Tão actual: estufas de plástico no SE Alentejano, abacate por todo o lado, olival intensivo no Alentejo...
Zeca, um verdadeiro visionário e António Aleixo, que volta e meia, relembramos.
O pão que sobra à riqueza
Tira o chapéu milionário
Vai um enterro a passar
Foi a filha de um operário
Que morreu a trabalhar.
O pão que sobra à riqueza,
Distribuído pela razão,
Matava a fome à pobreza
E ainda sobrava pão.
Se eu fosse carpinteiro
Casava com uma ceifeira
Juntava a foice ao martelo;
Fazia a nossa bandeira
O padre vendeu a burra
Para não dar mais cevada
Agora vai aos enterros;
A cavalo na criada;
Se a morte fosse interesseira
Ai de nós o que seria
O rico comprava a morte
Só o pobre é que morria
Um pouco de História do álbum
Entre 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975 foi gravado o disco "República" em Roma, Itália. Este álbum foi interpretado por Zeca Afonso e Francisco Fanhais em solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se a apoiar financeiramente a Comissão de Trabalhadores do jornal que estava em luta com a administração há vários meses, tendo mesmo ocupado as suas instalações, acusando-a de tentar transformar o jornal num orgão afeto ao Partido Socialista. Este apoio, no entanto, já chegou tarde. A 26 de Janeiro de 1976, o Conselho da Revolução, por pressão do PS, devolve forçosamente o jornal aos seus proprietários que imediatamente o encerram. Nunca mais voltaria a publicar. Os fundos recolhidos foram então destinados ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.[Mais infoaqui]
Mais de cem pessoas foram na terça-feira ao lançamento do livro “Os burgueses”, de autoria de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, em Lisboa. A obra de mais de 500 páginas, que se dedica a dissecar as cerca de mil pessoas donas de mais de metade do produto nacional do país, foi apresentada pelo ex-bispo das Forças Armadas D. Januário Torgal Ferreira e pelo sociólogo José Manuel Sobral.
Entre os presentes estavam o ex-presidente da República Mário Soares, os socialistas João Cravinho e Vítor Ramalho, o ex-secretário-geral da CGTP Manuel Carvalho da Silva e os coordenadores do Bloco de Esquerda, Catarina Martins e João Semedo, bem como o líder parlamentar, Pedro Filipe Soares.
D. Januário Torgal abriu a apresentação com uma intervenção muito viva e ao mesmo tempo erudita, até porque “não podia parecer mal entre dois catedráticos” e outro que “lá há-de chegar”. Terminou com um desafio: que venha um trabalho de profundidade semelhante sobre o proletariado.
José Sobral concluiu a sua intervenção com uma certeza: a que diante da desigualdade crescente que se observa em Portugal, o protesto dos despossuídos acabará por encontrar canais para se expressar.
Estudo inédito
“Os Burgueses” corresponde a um trabalho de investigação de dois anos, que mobilizou uma equipa mais ampla que os três autores, com destaque para os jovens investigadores Nuno Moniz e Adriano Campos, que trabalharam na base de dados de ministros e secretários de Estado, e as suas ligações com os negócios e as empresas.
A primeira parte da obra incide sobre a construção do poder social da burguesia portuguesa, sobretudo nas últimas décadas. Inclui o estudo inédito dos percursos dos 776 membros de todos os governos constitucionais e da sua cooptação pelas principais empresas financeiras, do PSI20 e das parcerias público-privadas.
A segunda parte estuda a vida social deste milhar de pessoas que constitui o núcleo da classe dominante e que ocupa os lugares fundamentais de poder: onde moram, as escolas que frequentam, os seus casamentos e alguns dos seus luxos.
A terceira parte procura responder a uma nova pergunta sobre esta relação de poder. Se de um lado estão os 99% e do outros os 1%, porque são estes que mandam? O livro parte da expansão das máquinas de produção de senso comum para uma teoria do poder. Publicidade, telenovelas, discursos das autoridades e de telejornal, concursos, livros infantis, homilias, literatura kitsh, exames de faculdade - esta análise inclui todas estas formas de criação de mitos e geração de desejo e representação que sustentam a hegemonia burguesa.
A obra em papel complementa-se com o site Os Burgueses, onde estão disponíveis documentos, elementos gráficos, bases de dados, resumo dos capítulos e outros materiais deste estudo.
Livro é uma das chaves para compreender por que esta classe afirma hoje que Portugal se tornou num país inviável.
“Dizem-nos que Portugal é um país inviável”
Na última intervenção da noite, Francisco Louçã, que falou depois de Teixeira Lopes e Jorge Costa, disse que o conhecimento de quem é, de onde veio e como se organiza a burguesia portuguesa é uma das chaves para compreender por que esta classe afirma hoje que Portugal se tornou num país inviável. “Esta é a única conclusão que podemos tirar quando o próprio Presidente da República nos diz que o país terá de viver mais 20 anos de empobrecimento”.
Compreender as ligações da burguesia portuguesa com o capital internacional, a relação, no concreto, que as suas empresas mantêm perante o mundo globalizado, a sua relação de dependência face ao capital internacional talvez ajudem a explicar esta política de empobrecimento, de definhamento do país – que adotou o nome de austeridade – que os que mandam no país querem eternizar.