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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Aves associadas aos meios agrícolas em declínio há duas décadas

Tão fofos, o chapim-carvoeiro!
O chapim-carvoeiro (Periparus ater) é absolutamente adorável com aquela "cabeça grande", as bochechas brancas e a mancha branca bem destacada na nuca!
Eles são super pequeninos, cheios de energia e encantadores de observar. Sabiam que são dos poucos chapins que adoram florestas de coníferas (como pinhais) e têm o hábito extraordinário de esconder sementes nas cascas das árvores para comer mais tarde no inverno? Além desta incrível capacidade de armazenar alimento nas ranhuras da casca para os dias mais frios, estas aves são famosas em Portugal por serem grandes aliadas no controlo biológico de pragas como a lagarta-do-pinheiro nos nossos pinhais.
Preservemos o nosso campo e floresta. Hoje foi publicado o relatório do censos da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. E as notícias não são optimistas.

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

As aves nos meios florestais e urbanos têm uma evolução positiva, mas as associadas aos meios agrícolas estão em declínio desde 2004, indica um relatório divulgado hoje pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Relativo ao período 2004-2025, o relatório ontem divulgado, com dados dos censos do continente, Madeira e Açores, também identifica “tendências preocupantes” em espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés, o cuco ou o picanço-barreteiro.

O relatório do censo das aves (SPEA/BirdLife) combinou as tendências populacionais de várias espécies representativas de cada habitat e deixou “um alerta claro”, o do que “a biodiversidade dos meios agrícolas continua sob forte pressão”, diz no comunicado Hany Alonso, coordenador nacional do Censo de Aves Comuns e técnico superior de ciência da SPEA.

“A evolução positiva dos indicadores florestal e urbano é um bom sinal, mas não compensa a perda de biodiversidade nos meios agrícolas e os declínios de espécies como a laverca, a andorinha-das-chaminés ou o cuco”, acrescentou.

Nos meios agrícolas, 10 das 23 espécies avaliadas regularmente apresentam um declínio moderado no período (2004-2025), entre elas a andorinha-das-chaminés, o mocho-galego e o abelharuco, a par de espécies como o peneireiro, o cartaxo e o pardal.

Nos meios florestais, cinco das 20 espécies analisadas estão em declínio moderado: o picanço-barreteiro, o cuco, a rola-brava, a cotovia-dos-bosques e o chapim-real.

Segundo o censo, a laverca e a águia-caçadeira apresentam declínios acentuados, e a perdiz-comum, o chasco-ruivo e o rouxinol-grande-dos-caniços mostram tendências negativas.

Outras espécies como a felosa-poliglota, o peneireiro-cinzento e a alvéola-cinzenta apresentam declínios moderados.

Os resultados mostram, segundo a SPEA/BirdLife, que o declínio das aves é transversal a diferentes ecossistemas e a diferentes grupos funcionais (insetívoras, granívoras, carnívoras), mas que é nos meios agrícolas que o declínio é mais expressivo, afetando tanto espécies residentes como migradoras.

Os autores do trabalho salientam que houve recentemente maior participação nos censos, o que reforça o conhecimento sobre as aves

Nos Açores o censo abrangeu as nove ilhas. Foram calculadas tendências para 17 espécies, com destaque para o aumento acentuado da rola-turca e para as tendências negativas da toutinegra-dos-Açores e do milhafre.

Para a Madeira, não se estimaram tendências. As espécies mais abundantes dos últimos censos são o canário-da-terra, o melro-preto e a toutinegra.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Contaminação por raticidas ameaça aves de rapina em Portugal



Mais de 80 por cento das aves de rapina portuguesas podem estar contaminadas por raticidas anticoagulantes, ameaçando a conservação de várias espécies.

Este é um alerta lançado por um grupo de investigadores de Portugal e de Espanha num estudo publicado na revista ‘Science of The Total Environment’.

Coordenado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, em colaboração com o centro de investigação CIBIO e o centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens (RIAS), o trabalho incidiu sobre 210 aves de 15 espécies, entregues em centros de recuperação no continente e na Madeira. Em comunicado, as instituições chamam a atenção para uma exposição generalizada a compostos usados no controlo de roedores, revelam as instituições em comunicado.

Do total de aves analisadas entre 2017 e 2024, 83% apresenta sinais de pelo menos um raticida anticoagulante no fígado. Em quase 60% dos casos positivos surgiam dois ou mais compostos, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.

Ana Carromeu-Santos, a ecóloga do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Universidade de Lisboa, que conduziu a investigação, salienta que “os estudos de monitorização de envenenamento secundário por raticidas são recorrentes em vários países europeus, mas este é o primeiro realizado em Portugal”.

Na Madeira, o problema é ainda mais grave, mostra o estudo. Quase 90% das aves apresentam contaminação múltipla, com concentrações médias superiores às registadas no continente, sugerindo um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas na ilha.

Explica a equipa que os raticidas anticoagulantes são usados para controlar roedores, provocando hemorragias internas fatais ao impedir a coagulação do sangue. Como persistem nos tecidos, acumulam-se em predadores que consomem presas contaminadas, representando um risco para aves de rapina.

Por sua vez, nas aves estes compostos podem provocar hemorragias internas, fraqueza, perda de coordenação e, em casos extremos, a morte. Mesmo em doses não letais, avisam os investigadores, reduzem a capacidade de caça, aumentam o risco de acidentes e comprometem a reprodução.

Entre os compostos detetados destacam-se o Brodifacoum e a Bromadiolona, substâncias altamente persistentes e tóxicas. As aves mais velhas revelam maiores concentrações, evidenciando o efeito de bioacumulação ao longo dos anos.

Espécies comuns como o peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) e a coruja-das-torres (Tyto alba) podem servir como “sentinelas”, permitindo acompanhar a evolução da contaminação devido à sua ampla distribuição e dieta baseada em pequenos roedores.

Sofia Gabriel, investigadora do CE3C e principal coautora do artigo, alerta que “estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos”.

O estudo confirma que o impacto dos raticidas “já não é pontual”, salientam os cientistas, mas sim “um fenómeno persistente e transversal”, que afeta várias gerações de aves e fragiliza populações já vulneráveis.

As consequências para a biodiversidade são significativas, podendo comprometer o equilíbrio dos ecossistemas se espécies essenciais diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.

Os autores defendem medidas urgentes, incluindo monitorização regular, restrições ao uso indiscriminado de raticidas e promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores, fundamentais para proteger a fauna selvagem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Riscos crescentes ameaçam a sobrevivência dos polinizadores selvagens europeus


Mais de 40% das borboletas exclusivas da região europeia e não encontradas em mais nenhum lugar do mundo estão agora ameaçadas ou perto de o ser.
🐝Quase 100 espécies adicionais de abelhas selvagens na Europa foram classificadas como ameaçadas.
🐝🔴A espécie de abelha mineira Simpanurgus phyllopodus, a única espécie deste género na Europa e exclusiva do continente, está agora classificada como Criticamente em Perigo.
🦋O número de espécies ameaçadas de borboletas europeias aumentou 76% na última década.
🦋🔴Uma espécie, a borboleta-branca-grande-da-madeira (Pieris wollastoni), que estava restrita à ilha portuguesa da Madeira, está agora oficialmente classificada como Extinta.

A agricultura intensiva, a poluição e o aumento das temperaturas representam as principais ameaças.

Andalusian Anomalous Blue - Polyommatus violetae (Miguel Munguira); Arctic Blue - Argiades aquilo (Nils Ryrholm); Frejya's Fritillary - Boloria freija (Nils Ryrholm); La Palma Grayling - Hipparchia tilosi (Yeray Monasterio); Nevada Blue - Polyommatus golgus (Miguel Munguira); Zulich's Blue Agriades zullichi (Miguel Munguira)

Saber mais:

terça-feira, 22 de julho de 2025

Participação no 5.º ISA Forum of Sociology: Investigadoras destacam comunicação e justiça socioambiental em territórios insulares



Entre os dias 6 e 11 de julho de 2025, decorreu na Mohammed V University, Universidade Mohammed V, em Rabat, Marrocos, o 5.º ISA Forum of Sociology.  Ana Bijóias Mendonça* e Fátima Alves*, participaram neste encontro internacional com a apresentação de duas comunicações centradas nos desafios da comunicação, participação e justiça socioambiental em contextos insulares.

No dia 9 julho, na sessão dedicada às dinâmicas socioambientais, as investigadoras apresentaram a comunicação “Building Brighten Futures: Knowledge and communication on socio-environmental topics in two Macaronesian regions”, onde partilharam resultados de investigação que sublinham a importância de abordagens colaborativas e culturalmente enraizadas na construção de futuros mais sustentáveis. O trabalho apresentado destaca:
  1. A relevância das racionalidades leigas e dos saberes locais como recursos fundamentais para enfrentar a crise climática;
  2. A urgência de ultrapassar a ilusão de inclusão e reforçar políticas de proximidade, verdadeiramente participativas;
  3. A necessidade de consolidar redes de atores como alicerces para processos de codecisão orientados para a justiça socioambiental;
  4. A importância de escutar, traduzir, comunicar e coconstruir soluções com todas as vozes que habitam os territórios.
Já no dia 11 de julho, foi apresentada a comunicação “Powering Communication and Societal Engagement with Climate Research and Policies in Insular Territories”, baseada num estudo de caso comparado entre a Região Autónoma da Madeira e a Comunidade Autónoma das Canárias. A investigação analisou os mecanismos de construção e disseminação do conhecimento sobre alterações climáticas, revelando que os discursos institucionais continuam a privilegiar abordagens top-down. Apesar da retórica participativa, persistem resistências por parte dos poderes institucionalizados do conhecimento, dificultando o envolvimento efetivo das comunidades locais e de outros atores territoriais. O trabalho evidenciou:
  1. As dissonâncias e contradições que envolvem a comunicação sobre desafios socioambientais globais, com maior expressão nos territórios insulares;
  2. A necessidade de implementar mecanismos de comunicação mais alargados, céleres e eficazes;
  3. A importância de fomentar processos verdadeiramente inclusivos, coparticipados e consequentes que possam coadjuvar a tomada de decisão.
A presença das investigadoras neste fórum internacional reforça o compromisso com uma ecologia do conhecimento que valoriza a pluralidade epistémica e promove uma transição justa, enraizada nos contextos locais e atenta à diversidade de vozes e experiências que compõem os territórios.

Os resumos podem ser consultados no link abaixo.

*Grupo de Investigação Sociedades e Sustentabilidade Ambiental do Centre for Functional Ecology - Science for People & the Planet, Laboratório Associado TERRA da Universidade de Coimbra e da sua Extensão na Universidade Aberta de Portugal


Bijóias Mendonça, A., & Alves, F. (2025). Building brighten futures: Knowledge and communication on socio-environmental topics in two Macaronesian Regions. Em 5th ISA Forum of Sociology «Knowing Justice in the Anthropocene»—Book of Abstracts (pp. 120–120). International Sociological Association (ISA). https://www.isa-sociology.org/uploads/imgen/2252-5th-isa-forum-of-sociology-abstracts-book.pdf

Bijóias Mendonça, A., & Alves, F. (2025). Powering communication and societal engagement with climate research and policies in insular territories. Em 5th ISA Forum of Sociology «Knowing Justice in the Anthropocene»—Book of Abstracts (pp. 121–121). International Sociological Association (ISA). https://www.isa-sociology.org/uploads/imgen/2252-5th-isa-forum-of-sociology-abstracts-book.pdf

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Qual a dimensão do património natural de Portugal?

A diversidade topográfica e edafoclimática do nosso país
permite uma multiplicidade de áreas com valor de conservação (mapa do continente).
Fonte (adaptada): Relatório Estado do Ambiente, APA, consultado em Abril 2025 (ICNF, 2024)

O património natural de Portugal inclui cerca de 35 mil espécies de animais e plantas, segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN), citada na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030). Estes valores representam 22% da totalidade das espécies descritas na Europa e 2% das espécies mundiais.

As áreas portuguesas com valor de conservação e biodiversidade encontram-se integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas – SNAC. Além de incluir as áreas classificadas como a Rede Natura 2000, o SNAC abrange também a Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) e outras áreas classificadas na sequência de compromissos internacionais assumidos pelo Estado português.

De acordo com o geocatálogo do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (consultado em março de 2025), existem no território continental 55 áreas protegidas:

Todas elas integram a RNAP e juntas correspondem a uma área de 816 mil hectares (dos quais 746 mil hectares de área terrestre), que ocupa cerca de 9% do território nacional.

Além destas tipologias de proteção, o ICNF refere ainda:
  1. 05 Sítios Natura 2000, com uma área de 4,5 milhões de hectares, dos quais 1,6 milhões de hectares em área terrestre;
  2. 6 Reservas da Biosfera, com 1,1 milhões de hectares, maioritariamente em área terrestre;
  3. 18 Sítios Ramsar, que se estendem por 117 mil hectares de área terrestre;
  4. e 4 Geoparques, que ocupam 836 mil hectares de área terrestre (em vez de quatro, a lista de Geoparques Mundiais da UNESCO, indicada por esta organização, refere cinco em território continental: Naturtejo da Meseta Meridional, Arouca, Terras de Cavaleiros, Serra da Estrela e Oeste, tendo este último sido integrado ainda em 2024).
No seu conjunto, estas áreas classificadas ocupam 3,1 milhões de hectares de área terrestre – 34,8% do território terrestre de Portugal continental – e 3,4 milhões de hectares de área marinha – 10,7% do território marítimo de Portugal continental. E não está ainda aqui considerado o Geoparque do Oeste.

Quanto à Rede Natura 2000, esta rede ecológica para o espaço da União Europeia (UE) integra cerca de 22% da área total terrestre nacional, da que acrescem uma área marinha de cerca de 10,7%. O país ocupa, a propósito, o 10.º lugar entre os 28 Estados-Membros da UE em termos de percentagem de área total integrada na Rede Natura 2000, realça a ENCNB 2030.

Os ecossistemas agrícolas e florestais ocupam cerca de 80% das áreas protegidas ou classificadas em Portugal continental, segundo a ENCNB 2030. O 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, publicado pelo ICNF em 2019), que fornece um retrato mais focado na importância da área florestal para a biodiversidade, indica que a área florestal integrada no SNAC corresponde a 18,7% da floresta nacional e que 5,5% da floresta está incluída na RNAP, com várias espécies presentes.

Aproximadamente 25% da área florestal sob Planos de Gestão Florestal está englobada no SNAC, ou seja, em áreas classificadas e, por isso, sujeitas a Planos de Gestão da Biodiversidade, reforça o 5.º Relatório Nacional à Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Património natural das regiões autónomas
Ao património natural continental somam-se ainda inúmeras áreas terrestres e marinhas nos arquipélagos dos Açores e da Madeira:

– Na Região Autónoma dos Açores, estão classificadas 24 Reservas Naturais, 10 Monumentos Naturais e 16 Paisagens Protegidas; 4 Reservas da Biosfera; 13 sítios Ramsar, 1 Geoparque e 40 áreas de Rede Natura 2000.

– Na Região Autónoma da Madeira, contabilizam-se o Parque Natural da Madeira (que abrange cerca de dois terços da ilha da Madeira), 4 Reservas Naturais, 2 Áreas Protegidas e a Rede de Áreas Marinhas Protegidas de Porto Santo.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Na altura em que abandonam o ninho, 90% dos cagarros já têm o estômago cheio de plástico, mostra estudo do Instituto Okeanos


Trabalho baseado em necropsias a mais de 1100 aves, uma amostra especialmente robusta, eleva esta espécie marinha à categoria de bioindicador
Com o seu grito esganiçado, os cagarros são uma marca das noites de verão açorianas. Esta ave marinha, que nidifica em Portugal e Espanha, em concreto nos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias, ganharam agora um novo estatuto, graças ao trabalho de uma equipa do Instituto de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos – da Universidade dos Açores.

Num estudo publicado na revista “Environment International“, o cagarro (Calonectris borealis) surge, pela primeira vez, como um indicador do lixo marinho no Atlântico Norte, ajudando a perceber quais as tendências na presença de plásticos nesta região do oceano.

Este título de bioindicador não surgiu do nada. É antes o resultado de um trabalho de quase nove anos e mais de 1100 necropsias a cagarros juvenis e no qual os investigadores descobriram que mais de 90% dos juvenis desta espécie, quando abandonam o ninho, já contém partículas plásticas nos seus estômagos. Um dos valores mais altos encontrados, quando comparado com outras espécies de cagarros noutras regiões.

O método mais simples de monitorizar a quantidade de plásticos a circular no mar é por amostragem. “Mas não é um método tão bom”, diz à Exame Informática a investigadora responsável pelo estudo, Yasmina Gonzalez. É mais rigoroso e oferece mais informação a pesquisa deste material no sistema digestivo de espécies chave. A tartaruga, por exemplo, é uma delas. Só que no Atlântico Norte não são assim tão comuns. É por isso que o grupo de estudo do lixo marinho do Okeanos começou a pensar nos cagarros como um veículo de monitorização do problema. “Trata-se de espécies que acumulam plástico e que também são vítimas da contaminação luminosa”, justifica Yasmina.

Com uma passagem muito estreita entre a parte principal do estômago e a moela, nos cagarros as pequenas partículas de plástico vão-se acumulando, em vez de serem regurgitadas, como acontece noutras espécies de aves. Sendo assim, as micropartículas vão-se acumulando e formando pedaços maiores e bem visíveis (como se pode ver nas fotos).

Quando saem do ninho, os juvenis ficam atarantados com as luzes das cidades e apesar de serem alvo de campanhas de proteção, como a SOS Cagarro, alguns acampam por morrer com os embates. São estas vítimas da poluição luminosa que têm vindo a ser necropsiadas, desde 2015, o que resultou num dos estudos de maior amostra e mais robustos que já foi feito, sublinha a investigadora. “Este é um estudo de grande relevância pois apesar de recentemente terem sido propostas diferentes espécies como bioindicadores de lixo marinho no oceano, até agora poucas se baseavam em análises exaustivas que permitissem a sua aceitação efetiva”, detalha.

“O facto destes juvenis conterem plásticos nos estômagos, mesmo antes de se alimentarem por si próprios, indica que os plásticos são ingeridos durante o processo de alimentação pelos progenitores, durante o seu crescimento no ninho”, detalha-se em comunicado de imprensa. “Os juvenis vítimas da poluição luminosa oferecem uma amostra não invasiva, facilmente acessível, o que os torna cientificamente úteis, a longo prazo, para programas de monitorização do lixo marinho, implementadas pelos Governos destas Regiões Autónomas de Portugal e de Espanha, no quadro das políticas europeias, nomeadamente da Diretiva Quadro Estratégia Marinha”, explica Christopher Pham, do Instituto OKEANOS, supervisor do estudo e investigador responsável pela equipa que estuda os impactos do lixo marinho no bom estado ambiental do oceano.

Nos cagarros açorianos, a média de partículas encontradas foi de 10 por cada animal, nas Canárias foi ainda mais, 28, revela Yasmina Gonzalez. Além da diferença em termos de quantidade, também é percetível a diferença na origem, com “mais elementos que vêm da pesca” na população do arquipélago espanhol.

Com base neste trabalho, a equipa do Okeanos pretende agora propor um novo limite considerado aceitável para a presença de plásticos nestas espécies marinhas. Mas de pouco adianta legislar se os comportamentos não se alterarem. “O problema não é o material em si, o material é valioso. O problema é o seu uso único. Temos de ser mais críticos e conscientes na utilização”, recomenda.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Quando a IKEA lançou um outdoor fascista

O outdoor da IKEA não é inocente. Extravasou toda a ética de marketing. Dia negro e bizarro.
 

Tem razão: não é para o debate partidário. É mesmo para o achincalhamento. Ou seja, é exatamente aquilo que os populistas do Chega fazem. O outdoor sai precisamente no dia em que sabemos das suspeitas na Madeira: tudo aponta para “uma situação tanto ou mais grave do que a operação Influencer”.
Miguel Albuquerque já anunciou a demissão?
A PGR já foi a Belém?
O PR já ditou um parágrafo?

Lembrete:
Fundador da IKEA foi recrutador do partido nazi sueco. Ingvar Kamprad, fundador da IKEA e um dos homens mais ricos do mundo, foi um membro activo do partido nazi sueco, como recrutador de novos membros, revela este livro da jornalista Elisabeth Åsbrink.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Finalmente a nossa Zona Económica Exclusiva é completamente uma Área Protegida


Portugal tem a maior ZEE da Europa e vejo agora no mapa das Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas, que esta região já consta da lista. Burocracias à parte, Portugal submeteu, em 2019, uma proposta às Nações Unidas para a extensão da sua plataforma continental, sobre a qual aguardou uma decisão. Em 2022, a nossa proposta mereceu aprovação formal na COP15. 4 anos depois. Finalmente conseguimos.

Competiu à DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) propor a criação de áreas marinhas protegidas, em articulação com a autoridade nacional para a conservação da natureza e biodiversidade, ICNF. 

Saber mais: 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Dia da Floresta Autóctone - Apenas um habitat florestal em Portugal está em bom estado de conservação


Nesta quinta-feira, 23 de novembro, celebra-se o Dia da Floresta Autóctone, e a ZERO fez uma avaliação ao estado de conservação dos habitats florestais de Portugal, de acordo com um reporte do ICNF, relativo ao período 2013-2018, e revela que “a situação é preocupante”.

Assim, para as três regiões biogeográficas – Atlântica, Mediterrânica e Macaronésica – verifica-se que das representações presentes (sete habitats ocorrem em mais do que uma região) apenas uma se encontra em estado de conservação favorável, 15 encontram-se em estado desfavorável-inadequado, e nove em estado desfavorável-mau.

De forma mais detalhada, a região biogeográfica macaronésica, que abrange as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, tem apenas o habitat prioritário Laurissilvas macaronésicas em estado de conservação favorável, enquanto as florestas endémicas de zimbros e as florestas de zambujeiros e de alfarrobeira estão em estado desfavorável-inadequado e o habitat prioritário turfeiras arborizadas se encontra em mau estado de conservação.

No que respeita à região biogeográfica Atlântica (noroeste de Portugal continental), a situação também não é melhor. Dos cinco habitats representados, dois encontram-se em estado desfavorável-inadequado e três em estado desfavorável-mau, com destaque para o mau estado de conservação dos carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e dos bosquetes de teixo.

Quanto à região biogeográfica mediterrânica, a com mais habitats representados, o panorama não se altera muito, com 10 habitats em estado de conservação desfavorável-inadequado e seis em desfavorável-mau, sendo os carvalhais de carvalho-alvarinho ou de carvalho-negral e os bosquetes de teixo repetem a má condição e juntam-se a estes os freixiais de freixo-de-folhas-estreitas, os carvalhais de carvalho-português e os bosques de sobreiro.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Painéis solares nas habitações em Portugal - uma miragem

Fonte: Yicai

PNEC, neutralidade carbónica...e um atraso de vida o nosso País, cujas habitações teimosamente não têm painéis solares. Estou como a Greta: blah, blah, blah! Há anos nisto...

Estive no Chipre há cerca de 10 anos atrás, todas as vilas com painéis fotovoltaicos!

Agora, em Setembro deste ano, o Governo Chinês anuncia que a capacidade instalada de energia solar distribuída nos telhados das famílias chinesas era de 105 gigawatts, quase equivalente à de cinco centrais hidroeléctricas das Três Gargantas.

Spot publicitário e demagógico do lançamento do PNEC - com 4 anos!

domingo, 12 de novembro de 2023

Atlântico


XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa - Mar Português - Segunda de Três Partes da obra

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Dia Mundial do Lagarto: 4 curiosidades que talvez desconheça sobre este grupo de répteis


Chamamos lagarto, sensu latu, a um grupo de répteis pertencentes aos Squamata, geralmente quadrúpede, que inclui mais de 7.000 espécies, incluindo espécies tão emblemáticas como os camaleões ou os dragões de Komodo e outras tão próximas do nosso dia-a-dia como são as inúmeras espécies de lagartixas ou osgas.

Estas podem ser encontradas um pouco por todo o mundo, exceto em locais onde se registam temperaturas extremamente frias (como a Antártida) e algumas ilhas.

No entanto, é importante notar que “lagarto” não é um termo com validade taxonómica. Isto porque, da maneira que o termo é normalmente utilizado, designa um grupo parafilético, ou seja, deixa de fora animais (nomeadamente as cobras e anfisbaenas) que são parentes mais directos de alguns dos seus membros do que os restantes.

Neste Dia Mundial do Lagarto, debrucemo-nos sobre alguns factos interessantes sobre este grupo tão diverso e tão próximo de nós:

1. Os lagartos têm tamanhos muito variáveis
As espécies actuais de lagartos apresentam uma enorme diversidade de tamanhos, indo do recém-descoberto madagascarenho nano-camaleão (Brokeesia nana), que não só é o mais pequeno lagarto conhecido, mas provavelmente o mais pequeno de todos os répteis, com pouco mais de dois centímetros da ponta do nariz à ponta da cauda, até ao enorme dragão-de-Komodo (Varanus komodoensis), um lagarto monitor endémico de algumas ilhas do Sul da Indonésia, que pode chegar aos três metros de comprimento e mais de 70 quilogramas de peso. Mas mesmo este último não alcança o tamanho do seu parente extinto, o Megalania prisca da Austrália, que poderá ter alcançado mais de cinco metros! Em Portugal, as espécies nativas têm tamanhos bem mais modestos: o nosso maior lagarto, o sardão (Timon lepidus) atinge, no máximo, um metro e meio de comprimento, sendo dois terços deste referentes à cauda.

2. Alguns lagartos são venenosos
Já há muito tempo que se sabe que os lagartos do género Holoderma,  que inclui o famoso monstro-de-Gila (Holoderma suspectum), possuem não só veneno, como um sistema de aplicação do mesmo único entre os vertebrados. Este é injectado vindo de glândulas na mandíbula inferior (e não na superior, como nas cobras) na base dos dentes e se espalha nestes por fenómenos de capilaridade, sendo depois aplicado na presa por mastigação. Embora em geral não seja mortal para os humanos, este veneno provoca edemas e baixas súbitas na tensão arterial e é considerado talvez o mais doloroso produzido por um vertebrado. No entanto, só mais recentemente foi descoberto que os Varanidae (o grupo a que pertence, por exemplo, o dragão-de-Komodo) também possuem glândulas que produzem veneno, e que o usam corriqueiramente na obtenção de presas. No entanto, estes não possuem sistemas de aplicação do mesmo tão sofisticados como os Holoderma, tendo talvez por isso passado despercebidos durante mais tempo. Em Portugal, não temos espécies venenosas.

3. Portugal tem uma espécie de lagarto endémica
Embora o país tenha várias espécies de lagartos (e, graças a análises genéticas, o número destas tenha aumentado nos últimos anos), quase todas as espécies nativas existem também nativamente noutros países, principalmente na vizinha Espanha. No entanto, há uma espécie de lagarto que só ocorre nativamente em Portugal: a lagartixa-da-Madeira (Teira dugesii). Embora este réptil apareça também nos arquipélagos dos Açores e das Canárias e tenha duas populações estabelecidas em Portugal Continental, estas devem-se a introduções acidentais pelo homem, provavelmente através da carga de navios, sendo esta espécie apenas nativa da Madeira e das Selvagens.

  Lagartixa da Madeira (Teira dugesii)          

4. A reprodução dos lagartos é extremamente variável
A maior parte dos lagartos é, como a generalidade dos répteis, ovípara, ou seja, reproduzem-se pondo ovos. No entanto, existem espécies que desenvolveram outras estratégias, como a ovoviparidade (existem ovos, mas estes são incubados dentro do corpo da progenitora) ou mesmo, no caso de uma espécie em específico, Zootoca vivipara, a viviparidade (ou seja, a fêmea dá à luz juvenis já formados, sem terem passado um período dentro de um ovo). Esta última espécie é particularmente interessante, visto que apresenta populações ovíparas e vivíparas, por vezes vivendo lado a lado.

Adicionalmente os lagartos apresentam um número assinalável de espécies totalmente partenogénicas (sendo que algumas outras demonstram capacidade partenogénica facultativa). Isto significa que as espécies em que não ocorre fecundação são constituídas totalmente por fêmeas. No entanto, nenhuma destas espécies ocorre no nosso país.

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terça-feira, 18 de julho de 2023

É correto pisar em baratas? Especialista explica o que se deve fazer com o inseto

As baratas, frequentemente consideradas insetos repugnantes, despertam aversão em grande parte das pessoas. No entanto, além da reação instintiva de querer esmagá-las, é importante considerar o papel que esses pequenos seres desempenham no ecossistema e as consequências de sua eliminação indiscriminada.

Por mais que haja vontade de pisar ou usar objetos para acertá-las, existem razões científicas e ecológicas pelas quais é preciso evitar tais atitudes. Para isso, o infectologista André Piraja esclarece que o que parece ser uma prática inofensiva, na verdade não é.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde [OMS], essa prática representa um risco para a saúde, principalmente quando realizada dentro de casa. Ao esmagar uma barata, libertamos uma grande quantidade de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos presentes no inseto. Existem estudos que associam essa prática a doenças como tuberculose, poliomielite, febre tifoide, conjuntivite, pneumonia, hepatite A e até hanseníase”, conta.

Inseticidas, então, são a saída?
Segundo o especialista, o uso de inseticidas também pode prejudicar a saúde de quem os manipula, seja por inalação ou contato direto. Além disso, a substância não impede que a barata morta libere contaminantes para o ambiente, apenas retarda esse processo.

Então, qual seria a melhor forma de eliminar as baratas de forma segura? A orientação, conforme explica o médico, é que o inseto seja capturado com um papel e posteriormente morto fora de casa, sendo descartado no lixo. No entanto, para aqueles que não conseguem realizar essa captura devido ao medo ou nojo, há outras indicações:
  • Usar água quente;
  • Utilizar álcool em gel;
  • Recorrer ao detergente líquido (lava-louças); e
  • Utilizar gel específico para eliminar baratas.
“Ressaltamos que essas alternativas não eliminam totalmente o risco de contaminação, mas contribuem significativamente para reduzi-la. Em todos os casos, a libertação de microrganismos será mais lenta em comparação com quando se esmaga a barata, o que liberta os contaminantes de forma imediata. O ideal é descartar o inseto morto logo após utilizar qualquer uma dessas opções”, detalha.

É importante frisar, além disso, que ao invés de recorrer a métodos violentos e ineficazes de controle de pragas, é possível adotar abordagens mais sustentáveis. Medidas preventivas como a manutenção da limpeza em áreas propensas a infestações, o armazenamento adequado de alimentos e a vedação de possíveis pontos de entrada são muito mais eficazes na prevenção da presença de baratas.

Mais de 700 espécies de baratas só no Brasil
As baratas estão presentes em quase todo o mundo, exceto nas regiões mais frias.

“Estima-se que existam mais de 4 mil espécies desses insetos em todo o mundo, sendo que somente no Brasil há pelo menos 700. A maioria das espécies vive em florestas e não representa riscos para a saúde humana, pois não tem contato com agentes contaminantes”, conta André.

No Brasil, a espécie mais comum é a barata vermelha, de esgoto ou doméstica, e é frequentemente encontrada em residências. Com a modernização e construção das grandes cidades, algumas espécies começaram a migrar para as habitações humanas.

Isso ocorre devido à existência de ambientes propícios para sua permanência e reprodução, como locais húmidos e disponibilidade de alimento.

Controle biológico
As baratas são insetos muito diversos e abundantes e, por serem omnívoras, ou seja, por comerem de tudo, têm papel vital como decompositoras de restos orgânicos. Além disso, fazem parte da dieta de muitos outros animais, como aves, aranhas, lacraias e escorpiões.

“Estes insetos consomem rapidamente toneladas de fezes, cadáveres, restos alimentares e até papel, cigarros e plásticos. Se sumissem do planeta, sofreríamos com um rápido acúmulo de resíduos humanos nos esgotos ", comenta André, sobre o papel dos insetos no ecossistema.

Por servirem de alimento a muitos predadores que fazem parte da fauna das cidades – como ratos e morcegos, seu fim causaria também uma rápida desestabilização das populações animais.

Portanto, quando sinalizar a presença de baratas, pode estar ainda no início. Se a população da baratas for muito em grande, em último caso recorra à fumigação.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Funchal no top 10 dos portos com maior poluição por navios de cruzeiro na Europa


Os portos de Lisboa e do Funchal estão no 'top 10' das infraestruturas portuárias da Europa com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro, segundo um estudo divulgado hoje pela associação ambientalista Zero.

"Em termos absolutos, Portugal mantém o 6.º lugar entre os países europeus com maiores níveis de poluição por óxido de enxofre (SOx) emitido pelos navios de cruzeiro, depois de Itália (1.º), Espanha (2.º), Grécia (3.º), Noruega (4.º) e França (5.º)", segundo um novo estudo da Federação Europeia de Transportes e Ambiente, da qual faz parte a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Esse estudo, que incide sobre os portos da Europa, apresenta os dados de 2022, com a evolução da poluição atmosférica e das emissões de gases de efeito de estufa (GEE) provenientes dos navios de cruzeiro relativamente aos níveis pré-pandemia de 2019, verificando que houve "um agravamento das emissões de SOx em 9%, de óxidos de azoto (NOx) em 18 % e de partículas finas em 25%".

Estes poluentes são responsáveis por doenças cardiovasculares e respiratórias e contribuem para a acidificação e eutrofização do oceano, com consequências negativas para o equilíbrio dos ecossistemas, referiu a associação Zero, indicando que, "de um modo geral, o transporte marítimo é responsável por cerca de 3% das emissões globais de GEE e por cerca de 250 mil mortes prematuras e cerca de 6,4 milhões de casos de asma infantil por ano em todo o mundo".

Segundo o estudo, em 2022, os 218 navios de cruzeiro que navegaram na Europa emitiram mais óxidos de enxofre do que o equivalente a mil milhões de carros.

"Nos portos da Europa, o teor de enxofre do combustível é limitado a 0,1% (1000 ppm - partículas por milhão), mesmo assim 100 vezes mais que os limites impostos ao combustível dos automóveis (10 ppm)", explicou a associação ambientalista.

O 'top 10' dos portos europeus com maiores níveis de poluição associada a navios de cruzeiro é liderado pela cidade espanhola de Barcelona, seguindo-se Civitavecchia (Itália), Pireu (Grécia), Palma de Maiorca (Espanha), Lisboa (Portugal), Hamburgo (Alemanha), Southampton (Reino Unido), Mykonos (Grécia), Thira (Grécia) e Funchal (Portugal).

Ocupando a 5.ª posição deste 'ranking', o porto de Lisboa foi o que registou maior tráfego de navios de cruzeiro (108) na Europa em 2022, à semelhança do que se verificou no relatório anterior publicado em 2019, verificando-se um aumento das emissões de óxidos de enxofre.

"Em Lisboa, os navios de cruzeiro emitiram 2,44 vezes mais SOx do que os cerca de 374 mil veículos de passageiros registados na cidade (cerca de 11 toneladas comparativamente a 4,5 toneladas, respetivamente)", informou a Zero, acrescentando que os navios emitiram cerca de 278 toneladas de NOx, o que corresponde a 12% da emissão deste poluente por parte dos automóveis que circularam na capital portuguesa.

No 10.º lugar, o porto do Funchal registou 96 escalas de navios de cruzeiro em 2022, "um aumento acentuado relativamente a 2019, altura em que registou cerca de 75 escalas", o que contribuiu para elevar os níveis de poluição atmosférica, levando-o a integrar o 'top 10' dos portos mais expostos à poluição por SOx, quando antes ocupada na 15.ª posição.

Para a associação ambientalista Zero, "é urgente limitar a poluição oriunda de navios de cruzeiro" com a adoção de medidas mais rigorosas nos portos portugueses e europeus, seguindo o exemplo de Veneza, que em 2019 tinha o porto de cruzeiros mais poluído da Europa e "em 2022 caiu a pique para a 41.ª posição após ter banido a entrada de grandes navios".

Em comunicado, a Zero alertou que "falsas soluções como o gás fóssil aumentam o impacte ambiental e climático destes grandes monstros poluidores", acusando os operadores de cruzeiros de "campanhas de propaganda verde enganosas" e defendendo que as autoridades portuárias devem evitar quaisquer novos investimentos em infraestruturas de abastecimento de gás fóssil, canalizando esforços e investimento para o fornecimento de combustíveis renováveis de origem não biológica.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Dia Mundial dos Oceanos - Descoberta de um extenso recife de corais de águas frias a 2.000 m de profundidade, na Madeira (2018)


Durante o mês de Julho de 2018, o Observatório Oceânico da Madeira levou a cabo mais uma expedição científica, desta vez para explorar as zonas profundas e desconhecidas adjacentes à Ilha da Madeira. A missão, complexa e exigente, requereu uma vasta equipa de cientistas, técnicos e operacionais e uso de equipamentos com tecnologias de vanguarda. Estudar a biodiversidade marinha e a oceanografia física das zonas costeiras adjacentes aos canhões submarinos foi o principal objetivo.
Nesta expedição fez-se uma das maiores descobertas científicas dos últimos tempos na ilha da Madeira quando, a 2.000 m de profundidade, com recurso ao ROV Luso, a equipa de investigadores observou pela primeira vez na região a presença de um extenso recife de corais de águas frias, rico em vida marinha, nas margens do canhão submarino da Ribeira Brava. Quando se fala em conservação marinha, estes habitats são prioritários devido ao papel que desempenham como reguladores ecológicos do bom estado ambiental do Oceano. Contrariando a tendência de notícias que relatam a destruição destas agregações massivas de carbonato de cálcio no Atlântico Norte devido à pesca de arrasto, encontramos na Madeira recifes pristinos, sem vestígios evidentes de impactos humanos.
A expedição teve o apoio da Fundação Rebikoff.
Infelizmente, o Governo Regional da Madeira, nomeadamente a Secretária do Ambiente e o Presidente do IFCN, não têm agido com o objectivo de conhecer, estudar, preservar e salvaguardar o Recife de Corais de águas frias descoberto em frente à costa da Ribeira Brava, onde lá persistem as jaulas de aquacultura de produção intensiva, das Empresas Ilha Peixe e Jerónimo Martins que estão a poluir o fitoplâncton, e a sua riquíssima biodiversidade e os ecossistemas naturais. Sem qualquer monitorização dos seus gravíssimos impactos ecológicos.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Madeira - cascata


A Cascata da Garganta Funda na Ponta do Pargo, Calheta, Ilha da Madeira, com cerca de 140 metros de altura!

O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.

Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.

O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.

Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas


Carlos Frydman - "Sintonia: poesia". 1990

sábado, 11 de março de 2023

O que é a madeira impressa em 3D e irá reduzir o desperdício?


À medida que nos aproximamos do futuro, o que costumava acontecer apenas na natureza está a ter lugar em laboratórios. No novo mundo da agricultura celular, os cientistas estão a produzir carne sem matar animais. E agora é a vez das árvores viverem, uma vez que os cientistas descobriram como imprimir madeira em 3D. Em vez de serem cortadas e transformadas em cadeiras, jornais, papel de parede, caixas de ovos, sacos, caixas e papel higiénico, em breve as árvores poderão continuar a crescer, escreve o “Inhabitat”.

Precisamos de árvores e madeira

Segundo a mesma fonte, à medida que a população humana global foi aumentando para oito mil milhões, com muitas dessas pessoas a precisarem de muitas coisas, continuámos a cortar árvores para fornecer uma multiplicidade de produtos. Desde o início da civilização humana, eliminámos 54% da população de árvores da Terra, de acordo com um inquérito florestal global. E enquanto nos preocupamos em proteger os elefantes e os rinocerontes dos caçadores furtivos que procuram o marfim, o produto selvagem mais traficado é na realidade o pau-rosa. Da Tailândia para Madagáscar, onde existe pau-rosa, há pessoas a tentar cortar a árvore em vias de extinção e vendê-la ao mercado de mobiliário chinês. O emaranhado com os caçadores furtivos de pau-rosa “é tão perigoso que a árvore ganhou o apelido de ‘madeira de sangue’”.

“Mas uma árvore não tem de ter madeira adequada para tornar o mobiliário adequado para que as dinastias imperiais sejam valiosas”. As árvores fornecem sombra para arrefecer os nossos bairros, remover o carbono da atmosfera, filtrar a água, limpar o nosso ar e abrandar os surtos de tempestade. Assim, a capacidade de imprimir madeira em 3D “é uma boa notícia para os seres humanos, bem como para as árvores”.

Génios do MIT revolucionam a madeira

Cientistas afiliados ao Massachusetts Institute of Technology e ao Charles Stark Draper Laboratory publicaram o seu progresso na revista Materials Today no ano passado. Iniciaram o seu trabalho a fim de reduzir o desperdício e a perturbação ambiental, aumentando ao mesmo tempo os rendimentos e as taxas de produção.

Começaram com células dos Zinnia elegans, também conhecidos como zinnias.

“Em princípio, o esforço para produzir materiais vegetais na ausência da planta de apoio não é totalmente diferente da engenharia de tecidos em sistemas de células animais”, escreveram os autores do estudo. “Em ambos os campos, as células num ambiente de crescimento estruturado e rico em nutrientes podem ser orientadas para crescer e transformar-se em produtos semelhantes a tecidos”.

As células vegetais requerem vias metabólicas diferentes das células animais, mas os cientistas foram capazes de construir sobre o campo mais desenvolvido dos mamíferos. Até agora, a maioria dos esforços de engenharia de tecidos tem-se concentrado na cultura de células animais. Os autores do estudo salientam que o seu é o primeiro trabalho a utilizar a abordagem da agricultura celular para gerar material vegetal. Pode ler aqui todos os pormenores suculentos do estudo.

Uma start-up de impressão em madeira 3D

Os cientistas do MIT podem ser os primeiros a fazer madeira a partir de células zínnias. Mas não são os primeiros a experimentar formas alternativas de fazer madeira. Há já alguns anos que uma startup chamada Forust é a madeira de impressão 3D, começando com os resíduos de madeira de serradura e lignina. Este último ingrediente é um polímero orgânico que é um dos principais constituintes da madeira.

“Percebemos muito rapidamente que os resíduos de madeira são um material que poderia ser transformado para impressão em 3D”, disse Virginia San Fratello, presidente do departamento de design da Universidade de San Jose State e um dos fundadores da Forust, à Fast Company em 2021. O seu processo envolve camadas de serradura e aglutinantes não tóxicos para recriar o grão da madeira.

“Uma árvore é feita de lignina e celulose”, disse Ric Fulop, CEO da Desktop Metal, uma empresa de impressão 3D maior que inclui a Forust, como relatado pela Fast Company. “Quando se fazem coisas a partir de árvores, quer seja mobiliário ou papel, está-se essencialmente a desmaterializar a árvore… o que estamos a tentar fazer é voltar a juntá-la”. Pode soar um pouco como um aglomerado de partículas. Mas o grão na madeira impressa em 3D percorre todo o material, para que se possa lixá-lo e acabá-lo tal como a madeira.

E há bastante serradura e lignina em excesso. A poeira desvia estes materiais dos aterros sanitários.

“Centenas de milhões de toneladas métricas de resíduos são geradas todos os anos só nos Estados Unidos”, disse Fulop.

Redução de resíduos

Uma das coisas interessantes sobre estes dois processos é que os objetos podem ser impressos em 3D nas suas formas finais. As empresas podem imprimir uma cadeira ou mesa em 3D – sem desperdício. Podem também imprimir formas complexas. Talvez o melhor de tudo, a impressão em 3D possa levar a um processo circular para a fabricação de madeira. Quando a sua velha cabeceira se desgasta ou parte, pode enviá-la de volta para o fabricante, onde pode ser moída e impressa em 3D numa estante ou cadeira ou qualquer outra coisa que o mercado exija. O mobiliário poderia ser feito de uma forma totalmente nova, livre de resíduos.

“Claro que a tecnologia de impressão em madeira 3D ainda se encontra nas fases iniciais. Mas os cientistas do MIT estão esperançosos. O seu estudo espera um futuro em que os materiais possam ser produzidos localmente, em qualquer parte do mundo, sem necessidade de luz solar ou terra”, conclui o “Inhabitat”.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Moratória à mineração no mar profundo da Madeira - Moratorium on deep sea mining in the Madeiran waters

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A Assembleia Nacional Francesa – ANF acaba de tomar uma decisão histórica com vista a impedir a razia dos fundos marinhos por meio de mineração (215 votos a favor, 56 contra), ao convidar o governo francês a defender uma moratória relativa à exploração mineira dos fundos marinhos.
É uma decisão de grande importância, que vem contrariar a avidez de empresas e de Estados sobre as profundezas oceânicas relativamente a numerosos metais e minerais cobiçados pela indústria. A ANF pede a proibição dessa exploração na sequência de uma campanha determinada oriunda da sociedade civil francesa. Prevê-se que o governo siga as injunções dos deputados.
O presidente francês, Emmanuel Macron, inicialmente favorável à exploração dos mares profundos, mudou de opinião. Hervé Berville, secretário de Estado do Mar, afirmou nos debates parlamentares que precederam a votação: «Não é possível uma exploração mineira sem danos irreversíveis para os ecossistemas marinhos.»
A resolução vem reforçar a posição dos países críticos da exploração dentro da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, onde uma dúzia de Estados se pronunciaram até agora por uma moratória ou por uma simples pausa, isto enquanto já se iniciou a escavação em sondagens por robôs dos fundos oceânicos. (Adaptado do jornal digital francês ReporTerre, 18 de janeiro de 2023).



quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

COP 15 - Portugal vê reconhecidas sete propostas para designação de Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas


A proposta que Portugal desenvolveu nos últimos anos para a identificação de Áreas Marinhas Ecologicamente ou Biologicamente Significativas mereceu esta semana aprovação formal na COP15, que está a decorrer em Montreal, no Canadá.

Estas áreas tipicamente identificadas pelo acrónimo por EBSAS (Ecologically or Biologically Significant Marine Areas), foram avaliadas no âmbito dos Critérios dos Açores – universalmente adotados pelas Nações Unidas para a designação deste tipo de áreas, com reconhecimento de valores naturais em meio marinho – e incidem sobre território marinho localizado no Atlântico Nordeste.

Este é um processo que envolve sete áreas distintas sob jurisdição nacional num total de dezassete áreas no Atlântico Nordeste, e que entra agora numa nova fase com a aprovação formal na COP15: as propostas subscritas por Portugal, Espanha, Reino Unido, Irlanda, Dinamarca e Islândia reúnem a partir deste passo as condições necessárias à sua consideração como áreas prioritárias de conservação sob as quais se desenvolverão esforços dedicados ao seu estudo e caracterização.

Este é um passo determinante para o cumprimento do compromisso assumido por Portugal no sentido de aumentar a área marinha de jurisdição dedicada a objetivos de conservação, e representa o cumprir de um objetivo conjunto assumido pelo País nas dimensões de trabalho científico regional, levado a cabo pelas Regiões Autónomas dos Açores e Madeira e pelos organismos nacionais.

O Plenário da COP 15 reunido em Montreal, no Canadá, vai ainda adotar na próxima segunda-feira a decisão referente à Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade Marinha e Costeira, que integra uma posição clara relativa à mineração em mar profundo, subscrita por todos os países da União Europeia e que mereceu também o apoio de Portugal.

A redação final da decisão (que pode ser consultada aqui) impõe a necessidade de aumentar o conhecimento científico quer em termos de biodiversidade, quer em termos de impactes da atividade nesta, assim como desenvolver regulamentação que garanta inequivocamente a proteção dos valores naturais como condição prévia ao desenvolvimento das atividades de mineração em mar profundo.