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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

TORTURETWINN - Remember Me

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A canção "REMEMBER ME" do duo TORTURETWINN condensa a essência de uma cena alternativa em ascensão que reinterpreta nostalgias passadas sob uma lente profundamente digital e contemporânea. O projeto musical formou-se em Richmond, Virgínia (EUA) no ano de 2020, durante o período da pandemia. TORTURETWINN move-se no cruzamento entre o Darkwave, o Post-Punk Revival e o Synthpop. A sua sonoridade assenta em linhas de baixo pulsantes e repetitivas, sintetizadores retro-futuristas frios e vocais repletos de reverberação, criando um ambiente dançante porém soturno.

O projeto insere-se na vaga de renovação da subcultura goth e post-punk que emergiu na transição dos anos 1990 para a década de 2000, marcada pelo universo do Mall Goth e pela cultura de internet da era Y2K. Esta estética recupera a obsessão pela tecnologia de início do milénio - como ecrãs de tubos catódicos, estética de videojogos antigos e plataformas digitais primitivas -, a moda industrial misturada com o minimalismo cyberpunk e o isolamento urbano transformado em expressão artística através do espírito independente do Do It Yourself.

O videoclipe de "REMEMBER ME" funciona como uma meditação visual sobre o esquecimento, a obsessão e a mortalidade na era digital. A repetição do mantra do título contrasta com cenários estáticos e iluminação de néon em forte claroscuro, simbolizando o medo de desaparecer da memória do outro num mundo saturado de informação. O constante jogo de espelhos e enquadramentos simétricos entre os dois membros reforça o conceito de "gémeos" implícito no nome da banda, opondo o eu real à sua própria projeção fantasmagórica.

Os membros pertencem à Geração Z, uma geração que cresceu imersa no ambiente digital e carrega uma ansiedade existencial característica de quem vivencia as relações humanas mediadas por ecrãs. Em termos filosóficos, a obra bebe do Existencialismo de Albert Camus e do Niiilismo, refletindo o desapego e a procura de significado num mundo frio, além de tocar na Hauntologia teorizada por Mark Fisher - a sensação de que vivemos assombrados por estéticas do passado. Na literatura, o lirismo conecta-se ao Romantismo Obscuro de Edgar Allan Poe pela fascinação com o declínio e a morte, cruzando-se com a literatura Cyberpunk de William Gibson, onde a alta tecnologia coexiste com a solidão humana.

Página Oficial
TORTURETWINN

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rosetta Stone - Shadowban

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A banda Rosetta Stone é uma referência histórica do rock gótico britânico, tendo surgido em Liverpool no final da década de 1980 pela mão do vocalista e compositor Porl King. Ao longo dos seus anos de atividade, o grupo protagonizou uma metamorfose sonora marcante: começou enraizado no som sombrio e guitarrístico da segunda vaga do gothic rock britânico, muito próximo de nomes como The Sisters of Mercy, mas foi progressivamente incorporando caixas de ritmos pesadas, sequenciadores mecânicos e pulsos sintéticos rígidos. É precisamente essa viragem para a eletrónica negra e para estruturas rítmicas repetitivas que faz com que temas recentes como "Shadowban" soem tão próximos da EBM - a Electronic Body Music de pioneiros belgas como os Front 242 -, aliando uma urgência industrial a vocais frios e robóticos.

Em termos de narrativa visual e temática, o videoclipe oficial de "Shadowban" utiliza imagens da longa-metragem surrealista de terror gótico Magick Mtn. (2026), um projeto cinematográfico imerso no universo do ocultismo de Laurel Canyon, feitiçaria e estéticas do deathrock. Essa simbiose visual encaixa na perfeição com o significado da própria canção. O termo shadowban alude ao bloqueio subtil e invisível de conteúdos no espaço digital, e Porl King transforma essa metáfora numa reflexão sobre o silenciamento algorítmico, a perda de agência individual e a alienação na era moderna, onde a voz humana é absorvida pela hiper-realidade dos ecrãs.

Essa abordagem encontra eco em influências literárias e filosóficas profundas. O conceito do filme e da própria faixa dialogam diretamente com o misticismo e a magia cerimonial de Aleister Crowley, ao mesmo tempo que recuperam a atmosfera febril e a decadência psicológica evocar no clássico A Montanha Mágica de Thomas Mann. No plano filosófico, a ideia do silenciamento invisível aproxima-se da teoria do simulacro de Jean Baudrillard, onde os códigos e os algoritmos substituem o mundo real, deixando o indivíduo a gritar num vazio em que ninguém o consegue ouvir.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Drab Majesty - Noise of the Void


Ver vídeo aqui

[Verse 1]
Surrounded by reactive eyes
Mass reaction sadness
Satan hides no more
Love is on a leash today
Branded by the things you
Say-tan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
It's the emptiness, the emptiness

[Verse 2]
Love is a panopticon
Opted out of options
Satan hides no more
Satan hides no more
Death to your autonomy
Searching for that person
Satan hides no more
Satan hides no more

[Chorus]
You walked right into the web
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Bridge]
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender sound as you enter the ground?
Is there any reason now
To surrender the horrendous sound of the hour is everywhere now?

[Refrain]
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)
(It's the emptiness, the emptiness)

[Chorus]
You could never talk with silence like this
(It's the emptiness, the emptiness)
You could never stop the violence like this
(When sentience is sensing it)
You could never walk with mileage like this
(It's your willingness to ignorance)
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

[Outro]
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you
Listen to the noise of the void
There's a message in it for you

Narciso no Panóptico: A Desconexão Humana em "Noise of the Void"
Os Drab Majesty são uma banda originária dos Estados Unidos, mais concretamente de Los Angeles, Califórnia. O projeto define o seu som através do termo criativo "Tragic Wave", uma fusão estética que combina elementos de Darkwave, Coldwave, Post-Punk, Dream Pop e Goth Rock de inspiração oitentista.

Integrada no álbum Modern Mirror, a faixa aborda o estado de despersonalização e alienação provocado pelo ecossistema digital contemporâneo. O "ruído do vazio" refere-se à sobrecarga constante de informação, distrações e estímulos virtuais que mascaram a ausência de sentido e desvanecem a identidade individual. A letra sugere que a recuperação da consciência e do eu autêntico exige o silêncio e o afastamento desse ruído contínuo.

O videoclipe foi realizado pelo cineasta australiano Jai Love e filmado em película de 16mm em Sydney. As escolhas visuais contam com uma estética retro e hipnótica que reflete o isolamento urbano e a desconexão existencial descritos na faixa, recorrendo a cenários surreais e composições ritualísticas para ilustrar a busca por transcendência num mundo frio e automatizado.

Neste cenário visual, a presença das duas figuras femininas nuas funciona como um poderoso dispositivo simbólico que aprofunda a temática da obra. A nudez representa a vulnerabilidade do ser humano desprovido das suas máscaras sociais, artifícios urbanos e distrações digitais, criando um contraste direto entre a fragilidade e a pureza do corpo e a frieza dos cenários onde as cenas decorrem.

A narrativa conceptual do tema assenta principalmente no mito de Narciso e Eco, presente nas Metamorfoses de Ovídio, recontextualizado para a dependência moderna dos ecrãs e da autoimagem. No teledisco, a escolha das duas figuras femininas introduz precisamente este conceito da duplicidade e do espelho, em que ambas atuam como o reflexo uma da outra, simbolizando a procura constante da própria identidade através do "outro" ou da projeção do próprio reflexo. Esta dinâmica traduz o transe existencial e o ritual de regresso ao estado original do ser, numa tentativa de despir a mente do "ruído do vazio" e retornar a uma essência pura.

A nível filosófico, a canção cruza o existencialismo e o niilismo de autores como Friedrich Nietzsche ou Jean-Paul Sartre, ao confrontar a busca de sentido no meio do vazio, com a teoria do panóptico e da vigilância social de Michel Foucault e Jeremy Bentham, onde a constante exposição pública resulta na perda da individualidade. A exposição total dos corpos no vídeo dialoga diretamente com esta ideia de vigilância moderna, onde o indivíduo se encontra permanentemente observado, vulnerável e desnudado perante o olhar alheio na sociedade contemporânea.

terça-feira, 19 de maio de 2026

O declínio da ordem democrática e a emergência da Pós-Democracia


Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Há sinais de que isso é evidente.

A ordem mundial estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial concebia a democracia como a forma ideal de governo, baseada em três ideias fundamentais: a eleição popular de autoridades através de sufrágios livres, competitivos, igualitários e secretos; a separação de poderes; e a expansão dos direitos humanos no âmbito do Estado de Direito. Tudo isto, além disso, ocorreu num contexto de crescente reconhecimento do pluralismo.

Este panorama consolidou-se no contexto da "terceira vaga" teorizada por Samuel Huntington, que abrange os processos democratizadores ocorridos nas duas décadas que separam os países do sul da Europa dos do leste. O fracasso do comunismo, do militarismo desenvolvimentista e de vários modelos de regimes sultanistas era evidente, e quase todos os países latino-americanos se viram imersos nesse movimento. Restaram apenas casos desviantes, como Cuba, mas a maioria aparentemente seguiu o caminho da chamada consolidação democrática.

O sucesso desta transformação no final do século passado traduziu-se num novo impulso na ciência política e numa agenda para a "qualidade da democracia", que consiste em mensurar o seu comportamento de acordo com abordagens teóricas pioneiras, desenvolvidas, entre outros, por Guillermo O'Donnell e Leonardo Morlino. Isto levou a avanços significativos na análise da democracia com base na avaliação dos seus componentes. A Freedom House, a The Economist Intelligence Unit, a Fundação Bertelsmann, a International IDEA e o Projeto V-DEM foram os agentes mais proeminentes na condução destes estudos.

Os Sintomas de Fadiga e a Revolução Digital
A reviravolta global provocada pela pandemia exacerbou os sintomas de fadiga que vários países, em diferentes níveis da estrutura democrática, vinham a experimentar. A desconfiança nas instituições, o desapego face à democracia e a crise de representação política — evidentes em partidos fragmentados e voláteis, com uma identidade reduzida e difusa — tornaram-se patentes. Isto foi também articulado pela centralidade de líderes inexperientes, empurrados para a arena política por consultores de comunicação especializados. Além disso, na maioria dos países latino-americanos, os fracos resultados no combate à insegurança pública e à corrupção desacreditaram ainda mais a política.

Este cenário completou-se com uma sociedade transformada pela revolução digital exponencial:
  1. O crescente individualismo e a articulação de diferentes identidades nas redes sociais emergentes (que romperam com as formas anteriores de interação social);
  2. Novos mecanismos de informação e comunicação que alcançavam as pessoas de forma personalizada, imediata e viral;
O domínio da pós-verdade, marcado por formas de manipulação da realidade.
Tratou-se, em suma, da consolidação de uma "sociedade do cansaço", segundo Byung-Chul Han, que explorou o estado da "sociedade líquida" descrita por Zygmunt Bauman ao teorizar sobre a sociedade de consumo.

Hoje, parece que a democracia deixou de ser a força motriz do desenvolvimento político que foi durante o último meio século. Nada sugere que o inegável consenso estabelecido se mantenha. Os sinais são claros.

O Cenário Pós-Democrático e as Três Ameaças
O mundo é atualmente movido por conglomerados tecnológicos em constante crescimento, com uma escala financeira sem precedentes. Estes agem em conjunto com a alienação dos seres humanos, desenvolvendo novas formas de ação coletiva incompatíveis com a forma como a democracia, agora desarticulada, evoluiu ao longo de décadas, abrindo caminho para um cenário pós-democrático invulgar e incerto, onde a polarização emocional se mostra um instrumento eficaz.

Dentro da ambiguidade do termo, e em meio ao desmantelamento do multilateralismo como caminho para uma ordem mundial minimamente operacional, emergem três fenómenos, aos quais se soma agora a disrupção provocada pela inteligência artificial (IA):

1. A capacidade autodestrutiva inerente: Há atores internos cujo comportamento é desleal, ou mesmo "semileal", como denunciou Juan Linz. Um exemplo é Vladimir Putin, que já foi presidente graças ao voto popular, mas iniciou de imediato a erosão do credo democrático, esmagando a oposição e controlando todas as alavancas do poder. O chavismo, Daniel Ortega e Nayib Bukele fizeram o mesmo, com resultados devastadores para os seus países.

2. A retórica populista e nacionalista: Diz respeito ao caminho perigoso trilhado por Donald Trump e os seus seguidores na Europa e na América Latina. O seu comportamento mina os direitos humanos ao bloquear políticas de inclusão, diversidade e igualdade, e ao criar bodes expiatórios para escoar a ira de uma população seduzida por múltiplas formas de manipulação da realidade. A retórica nacionalista, bem como os ataques aos meios de comunicação independentes, a intelectuais e a grupos de oposição, minam qualquer estrutura de consideração e respeito pelo pluralismo.

3. O modelo autoritário de sucesso: Refere-se ao modelo chinês de inegável sucesso económico e enorme transformação social, impulsionado pela urbanização e pela elevação dos padrões educativos e de saúde. Assim, o autoritarismo chinês tornou-se um estímulo à manutenção de formas antidemocráticas noutros países.

O Impacto da Inteligência Artificial
Por sua vez, a IA está a revelar-se uma ferramenta disruptiva que impacta drasticamente a desinformação e fomenta o conhecimento profundo das preferências das pessoas, tornando a participação política convencional obsoleta. Não será surpresa, portanto, que a forma como os eleitores se deslocam regularmente às urnas seja em breve substituída, tal como a forma como elegem os seus representantes.

A pós-democracia, em suma, representa um espaço incerto que responde aos desafios da sociedade digital, sendo, ao mesmo tempo, a consequência do cerco histórico sofrido pela democracia representativa e das suas falhas em enfrentar os problemas dos cidadãos e responder às suas exigências.

E em Portugal? Marca na agenda: faz greve no dia 3 de Junho

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Violência, alienação e o império dos ecrãs


No início da semana passada, fomos confrontados com a hedionda notícia da ampla e desenfreada circulação, pelas redes sociais, de imagens de uma jovem de 16 anos a ser, neste país de alegados brandos costumes, na zona de Loures, constrangida e sujeita a abusos sexuais de várias ordens – tendo mesmo a Polícia Judiciária falado de violação agravada – por parte de, pelo menos, três outros jovens, pouco mais velhos do que ela e descritos e apresentados como “influencers”, com muitos milhares de seguidores.

Tendo a jovem apresentado queixa às autoridades alguns dias após os factos, veio a saber-se que, afinal, as referidas imagens já tinham sido visualizadas por milhares de pessoas, sem que uma única delas tivesse tomado a atitude de as denunciar como o miserável e absolutamente inaceitável abuso que são, fosse publicamente, fosse, e ainda menos, às ditas autoridades.

Naturalmente que os factos em causa deverão agora ser devida e cabalmente investigados no âmbito do respectivo processo-crime. Mas, independentemente do que neste se vier a apurar, nomeadamente em termos da referida violação, a verdade é que a sujeição de alguém em inferioridade de número, de capacidade física e de suporte emocional, em estado de nudez, relativamente aos que, em grupo, a colocaram nessa situação, é um acto de todo indigno, repugnante e cobarde. E a sua filmagem, assim como a subsequente e generalizada divulgação das respectivas imagens, é outra absoluta repugnância, que não pode deixar de merecer a nossa mais firme reprovação. Mas a verdade também é que todos aqueles que viram as referidas imagens e, assim, souberam o que se passara e que, ou viraram a cara para o lado, ou, pior ainda, se satisfizeram com aquele degradante espectáculo, não podem, também, deixar de merecer essa mesma veemente reprovação.

Acontece que, já semanas antes, outro “influencer”, perante os seus milhares de seguidores e com a prestimosa ajuda das gargalhadas amigas de um pseudo-entrevistador, se gabara alarvemente da “proeza” – que se veio a apurar ser verídica – de, por vir distraído com o telemóvel, ter atropelado violentamente, numa passadeira, uma mulher, e depois ter fugido apressadamente do local sem prestar assistência à vítima. Entretanto, na manhã do passado domingo, um condutor que circulava a alta velocidade na Estrada Marginal, junto à Praia da Torre, atropelou violentamente três ciclistas (dois dos quais ficaram em estado bastante grave e tiveram de ser internados no hospital) e fugiu do local, sem querer saber do estado das vítimas que causara e sem lhes prestar qualquer auxílio. Na tarde do mesmo dia, um condutor de motociclo atropelou violentamente, na Amadora, junto ao Bairro Casal da Mira, uma criança de 10 anos (que também teve de ser conduzida de urgência ao hospital) e igualmente fugiu do local, sem prestar qualquer assistência à jovem vítima.

Todos estes comportamentos, a comprovarem-se pelos meios e no local adequados – ou seja, no processo-crime respectivo e no julgamento e condenação em Tribunal – constituem crimes de particular gravidade, que denotam não apenas um perturbantemente elevado grau de intencionalidade, como também, e sobretudo, uma estarrecedora frieza ou ausência de sentimentos e de consideração pelo outro. E, sendo devidamente provados, devem ser punidos com a severidade que a natureza e as circunstâncias destes crimes justificam. Sobretudo quando os seus autores, nem na altura dos factos, nem posteriormente, manifestem qualquer espécie de espontâneo arrependimento ou remorso pela barbaridade que praticaram. E sobretudo quando, segundo as estatísticas da própria PSP, nos últimos dois anos, 22% dos condutores envolvidos em acidentes mortais ou com feridos graves fugiram do local! 

Mas tão importante como essa reprovação jurídico-penal tem de ser também o juízo ético, firmemente crítico, e a afirmação da inaceitabilidade social deste tipo de comportamentos, pois que quem assim actua está a levar à sua expressão máxima os sentimentos mais negativos e mais baixos, bem como uma completa ausência de valores e de princípios. Tudo isto numa postura que, como bem sabemos, já vimos, e por diversas vezes, ser adoptada na própria atividade política, tal como sucedeu quando conhecidos nazis comentaram publicamente que a prostituição forçada e colectiva, “tipo arrastão”, era o destino adequado para as mulheres de esquerda, ou quando outros, estejam eles no Parlamento ou numa claque de futebol, se permitem apelidar de “vacas” as deputadas de outras forças políticas ou dirigir ruídos como mugidos ou gritos de macacos aos seus adversários… E é precisamente por isso que a nossa atenção e reflexão têm de ir bem mais longe do que a (nestes casos, mais que merecida) condenação penal, a qual estará, porém, sempre no “fim da linha”. Sob pena de estarmos, afinal, e de forma cada vez menos eficaz, a querer tratar dos problemas da podridão das águas de um rio na sua foz e não na sua nascente.

Assim, e antes de mais, há todo um debate político e ideológico a travar acerca do ideário próprio do capitalismo, em particular na sua fase actual (a do capital financeiro e imperialista), que assenta desde logo no desprezo pelo colectivo e pelo comunitário e na contínua pregação do individualismo, ou seja, da ilusão de que será por soluções individuais (como as dos discursos e técnicas ditas motivacionais…) que a grande maioria dos membros das sociedades actuais conseguirá sair da vida miserável que leva e resolver os seus problemas essenciais: de emprego, de subsistência, de habitação, de saúde e de educação dos filhos, etc. Temos assim, e coerentemente, o uso “científico” do medo e a permanente inculcação da ideia de que “o outro” (o diferente, o deficiente, o velho, o cigano, o negro, o estrangeiro, o muçulmano, o colega de carteira ou de empresa) é um adversário, e mais do que isso, um inimigo, que nos prejudica e ameaça, e que por isso importa eliminar, seja de que forma for.

O dinheiro, o poder ou o sucesso são então apresentados como os objectivos a alcançar, seja a que custo for. E, obviamente, a lógica maquiavélica – desenvolvida e teorizada por todas as organizações e sociedades ditatoriais – de que os fins justificam os meios, por mais ilegítimos, indignos ou brutais que eles sejam, e de que vale tudo para atingir tais fins e alcançar tais objectivos, transformou-se nos valores e princípios permanentemente divulgados, praticados e instruídos por toda a sociedade nas fábricas e empresas, nas escolas, na administração e também nas próprias famílias.

As maravilhosas inovações tecnológicas, em particular as da era digital, em vez de servirem para, aumentando exponencialmente a produtividade do trabalho humano, aliviar a nossa relação com este, diminuir as pesadíssimas cargas e ritmos de actividade, dar emprego a mais pessoas e propiciar a realização pessoal e social de quem trabalha, de quem estuda e de quem já trabalhou uma vida inteira, foram, afinal, expropriadas por uma pequeníssima minoria (os 1% da população mundial que arrecada mais de 50% de toda a riqueza) e transformadas num instrumento privilegiado  de aumento dos tempos e ritmos de trabalho, de precarização e proletarização dos trabalhadores mais qualificados, e de repartição do seu saber por tarefas decompostas e simplificadas, a cargo de trabalhadores mais precários e até de máquinas, com a imposição de um crescente “taylorismo digital” e de uma absoluta desumanização das relações sociais de trabalho.

E é assim que a reivindicação histórica das 8 horas máximas de trabalho por dia, pela qual, no século XIX, tanto sangue, suor e lágrimas derramaram os trabalhadores de então, volta a ter, num número crescente de sectores e de países, um carácter absolutamente revolucionário. Pois, entretanto, em nome da “flexibilidade”, do “combate à crise” (seja ela qual for) e da necessidade de se salvarem as empresas, ou seja, os lucros dos seus donos, se generalizou a lógica e a prática de jornadas de 10, 12, 14 e até mais horas de trabalho, com ritmos cada vez mais infernais. Ou no mesmo emprego, ou até em dois, que quem trabalha é obrigado a arranjar para, devido à exiguidade dos salários, conseguir sobreviver.

O resultado desta forma de organização social é a propositada criação de uma multidão de autênticos “zombies”, absolutamente esgotados por exigentes, extenuantes e abusivas jornadas de trabalho e enormes tempos de deslocação entre o trabalho e as respectivas casas, cada vez mais longínquas e precárias devido aos preços da habitação, sem capacidade reivindicativa ou de organização, sem tempo para se cultivarem, se dedicarem ao desporto, ao teatro, à música ou à actividade cívica. E, claro, sem tempo nem disposição para dar a atenção que os filhos querem e de que precisam como pão para a boca.

A imposição duma sociedade injusta como esta resulta na anestesia e o “acarneiramento” das populações. E isso implica que o espírito crítico, a capacidade de raciocínio, o gosto pelo conhecimento, o desenvolvimento das chamadas funções cognitivas superiores, as leituras, a reflexão, tudo isso seja desvalorizado e banido, sendo, afinal, substituído pelo “deus Mulloch” do lucro e da busca incessante pelo seu máximo.

E é por isso que, para completar este mesmo “edifício social”, surge o desprezo pelo livro, pela escrita, pela aprendizagem da língua, sendo tudo isso substituído pelo reinado dos ecrãs, onde o usuário do telemóvel ou do iPad tem o pouco esforço e a facilidade de consumir, acrítica e passivamente, (apenas) aquilo que os algoritmos para tal programados lhes servem. E onde praticamente tudo é reduzido à lógica binária do “0” e do “1”, a uma linguagem e a um vocabulário de uma pobreza aterradora, ultra-simplificados, que entorpecem o raciocínio, condicionam e impossibilitam a formação do espírito e, logo, o próprio desenvolvimento humano.

Nada disto sucede por acaso ou pela simples inépcia de alguns. É que, na organização social do capitalismo, não há, para quem trabalha, tempo nem lugar para a cultura, para as artes, para o Centro de Convívio ou para a Sociedade Recreativa e Cultural (cada vez mais condenados à asfixia e ao encerramento); como não há tempo nem espaço para o são convívio humano, para o exercício da cidadania e da solidariedade social, para a prática das actividades em que nos realizamos, sejam elas a cultura, a investigação, o desporto ou a música, por exemplo, ou até o simples lazer.

Imperam ainda os grandes órgãos de comunicação de massa, encarregues de nos rezar, em todos os momentos possíveis, a “missa hipnótica” dos já referidos valores supremos da sociedade capitalista e de nos afogar com doses maciças de pretensa informação (como os telejornais de horas a fio, pejados de comentadores do pensamento dominante) e de real alienação (como os “Big Brother” e programas similares).

O extremo isolamento e solidão provocados pela pressão e pela alienação das condições de trabalho ultra-precárias e ultra-desumanas, e pelas longas e extenuantes jornadas de trabalho, conduzem, assim, a formas virtuais e inverídicas de comunicação e de pretensa vida em comunidade, que são produzidas e alimentadas pelo uso, tão permanente quanto acrítico, e até tornado cada vez mais compulsivo, dos meios de acesso às redes sociais e, logo, aos modelos e valores por estas continuamente divulgados e propagandeados, com vista a criar uma multidão de dóceis e acríticos servos. 

A permissividade com a violência, o fascínio pelo momentâneo e a crença de que ofensas virtuais, a coberto do anonimato, não têm consequências, e de que o que importa não é ter a atitude correcta, mas sim fazer o que se sabe ser errado e depois conseguir ter a “habilidade” ou o “sucesso” de não ser apanhado, a imposição da lógica e da lei da alcateia e do gangue, podem então desenvolver-se a uma escala que, muitas vezes, só é revelada quando, enfim, termina em tragédia…

É, pois, este o terreno fértil para o frenético crescimento da boçalidade, do “vale tudo”, do poder ou do sucesso a todo o custo, com base exclusiva, ou quase – porque o resto é como se não existisse de todo… – nos “exemplos” e nos “influenciadores” multiplicados à exaustão nas redes sociais e cada vez mais instalados, tolerados, aceites e até incentivados nos nossos próprios meios profissionais, políticos e até pessoais.

A violência gratuita, o ódio primário, a baixeza moral e a negação dos valores essenciais como a solidariedade, o respeito pelas diferenças e a dignidade da pessoa humana – tudo isso é, afinal, o que a sociedade capitalista do século XXI, os interesses que sustenta e os valores que pratica nos têm para oferecer. Devemos criticar com firmeza e não nos surpreender quando essas formas duras e boçais se manifestam, pois é a elas que conduz, em linha recta, a desvalorização e escravização do ser humano, o embotamento do juízo crítico e a vulgarização e banalização do mal mais odioso.

E a essência do problema não está nas novas tecnologias, que são um enorme e magnífico progresso científico e técnico, que devemos conhecer, apreciar, dominar e, sobretudo, saber usar em prol de toda a Humanidade. O nó górdio da questão está, sim, nas relações sociais que entorpecem e desvirtuam esse mesmo progresso, e que possibilitam e eternizam a sua expropriação em benefício de apenas alguns. 

Como seres humanos inteiros e completos, devemos ousar ser, não escravos, mas sim donos dos nossos próprios destinos. E por isso, a grande tarefa que se nos impõe é, cada vez mais, a de demolir esse tipo de sociedade, profundamente decrépita e essencialmente violenta e injusta, e construir um mundo mais justo e mais fraterno!

António Garcia Pereira

sábado, 16 de julho de 2022

“Vivemos em plena distopia digital”: será que nos damos conta disso?

No livro de George Orwell, 1984, a vigilância sobre os cidadãos era imposta e inescapável. Em 2022, os cidadãos entregam informação sobre as suas vidas e pensamentos voluntariamente, online, às mais diversas empresas. Neoliberalismo, grandes dados, alienação colectiva e controlo social - estes são os temas na base do fotolivro Laissez Faire, do fotógrafo italiano Cristiano Volk, finalista do concurso Arles Photo Book Awards.


De cada vez que fazemos um "gosto" numa rede social, ou fazemos uma busca no Google, as informações são recolhidas e vendidas a empresas e governos de todo o mundo. Nada de novo. “Se não estás a pagar por algo, então não és o cliente; és o produto que está a ser vendido” é uma frase Andrew Lewis, um blogger do site MetaFilter, que se tornou popular em 2010 e que ganhou lastro até aos dias de hoje. As informações compradas pelos organismos são, então, analisadas e usadas para vender, de forma eficaz e personalizada, produtos e serviços aos utilizadores – que vão desde candidatos eleitorais a meros secadores de cabelo.

Se a informação personalizada que cada utilizador recebe no seu feed (que é construída tendo por base a categorização do seu perfil psicológico) tem o poder de o persuadir com grande eficácia no momento da aquisição de determinado produto ou serviço, onde começa e termina o livre arbítrio? Se a informação personalizada que recebe, por vezes de forma intencionalmente tendenciosa, tem o poder de alterar algo tão importante como a sua intenção de voto – e influenciar, assim, o curso histórico de um país – então qual a linha que separa, na sua mente, o que é real do que é virtual?

É sobre estas questões que se debruça o projecto e fotolivro Laissez Faire, de Cristiano Volk. “Imaginem uma vida vivida sob o brilho da luz de dia artificial, onde a realidade não é experienciada directamente, mas mediada através de ecrãs”, pode ler-se nas páginas do livro editado recentemente pela FW Books e finalista da presente edição do concurso Arles Photo Book Award. “Imaginem um mundo tão densamente conectado que toda lógica sob a qual o percepcionamos – conceitos como o tempo e o espaço, o interior e o exterior, o privado e o público, o dia e a noite – colapsaram numa alucinação colectiva de luz e cores artificiais. Imaginem a alienação de milhares de milhões de sujeitos que servem o único propósito de actuar como veículos para a troca de bens de consumo.” Ou de acções que beneficiam determinados grupos. Cristiano não tem dúvidas: “Pode soar a um futuro distópico, mas é o presente.”

Volk vai mais longe e propõe a reflexão sobre o poder do capitalismo sobre estas ferramentas de manipulação. O título do projecto alude ao conceito criado pelo economista Adam Smith, capitalismo laissez-faire, que propõe que toda a regulação da economia é uma corrupção do seu curso “natural”. A regulação, historicamente aquém dos avanços tecnológicos, tarda na resposta ao avanço destas forças, destes actores impulsionados e vitaminados pelo lucro, sobre as populações. “A culpa não é nossa”, diz ao P3, a partir dos arredores de Veneza. “Nós, população em geral, não somos os arquitectos da nossa condição. Nascemos num mundo onde as estruturas e dinâmicas já estavam criadas, pré-definidas.”

Traduzir em imagens conceitos que perdem, progressivamente, a sua matéria, a sua fisicalidade, foi um grande desafio para Cristiano Volk, que dedicou três anos à elaboração do projecto. Três anos de noite ininterrupta, conta. “Fotografei mais de 20 mil imagens sempre de noite.” A luz artificial é a chave do conjunto de 194 imagens que integra o livro, que realizou em vários países, entre os quais os Emirados Árabes Unidos, os Estados Unidos da América, a Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Polónia, Espanha, Croácia.

“Comecei por centrar-me nos néones, no lado glamoroso da luz nocturna – aí entra a imagem da beleza intemporal de Audrey Hepburn, por exemplo – mas cedo percebi que estava a perder grande parte do pesadelo que é inerente a essa artificialidade. Foi quando comecei a fotografar os arranha-céus à noite, em Londres, que percebi quão assustadores são. Dentro daqueles monstros de betão e vidro, às duas ou três da manhã, conseguia ver os poucos funcionários, agastados, que continuavam a trabalhar.” Assim, o italiano despertou para a linguagem que desejava adoptar, que contrapõe o tecnológico e o orgânico e sugere que alcançamos, finalmente, a distopia há muito profetizada por criativos e intelectuais dos séculos anteriores.

“Se pensarmos, há 20 anos eram poucas as pessoas que sequer tinham um telemóvel”, observa. “Hoje em dia, quase ninguém vive sem um smartphone. É tão omnipresente, tão vital, que se tornou, por exemplo, numa ferramenta de controlo de certificados de vacinação.” Volk quis debruçar-se sobre os malefícios da utilização dos dispositivos móveis sob o ponto de vista da pobre coesão social, do aumento da incidência de depressão e ansiedade entre as gerações mais jovens, para quem um smartphone é uma tido como uma extensão permanente do próprio corpo. Quis abordar o escapismo, a transgressão, a busca por contacto humano longe dos ecrãs, e as imagens que realizou no interior de discotecas de cidades europeias são exemplo desse retrato.

“Vivemos num mundo cada vez mais centrado no trabalho intensivo, na competição, no consumo. A escola é cada vez mais uma entidade corporativa que produz força de trabalho para exploração. Em vez de vivermos em cooperação, somos educados a competir; ser tornou-se menos importante do que ter. Essas são implicações, as consequências directas da intrusão e influência cada vez mais forte do capitalismo sobre as nossas vidas. Fomos educados para acreditar, como afirma Mark Fisher, autor do conceito de realismo capitalista, que não existe alternativa ao sistema capitalista. Mas será mesmo assim?”

domingo, 16 de janeiro de 2022

Os filhos da pandemia. O aflitivo retrato de uma professora sobre os efeitos dos confinamentos nos alunos

Os filhos da pandemia não escrevem, não falam, não lêem, não compreendem, não interpretam, não pensam…Retirem-lhes o telemóvel e as redes sociais e ficaremos perante seres desprovidos de qualquer interesse. O retrato de uma geração profundamente afetada pela pandemia, traçado pela professora Carmo Machado.

A geração de professores a que pertenço, nascida na década de sessenta, foi marcada pela utopia e pelo sonho. Acreditávamos que a escola podia fazer a diferença na vida dos nossos alunos, que podia mudar vidas. Recordo com enorme prazer todos os momentos em que tudo – literalmente, tudo – fazíamos pela escola pública, desde gastarmos resmas de papel e tinteiros do nosso parco ordenado, ou dedicarmo-nos – noites a fio – a preparar atividades e instrumentos de avaliação, a organizarmos visitas de estudo, a arquitetar celebrações para isto e para aquilo e a procurar que a escola fosse – e era – um local de prazer para todos.

Esta geração da utopia era constituída por todos aqueles que seguiram a carreira docente por paixão, mesmo quando estavam outras opções em cima da mesa. Depois da licenciatura de quatro anos e de uma formação universitária de especialização em ensino de dois anos, muitos de nós ainda avançámos na pesquisa e tirámos mestrados e doutoramentos, aos quais dedicámos uma boa parte do nosso tempo e do nosso (pouco) dinheiro. Entrámos na carreira docente com amor e foi a ela que dedicámos grande parte da nossa vida.

Depois… Depois começaram as alterações às regras na carreira sem qualquer aviso prévio, tentaram dividir-nos em professores titulares e professores não titulares, anularam direitos consagrados no nosso estatuto, congelaram-nos os ordenados e a imaginação e, por fim, roubaram-nos descaradamente muitos anos de serviço que, não sendo a solução para o nosso baixo poder de compra, podiam no mínimo permitir-nos uma maior – ainda que leve – dignidade profissional e pessoal. Com que tristeza ouço com frequência dizer a um professor que raramente compra livros ou vai ao teatro. De facto, fizeram de nós meros funcionários e das escolas meras repartições públicas de ensino de massas, transformadas em verdadeiras fábricas de papel!

Não querendo aqui balizar o primeiro grande momento da derrocada da dignidade docente, talvez me atrevesse a referir os quatro anos e sete meses de má memória em que Maria de Lurdes Rodrigues foi ministra da Educação (a ministra que cumpriu o maior mandato à frente da Educação em Portugal). Mas muitos outros se seguiram e parece não se prever um fim. Entretanto, e se estivermos – como estamos – atentos à comunicação social, raro é o dia em que os temas relacionados com os professores (ou a falta deles), os alunos, as escolas e o ensino em geral não estão na ordem do dia.

Vários estudos têm vindo a lume sobre duas problemáticas de grande atualidade: por um lado, a já existente escassez de professores e, por outro, sobre os efeitos da pandemia nas aprendizagens dos alunos. De facto, sobre a primeira, sabemos que nos próximos anos, praticamente quase todos os professores que são referência nas nossas escolas – pela sua entrega à profissão, pela sua humanidade, pelo seu espírito de missão, pelos cargos desempenhados com competência, pela pedagogia, pelo amor ao ensino e ao alunos, ter-se-ão reformado. A escola, como eu a conheci, está a desaparecer todos os dias. Recordo com saudade e um sorriso no rosto os jantares de Natal, os almoços de Páscoa, as sardinhadas pelo Santo António seguidas de baile com acompanhamento musical a preceito, as castanhas e a jeropiga deixada na sala dos professores, os lanches de cada turma no final de período, com mesas repletas de tudo um pouco, as viagens e as visitas de estudo organizadas e feitas com tanta alegria e companheirismo, a amena cavaqueira entre alunos e professores, nos intervalos das aulas, pelos corredores, no bar ou na sala de convívio… Até recordo com carinho as muitas aulas dadas de luvas e gorro, quando o frio era insuportável e entrava pelas janelas que mal fechavam, os aquecedores que trazíamos de casa e colocávamos, às escondidas, para nos aquecermos todos, professores e alunos. Nesses tempos, fazíamos tudo pela escola e éramos felizes. Quem matou a escola pública? Quem nos matou?

Mas é sobre os efeitos da pandemia nos nossos alunos que hoje importa falar. Chegámos ao final do primeiro período de mais um ano escolar atípico, em que os alunos apesar de estarem presencialmente nas nossas salas de aula, transportam às costas pesadas mochilas carregadas de profundos traumas provocados pelo confinamento e pelos dois anos letivos anteriores, vividos com muito esforço pessoal e familiar, entre ensino à distância e confinamento. O estudo "Efeitos da Pandemia Covid-19 na Educação: desigualdades e medidas de equidade”, solicitado pelo Parlamento ao Conselho Nacional de Educação, veio apenas clarificar junto da opinião pública algumas das consequências observadas, sentidas e vividas pelos professores e decorrentes do contacto diário com os alunos. Se o aumento da ansiedade e de estados de depressão foram uma realidade constatada por todos nós, é sobretudo nas aprendizagens que situação é preocupante.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”

Berthe Morisot- The bowl of milk, 1892

As Torres Gémeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.

Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

Biografia
Byung-Chul Han

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