito organizações não-governamentais sobre ambiente (ONGA) vão avançar com uma providência cautelar para suspender a decisão do Governo de fazer regressar às escolas de origem os professores ao serviço da Agência Portuguesa do Ambiente.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Portugal está a perder biodiversidade e oportunidades de desenvolvimento, diz Liga Proteção da Natureza


A Liga para a Proteção da Natureza (LPN) alertou esta sexta-feira que Portugal “está não só a perder a biodiversidade, mas também oportunidades de desenvolvimento”, ao não implementar devida e atempadamente a Rede Natura 2000,

Esta consideração consta de um comunicado em que a LPN se mostra “preocupada com as alegações das autoridades portuguesas, que sugerem uma atitude minimalista na implementação da Rede Natura 2000”, que é uma rede de áreas protegidas a nível europeu, resultante da implementação das diretivas comunitárias Habitats e Aves e nas quais são integradas as Zonas Especiais de Conservação (ZEC).

A reação da LPN surge depois de Portugal ter sido condenado no Tribunal Europeu por não ter convertido nenhum dos Sítios de Importância Comunitária (SIC) em ZEC (que deveria ter acontecido antes de 2010 ou 2012, nas regiões Atlântica e Mediterrânica) e por não ter adotado medidas de conservação necessárias à preservação dos valores naturais presentes nos SIC.

A LPN diz “lamentar esta condenação pois preferia ver Portugal a brilhar por realizações na área da conservação da biodiversidade, mas reconhece que a mesma foi inevitável devido à gravidade da situação”.

O facto de não o ter feito e de ter acumulado atrasos até nove anos no processo demonstra a falta de vontade política de sucessivos governos em implementar devidamente a Rede Natura 2000″, aponta a LPN.

Assim, a LPN apela ao Governo para que complete rapidamente a designação de SIC como ZEC, publique planos de gestão para cada SIC, elaborados de forma participada e transparente, e designe as ZEC de forma progressiva, à medida em que forem estando reunidas as condições para a designação de cada uma.

Pede ainda que se criem instrumentos de gestão e financeiros adequados para implementar no terreno a Rede Natura 200 e que se cumpra a Diretiva Habitats assumindo com entusiasmo as responsabilidades e oportunidades de desenvolvimento sustentável das áreas da Natura 2000 e não procurando subterfúgios para fazer uma implementação minimalista.

Na quinta-feira, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) declarou que Portugal falhou na declaração de 61 sítios como zonas especiais de conservação, conforme exigido pela Comissão Europeia no âmbito da diretiva ‘Habitats’.

A Comissão Europeia intentou em 26 de abril de 2018 uma ação por incumprimento por Portugal não ter declarado sete sítios de importância comunitária (SIC) da região biogeográfica atlântica, reconhecidos por Bruxelas em dezembro de 2004, e outros 54 da região biogeográfica mediterrânica, reconhecidos em 2006, como zonas especiais de conservação (ZEC), o mais rapidamente possível e num prazo de seis anos.

O TJUE deu ainda razão ao executivo comunitário ao considerar que as medidas de conservação adotadas por Portugal, nomeadamente, o Plano Setorial da Rede Natura 2000, bem como outras referidas pelas autoridades portuguesas, não satisfazem as exigências ecológicas específicas dos tipos de habitats naturais e das espécies constantes dos anexos da diretiva Habitats e não podem, por conseguinte, ser consideradas como “medidas de conservação necessárias”.

A diretiva Habitats impõe aos países membros a obrigação de contribuir para a constituição da Rede Natura 2000 em função da representação, nos seus respetivos territórios, desses tipos de ‘habitats’ naturais e desses ‘habitats’ das espécies e de designar, para o efeito, sítios como ZEC.

O procedimento de designação dos sítios como ZEC desenrola-se em quatro etapas. A partir do momento em que um sítio de importância comunitária tenha sido reconhecido pela Comissão, o país designará esse sítio como ZEC, o mais rapidamente possível e num prazo máximo de seis anos a contar da decisão da Comissão em causa.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Como disse? Desregulamentação é importante para potenciar a costa portuguesa


Em pleno 2020, as construções desregradas na costa portuguesa continuam a ser a regra. Apesar de estarmos perfeitamente cientes da vulnerabilidade do litoral – nomeadamente perante as alterações climáticas –, a sua preservação continua a ser assaltada por hotéis e projetos que usurpam dunas e falésias em nome do turismo e da produção agrícola. Pior ainda é a permissividade legislativa que continua a promover o desordenamento do território e a perda do nosso património paisagístico e ambiental. Os interesses económicos fazem-se valer de leis e planos flexíveis, alguns desenhados a dedo para acolher empreendimentos recheados de impactos e ilusões.

De norte para a sul, o desfile de atentados tem alguns protagonistas: a construção em plena duna primária do Parque Natural do Litoral Norte, em Esposende; a pavimentação de uma estrada na praia da Fonte da Telha, também em duna primária; os milionários planos de construção de empreendimentos turísticos nas cobiçadas dunas de Tróia e na Comporta, a costa mais selvagem da Europa; o avanço desmedido das estufas no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina; a polémica construção hoteleira na Ponta João de Arens, em Portimão; e o insólito projeto da Cidade Lacustre em Vilamoura. Infelizmente, são apenas alguns dos projetos que, embora mais mediáticos, necessitam de uma mobilização civil suficientemente forte para os enfrentar e travar.

Existe uma certa incapacidade das associações de defesa do ambiente para enfrentarem, individualmente, todos estes problemas de uma forma integrada. Além da asfixia a que são frequentemente sujeitas por falta de apoios à sua atividade, a própria forma de participação formal e intervenção – através do portal Participa – é ainda limitada por prazos apertados, que decorrem do desrespeito por sucessivos Governos dos prazos inicialmente indicados pela Comissão Europeia. Na semana passada, por exemplo, terminaram em simultâneo as consultas públicas às propostas de vários planos de gestão de Zonas Especiais de Conservação de norte a sul do país. A complexidade e extensão destes documentos tornam os prazos manifestamente inadequados à análise minuciosa que seria desejável.

Ainda assim, os erros não passam despercebidos ao olhar atento dos técnicos que têm esta difícil tarefa. A Liga para a Protecção da Natureza analisou os planos propostos pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas para as zonas Arrábida-Espichel e Comporta-Galé. Foram detetados erros e medidas desajustadas que justificaram a publicação de pareceres desfavoráveis aos planos de gestão. O fraco levantamento das espécies e habitats, a flagrante alteração dos limites definidos enquanto área da Rede Natura 2000, e alterações do uso solo a fim de facilitar a construção em pleno território de Rede Ecológica Natural e Rede Agrícola Nacional foram alguns dos aspetos apontados.

É muito importante definir planos de gestão para as áreas protegidas, mas é ainda mais importante que as ações saiam do papel e sejam efetivamente implementadas. De nada serve escrever um extenso documento para que ele venha apenas responder a obrigações burocráticas, relegando o seu principal objetivo: proteger efetivamente o território e os seus valores naturais. Para isso, seria preciso que as ações viessem munidas dos recursos financeiros e humanos necessários à sua implementação e fiscalização. As incoerências legais de proteção da paisagem entram, por vezes, em conflito com expectativas legítimas de vida dos residentes locais e são, muitas vezes, demasiado permissivas perante aspirações ilegítimas de empreendedores turísticos e agrícolas. Isto acontece também quando os planos de gestão não antecipam mecanismos de apoio a atividades económicas compatíveis com a conservação, estabelecendo sinergias com mecanismos financeiros, nomeadamente tributários ou de acesso a fundos, tal como, paradoxalmente, existem para a extensão de territórios abrangidos por agricultura intensiva.

A conservação da Natureza não é uma barreira ao desenvolvimento socioeconómico. É fundamental desmistificar e negar esta ideia e esclarecer que a conservação da Natureza permite sim salvaguardar um património de valor incalculável do qual todos dependemos, direta ou indiretamente. Não está assim em causa um radicalismo irracional de defesa do ambiente, mas antes uma consciência de que é possível, desejável e necessário alcançar um modelo de sustentabilidade e a coerência na conservação da faixa costeira portuguesa e dos seus valores únicos.

Já leram este texto de Robert Kurz- O Desenvolvimento Insustentável da Natureza? Já tem 10 anos e mantem toda a actualidade!

domingo, 24 de agosto de 2008

Sobre a Caça em Portugal e Caça Sustentável

divulgado no dia 14 deste mês lê-se o seguinte::

À semelhança do que se verificou em anos anteriores, é com preocupação que se constata que este diploma viola a Directiva Aves (Directiva 79/409/CEE), no que diz respeito à conservação das espécies migradoras. Adicionalmente, agrava o incumprimento aos compromissos assumidos pelos Estados-Membros perante a Comissão Europeia, no âmbito da Iniciativa para a Caça Sustentável (Sustainable Hunting Initiative), promovida pela Federation of Associations for Hunting and Conservation of the EU (FACE) e pela BirdLife International.

Neste Verão e em relação à caça, já ficou célebre também o texto-denúncia de Abel Cunha, pleno de Ecologia Profunda e rigor técnico, digno de ficar também registado no Bioterra. Chama-se Caça em Zona de Protecção Especial na Ria de Aveiro, publicada no JN,13/08/08.

Para quem regressou de férias, dois importantes textos a (re)ler e inverter esta situação.
Divulgá-los entre os vossos amigos, os caçadores, é uma forma de acção.
Obrigado.

terça-feira, 3 de junho de 2008

LPN - Liga para a Protecção da Natureza- 60 anos de actividade!


Parabéns à LPN pelos 60 anos de vida!
A primeira associação de ambiente da Península Ibérica. Este aniversário comemora o papel de todos nós como protagonistas da conservação dos valores naturais e também como parte integrante da Natureza.
Para assinalar esta data, a LPN está a organizar um conjunto de actividades a realizar ao longo do ano de 2008, para quais convidamos todos os sócios e simpatizantes a participar.