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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O decrescimento pode funcionar - veja como a ciência pode ajudar

Os países ricos podem criar prosperidade usando menos materiais e energia se abandonarem o crescimento econômico como objetivo.


A economia global é estruturada em torno do crescimento – a ideia de que empresas, indústrias e nações devem aumentar a produção a cada ano, independentemente de ser necessário. Essa dinâmica está impulsionando a mudança climática e o colapso ecológico. As economias de alta renda, e as corporações e classes abastadas que as dominam, são as principais responsáveis ​​por esse problema e consomem energia e materiais a taxas insustentáveis ​​1 , 2 .

No entanto, muitos países industrializados estão agora lutando para aumentar suas economias, dadas as convulsões econômicas causadas pela pandemia do COVID-19, a invasão russa da Ucrânia, a escassez de recursos e as melhorias estagnadas da produtividade. Os governos enfrentam uma situação difícil. Suas tentativas de estimular o crescimento colidem com os objetivos de melhorar o bem-estar humano e reduzir os danos ambientais.

Pesquisadores em economia ecológica pedem uma abordagem diferente — decrescimento 3 . As economias ricas devem abandonar o crescimento do produto interno bruto (PIB) como meta, reduzir as formas de produção destrutivas e desnecessárias para reduzir o uso de energia e materiais e concentrar a atividade económica em garantir as necessidades humanas e o bem-estar. Essa abordagem, que ganhou força nos últimos anos, pode permitir uma descarbonização rápida e interromper o colapso ecológico, ao mesmo tempo em que melhora os resultados sociais 2. Ele liberta energia e materiais para países de baixa e médio rendimento nos quais o crescimento ainda pode ser necessário para o desenvolvimento. O decrescimento é uma estratégia intencional para estabilizar as economias e alcançar objetivos sociais e ecológicos, ao contrário da recessão, que é caótica e socialmente desestabilizadora e ocorre quando as economias dependentes do crescimento não conseguem crescer.

Relatórios deste ano do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sugerem que as políticas de decrescimento devem ser consideradas na luta contra o colapso climático e a perda de biodiversidade, respectivamente. As políticas para apoiar tal estratégia incluem o seguinte.

Reduza a produção menos necessária. Isso significa reduzir setores destrutivos, como combustíveis fósseis, carne e laticínios produzidos em massa, moda rápida, publicidade, carros e aviação, incluindo jatos particulares. Ao mesmo tempo, é preciso acabar com a obsolescência programada dos produtos, prolongar sua vida útil e reduzir o poder de compra dos ricos.

Melhorar os serviços públicos. É necessário garantir o acesso universal a cuidados de saúde de qualidade, educação, habitação, transporte, Internet, energia renovável e alimentação nutritiva. Os serviços públicos universais podem gerar resultados sociais fortes sem altos níveis de uso de recursos.

Introduzir uma garantia de empregos verdes. Isso treinaria e mobilizaria a mão-de-obra em torno de objetivos sociais e ecológicos urgentes, como a instalação de energias renováveis, isolamento de edifícios, regeneração de ecossistemas e melhoria da assistência social. Um programa desse tipo acabaria com o desemprego e garantiria uma transição justa de empregos para trabalhadores em indústrias em declínio ou 'setores em declínio', como aqueles dependentes de combustíveis fósseis. Poderia ser emparelhado com uma política de renda universal.

Reduzir o tempo de trabalho. Isso poderia ser alcançado diminuindo a idade da reforma, incentivando o trabalho em meio período ou adotando uma semana de trabalho de quatro dias. Essas medidas reduziriam as emissões de carbono e libertariam as pessoas para se envolverem em cuidados e outras atividades de melhoria do bem-estar. Eles também estabilizariam o emprego à medida que a produção menos necessária declinasse.

Possibilitar o desenvolvimento sustentável. Isso requer o cancelamento das dívidas injustas e impagáveis ​​dos países mais pobres, coibindo o câmbio desigual no comércio internacional e criando condições para que a capacidade produtiva seja reorientada para a consecução de objetivos sociais.

Aubagne, na França, é um dos quase 100 lugares no mundo que oferecem transporte público gratuito. Crédito: Viennaslide/Alamy

Alguns países, regiões e cidades já introduziram elementos dessas políticas. Muitas nações europeias garantem saúde e educação gratuitas; Viena e Singapura são conhecidas por habitações públicas de alta qualidade; e quase 100 cidades em todo o mundo oferecem transporte público gratuito. Esquemas de garantia de emprego foram usados ​​por muitas nações no passado, e experimentos com renda básica e jornadas de trabalho mais curtas estão em andamento na Finlândia, Suécia e Nova Zelândia.

Mas a implementação de uma estratégia mais abrangente de decrescimento – de maneira segura e justa – enfrenta cinco desafios principais de pesquisa, conforme descrevemos aqui.

Remova as dependências do crescimento

Hoje, as economias dependem do crescimento de várias maneiras. Bem-estar é muitas vezes financiado por receitas fiscais. Os provedores de previdência privada dependem do crescimento do mercado de ações para obter retornos financeiros. As empresas citam o crescimento projetado para atrair investidores. Os pesquisadores precisam identificar e abordar tais “dependências de crescimento” setor por setor.

Por exemplo, o 'dever fiduciário' dos diretores da empresa precisa ser mudado. Em vez de priorizar os interesses financeiros de curto prazo dos acionistas, as empresas devem priorizar os benefícios sociais e ambientais e levar em conta os custos sociais e ecológicos. Setores como assistência social e pensões precisam de mecanismos de financiamento seguros para provedores públicos e melhor regulamentação e desmantelamento de incentivos financeiros perversos para provedores privados 4 .

Equilibrar a economia nacional exigirá novos modelos macroeconômicos que combinem variáveis ​​econômicas, financeiras, sociais e ecológicas. Modelos como o LowGrow SFC (desenvolvido pelo TJ e PAV), EUROGREEN e MEDEAS já estão a ser utilizados para projetar os impactos das políticas de decrescimento, incluindo impostos redistributivos, universalização dos serviços públicos e redução do tempo de trabalho.



Mas esses modelos geralmente se concentram num único país e não levam em conta a dinâmica transfronteiriça, como movimentos de capital e moeda. Por exemplo, se os mercados estiverem assustados com o baixo crescimento num país, algumas empresas podem transferir o seu capital para o exterior, o que pode afetar adversamente a moeda do país original e aumentar os custos dos empréstimos. Condições como essas representaram sérios problemas financeiros para a Argentina em 2001 e para a Grécia em 2010. A cooperação internacional para um controle fronteiriço mais rígido dos movimentos de capital precisa ser considerada e os efeitos modelados.

Financiar serviços públicos

Novas formas de financiamento serão necessárias para financiar serviços públicos sem crescimento. Os governos devem interromper os subsídios para a extração de combustíveis fósseis. Eles deveriam tributar indústrias prejudiciais ao meio ambiente, como viagens aéreas e produção de carne. Os impostos sobre a riqueza também podem ser usados ​​para aumentar os recursos públicos e reduzir a desigualdade.

Os governos que emitem sua própria moeda podem usar esse poder para financiar objetivos sociais e ecológicos. Essa abordagem foi usada para resgatar bancos após a crise financeira global de 2007–8 e para pagar esquemas de licença e hospitais durante a pandemia de COVID-19 5 .

Os riscos inflacionários devem ser administrados, caso o aumento da procura ultrapasse a capacidade produtiva da economia. O destino da moeda para serviços públicos reduz a inflação do custo de vida. Mas uma estratégia de decrescimento também pode reduzir a procura de bens materiais – por exemplo, por meio de tributação progressiva, incentivando o consumo partilhado e colaborativo, incentivando reformas e reparos e apoiando serviços baseados na comunidade.

Outro risco é que, quando estados ou bancos centrais emitem moeda, isso pode aumentar os pagamentos do serviço da dívida do governo. A investigação sugere que gerir este risco requer uma coordenação cuidadosa da política fiscal (quanto os governos tributam e gastam) e da política monetária (como é mantida a estabilidade de preços) 6 . Modelagem e pesquisa empírica são necessárias para lançar luz sobre os prós e contras de mecanismos inovadores de política monetária — como um 'sistema de reservas escalonadas', que reduz a taxa de juros da dívida do governo.

Gerenciar reduções de tempo de trabalho

Ensaios de jornadas de trabalho mais curtas geralmente relataram resultados positivos. Isso inclui menos estresse e esgotamento e melhor sono entre os funcionários, mantendo a produtividade 7 . A maioria dos ensaios se concentrou no setor público, principalmente no norte da Europa. Mas empresas privadas na América do Norte, Europa e Australásia realizaram testes de semanas de quatro dias, com resultados semelhantes 8 . No entanto, as empresas foram auto-selecionadas e pesquisas são necessárias para testar se essa abordagem pode ser bem-sucedida de forma mais ampla, por exemplo, fora das indústrias de colarinho branco que dominam os testes.


Jovens em Hong Kong seguram cartazes sobre o movimento Lying Flat, que viu um grande número de trabalhadores pedir demissão. Crédito: Jonathan Wong/SCMP via ZUMA Press

As barreiras à implementação de horas reduzidas precisam ser compreendidas e abordadas. Os custos de pessoal per capita, como contribuições fiscais limitadas e seguro de saúde, tornam mais caro para os empregadores aumentar o número de funcionários. A dívida pessoal pode encorajar os funcionários a trabalhar mais horas, embora estudos recentes não mostrem evidências disso 7 , 8 .

A compreensão dos impactos coletivos também é limitada. Os resultados dos experimentos da França com uma semana de 35 horas têm sido mistos: embora muitas pessoas tenham se beneficiado, alguns trabalhadores com salários mais baixos e menos qualificados experimentaram salários estagnados e trabalho mais intenso 9 . Essas pressões precisam ser estudadas e abordadas. Suposições de que a redução de horas resulta em mais empregos precisam ser testadas em diferentes setores e contextos. Evidências recentes sugerem que os trabalhadores podem manter a produtividade reorganizando seu trabalho 7 , 8 .

As relações entre horas de trabalho e emissões de carbono também precisam ser estabelecidas 10 . Embora menos deslocamento reduza o uso de energia e as emissões de carbono durante as semanas de trabalho compactadas, os comportamentos durante os fins de semana de três dias permanecem pouco explorados. Mais viagens ou compras durante o tempo livre podem aumentar as emissões, mas esses efeitos podem ser mitigados se a produção em setores problemáticos for reduzida.
Redefina os sistemas de provisionamento

Atualmente, nenhum país atende às necessidades básicas de seus residentes de forma sustentável 1 . As economias ricas usam mais do que sua parcela justa de recursos 2 , enquanto os países de baixa renda provavelmente precisarão usar mais. Os pesquisadores precisam estudar como os sistemas de abastecimento vinculam o uso de recursos aos resultados sociais, tanto para os sistemas físicos (infraestrutura e tecnologia) quanto para os sociais (governos e mercados).

Estudos de baixo para cima sugerem que melhores sistemas de abastecimento poderiam oferecer padrões de vida decentes com muito menos uso de energia do que é necessário hoje 11 . Esses estudos não respondem totalmente por instituições como o estado e provavelmente serão subestimados. Estudos de cima para baixo, que levam em consideração tais instituições, sugerem que mais energia é necessária para atender às necessidades humanas 12 . Mas esses estudos são incapazes de separar o consumo desnecessário, como grandes carros ou iates, e, portanto, provavelmente serão superestimados.



Os pesquisadores precisam conciliar essas abordagens e considerar recursos além da energia, incluindo materiais, terra e água. Eles precisam examinar os sistemas de provisão para habitação, transporte, comunicação, saúde, educação e alimentação. Que mudanças sociais e institucionais melhorariam o abastecimento? Que tipos de provisão têm os resultados sociais e ambientais mais benéficos? Tal pesquisa pode ser feita usando observação empírica, bem como por meio de modelagem.

Veja a habitação, por exemplo. Em muitas partes do mundo, os mercados imobiliários atendem a incorporadores, proprietários e financiadores. Isso contribui para a segregação e a desigualdade e pode expulsar os trabalhadores dos centros das cidades, tornando-os dependentes de carros, o que aumenta as emissões de combustíveis fósseis. Abordagens alternativas incluem habitação pública ou cooperativa e um sistema financeiro que prioriza a habitação como uma necessidade básica e não como uma oportunidade de lucro.
Viabilidade política e oposição

O crescimento é muitas vezes tratado como um árbitro do sucesso político. Poucos líderes ousam desafiar o crescimento do PIB. Mas as atitudes públicas estão mudando. Pesquisas na Europa mostram que a maioria das pessoas prioriza o bem-estar e os objetivos ecológicos em detrimento do crescimento (consulte The Guardian ). Pesquisas nos Estados Unidos e no Reino Unido mostram apoio a garantias de empregos e reduções de jornada de trabalho (consulte The Hill e YouGov- pdf). O grande número de trabalhadores que deixaram seus empregos em movimentos como a Grande Renúncia dos EUA ou os grupos de protesto Lying Flat na China mostram que há demanda por jornadas de trabalho mais curtas e trabalhos mais humanos e significativos. No entanto, os partidos políticos que apresentaram ideias de decrescimento receberam apoio limitado nas eleições. Isso levanta a questão: de onde viria o impulso para a política de decrescimento?

Movimentos sociais e mudanças culturais fermentando abaixo da superfície muitas vezes precedem e catalisam a transformação política. Os cientistas sociais devem examinar quatro áreas. Primeiro, eles precisam identificar mudanças de atitudes e práticas usando pesquisas e grupos focais.



Em segundo lugar, eles devem aprender com 'cidades de transição' sustentáveis, cooperativas, projetos de coabitação ou outras formações sociais que priorizam modos de vida pós-crescimento. As experiências de países que tiveram de se adaptar a condições de baixo crescimento – como Cuba após a queda da União Soviética e o Japão – também trazem lições.

Em terceiro lugar, os pesquisadores devem estudar os movimentos políticos que estão alinhados com os valores do decrescimento – desde a Via Campesina, o movimento camponês internacional que defende a soberania alimentar e métodos agroecológicos, até os movimentos municipalistas e comunalistas e governos em cidades progressistas como Barcelona ou Zagreb, que promover políticas que favoreçam a justiça social e os bens comuns. É preciso entender melhor os obstáculos enfrentados por governos com ambições ecológicas, como os eleitos este ano no Chile e na Colômbia.

Quarto, é necessária uma melhor compreensão dos interesses políticos e econômicos que podem se opor ou apoiar o decrescimento. Por exemplo, como grupos como think tanks, corporações, lobistas e partidos políticos que trabalham para apoiar os interesses da elite se organizam, nacional e internacionalmente, para minar políticas econômicas e sociais progressistas? O papel da mídia na formação de atitudes pró-crescimento permanece pouco explorado. Dados os vínculos entre crescimento econômico e poder geopolítico, nações individuais podem não estar dispostas a agir sozinhas, por medo de enfrentar desvantagens competitivas, fuga de capitais ou isolamento internacional. Esse problema do 'pioneiro' levanta a questão de saber se, e sob quais condições, os países de alta renda podem cooperar para uma transição de decrescimento.
Qual o proximo?

A ação do governo é crucial. Isso é um desafio, porque os que estão no poder têm ideologias enraizadas na economia neoclássica dominante e tendem a ter uma exposição limitada a pesquisadores que exploram a economia de outros ângulos. Será necessário espaço político para debater e compreender alternativas e para desenvolver respostas políticas. Os fóruns que trabalham nisso incluem a Wellbeing Economy Alliance, o movimento Growth in Transition na Áustria, a iniciativa da conferência Pós-Crescimento do Parlamento Europeu e o Grupo Parlamentar de Todos os Partidos do Reino Unido sobre Limites do Crescimento.



São necessários movimentos sociais fortes. Formas de tomada de decisão descentralizadas, de pequena escala e diretas, como as assembléias de cidadãos, ajudariam a destacar as opiniões públicas sobre economias mais equitativas 13 .

Abordar a questão de como prosperar sem crescimento exigirá uma mobilização maciça de pesquisadores em todas as disciplinas, incluindo economistas de mente aberta, cientistas sociais e políticos, modeladores e estatísticos. A pesquisa sobre decrescimento e economia ecológica precisa de mais financiamento para aumentar a capacidade de abordar as questões necessárias. E a agenda precisa de atenção e debate nos grandes fóruns econômicos, ambientais e climáticos, como as conferências das Nações Unidas.

Um editorial de março de 2022 nesta revista argumentou que é hora de ir além de um debate sobre 'limites do crescimento' versus 'crescimento verde'. Nós concordamos. A nosso ver, a questão não é mais se o crescimento terá limites, mas sim como podemos permitir que as sociedades prosperem sem crescimento, para garantir um futuro justo e ecológico. Vamos abrir o caminho.


Referências

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quinta-feira, 14 de julho de 2022

G20 alerta para combinação de menos crescimento, taxas de juro e inflação

O Financial Stability Board (FSB), que reúne os países do G20, alerta para a perigosa combinação de crescimento económico mais lento, inflação alta e taxas de juro mais elevadas.


Frankfurt, Alemanha, 13 jul 2022 (Lusa) - O Financial Stability Board (FSB), que reúne os países do G20, alerta para a perigosa combinação de crescimento económico mais lento, inflação alta e taxas de juro mais elevadas.

Numa carta, o presidente do FSB (Conselho de Estabilidade Financeira), Klaas Knot, dos Países Baixos, diz aos ministros das Finanças e governadores dos bancos centrais do G20 que as perspetivas de estabilidade financeira pioraram.

"A combinação de um crescimento económico mais lento, inflação crescente e condições financeiras globais mais apertadas pode cristalizar vulnerabilidades anteriormente existentes ou novas no sistema financeiro global", disse Knot na carta.

Os ministros das Finanças e os governadores dos bancos centrais do G20 vão estar reunidos em Bali nos dias 15 e 16 de julho.

Knot adverte em particular para o elevado endividamento soberano, empresarial e familiar.

O FSB regista as tensões nos mercados de mercadorias e possíveis repercussões para o sistema financeiro global e considera que a saída da pandemia da covid-19 está em curso e que é importante reconstruir um espaço de prudência macroeconómica onde as condições nacionais o permitam.

A FSB considera que a pandemia tem o potencial de prejudicar o crescimento no futuro e salienta os progressos feitos no ano passado na abordagem dos riscos relacionados com o clima e a importância de continuar neste caminho e melhorar a qualidade dos dados em particular.

O FSB quer que os mercados de criptomoedas sejam regulados devido aos riscos de contágio às finanças tradicionais, especialmente aos mercados de financiamento a curto prazo.

O Conselho de Estabilidade Financeira, sediado na cidade suíça de Basileia, foi criado na reunião do G20 em Londres em 2009 em resposta à crise económica e tem vindo a supervisionar a estabilidade financeira desde então.

Cinco sinais de que uma recessão global pode estar a caminho

A extração de carvão representa vários perigos para os trabalhadores das minas. Para fazer face ao risco de libertação de gases tóxicos, indetetáveis pelos humanos, os mineiros levavam gaiolas com canários para os túneis onde trabalhavam. Assim que estes pássaros paravam de cantar (ou morriam), estava dado o sinal de alerta sobre a presença de monóxido de carbono ou metano, pelo que a mina tinha de ser evacuada.



A prática passou a ser recorrente no início do século passado nas minas britânicas. Na década de 80, felizmente, as empresas de extração de carvão recorreram a outros métodos menos bizarros para baixar o risco de vida dos seus trabalhadores. Mas a expressão perdura até hoje, sobretudo nos mercados financeiros, para ilustrar os primeiros sinais sobre algum perigo iminente.

Numa altura em que se intensificam os receios com a possibilidade de a economia global entrar em recessão, investidores, analistas e economistas tentam identificar os canários na mina de carvão (“canary in the coal mine”) que estão a dar o alerta sobre este cenário de contração na economia mundial.

A economia mundial vai entrar em recessão? Já este ano, ou só em 2023? Será acentuada e prolongada, ou temporária e suave? Numa altura em que os dados económicos que olham para o passado ainda não mostram esse cenário de recessão, os indicadores económicos avançados já sinalizam perigo no horizonte. E depois existem os sinais dos mercados, onde as expectativas dos investidores têm demonstrado, historicamente, serem mais certeiras a prever recessões dos que os economistas.

O ECO selecionou cinco destes sinais que estão a ser dados pelos mercados e indicadores avançados. Além destes, são vários os desenvolvimentos que estão a agravar o pessimismo sobre a evolução da economia global nos próximos meses. Os bancos centrais estão determinados na subida de juros para combater a escalada da inflação, mesmo que a economia trave de forma considerável; a Rússia continua a reduzir os fornecimentos de gás natural à Alemanha (e outros países europeus), sendo que se “fechar a torneira” por completo será inevitável uma recessão na maior economia europeia; a política de covid-zero está a condicionar fortemente a atividade económica na China, o que penaliza o comércio mundial e agrava os constrangimentos nas cadeias de abastecimento globais.

1 – Confiança em mínimos alimenta recessão

Os índices de confiança dos agentes económicos (consumidores, empresários e investidores) são dos melhores indicadores avançados, uma vez que olham para o futuro, sinalizando como vai evoluir o consumo das famílias, o investimento e contratações das empresas e as perspetivas para a evolução dos mercados financeiros. A evolução recente destes índices não augura nada de bom, estando na generalidade em queda acentuada e em alguns casos em mínimos de muito tempo. O que, historicamente, sinaliza uma travagem forte da economia, ou mesmo recessão.

Nos Estados Unidos existem vários índices para medir a confiança dos consumidores, sendo que o publicado pela Universidade de Michigan é dos mais relevantes. Em junho atingiu um mínimo histórico, com as famílias norte-americanas a mostrarem uma elevada preocupação com o aumento do custo de vida, reflexo da inflação estar em máximo de 40 anos acima dos 8%. O índice do Conference Board para avaliar as condições económicas está mais perto de máximos do que mínimos, mas já recua há três meses seguidos.

Sempre que este índice desceu durante quatro meses, a economia norte-americana já estava em recessão, pelo que a leitura que vai ser revelada este mês poderá ser mais um sinal preocupante. Um estudo de Danny Blanchflower, publicado pelo NBER (entidade responsável por decretar as recessões nos EUA), reforça os sinais negativos. Desde 1980, sempre que os índices da Universidade de Michigan e do Conference Board para medir as expectativas dos consumidores caem mais de 10 pontos, a economia entra em recessão. Os dois índices já desceram bem mais do que isso no atual ciclo.


Na Europa o cenário não é muito diferente, com a forte subida nos preços e a guerra na Ucrânia a pesarem de forma significativa na confiança dos agentes económicos. O índice da Comissão Europeia para medir a confiança dos consumidores aproximou-se em junho do mínimo histórico fixado nos primeiros meses da pandemia (abril de 2020). O índice da Sentix, que mede a confiança dos investidores na Zona Euro, recuou em julho para mínimos de maio de 2022, o que de acordo com o instituto torna “inevitável” uma recessão na região.

A subida acentuada dos preços de bens essenciais, com destaque para energia e alimentação, bem como a subida das taxas de juro que agravam as prestações dos empréstimos, estão a penalizar a confiança das famílias a nível global. O índice da OCDE para medir o sentimento dos consumidores já está a cair há 11 meses seguidos, situando-se atualmente já perto do mínimo histórico fixado na crise financeira de 2008, que foi marcada por uma poderosa recessão na economia global.

O grande problema da deterioração da confiança dos agentes económicos está no facto de exacerbarem os movimentos negativos da atividade económica, acabando por contribuir para que se concretizem as profecias de recessão. Os elevados níveis de pessimismo levam as famílias a adiar a aquisição de bens duradouros e retrair o consumo de bens correntes.

Entre os gestores, a quebra de confiança também é evidente, com muitos CEO a expressarem preocupação com o rumo da economia mundial. Vários líderes dos maiores bancos de Wall Street veem como certa uma recessão na maior economia do mundo e Elon Musk revelou recentemente ter um “super bad feeling” sobre a evolução da economia, tendo dado ordens para a Tesla reduzir a força de trabalho. Um bom exemplo de como as expectativas acabam por se concretizar devido ao sentimento dos agentes económicos.

2 – A queda preocupante do “Doutor Cobre”

O cobre é dos metais que tem a aplicação mais diversificada. É utilizado para fabricar produtos elétricos, eletrónicos, automóveis, sendo também uma matéria-prima essencial no setor da construção e na indústria em geral. É por causa desta abrangência que este metal é conhecido nos mercados como o “Doutor Cobre”, por ser capaz de antecipar a direção da economia global, merecendo por isso um grau de doutoramento.

Nos últimos 30 anos, sempre que o cobre entrou em “bear market” a economia não escapou a uma recessão. A diminuição da procura pressionava as cotações em baixa, sinalizando uma travagem numa série de setores que tornava inevitável uma recessão global. A evolução recente das cotações do cobre, também conhecido por metal vermelho, volta a gerar motivos de preocupação. O metal entrou em “bear market” no final de junho, sendo que atualmente já acumula uma queda de mais de 30% face ao máximo histórico de março, negociando em mínimos de 19 meses. Desde o início do ano, a matéria-prima já marca uma queda de 23%.

A desvalorização do cobre é a mais citada quando se procuram sinais para o rumo da economia, mas a tendência negativa está a afetar as “commodities” em geral, desde outros metais, a produtos agrícolas e até na energia. Uma evolução que mostra os receios com a procura de matérias-primas num contexto de travagem pronunciada da atividade económica global.

No segundo trimestre, os metais industriais sofreram a desvalorização mais acentuada desde a crise financeira de 2008, marcada por uma recessão profunda na economia global. O S&P GSCI Industrial Metals desce 29% desde o fim do primeiro trimestre, acumulando já uma queda superior a 16% em 2022. Além da desvalorização do cobre, também o alumínio e o zinco registam quedas acentuadas nos últimos meses.

Nas matérias-primas agrícolas a tendência descendente também é evidente nas últimas semanas, numa forte correção face aos máximos que foram registados após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, que reduziram a oferta por parte destes países que estão entre os maiores produtores mundiais de cereais. O S&P GSCI Agriculture recua 19% desde o início do segundo trimestre e já acumula perdas este ano.

Até o petróleo, apesar dos fortes constrangimentos do lado da oferta, registou uma forte correção nas últimas sessões, levando o Brent em Londres a atingir um mínimo de abril abaixo dos 100 dólares por barril. O S&P GSCI Energy já está em terreno negativo desde o final de março (-2%), acumulando ainda assim uma subida de 36% em 2022.

O índice S&P GSCI, que agrupa o desempenho de todas as matérias-primas, desvalorizou 8% desde o início do segundo trimestre. Uma evolução que denota as preocupações com uma desaceleração agressiva da economia, mas que, por outro lado, também alivia as pressões inflacionistas. Reduz o fardo sobre o aumento do custo de vida das famílias e pode levar os bancos centrais abrandar o ritmo de subida de juros. E assim atenuar o ritmo descendente da economia.

3 – A curva invertida

O mercado de obrigações dos Estados Unidos é o maior do mundo, onde o volume de transações é o mais elevado, sendo geralmente o que guia os investidores na alocação de ativos. É para as yields dos títulos de dívida soberana norte-americanos que os investidores olham para encontrar pistas sobre o rumo da inflação, das taxas de juro da Reserva Federal e também da economia.

Regra geral, as obrigações valorizam (e as yields descem) quando os investidores antecipam períodos de crescimento económico fraco ou recessão. E desvalorizam quando a economia está robusta. O atual momento do ciclo económico e dos mercados pode não ser o melhor para encontrar sinais no mercado de obrigações. Muitos analistas defendem que está distorcido por anos de política monetária ultra expansionista, com compras massivas de ativos pelos bancos centrais. Outros alegam que não vivemos períodos normais que permitam uma interpretação igual à do passado, pois a inflação em máximos de 40 anos está a obrigar os bancos centrais a apertar a política monetária quando se avizinha um período de desaceleração da economia.

A Fed está a combater a subida da inflação com uma política de rápida subida de juros que, confia ao banco central, vai resultar numa aterragem suave da economia (e não numa recessão). Nesse sentido, a instituição liderada por Jerome Powell tem desvalorizado os sinais do mercado de obrigações (“treasuries”). É que a curva das taxas de juro dos títulos de dívida soberana dos EUA deu o sinal de recessão em março, de novo em junho e também nos últimos dias.

Em circunstâncias normais, os investidores exigem uma taxa de juro mais elevada consoante mais longa for a maturidade da obrigação. O mesmo acontece num empréstimo normal, pois quanto mais longo for o prazo, maior o risco de incumprimento. Se o investidor pede uma remuneração mais alta para emprestar num prazo a dois anos do que a 10 anos, é sinal que vê um maior perigo no curto prazo.

É o que está a acontecer nas “treasuries”, com a yield dos títulos a dois anos de novo acima da rendibilidade dos títulos a 10 anos. Neste caso o sinal de perigo é uma recessão. A curva também já inverteu noutras maturidades, sendo que este movimento tem sido acompanhado nas últimas sessões por um alívio das yields, o que reforça os sinais de pessimismo com a evolução da economia.

Desde 2019 que a curva de rendimentos das obrigações dos EUA não invertia. Em 2020 surgiu a recessão na economia norte-americana. É obvio que o mercado não antecipou a pandemia e os seus efeitos devastadores na atividade económica. Contudo, em todas as recessões na economia norte-americana desde 1995 a curva inverteu sempre nos seis a 24 meses anteriores. A conclusão consta de um estudo publicado pela Fed de San Francisco em 2018, que dá conta que só por uma vez a inversão da curva deu um falso alarme.

Um outro estudo, elaborado pela Commonwealth Financial Network e citado pela Reuters, indica que a curva inverteu 28 vezes desde 1900, sendo que em 22 vezes surgiu uma recessão pouco depois. As últimas seis recessões nos EUA iniciaram entre seis a 36 meses depois de uma inversão na curva das taxas de juro.


Tendo em conta estes dados, não admira que os momentos em que as yields dos títulos de curto prazo ficam acima dos de longo prazo sejam marcados por períodos de forte turbulência nos mercados. Ainda assim, os padrões nos mercados nem sempre se repetem e também é importante salientar que no mercado de obrigações europeu a curva está muito longe de se inverter. As obrigações soberanas da Alemanha negoceiam com uma yield em torno de 0,5%, bem distante da taxa de 1,3% dos títulos a 10 anos.

4 – A bolsa e a economia de mãos dadas

Depois das matérias-primas e das obrigações, também é importante olhar para as ações. Ainda que neste mercado os sinais sejam menos robustos para prever o rumo da economia. Desde logo porque, cada vez mais, as bolsas não são um bom espelho da atividade económica. Há inúmeros estudos que mostram a desconexão entre Wall Street e Main Street, ou seja, entre a evolução dos mercados e da economia real. Basta olhar para o peso que uma empresa como a Apple tem no índice S&P500 e a importância bem mais residual que tem na economia. Ou para a composição do índice PSI e perceber como está desfasada da realidade da economia portuguesa.

Dito isto, e focando análise na bolsa norte-americana, também as ações estão a mostrar um sinal de alerta para a economia norte-americana. Sendo evidente que nem sempre as bolsas e o PIB andam de mãos dadas, os dados históricos mostram que nos 14 “bear markets” do S&P500 desde a II Guerra Mundial, nove deles coincidiram com períodos de recessão na maior economia do mundo.

A eficácia do S&P50O está longe dos atributos do cobre ou das “treasuries” para prever recessões, mas é mais um sinal que não deve ser ignorado. O índice norte-americano entrou em “bear market” no mês passado e fechou o primeiro semestre com uma queda acumulada de 21%, o que representou o pior desempenho desde 1970. Com os alertas de recessão a intensificarem-se, o rumo dos mercados acionistas nas últimas sessões tem sido sobretudo dominado pelas preocupações com a forte travagem da economia.

Os analistas estimam que se a economia norte-americana confirmar uma recessão, fica aberto o caminho para quedas adicionais em Wall Street. Contudo, o S&P500 regista uma valorização média de 1% durante o período em que a economia norte-americana esteve em recessão (desde 1945). Um desempenho que valida a tese de desconexão entre as bolsas e a economia real e mostra que os mercados refletem sobretudo as expectativas para o próximo ciclo económico.

5 – Imobiliário (ainda) resiste

De todos os sinais analisados em detalhe neste artigo, este é o que mais dúvidas levanta, devido às indicações pouco consistentes de travagem forte. O imobiliário é, habitualmente, o setor que mais se assemelha ao canário na mina de carvão. Logo aos primeiros sinais de debilidade económica, as famílias compram menos casas, o que pressiona em baixa os preços e nova oferta no mercado.

Os preços das casas vendidas nos Estados Unidos atingiram em abril um novo recorde, mais de 20% acima do registado no mesmo mês do ano passado, o que representa o crescimento homólogo mais alto de sempre. Contudo, existem indicadores avançados que mostram uma tendência de inversão no “boom” que se vive naquele que é um dos mercados imobiliários mais dinâmicos do mundo.


Um relatório da Redfin dá conta que os preços a que as casas novas estão a ser colocadas à venda desceram 1,5% em junho e que está a aumentar a frequência de revisões em baixa dos preços por parte das agências imobiliárias. Esta tendência reflete a redução da procura, evidente nas pesquisas no Google, bem como na descida de pedidos de crédito à habitação (-24%), numa altura em que a taxa média nos contratos a 30 anos está acima dos 5% e em máximos de 2008. Além disso, as vendas de casas pendentes baixaram 13%, maior queda desde maio de 2020.

No Reino Unido, os preços das casas também estão em níveis recorde, mas é já evidente uma redução das vendas. No Canadá, um dos mercados mais aquecidos do mundo, os preços já estão a cair, refletindo uma descida acentuada nas vendas. Em Toronto as vendas desceram 41% em junho e os preços das casas baixaram pelo quarto mês.

A Bloomberg publicou recentemente uma análise sobre o mercado imobiliário, onde dava conta dos alertas de preocupação nos países onde os sinais de bolha são mais evidentes. Além dos EUA e Canadá, mencionava também a Nova Zelândia e Austrália, colocando Portugal no lote dos países europeus mais arriscados.


Os últimos dados do Eurostat mostram que os preços das casas na Zona Euro dispararam 9,8% no primeiro trimestre, no maior aumento homólogo desde 2005. Em Portugal os preços subiram 12,9%. Olhando somente para os preços a que as casas estão a ser vendidas, é impossível detetar sinais de recessão. Ainda assim, os analistas consideram ser inevitável um arrefecimento neste mercado a nível global, sobretudo devido ao impacto da subida das taxas de juro, que vão restringir o acesso de muitas famílias ao crédito para comprar casa. Sobretudo num contexto de aumento do custo de vida devido à escalada da inflação.

Vários sinais positivos

Os alertas de recessão por parte de economistas têm-se intensificado nas últimas semanas. Recorrendo a uma bateria de indicadores das mais diversas áreas, os bancos de investimento estão a atribuir probabilidades cada vez mais crescentes de recessão em diversas geografias e a nível global.


Ao mesmo tempo, muitos economistas continuam convictos que o mundo escapará a um movimento de contração, citando uma série de fatores. Os indicadores de consumo continuam saudáveis, sustentados pela situação financeira robusta das famílias, que acumularam poupanças recorde durante a pandemia. Uma almofada que é vista como fundamental para enfrentar o atual aumento do custo de vida, que pode ser mais ou menos duradouro.

Também as empresas (e sobretudo os bancos) registam uma situação financeira bem mais resiliente do que em recessões anteriores, como as que aconteceram na crise financeira (2008) e na crise de dívida (primeiros anos da década passada). Os PMI, que são um dos indicadores avançados preferidos dos investidores, estão a recuar a nível global, mas sem apontar para uma recessão.

O mercado de trabalho também é um relevante barómetro da saúde da economia e os indicadores mais recentes continuam a apontar para uma situação bastante favorável. A taxa de desemprego na Zona Euro atingiu um novo mínimo histórico em maio e os Estados Unidos continuam a criar centenas de milhares de postos de trabalho todos os meses. Em junho foram quase 400 mil, o que é pouco consistente com uma recessão iminente, embora vários economistas tenham encontrado sinais de debilidade no relatório publicado na sexta-feira, sobretudo na redução do número de trabalhadores.

Na visão dos otimistas há ainda espaço para a China. A segunda maior economia do mundo vive uma crise no imobiliário e a atividade travou fortemente na primeira metade do ano, devido à política de covid-zero, mas o país regista uma inflação contida e Pequim pretende acelerar os estímulos monetários e orçamentais. Uma política em contraciclo com o resto do mundo e que pode amortecer o abrandamento da economia global.

Nos Estados Unidos as recessões são decretadas oficialmente pelo National Bureau of Economic Research (NBER), muitas vezes um considerável tempo depois de já terem iniciado. Em termos gerais, está convencionado que uma economia está em recessão técnica quando o PIB regista uma contração em cadeia (contra o período anterior) durante dois trimestres consecutivos.

Alertas pouco convencionais

Além dos indicadores mais evidentes para procurar sinais de recessão, muitos economistas olham para formas nada convencionais de detetar os “canários da mina de carvão”.

Alan Greenspan, que liderou a Reserva Federal durante 19 anos, estava atento às vendas de roupa interior masculina, considerando que este era dos últimos bens que os homens deixavam de comprar em alturas de aperto financeiro.

O economista Andrew Lawrence criou o “skyscraper index”, que sugeria que a construção de um elevado número de arranha-céus era um prenúncio de recessão. Há ainda o “lipstick index”, cunhado pelo presidente da Estee Lauder, que notou uma subida considerável na venda de cosméticos (sobretudo batons) durante a recessão de 2000. Esta teoria tem por base a ideia de que, em tempos de menor rendimento disponível, as mulheres substituem as compras de artigos como malas e sapatos por bens mais baratos.

Mais fácil do que acompanhar as vendas de artigos como batons ou cuecas, o melhor é mesmo seguir de perto a evolução dos mercados e indicadores económicos avançados para perceber para onde caminha a economia mundial. Se todos continuarem a confluir no sentido negativo, é mais provável que venha aí uma recessão.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Como a venda desenfreada de casas nos EUA levou a crise global


A primeira década do século 21 foi em grande medida escrita nos Estados Unidos. Começou com uma grave crise geopolítica, no coração de Nova York – o 11 de Setembro –, e terminou com uma grave crise econômica, também ambientada em Nova York, no centro financeiro de Wall Street. 

Neste vídeo, parte da nossa série "21 notícias que marcaram o século 21, Camilla Veras Mota conta a história da crise financeira iniciada em 2007, causada pela perda de valor de ativos imobiliários e nascida da concessão de crédito fácil para a compra de imóveis. 

O terremoto econômico carregou a Europa, se alastrou pelo mundo e provocou uma recessão global no ano de 2009. Levou à nacionalização de bancos, derrubou governos, gerou taxas de desemprego altíssimas e causou várias ondas de protestos, muitos deles violentos. Para muitos, a maior recessão desde a década de 1930 representava a falência do modelo de capitalismo financeiro predominante a partir dos anos 1980. 

O resultado da crise, no entanto, fez com que nações inteiras pagassem pelas perdas econômicas causadas pela má gestão do sistema. Diante da sensação de que sociedades arcaram com o custo das ações de uma elite econômica, muitos atribuem à crise o surgimento de movimentos populistas, de esquerda e de direita, anos mais tarde.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Decrescimento sustentável: o grande desafio ecológico do futuro


Nicholas Fitzpatrick chegou a Portugal para viver e estudar no dia 27 de agosto de 2020. Demorou sessenta horas de autocarro. Nick, como gosta de ser chamado, partiu de Estocolmo, na Suécia, onde trabalhava e concluiu o mestrado em Geologia, com especialização em gelo e clima. Passou pela Dinamarca, pela Alemanha, por França e por Espanha até chegar ao terminal de autocarros da gare do Oriente, em Lisboa. Estavam 26 graus.

Viajar devagar e com a menor pegada ecológica possível é o princípio de honra deste estudante de doutoramento do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (CENSE), na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA). Nick anda à procura de formas colaborativas de colocar em prática o decrescimento sustentável. A ideia principal dessa perspetiva transdisciplinar – que hoje se assume, também, como um movimento social – é desacelerar o impacto humano no ecossistema com práticas mais sustentáveis, mais justas socialmente e, por isso, ecológicas de forma abrangente.

“Decrescimento não é recessão”, diz Nick. “Tem a ver com equidade social e sustentabilidade ecológica”. Ele hesita numa definição do conceito, pela “natureza complexa e abrangente do termo”, relacionado com várias disciplinas, como Ecologia Política e Justiça Ambiental

Já em 2016 Nick demorara nove dias a chegar a Hong Kong a partir de Estocolmo. Foi de barco até São Petersburgo (Rússia), onde apanhou o comboio até Moscovo. Mudou de viatura para atravessar a Mongólia até Pequim (China), onde trocou de comboio rumo ao destino final. Foram 210 horas. Agora, este aspirante a economista ecológico de 25 anos anda a planear a viagem para ir ao casamento da irmã, dois anos mais nova, na Austrália, “ou 2022 ou em 2023”. Vai depender da situação pandémica. “Vou de comboio desde Lisboa até um porto em Itália. Apanho um barco que vai até ao Egito, de onde sigo até à Ilha da Reunião [oceano Índico] e dali até à Austrália.”

Nick é natural de Young, uma cidade com cerca de sete mil habitantes, conhecida pela colheita da cereja, quatrocentos quilómetros a oeste de Sydney. É lá que vive a família. O pai trabalha na indústria agrícola, a mãe é secretária. Não os vê desde 2018. Vai demorar 28 dias nessa odisseia. “De Lisboa até à Austrália de avião gastaria aproximadamente cinco toneladas de emissões de dióxido de carbono, para cada lado. De barco, ida e volta são 500kg, dez vezes menos”, assegura, referindo-se ao impacto poluidor da viagem aérea.

As elites há muito se esquivam desses detalhes, que se dizem mais sustentáveis: podem comer menos carne, mas se voarem muito não são de todo sustentáveis.”

Há pelo menos três anos que Nick, estudante no Programa Doutoral em Ambiente e Sustentabilidade da FCT NOVA, escolheu não viajar de avião. “Da perspetiva do Norte Global, de forma a alcançar os objetivos, precisamos de uma transformação pessoal e coletiva, para pressionar os decisores políticos desde o terreno. Por isso é importante refletir nas nossas próprias ações e essa é a razão pela qual eu faço o que faço.” O mais recente membro do conselho da European Society for Ecological Economics inspirou-se no cientista climático britânico Kevin Anderson, que não voa há quase duas décadas.

Nos próximos três anos, o CENSE, na Costa da Caparica, será a casa de trabalho deste doutorando, repensando formas colaborativas de decrescimento. IDEATE – Imagining DeGrowth Trajectories é o nome do projeto, com uma bolsa de doutoramento INPhINIT da Fundação “la Caixa” [ver texto no final]. E como vai chegar aos resultados? “A partir da ideação de diálogo e a interação direta entre as pessoas, projetos de sustentabilidade, académicos, decisores políticos, de forma a encontrar soluções sustentáveis e centradas nos problemas locais.”

As conversas e as interações desses encontros reservados serão o foco de análise investigativa, de maneira a compreender como se pode chegar a novas formas de colaboração. “Há três resultados em mente: por um lado, sistematizar conhecimento abrangente das várias propostas que existem [sobre decrescimento sustentável], por outro compreender o que os cidadãos e decisores políticos querem e, depois, como as políticas interagem num plano de transição, de forma a alcançar equidade social e sustentabilidade”. O foco é a co-criação, de maneira a “aumentar a participação política da sociedade e construir políticas comuns”.

O cientista social vai dar seguimento à tese de doutoramento sobre decrescimento e ações de sustentabilidade defendida em 2019 pela sua orientadora Inês Cosme. Os dois conheceram-se por videochamada, quando Fitzpatrick, ao saber que tinha sido contemplado com a bolsa de doutoramento, selecionou o CENSE da lista de instituições. Juntaram interesses comuns, ativaram sinergias e começou uma grande mudança. Nick transitou das Ciências Naturais, “duras”, com metodologias quantitativas, “para uma perspetiva interdisciplinar entre Ciências do Ambiente e Ciências Sociais, na linha das Ciências da Sustentabilidade”, abraçando metodologias mistas, com ênfase nas qualitativas.

“O decrescimento é uma área nesse campo que tem vindo a ganhar importância nos últimos anos, uma vez que o crescimento económico não está a fazer o que promete”, diz Inês Cosme, que se junta à conversa por videochamada. “Não está a enfrentar o crescimento da desigualdade, por exemplo, e está a colocar-nos numa enorme crise climática, além da extinção de espécies, e uma acentuada perda de biodiversidade”, acrescenta a orientadora do investigador australiano. “É um problema para humanos e não humanos e natureza”.

Fitzpatrick fala rápido, contundente, e arregala os olhos quando fala de carros. Sempre teve uma grande paixão por eles, mas não está nos planos comprar nenhum. Na cidade, anda a pé, de bicicleta, ou de transportes públicos. Quando era pequeno, queria ser “filantropo”. A professora de Matemática disse-lhe que era “maluco”, porque “precisava de muito dinheiro”. Ele discordou, garantindo-lhe que “há outras formas de fazer filantropia”. Atualmente, faz também parte de uma cooperativa alimentar em Lisboa, chamada Rizoma. Além disso, uniu-se a Inês Cosme na Rede para o Decrescimento, que junta ativistas e organizações preocupadas em pensar o decrescimento.

O futuro economista ecológico enfatiza que o decrescimento advoga por transformações sócio-económicas e sócio-culturais, de forma a garantir o menor impacto possível, dentro dos limites dos recursos ecológicos. Por isso, em uníssono com Inês Cosme, faz questão de desfazer equívocos a alas mais críticas. “Decrescimento não é recessão” e “não se propõe a acabar com a economia”. Em vez disso, “tem a ver com equidade social e sustentabilidade ecológica”. Ele hesita numa definição do conceito, pela “natureza complexa e abrangente do termo”, relacionado com várias disciplinas, como Ecologia Política e Justiça Ambiental. Acaba por realçar a designação mais consensual.

O decrescimento sustentável é definido como uma redução equitativa da produção e do consumo que aumenta o bem-estar humano e melhora as condições ecológicas em nível local e global, a curto e longo prazo”, diz o investigador. A premissa é que crescimento económico não é sustentável e que o progresso humano sem crescimento económico é possível.

Fitzpatrick tem uma licenciatura em Ciências do Ambiente pelas Universidades de Wollongong, na Austrália, e Uppsala, na Suécia. Desde cedo tinha o sonho de viver na Europa e mostrar aos pais que o sacrifício familiar na educação dos filhos tinha valido a pena. Por isso é tão focado aos 25 anos, levando na bagagem já uma vasta experiência. Chegou a este caminho atual ao observar o que estava a acontecer ao planeta, relacionando-o com a sua experiência em “processos de sistema da terra, investigação em governança ambiental, educação para o desenvolvimento sustentável, caminhos de descarbonização, finanças climáticas, orçamentos de carbono e economia pós-crescimento”. Trabalhou no Swedish Institute of International Affairs, no Stockholm Environment Institute, no Centre for Environment and Development Studies (CEMUS) na Universidade de Uppsala e já foi conselheiro de projeto da ONG canadiana Youth Climate Lab. E é o mais recente membro da European Society for Ecological Economics

“Para viver o decrescimento em diferentes contextos há cinco aspectos-chave a ter em conta: repensar a sociedade, agir politicamente, criar alternativas, procurar conexões e transformação pessoal nesse sentido.” É um processo que tem de ser adaptado às realidades locais, mas que contribui de forma abrangente. Para que tal aconteça, defende, é necessário encontrar novas formas de pensar e agir.

É por isso que a tese de doutoramento, agora iniciada, não coloca hipóteses no desenho investigativo, mas alimenta-se da abertura ao novo. Ao utilizar o método de pesquisa ação-participação, partindo da análise das conversas que irão emergir desses encontros, procura novos conhecimentos.

Nos próximos três anos, a partir do CENSE, na Costa da Caparica, na margem sul do Tejo, Nick irá organizar encontros reservados a autores de projetos de sustentabilidade, académicos e decisores políticos, de forma a encontrar soluções sustentáveis e centradas nos problemas locais

“O decrescimento é uma transformação cultural tão profunda que é mais complexo do que um simples manual de instruções”, acautela. Aliás, é precisamente pelo facto de, desde 1972, a partir do relatório The Limits to Growth, a maioria das abordagens sobre decrescimento se ter baseado num caminho mais “teórico” e “até radical” que esta pesquisa é inovadora.

Inês e Nick estão a propor “reimaginar o futuro”. “Estamos a desenhar estes processos de diálogo, nos quais temos de garantir que as vozes são ouvidas, mais ou menos de forma igual, e que possamos ter alguns passos que guiam as pessoas em resultados construtivos”, explica Nick. “Esse é o nosso trabalho enquanto académicos e facilitadores neste processo. E depois vamos ver o que resulta destes diálogos.”

O investigador do CENSE considera que os negócios, as iniciativas sustentáveis, os decisores políticos e as políticas estão distantes e muito fechadas entre si. “O objetivo do IDEATE é construir conexões entre esses atores, uma vez que as atuais políticas reproduzem o sistema e nós procuramos uma transição”, nota. Reconhece, no entanto, que é uma transição “complexa” e “radical”. Só que é também por isso que ele quer dar os primeiros passos no sentido dessa transição para o decrescimento. “E isso já é um passo em frente.”

Este artigo faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação “la Caixa” e o BPI. Nicholas Fitzpatrick, atualmente a desenvolver trabalho no Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da FCT da Universidade Nova de Lisboa, foi um dos 65 selecionados (11 em Portugal) – entre 1078 candidaturas – para financiamento pela fundação sediada em Barcelona, ao abrigo da edição de 2020 do programa de bolsas de doutoramento INPhINIT. O investigador recebeu 115 mil euros para desenvolver o projeto IDEATE – Imagining DEgrowth trAjecToriEs ao longo de três anos. As candidaturas para a edição de 2021 encerram a 25 de fevereiro.