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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Claro que o partido Chega e Iniciativa Liberal estão contra a proibição das redes sociais aos menores de 16 anos

Na passada quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, o Parlamento português aprovou precisamente um projeto de lei (proposto pelo PSD) que acaba com o acesso livre de menores de 16 anos às redes sociais. Como se previa, o Chega e a Iniciativa Liberal foram os únicos partidos a votar contra a medida. Aqui está o resumo do que aconteceu e os argumentos que sustentam essa posição:
O que foi aprovado?
Idade Mínima: A "maioridade digital" sobe dos 13 para os 16 anos.
Consentimento Parental: Jovens entre os 13 e os 16 anos só podem ter conta se os pais autorizarem através da Chave Móvel Digital.
Restrições Técnicas: As plataformas ficam proibidas de usar scroll infinito, reprodução automática de vídeos (autoplay) e notificações não essenciais para este escalão etário.
Multas: As empresas que não cumprirem podem enfrentar coimas de até 2 milhões de euros.

Os argumentos do "Não" (Chega e IL)
Embora ambos tenham votado contra, as justificações focam-se em ângulos distintos
  1. Argumento Iniciativa Liberal (IL)- Defende que a solução deve passar pela literacia digital e não pela proibição. Mariana Leitão (líder da IL) afirmou que a medida exige uma "vigilância sobre todos" e que o Estado não deve substituir o papel dos pais na educação.
  2. Chega - André Ventura criticou a medida por considerá-la ineficaz e uma intromissão do Estado. O partido argumenta que proibir o acesso a jovens de 14 ou 15 anos — que já têm maturidade para outras decisões — é ignorar a realidade tecnológica atual.
Embora ambos os partidos sejam conhecidos por uma presença digital muito forte, as suas estratégias e "territórios" de eleição nas redes sociais são distintos, refletindo os seus diferentes públicos-alvo.

Com base em dados recentes de 2024 e 2025 (incluindo relatórios da CNE e MediaLab/ISCTE), aqui estão as redes mais utilizadas por cada um:

Chega: O Domínio das Massas e do Vídeo
O Chega foca-se em plataformas que permitem um alcance viral massivo e uma comunicação direta e emocional, centrada fortemente na figura do seu líder, André Ventura.
  1. Facebook: Continua a ser o grande "quartel-general" do partido. É onde obtêm o maior número de interações (reações e partilhas) e visualizações de vídeos, chegando a atingir marcas de 9 milhões de visualizações em períodos eleitorais.
  2. TikTok: É uma ferramenta vital para o partido chegar ao eleitorado mais jovem e segmentar conteúdos curtos e incisivos. Ventura é frequentemente o líder político com mais tração nesta rede.
  3. Instagram: Usado para uma mistura de atividade política e momentos mais humanizados do líder, gerando milhões de interações mensais.
  4. YouTube: Utilizado para transmissões em direto e arquivo de intervenções parlamentares, funcionando como um canal de TV próprio.
  5. WhatsApp e Telegram: Canais crescentes para mobilização direta da base de militantes sem filtros de algoritmos.
Iniciativa Liberal (IL): O "Microcosmos" de Elite e Debates
A Iniciativa Liberal foca-se em redes que privilegiam a discussão de ideias, a literacia financeira/económica e o humor gráfico (memes).
  1. X (antigo Twitter): É historicamente o "porto seguro" da IL. O partido domina frequentemente o debate político nesta rede, sendo onde o seu conteúdo é mais partilhado e discutido pela bolha mediática e política.
  2. Instagram: Usado de forma muito profissional para infográficos, cartazes digitais e uma comunicação visualmente limpa e moderna. É a rede principal para o seu público urbano e jovem adulto.
  3. Facebook: Embora presente, o engagement é geralmente inferior ao do Chega nesta rede, sendo usado mais para fins institucionais e contacto com eleitores fora dos grandes centros.
  4. LinkedIn: Ao contrário da maioria dos partidos, a IL tem uma presença relevante aqui, focando-se no eleitorado corporativo, empreendedores e profissionais liberais.
  5. TikTok: O partido tem vindo a reforçar a aposta aqui para competir pela atenção da Geração Z, embora com um estilo menos agressivo que o do Chega.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Os discurso desumano e tácito de André Ventura e o discurso empático e democrático de António José Seguro



Ontem, no discurso de André Ventura, mais uma vez o narcisismo, a auto proclamação e a falta de empatia. No registo oficial do seu discurso focou-se quase exclusivamente no posicionamento político e estratégico e o tom "humanitário" da semana anterior desapareceu no momento final. Nem uma palavra foi dirigida para as vítimas das intempéries que têm assolado Portugal. Alguém reparou nisso?
Durante toda a semana o homem esforçou-se perante as TV's, andou a carregar mantimentos e até chegou a soltar um "que se lixem as eleições".

No seu discurso, António José Seguro, aquele que não se expôs ao populismo hipócrita em tempo de campanha, começou o seu discurso de vitória dirigindo-se a todos aqueles que estão debaixo de calamidade pública. Começar um discurso de vitória endereçando uma calamidade pública não é apenas cortesia; é um reconhecimento da realidade do país acima do triunfo pessoal. Define o tom de quem entende que o cargo é um serviço, e não apenas um prémio.
E isso diz-me muito sobre o Homem que promete exigência e segurança institucional. A direita democrática  votou contra André Ventura!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

[Intro]
Here he comes now

[Verse 1]
Here he comes gliding down the street
Thousand dollar trainers on his feet
All the monkeys part to let him pass
Thinks he's Jesus riding on an ass

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king, dancing the tango
With opinions, roasted minions
Bow as they're kissing the ring

[Chorus]
Saviours are a dangerous thing
Saviours are a dangerous thing

[Verse 2]
Here he comes to sweep you off your feet
With his little orange parakeet
Bringing as he offers something sweet
Suck-suck-suck-suck-sucking on the teat

[Pre-Chorus]
Young Narcissus and his sisters swoon
In the madness they bring, dancing the fandango
Celebration population sings
Dancing the king

[Chorus]

[Bridge]
Far from you, I feel so very far from you
From everything you say and do, I feel so very far from you

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king

[Chorus]

[Outro]
I feel so very far from you
From everything you say and do
I feel so very far from you
From everything you think is true
Here he comes now, saviours are a dangerous thing

Significado da canção
A canção "Saviours Are A Dangerous Thing", lançada pelo The Chameleons em 2024 (do álbum Arctic Moon), é uma crítica contundente ao cenário político global e ao perigo de seguir cegamente figuras messiânicas ou autoritárias.

De acordo com o vocalista e compositor Mark Burgess, o significado central gira em torno de três eixos:

1. Crítica ao Populismo e Autocracia
Burgess afirmou em diversas entrevistas que a letra reflete como as pessoas tendem a buscar "salvadores" em tempos de crise. Ele mencionou especificamente o comportamento de oficiais do governo que "fazem fila para beijar o anel de palhaços" que se comportam mais como reis autoproclamados do que como funcionários eleitos. A música faz referências visuais e líricas (como o "pequeno periquito laranja") que muitos interpretam como uma crítica à figura de Donald Trump e outros líderes populistas similares.

2. Ecos da História (Anos 1930)
O compositor declarou ver muitos paralelos perigosos entre o clima político atual e a década de 1930 na Europa — o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e viu a ascensão do fascismo. A canção alerta que a propaganda sedutora muitas vezes usa a "máscara da esperança" para esconder ideologias perigosas.

3. A Sedução da Propaganda
A letra explora como a humanidade se rende facilmente a promessas vazias de salvação, apenas para acabar presa por "algemas invisíveis". Termos como "Super Nero" e referências a Narciso na letra reforçam a ideia de líderes egocêntricos que queimam o mundo enquanto sorriem, enquanto seus seguidores (os "minions") os adoram cegamente.

Resumo do Conceito
O título já resume a tese da banda: "Salvadores são uma coisa perigosa". A mensagem é um chamado à vigilância individual e ao ceticismo diante de quem promete soluções fáceis para problemas complexos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Memórias de um futuro possível

É difícil, para não dizer impossível, sermos otimistas nos tempos que vivemos. As bombas caem em tantas partes que não se pode ter qualquer certeza relativamente à segurança do nosso teto. E acima de tudo, a gratuitidade e a facilidade com que se mobilizam recursos para romper o acordo tácito de muitas décadas relativamente ao imperativo de se manter a paz e respeitar os direitos humanos é inquietante. Esta situação está em óbvia contradição com a estabilidade necessária para respondermos aos verdadeiros desafios do nosso tempo: o combate às causas e a mitigação e adaptação às consequências das alterações climáticas, que já assolam milhões de seres humanos e tem causado um extinção em massa de espécies; a necessidade de desencadear medidas para aplainar as desigualdades sociais de modo a estabelecer um espírito coletivo de justiça e solidariedade; o imperativo ético estender os benefícios do conhecimento científico para melhorar a vida e a saúde de todos os povos e garantir um desenvolvimento socioeconómico justo e harmonioso a nível internacional.
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Portugal tem o segundo IVA mais alto da Europa, como diz André Ventura?



André Ventura falava daquilo que viu na Suíça a propósito das portagens. Por lá, paga-se uma taxa anual para poder circular; por cá, pagamos “por cada centímetro de estrada”, vociferou, indignado, o candidato a sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

Daí, saltou rapidamente para o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA): “Temos o IVA a 23%. Sabem qual é o IVA nos outros países? Portugal tem o segundo IVA mais alto da Europa!”

Será que tem razão?

O IVA é um imposto sobre o consumo que se aplica a quase todos os bens e serviços comprados e vendidos na União Europeia, tendo regras que podem ser aplicadas de forma diferente em cada país.

A Comissão Europeia disponibiliza os dados das taxas de IVA em vigor em cada um dos Estados-membros da União Europeia. Em Portugal, a taxa normal aplicada é de 23% e a taxa reduzida é de 6%.

Estando André Ventura a falar dos 23%, estaria, portanto, a falar da taxa normal de IVA aplicada em Portugal e, assim sendo, os dados não batem certo.

Portugal surge em oitavo lugar, ao mesmo nível de Irlanda, Polónia e Eslováquia, todos com 23% de IVA. Acima do nosso país, há outros Estados-membros com taxas normais – ou padrão - superiores.

A Hungria destaca-se com a taxa mais elevada (27%), seguida pela Finlândia (25,5%), pela Dinamarca (25%), Croácia (25%), Suécia (25%), Estónia (24%) e Grécia (24%).

A SIC pediu esclarecimentos sobre qual a fonte em que o candidato presidencial sustentou a afirmação - visto não bater certo com os dados da Comissão Europeia - mas não obteve resposta.

Portugal não é o segundo país com a taxa de IVA mais elevada da Europa. Apesar de a taxa de 23% de IVA colocar Portugal num grupo de países com as taxas mais elevadas, não é verdade que o país esteja no segundo lugar, nem sequer no pódio deste ranking.

Por ser ter sido eleito deputado e por ser o povo que paga om seu salário, cada mentira que dissesse deveria levar uma multa.
Ele não defende o povo nem as pessoas de bem, como apregoa.

O histórico de relações promíscuas do líder do partido Chega, André Ventura tendenciosamente procura distanciar-se dos seus principais aliados políticos (criminosos) que sempre financiaram os seus projectos eleitorais, dolosamente omitindo a fonte destes financiamentos que depois da detenção do político e empresário Tito Gomes Fernandes, figura próxima do Presidente deposto da Guiné Bissau, Umaro Sissoco Embaló, por alegado transporte ilegal de 5 milhões de euro em várias malas.  O seu silêncio sobre este caso que o compromete é muito estranho que em condições normais e conhecendo a natureza controversa de André Ventura, surpreende-nos a todos o facto de não ter aproveitado e explorado politicamente este episódio como mais uma oportunidade para destilar o seu discurso inflamatório de condenação. Pois, preferiu o silêncio, porque tem consciência que o princípio da moralidade que sempre defende, carrega no oculto da sua trajectória, relações comprometidas e sustentadas em revelações que descortinam a ambiguidade do seu caráter e posicionamento político.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Rescaldo das eleições presidenciais - desafios a António Seguro para derrubar o populista e fascista André Ventura


Estudos sobre populismo de direita mostram que condição económica (rendimento, precariedade, frustração com mobilidade social) é um dos motores centrais do voto radical, muitas vezes mais do que a escolaridade isolada. Os candidatos derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos. Agora o debate será António Seguro atrair o centro e centro-direita, activando propostas inequívocas de progresso social e recusar/ denunciar o discurso racista e populista de André Ventura.
Proponho também a António Seguro que seja claro do que esperamos dele enquanto Presidente nas questões ambientais.
O País, incluindo Madeira e Açores tem 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km². O que pensa sobre isso: segurança nacional apenas ou investimento na Economia Azul? Vemos o mar sempre de costas voltadas, quando bem gerido, é uma nova "indústria", salvaguardando o património pesqueiro. O sector energético também é fulcral. Onde e como vamos fazer a transição verde? Outro aspecto importante é a nossa biodiversidade e turismo. Como equilibrar as duas valências? Qual é a política florestal mais adequada ao Continente? Que compromissos fará com as cadeias de abastecimento e a agricultura biológica? Qual é a sua posição em relação ao REACH, Codex Alimentarius e a prevalência do princípio ecológico da precaução? 
Em Portugal estima‑se que existam atualmente cerca de 200 mil pessoas a viver com diagnóstico de cancro nos últimos 5 anos, e surgem perto de 60–70 mil novos casos por ano.
Áreas de Ciências da Vida, incluindo Biologia, registam 0-2% de desemprego em estudos recentes, superando Engenharia (média 5-10%, com picos em Civil a 23%) e superadas apenas por Saúde (0-1%). Como melhorar os seus salários, para evitar a emigração?
A Inteligência Artificial é o novo mercado. O que António Seguro pensa sobre isso? Não chega os unicórnios das Web Smmit. Queremos saber acção concreta, atraindo os nossos jovens qualificados para esta área em grande crescimento.
Ventura, por sua vez, muito provavelmente vai retratar a esquerda como uma ameaça a Portugal e responsável por muitos dos problemas que o país enfrenta hoje.
E ainda não está claro se ele vai redobrar a aposta em discursos que têm causado controvérsia pública - como cartazes com mensagens ofensivas a populações imigrantes do Sul da Ásia e ciganos - ou se adoptará um tom mais moderado e pragmático para conquistar eleitores de centro.
Ventura, como bom "artista" político que é (e farsante), apareceu vestido de roupa militar, num de seus últimos discursos e prometeu acabar com “os privilégios das minorias” e “não dar nem um cêntimo para políticas de identidade de género”. Diz que ama os animais, mas apoia a tourada. Ele conhece a frustração dos jovens masculinos vs femininos. Quantas mulheres votarão contra a supressão das políticas de acesso ao trabalho e emprego estável? Quase 8 milhões de posts falsos, com desinformação, foram registados na campanha política- 85% deles partiram de Ventura. Olho também nos media. Quanto é a falência dos meios de comunicação?
As intenções de Catarina, António Filipe e José Pinto foram declaradas nas intervenções sobre os resultados eleitorais: votar Seguro.
Cotrim, Passaláqua e Mendes basicamente declararam não apontar para algum lado legitimando Ventura como uma "direita moderada" do sistema.
Juntos na derrota do Ventura. Pela democracia, sempre!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A máquina da atenção: análise da cobertura do Chega e do seu líder


Há uma pergunta que não podemos evitar sempre que começa uma campanha eleitoral: quem define, de facto, os temas que ocupam o espaço público: os partidos ou as redacções dos Meios de Comunicação Social? Nas Autárquicas de 2025, a resposta ganhou contornos mensuráveis. Um levantamento exploratório do MDP: Movimento pela Democracia Participativa em que participei, baseado em pesquisas diárias realizadas no Google nos principais órgãos de comunicação portugueses entre 22 de setembro e 11 de outubro, mostra como a presença do Chega e, em particular, de André Ventura, foi não apenas dominante, mas também organizada em “ondas” temáticas com alto potencial de amplificação.

Com efeito, a curva de menções a “André Ventura” seguiu o padrão clássico dos ciclos mediáticos eleitorais: um pré-arranque relativamente discreto (André Ventura esteve três dias em parte incerta), uma explosão mediática no início oficial da campanha, um pico pronunciado e, por fim, uma retracção que permanece, ainda assim, acima do ponto de partida. Os números são eloquentes: de 1 700 referências no início da série para 9 080 na recta final, com um pico absoluto de 14 900 a 9 de outubro. Não é só volume; é o “timing”. O auge ocorre precisamente quando a disputa de mensagens é mais valiosa, ou seja, na fase em que os indecisos ainda escutam e os alinhados reforçam convicções.

Esta dinâmica não acontece no vazio: É construída. Entre 30 de setembro e 9 de outubro, a visibilidade de Ventura cresce de forma quase contínua, sinal de uma estratégia de “campanha de choque”: gerar acontecimentos (declarações, polémicas, episódios viralizáveis) capazes de puxar a cobertura para si, antes de a agenda estabilizar ou saturar.

Não basta contar menções: é preciso saber ao que remetem. O estudo isolou cinco enquadramentos discursivos recorrentes no discurso do Chega: justiça, corrupção, segurança, imigração e “comunidades ciganas” e seguiu a tração mediática de cada uma destas “frames”:

  1. A Justiça destacou-se como o eixo mais persistente e volumoso, liderando durante todo o período e batendo o recorde absoluto no dia 10 de outubro. Não é um acaso: “justiça” funciona como ponto de convergência para indignação, moralidade e punição: uma gramática que oferece ao Chega o papel autoatribuído de “voz do povo contra o sistema”.
  2. A Segurança mostrou-se o tema mais estável. Sem fogos-de-artifício, mas sempre alto. Se “justiça” dá a moral, “segurança” dá a ordem e sustenta a narrativa dia após dia.
  3. Imigração e “ciganos” operaram como boosters episódicos. Picos abruptos e quedas rápidas: sinais de ativação deliberada de polémicas com forte valor-notícia. Servem para reconfigurar a conversa nos momentos-chave, mas não se mantém como eixo estrutural da campanha.
  4. No agregado, o retrato é claro: o Chega agarrou a agenda com um tema estruturante (“justiça”), alimentou-a com um tema perene (“segurança”) e potenciou a sua visibilidade com detonadores de curto prazo (“imigração” e “ciganos”).

Comparando com PS e PSD, o Chega liderou o volume total de menções ao longo da série. O PS acompanhou a tendência na segunda metade da campanha, crescendo com intensidade na aproximação ao fecho. O PSD teve um pico precoce e perdeu tração logo depois. Três estilos distintos de presença mediática: exposição contínua e controversa (Chega), mobilização institucional concentrada (PS) e arranque forte com menor capacidade de retenção (PSD).

A consequência é um efeito de sobrerrepresentação temática: quando uma força política consegue impor, com regularidade, os seus temas preferidos, o risco não é apenas assimétrico, é cumulativo. A atenção puxa atenção; a polémica puxa cliques; e os cliques, por sua vez, reforçam o alinhamento editorial com aquilo que “rende”.

Este não é um apelo para “calar” ou silenciar ninguém ou nenhum partido (por muito extremista e radical que seja o Chega). É, sobretudo, um convite à existência de filtros editoriais mais conscientes: diversificar as fontes e os temas; distinguir o facto novo da provocação repetida; exigir contexto antes do título; medir o impacto de cobertura em narrativas que estigmatizam grupos sociais; e, sobretudo, não confundir barulho com relevância pública.

Do lado dos cidadãos, o antídoto chama-se literacia mediática: reconhecer quando um tema reaparece como trigger emocional; perguntar o que ficou de fora enquanto seguimos a polémica da semana; exigir contraditório e escrutínio simétrico para todas as forças políticas.

O estudo do MDP é exploratório, limitado na quantidade de media analisados e na duração dos dias medidos. O estudo assenta em contagens manuais de resultados do motores de busca da Google, restringidas a domínios jornalísticos de referência e recolhidas diariamente, sempre no mesmo intervalo horário. Como qualquer contabilização automatizada, pode incorporar duplicações, variações editoriais e ruído algorítmico. Por isso, o mais prudente é encarar estes números como indicadores de tendência, não como um estudo exaustivo e muito profundo.

Se quisermos um debate mais informado e plural, precisamos de monitorização periódica e transparente da agenda mediática. O MDP propõe-se fazê-la em ciclos regulares, incluindo as presidenciais que se avizinham. Não para limitar a pluralidade mas para iluminar as assimetrias que, invisíveis, decidem o que vemos, quando vemos e com que emoção vemos.

Democracia participativa também é isto: olhar para o espelho dos media, medir o reflexo e perguntar, sem receio, quem está a segurar a câmara ou o teclado que escreve as notícias.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A peste negra


Vai-me custar muito não voltar a ver Nova Iorque, o Inverno em Nova Iorque, o Thanks Giving, a árvore de Natal do Rockefeller Center, o Calatrava no Ground Zero, as iluminações e as montras de Natal na 5ª Avenida, os almoços na varanda interior da Central Station, os jantares no Village, ou a Frick Collection, um museu à dimensão de que eu gosto. Mas é assim a vida, estou velho para visitar ditaduras ou ver apodrecer por dentro a civilização em que fui baptizado, não me apetece ser recebido numa fronteira de aeroporto por um polícia de fuzil de guerra apontado, como se turista fosse igual a terrorista, e menos ainda acabar deportado para El Salvador ou Guantánamo, onde podem acabar todos os estrangeiros ilegais ou desalinhados com a loucura MAGA. Trump acaba de declarar os antifascistas terroristas e tornou claro, no funeral de Charlie Kirk, que, “ao contrário dele, eu odeio os meus adversários”. J. D. Vance, esse crânio da intelectualidade de direita, convidou os empregadores, os colegas e os vizinhos a denuncia­rem esses antipatriotas, para que o FBI e o desemprego se ocupem deles. O Supremo Tribunal Federal cauciona o despedimento de funcionários públicos por estritas razões políticas e inventou a teoria de que a Justiça não pode, invocando o desrespeito pela Constituição, contrariar o programa político de um Presidente eleito — o que significa o fim da separação de poderes, a morte da Justiça e a inutilidade da Constituição. Tudo substituído por uma ditadura unipessoal de um ser, talvez humano, mas doentiamente perturbado, que fez das suas características conhecidas — soberba, ganância material e crueldade — todo um programa político para consumo interno e exportação planetária. A História já viu semelhante e não foi assim há tanto tempo.

Em tempos normais, num mundo regulado pelos valores em que fomos educados, era impensável o que está a acontecer à América. E também era impensável ver a Europa ser humilhada sistematicamente, com o discurso ofensivo de J. D. Vance em Munique, a Dinamarca a ser ameaçada com uma invasão da Gronelândia, Von der Leyen a ser destratada nos domínios escoceses de Trump e depois a assinar a capitulação total da Europa na guerra comercial desencadeada por ele (o descaramento com que o homem nos manda comprar armas e petróleo aos seus amigos americanos em troca de nada) — e, no fim de tudo isto, ver os nossos líderes a rastejar aos pés do “aliado” americano. Zelensky, humilhado em directo por Trump e o seu acólito presidencial, engoliu tudo e respondeu com elogios, súplicas e agradecimentos; Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, encaixou a suprema vergonha de ver Trump revelar o conteúdo de uma missiva privada onde o elogiava ao melhor estilo dos subordinados de Estaline; ou o “grupo das boas vontades”, ou lá como se chama, ostensivamente ignorado por Trump nos seus diálogos com Putin, ir em excursão a Washington pedir para serem escutados sobre a guerra na Europa.

Mas a maior humilhação auto-infligida por alguma nação europeia aos pés do ditador americano foi, para mim, a recepção que a Corte e o Governo inglês reservaram ao rei Donald. Duvido que em vida de Isabel II tivesse sido possível assistir aos dois dias em que a velha Inglaterra, pátria da democracia e dos direitos do Homem, se ajoelhou, com pompa nunca antes vista, perante o homem que está a matar a democracia americana e a exportar para o mundo inteiro uma peste negra que aqui costuma ter o nome de fascismo. A Inglaterra que, após sucessivos desastres na escolha de um PM capaz — incluindo o actual Keir Starmer, uma espécie de amiga política —, se prepara para ver chegar ao poder Nigel Farage, o amigo e admirador de Trump, a quem os ingleses devem a saída da União Europeia. E mesmo este ‘aristo-fascista’ é desafiado ainda mais à direita por um ‘hooligan-fascista’, Tommy Robinson, capaz de levar 100 mil pessoas a manifestarem-se contra os imigrantes na cidade de Londres, que Trump descreveu como “irreconhecível” (apesar de cautelosamente a ter evitado na sua visita real). Desgraçadamente, os líderes europeus, que parecem entusiasmados com a eventualidade de uma guerra com a Rússia e que se dão ao luxo de desprezar a China, ainda não perceberam que o maior inimigo da Europa actualmente são os Estados Unidos da América de Donald Trump e J. D. Vance. E o perigo não é apenas a chantagem a que Trump submete a Europa a vários níveis: é o contágio, cada vez mais amplo, que aqui encontra a sua pregação, assente na prevalência dos interesses dos brancos, ricos e poderosos. Quanto mais tempo a Europa demorar a preparar-se para enfrentar o verdadeiro perigo — no comércio, na energia, na ciência, no clima, nos oceanos, na cultura e na ideologia — mais irreversível será a caminhada para o desaparecimento do mundo e do modo de vida em que fomos criados e educados.

A receita de Trump para a liquidação das democracias e do Estado de Direito é hoje uma espécie de manual de conduta de toda a extrema-direita mundial: dos nostálgicos do fascismo ou do nazismo, dos que gostam de ser mandados por “homens fortes”, ou dos que simplesmente não têm nada mais em que acreditar nem descortinam outro canto mais adequado onde se abrigarem. Todos acreditam na expulsão dos imigrantes das suas terras como solução única para a economia e a sociedade, todos consideram a esquerda como um inimigo a exterminar, todos já decidiram que os políticos das democracias são corruptos sem remissão, todos assimilam as “verdades” prontas-a-vestir que lhes servem e que os dispensam de uma alternativa que lhes daria muito mais trabalho: cultivar-se, informar-se, ouvir os outros (não é por acaso que só 12% dos votantes do Chega têm estudos superiores e 56% não concluíram o ensino secundário). E, consequentemente, todos dispensam o trabalho de procurar a verdade, assim como pouco lhes importam as mentiras constantes dos seus profetas, por mais obtusas que sejam (como as mais de 1500 viagens presidenciais de Marcelo, contabilizadas por André Ventura).

Alguns espíritos mais compreensivos ou modernos sustentam que a responsabilidade por esta onda galopante do populismo de extrema-direita é da esquerda e dos erros da esquerda. Sem dúvida que a esquerda cometeu e continua a cometer erros imperdoáveis, como a suprema imbecilidade do movimento woke, a defesa da autoflagelação histórica das nações com História ou as propostas económicas congeladas na análise marxista de há 150 anos. Mas nada disso seria suficiente para derrubar as democracias. O que derruba as democracias é a sua fragilidade natural — e a esquerda não é responsável por isso. A democracia é o mais frágil dos sistemas políticos, porque exige informação, formação, cultura, debate e capacidade de ouvir e dar razão ao outro, alternância de poder. E, sobretudo isto, um grande consenso social acerca da crença nestes valores e o amor à liberdade como valor primeiro. Mas assim como não é certo que o homem seja por natureza um animal bom, também não é certo que ele aspire por natureza a ser livre. A peste negra explora em proveito próprio o pior do ser humano, individual e socialmente considerado. A missão daqueles que querem continuar a ser livres é fazer-lhe frente. Nada mais.

"A peste negra" - Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 25/09/2025

sábado, 20 de julho de 2024

Entrevista a Vicente Valentim, autor do livro "O fim da vergonha - como a direita radical se normalizou"


Vicente Valentim é Cientista Político na Universidade de Oxford. A sua tese de doutoramento foi publicada em livro, “O Fim da Vergonha – Como a Direita Radical se Normalizou” (ed. Gradiva), em Abril deste ano e consiste na ideia de que “o rápido avanço da direita radical é, em grande parte, movido por pessoas que já tinham ideias de direita radical, mas que não mostravam por temer repercussões sociais”.

Ao longo do seu livro, Vicente Valentim descreve as três fases que levam a esta processo de normalização, sendo a primeira a fase de latência, em que há fortes normas sociais contra a ideologia associada à direita radical. A segunda será a fase de ativação em que os políticos apercebem-se de que há em privado mais apoio a ideias de direita radical e mobilizam as pessoas nesse sentido. Por último, a fase da revelação, em que as pessoas que já tinham estas ideias sentem-se mais à vontade para o fazer, havendo também mais políticos dispostos a aderir a partidos com essa ideologia.

Foi numa entrevista por videochamada que falámos com o Cientista Político sobre o seu livro, a forma como a direita radical tem moldado o sistema político-partidário, bem como temas da atualidade mais recente num ano tão marcado por eleições. Tendo sido a primeira parte desta entrevista gravada no dia 11 de julho, não demorou muito tempo até que os acontecimentos mais recentes nos EUA, tendo o ex-Presidente Donald Trump sofrido um ataque a tiro num comício da Pensilvânia, exigissem uma segunda curta parte da entrevista sobre a atualidade mais recente naquela que é talvez a eleição mais decisiva e quente deste ano.

Segundo a tese defendida no teu livro, o avanço da direita radical é em grande parte movido por pessoas que já tinham estas ideias, mas que não as mostravam por temer repercussões sociais. Havendo este conjunto de crenças e valores na sociedade associadas à direita radical, qual foi então a particularidade nesta última década para que houvesse uma transformação tão grande do sistema partidário, com estes partidos a ganharem mais lugares em Parlamentos, e em alguns casos, a fazerem parte de soluções governativas?

O argumento no livro é que, dado que estas ideias já existiam, faltava um político que fosse percecionado como sendo competente, e que fosse capaz de mobilizar os votos das pessoas que já tinham estas ideias. Por isso grande parte daquilo que explica o motivo pelo qual os partidos cresceram nos últimos anos tem a ver com a oferta das elites partidárias, ou seja, até que ponto é que há essa pessoa que é percecionada como competente.

Para que essa pessoa competente se aperceba que pode ter sucesso eleitoral com uma plataforma de direita radical, precisa de haver algum tipo de despoletador que a faça perceber que essas ideias são mais difundidas na sociedade do que antes parecia. Nesse sentido, tem havido alguns acontecimentos que têm causado essa perceção como por exemplo, a crise de refugiados em 2015/2016. Estes são acontecimentos que afetam vários países de forma semelhante, e como tal podem funcionar como esse despoletador nos vários países ao mesmo tempo. Acho que isso explica porque é que vimos nesse momento a direita radical a ter sucesso pela primeira vez em vários países.

Mas também queria por um bocadinho de água na fervura em relação a essa ideia de que há uma vaga de direita radical, no sentido em que, é verdade que há cada vez mais países que têm este tipo de partidos a ter sucesso a entrar para o parlamento, mas não acho que isso esteja a acontecer em todo o lado ao mesmo tempo. Começou a acontecer nos países nórdicos ou em França nos anos 80, e em Portugal aconteceu em 2019. Temos aí um período de quase 40 anos. Tenho alguma dificuldade em ver isso como uma vaga porque se pensarmos que um período de 40 anos é uma vaga, então quase tudo é uma vaga. Acho que não há propriamente um processo de contágio. O que há são acontecimentos como a crise de refugiados, que acabam por afetar vários países da mesma forma, e como tal, podem levar a este desenvolvimento nesses vários países, mas não é que eles se afetem necessariamente uns aos outros. 

“Não há nenhum fenómeno social ou político que tenha só uma causa.”

Um dos fatores que também falas no livro, e que também é usado como explicativo do crescimento destes partidos, são os fatores culturais. Neste século, falando mais no caso europeu, houve um conjunto de direitos a nível legislativo, que ou foram aprovados, ou também ganharam espaço na disputa política, como por exemplo a IVG, o direito ao casamento entre casais do mesmo sexo, ou a autodeterminação de género. De que maneira é que estas questões surgiram como motivo de backlash? E havendo também o fator das transformações económicas associadas à globalização, qual o peso que ambos os fatores tiveram para o crescimento da direita radical?

Quero começar por fazer a ressalva de que, apesar de eu defender esta tese no livro, não há nenhum fenómeno social ou político que tenha só uma causa. Pelo facto de o livro se estar a focar nesta explicação baseada em ideias que as pessoas já tinham mas não expressavam, não quer dizer que isso explique toda a dimensão do fenómeno. Explica uma parte, e é compatível com outras explicações também serem verdade.

Na literatura na Ciência Política, há muito esta ideia do backlash em relação a alterações culturais como este tipo de direitos de legislação no sentido de ser mais inclusivo de minorias. Eu acho que isso acaba por definir mais em que temas é que os partidos se focam, do que propriamente o sucesso destes partidos. Se olharmos para a direita radical em toda a Europa, quase a única coisa que ela tem em comum é a oposição às minorias, principalmente a minorias nacionais e étnicas. Tudo o resto, acaba por depender um bocadinho do contexto do país em que estão.

Há partidos de direita radical que são abertamente anti-feministas, mas também há partidos de direita radical que dizem defender os direitos das mulheres. Podemos discutir se o fazem ou não, mas pelo menos na sua perspetiva dizem isso. A mesma coisa em relação a minorias sexuais, por exemplo. É possível que haja um sentimento de reação em relação a estes direitos adquiridos nestas últimas décadas, mas acho que isso acaba por ser mais um after thought depois de esses partidos terem ganho sucesso com base nessas preferências mais próximas da direita radical.

No caso do Chega, ou do Vox em Espanha, ambos os partidos têm componentes deste tipo de retórica, mas quando pensamos naquilo que os fez crescer no momento inicial teve sempre a haver com minorias étnicas. Foi só depois de terem crescido que começaram a adicionar estes outros temas, por isso é que eu acho que acaba por ser mais uma segunda camada, mais do que o cerne do motivo pelo qual eles tiveram sucesso inicialmente.

Muitas vezes a própria retórica feminista, até por exemplo no caso da Georgia Meloni, também é muito usada para dar ênfase a uma lógica de proteção contra os imigrantes…

Há um livro da autora Sara Farris onde ela chama a isso o femonacionalismo, ou seja, a ideia de usar a bandeira do feminismo para ter ideias contra minorias. A ideia de que as nossas sociedades têm vindo a fazer progresso no campo do direito das mulheres, e se abrimos à imigração, vamos perder todo esse progresso. Há uma retórica às vezes parecida no que diz respeito à comunidade LGBT. Isto acontecia muito na Holanda com o Pim Fortuyn que foi o primeiro político de direita radical que teve sucesso que era abertamente homossexual, e cuja retórica era no sentido de que há todos estes direitos que ganhamos na nossa sociedade, e se abrirmos à imigração de repente, vamos perdê-los. Tanto no que diz respeito às minorias sexuais, como ao feminismo, há muito este tipo de retórica, de que todos estes direitos que se têm vindo a adquirir podem estar em causa se abrirmos às minorias.

Quando se dá a fase da revelação e há uma maior abertura para ter este tipo de discursos, e sendo a questão da imigração tão forte nestes partidos, de que forma é que as próprias perceções sobre esta questão acabam por aumentar gerando um ciclo vicioso?

Um dos argumentos no livro é precisamente o de que esse processo é mais ou menos irreversível. Não é possível fazer engenharia inversa e voltar para trás. Se quisermos combater a direita radical tem que ser através doutros processos, porque o processo de normalização vem muito desta noção de que se passou de uma situação em que estas ideias estavam bastante difundidas na sociedade em que o eleitorado e os políticos não sabiam, para uma situação em que tanto o eleitorado como os políticos têm a noção de que estas ideias são bastante difundidas na sociedade.

Agora que as pessoas e os políticos já sabem, é difícil voltar para uma situação em que escolhem não saber. É por isso que acho que é difícil voltar para trás, e que esta última fase do processo se autorreforça. E se pensarmos em alguém que é agora adolescente e está a interessar-se pela política pela primeira vez, o facto de estar a ser socializado politicamente num contexto em que estas ideias são tão faladas abertamente, pode também acabar por afetar as suas preferências políticas e torná-las mais próximas da direita radical, por isso, claramente isto é um equilíbrio que se autorreforça.

“O Fim da Vergonha – Como a Direita Radical se Normalizou” (Capa do livro)

No caso português, em 2019, o partido Chega elegeu pela primeira vez um deputado à Assembleia da República. Nas eleições legislativas de 2022 aumentou o seu grupo parlamentar para 12 deputados, e após as eleições deste ano conta com 50 deputados. Julgas que este partido tem mais margem de crescimento?

A direita radical pode crescer por motivos diferentes. Muitas das vezes, pelo menos no início, cresce muito por este processo de normalização, e esse processo por si só, naturalmente tem um teto. Diria que tendo em conta a expressão eleitoral do Chega, esse momento já chegou. Isso não significa que o partido não possa crescer mais através de outras estratégias, que parecem-me ser principalmente duas. Uma é que o partido pode-se moderar, chegar um pouco mais para o centro e alcançar um eleitorado que é menos radical. O outro processo através do qual o partido pode crescer no longo prazo, é não só angariar os votos das pessoas que já tinham estas ideias, mas conseguir progressivamente ir mudando as ideias de outras pessoas, e torná-las mais próximas da direita radical.

Mesmo que já tenha esgotado este eleitorado que já tinha estas ideias mas não as expressava, continua a haver outras maneiras de o partido crescer. São um bocadinho mais lentas e têm um bocadinho mais de riscos, principalmente a questão da moderação, porque abre o espaço para que apareça um partido mais extremista que ganhe os votos extremistas. Mas até isso acontecer, são estratégias que o partido pode usar, e parece-me que, pelo menos nas últimas eleições, o Chega tentou chegar-se um bocadinho mais para o centro. Houve muito menos incidência na questão da comunidade Roma, por exemplo, foi muito mais na questão dos subsídios. Acho que houve alguma tentativa de fazerem a imagem do partido ser um bocadinho menos extremista com esse objetivo talvez de chegar a um eleitorado um bocadinho mais moderado. 

Nas últimas eleições europeias colocou-se a ideia do resultado do Chega ter sido baixo por terem um candidato fraco, ou pelo facto do candidato da Iniciativa Liberal ser forte, contendo o seu eleitorado. Quais julgam ter sido os fatores que levaram a este resultado?

Acho que teve muito a ver com o candidato, e é preciso ter em conta que foi a primeira vez que o Chega concorreu com um candidato que não fosse André Ventura. Aliado a isso, e talvez também como consequência, a questão da abstenção. Agora já há dados para saber que o Chega cresceu muito nas legislativas por angariar votos de pessoas que antes se abstinham, e nas europeias tendencialmente a abstenção é mais alta, por isso é possível que algumas das pessoas que votaram no Chega nas legislativas não tenham ido votar nas Europeias. Acho que é um bocadinho prematuro dizer que o facto de o Chega ter tido um mau resultado significa que o Chega não está aqui para ficar, porque é preciso ter em conta estes dois fatores, e é também preciso não olhar para a árvore desde a floresta. O facto de o partido ter um resultado ligeiramente pior numas eleições, não quer dizer que depois não possa recuperar nas eleições seguintes.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Porque é que devemos levar o deputado do Chega, Gabriel Mithá Ribeiro, muito a sério


Por Vítor Matos
Eu sou um “herdeiro” de assassinos como Estaline ou Mao, um “polícia mental" do “aparelho repressivo” deste “tumor da democracia” que é a comunicação social. Sou um foco de “infeções psíquicas” para a sociedade, um jornalista-autor que usa as mesmas técnicas totalitárias dos “genocidas” estalinistas ou nazis no extermínio dos judeus. Se pudesse, o sr. deputado Mithá Ribeiro internava-me num campo de reeducação. Devemos levá-lo a sério

Caro leitor, fica avisado que não deve ler este texto, se quiser manter a sua saúde mental. Proteja-se, por favor, das “infecções psíquicas” e da “pandemia mental” desta prosa infeta, de um autor “herdeiro” de “assassinos” e “genocidas” soviéticos e nazis. Que sou eu.

É bom que se saiba, para proteção da comunidade, que represento um perigo para esta sociedade que o dr. André Ventura quer apenas “limpar”, mas que os seus mais dedicados e puros seguidores desejam purificar: cuidado, leitores e leitoras, uma vez que sou “um polícia mental”, que “trabalha para um regime repressivo, promotor social de uma ignorância que causa dano à sanidade mental coletiva dos portugueses.” Atenção, cautela com estas leituras. Pare já aqui. Não prossiga. E não deixe este texto ao alcance das crianças.

Podia fazer uma paródia - seria muito divertido -, mas o caso é para levar a sério. A primeira vez que li a diatribe publicada pelo sr. deputado do Chega, Gabriel Mithá Ribeiro, no “Observador”, contra o meu livro “Na Cabeça de Ventura” (Zigurate) com o título “‘Na cabeça de Ventura’ ou tratado sobre o aparelho repressivo do regime”, cuja leitura aconselho vivamente, confesso que me diverti pelo nível do disparate. Mas quando reli aquele glorioso absurdo, não achei graça. Considero ter o dever de responder, não para lhe devolver os insultos nem para dizer que o vou processar por difamação (não vou), mas para chamar a atenção de quem tiver paciência, para a gravidade do que está em causa.

Gabriel Mithá Ribeiro não é uma pessoa qualquer, não é um excêntrico nem um inimputável que escreve “coisas” em jornais. É um deputado da nação, foi eleito duas vezes pelo Chega no círculo de Leiria, e agora foi escolhido para secretário da mesa da Assembleia da República. Foi coordenador do Gabinete de Estudos do Chega e redator do programa eleitoral de 2022. Representa-me a mim e a si no Parlamento português.

Por isso, estamos no domínio das coisas sérias. Imagine que o PSD abandona as linhas vermelhas e abre a porta do poder ao Chega, ou que o Chega vai mesmo ao Governo, ou que ganha umas eleições, e o professor Mithá chega a ministro, secretário de Estado, ou mantém-se apenas como um influente, ou que isto vinga. Nem é preciso tanto. Neste momento, é uma obrigação expor o que o sr. deputado pensa. Este texto é como um aviso de receção: “isto” está entre nós.

E o que é “isto”? Não é o “fascismo”, como eles adoram que se lhes chame. É outra coisa, uma coisa nova, esta direita radical internacional, “iliberal” que não quer instaurar uma ditadura, mas matar a essência das democracias por dentro. Uma técnica é insultar (talvez insultar aqui seja pouco) os jornalistas que fazem o seu trabalho de escrutínio sobre os líderes e os partidos da direita radical: “A Máquina do Ódio” (Quetzal), livro da repórter brasileira da “Folha de São Paulo” editado em Portugal, é uma história arrepiante e exemplar sobre o bullying do bolsonarismo sobre jornalistas. Noutro livro, “O Crepúsculo da Democracia”, a autora Anne Applebaum, insuspeita de esquerdismos, conta histórias semelhantes na Hungria e na Polónia. É só uma pequena amostra.

Para além do insulto, a outra forma de tentar destruir o adversário real ou imaginado é tratá-lo como inimigo. O sr. deputado Mithá Ribeiro não tem uma cultura democrática que admita o escrutínio jornalístico independente sobre André Ventura ou o Chega.

Felizmente, o sr. deputado não esconde o que pensa: em janeiro, publicou um livro intitulado as “12 regras para um Portugal mais justo”, onde escreve que a comunicação social é “o tumor da democracia”. Imagina o que acontecia ao “tumor”, se a IV República do dr. Ventura passasse pelas mãos do professor Mithá?

Propagar o ódio aos jornalistas é uma técnica não exclusiva da direita radical, mas já foi ultrapassada a vulgata das acusações aos “esquerdalhos” da imprensa, para entrar no domínio das acusações de doença mental, que é a forma mais totalitária possível de desqualificar e despersonalizar um (suposto) adversário. Perante as posições do sr. deputado Mithá, a imprensa livre é uma impossibilidade. Sem imprensa livre não há democracia. E por aí fora…

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O farsante André Ventura, que critica a nova lei da emigração


Antes de chegar ao Parlamento, André Ventura saltou da Autoridade Tributária (AT) para a Finpartner, uma empresa de contabilidade e assessoria fiscal com intensa actividade nas áreas da engenharia fiscal via offshore e vistos gold, o que não deixa de ser engraçado, à luz da narrativa em torno da “pátria” e das posições anti-emigração que agora defende. Porque isto da pátria não é para qualquer gajo que chegue de barco de borracha em fuga da miséria. Isso seria cristão demais para um farsante como Ventura. Tratando-se de um oligarca russo, angolano ou chinês, que aterre em Lisboa no seu jacto privado, então já somos capazes de ter aqui alguma coisa para lhe vender. Nacionalidade portuguesa pelo preço certo em euros.

Isto do trabalho, na óptica do André Ventura, tem muito que se lhe diga. É que eu ainda sou do tempo em que, em 2019, o líder do Chega deu uma entrevista a uma estação televisiva de uma igreja qualquer, onde afirmou, com a convicção a que nos habituou, que, mal fosse eleito, deixaria todas as suas outras ocupações para se dedicar a tempo inteiro a servir o país. Porque defendia, convictamente, que os deputados o deviam ser em exclusividade de funções. Claro que, uma vez eleito, Ventura continuou a servir os interesses da Finpartner, durante quase mais dois anos, durante os quais teve acesso a informação privilegiada resultante da sua posição no Parlamento, que pode ou não ter entregue ao seu principal empregador. E desengane-se quem achar que Ventura saiu da Finpartner por imperativo de consciência. Saiu, isso sim, porque a contradição se tornou insustentável. E porque os próprios militantes do Chega começaram a ficar indignados. Tivessem deixado Ventura tranquilo na sua vida, e ainda hoje lá estaria.

Indo um pouco mais atrás, até 2014, recorde-se que André Ventura assinou um parecer, enquanto inspector tributário ao serviço da AT, que contribuiu para isentar uma empresa de Lalanda de Castro, ex-patrão de José Sócrates, do pagamento de 1,8 milhões de euros de IVA. Este caso foi investigado no âmbito do processo dos Vistos Gold, por suspeita de favorecimento de Lalanda e Castro, que também está referenciado na Operação Marquês, Panama Papers e é acusado de corrupção no processo Máfia do Sangue. E sim, este Ventura que serviu de peão na manobra de evasão fiscal de Lalanda e Castro, que prejudicou todos os portugueses, é o mesmo Ventura que demoniza todos os beneficiários do RSI, incluindo crianças.

Em 2021, as contribuições dos imigrantes subiram para um valor recorde: 1293 milhões de euros. Paralelamente, as prestações sociais de que beneficiaram ficaram-se pelos 325 milhões, o que significou um saldo positivo de 968 milhões para os cofres da Segurança Social.
Em 2022, novo recorde. Desta vez, as contribuições ascenderam a 1861 milhões, as prestações sociais caíram para 257 milhões e o saldo disparou para os 1604 milhões.
Mais um ano, mais uma chapada na retórica desonesta da extrema-direita xenófoba e racista.
Mais uma chapada na narrativa canalha que faz dos imigrantes o bode expiatório da agenda do ódio.
Mais uma chapada na instrumentalização do medo e da ignorância, da demagogia da divisão, do cheio nauseabundo do isolacionismo nacionalista.
A verdade, digam o que disserem os descendentes de Salazar, é que precisamos destas pessoas. Porque são eles quem aceita os trabalhos precários e mal pagos na construção civil, no turismo, na restauração e no serviço doméstico. Sem eles, estes sectores colapsariam, ou ficaram perto do colapso.
Porque falta mão-de-obra, e porque os portugueses não querem esses trabalhos. Preferem emigrar.
Portanto, sim, estes imigrantes, sejam brasileiros, paquistaneses, indianos ou nepaleses, fazem falta à economia portuguesa.
E contribuem para contas públicas mais saudáveis. Muito mais saudáveis.
Portugal precisa deles.
O resto é conversa de populistas que não têm mais do que ódio e ditadura para oferecer ao país.